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sábado, 23 de fevereiro de 2019

"Uma História Antiga - Nova Versão" de Jonathan Littell

Não acabei de ler, nem recomendo esta história que dizem ser um romance e escrita por Jonathan Littell. Americano que escreve em francês e vive em Espanha.
Conheci este escritor de uma das obras mais marcantes que li nos últimos 20 anos "As Benevolentes", cuja leitura foi anterior a este blogue com textos sobre livros e por isso não consta de Geocrusoe. Apesar de "As Benevolentes ser uma obra negra com algumas cenas chocantes do holocausto judeu, de batalhas na II Grande Guerra e ainda, poucas, descrições rápidas de sexo homossexual, é um romance excecional sobre a sobrevivência de uma personagem alemã perversa em plena guerra que gostei muito pela escrita e pela estória, apesar de muito longo, mais de 1000 páginas em letra miúda.
Infelizmente, ao ver após vários anos um novo romance de Littell e apesar de no verso da capa falar de a obra vir na linha de Sade, decidi comprar de imediato, mas confesso que não estava à espera de encontrar um romance pornográfico disfarçado de obra de arte, pois para mim é isso o livro.
Uma personagem, como que a sonhar, sai no início de cada capítulo de uma piscina e entra num corredor escuro que dá para uma série de 4 ou 5 quartos, sendo que em cada nesta série ele ora é um homem marido e pai, um cliente de prostituta, um homossexual debochado, um prostituto, ora no seguinte é mulher esposa e mãe, prostituta, talvez lésbica e assim ao longo de sete capítulos vão-se repetindo com variantes os mesmos enquadramentos e sequências dos capítulos anteriores terminando cada um com um quarto que dá para um ambiente de guerra violenta. Apenas concluí a leitura até ao segundo, mas folheando conclui que o esquema seria sempre o mesmo até ao fim... desisti!
Confesso, gostei do estilo de escrita... a descrição do evoluir do percurso do protagonista "mutante" de personalidade e género, onde tudo parece um sonho é interessante, mas a história mais não é que uma simples série de cenas de sexo explícito com variantes entre os diferentes capítulos, o que dá para descrever todos os estilos e preferências de atos sexuais e não é pela boa prosa e referências a Mozart que para mim isto se torna numa obra de arte, fui enganado por não ter sido cauteloso e comprei uma obra pornográfica pretensiosa disfarçada de literatura.
Cada um é livre de ler o que quer, não sou censor... inclusive deste livro, mas se ler este post já não sai enganado do que vai encontrar nas várias centenas de páginas que o compõe como eu fui. 

sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Conflito Interno" de Kamila Shamsie


Excerto
" "Mais medidas draconianas!", proclamara um dos adversários de esquerda; "um novo ataque aos verdadeiros ingleses e inglesas, desferido pela população migrante da Grã Bretanha", declarara outro, pertencente à extrema-direita. Era provável que ambas as fações bebessem café de canecas térmicas."

Kamila Shamsie, natural do Paquistão, já escreveu um romance que para mim foi o melhor que li no ano 2015: "Sombras Queimadas", voltou depois a escrever este grande livro "Conflito Interno", "Home Fire" no original, que foi nomeado para o Man Booker Prize de 2017, que evidencia a capacidade desta escritora em falar das feridas, sombras de dor psicológica e física naqueles que circulam em torno dos apanhados nos grandes conflitos civilizacionais e bélicos da humanidade ao longo do último século.
Isma, filha de uma família britânica de origem paquistanesa em Londres, cujo pai foi guerrilheiro pela causa islâmica no final do século XX e morto como terrorista pelos americanos, consegue partir para os Estados Unidos para estudar, lá onde encontra Eamonn, o filho do ministro inglês da Administração Interna com igual origem e tornam-se amigos. Ele volta à Inglaterra com interesse em conhecer a irmã dela mais nova: Aneeka, sem saber que um gémeo dela se tornara num guerrilheiro talibã no oriente. Os dois jovens apaixonam-se, mas ela irá aproveitar a relação familiar dele para libertar o irmão do extremismo para o qual ele fugira em busca de um princípio muito diferente do que lá encontrara. Tudo isto há de explodir nas mãos do Ministro Karamat quando Parvaiz arrependido quer regressar a casa e a sociedade e explora tudo: o racismo, a incompreensão, os choques culturais e a ambição de quem quer ainda vir a liderar o partido e ser o exemplo para todos  imigrantes islâmicos, rompendo à força todos os fios desta teia. 
O livro tem cinco capítulos, cada um deles em torno de uma destas cinco personagens diferentes, mas embrulhadas no mesmo problema que fere profundamente a sociedade atual, não só inglesa, cristã e muçulmana e desembocará numa tensão extrema, onde todos os aproveitamentos do sistema civilizacional contemporâneo são evidenciados e desembocam num final extremo ao nível de um clássico das grandes tragédias de teatro ou da ópera.
Gostei muito, mas mais ainda da anterior obra, por ser mais global e ter uma personagem que é um farol estoico no seio de tantas tempestades que a fustigaram, enquanto agora tudo parece vir a afundar-se até ao climax final, mas é um livro que, além de fácil leitura, deveria ser lido por todos para ajudar a compreender alguns dos desafios de enfrentar os problemas mais complexos da atualidade e vistos de vários prismas, numa narrativa estilisticamente bem escrita.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

"Mistérios" de Knut Hamsun


"Mistérios" do noruguês Knut Hamsun, vencedor do prémio Nobel da literatura, apesar de publicado no final do século XIX parece uma obra muito mais recente pelo estilo de escrita, estrutura das personagens e trama. É um romance de uma modernidade que pode mesmo ter feito evoluir a história da literatura desde então, apesar de fácil leitura é incómodo, pois lança questões sobre como vivemos em sociedade, como somos, só que não nos descansa com respostas.
Nagel decide de repente desembarcar numa pequena cidade costeira de fiorde que o impressionou durante a estação de verão caracterizado por períodos de dias longuíssimos ou as populares noites brancas. Instala-se então num hotel e aos poucos vai conhecendo as pessoas daquela comunidade, sobretudo com o auxílio de um pobre inválido de um acidente profissional que é usado e abusado pela população em geral e chamado de Anão.
Aos poucos vão-se revelando as fragilidades e os defeitos pessoais mesquinhos de vários habitantes, bem como comportamentos estranhos, enquanto Nagel, propositadamente, vai dando uma imagem dúbia e contraditória de si mesmo e contando pormenores fantásticos e góticos da sua vida perturbando toda a população e semeando a desconfiança em cada um por sentirem ameaçados os seus segredos. Depois desta semente de discórdia ele próprio decide sair de cena, deixando-nos igualmente sem compreender esta forte personagem enigmática e cheia de mistério e sem dúvida tornando-se num fantasma na memória da cidade.
Bem escrito, Hamsun num discurso de contraditórios vai fazendo uma denúncia de vícios estratégicos de alguns líderes políticos europeus de então e vai colocando a nu a fragilidade humana no relacionamento social, onde reina uma hipocrisia pública perante defeitos privados que de todos são conhecidos, mas que as obrigações de bom relacionamento impõem e condicionam a sociedade, que podem tacitamente servirem de arma de arremesso sem ser efetivamente usados.
Deverá ter sido a originalidade de Hamun em desenvolver narrativas como estas que deve ter servido de justificação ao Nobel, pois olhando para a literatura da época é uma obra muito à frente do seu tempo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

"O espião que saiu do frio" de John le Carré


Excertos
"Que julgas tu que os espiões são? Sacerdotes, santos e mártires? São um deplorável cortejo  de tolos vaidosos, e também traidores, sim;"
"Não podemos construir o comunismo sem acabar com o individualismo."

Uma obra com mais de 50 anos, e considerada um clássico no seu género e talvez o romance de espionagem mais famoso da história, "O Espião que saiu do frio", do inglês John le Carré, o grande mestre no estilo e ele próprio um ex-expião, narra um conflito sangrento no jogo da obtenção de informações secretas entre os dois lados do muro de Berlim nas décadas de 1950-60.
Leamas dirige a célula de espionagem da Inglaterra em Berlim Ocidental, onde possui uma rede de agentes do outro lado, só que uma mudança de liderança a leste leva à morte em série dos seus informadores e à destruição da sua célula. No regresso a casa é desafiado a abandonar os serviços, a se humilhar publicamente para ficar desacreditado e ser assediado pelos seus adversários, para deste modo poder deslocar-se à Alemanha Oriental e proceder à sua vingança. Só que pelo meio surge uma relação amorosa e do outro lado o desenrolar do processo está cheio de surpresas, é que no jogo de traições e no uso dos seus agentes de forma enganosa nenhuma das partes se pode deixar atada por princípios e os logros vêm de quem está do nosso lado.
Um romance que além do suspense, junta reflexões sobre a ética no confronto entre o modelo de liberdade individual no ocidente e o da sobreposição dos interesses coletivos à pessoa então no oriente europeu, levados ao extremo no mundo secreto da espionagem no auge da guerra fria que discretamente foi sangrenta e cheia de traições.
Fácil leitura, escrita escorreita e um retrato de uma realidade discreta que ainda sobrevive no conflito diplomático e de interesses entre os Estados que raramente vem ao de cima. Gostei.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Contos de Clarice Lispector


Este livro contém 61 contos daquela que é uma das principais artífices da escrita em língua portuguesa de todos os escritores de expressão lusa no século XX: a brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia. Este conjunto tem contos de extensão variada e só não reúne os que foram publicados pela primeira vez sob o título de obra "Laços de Família", pelo que poderíamos dizer que é uma coletânea de quase todos os contos desta autora.
Os contos não são uniformes em termos de extensão: vão de apenas uma única página até próximo da trintena; as temáticas são diversas, desde questões sociais, infância, problemas da degeneração pela velhice e indo até aos desejos corporais mais básicos; e o estilo de escrita é diversificado, até porque entre os mais antigos e os mais recentes há um espaço temporal de mais de três décadas, contudo todos estão excelentemente escritos, uns numa linguagem linear simples, como "Viagem a Petrópolis", outros com monólogos interiores e fluxo da consciência com técnicas modernistas que requerem um certo esforço para a compreensão da narrativa "Seco estudo de cavalos". Também não posso dizer que gostei de todos igualmente, uns deram-me grande prazer de ler, outros não tanto e alguns até foi com sacrifício que concluí a sua leitura.
Nesta coletânea, os contos estão arrumados e sequenciados de acordo com os livros em que foram inicialmente publicados, ao todo cinco, sendo evidente que a harmonia dentro destes conjuntos é maior que o todo, mas o que mais destaco é a mestria do domínio da escrita e da língua, alguns textos serão morais, outros amorais e até alguns por vezes a roçar o imoral ou a expor os íntimos desejos de uma mulher como os que foram publicados em "A via crucis do corpo", talvez os mais fáceis mas que gostei menos.
Antes apenas lera o romance/novela "A paixão segundo G. H." que adorara, alguns contos retomam o estilo e as obsessões: baratas, cabelos ruivos, náuseas animais e deambulações em torno de pormenores. Esta leitura serviu sobretudo para admirar a genialidade da escrita.

sábado, 19 de janeiro de 2019

"O Agente Secreto" de Joseph Conrad



Excertos
"é provável que, à sua maneira, os revolucionários mais ardentes nada mais façam do que procurarem a paz em comum com o resto da humanidade"

"A loucura e o desespero são uma força."

Uma citação deste livro numa leitura recente despertou-me interesse na obra, já que o polaco, naturalizado inglês, e um dos expoentes literários britânicos do início do século XX Joseph Conrad, que está entre os escritores que venero, sobretudo devido à sua abordagem profunda aos dilemas de consciência e ação na pessoa humana, tão bem representado em "O coração das trevas" capacidade que até foi depois transposta para uma magnífica obra cinematográfica, passada num ambiente e época bem diferente por Francis Ford Coppola no filme Apocalipse Now.
No livro "O Agente Secreto" da imagem é referido na contracapa como policial, mas é muito mais do que um romance deste género. Tem polícias, tem terroristas e teias de espionagem, mas é sobretudo uma história onde se aborda piscologicamente os dilemas, os vícios destes grupos de atividade, eventuais convicções e os seus frequentes receios, numa história onde o mais evidente são diálogos equívocos magistralmente construídos entre as personagens que misturam: catástrofe, crime, medo, solidão e busca de paz interior - o que logicamente não é possível neste tipo de intriga politica e ideológica. Mais importante do que a saída do confronto entre espiões e policias, a obra salienta o que cada um sente e pensa à medida que a ação, fiasco terrorista e investigação vai avançando. As personagens não são ocas obsessivas por a descoberta do mistério, são seres humanos densos, com sonhos, ideias do mundo e do outro que tentam sobreviver no seu trabalho nem sempre legal.
A estória conta como o Sr. Verloc - um quarentão, calado, calmo e casado com uma mulher bem mais nova que tem um irmão talvez autista, sendo estes dois filhos da anfitriã de quem ele fora hóspede e agora todos membros do seu agregado familiar - possui uma vida de dupla de espião a um serviço estrangeiro e está ligado a movimentos anárquicos e socialistas. Os rendimentos de Verloc são disfarçados com uma loja de produtos de cariz erótico e ainda dando informações à polícia. Tudo corria bem até que uma mudança na embaixada altera a estratégia e o obriga a fazer um atentado em Greenwich para culpar o movimento anarquista e levar o governo de Londres a rejeitar o acolhimento de refugiados ligadas a esta ideologia.
Verloc não tem estofo para a empreitada, mas a necessidade de manter a família leva-o a concretizar o ato que acaba num fiasco e tragédia que arrastará cunhado, mulher e as boas relações com o polícia, um herói reconhecido cujos hábitos estão em confronto com o seu novo chefe que não se deixa levar no logro se estar perante terrorismo de anarquistas, o que levaria a Inglaterra a perseguir inocentes ex-criminosos do seu círculo social que o detetive quer culpar.
Desencontros de mentalidades e equívocos de como pensa o outro levam a imprevistos, cujo leitor reconhece serem fruto dos erros de análise psicológica dos personagens.
O estilo de escrita é de grande qualidade literária, muitas vezes ausente em obras policiais, e colocado ao serviço da descoberta do interior das pessoas, criando um romance de grande envolvimento analítico que é uma obra-prima por conjugar o policial, a reflexão e a boa literatura. Gostei muito.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"2084 O Fim do Mundo" de Boulalem Sansal


Excertos
"correr em direção à queda é uma inclinação muito humana."

" a vida do crente perfeito é uma continuidade ininterrupta de gestos e palavras que se repetem, sem que lhe reste qualquer espaço para sonhar, hesitar, refletir; descrer, eventualmente, crer, talvez."

"O escravo que se reconhece escravo será sempre mais livre do que o seu senhor, mesmo que este seja o rei do mundo."

Interessou-me de imediato o tema deste romance, uma visão distópica futura em resultado do aparecimento de uma idade das trevas devido à tomada do mundo por uma ditadura global religiosa, uma obra do argelino Boulalem Sansal. "2084 O Fim do Mundo" foi vencedor do prémio da academia francesa em 2015.
O título pretende deixar clara a relação com o romance "1984" já falado neste blogue, um novo alerta de que certos maus sinais do presente podem conduzir ao fim da liberdade e a um regime de poder absoluto, só que a via seguida para esta distopia não é a apresentada antes por Orwell, agora alicerça-se num fanatismo religioso e no risco de uma guerra santa global que termina numa nova idade das trevas e ao fim do mundo como o conhecemos agora.
Ati foi exilado para um sanatório distante por tuberculose, nesse mundo questiona o seu País, o Abistão, único no mundo, onde todos são submetidos a uma fé e às suas cláusulas sem possibilidade de duvidar devido ao risco de morte, mas há noticiadas e boatos de guerras contra infiéis inimigos que não poderiam existir num Estado global. A elite religiosa governa e vive num espaço fechado em condições muito diferentes das consideradas conformes para o Povo. Após a sua cura, no regresso encontra um arqueólogo que descobriu uma cidade de antes da conversão da humanidade e este dá-lhe a entender que a história pode ser muito diferente da narrada oficialmente. Apesar da semente da dúvida estar lançada, a sua reinserção do sistema obriga-o a seguir as regras, até que se cruza com Koa em quem encontra a mesma curiosidade e perguntas. Começa então uma nova caminhada onde vão descobrir guetos de infiéis que sobrevivem em conluio com a elite, servindo a fundamentos da luta e a interesses da classe alta, empreendem uma viagem à capital, a cidade santa, onde se cruzam com  líderes num mundo de luxo mas num conflito fraticida para conquista total do poder, conhecem alguém com nostalgia do século XX que poucos sabem ter existido, memórias de uma época com problemas mas em que havia liberdade e não apenas submissão a uma lei religiosa criada à medida dos interesses dos líderes... uma revolução está em curso e eles serão peças usadas neste xadrez de uma sociedade organizada para a submissão do Povo.
Apesar da contracapa falar da globalização do islamismo como mote da obra, não sei se por questões de segurança do escritor, a verdade é que a estória decorre no domínio de uma nova religião que não é nenhuma das grandes da Terra no presente, embora certas características indiciem qual lhe terá servido de raiz principal, veja-se a máxima "Não há outro deus senão Yölah e Abi é o seu Delegado", mas na obra é assumido que resultou do aproveitamento de oportunistas gananciosos de outra anterior com valores, podendo até argumentar-se que tal só terá ocorrido no futuro sem acusar qualquer líder religioso até hoje, mas a similitude com algumas ideologias e radicalismos do presente torna esta obra num alerta para o caminho que a humanidade pode estar a trilhar. Contudo penso que nenhuma grande religião se pode sentir isenta dos vícios perigosos apontados em 2084.
Os capítulos tem características diferentes ao longo do desenrolar da estória, o primeiro é sem dúvida mais filosófico com uma análise sobre o aproveitamento religioso como arma de submissão física do povo e da sua mente capaz de travar a liberdade de pensamento. A seguir vêm a tentativa de explicar o nascimento da nova civilização e as incoerências do seu modelo, depois a caminhada da descoberta até ao clímax, no final da ainda se levantam alguns aspetos que dão que pensar sobre as virtudes do presente que se podem irrefletidamente deitar fora.
As referência a 1984 são muitas não só no texto, mas também nalgumas situações da narrativa e citações, mas é uma obra totalmente diferente da de Orwell. Também tem alguns aspetos menos aprofundados, mas muito do seu valor está nas entrelinhas e na capacidade de nos deixarmo-nos surpreender com a imaginação de um autor que consegue falar dos perigos do fanatismo religioso, possivelmente defendendo uma sociedade agnóstica,  a partir de um país islâmico ao criar uma cultura de tal forma estilizada que não o tornou num alvo a abater pela sua liberdade de escrever um romance deste teor quando muitos outros foram vítimas de fatwas por blasfémia denunciando o mesmo que Sansal... só por isto vale a pena ler o livro, além de toda a reflexão contida no romance. Talvez isto também justifique o prémio literário alcançado e sem gerar polémicas religiosas, numa obra que é de fácil leitura e um alerta para que a humanidade abra os olhos aos sinais deste tempo.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

"Hamlet" William Shakespeare


Excertos
"Ser ou não ser, eis a questão:"
"...pois mais facilmente torna o poder da beleza a honestidade chula do que pode a honestidade fazer da beleza algo a si parecido."
"A loucura dos grandes não se pode descurar."

Após leitura da anterior obra que assumia similitudes intencionais com esta tragédia, reli novamente aquela que é uma das peças mais importantes de William Shakespeare "Hamlet", embora antes a tivesse lido em inglês, o que me obrigou a um grande esforço e a sensação de perda de pormenores. Agora reli-a em português, mas numa edição bilingue, cuja tradução procurou preservar, dentro do possível, o estilo de sintaxe original, a forma do verso e a antiguidade da estrutura, sendo viável confirmar este intento, descrito no fim do livro, comparando linha a linha os dois textos postos em páginas lado a lado.
Esta peça passa-se no palácio Elsinore na Dinamarca, onde o jovem príncipe Hamlet se vê confrontado, logo após a morte do rei seu pai, com o casamento de sua mãe rainha com o cunhado, só que o falecido aparece a pedir justiça, pois, contrariamente ao tornado público, fora morto pelo seu irmão que lhe tomara o trono e a mulher. Então o filho irá engendrar uma representação de teatro dentro da obra para desmascarar o crime, simulando loucura, que leva a perturbações que envolvem traições e o uso de servidores e nobres enganados e novas fidelidades ao poder. Assim, meio do assunto central, existem paixões em torno do príncipe, questões de lealdade e honra e peripécias nomeadamente de soberania com conflitos com a Noruega e acordos secretos com a Inglaterra que no conjunto desembocam em tragédia para quais todos as personagens.
A peça parece uma sucessão de quadros que vão montando as histórias de vingança, traição, paixão e reflexões sobre a vida, o amor, a honra, a fragilidade humana e a morte. Assim surgem importantes frases que se tornaram citações famosas desta obra, cuja leitura nem sempre é fácil pelo estilo, densidade e mesmo subtilezas escondidas, algumas vindas de conceitos da época não evidentes hoje.
Como obra e enredo está-se perante uma das maiores obras-primas da literatura mundial que vale o esforço que exige a sua leitura. Gostei muito, mesmo que por vezes tivesse de repetir a leitura de certas partes do texto para perceber convenientemente o seu conteúdo.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

"Numa casca de noz" de Ian McEwan - Bom Ano de 2019 com boas Leituras


Excertos
"O pessimismo é demasiado fácil, mesmo delicioso, é a insígnia e o penacho dos intelectuais de toda a parte. Dispensa as classes pensantes de encontrarem soluções."

"Pais e filhos. Ouvi isso uma vez, e não me vou esquecer. O que os une na natureza? Um instante de cio cego."

Outra obra pouco extensa, como é frequente nos romances do inglês Ian McEwan, "Numa casca de noz" é a narrativa feita pelo feto a partir do ventre materno da escuta do plano de sua mãe com o seu tio e amante para envenenarem o seu pai, da descrição da cena do ato criminoso, dos pormenores seguintes para fugirem à justiça e ainda intercalado com reflexões dos desejos futuros e da imaginação do mundo exterior feitas pelo nascituro dentro daquela casca de noz apertada, onde, apesar de tudo, mantém constante o seu amor filial.
A originalidade de dar voz a alguém antes de nascer sobre o que se passa no mundo exterior, onde ele já tem contacto com as injustiças sociais através do que ouve pelo corpo da mãe e a perceção dos problemas globais da atualidade dada as audições maternas, imaginando as características do mundo que desconhece e enquanto assiste impossibilitado à estratégia de se pôr termo à vida de um dos seus progenitores, tornam o trama já de si interessante, a que se associa uma escrita elegante e bem trabalhada, a que se junta uma crítica mordaz à sociedade e aos que estão mais próximos com um respeito contemplativo pelos pais e sem nunca desaparecer o humor na forma, o que torna o texto uma delícia. Gostei muito e recomendo.
Este terá sido o último livro concluído em 2018, pelo que aqui também vão os meus votos a todos os leitores de um feliz e próspero ano de 2019 e a recomendação de que cultivem o gosto pela leitura que permite sempre abrir mais horizontes de observação para o Mundo e a Humanidade.

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

House of Cards de Michael Dobbs


Excertos
"Quando as árvores são todas derrubadas, até um arbusto parece grande"
"É próprio da ambição exigir algumas baixas entre as tropas."
"Aqueles que desejam trepar ao cimo das árvores mais altas têm de aceitar as consequências que é verem expostas as suas partes mais vulneráveis."

Não vejo séries de televisão há vários anos, mas ouvi falar que House of Cards como uma forma de expor os bastidores negros da política, pelo que ao me cruzar com o livro que lhe serviu de base, ao descobrir que o seu autor era ele mesmo um político de carreira, vivendo precisamente na sombra  do poder, além de que o romance era do género de suspense político e estava em promoção, comprei de imediato este "House of Cards" do inglês e lord Michael Dobbs.
Ao contrário da série de TV, o livro original decorre em Londres e pouco tempo após Margaret Tatcher. Numas eleições o Primeiro-ministro (criado pelo autor) vence com uma maioria escassa e não segue o conselho de renovação do homem forte dos bastidores do seu partido: Francis Urquhart. Começa então um conjunto de fugas de informações que debilitam o executivo, há escândalos que envolvem a família do líder do governo, os mídia fazem o cerco manipulados por vários interesses. O leitor conhece os passos do autor das maldades e uma jornalista procura compreender o que se está a passar, no clímax da tensão surge demissão do Primeiro-ministro e a convocação de eleições internas, mas as chantagens e pressões levam a demissões dos candidatos e o o caminho vai-se abrindo a Francis, que tudo manipula sem escrúpulos.
Os estilo de escrita, embora não seja inovador, é bem trabalhado, cuidado, elegante e adequa-se ao género de suspense, tem a particularidade de quase todos os capítulos terem uma frase ou uma citação que torna concisa as manobras nele feitas a sangue-frio e alertas para os riscos que estão associados à carreira política, respetiva ambição e exposição pública. (os excertos são na maioria desses introitos)
Gostei do livro e da estória, que chama a atenção para o mundo escondido da política e mostra que numa época ainda sem as redes sociais da internet, hoje acusadas de fake-news criadas deliberadamente segundo interesses já era uma técnica praticada a coberto da eventual independência e ética dos meios de comunicação social levada a cabo pelos grupos editoriais das TV e jornais.
Um livro lúdico, sem pretensiosismos que se desenrola a um ritmo alucinante e mantém o leitor agarrado à estória, bem feito e com conhecimento de causa.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Feliz Natal a todos

Feliz celebração do Nascimento do Menino Jesus para todos os habituais visitantes deste blogue e suas Famílias que este período seja cheio de Amizade e do Amor que formam o coração do Natal.


Natal com livros é tão bom... só recebi 15 nestes dias.... ;-)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Babbitt" de Sinclair Lewis

Excertos
"A extraordinária, crescente e salutar estandardização das lojas, escritórios, ruas, hotéis, roupas e jornais através de todos os Estados Unidos mostra como o nosso modelo  de vida é forte e duradoiro."

"O cerne da sua religião era que era respeitável e benéfico para os negócios ser visto a frequentar a igreja; que a igreja impedia os elementos maus de se tornarem ainda piores..."

Terminei a leitura de "Babbitt" do norteamericano Sinclair Lewis, o primeiro escritor deste país a receber o prémio Nobel da literatura. Tanto a capa da imagem como a tradução não correspondem à da edição que li, pois o livro que comprei obtive-o num daqueles vendedores de obras usadas comuns em estações de transportes públicos em Lisboa e deduzo que o exemplar deve ter acompanhado uma coleção associada a um jornal ou revista com autorização da já extinta Difel.
Babbit é um agente imobiliário de sucesso, vive bem e acomodado à filosofia conservadora da ideologia capitalista dos EUA numa cidade imaginária (Zenith) de média dimensão, mas com problemas de choque de gerações em família devido a filhos mais progressistas e a uma mulher tradicional.
Babbit tem amigos e é membro das associações próximas do poder e neste meio envolve-se nos esquemas para os elementos pertencentes à classe dominante tirarem proveito das políticas públicas e opções estratégicas de gestão de Zenith. O seu grupo enfrenta a luta para erradicar a propagação de ideias mais igualitárias, reivindicações sindicais e teologias que defendam os mais fracos, ou seja, os considerados derrotados da sociedade por culpa prória, mas cujos sacrifícios e dificuldades servem de suporte aos senhores e seu bem-estar. Só que Babbit no seu coração tem ideais de justiça, simpatias por questões sociais e anseia por alguns prazeres, tentações que a seguir a sua vontade poderá ter de pagar muito caro face à pressão do meio que o cerca.
O romance tem uma evolução quase linear do dia a dia de Babbit e com isso faz um retrato, com um humor sarcástico e frio, do egoísmo e oportunismo da classe capitalista e dos empresários em ascensão na década de 1920 durante a lei seca. Insinua as estratégias dos dominadores para preservarem o seu comodismo, enriquecerem e esmagarem os argumentos de esquerda. Não se esquece de criticar as numerosas religiões criadas à medida dos interesses de grupo que proliferam no País e ainda é mordaz com as preocupações da moral puritana de então. É uma obra marcadamente de esquerda e agnóstica, embora estes dois mundos sejam denunciados pela hipocrisia dos ricos bem comportados, oportunamente "crentes" e de direita.
A escrita sem grandes artifícios de embelezamento é realista e ombreia com o tom de crítica irónica da sociedade que o autor quis retratar através dos ziguezagues, anseios e receios de Babbit e o romance vale sobretudo por essa caracterização e mordacidade das desumanidades do regime típico dos EUA. Um romance de fácil leitura que surpreende até à última página.

domingo, 9 de dezembro de 2018

"O Fio da Navalha" de Somerset Maugham


Excertos
"Eu não estava preparado para acreditar num Deus da sabedoria sem um pingo de bom senso."

"Quando um homem se torna puro e perfeito, a influência do seu caráter espalha-se para que aqueles que buscam a verdade sejam naturalmente atraídos para ele."

Terminei a leitura de "O fio da navalha" do inglês Somerset Maugham, uma história de contrastes de de opções de vida dos seus vários personagens que assim pelas diferenças de estilo levam o leitor a pensar sobre como a sociedade valoriza o fútil, que muitas vezes leva ao desespero, e despreza quem segue ideais mais elevados, como o sentido da vida e a busca de Deus numa vida sem as amarras ao dinheiro e fora das convenções do que é o sucesso social, mesmo que tal leve à paz de espírito e à felicidade.
O escritor narra como um seu amigo americano, Elliot, - que vai sendo dado a conhecer na obra, residente em Paris e cujo sonho é a integração na alta-aristocracia em plena belle époque que comercializa obras de arte com os seus conterrâneos tirando dai grandes lucros - lhe apresentou Larry: um ex-aviador do Ilinois que após a 1.ª grande guerra entrou na busca do sentido da vida e da essência de Deus na sequência de ter visto a morte de um amigo que ele lhe salvou a vida em combate.
Maugham, que é também uma personagem neste romance, apresenta-nos o círculo próximo de Elliot, que inclui a sua sobrinha noiva do ex-piloto e demasiado apaixonada por ele, cujos ideais de vida são a riqueza e o brilho social americano, e também gente cuja meta é igual ao dela. Só que na trama ainda há artistas, prostitutas, desesperados com os azares da vida, personalidades da igreja e outros ligados à sabedoria e religiões orientais, numa panóplia que se cruza sob o manto de paixões, ambições e futilidades em contraste com a busca da perfeição e desprendimento de Larry pelas convenções tradicionais para o sucesso da vida. Tais contrastes ditarão desencontros, desilusões e outras situações extremas até ao fim da obra.
Maugham serve-se destes diferenças para fazer um romance que se passa em vários locais do mundo entre as duas grande guerras, onde não só conta uma história de amor e ciúme, como a intercala com questões filosóficas que abordam crenças do cristianismo e denúncias da incoerência prática cristã, sobretudo nos católicos, o que pode chocar os convencionais não abertos à dúvida e à crítica insidiosa, enquanto apresentam alternativas de conceitos religiosos orientais. A obra põe a nu a futilidade no sucesso social de uns perante os azares de outros e plena realização pessoal e encontro com a felicidade de outros que parecem derrotados pelas convenções da nossa civilização.
O romance que pode parecer complexo, é de facto de fácil leitura, pois nenhuma personagem é despida de aspetos humanos o que permite dar uma unidade à narrativa mesmo quando se abordam temas mais profundos, construindo uma excelente estória temperada com reflexões e questões sobre a humanidade, a filosofia e teologia sem cansar. Gostei muito e recomendo.


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

"The Cunning Man" de Robertson Davies


Excertos 
"... real education, as I already discovered, meant things you really want to know, rather than things other people thought you should know."

"Never neglect the charms of narrative for the human heart"

Voltei a um dos meus escritores preferidos do Canadá e a um romance em inglês pois durante as minhas férias queria manter mentalmente esta expressão ativa sem pausas, uma vez que servia de base à minha comunicação e assim seria mais fácil destravar a língua durante o contacto com terceiros.
"The Cunning Man" de Robertson Davies corresponde às memórias da vida do relator já em idade de reforma e feito para um caderno pessoal e em resultado de estar a ser entrevistado por uma jornalista que desenvolve uma série de reportagens sobre como era Toronto antigamente. Está situação levá-o a anotar todo o seu passado, desde as razões que o despertaram para a medicina a partir do local ermo da sua infância onde dominavam as superstições e os tratamentos por feitiçaria indígena e teve uma cura estranha; passando pela sua educação num colégio interno com costumes e amigos estranhos; à descoberta da sexualidade, ao surgir do primeiro e único grande amor; à fuga das pressões maternas indo para a guerra, ao exercício médico com vítimas de fogo amigo que o levaram a adotar uma metodologia original, holística e filosófica não testada; ao regresso à cidade onde exerceu a sua forma de tratamento que gera desconfiança mas que acolhe os desesperados das soluções convencionais; o reencontro com colegas e a envolvência numa paróquia anglicana que foge às diretrizes desta igreja e onde se choca a prática de um clérigo que morre no altar e foi ponto de partida da reportagem que tem como fim a caridade para com o desprotegidos como a prática religiosa com outro sacerdote cuja arte como a música e a pompa dos ritos deslumbrantes são a opção para expressar a fé, tudo isto num local de encontro de gente diversa como artistas com vícios privados moralmente rejeitáveis como a homossexualidade, um espaço que se torna num laboratório de estudo e de testar as suas armas de psicologia e medicina.
Logicamente todas as contradições entre fé, ciência e vícios privados que assistiu levam ao rebentar da situações e conflitos entre crença, fraquezas pessoais, diretrizes das estruturas e explicações deste sábio original que vão sendo dissecadas à exaustão no romance.
A escrita Robertson Davies continua a ser próxima da literatura clássica inglesa, elegante e cuidada nos remates ao tocar nos pruridos da decadência humana para não descer à vulgaridade, mesmo quando se debruça sobre aspetos comuns ou escabrosos, e transportando para a narrativa a visão de uma classe que se sente acima da plebe.
Todos os temas habituais do autor estão presentes nesta sua última obra: a decadência das pessoas, a grande bagagem da cultura clássica, expressões artísticas como a música, a pintura, história da literatura e neste caso ainda a escultura, a religião e os seus dilemas, os complexos de inferioridade cultural dos canadianos face aos ingleses, bem como a dissecação de todas estas temáticas, mas o romance apesar de sempre coberto pela suspeita de um crime, temperado com romantismo e recurso a à crítica social tornou-se numa obra muito extensa, o que provoca cansaço, embora intercalados com momentos de leitura muito agradável e humorada que gera uma certa descontinuidade na linha da narrativa.
Gostei do livro pela riqueza cultural e elegância, não parece que o autor estava no ocaso da vida, apesar da morte estar bem presente no final da obra, dá a sensação que ele tinha ainda todo o tempo do mundo para escrever devagar e sobre muitas coisas.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Pela China

Este mês continuei a ler, mais devagar pois tenho andado a visitar a China, em breve espero voltar a falar de livros uns dias após chegar a Portugal. Por agora uma amostra desta viagem a começar pelo cruzeiro no rio Li.

Cruzeiro no rio Li

Exército de terracota em Xi'an

Cidade Proibida em Beijing

Yangshuo o final do cruzeiro no rio Li

 Quilin a cidade de partida do cruzeiro no Li

 Paisagem em torno do Li

cidade de Quilin

 Templo em Beijing

Visita à Muralha da China perto de Beijing

Também houve muralha da China, Macau e Hong Kong.... Mas fotos não as passei para este tablet quando puder prometo atualizar está mensagem.
 Centro histórico português em Macau - ruínas de São Paulo

  Centro histórico português em Macau -  rua antiga na área património mundial

  Centro histórico português em Macau - No largo do Senado

 Hong Kong vista de Peak

Centro financeiro de Hong Kong

Hong Kong centro financeiro

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"O Adolescente" de Fiódor Dostoiévski


Citação
"A juventude, já por ser juventude, é pura"

Acabei de ler o romance "O Adolescente", mais uma obra do escritor que mais me tem marcado ao longo dos anos, o russo do século XIX Fiódor Dostoiévski.
Arkádi narra a sua vida após os seus estudos pré-universitários em Moscovo, onde fora educado como interno, sendo então um revoltado pela sua condição de filho ilegítimo de um viúvo e de uma empregada casada com quem o pai mantinha uma relação pública inaceitável, mas onde o marido, bem mais velho, aceitou assumir a sua paternidade, inclusive de uma irmã mais nova. O adolescente era então um idealista com um projeto de vida para superar o preconceito social: "a ideia", e com esta se vingar do seu sucesso pessoal. Partiu para Petersburgo e encontrou-se com a família de sangue, mas todo o seu comportamento na capital foi desastrado por não saber lidar com os vícios e hábitos da sociedade aristocrática e seus oportunistas que abusaram da sua inépcia. A evolução dos acontecimentos, com paixões, traições, questões filosóficas, tradição, idealismos e mudanças sociais, leva ao desastre e com este Arkádi amadurece e olha para trás e conta este passado de crescimento humano em sociedade.
Integrado nos grandes romances de Dostoiévski, todas as suas temáticas queridas estão presentes: sentimentos extremos, nacionalismo russo, fé e ateísmo, a prática do bem e do mal e o seu reflexo nas consciências com ou sem valores morais arreigados. Talvez pelo estilo de relato pessoal e onde se pretende evidenciar a imaturidade do protagonista, o evoluir dos acontecimentos surge aqui mais caótico e por isso o narrador ora dá pistas incompletas para eventos futuros ora justifica ações ilógicas, conferindo deste modo a esta obra uma estrutura menos linear que noutras por ele escritas, contudo não deixa de ser um grande e magnífico romance sobre o desenvolvimento da consciência moral e ética da pessoa humana em sociedade.