sexta-feira, 30 de novembro de 2018

"The Cunning Man" de Robertson Davies


Excertos 
"... real education, as I already discovered, meant things you really want to know, rather than things other people thought you should know."

"Never neglect the charms of narrative for the human heart"

Voltei a um dos meus escritores preferidos do Canadá e a um romance em inglês pois durante as minhas férias queria manter mentalmente esta expressão ativa sem pausas, uma vez que servia de base à minha comunicação e assim seria mais fácil destravar a língua durante o contacto com terceiros.
"The Cunning Man" de Robertson Davies corresponde às memórias da vida do relator já em idade de reforma e feito para um caderno pessoal e em resultado de estar a ser entrevistado por uma jornalista que desenvolve uma série de reportagens sobre como era Toronto antigamente. Está situação levá-o a anotar todo o seu passado, desde as razões que o despertaram para a medicina a partir do local ermo da sua infância onde dominavam as superstições e os tratamentos por feitiçaria indígena e teve uma cura estranha; passando pela sua educação num colégio interno com costumes e amigos estranhos; à descoberta da sexualidade, ao surgir do primeiro e único grande amor; à fuga das pressões maternas indo para a guerra, ao exercício médico com vítimas de fogo amigo que o levaram a adotar uma metodologia original, holística e filosófica não testada; ao regresso à cidade onde exerceu a sua forma de tratamento que gera desconfiança mas que acolhe os desesperados das soluções convencionais; o reencontro com colegas e a envolvência numa paróquia anglicana que foge às diretrizes desta igreja e onde se choca a prática de um clérigo que morre no altar e foi ponto de partida da reportagem que tem como fim a caridade para com o desprotegidos como a prática religiosa com outro sacerdote cuja arte como a música e a pompa dos ritos deslumbrantes são a opção para expressar a fé, tudo isto num local de encontro de gente diversa como artistas com vícios privados moralmente rejeitáveis como a homossexualidade, um espaço que se torna num laboratório de estudo e de testar as suas armas de psicologia e medicina.
Logicamente todas as contradições entre fé, ciência e vícios privados que assistiu levam ao rebentar da situações e conflitos entre crença, fraquezas pessoais, diretrizes das estruturas e explicações deste sábio original que vão sendo dissecadas à exaustão no romance.
A escrita Robertson Davies continua a ser próxima da literatura clássica inglesa, elegante e cuidada nos remates ao tocar nos pruridos da decadência humana para não descer à vulgaridade, mesmo quando se debruça sobre aspetos comuns ou escabrosos, e transportando para a narrativa a visão de uma classe que se sente acima da plebe.
Todos os temas habituais do autor estão presentes nesta sua última obra: a decadência das pessoas, a grande bagagem da cultura clássica, expressões artísticas como a música, a pintura, história da literatura e neste caso ainda a escultura, a religião e os seus dilemas, os complexos de inferioridade cultural dos canadianos face aos ingleses, bem como a dissecação de todas estas temáticas, mas o romance apesar de sempre coberto pela suspeita de um crime, temperado com romantismo e recurso a à crítica social tornou-se numa obra muito extensa, o que provoca cansaço, embora intercalados com momentos de leitura muito agradável e humorada que gera uma certa descontinuidade na linha da narrativa.
Gostei do livro pela riqueza cultural e elegância, não parece que o autor estava no ocaso da vida, apesar da morte estar bem presente no final da obra, dá a sensação que ele tinha ainda todo o tempo do mundo para escrever devagar e sobre muitas coisas.

6 comentários:

Pedrita disse...

entre seus escritores preferidos e eu não li nada dele. preciso me redimir. fiquei curiosa por esse. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Pessoalmente recomendaria outros, este é o maior e para mim não é o melhor conseguido. As obras dele tendem a constituir trilogias, The cunning man seria o segundo da trilogia de Toronto que ele não chegou a concluir.
Não sei qual o meu preferido, mas What's bred in the bone, da trilogia Cornish e finalista do Booker Prize ou The Manticore, vencedor do GG Prize, ou The fifth business (traduzido em Portugal) e ambos da trilogia Deptford são os que eu recomendaria para conhecer o escritor, só não sei se estão traduzidos no Brasil, sei que estão em Espanha.

Bárbara Ferreira disse...

Carlos, estou com a Pedrita: um dos seus autores favoritos, e um autor que eu desconheço por completo. A sua descrição da obra parece muito interessante, nomeadamente por tocar no confronto da igreja com a ciência. Fiquei muito curiosa. Espero que as suas férias tenham sido boas!

Carlos Faria disse...

Bárbara
As férias foram excelentes, apesar de curtas :-)
Tal como disse à Pedrita para conhecer este escritor eu não indicaria começar pelo seu último romance. Em Portugal só existe traduzido O Quinto da discórdia, é pesado, fala de temas duros como a exploração de um menor acolhido na vida circense, mesmo assim tem momentos interessantes pois conseguiu triunfar na vida mais tarde e dá para compreender as qualidades deste escritor, este é o primeiro da trilogia Deptford que como a Cornish são para mim as duas melhores, só que as restantes obras não estão em Português, todos têm muita influência do psiquiatra analista Jung na abordagem complexa do comportamento humano.

Bárbara Ferreira disse...

Vou procurar as trilogias que menciona, em inglês. Mais uma vez, muito obrigada!

Carlos Faria disse...

Espero que goste, existem edições que juntam os três romances, com a vantagem de sair mais barato e podemos à mesma fazer intervalos entre um romance e outro pois estes embora com traços que os unem são independentes.