domingo, 9 de dezembro de 2018

"O Fio da Navalha" de Somerset Maugham


Excertos
"Eu não estava preparado para acreditar num Deus da sabedoria sem um pingo de bom senso."

"Quando um homem se torna puro e perfeito, a influência do seu caráter espalha-se para que aqueles que buscam a verdade sejam naturalmente atraídos para ele."

Terminei a leitura de "O fio da navalha" do inglês Somerset Maugham, uma história de contrastes de de opções de vida dos seus vários personagens que assim pelas diferenças de estilo levam o leitor a pensar sobre como a sociedade valoriza o fútil, que muitas vezes leva ao desespero, e despreza quem segue ideais mais elevados, como o sentido da vida e a busca de Deus numa vida sem as amarras ao dinheiro e fora das convenções do que é o sucesso social, mesmo que tal leve à paz de espírito e à felicidade.
O escritor narra como um seu amigo americano, Elliot, - que vai sendo dado a conhecer na obra, residente em Paris e cujo sonho é a integração na alta-aristocracia em plena belle époque que comercializa obras de arte com os seus conterrâneos tirando dai grandes lucros - lhe apresentou Larry: um ex-aviador do Ilinois que após a 1.ª grande guerra entrou na busca do sentido da vida e da essência de Deus na sequência de ter visto a morte de um amigo que ele lhe salvou a vida em combate.
Maugham, que é também uma personagem neste romance, apresenta-nos o círculo próximo de Elliot, que inclui a sua sobrinha noiva do ex-piloto e demasiado apaixonada por ele, cujos ideais de vida são a riqueza e o brilho social americano, e também gente cuja meta é igual ao dela. Só que na trama ainda há artistas, prostitutas, desesperados com os azares da vida, personalidades da igreja e outros ligados à sabedoria e religiões orientais, numa panóplia que se cruza sob o manto de paixões, ambições e futilidades em contraste com a busca da perfeição e desprendimento de Larry pelas convenções tradicionais para o sucesso da vida. Tais contrastes ditarão desencontros, desilusões e outras situações extremas até ao fim da obra.
Maugham serve-se destes diferenças para fazer um romance que se passa em vários locais do mundo entre as duas grande guerras, onde não só conta uma história de amor e ciúme, como a intercala com questões filosóficas que abordam crenças do cristianismo e denúncias da incoerência prática cristã, sobretudo nos católicos, o que pode chocar os convencionais não abertos à dúvida e à crítica insidiosa, enquanto apresentam alternativas de conceitos religiosos orientais. A obra põe a nu a futilidade no sucesso social de uns perante os azares de outros e plena realização pessoal e encontro com a felicidade de outros que parecem derrotados pelas convenções da nossa civilização.
O romance que pode parecer complexo, é de facto de fácil leitura, pois nenhuma personagem é despida de aspetos humanos o que permite dar uma unidade à narrativa mesmo quando se abordam temas mais profundos, construindo uma excelente estória temperada com reflexões e questões sobre a humanidade, a filosofia e teologia sem cansar. Gostei muito e recomendo.


8 comentários:

ematejoca disse...

Ao ler a sua análise sobre o romance, Carlos, apetece-me lê-lo outra vez.
Vou procurá-lo na estante, porque o trouxe de Portugal.
Já não me lembra de ler algum romance deste autor, que gostava tanto noutros tempos. Até vi as peças de teatro, também com muito prazer.

Carlos Faria disse...

Pois é um grande romance, já gostara muito de A servidão humana, mas gostei mais deste, mais profundo o outro mais autobiográfico, apesar de neste Maugham ser personagem.

Kelly Oliveira Barbosa disse...

Oi Carlos!

Nossa fiquei bem interessada por esse livro. Parece mesmo imperdível.

Não deixei de reparar também no livro de ficção em leitura "Babbitt", por coincidência ganhei um exemplar dele na semana passada :D - ficarei esperando as impressões.

Abs.

Pedrita disse...

eu li faz tempo e gostei muito. gosto bastante desse autor. concordo que a sociedade valoriza o fútil. mas que na religião o fútil não está aí tb não acredito. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Pedrita
Larry procura Deus sem futilidade e por isso está de mente aberta, claro que que Elliot mostra a futilidade, o snobismo e o oportunismo que se alastra no catolicismo e este não seria o único credo com estas disfunções, no post nunca é referido como as religiões sendo imunes a esse mal e muito menos no livro. Mesmo sendo eu cristão tenho a mente bem aberta.

Kelly
Mesmo com algumas frases chocantes quando se abordam questões religiosas no livro, este romance leva-nos a questionarmo-nos, para uns terá sementes perigosas e para outros será uma ferramenta para amadurecimento na fé. Depende de cada um.

Bárbara Ferreira disse...

Deste autor, só li (ainda) a sua grande obra, Servidão Humana, que é enorme em todas as dimensões possíveis. Tenho desde então muita curiosidade em ler mais do que ele escreveu, e este parece ser o segundo romance mais popular, de uma obra que ainda foi vasta. Incrível como o autor consegue encher de humanidade as suas páginas.

Carlos Faria disse...

Não é um escritor isento, é britânico mesmo quando levanta questões, mas no seio das suas estórias levanta um conjunto de interrogações e faz uma crítica da sociedade muito inteligente.

Pedrita disse...

carlos, sim, tanto q vc lê livros de pessoas de outras religiões e ateus. falei de livro no meu blog.