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terça-feira, 19 de maio de 2020

"A vida era assim em Middlemarch" de George Eliot

Excerto
"Os mortais são facilmente tentados a atentar contra a glória do vizinho e pensam que essa maneira de matar nada tem de assassínio."
"As pessoas valem sempre mais do que aquilo que pensam delas os seus vizinhos."

Considerado um dos clássicos da literatura da época vitoriana inglesa "A vida era assim em Middlemarch", da escritora George Eliot, faz um retrato da vida social numa zona central de Inglaterra na primeira metade do século XIX situada no condado fictício, moralmente conservador e carácter rural de Middlemarch.
Doroteia é uma bela jovem órfã de uma família de grandes proprietários rurais, é discreta e anseia o saber e planear o bem aos mais desfavorecidos. Apesar de alguns pretendentes prestigiados locais lhe fazerem a corte, ela opta por um homem eclesiástico, rico de meia-idade e só devotado a escritos da era clássica cujo interesse dela pela cultura lhe despertou a paixão no celibatário. Numa época dominada pelos homens e onde o saber estava reservado a estes, ela vai descobrir que o seu casamento não vai ser a fonte do conhecimento que esperava e encontra um jovem parente do marido, filho de uma deserdada por ter abraçado o que era então interdito às mulheres, mas protegido pelo esposo como obrigação de consciência, só que a inesperada a viuvez chega mas o falecido não deixa liberta a viúva. A sociedade de Middlemarch está atenta não só a esta nova viúva rica, mas precavida contra todos os que venham com ideias novas para a zona, como acontece com um jovem médico e ao deserdado, entretanto a elite local entrega-se à guerrilha política entre partidos, religiões  tradicionais locais e empresários, nesta luta desacredita-se a inovação, procuram-se manchas morais nos adversários, estimulam-se atritos entre fações e retaliações e alimentam-se possíveis escândalos e paixões e a tensão atinge um clímax nesta pacata terra.
O romance é extenso, largas centenas de páginas, está escrito com grande elegância e é rico em metáforas que tecem explicações de caracteres e críticas sociais, denunciando com delicadeza as injustiças e disfunções que marcam a época e o meio. Apesar do retrato social, o papel da generalidade dos pobres é meramente secundário neste romance, à exceção de dois ou três personagens que desempenham funções de contraponto entre a honestidade de quem trabalha e de alguém que se quer aproveitar mas é atingido pelos que subiram pisando outros.
 A narrativa começa pacata a lembrar ritmo de vida rural provinciana, mas depois expõe a maledicência, a hipocrisia, o ciume, a aversão à mudança, as rivalidades e os tentáculos dos poderosos que minam a sociedade e prejudicam gente honesta cheia de valores e a rede eclesiástica das religiões que coabitam em Inglaterra. Doroteia é desde o início comparada a Santa Teresa d'Ávila, uma mulher também de grandes feitos, só que a nossa protagonista não tem igual reconhecimento à doutora da Igreja, não se valorizando os seus sacrifícios e ações, o que no fim explica a lenda em torno de Doroteia e a incompreensão do seu heroísmo, assumindo a obra uma homenagem a muitos homens e mulheres que muito deram à sociedade e passaram praticamente incógnitos à história. A extensão exige algum esforço, mas é um excelente romance.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

"Contos de São Petersburgo" de Nokolai Gogo

Acabei de ler o livro "Contos de São Petersburgo" do russo de origem ucraniana: Nikolai Gogol, um conjunto de 6 contos não muito curtos. A minha iniciativa de comprar este livro foi impulsionada pelo "O Retrato" que faz parte deste conjunto mas que já lera, gostara muito e é o mais extenso, por isso surge muitas vezes em separado. Todos situam-se na antiga capital da Rússia, deduz-se que no século XIX, época em que o escritor viveu e decorrem sempre fora do estrato social da eleite palaciana do czar, dos nobres ou dos burgueses.
Gogol escreve muito bem e ao estilo típico da literatura russa daquele século, um género de que eu gosto particularmente, mas se adorara "O Retrato", não posso dizer que me agradaram de igual modo todos os restantes contos deste conjunto. Dois deles, "A Caleche", o mais curto, e "O Nariz" são muito divertidos. O primeiro conto do livro cruza duas estórias independentes de dois cidadãos que surgem inicialmente juntos na "Avenida Névski", pelo que quase se pode dizer que são sete contos em um. Na grande maioria os protagonistas não saem bem da estória e talvez seja isso o que me deprimiu nesta coleção. "Diário de um Louco" tive pena pela saída da realidade do narrador que não entende a razão do maltrato de que é vítima e o último da série "O Capote" torturou-me mesmo ver a desgraça escalpelizada ao extremo daquele funcionário pobre, desprezado e vítima da sociedade que o abandona e o explorou.
Três contos, O Retrato, O Nariz e O Capote têm componentes surrealistas, curiosamente são nessas passagem que Gogol conseguiu divertir-me ou dar lições de moral de uma forma que me cativou e gostei, noutros momentos aprofundou descrições da cidade ou de personagens de uma forma para mim exagerada que me cansou e nalguns casos cortou o fio da narrativa. Assim, o conjunto tem momentos excelentes e um conto magnífico, mas ao longo dele não foi homogéneo o prazer da leitura.

terça-feira, 28 de abril de 2020

"Um Bailarino da Batalha" de Hélia Correia


Excerto
«Tens a certeza? A Europa não nos quer?»
«Não quer, voltem para trás.»
...
«Para trás não há nada», retorquiu.
O guarda disse:
«Para a frente, também não.»

O romance "Um Bailarino na Batalha" de Hélia Correia, vencedor do prémio Associação Portuguesa de Escritores de 2018 e escrito por quem já ganhou numerosos galardões, como o importante o Prémio Camões em 2015, despertou-me receio e interesse; o primeiro ponto porque tenho tido desilusões com obras nacionais premiados, mas Hélia Correia brilha demais para as editora se dignarem premiá-la para a promoverem comercialmente; e o interesse por o tema atual dos refugiados que tentam entrar na União Europeia e retidos na fronteira (não acontece apenas nos EUA) é um assunto doloroso para alimentar o prazer da leitura.
Esta novela (pouco mais de 100 páginas) não retrata a realidade, é um texto poético com personagens que dão voz e pinceladas estilizadas a várias facetas do problema da caminhada de um grupo de refugiados da guerra no médio oriente em direção a "uma terra pecadora, mas rica e generosa". Temos uma série de postais que cruzam uma ex-guerrilheira grávida e mãe que foge e despreza o traidor que denunciou outros e partilha a fuga, e alia-se a uma mulher que perdeu os homens da família que vai para proteger o neto perante a desconfiança da nora, heroínas que desobedecem e tiram a máscara e mostram o rosto para ofensa dos homens que as cobiçam. Temos um rapaz fraco e cobarde que quer mostrar-se forte e homem. Há um velho abandonado e cego que cheira o que vão encontrar em frente e é adotado pelo traidor de confiança. Crianças órfãs na sua inocência tornam-se capazes ver ao longe e liderar a palavra mas carentes de adotação. Há quem fique no caminho, invejosos e a fronteira da Europa que barra o caminho e lhes dá jaulas. Além desta oferecem trabalhos animais que os acolhedores não aceitariam mas que sem pudor escravizam acolhidos e rejeitam a subserviência das mulheres. Temos guerrilheiros a arregimentar novos soldados entre quem foge à guerra e sobre tudo isto unido pela poesia em prosa.
A obra não toma um partido, a arte poética sabe denunciar e as superiores não precisam de ser juízes, basta agitar consciências com beleza e é o que faz este livro com vítimas perdidas neste limbo, uma das tragédia humana em que a Europa está envolvida. Uma escrita bela para se admirar, a narrar o feio de se conhecer.

domingo, 26 de abril de 2020

"O segredo de Chimneys" de Agatha Christie

Acabei de ler o romance policial "O Segredo de Chimneys" escrito pela inglesa mestre do género Agatha Christie.
Propositadamente escolhi um romance sem nenhuma da duas personagens mais conhecidas da autora, para a ler num outro registo e vejo que a imaginação não depende do detetive ou da sua velhinha observadora 
Anthony Cade está a exercer o papel de guia turístico de uma excursão inglesa a África cruza-se com um conhecido que lhe pede, a troco de uma recompensa, o regresso à Inglaterra e a entrega das memórias de um nobre de um reino das Balcãs a uma editora e a devolução de cartas privadas a uma aristocrática alvo de chantagem. Em Londres descobre grandes interesses em torno da obra, partidos do País das Balcãs não a desejam publicada pelo incómodo político e prejudicar acordos com ingleses que envolvem o ministério dos negócios estrangeiros a celebrar na mansão de Chimneys, mas as cartas são-lhe roubadas e conhece a dama a ser chantageada. Logo a seguir o chantagista e o herdeiro do trono são assassinados. Tem então um convite para Chimneys onde todos os interesses em jogo estão a ser discutidos na presença do inspetor Battle, detetives de França e América, a suspeita de ser vigiados por um ladrão internacional de jóias da corte e ainda da impressionante viúva alvo das cartas. Tudo isto gerará a descoberta da intriga internacional, onde Anthony acumulará o papel de suspeito e de investigador e ainda se apaixoná.
O romance desenvolve-se quase sempre em diálogo, poucos parágrafos descritivos e é sempre atravessado pelo ambiente aristocrático, por vezes em sardónico. A obra mistura amor, intriga política, investigação criminal e é temperado com a boa vida da elite inglesa. Lê-se muito bem, tem momentos de suspense, um excelente carácter lúdico e um final inesperado típico das obras de Agatha Christie. Gostei.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

23 de Abril - Dia Mundial do Livro - As leituras preferidas de um ano

Apesar da crise por que estamos a passar, os livros não me deixaram de fazer companhia e posso comemorar o Dia Mundial do Livro como sempre, pois ler não interfere com o isolamento social e até rompe com a solidão de modo saudável.

Por norma, neste dia listo as obras que mais prazer me deram desde o anterior Dia Mundial do Livro segundo várias categorias, este ano, como habitual, hesitei, mas lá consegui uma seleção final que abaixo exponho:

Melhor Livro de Ficção em Língua Original Portuguesa
"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa-Luís
No ano do desaparecimento desta escritora com uma produção tão vasta, o seu último romance publicado não foge às suas características mais comuns: a exposição dos vícios e do estilo de vida das gentes aristocrática e burguesa do norte de Portugal, tendo como centro a vida em torno de personagens femininas fortes. Não é a minha obra predilecta de Agustina, mas é das de mais fácil leitura e pode servir de entrada ao conhecimento do seu estilo e tem como fio condutor o quadro mais famoso de Rembrandt. O postal sobre o livro disponível aqui:

Melhor Livro de Ficção Canadiana
"The Testaments" de Margaret Atwood
A continuação da vida distópica das mulheres na república ditatorial de índole religiosa, conservadora e misógina em Gilead, resultante de uma futura transformação e fragmentação dos Estados Unidos, é uma homenagem à força feminina em prol da implosão do regime de uma das minhas escritoras favoritas de todo o mundo e natural do meu país natal. Mais pormenores sobre a obra aqui. O romance já está traduzido e disponível em português.

Melhor Livro de Ficção Estrangeiro
"A Mancha Humana" de Philip Roth
Uma obra que mostra como o preconceito racista está infiltrado na sociedade norteamericana e narra como através de um estratégia de moral dúbia o protagonista a ultrapassou e venceu. Um romance que me reconciliou com o escritor que estava proscrito por mim. O texto sobre o livro está aqui.

Melhor Livro de Não Ficção
"A Lebre de Olhos de Âmbar" de Edmund de Wall
Curiosamente uma obra que se assemelha a um romance, a história da família dos banqueiros  judeus Ephrussi, tendo como linha narrativa a constituição da coleção de pequenas peças de arte japonesa "netsuke" por um parente no século XIX até chegar como herança ao autor já no século XXI. Uma maravilha em termos de informação histórica, descrições do mundo cultural de Paris que serviu de base a Proust e de Viena antes da queda do império, além de uma magnífica qualidade de escrita descritiva. O postal sobre o livro neste blogue aqui. O livro que mais gostei em 12 meses.

Como todos os anos, a dúvida da seleção manteve-se até à execução deste postal, mas havia que tomar decisões e se esta tivesse ocorrido noutro dia talvez a lista pudesse ter alguma alteração.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

"Ruído Branco" de Don DeLillo

Excertos
"Durante uma crise, os facto verdadeiros são tudo aquilo que os outros dizem. Nenhum conhecimento é tão inseguro como o nosso."

"À medida que a fé desaparece deste mundo, as pessoas cada vez acham mais necessário haver alguém que acredite."

Talvez para exorcizar a tensão do confinamento em virtude da pandemia optei por ler um romance onde sabia haver um acidente que obrigava a um recolhimento, neste caso temporário: "Ruído Branco" do norteamericano Don DeLillo. Obra vencedora do National Book Award de 1985.
O livro está dividido em três partes, a primeira evidencia a futilidade da vida moderna nos EUA contemporâneo através do dia-a-dia do protagonista Jack, casado 4 vezes, e do seu agregado familiar com filhos de vários pais e mães mas por norma bons observadores do mal da sociedade. Como professor universitário criou um departamento que estuda Hitler e convive com um professor da área da cultura popular moderna nos EUA que serve de comparação de duas sociedades disfuncionais. Na segunda parte há uma fuga de um gás tóxico a que Jack pode ter ficado exposto e obriga a um recolhimento oficial onde a informação e desinformação estão em choque. Na terceira o Jack com a mulher e o amigo discute os medos da morte e uma medicação para o combates deste. Nos diálogos fala-se da importância deste para valorizar a vida e os modos como a ciência e a sociedade tentam ultrapassar este receio, o que irá desembocar num final com uma situação extraordinária e imprevista.
Apesar dos temas sérios do romance, a escrita de tom sardónico enche a narrativa de humor transversal a todas as situações e o tratamento de choque a algumas questões levantadas com personagens cheias de autossabedoria e referências à cultura pop sujeita aos mídia retiram qualquer carga depressiva à leitura da obra, pondo-nos a rir em momentos duros e tensos e onde final assombroso agita as consciências, levanta a moral e mexe com pruridos do leitor. Gostei mesmo muito e percebi a razão do prémio atribuído, embora  não seja um livro de mero entretenimento.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"The Testaments" - "Os testamentos" de Margaret Atwood


Acabei de ler, na língua original, o romance "The Testaments", da escritora canadiana Margaret Atwood, obra premiada com o Booker Prize de 2019 e, presentemente, já se encontra disponível em português com o nome "Os Testamentos". 
O romance corresponde a uma sequela de outro do género distopia e escrito em 1985: "História de uma Serva", lido há muitos anos, contudo não há nenhuma impedimento de se ler a obra mais recente a quem não leu o anterior, pois as tramas são distantes no tempo, embora o ambiente político seja o mesmo e haja uma personagem importante agora que foi secundária no anterior e uma referência final para a anterior protagonista.
A obra cruza três narrativas que se intercalam no género de memórias, na primeira pessoa, das 3 protagonistas:
- Agnes desde criança até à juventude, viveu na ditadura religiosa, de moral fundamentalista e machista, de Gilead, esta resultou de uma revolução que fragmentou os Estados Unidos (ocorrida no romance anterior) aonde às mulheres compete procriar (parideiras profissionais) ou ser esposas ou ter tarefas domésticas e a quem está interdita a alfabetização;
- Daisy, de criança a adolescente que cresceu em liberdade em Toronto, Canada, num meio que luta pelo fim do regime em Gilead e;
- Lydia, já de idade avançada que descreve como se tornou numa das mulheres e fundadoras do regime de Gilead e um pilar do sistema ao assumir uma estrutura de mentalização da subserviência feminina e de atribuição dos papeis destas, apesar do seu passado americano de defensora dos direitos da mulher, os membros da sua instituição são as únicas que tem acesso a formação literária e possibilidade de lerem obras que lhes vão sendo autorizadas em função do seu grau de subserviência e fidelidade ao regime.
A partir dos relatos de cada uma percebemos a forma como Gilead subordina as mulheres, cujos mecanismos instalação foram descritos no livro anterior, quais os diferentes tipos papeis atribuídos a estas na estrutura social machista, a ignorância que existe na comunidade devido ao controlo da informação e da propaganda ao serviço do regime, que é minado pela corrupção e imoralidade da elite que governa e impõe uma justiça moralista, repressiva e sangrenta.
Em contraste no Canada livre, a governação não se intromete na política do Estado vizinho para evitar uma guerra, mas deixa espaço para uma organização contestatária e de resistência a Gilead que suporta ainda a fuga de mulheres escravizadas em torno da qual vive Daisy, mas onde em paralelo a estrutura de Lydia opera com missionários para atrair mulheres que faltam em Gilead.
Com o evoluir da trama, cujo ritmo se vai acelerando, as três personagens cruzar-se-ão e a estória tornar-se-á num thriller onde a todas as protagonistas terão um papel de luta contra o obscurantismo, uma homenagem à força do papel feminino dentro da humanidade.
Gostei mesmo muito do livro, a escrita de Atwood é fácil e adapta-se desde o estilo infantil das personagens na infância, ao astuto dos adultos e ao ardiloso dos que promovem a revolução sem nunca perder consistência de todas as partes, no fim um simpósio de reflexão científica sobre Gilead no século XXI.

sábado, 11 de abril de 2020

Votos de Feliz Páscoa

Num momento de crise global a Esperança é sempre um motor para ultrapassarmos as dificuldades e a Páscoa é a festa da recuperação da Vida, a todos os leitores

VOTOS DE FELIZ PÁSCOA

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro


Excerto
"eu julgava que se um homem fosse económico, podia, só com o seu trabalho, levantar a cabeça."

Acabei de ler o romance "A Lã e a Neve" de um dos escritores portugueses da primeira metade do século XX mais traduzidos internacionalmente, sobretudo conhecido por "A Selva": Ferreira de Castro.
Durante a II Guerra Mundial, Horácio, que desde a adolescência fora pastor na serra da Estrela, acabou de concluir o serviço militar na região de Lisboa e voltou a Manteigas cheio de planos: adiar o seu casamento com Idalina para construir uma casa com as condições das que viu pela capital para a sua mulher e filhos, deixar de guardar rebanhos dos outros e ser operário numa fábrica de lanifícios na Covilhã, mas aos poucos descobre as dificuldades em concretizar os seus sonhos: primeiro as dívidas dos pais e a oposição dos futuros sogros obrigam-no a ter de continuar a subir a serra com as ovelhas, depois, quando consegue o emprego desejado, verifica que a miséria dos salários é um mal geral e os colegas que lutam no sindicato sujeitam-se a perseguições do regime, mas eis que surge um programa habitacional municipal e o fim da guerra, só que a crueza da vida não o larga.
Escrito com um grande domínio da língua portuguesa e recurso a numerosos vocábulos já desusados e termos técnicos da laboração têxtil e da pastorícia, Ferreira de Castro é exímio em mostrar a conjugação da beleza da região serrana com a dureza da vida dos seus habitantes pobres, tanto pastores como operários, e evidencia os abusos dos mais poderosos na zona durante os anos da guerra e a seguir. A obra é um verdadeiro prenúncio do estilo neorrealista e só se distingue deste por o protagonista não ser um lutador político, só um esforçado trabalhador que vai descobrindo a injustiça de que o trabalho não permite sair da miséria, mas sem o levar a uma revolta pública.
Gostei, tirando os vocábulos desconhecido, é de leitura fácil, mas é uma obra muito dura pelo retrato social que faz.

domingo, 29 de março de 2020

"As Mil e Uma Noites" Volume 1


Excerto
"nada detém uma mulher quando ela quer alguma coisa."

Acabei de ler o primeiro volume da edição dos contos da obra "As mil e uma noites", um dos clássicos da literatura universal, com origem na idade média saído do mundo islâmico, sendo esta edição uma tradução da versão mais antiga conhecida em língua árabe editada por crowdfunding.
Este volume começa com um historial sobre as origens geográficas, linguísticas e divulgação desta obra até chegar ao ocidente e depois alguma evolução que esta sofreu já na Europa por adições para satisfazer o público não constantes no início, onde fica evidente porque se está perante uma das obras mais conhecidas das pessoas que simultaneamente o real conteúdo é desconhecido. Apesar da sua importância para o contexto da obra, confesso que apenas folheei e li excertos.
Depois segue-se a obra propriamente dita, onde se descobrem as razões porque o rei Xariar decidiu todos os dias casar com uma súbdita diferente, matá-la a seguir à noite de núpcias e a estratégia de Xerazade para pôr termo a esta carnificina através de se oferecer em casamento a ele e iniciar um série de contos narrados a sua irmã, Dinazarde, que alimentassem a curiosidade do marido e a mantivesse viva.
Os contos, na sua grande maioria, são do estilo fantástico ou do género fábula, não com bruxas e fadas do estilo ocidental, mas com os seus equivalentes no imaginário do médio oriente: génios e ifrites, cuja narrativa pode atravessar várias noites, sendo interrompida em momentos de suspense para manter o interesse e quando terminam deixam com frequência pistas por esclarecer que permitem o encadear de estórias e preservar a curiosidade.
Os contos encerram muitas vezes lições de moral e bons costumes, intercalados com aprendizagens da vida sobre as injustiças na vida terrena, havendo partes em prosa e outras em verso que sintetizam provérbios ou são cantos de amor ou do elogio à beleza física e intelectual. Pelo meio há algumas passagens quase eróticas e mesmo momentos brejeiros. Contudo o papel superior da vontade do Deus único, como agente do triunfo da Justiça e do Bem sobre a perfídia e  malvadez, é frequentemente invocado e atravessa todo livro, mas não se está perante o deus ex-machina da literatura clássica ocidental que intervém diretamente para castigar ou corrigir o mal.
O tradutor disponibiliza numerosas notas em rodapé que esclarecem pormenores do texto relativos à cultura da época, à mentalidade do médio oriente ou do mundo muçulmano e, inclusive, dificuldades de tradução e enquadramentos históricos que muito enriquecem o saber do leitor e ajudam a compreender e a referenciar aspetos que passariam despercebidos.
Não sou um habitual fã de contos fantásticos, mas reconheço a riqueza destas histórias, a influência cultural das mesmas e confesso que além de se estar perante uma obra de fácil leitura, o suspense que é mantido assegura o interesse e o prazer da leitura e em breve espero entrar no volume seguinte deste clássico da literatura mundial que vale a pena conhecer.

domingo, 22 de março de 2020

"A Aldeia" de William Faulkner


A acabei de ler o romance do norteamericano de William Faulkner, escritor laureado com o prémio Nobel da literatura, "A Aldeia". Esta obra é a primeira de uma trilogia em torno da família Snopes no Mississipi.
Neste romance, passado no meio rural, Will Varner é o rico da aldeia, dono de vastas propriedades incluindo O Velho Domínio do Francês. Praticamente toda a atividade económica gira em torno dele: a produção de algodão, as lojas, os empregados e os arrendatários. Um dia Ab Snopes entra na loja e arrenda um terreno ao filho Jody, mas pouco depois descobre-se que ele já causara problemas a outros rendeiros da vizinhança: associado a fogos sobre armazéns dos proprietários; mesmo assim o negócio avança e pouco depois o filho de Ab, Lem, torna-se empregado da loja e vão chegando outros parentes que se instalam e o clã a cresce na economia numa teia de conluios a que os aldeões assistem e compreendem, sobretudo, através dos comentários de Ratliff que vive na cidade e conhece de infância Ab. Quem se deixará enganar pelos Snopes e até onde irão? Vai-se descobrindo neste volume da Trilogia.
William Faulkner desenvolveu um estilo de escrita literária que pratica neste romance denominado fluxo da consciência: narrativa vai sucessivamente tecendo uma teia de ideias, comentários, descrições da ação, da envolvente cénica, personagens e seu enquadramento que obriga a uma grande atenção. Isto porque do início à conclusão de um parágrafo pode existir um extenso texto cheio de complementos com referência a outros sujeitos, factos, tempos, locais e ações onde nos podemos perder, assim a leitura da narrativa vá-se montando como peças de um puzzle que permitem a compreensão do geral e dos pormenores lançados.
Algumas páginas dão grande prazer de ler pela beleza do texto, outras entram em conflito com a atenção do leitor e tornam-se muito difíceis, embora o tom sardónico por norma presente e o suspense associado às pistas lançadas permitam manter vivo o interesse na continuidade da leitura de quem resista à dificuldade do estilo de escrita. Gostei, até mesmo muito, já tenho comigo os restantes volumes, mas preciso de uma pausa a este esforço de atenção. Desejo retomar os Snopes em breve.

domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

sexta-feira, 6 de março de 2020

"Arranha-céus" de J. G. Ballard

Excerto
"o arranha-céus era um exemplo de tudo o que a tecnologia tinha feito para tornar possível a manifestação de uma psicopatologia verdadeiramente «livre»."

Terminei de ler o meu segundo livro do inglês J. G. Ballard: "Arranha-céus". Este escritor, nas suas obras, criou e explorou ambientes de tensão psicológica extrema fruto dos desequilíbrios do modelo de desenvolvimento socioeconómico atual que podem despertar o pior que há no íntimo das pessoas, criando mundos de da realidade demencial. Todavia estas criações distinguem-se das distopias futuristas que procuram denunciar o caminho errado da sociedade contemporânea as situações deste autor ocorrerem no presente, dentro de determinados locais ou nichos, como também acontece neste romance, e servem para polarizar ao máximo essas disfunções, enquanto o mundo envolvente aparentemente continua na sua normalidade absurda.
No presente livro, escrito nos anos de 1970, um arranha-céus de 40 andares e dois mil residentes no leste de Londres é o expoente máximo que integra tecnologia, arquitetura de vanguarda, conforto e prazer pelos serviços de lazer e comerciais: piscinas, supermercados, bancos, escolas, cabeleireiros, parques infantis, restaurantes, etc. tudo está estrategicamente disponível dentro do edifício, mas neste subsiste a estratificação social: uma classe mais baixa na parte inferior, uma classe média na sua zona central e uma elite pequena e dominadora no topo, tal como o luxo e a qualidade dos serviços se arrumam de acordo com esta hierarquia social. No que parecia um mundo em equilíbrio inicial e com relações interclasses entre as mais variadas profissões liberais, eis que alguns abusos e preconceitos vindos de cima geram revoltas nos andares inferiores. Estes incidentes irão num crescendo até a um nível de loucura e violência extrema, mas mantém cativos alguns viciados nesta guerra de classes amoral, sem limites e geradora da implosão desta comunidade... enquanto no exterior o dia-a-dia decorre sem nada que se considere fora da norma.
A escrita escorreita, por vezes com metáforas duras, está ao serviço de um mundo onde se perde a dignidade e humanidade, algumas cenas são de grande violência, tanto psicológica, como física e inclusive contra animais domésticos, criando um retrato negro do que a espiral da loucura pode levar. Gostei, lê-se facilmente, mas pode impressionar leitores sensíveis.
Como vários livros de Ballard, este também passou a filme, entre as várias adaptações cinematográficas da sua obra está uma vencedora de melhor filme do ano em Hollywood (Crash), o trailer abaixo é respeitante a arranha-céus.

domingo, 1 de março de 2020

"A Casa Sombria" de Charles Dickens


Excerto
"Nunca o nevoeiro será bastante espesso, nunca o barro e a lama terão suficiente profundidade para estar ao nível da cerração e das dificuldades por que hoje passa este Tribunal Supremo da Chancelaria, o mais nauseante de todos os velhos pecadores, à face da terra."

Acabei de ler um extenso, denso e profundo romance do inglês Charles Dickens "A Casa Sombria". Um casal de jovens primos, órfãos é acolhido sob proteção de um tutor parente na sua Casa Sombria enquanto aqueles aguardam a posse da sua herança retida pelo Supremo Tribunal em Londres há gerações num processo de denúncia do testamento e apaixonam-se entre si. Em paralelo, o dono da casa escolhe outra jovem para dama de companhia que é filha de pais incógnitos, ela sabe ser fruto de uma relação ilegítima e escondida para salvar a honra de uma família que percebemos ser de alta sociedade e é a principal narradora da estória.
Em torno das duas famílias de origem dos três jovens da Casa Sombria, bem como do bairro do tribunal, circulam advogados honestos e interesseiros, tarefeiros, espiões, criados, interessados da justiça, gente detentora de segredos familiares ambiciosa, chantagistas, pessoas que se apaixonam, cidadãos doentes, pobre explorados, honrados ou revoltados ao sentirem-se vítimas de erros do passado ou da situação social, médicos, indivíduos que morrem, criminosos e ainda usurários exploradores da desgraça alheia, detetives policiais, pessoas amigas e adversárias e até beneméritos sociais mais atentos às suas causas solidárias públicas do que às suas obrigações sobre os que lhe são mais próximos e estão a seu cargo, tecendo um malha exaustiva do retrato coletivo da sociedade londrina sobre a qual paira um sistema judicial que é o maior agente de injustiça que se abate em cima desta população.
Efetivamente, no livro há personagens criminosas, assassinas e gente com sede de Justiça, mas torna-se evidente que a mais criminosa, a mais assassina e a mais injusta é a montada pelo sistema judicial, ou seja: a justiça neste Estado de Direito.
Charles Dickens escreve este romance sem pressa. Ao longo das três primeiras centenas de páginas vai introduzindo personagens, isoladas ou em família, que tanto podem ser modelos de virtude ou vilões que vão sendo caracterizadas em pormenor: não só através do seu comportamento individual e indicação de pistas de intenções ocultas, como também através do meio onde vivem e das características urbanas dos locais onde trabalham ou residem e várias delas vemos inclusive o seu regredir fruto do sistema social e de justiça vigente. As exposições cénicas e dos ambientes sociais são de uma grande riqueza estilística descritiva e metafórica pois é um meio para fazer um paralelo entre a realidade paisagística, arquitetónica, meteorológica ou de higiene com os desequilíbrios das personagens e da sociedade. Desta técnica narrativa Dickens mostra genialmente o obscurantismo corrosivo, doentio e até mortal da justiça com recurso clima pestilento resultante da humidade, neblina e frio em que insere logo no início o trabalho proveniente do Supremo Tribunal da Chacelaria.
Nas últimas centenas de páginas, nunca com pressa, os nós soltos da primeira metade começam a unir-se e a montar a teia que constrói o retrato global que até às últimas páginas nos vai surpreendendo, não apenas com revelações e desenlaces agradáveis para um final feliz, mas também com relatos das consequências duras e revoltantes de todos os aspetos negativos que Dickens denunciou publicamente com este romance.
É um magnífico romance e como não houve pressa na narrativa torna-se longo e nem sempre belo, Dickens através da fealdade evidenciou a força e os efeitos do mal que grassava no sistema de justiça da inglês em meados do século XIX e temperou a crueza desta realidade com a beleza do amor romântico e solidário que permite a sobrevivência do humanismo nesta sociedade injusta, cheia de egoísmos e de oportunistas, inclusive é realçada em alguém cuja a doença a desfigura mas sempre bela pela força humana que dela continua a brotar. Um livro marcante.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Watt" de Samuel Beckett

Acabei de ler o livro "Watt" do irlandês, laureado com o prémio Nobel, Samuel Beckett. Como já conheço outras obras deste autor, tanto de teatro como romance, já sabia que era um escritor com narrativas de situações absurdas a que se junta uma escrita criativa, aspeto que o distingue em muito de Kafka: onde há uma evolução consistente dentro de uma realidade estranha e um texto sem experimentações livres da sintaxe ou da morfologia.
O romance tem 4 partes. A primeira começa a assemelhar-se a um ato de teatro com diálogos como uma encenação que introduz Watt a partir de um banco de jardim de onde as personagens o estariam a ver carregado de bagagem e fora de cena. Os primeiros pormenores absurdos já despontam aqui. Segue-se a viagem de Watt num comboio com outra personagem e um diálogo estranho, depois a descrição do percurso a pé até a casa de Knott e a sua entrada nesta onde ouve o empregado que está de saída que ele vai substituir e o absurdo vai num crescendo.
O segundo e terceiro capítulos descrevem a vida e as observações de Watt como serviçal e em duas posições distintas. Tomamos conhecimento das rotinas em casa de Knott, que nunca intervém, e dos seus absurdos associados e de todas as combinações possíveis, envolvendo personagens estranhas, para assegurar tais tarefas por tempo indeterminado.
A quarta parte corresponde ao fim da estada em casa de Knott e o regresso à estação de comboio e o absurdo intromete-se na sequência dos acontecimentos. Há ainda uma adenda com complementos a parágrafos ou situações respeitantes aos anteriores capítulos que não acrescentam nada de lógico.
Enquanto se avança no livro, a liberdade criativa da escrita aumenta, juntando ao absurdo variações da mesma, ora ao nível de articulações das frases, ora de situações, ora de combinações e repetições (por vezes de grande extensão) e também a organizar o texto em forma de pauta polifónica, em verso e, nalguns casos, com omissões e erros que se percebem ser intencionais.
Existem momentos hilariantes, outros monótonos e até mesmo irritantes. Uma tristeza que atravessa toda a obra, quer pela solidão e pobreza de Watt, quer pelo desencontro de personagens e ainda em virtude destas frequentemente serem portadoras de alguma deficiência: física, psicológica ou carência emocional e financeira que as torna feias, porcas, mas não más.
Um livro bem diferente, por vezes divertido, mas noutros de difícil leitura cujo absurdo o torna incompreensível. Diz-se que Beckett usou a escrita criativa de Watt como uma forma de escapar à loucura quando estava escondido do nazismo em França. Contudo, eu não consegui parar de ler e diverti-me muito em alguns momentos da narrativas, noutros foi mesmo sofrido.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"A verdade sobre o caso Harry Quebert" de Joël Dickers


Terminei a leitura do romance de suspense e policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert" do suíço francófono Joël Dickers. Um livro vencedor de numerosos prémios literários: Prix de la Vocation Bleustein-Blanchet, o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, o Prémio Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para Melhor Romance em língua francesa. Na generalidade está-se perante uma obra essencialmente de entretimento, mas com uma trama bem elaborada, uma escrita literária cuidada além da investigação criminal. Em paralelo mostra a pressão  que por questões de mercado o mundo editorial atual exerce sobre os escritores, as angústias do autor e as táticas de promoção em que estes se veem embrulhados por quem coloca os livros no mercado. Assim, estamos perante um livro que discute as angústias dos escritores com obras de sucesso.
Em 1975 Nola é vista a ser perseguida e pouco depois dá-se o homicídio da testemunha e o desaparecimento da moça. Mais de trinta anos depois Marcus, um jovem escritor cuja primeira obra foi um sucesso que se atolou no gozo da fama, sente-se sem inspiração e é pressionado pelo editor pela obrigação de fazer um segundo livro. Decide socorrer-se do seu antigo professor, Harry Quebert, que já teve uma obra de sucesso e o ensinou a ser autor, mas de repente algo leva a que o seu mentor se torne suspeito de ser o criminoso de Nola. Parte então para a cidade de Aurora para demonstrar a inocência do seu amigo, mas o caso não é simples: uma antiga relação amorosa com uma menor, o envolvimento de um grandes empresário, provas contraditórias que apontam para Harry, além de muitas feridas de relações de ódios e ciúme antigos e investigações policiais viciadas complicam tudo. Em paralelo a comunicação social propaga estes escândalos a todos os Estados Unidos. Marcus vê-se com a ajuda de um polícia estadual numa sucessão de descobertas chocantes e reviravoltas que nos vão surpreendendo até ao final do romance, enquanto a editora quer o máximo proveito da situação com a exposição pública de Marcus só sanável com o cumprimento contratual de escrita de um livro que deverá explicar toda a verdade e descobertas. A pressão da investigação e da publicação cruzam-se num universo de escritores modelos que também são capazes de atos condenáveis.
A obra deixa-nos quase sempre em suspense e a ser surpreendido até ao fim e apesar do género policial está cuidadosamente escrita e pontuada com numerosas reflexões sobre a escrita literária e as ambições editoriais que desrespeitam a arte e o interesse público. Fácil leitura e recomendo a qualquer tipo de leitor.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

"Bilhar às Nove e Meia" de Heinrich Böll


Citação
"nem mesmo os assassinos eram sempre assassinos, não o eram a todas as horas do dia e da noite, havia a hora de descanso do assassino, como havia o período de descanso dos ferroviários;"

Li "Bilhar às nove e meia" do alemão Heinrich Böll, prémio Nobel da literatura de 1972, um romance que mostra o sofrimento de alemães do início do século XX até 1958. Cidadãos pacifistas ou não subservientes ao regime ditatorial e vítimas de duas guerras, bem como as feridas psicológicas que ficaram após o termo da última.
A ação decorre ao longo do dia 6 de setembro de 1958, mas com recordações narradas desde 1907 em torno dos membros de três gerações de Fähmel: Heinrich, Robert e Joseph; pai, filho e neto, todos arquitetos e com papel ativo  na abadia de Santo António perto de Colónia; as mulheres dos dois primeiros, a namorada do último e sua irmã, a que se juntam amigos e inimigos nas questões de regime e das guerras, tendo Heinrich perdido 6 dos seus sete filhos neste meio século.
Tudo começa por uma transgressão da secretária de Robert, instruída para só o interromper entre as 9 e meia e as 11h se os envolvidos fossem o pai, a mãe, o filho, a filha ou o sr. Schrella que ela desconhece. O patrão repreende-a e Heinrich acalma-a e convida-a para o seu aniversário naquele dia. Descobre-se que às 9 e meia Robert se fecha num hotel para jogar bilhar, uma fuga para recuperar dos traumas do passado. Aos poucos entramos nas memórias de cada um e vai-se tomando conhecimento da difícil história dos Fähmel, iniciada na juventude do provinciano Heinrich após a vitória no concurso, perante consagrados arquitetos, para a construção de uma abadia, o que lhe permitiu riqueza e casamento na cidade com a filha de Kilb.
Três gerações de pessoas onde uns adotaram o caminho da paz: os filhos do cordeiro; e outros optaram pelo oposto e comeram: o sacramento do búfalo que perseguiram os primeiros e mataram. A história decorre em 1959 à sombra da torre de São Seferino o passado é marcado pela construção, destruição e reconstrução da abadia sempre com a intervenção dos arquitetos Fähmel e só para a festa de aniversário no fim de 6 de setembro o Sr. Schrella se encontra com Robert.
A escrita por vezes é rica de diálogos e essas páginas são muito fáceis, mas as narrativas do passado são constituídas por parágrafos muito extensos com conteúdo de difícil apreensão e cheios de simbolismos e referências cristãs, onde as memórias que fluem e se intercalam para completar o passado como peças de um puzzle que se vai montando. Cada capítulo centra-se numa personagem e suas memórias face ao presente; já depois da guerra, da ditadura e dos lobos vestirem pele de cordeiros e manterem-se no poder com dolorosos efeitos nas vítimas.
Sem dúvida um romance muito denso, rico de conteúdo e com páginas difíceis que despertam interesse em descobrir o que escondem das feridas e atos loucos. Gostei de ler, recomendo a quem gosta de textos que dão alguma luta enquanto oferecem reflexões sobre as questões da sobrevivência do bem perante o mal que grassa na sociedade.