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quarta-feira, 30 de março de 2022

"O teu rosto amanhã" Vol. I - Febre e Lança - de Javier Marías

 

Excertos

"tudo tem o seu tempo para ser acreditado, até o mais inverosímil e o mais anódino, o mais incrível e o mais ignorante."

"Há uma obsessão por compreender o odioso, no fundo há uma malsã  fascinação por isso, e com isto faz-se um imenso favor aos odiosos. Eu não compartilho essa curiosidade infinita do nosso tempo..."

Há muito que ouvia falar do espanhol Javier Marías como um dos escritores mais originais da atualidade, mas só agora me decidi a descobrir e logo através da sua obra mais extensa: o romance de três volumes "O teu rosto amanhã". No primeiro tomo duas partes do romance: "Febre" e "Lança".

Jacques Deza, começa a obra a explicar a importância de estar calado, de nunca se contar nada, ele, um madrileno recém-separado regressou à Inglaterra para fazer um programa de cultura espanhola na BBC, doutorado na Universidade de Oxford, frequenta a casa de um professor amigo naquela academia, lá é convidado a integrar um grupo secreto. Este procura interpretar o comportamento de pessoas seguidas pelo serviços de informação britânicos e ver-se-á num mundo onde responder, contar e dizer são armas bumerangue que atacam quem fala. Seguem-se reflexões sobre os indivíduos, a importância da comunicação, a pressão social, questões da atualidade, efeitos psicológicos da guerra civil de Espanha e da II Grande Guerra, disserta ainda sobre a sua vida individual, familiar e com quem convive e vai contando, contando, contando memórias ao contrário do que avisara.

A escrita, com um vocabulário rico e culto, cheia de referências linguísticas, é de uma fertilidade de adjetivos e pormenores, sinonímias lexicais que se estendem por longos parágrafos que vão desenvolvendo uma musicalidade em ritmos lentos que é única nos autores atuais que conheço. A densidade dos pensamentos, dos conteúdos desenvolvidos e das referências históricas e culturais tornam o texto como uma versão contemporânea de Proust, Musil temperado com o género de literatura de ficção académica anglo-saxónico típico de Robertson Davies e David Lodge, mas  mais rebuscado que estes.

A narrativa não tem pressa em concluir as ideias e os temas que vai lançando... vai divagando sem se perder no ponto inicial, embora o leitor por vezes se desencontre, mas após uma caminhada mais ou menos longa retoma com um remate final e completa o assunto começado muitas linhas ou páginas antes.

Não será um texto fácil para leitores apressados ou que não apreciem deixar-se passear na beleza do texto saboreando-o para depois chegar à conclusão, é um romance que avança a velocidade lenta, quase de caracol, mas para quem sabe apreciar é delicioso e compreendo porque se diz ser mais um candidato a Nobel, não sei, para mim já atingiu tal nível que não necessita de tal prémio para eu reconhecer a sua grande qualidade... não consigo parar e já adquiri e iniciei o segundo volume.

segunda-feira, 14 de março de 2022

"Vício Intrínseco" de Thomas Pynchon

Excerto

"O quê? Só devia confiar nas pessoas boas? Meu, as pessoas boas são compradas e vendidas todos os dias. Mais vale confiar em alguém mau, de vez em quando, não faz nem mais nem menos sentido. Quer dizer que dava a mesma hipótese a ambos os lados.

Acabei de ler o meu segundo livro do escritor americano contemporâneo, de estilo pós-moderno, Thomas Pynchon: Vício Intrínseco. Passado nos anos de 1970, Doc Sportello, é um detetive privado, viciado em marijuana que entre as suas alucinações, passagem por bares, cervejas, mulheres várias e confronto com a polícia que persegue hippies e drogados na região de Hollywood e tem nele um alvo, faz investigações de raptos e crimes, embora por vezes ele confunda a realidade com os devaneios provocados pela erva. No início é visitado por uma sua ex-namorada a dizer que o seu amante riquíssimo está em vias de ser raptado ou assassinado pela esposa e respetivo amante e sai em seguida. Só que ambos desaparecem e Doc entra a investigação num mundo de droga, tráfico, hippies, polícias, crimes e justiça feita fora das regras legais e infiltrados em redes mafiosas.

O romance monta como um puzzle a Califórnia de então, o movimento hippie cheia de droga, gente do cinema, muitas referências a grupos musicais reais e músicos de então, trajes e cortes de cabelo, a contestação ao Vietname e o choque cultural da época. Contudo a narrativa não é linear, típico no movimento pós-moderno, existem mudanças bruscas de ambiente de reais para alucinatórios, muitas personagens, entrada na mente do protagonista que nem sabe se está a assistir a factos reais ou a efeitos da droga, o que faz com que o leitor se possa perder, mas vale a pena prosseguir pois as peças vão-se ligando no meio deste labirinto de cenas ora psicadélicas ou com humor negro, ora de crítica social, ora de entrada no submundo da prostituição, tráfico de droga ou de influências, interesses imobiliários, polícias corruptos e os que não olham a meios para alcançar a vingança ou limpeza de uma sociedade que consideram decadente e bons e maus marginais e personagens que são caricaturas originais. 

Não é fácil seguir a história, mas diverti-me e por isso valeu a pena a leitura, um policial onde nem sempre sabemos se houve de facto crimes e assassínios, umas vezes sim, outras não, faz parte da linguagem labiríntica da obra.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

"Putas Assassinas" de Roberto Bolaño

 

Citação

"Uma pessoa nunca acaba de ler, embora os livros acabem, da mesma maneira que uma pessoa nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um dado certo."

"Putas Assassinas" é um livro com 13 contos do escritor chileno Roberto Bolaño, de quem só tinha lido, há muitos anos, o romance que foi um sucesso de vendas quando publicado no início deste século: "2666", que deu a conhecer a todo o mundo este autor já pouco depois da sua morte.

Nestes contos sente-se a a referência frequente a aspetos autobiográficos do escritor, que parece ser o narrador de quase todos eles. Assim, temos relatos com a família na cidade México na sequência da fuga desta do Chile devido ao golpe de estado que derrubou Allende. Há textos com acontecimentos intercalados com reflexões pessoais sob a vida difícil dos poetas e escritores chilenos de esquerda devido à perseguição da ditadura. Em três contos acompanhamos a vida errante de B em vários locais da Europa, nomeadamente Barcelona, onde Bolaño viveu grande parte da sua vida. Temos narrativas que são contadas a ele de experiências passadas por outros refugiados. Os contos sobre terceiros são autênticas descidas ao inferno negro no mundo da prostituição, pornografia e até abusos, não sexuais, de crianças na Índia associados a ritos e crenças religiosas. Certos contos são de uma negritude extrema mas com uma escrita cativante que mesmo no relato do horror dá prazer ler o texto. Não sei se muitas dos nomes referidos nos contos são poetas reais ou ficcionais, mas o conjunto dá a conhecer a dificuldade deste tipo de autores, onde muitos passam incógnitos e com dificuldades pela vida literária, numa luta pessoal pela sobrevivência artística e individual.

Gostei do livro, alguns contos tocaram-me mais do que outros, por vezes existem referências a atos de depravação sexual e uso de termos grosseiros associados, mas nada de erótico, apenas um retrato duro e difícil da vida porque muita gente passa sem o autor fazer uma abordagem moral do assunto. No campo político, a obra é marcadamente de esquerda e honra as vítimas das ditaduras na América hispânica e embora o autor dê a entender que o seu poeta de eleição não seja Neruda, esse surge como um farol no Chile.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

"Quarteto de Havana I - Ventos de Quaresma" de Leonardo Padura


Acabei de ler o segundo romance do primeiro volume do Quarteto de Havana do escritor cubano Leonardo Padura: "Ventos de Quaresma", outro policial protagonizado por Mário Conde, tenente da esquadra central de Havana que sonhava ser escritor e se tornou polícia de investigação criminal. Sobre o anterior obra podem ver o texto aqui.

Havana sofre os efeitos da fustigação habitual de ventos intensos e penetrantes que costumam sentir-se pela época da quaresma na cidade, neste ambiente, pouco a seguir a se cruzar na rua com uma mulher por quem se sente imediatamente atraído, é entregue a Mário Conde o caso do assassinato de uma jovem professora da escola pré-universitária de que ele fora aluno anteriormente. A vítima é alguém da juventude do partido e cidadã exemplar para as novas gerações. Ao longo da investigação, o tenente vai descobrir ligações promíscuas desta docente ao elenco diretivo, ao mercado negro, ao mundo da droga e, inclusive, a ultrapassagem dos limites éticos de intimidade com certos alunos. Entretanto, sob a pressão deste vento contínuo, o investigador deambula entre as suas recordações da escola, a amizade com os colegas, sobretudo o gordo Magricela (tornado inválido na guerra de Angola) e a necessidade de satisfazer a sua paixão aguda e perturbadora por aquela mulher que toca saxofone, enquanto a sua vida prossegue o crónico percurso decadente com amigos frustrados com a vida que afogam as mágoas no álcool, na comida, no beisebol e nas recordações dos tempos de sonho em que eram estudantes.

Padura tem uma forma única de escrever a decadência culta das suas personagens, onde, em simultâneo, transpira a banalidade da vida comum e vazia das classes que sobrevivem com as dificuldades do dia-a-dia e a elegância e o cuidado de um bom escritor que junta o discurso e pensar banal ao pensar culto e escrever literário. A forma de descrição dos efeitos do vento sobre as pessoas e Havana, bem como a denúncia discreta dos problemas sociais do regime, sem ofender este último, e os vícios privados da sociedade e das suas personagens, dão-me um grande prazer na leitura da sua prosa, uma vez com tons poéticos e elevados e outros de elogios dos prazeres decadentes. Um livro que não se fica por ser um policial mas também é uma texto literário. Gostei.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

"As mil e uma noites" Volume 2

 

Acabei de ler o segundo volume da tradução feita pela E-primatur da coletânea de contos que constituem a obra "As mil uma noites" e com a informação de se basear nos manuscritos mais antigos desta. Este conjunto é composto de 3 volume e já falara aqui do primeiro quando o lera.

O presente volume é a continuidade do anterior a partir da narrativa de Xerazade na 102.ª noite  como mulher de Xariar e vai até à 282.ª. Cada conto, por norma atravessa noites sucessivas, sendo interrompidos muitas vezes em momento de suspense com a confissão à irmã Dinarzade de que haverá muitas mais a contar se o príncipe lhe poupar a vida, uma estratégia de lhe alimentar a curiosidade e a poupar a sua morte como costumava fazer às suas mulheres após a noite de núpcias. Frequentemente, a mudança de de uma para outra história diferente faz-se também a meio da narrativa noturna para assim manter a suspenso com a nova e o interesse de Xariar.

Ao contrário do primeiro volume, neste poucos contos são curtos e raramente têm uma lição de moral no seu cerne, sendo comum a beleza dos jovens, o luxo das elites, a atração sexual como normalidade, os atributos físicos das mulheres dependentes de ricos que evitam o acesso ao exterior e o erotismo da narrativa que entra em choque com a ideia atual de um islamismo muito conservador e casto. Aqui o enlace no casal apaixonado, nem sempre com o laço matrimonial, é visto frequentemente como um prémio e sem a censura de moral religiosa, mas sempre sujeito à bondade do deus altíssimo e as referências ao Corão são muitas. Nem todos os contos são fantásticos, mas os mais extensos são dominados pela fantasia e personagens mágicas.

O texto que intercala narrativa em prosa com passagens complementares em verso, procura verbalizar a linguagem oral ao estilo antigo. Existem muitas notas sobre a escolha de determinados termos na tradução, explicações de vocabulário, de costumes da época e referências a correções e adoção de excertos de edições antigas de diferentes regiões geográficas do médio oriente de modo a tornar coerente o discurso e consistente o conto.

Fácil de ler, embora, por vezes, me cansei do excesso de pormenores de luxo, gastronomia rica, beleza e fantasia, mas isto resulta do estilo da obra original que procura entrar num mundo que vai muito além da realidade e procura ir ao encontro da imaginação de estratos sociais ricos, belos e cheios de luxo que estariam na base da felicidade e justiça na idade média no médio oriente no seio da cultura islâmica de então.

Pelos dados transmitidos até ao final deste volume, o terceiro completa histórias já narradas que têm outros desenvolvimentos e variantes noutras edições das Mil e Uma Noites e textos com informações gastronómicas e de costumes muito referidos nestes 2 volumes mas pouco desenvolvidos. Um tomo para completar a visão do conjunto que foi esta obra e das variantes que havia no passado, sendo que não há contos para além da 282.ª noite, muito longe do total de 1001 que se poderia depreender do título. 

Gostei, vale a pena ler para compreender como no início do segundo milénio os árabes eram bem diferentes daquilo que são hoje em termos de mentalidade.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

"ULISSES" de James Joyce

                                    

Tentei ler o romance "Ulisses" do irlandês James Joyce, considerado um marco na literatura contemporânea pela sua forma revolucionária de escrita e o recurso ao fluxo da consciência, obra que este ano celebra 100 anos de publicação.

O romance não tem um enredo linear, vai narrando cenas que decorrem ao longo de um dia desde o pequeno almoço (sabe-se ser 16 de junho de 1904) de várias personagens que se cruzam em Dublin por serem colegas, partilharem espaços comuns ou irem a acontecimentos ao longo de 24h e termina na madrugada seguinte. Entre as várias personagens, Harold Bloom é a mais presente e por isso o protagonista da obra, sendo em torno dele quem o texto mais se centra e na sua vida pessoal, nomeadamente a sua mulher soprano que o trai. Há personagens que surgem em várias momentos diferentes e outras são meros aparecimentos acidentais neste percurso. Na primeira centena de páginas ocorrem cenas de preparação do pequeno almoço, passeio por uma praia, ida a um talho, entrada numa igreja, participação num funeral de amigo, discussão na redação de um jornal, entrando nós nas reflexões pessoais da personagem central da cena e de outras, bem como de acontecimentos lhe vêm à memória ou discussões sobre o relacionamento da Irlanda e sua sociedade com o Império em que ainda estão integrados.

A escrita flui à semelhança do dia, ora descrevendo o meio, ora expondo as reflexões, ora entrando nas memórias, ora expondo diálogos e muitas vezes com referências bíblicas, aos clássicos da Grécia antiga, às obras de Shakespeare ou a factos históricos. Ao longo do parágrafo pode ocorrer mudanças bruscas mesmo de sujeito, de tempo ou de assunto em sequência onde o leitor se pode perder e reencontrar, ou não como me aconteceu por vezes ou referências a outras momentos do texto.

Assumo, gosto de obras desafiantes difíceis e várias delas até me cativaram e me marcaram e me divertiram, como "O homem sem qualidades" de Musil, o conjunto de "Em busca do Tempo Perdido" de Proust, ou "A Piada Infinita" de Foster Wallace e até mesmo "A divina Comédia" de Dante, entre outros. Em todos os livros que acabo de citar entrei com medo e depois cativaram-me, mas este Ulisses não. Não sei se mais tarde darei continuidade à leitura e possa algum dia vir a tirar gozo da leitura deste romance, para já não tirei qualquer prazer, nem interesse. Motivos suficientes para interromper na página 168 quando ainda faltavam outras 562, não me submeto aos críticos da literatura que endeusarem esta obra, não estava a gostar minimamente e pronto.

Não recomendo a quem goste de apreciar uma história ou uma escrita agradável pela sua elegância e poesia. Salvou-se a capa desta edição que para mim é linda.

sábado, 22 de janeiro de 2022

"A Laranja Mecânica" de Anthony Burgess

 

Citação

"Será porventura um homem que escolhe o mal de certa forma melhor que um homem ao qual foi imposto o bem?"

Acabei de ler "A Laranja Mecânica" do inglês Anthony Burgess escrito na década de 1960 e adaptado ao cinema por Kubrik, não considero uma obra de ficção científica, mas é sem dúvida uma obra distópica, uma reflexão sobre a violência juvenil e dos limites do Estado para impor-se aos cidadãos para controlar essa mesma violência.

Alex narra a sua vida de adolescente e líder de um gangue cuja vida noturna era atacar cidadãos pacíficos, roubar e violar mulheres, para durante o dia ter uma vida mais calam ou de ressaca da noitada. Só que num desses atos é preso por homicídio. Pela sua idade o detido é convidado para cobaia de um método psiquiátrico sem o informar plenamente das suas consequências. Estas retiram-lhe o livre arbítrio pois torna-se incapaz de fazer o mal a outros por uma indução de indisposição no exercício de tal prática. Sendo ainda alvo de aproveitamento político depois destes danos.

A obra, um clássico da literatura distópica, tem a particularidade de estar escrita com recurso a uma gíria (denominada Nadsate) que Burgess criou, a qual procura evidenciar o linguajar hermético da adolescência e também  como em literatura este tipo de vocabulário não é utilizado, contudo a leitura torna-se no início difícil, havendo um dicionário no fim para dar apoio ao leitor. Todavia a dinâmica que o autor imprime ao texto, se houver habituação aos vocábulos, a leitura torna-se não só fluída como nos faz entrar na mente de um adolescente.

O filme que vi pela primeira vez há várias décadas é um dos filmes que mais me marcou até hoje e o livro ainda é mais impressionante, mas pode não ser uma obra fácil de ler devido a série de atos de violência física ou psicológica ao longo da narrativa, além do Nadsate... mas gostei muito do livro

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

"SAPIENS - História Breve da Humanidade" de Yuval Noah Harari

 

Acabei de ler, em E-book, o ensaio "Sapiens História Breve da Humanidade" do israelita Yuval Noah Harari. A obra tenta mostrar como a nossa espécie, saída da evolução biológica e, como tal, refém da física e da biologia, evoluiu através das revoluções cognitiva, agrícola e, recentemente, científica e tecnológica, se libertou de muitas amarras da natureza e está em vias de ser criadora de um novo Sapiens e, por isso, o deus criador de um novo "Homem". Daí o subtítulo "Sapiens de Animais a Deuses".

Escrito de uma forma vibrante, cada capítulo narra uma parte marcante da história da humanidade onde o homem dá um salto e se torna mais distinto das outras espécies animais, construindo mundos diferentes que levantam novos desafios físicos e questões éticas e morais, mas que, à primeira vista, parecem benéficos para a espécie, mas Harari duvida do seu contributo para um homem mais feliz.

A questão da felicidade e a vontade de vencer a morte é recorrente na obra. O autor questiona se com esta evolução não estamos a ficar cada vez mais escravos e menos felizes, havendo ainda o risco de o Homo sapiens, na sua busca de felicidade e vitória da morte, estar prestes a construir um outro Homem que, apesar dos sonhos que temos, pode resultar num monstro destruidor da própria humanidade.

A ideia lançada neste livro do Homem criador de um novo homem e, por isso, num papel de deus, levou a um outro ensaio posterior que foi o primeiro ebook que li do autor: "Homo Deus", que perspetiva o futuro, e, tal como neste, são obras que assumidamente negam o deus sobrenatural e redefinem o conceito de religião como qualquer ideologia ou crença que defenda absolutamente as suas verdades independentemente de acreditar no transcendental. Este aspeto é muito bem justificado por Yuval Noah Harari, o autor que mais tem contribuído para o meu caminhar para o agnosticismo, por isso a obra pode chocar crentes em ideologias ou religiões.

Muito fácil de ler e acessível a qualquer leitor que goste deste tipo de temas ou se questione sobre a humanidade.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

"O Quarteto de Havana I - Um passado Perfeito" de Leonardo Padura

 

Acabei de ler o romance policial "Um Passado Perfeito", escrito pelo cubano Leonardo Padura. Este faz parte com outras três obras do mesmo género e independentes entre si do designado "Quarteto de Havana", que foi editado em dois volumes, cada um contendo 2 casos de investigação protagonizados tenente Mário Conde.

Num sábado de madrugada Mário Conde em ressaca da noitada é acordado pelo seu superior para investigar o desaparecimento de um quadro superior de uma empresa pública de importações, eis que ele se apercebe que se trata do seu colega exemplar e ambicioso da escola pré-universidade que, além de ter subido alto na vida, lhe roubou a sua colega bonita e de boas famílias por quem sempre esteve apaixonado. No desenrolar o seu trabalho vai contactar com a mulher dos seus sonhos, as memórias do passado com companheiros de ensino e lutar com o preconceito e desconfiança da perfeição daquela estrela ascendente, avivando sua paixão pela mulher dos seus sonhos e suspeita no desaparecimento.

Passado no final da década de 1980, quando a União Soviética começa a ruir, Padura mostra a decadência do seu protagonista, um homem culto, escritor falhado que virou a polícia, mergulhou no álcool face às suas frustrações, desamores e dificuldades do país: uma metáfora, sem hostilizar o sistema político, que mostra as fragilidades e consequências sociais do castrismo, pondo a nu a pobreza em Havana, expondo vítimas das intervenções militares de Cuba em Angola em nome do comunismo e o frequente sonho de muitos fugirem para o estrangeiro que lhes é inacessível, enquanto uma elite procura subir no setor público através de mecanismos pouco lícitos e permanentemente sob a vigilância do partido único que não consegue eliminar a corrupção e as vigarices. 

Uma escrita realista, escorreita da decadente sociedade e das suas personagens centrais. Lê-se muito bem e onde o estilo policial é uma ferramenta de apoio para mostrar Cuba, assim vai muito além de um simples romance de investigação criminal. Gostei e é fácil de ler, sem ser literatura banal ou de cordel.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

"O Mistério de Sittaford" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um livro do género policial da genial escritora inglesa Agatha Christie: "O Mistério de Sittaford".

Numa pequena aldeia isolada, durante um nevasca, um grupo de vizinhos reúne-se em convívio e decide fazer uma sessão de espiritismo onde é anunciado o assassinato de Trevelyan que se encontra a 10 km de distância, imediatamente o seu maior amigo não deixa passar o assunto em branco e vai a pé confirmar o facto. Depois disso, o inspetor Narracott decide prender um sobrinho da vítima endividado que o foi visitar à hora do crime e fugido, mas a namorada deste está convicta da sua inocência e com um jornalista decide investigar até à descoberta da verdade.

Este é um dos romances de Agatha Christie onde a investigação não é protagonizada pelos seus personagens mais comuns: Poirot e Miss Marple, o que é bom, pois imprime um estilo diferente sem perder o suspense típico desta escritora que possui uma escrita escorreita mas nunca com a genialidade da sua criatividade da literatura policial.

Um romance de entretenimento simpático, fácil que gostei e recomendo a qualquer leitor, sobretudo aos amantes do género policial.

sábado, 18 de dezembro de 2021

"AUGUSTUS" de John Williams

 


Excerto

"Os princípios fortes emparelhados com uma disposição azeda podem ser uma virtude cruel e desumana."

Acabei de ler a obra ficcionada e vencedora do Book Award de 1973 do americano John Williams "Augustus".

Um romance histórico que faz uma biografia do imperador romano César Augusto, cujo nome era Caio Otávio. A grande particularidade desta ficção é o seu género epistolar, toda a vida do protagonista resulta  da montagem das cartas de intervenientes que falam do imperador ou da sua vida pessoal sob a influência deste e inclusive missivas do próprio Augusto a falar das suas decisões, sentimentos e impressões das pessoas com quem estava envolvido.

Sendo Augusto uma personagem histórica os principais aspetos e figuras secundárias estão condicionados aos factos do passado, contudo o autor assume a sua criatividade em muitos assuntos e algumas acomodações para servir à sua obra. Assim compreenderemos a relação de Marco António e Cleóptera e os objetivos desta como rainha de Egito e amante de senhores de Roma, perceberemos como Augusto conquistou o poder e dominou durante meio século o império e o combate com os seus maiores adversários e assassinos de Júlio César. Tomamos conhecimento do modo de vida romano com os seus vícios, virtudes e abusos bem como a gestão política e militar do império. Sentiremos o choque com a forma como as mulheres da nobreza eram instrumentos políticos dos líderes e como estas poderiam sofrer com isso ou levar uma vida lasciva para compensar a sua necessidade de subserviência à sombra dessas funções. Foi um prazer contactar com os grandes mestre da cultura clássica a descreverem a sua época e a falar da sua obra: Horácio, Virgílio, Mecenas, Ovídio, Estrabão e Nicolau de Damasco, todos eles contemporâneos e próximos de Caio Otávio.

Estilisticamente o autor independentemente da sua grande qualidade de escrita literária, tem o cuidado de elaborar textos com estilos distintos para assim sentirmos as personalidades e as capacidades distintas, as cartas dos pensadores, da filha Júlia de Augusto e de generais ou conspiradores mostram a diversidade e versatilidade de John Williams o que torna este romance não só um retrato de época como uma mostra das capacidades literárias do escritor.

O excerto escolhido, atribuído a Ovídio numa das cartas desta ficção, apenas é contrariado na obra pelo facto de ser necessário qualquer azedume para que a aplicação de princípios, concordando-se ou não com eles, puder ser cruel e desumana como se viu em muitas das decisões de Augusto nesta obra.

Um excelente livro que recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"A Irmã de Freud" de Goce Smilevski

 

Acabei de ler o romance premiado com o prémio de Literatura da União Europeia em 2010 e escrito por Goce Smilevski da Macedónia "A irmã de Freud".

O livro ficciona as memórias de Adolfine, irmã do psicanalista Sigmund Freud, a única que não se casou e teve problemas de adaptação social e psicológicos. No início da obra, vemos que Freud quando escapou do regime nazi em Viena e partiu para Londres, viagem assegurada por corredores diplomáticos, excluiu da sua comitiva de pessoas a salvar as suas irmãs, tendo estes familiares morrido nos campos de extermínio.

Adolfine, que tivera um relacionamento na infância muito próximo e intenso com Sigmund, vai então recordar toda a sua vida desde a criança até à câmara de gás: descobrimos a hostilidade da mãe por ela ser diferente; lemos uma paixão secreta com um infeliz adotado; partilhamos a amizade com a ativista feminista Klara Klimt, irmã do pintor com o mesmo apelido e perseguida socialmente; a apercebemo-nos dos comportamentos disfuncionais e sofrimentos na família Freud; compreendo-mos o refúgio da protagonista numa clínica psiquiátrica com Klara; e vmos ainda nos surpreender com o encontro no campo de concentração com uma irmã de Kafka. Sendo um romance não sei exatamente onde começam os factos e entramos no mundo ficcionado.

Toda a obra é um desfile filosófico sobre questões das origens e das necessidades psicológicas da crença, se esta cobre a necessidade humana de justiça num mundo injusto, se o comportamento social e individual é para fundamentar o fim da vida ou dos traumas do inconsciente, sobre o que é a normalidade e a loucura e as razões desta, bem como muito do pensamento de Freud que, apesar de ser o pai da teoria da psicanálise moderna, é alguém cheio de falhas e de comportamentos disfuncionais dos quais Adolfine terá sido uma vítima e não uma louca, mas sim um exemplo de racionalidade que questiona Sigmund.

O texto é todo ele um poema permanente, mas atravessado constantemente pela tristeza, solidão e as incertezas das razões de se viver neste mundo. As descrições do comportamento na clínica psiquiátrica e do que é a loucura, bem como a permanente insatisfação de Adolfine neste mundo disfuncional e a definição do que será a morte estão cheias de beleza, aliás, esta última é o consolo da vida segundo o livro. Freud não fica bem no romance e as personagens normais parecem bem inferiores do que a inadaptada e infeliz Adolfine.

Gostei do livro, da escrita e das inúmeras questões levantadas... mas não deixa de ser uma obra cuja leitura  transporta uma beleza que dói ao leitor.

domingo, 14 de novembro de 2021

"José e os seus Irmãos - As histórias de Jaacob" de Thomas Mann

 

Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "José e os Seus Irmãos - As histórias de Jaacob" baseado na personagem do antigo testamento José e considerada a maior obra deste escritor alemão laureado com o prémio Nobel da literatura.

Thomas Mann pega nas narrativas bíblicas em torno de José para as romancear e as ampliar, reconstituindo a vida dele e das personagens à sua volta como: o pai, a mãe, os irmãos, os avós, recuado aos patriarcas, e outras figuras referidas no antigo testamento e ainda fazer reflexões sobre a época, o nascimento do monoteísmo e judaísmo num médio-oriente politeísta e dividido por múltiplos pequenos reinos bordejados pelo Egito, além de tomar a liberdade de tentar corrigir eventuais erros históricos ou até mesmo questionar a tradição dos textos sobre o que então se passou.

No primeiro romance, depois de um prelúdio em estilo de ensaio sobre a neblina do passado e a época e a dificuldade em distinguir factos e a especulação, onde eu senti grande dificuldade de leitura e desisti, seguem-se sete histórias. Na primeira conhecemos um José excessivamente belo, curioso por descobrir o seu papel entre a mitologia pagã e o Deus do seu pai com quem reflete sobre isso, a sua má convivência com os irmãos por se sentir predestinado e por estes saberem-no predileto de Jaacob com quem tem um diálogo entre a ambiguidade do paganismo e monoteísmo com o fascínio do pai pelo filho que é quase um ensaio sobre a passagem do mundo politeísta ao de Javé. A partir deste capítulo, os restantes episódios são centrados em Jaacob, com os seus defeitos e a consciência de estar destinado a ser gerador da linhagem do povo de Deus, o que lhe serve de guia para os seus atos, nem sempre louváveis, mas justificáveis a esse fim. Assim saberemos do sonho de Jaacob; do episódio infeliz de Dina devido à malvadez dos filhos mais velhos de Jaacob; do roubo deste da benção da primogenitura de Isaac a Esaú; da sua fuga para oriente e servidão em casa de Labão, seu tio e sogro, por amor a Raquel; como foi ludibriado em casar com Lia antes de consumar o casamento com Raquel, a sua amada; a rivalidade entre as irmãs Lia-Raquel; e o nascimento de José e de Benjamim com a morte da mãe. 

No fundo, todas as narrativas em parte são de excertos bíblicos que são reconstruídos e alvo de análise filosófica e teológica e muitas vezes reexplicados sobre um outro prisma ou reinterpretação da narrativa. Muitas vezes pode ser incómodo para quem segue literalmente o conteúdo bíblico como factos históricos que aqui são por vezes desmontados ou mesmo alterados com justificação para essa reconstrução. O texto é muito descritivo e denso, por vezes com parágrafos de várias páginas, mas de grande beleza plástica, só que nem sempre de fácil leitura, mas confesso que com o decorrer desta me fui entusiasmando e embora conhecedor do que é contando no antigo testamento a curiosidade de como Mann tratou o assunto despertou-me suspense na leitura.

Gostei e recomendo a quem gosta de leituras profundas, mas não é um livro fácil e após um intervalo espero voltar a esta tetralogia de modo a perceber a evolução da narrativa que já sabemos irá até ao Egito e à subida de José até principal conselheiro ou ministro do faraó.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

"O Mistério do Comboio Azul" de Agatha Christie

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie "O Mistério do Comboio Azul". O multimilionário americano Van Aldin compra secretamente um rubi valioso em Paris, mas logo no momento é alvo de uma emboscada de que consegue escapar sem perda da pedra preciosa para oferecer à sua filha para a compensar da sua má relação com o marido interessado no dinheiro dela e com uma amante. Para resolver a situação o pai impõe o divórcio mas descobre que a sua herdeira também tem telhados de vidro por ter um amante de reputação duvidosa. Ao encontro do seu amante no sul de França viaja a filha no comboio azul onde se encontra com uma jovem dama de companhia que acaba de receber uma grande herança, esta curiosamente cruza-se com Poirot, mas ao chegar-se ao destino descobre-se que não só a filha foi assassinada como o rubi foi roubado, Quem de facto viajava no comboio e quem teve oportunidade de cometer o homicídio, quem lucrava? Terá sido o roubo e o assassinato cometido pela mesma pessoa? Poirot e Miss Grey irão cooperar naquilo que é para esta uma aventura real dos livros policiais que julgava apenas possíveis em ficção.

Como todas as obras de Agatha Christie, após pistas verdadeiras e erradas e suspeitos vários, no fim o génio Poirot não só consegue desmontar os factos, como a obra conduz a um mundo mais justo, onde os maus são castigados e os bons recompensados. Fácil de ler, gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.

domingo, 17 de outubro de 2021

"As Regras de Cortesia" de Amor Towles

 

Citação

"...sei que as escolhas certas são, por definição, o meio através do qual a vida cristaliza a perda."

Acabei de ler o romance "As regras de cortesia" do norteamericano Amor Towles, este é o segundo livro que leio desde escritor onde, com elegância através da narrativa, se percebe o sonho das personagens preservarem ou a lutarem por alcançar ambientes de luxo e o bem-estar das classes mais abastadas da sociedade, mas no respeito de uma ética e valores tradicionais.

Decorre a noite da passagem de ano de 1937/38 no coração de Manhattan Catherine Kontent e sua amiga Eve quase sem dinheiro nos bolsos procuram divertir-se, cruzam-se com um jovem de grande delicadeza e aspeto de riqueza, travam amizade da dá-se início a um ano de transformação total nas duas amigas, incluindo o convívio com gente afortunada enquanto a Europa mergulha na guerra. Afinal em Nova Iorque há espaço e oportunidade para todos os sonhos, enganos e desilusões Katey verá o melhor e o pior a que as pessoas podem escolher para satisfazer os seus anseios e a cortesia também pode ser uma das ferramentas para se atingir as metas da vida.

Uma narrativa que numa primeira perspetiva parece ser uma história cor de rosa e oca adequada à literatura romântica, ao glamour de gente socialite mas que no fundo está cheia de reflexões éticas e morais sobre as escolhas da vida, referência a clássicos da literatura, exposição da cultura musical dos anos 30 nos EUA e assim consegue compatibilizar a elegância e o entretenimento com uma análise sociológica e abordagem aos valores individuais, algo que este escritor fez com mestria nos dois romances que dele li. Gostei e recomento.

sábado, 25 de setembro de 2021

"Os treze Enigmas" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o livro "Os Treze Enigmas" da escritora inglesa Agatha Christie. Este corresponde a 12 narrativas curtas de crimes contados em serões de duas casas pelos presentes e onde o narrador, um dos presentes e em rotação entre eles, sabe a solução do mistério, todos os restantes tentarão identificar quem foi o criminoso, mas em todos eles é Miss Marple quem descobre a verdade, tendo em conta o conhecimento que tem da psicologia das gentes de Saint Mary Mead. O 13.º caso, também curto, decorre fora dos serões e corresponde a um homicídio em que alguém está prestes a ser condenado e ela vai falar com um dos intervenientes para que este colabore com a polícia local e informa-o à priori quem é o assassino e logicamente acerta, enquanto o leitor só no fim se apercebe que seguiu uma falsa pista.

Na sua linguagem simples e típica de convívio está-se perante um livro de contos cuja união será serem narrados pelos convivas que partilham os serões e por isso surgem nas várias histórias independentes. O leitor não se apercebe de todas as pistas importantes que Miss Marple sagaz apreende que são muito mais de intuição com base no comportamento humano do que em provas e indícios deixados pelo criminoso. Contudo é um livro de leitura muito agradável que junta 13 mistérios em vez de um único mais extenso e todos ao estilo de Agatha Christie.

Gostei e recomendo. 

domingo, 19 de setembro de 2021

"A Última Noite em Twisted River" de John Irving

 

Acabei de ler o meu segundo romance do escritor norteamericano e recém-cidadão Canadiano John Irving. "A última noite em Twisted River" narra a vida de Daniel Baciagalupo e seu pai ao longo de mais de meio século entre a Nova Inglaterra, Iowa City e Toronto, nas sequência de uma fuga para proteger o filho depois deste, aos 12 anos, com uma frigideira e por um engano, ter morto a amante do pai em Twisted River, New Hampshire, pensando que este estava a ser atacado por um urso.

Se esta introdução parece algo rocambolesca, na verdade a narrativa começa por mostrar a vida dura e arriscada dos madeireiros em meados do século XX no norte do New Hampshire, para quem Domenic Baciagalupo, cozinheiro, trabalhava no refeitório. Ficamos a saber como este conheceu a sua mulher por quem se apaixonou e foi pai ainda adolescente e depois cúmplice num trio amoroso que acabou numa tragédia que se transformou numa amizade enorme entre o amante da mãe e o pai para proteger a criança. 

Depois do homicídio acidental, pai e filho serão alvo de uma perseguição vinda de um polícia louco que os levará a viver por diversos locais, a prestar serviços em numerosos restaurantes, praticar mudanças de nome e veremos o adolescente virar a escritor. Entretanto haverá lugar para numerosas relações com mulheres de diferentes géneros, assistir ao nascimento do neto e ainda ser testemunhas dos maiores acontecimentos históricos dos Estados Unidos entre a guerra do Vietname e o 11 de setembro de 2001.

Todas estas peripécias de vida são tratadas numa exposição realista da vida dos personagens sem freio na linguagem, que por vezes é grosseira, nem tabus morais no relacionamento sexual e ainda com muitas descrições culinárias sem descrever as receitas dos pratos confecionados pelo cozinheiro, mas cujo conjunto vivido por Daniel servirá de inspiração para os seus livros, onde não se inibe de criticar a política norteamericana, nem de expor alguns assuntos fraturantes como o aborto.

É de facto um romance extenso no tempo, no texto e no realismo e entrecruza períodos. John Irving mostra, sobretudo, a força do amor paternal, filial e conjugal, bem como a da amizade humana e ainda dos abalos pela perda de seres amados, sem deixar de reconhecer a omnipresença das relações mais básicas entre as pessoas como a acomodação às necessidade físicas, nomeadamente sexuais, descomprometidas e sem apreciações moralistas, mas cheio de filosofias nascidas da experiência de vida das personagens fortíssimas do livro.

Sim, gostei muito do romance e da sua força, bem como da sua narrativa algo cinematográfica e hiper-realista, mesmo reconhecendo que para isso recorre à linguagem banal e ao calão frequentemente, o que pode chocar alguns leitores, mas não deixa de ser interessante ler técnicas de escrita do próprio autor do livro, inclusive para este mesmo romance e transpostas pela personagem que também é escritor e dos aspetos autobiográficos do autor e até de enquadramento de futuras decisões deste na sua vida real.