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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Utopia" de Thomas More

Provavelmente se passasse por uma livraria e visse o livro "Utopia" de Thomas More, escrito em 1518 não o compraria, apesar de saber o impacto que o mesmo provocou nas mentalidades do século XVI, do seu autor ter sido chanceler mor no tempo de Henrique VIII, deste o ter mandado matar pela sua fidelidade ao papa e mais recentemente ter sido elevado à categoria de Santo pela igreja Católica e um padroeiro dos políticos.
Todavia ao ter-me cruzado com esta obra em ebook gratuito decidi baixá-la e lê-la. Um livro fascinante, onde Thomas More disserta sobre uma sociedade ideal quase perfeita na ilha imaginária de Utopia, País em que há uma partilha responsável do trabalho entre todos, ausência de ócio pernicioso e a segurança e o bem-estar é assumido pelo Estado a um povo tolerante e inimigo das guerras.
Não subscrevo tudo o que Thomas More propõe, talvez nem ele, é um ensaio sobre um modelo ideal de sociedade e sem dúvida que mesmo decorridos quase cinco séculos é ainda um livro revolucionário que vale a pena ler e refletir.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Um Milionário em Lisboa - de José Rodrigues dos Santos

Este romance completa a biografia romanceada e parcialmente ficcionada por José Rodrigues dos Santos de Calouste Gulbenkian e iniciada no título "O Homem de Constantinopla". 
No primeiro romance tivemos as raízes do protagonista aprendiz para a sua vocação comercial desde criança, jovem e no início da sua vida adulta. Agora deparamo-nos com o memso já amadurecido, transformado plenamente num homem perspicaz e visionário para o mundo dos negócios do petróleo e enfrentar os vícios do sistema. Mesmo assim, este foi praticamente sempre um cidadão em fuga de perseguições raciais e culturais, sem nunca deixar de procurar a beleza na produção humana, o que o tornou num dos maiores colecionadores de arte do seu tempo.
O livro tem ainda um importante herói secundário, o filho de Calouste, tão semelhante e forte como o pai e como tal fonte de grandes choques de personalidades de convicções intensas.
Este romance denuncia longa e intensamente a dureza do genocídio arménio no início do século XX no império otomano e a forma como a Europa, sobretudo germânica, povo em relação ao qual o escritor não é nada simpático, fechava os olhos por interesse político. Mostra como nas duas grandes guerras se foi capaz de esquecer gratidões e criar inimigos onde eles não existiam, expõe a maldade reinante no mundo dos grandes grupos empresariais e como Portugal e Lisboa no extremo do continente e na sua pobreza e simplicidade pode ser uma surpresa agradável e cativante para muitos, a tal ponto que o homem mais rico do planeta legou a este País a maior fundação cultural do velho mundo.
Talvez por corresponder a um período mais maduro do protagonista e de guerras na Europa, o segundo romance tem uma escrita menos afetada por excessos floridos de figuras de estilo e mesmo descontando as partes ficcionadas que podem perturbar a imagem do verdadeiro Calouste Gulbenkian, recomendo a leitura deste conjunto de romances.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Homem de Constantinopla - José Rodrigues dos Santos

Este livro que se completa com uma segunda obra pretende romancear a vida de Calouste Gulbenkian que enriqueceu à sombra da ascensão da indústria do petróleo e foi o maior mecenas cultural e científico de Portugal. Um homem de origem arménia que deixou em Lisboa uma das maiores fundações privadas do mundo de apoio às artes e ciências e o espólio de um magnífico museu sobretudo de arte do século XX.
Este volume conta a infância, juventude e ascensão de Calouste até ao início da I Guerra Mundial, mas mesmo tendo em consideração a necessidade de inventar pormenores para sustentar a trama de um romance em torno de uma pessoa real, pelo que sei, a estória de "O homem de Constantinopla" também não é bem fiel à vida original da personagem ficcionada e deduzo mesmo alguma especulação para dar intensidade ao texto sem um respeito pertinente ao retrato de carácter e de psicologia do verdadeiro homem. O que é pena.
José Rodrigues dos Santos escreve corretamente, mas exagera nas figuras de estilo e metáforas fáceis, o que torna o texto pretensioso, desvirtua o equilíbrio da forma e dá à obra um tom mais de agrado popular e lúdico do que valor literário. Apesar de tudo, o romance é agradável, fornece dados interessantes sobre Calouste Gulbenkian e a sua época.
Está-se perante uma obra acessível a qualquer leitor, mesmo não habituado a obras intelectualmente mais exigentes, para quem ler é sobretudo um passatempo de lazer e manteve-me o interesse em ler o segundo romance para onde agora vou mergulhar. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Complexo de Portnoy - Um livro que deixei a meio


Já há muitos anos que não deixo qualquer livro de literatura a meio, por vezes é uma prova de resistência e de princípio concluir a obra... mas confesso que de "O Complexo de Portnoy" de Philip Roth já chega, mesmo tendo chegado um pouco além de meio do romance.
Saturei-me dos desabafos, dos fetiches e dos sentimentos de culpa da vida sexual de Alexander Portnoy desde criança, passando pela adolescência e até à vida adulta no banco do psiquiatra em resultado da pressão da sua educação judaica em classe média baixa, perante uns pais conservadores e a sua inteligência ateia e egoísta. Tudo isto numa linguagem grosseira e de luxúria que anseia as mulheres gentias (goyiche) americanas tratadas apenas como objetos de desejo.
Não sei como acabaria a obra... mas de sacrifício por ler este complexado amoral já me bastou.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Conde de Abranhos de Eça de Queiroz


Acabei de ler o romance "O Conde de Abranhos" de Eça de Queiroz, talvez a obra mais sarcástica e mais crítica da classe política feita por este escritor, mesmo sem ser extensa.
Pela força da palavra, num estilo delicioso e cheio de humor, Eça de Queiroz expõe a biografia do político Abranhos, onde, de rajada, mostra o seu desprezo por parentes inconvenientes à sua imagem pública, o seu faro oportunista das situações, a sua desadequação do saber-fazer disfarçada pela retórica, as respetivas convenientes mudanças de posições, o clientelismo que se tende instalar a sua volta e o afastamento dos seus ideais de gestão pública dos interesses das classes mais baixas.
Eça de Queiroz, apesar de divertido, é duro pelo sarcasmo com a classe política e com o estado da Nação, um livro que se perdeu atualidade foi apenas no facto de todos os defeitos do sistema denunciados na obra hoje serem mais elaborados, ampliados e despudoradamente evidentes, tal como as suas consequências.
Uma excelente obra de lazer, divertida e cheia de crítica política que vale a pena ler...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"Alves & C.ª " de Eça de Queiroz


Nesta sequência de três obras de Eça de Queiroz que estou a ler, terminei agora o curto romance "Alves & C.ª " onde o escritor aborda um caso de adultério feminino para dissertar ironicamente sobre as soluções tradicionais e irrefletidas de defesa da honra e as suas consequências, bem como as alternativas mais racionais ou cobardes de conciliação e conformes com o espírito de muitos dos ofendidos e dos culpados, enquanto faz uma exposição do pecados privados face aos bons costumes e hipocrisias públicas sociais à época no campo da fidelidade conjugal.
Uma trama linear, com uma linguagem mais simples do que noutros livros de Eça, mas onde a ironia e a boa disposição continua sempre presente, mesmo durante os momentos mais dramáticos e intensos da desgraça do protagonista Alves. Um romance simples que diverte e dá prazer sem ser pretensioso.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O Mandarim de Eça de Queiroz


Acabei de ler o pequeno romance/novela "O Mandarim" de Eça de Queiroz (numa edição diferente da imagem e pertencente a uma coleção completa das obras deste escritor), um livro de muito fácil leitura pela sua qualidade de escrita, reduzida dimensão e pelo humor irónico, crítico e lição moral que contém.
Não haja dúvida que Eça domina a técnica da escrita literária como poucos portugueses o fizeram até hoje e o seu olho clínico é por norma um retrato social da sua época cheio de boa disposição. Neste caso a história mistura o fantástico, algumas ambições transversais à maioria das pessoas (o desejo de ser rico e acesso aos bens e ao prazer), um retrato da China pelos olhos ocidentais e os vícios mesquinhos do cidadão lusitano comum, terminando com um lição de moral onde o dinheiro não traz a felicidade a uma consciência culpada.
Uma obra que dá imenso prazer a ler e pode ser um aperitivo para entrar na obra de Eça ou então para o recordar sem ser através das suas obras mais extensas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"Miramar" de Naguib Mahfouz

Editora Civilização

Conclui a leitura de "Miramar" do único escritor em língua árabe galardoado com o prémio Nobel da literatura até ao presente, neste caso de nacionalidade egípcia. Escolhi este livro com o objetivo de através desta forma de arte tentar compreender melhor a sociedade deste País.
O romance passa-se na década de 1960 e descreve, nos vários capítulos e na primeira pessoa, a vida por um curto período de quatro clientes egípcios ocidentalizados residentes na pensão Miramar, onde todos ficam fascinados pela criada jovem, bonita, rural e honesta com ambições à modernidade.
Assim, o relato daqueles dias é repetidamente exposto pelos olhares diferentes de cada um dos clientes as respetivas tentativas de a proteger ou de a seduzir, atitude posto em contraste com a pureza ética da jovem face aos interesses individuais destes hóspedes que desenvolveram vícios de sobrevivência numa sociedade em mudança devido à revolução em que o Egito passou do domínio britânico para a esfera dos ideais socialistas, período conturbado e vulnerável às ambições dos arrivistas oportunistas e da resistência dos saudosistas nacionalistas e onde cada um tenta tirar proveito próprio do novo ciclo face às suas origens.
A trama e as várias visões estão bem entrecruzadas, a escrita é fácil, embora os recurso a recordações sobre o passado político do País e a cultura islâmica por vezes tenham levado o tradutor a explicações em nota de rodapé para melhor entendimento do leitor, o estilo literário parece ocidentalizado, pelo que se torna numa obra fácil e dá uma visão do comportamento de uma franja social de cidadãos egipcios que vivem ocidentalmente numa sociedade conservadora, oriental, islâmica e indecisa entre dois mundos culturais. Gostei.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"Amada de Vida" de Alice Munro


Acabei de ler a série de 14 contos que integram o livro "Amada Vida" de Alice Munro, a escritora canadiana vencedora do prémio Nobel da literatura em 2013 de quem sou grande admirador.
Foi a primeira vez que li as obras de Alice Munro sem ser na sua língua original e confesso que os sentimentos e prazeres que despertaram em mim nesta versão da editora Relógio d'Água foram semelhantes aos de quando a lia em inglês: sinal de que a tradução, a métrica e o estilo de escrita respeita o original que me encantava.
Os 14 contos correspondem a 10 ficções, seguida de 4 memórias autobiográficas do período da infância/adolescência da autora. Na sua grande maioria os contos são passados em meios essencialmente rurais, tendencialmente conservadores, sobretudo no período pós II Guerra Mundial ou meados dos século XX e onde os protagonistas são pessoas comuns sem nenhuma particularidade para serem tratados como heróis, expondo-se assim os seus simples e humanos anseios, receios, vícios e constrangimentos sociais na sua vida normal, onde pontua o amor, a sobrevivência e a traição; ambientes e situações em que Alice Munro também se reviu na sua juventude.
Alice Munro tem um estilo próprio de mostrar as virtudes e defeitos do cidadão comum sem os julgar globalmente pelas suas boas ou más decisões e é nisto que está a originalidade e a sua grandeza literária. Por norma prefiro as suas histórias mais pessoais, pelo despudor e elegância com que se mostra ao leitor, contudo, nas restantes histórias a autora consegue fazer o retrato global do interior das pessoas desde a infância até à velhice condicionadas pelo seu meio. Embora este não tenha sido o meu livro predilecto desta escritora, foi uma obra que gostei e recomendo para quem a quiser descobrir ou iniciar-se no conto.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"O Monte dos Vendavais" de Emily Brontë

Edição book.it

Acabei de ler um dos livros mais famosos da literatura britânica do século XIX, "O Monte dos Vendavais" de Emily Brontë, uma estória obsessiva de paixão, despeito e vingança, onde o meio rural, a paisagem de charneca e o clima húmido e tempestuoso intensificam o ambiente opressivo e sombrio do romance. Se fosse uma obra literária atual caberia em grande parte no estilo negro gótico.
A estória é narrada com recurso à descrição de acontecimentos passados (analepse) que vão desenrolando a trama que explica a situação no presente, onde o ouvinte principal surge como autor da obra mas sem participar no evoluir do romance.
Como obra do período romântico os sentimentos, defeitos e qualidades das personagens são extremados, o que gera uma certa incredibilidade sob o elevado grau de subserviência das vítimas e da maldade dos maus, contudo o fio condutor da estória e estilo de escrita é cativante e prende o leitor à estória.
Para quem gosta de romances com sentimentos muito intensos num ambiente opressivo é uma obra interessante, para mim valeu mais pele estilo de escrita e de narrativa.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

FELIZ ANO DE 2014

A todos os que uma forma ou outra têm interagido com este blogue ao longo deste ano que agora finda, que pretendem continuar por aqui em 2014 ou passem a ser novos leitores, apresento os meus votos de boas leituras num
FELIZ E PRÓSPERO ANO 2014
que os vossos sonhos para o próximo ano se concretizem e que o mundo se torne mais justo e humano.
Bem hajam os construtores da Cultura, da Justiça e da Paz!
Imagem Wikipedia

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom

Editora: Saída de Emergência

Há livros que são difíceis de qualificar, "O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom, que também é um médico psiquiatra de profissão, é a obra que acabei de ler e está dentro dessa categoria.
É verdade que expõe duas biografias ficcionadas de duas pessoas históricas reais separadas por quase 250 anos e as suas relações com personagens inventadas e outras reais, como tal pode ser considerado um romance. O texto é pouco estilizado literariamente e é uma abordagem psicológica do escritor que introduz um psiquiatra nas personagens importantes do século XX na obra que faz de ponte entre o racionalismo absoluto do excomungado judeu Espinosa e a confusão irracional em Alfred Rosenberg, admirador dos admiradores de Espinosa que persiste na sua evolução antissemítica e considerado o ideólogo do nazismo e um dos próximos de Hitler que ele idolatrava.
O livro mostra duas solidões: uma que resulta da opção consciente da busca da perfeição pela razão em luta contra superstição das religiões com um Deus humanizado feita por Espinosa num período do século XVII onde a crença se sobrepunha à razão, uma decisão solitária que o libertava. Outra, já no século XX, provocada pela necessidade de reconhecimento público e de admiração no trabalho irracional e preconceituoso de Rosenberg, decisão solitária que o amarrava em crises depressivo-obssessivas já numa sociedade em grande parte laica.
Um Deus racional que se confunde com a Natureza em Espinosa e submetido às leis naturais contra um ídolo irracional que acredita na superioridade ariana e sem humanismo em Rosenberg que procura compreender o filósofo que ilogicamente era judeu, cujo mesmo tipo de sangue negava existir nos seus genes e onde até o psiquiatra de serviço desiste de tanta obsessão doentia e catastrófica.
Um livro forte que pelo contraste pode chocar o crente em dogmatismos religiosos ou o crente no humanismo das pessoas.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

BOAS FESTAS


 A todos os que ao longo deste ano se tornaram visitantes desta página, partilharam comigo comentários sobre livros, música, viagens e temáticas sobre o Faial e os Açores e cada vez mais raramente geologia Votos de Feliz Natal.

Deixo-vos com uma bela canção de Natal, mas diferente daquelas que nos inundam comercialmente nestes dias

sábado, 21 de dezembro de 2013

"Liberdade" - Jonathan Franzen


Editora Dom Quixote

Um livro para ser bom não tem necessariamente de ser fácil e belo, "Liberdade" é um retrato das principais preocupações que têm atravessado a sociedade norte-americana nas últimas décadas: os extremismos desde as convicções ambientais, da política, da economia e das ideologias, bem como os desencontros de gerações onde cada uma pensa que será melhor que a outra e depois descobre que comete os mesmos erros ou caiu no exagero oposto no que vem dar ao mesmo.
Depois do relato das taras da sociedade deste país no período da guerra fria em "Submundo" de Don deLillo, agora a mesma estrutura noutra escrita cobrindo as mais recentes décadas de uma sociedade livre e cheia de complexos que vem até à eleição de Obama.
Uma obra grande, forte e importante para quem tenta compreender muito do que se joga nas mentes das pessoas nos EUA e justificar muitas decisões que chocam quem vê de fora.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Por que mergulhei nas obras literárias e clássicos mais antigos?

Recentemente alguém me esboçou um certo menosprezo por nos últimos tempos ter optado por ler vários livros do século XIX ou da primeira metade do século XX quando há tantos títulos de obras recentes a serem publicados pelas editoras.
A verdade é que depois de ter seguido ativamente numerosas obras galardoadas pelos mais variados prémios literários presentemente ativos, de língua portuguesa ou outras, e da abundante publicidade de interessantes e importantes publicações que vão saindo, a quantidade de desilusões face às minhas elevadas perspetivas foram também abundantes.
É verdade que várias dessas obras até têm apresentado uma escrita literária rica, inovadora e esteticamente atraente, mas, nestes casos, também não têm sido raras as que a respetiva qualidade de forma parece ser acompanhada por uma falta de profundidade no conteúdo da mensagem.
Tal como é verdade que li obras recentes com personagens, situações sociais e estórias bem trabalhadas, ricas no conteúdo, descrevendo situações inovadoras e reflexões interessantes, mas, neste caso também, não tem sido raro as que a qualidade do conteúdo parece empobrecida na forma.
Paralelamente, tenho descoberto que o filtro do tempo tende a preservar e valorizar as obras que reúnem a qualidade estética da escrita e a importância do conteúdo ficcional . Assim ao ler um clássico da literatura tem, por norma, me permitido descobrir livros que não desiludem, pois enriquece a formação do leitor misturada na medida certa de bom gosto que dá prazer e alimenta o lazer.
Isto não quer dizer que abandono as obras contemporâneas que as técnicas de publicidade moderna valorizam para aumentar as vendas... apenas que um mergulho nos clássicos é sempre um passaporte seguro para manter vivo o gosto pelos livros. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"Eu, Cláudio" de Robert Graves


Editora Bertand

Acabei de ler "Eu, Cláudio" de Robert Graves. Um livro que teoricamente é escrito na primeira pessoa por este imperador romano, mas mais do que uma autobiografia, é uma crónica do que foram os tempos de Roma em grande parte do do período da dinastia Júlio-Claudina, no início da nossa era e onde Cláudio: gago, coxo e considerado por muito como idiota, se tornou culto, viveu, sofreu, sobreviveu a uma série de assassínios e ainda chegou a imperador.
Numa escrita simples, pretendendo estar conforme com a personalidade simples do protagonista; muitas vezes irónica e mordaz, fruto da perspicácia e da autoformação conseguida pelo autor; Robert Graves põe-nos Cláudio a falar da família imperial, desde o seu nascimento nos tempos do imperador Augusto (o tio-avô materno e contemporâneo do nascimento de Jesus) com os esquemas venenosos da sua segunda mulher Lívia (avó paterna) para levar ao poder o filho desta Tibério (tio) a que se seguiu um tempo ainda mais graves e com  um desfile de mortes em série, como chegou a imperador o ainda pior Calígula (sobrinho) com toda a sua loucura e o terror, até à entronização de Cláudio como salvador predestinado e a oportunidade dos romanos lerem as suas obras de investigação histórica.
Apesar dos tempos negros, o livro é leve, divertido e de fácil leitura pelo tom colocado no texto. É uma forma interessante de fazer um romance histórico a descrever um período louco e terríficos de Roma sem cansar. Gostei e recomendo.

sábado, 23 de novembro de 2013

"As velas ardem até ao fim" - Sandór Marai


"As velas ardem até ao fim" de Sandór Marai é daquelas obras pouco volumosas mas com uma densidade de conteúdo que os torna num grande livro e foi o primeiro que li deste escritor húngaro.
Uma infância, adolescência, juventude e início da vida adulta marcada por uma grande amizade que sobrevive e acompanha todas as etapas de crescimento do protagonista, militar de carreira, que de repente viu o amigo fugir deixando um conjunto de indícios de traição e semeando o veneno da dúvida.
Quarenta e um anos depois, na velhice de ambos, o amigo anuncia-se, combinam reencontrar-se num jantar a dois no palácio do general na sua propriedade de caça, mas devido a um apagão este dá-se à luz das velas. Então todos os fantasmas levantados, factos ocorridos e recordações do passado vêm à refeição e o eterno desejo do protagonista esclarecer o passado impõem-se no serão.
Na busca das respostas do ocorrido há tanto tempo, desenvolve-se uma densa dissertação sobre o que é a amizade, a sua importância na vida e os compromissos e responsabilidades entre amigos. Será tudo isto suficiente para se revelarem todos os segredos que os separaram?
Um livro que, mais que um romance, é um ensaio sobre a amizade, o amor, a traição a paixão e os gostos na diversidade da humanidade. Um excelente e denso texto de alta qualidade literária e profunda reflexão.