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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

"O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom

Editora: Saída de Emergência

Há livros que são difíceis de qualificar, "O Problema Espinosa" de Irvin D. Yalom, que também é um médico psiquiatra de profissão, é a obra que acabei de ler e está dentro dessa categoria.
É verdade que expõe duas biografias ficcionadas de duas pessoas históricas reais separadas por quase 250 anos e as suas relações com personagens inventadas e outras reais, como tal pode ser considerado um romance. O texto é pouco estilizado literariamente e é uma abordagem psicológica do escritor que introduz um psiquiatra nas personagens importantes do século XX na obra que faz de ponte entre o racionalismo absoluto do excomungado judeu Espinosa e a confusão irracional em Alfred Rosenberg, admirador dos admiradores de Espinosa que persiste na sua evolução antissemítica e considerado o ideólogo do nazismo e um dos próximos de Hitler que ele idolatrava.
O livro mostra duas solidões: uma que resulta da opção consciente da busca da perfeição pela razão em luta contra superstição das religiões com um Deus humanizado feita por Espinosa num período do século XVII onde a crença se sobrepunha à razão, uma decisão solitária que o libertava. Outra, já no século XX, provocada pela necessidade de reconhecimento público e de admiração no trabalho irracional e preconceituoso de Rosenberg, decisão solitária que o amarrava em crises depressivo-obssessivas já numa sociedade em grande parte laica.
Um Deus racional que se confunde com a Natureza em Espinosa e submetido às leis naturais contra um ídolo irracional que acredita na superioridade ariana e sem humanismo em Rosenberg que procura compreender o filósofo que ilogicamente era judeu, cujo mesmo tipo de sangue negava existir nos seus genes e onde até o psiquiatra de serviço desiste de tanta obsessão doentia e catastrófica.
Um livro forte que pelo contraste pode chocar o crente em dogmatismos religiosos ou o crente no humanismo das pessoas.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

BOAS FESTAS


 A todos os que ao longo deste ano se tornaram visitantes desta página, partilharam comigo comentários sobre livros, música, viagens e temáticas sobre o Faial e os Açores e cada vez mais raramente geologia Votos de Feliz Natal.

Deixo-vos com uma bela canção de Natal, mas diferente daquelas que nos inundam comercialmente nestes dias

sábado, 21 de dezembro de 2013

"Liberdade" - Jonathan Franzen


Editora Dom Quixote

Um livro para ser bom não tem necessariamente de ser fácil e belo, "Liberdade" é um retrato das principais preocupações que têm atravessado a sociedade norte-americana nas últimas décadas: os extremismos desde as convicções ambientais, da política, da economia e das ideologias, bem como os desencontros de gerações onde cada uma pensa que será melhor que a outra e depois descobre que comete os mesmos erros ou caiu no exagero oposto no que vem dar ao mesmo.
Depois do relato das taras da sociedade deste país no período da guerra fria em "Submundo" de Don deLillo, agora a mesma estrutura noutra escrita cobrindo as mais recentes décadas de uma sociedade livre e cheia de complexos que vem até à eleição de Obama.
Uma obra grande, forte e importante para quem tenta compreender muito do que se joga nas mentes das pessoas nos EUA e justificar muitas decisões que chocam quem vê de fora.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Por que mergulhei nas obras literárias e clássicos mais antigos?

Recentemente alguém me esboçou um certo menosprezo por nos últimos tempos ter optado por ler vários livros do século XIX ou da primeira metade do século XX quando há tantos títulos de obras recentes a serem publicados pelas editoras.
A verdade é que depois de ter seguido ativamente numerosas obras galardoadas pelos mais variados prémios literários presentemente ativos, de língua portuguesa ou outras, e da abundante publicidade de interessantes e importantes publicações que vão saindo, a quantidade de desilusões face às minhas elevadas perspetivas foram também abundantes.
É verdade que várias dessas obras até têm apresentado uma escrita literária rica, inovadora e esteticamente atraente, mas, nestes casos, também não têm sido raras as que a respetiva qualidade de forma parece ser acompanhada por uma falta de profundidade no conteúdo da mensagem.
Tal como é verdade que li obras recentes com personagens, situações sociais e estórias bem trabalhadas, ricas no conteúdo, descrevendo situações inovadoras e reflexões interessantes, mas, neste caso também, não tem sido raro as que a qualidade do conteúdo parece empobrecida na forma.
Paralelamente, tenho descoberto que o filtro do tempo tende a preservar e valorizar as obras que reúnem a qualidade estética da escrita e a importância do conteúdo ficcional . Assim ao ler um clássico da literatura tem, por norma, me permitido descobrir livros que não desiludem, pois enriquece a formação do leitor misturada na medida certa de bom gosto que dá prazer e alimenta o lazer.
Isto não quer dizer que abandono as obras contemporâneas que as técnicas de publicidade moderna valorizam para aumentar as vendas... apenas que um mergulho nos clássicos é sempre um passaporte seguro para manter vivo o gosto pelos livros. 

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

"Eu, Cláudio" de Robert Graves


Editora Bertand

Acabei de ler "Eu, Cláudio" de Robert Graves. Um livro que teoricamente é escrito na primeira pessoa por este imperador romano, mas mais do que uma autobiografia, é uma crónica do que foram os tempos de Roma em grande parte do do período da dinastia Júlio-Claudina, no início da nossa era e onde Cláudio: gago, coxo e considerado por muito como idiota, se tornou culto, viveu, sofreu, sobreviveu a uma série de assassínios e ainda chegou a imperador.
Numa escrita simples, pretendendo estar conforme com a personalidade simples do protagonista; muitas vezes irónica e mordaz, fruto da perspicácia e da autoformação conseguida pelo autor; Robert Graves põe-nos Cláudio a falar da família imperial, desde o seu nascimento nos tempos do imperador Augusto (o tio-avô materno e contemporâneo do nascimento de Jesus) com os esquemas venenosos da sua segunda mulher Lívia (avó paterna) para levar ao poder o filho desta Tibério (tio) a que se seguiu um tempo ainda mais graves e com  um desfile de mortes em série, como chegou a imperador o ainda pior Calígula (sobrinho) com toda a sua loucura e o terror, até à entronização de Cláudio como salvador predestinado e a oportunidade dos romanos lerem as suas obras de investigação histórica.
Apesar dos tempos negros, o livro é leve, divertido e de fácil leitura pelo tom colocado no texto. É uma forma interessante de fazer um romance histórico a descrever um período louco e terríficos de Roma sem cansar. Gostei e recomendo.

sábado, 23 de novembro de 2013

"As velas ardem até ao fim" - Sandór Marai


"As velas ardem até ao fim" de Sandór Marai é daquelas obras pouco volumosas mas com uma densidade de conteúdo que os torna num grande livro e foi o primeiro que li deste escritor húngaro.
Uma infância, adolescência, juventude e início da vida adulta marcada por uma grande amizade que sobrevive e acompanha todas as etapas de crescimento do protagonista, militar de carreira, que de repente viu o amigo fugir deixando um conjunto de indícios de traição e semeando o veneno da dúvida.
Quarenta e um anos depois, na velhice de ambos, o amigo anuncia-se, combinam reencontrar-se num jantar a dois no palácio do general na sua propriedade de caça, mas devido a um apagão este dá-se à luz das velas. Então todos os fantasmas levantados, factos ocorridos e recordações do passado vêm à refeição e o eterno desejo do protagonista esclarecer o passado impõem-se no serão.
Na busca das respostas do ocorrido há tanto tempo, desenvolve-se uma densa dissertação sobre o que é a amizade, a sua importância na vida e os compromissos e responsabilidades entre amigos. Será tudo isto suficiente para se revelarem todos os segredos que os separaram?
Um livro que, mais que um romance, é um ensaio sobre a amizade, o amor, a traição a paixão e os gostos na diversidade da humanidade. Um excelente e denso texto de alta qualidade literária e profunda reflexão.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Quantas Madrugadas tem a Noite - Ondjaki

Editorial Caminho

Diante de umas "ngalas" (cervejas), alguém aproveita o ambiente de Luanda para alimentar a conversa pela noite dentro, relatando de modo frenético as desaventuras de um grupo em torno do corpo de um amigo que pelos vistos não encontra as condições para o seu descanso e funeral, tantas são as burocracias e os interesses que se intrometem no assunto, e assim a estória vai-se arrastando pela madrugada alimentada pelo álcool.
Em estilo coloquial e com a liberdade que um relato regado pela cerveja permite, Ondjaki, de forma irónica e divertida, expõe o linguajar de Luanda: o seu vocabulário próprio, a gíria das pessoas dos bairros populares, o calão, os estrangeirismos, as variações de sintaxe e os efeitos ortográficos para expressar a entoação e a pronúncia das gentes da capital de Angola.
O texto é um magnífico trabalho linguístico e estilístico da diversidade da língua, aspeto assumido mesmo pelo narrador quando fala do modo como trata o Português. Interessante também a caracterização das vivências do povo e de Luanda: uma sociedade alicerçada no estilo de vida africano, mas com influências culturais do colonialismo e da atual globalização, o que gera uma miscigenação única e brilhantemente retratada neste despudor regado a ngalas necessárias para estender a conversa pelas madrugadas da noite.
"Quantas Madrugadas Tem a Noite" é um livro divertido mas a ler, sobretudo, para descobrir a genialidade de Ondjaki na forma de mostrar e tratar a língua Portuguesa na sua variante de Luanda.

domingo, 17 de novembro de 2013

"A Varanda do Frangipani" - Mia Couto

Editorial Caminho

Depois do prémio literário Neustadt atribuído pelo conjunto da obra a Mia Couto, um galardão quase com a mesma importância de um Nobel, decidi revisitar este escritor moçambicano que inunda os seus livros com vocabulário do seu País e trabalha as palavras de forma a evidenciar o Português falado na sua Pátria.
"A Varanda do Frangipani" (árvore daquela região que altera os períodos de floração com os de folhagem caduca, esta característica uma raridade naquelas latitudes) é um pequeno romance policial, do tipo fantástico que decorre num remoto lar de idosos e serve de parábola à decadência de Moçambique no pós-guerra colonial e civil quando o Pais entrou em paz, mas com um sistema corrupto e cheio de feridas por sarar. 
Ao ritmo calmo e nostálgico da velhice vai decorrendo o trabalho de detetive de onde brotam as feridas do colonialismo, a morte dos antigos valores e cultura e os ecos do estado a que o País chegou: onde a corrupção é o capim em que todos se alimentam, onde ser-se honesto é ser um fruto bom numa árvore podre sujeito à rejeição ou à contaminação.
Apesar deste ambiente, é um livro onde a esperança sobrevive, há humor, muita ternura, é de leitura fácil e o potencial do grande escritor está todo na obra. Recomendo a sua leitura.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

História de Duas Cidades - Charles Dickens

Editora Civilização

"História das duas cidades", também conhecida por "Conto das duas cidades", de Charles Dickens é um romance de amor - ódio, leviandade - dedicação, vingança - arrependimento que se gera no absolutismo francês, com todos os abusos repressivos da aristocracia sobre o povo, e amadurece no período de absoluto terror da revolução francesa com todos os abusos da desforra desse mesmo povo sobre a aristocracia e a história decorre entre Paris e Londres, capitais de desconfiança mútua. 
Ora repetindo uma ideia ou palavra, ora com uma ironia subtil que atravessa a obra, ora com um sentimentalismo exagerado típico do período romântico e alimentando a curiosidade com insinuações de acontecimentos futuros, Dickens coloca a nu as injustiças sociais dos sistemas em vigor nas duas cidades na segunda metade do século XVIII e as suas consequências devido ao carácter de personagens de vários estratos sociais e morais, cria até uma representativa de todos os excessos da aristocracia francesa "Monseigneur" (Meu senhor).
Assim nasceram as "... vozes de vingança, e faces endurecidas nas forjas do sofrimento a tal ponto que nenhum vestígio de piedade podia fazer nelas qualquer mossa." Assim nasce a revolução francesa e a inicialmente designada "República Única e Indivisível, da Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou Morte", esta última palavra, cujo tempo e a vergonha parecem querer apagar da verdade da história, com a ajuda da nova Santa Guilhotina, aliada à vingança levam a aristocracia a ficar no "registo condenada à destruição e ao extermínio." Nesta deixa de haver suspeitos, inocentes, crianças, doentes, parentes ou simplesmente sentimentos, pois a fúria da populaça é insaciável e a todos condena inclusive os bons e justos da estória  "Digam ao vento e ao fogo onde devem parar; mas não a mim." mas na obra não faltam os sensatos, dedicados e heróis que tudo doam em favor dos justos.
O romance é tido como um dos relatos mais fieis da selvajaria da vingança em França depois da tomada da Bastilha em 1789, sobretudo no período de 1792-94. Funda-se em vários relatos documentais e é  uma visão da revolução de um estrangeiro independente, com isenção face às partes em conflito. Por vezes tem a ansiedade de um thriller, noutros o anticlimax para reflexão e é um apelo à justiça social para que não se "Voltem a lançar à terra as mesmas sementes de ganância e de tirania, e colherão sem dúvida os mesmos frutos condizentes com as espécies semeadas." Altamente recomendável este livro.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

"Guerra e Paz" de Lev Tolstoi - Análise global da obra

Conclui a leitura de "Guerra e Paz" do grande escritor russo Lev Tolstói. Um dos romances mais importantes da história da literatura mundial e apesar da sua dimensão, cerca de 1700 páginas em 4 volumes, é de fácil leitura pela linguagem acessível, elegante e linear, com a vantagem de cada tomo ter uma espécie de final, pelo que embora se aconselhe a leitura sequencial e completa, é viável parar-se no termo de cada volume.
A obra tem o título original de "Guerra e Mundo" e percebe-se bem este nome depois de lida, apesar de como ficou conhecida no ocidente. Efetivamente o romance é uma estória que envolve personagens fictícias da aristocracia russa de São Petersburgo e Moscovo e líderes da guerra napoleónica e esta serve de reflexão sobre a humanidade, a sociedade e a luta entre povos. É uma obra que seguramente amadurece o leitor e corresponde a um pico superior da literatura, como forma de arte e formação.
No 1.º livro apresentam-se as os protagonistas da novela até aos alvores da progressão Napoleão para leste com a ida dos russos à guerra fora do seu país, terminando com a famosa batalha de Austerlitz.
O 2.º volume mostra o dia-a-dia da aristocracia russa nos salões e clubes sociais de elite em tempo de paz: os amores, paixões e vícios envolvendo idealistas, oportunistas, acomodados, inquietos, ricos, falidos, cidadãos eticamente fortes ou de moralidade duvidosa, progressistas e conservadores face à revolução revolução francesa.
O 3.º volume mostra a instabilidade social da invasão de Napoleão até Moscovo, faz um retrato da guerra, da sociedade rural russa onde a aristocracia age como dona do povo e faz uma crítica de como a história apresenta os grandes acontecimentos da humanidade, com reflexões sobre o papel do herói, do cidadão anónimo, das sementes revolucionárias e dos valores por que se luta que podem desembocar na vitória ou derrota de um exército ou de um povo, independentemente dos atributos atribuídos aos líderes.
O 4.º volume é a volta de Napoleão a casa com o esgotamento físico, psicológico e erros estratégicos que levariam à sua própria derrota só com a paciência do exército russo sem necessidade de uma intervenção bélica. Isto ntercalado com reflexões sobre o que move os povos e demonstra as lideranças como titeres reféns dos acontecimentos Segue-se a 1.ª parte do epílogo com o destino final dos personagens e a estória acaba aqui. A 2.ª parte é um apêndice pós-romance, são as 50 páginas difíceis da obra feitas em forma de ensaio sobre erros de análise dos historiadores e uma reflexão dialética à cerca da liberdade e das condicionantes que controlam as decisões, menorizando o papel dos heróis na história da humanidade e inclusive da cultura e das ideias filosóficas de uma época.
As principais dificuldades de leitura da obra são: o receio inicial da sua dimensão (levei só um mês a ler); as numerosas citações e algumas passagens na língua culta da época, o francês (traduzido em rodapé); e para alguns a intercalação de reflexões sobre a história e o papel dos líderes e dos povos. Um romance que todos deveriam ler.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Guerra e Paz de Lev Tolstói - Volume 3


O terceiro volume de Guerra Paz, menos romanesco que os anteriores, é até ao momento o mais profundo e rico na análise e descrição das invasões napoleónicas na Rússia, desde a entrada dos franceses no País até à entrega de Moscovo já abandonada dos seus habitantes.
Entre os encontros e desencontros das personagens da aristocracia apresentadas no volume 1, Tolstói intercala capítulos a narrar o avanço francês e reflexões onde justifica a necessidade de se reinterpretar a história dos grandes acontecimentos mundiais. Considera que estes não resultam de um controlo racional e intencional dos grandes líderes, mas antes são o resultado da soma de pequenos acontecimentos, interesses individuais e oportunidades que geram um fluxo que desemboca em eventos significativos que marcam o evoluir da História. Tudo isto é exposto com uma elegância de escrita racional brilhante sem perder a beleza literária, nem se tornar cansativo.
Sem ser o aspeto nuclear do livro, Tolstói ao longo da obra faz o retrato da Rússia de então e uma crítica aos comportamentos sociais: um país completamente dominado pela aristocracia, com uma classe burguesa sem peso e um povo que é uma marionete propriedade dos primeiros, onde as pessoas (almas) são tão propriedade dos donos das terras como se igualmente de bens materiais se tratassem, pelo que os indícios de libertação veiculados pela revolução francesa despertam os alvores de outra que se desenrolaria um século mais tade explicando como se abafa o nacionalismo.
Um escritor visionário?... talvez, ou apenas um alerta à data da escrita face aos sinais que já então vinham de filósofos germânicos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Guerra e Paz de Lev Tolstoi - Volume 2


A qualidade literária mantém-se, as personagens do primeiro volume regressam todas e vão-se tornando cada vez mais profundas psicologicamente e a componente de análise da sociedade russa, da política e da realidade europeia no período napoleónico enriquece-se.
Se no primeiro volume os momentos fortes são na guerra das armas e nas lutas dos valores nacionais, no segundo domina a paz podre das paixões e da incompreensão nas lutas do egoísmo ao altruísmo e aos valores individuais, por isso é bem mais novelesco, mas lê-se num ápice, tem momentos de elevada tensão na guerra dos sentimentos e novamente termina com uma lição de moral, mas deixa a porta aberta para uma nova sequela.
Cada vez é mais compreensível por que se está perante uma obra-prima da arte literária mundial que não envelhece e recomendável a todos os que amam a Literatura com L maiúsculo, embora o uso frequente e mais ou menos extenso do francês possa ser cansativo na atualidade onde esta língua caiu em desuso de muitos.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Ler ebooks - Obras primas gratuitas

imagem daqui

Sou amante do livro em papel e gosto de comprar não só obras literárias para ler no momento, como adquirir e guardar todas aquelas que gostaria de ler, assim a minha biblioteca vai crescendo em volume a um ritmo maior do que permite as minhas leituras.
Todavia já não excluo de todo o livro eletrónico, sobretudo em duas situações especiais: obras de análise da atualidade política, social ou económica, que se desatualizam com o tempo, que compro nas livrarias virtuais; e clássicos da literatura que não sei se algum dia terei tempo para os ler ou reler, mas que eventualmente poderei ter interesse se estiverem disponíveis, ter necessidade de consultar ou que os gostaria de ter à mão em viagem para uma eventual abordagem, desde que estes estejam disponíveis gratuitamente.
Presentemente, um interessante blogue português "Ler ebooks" tem vindo a publicar em formato epub e para baixar gratuitamente uma série de obras primas nacionais e internacionais cujo tempo fez perder os direitos de autor que importa ter, Isto através de um projeto do agrupamento de escolas de Rio de Mouro. 
As obras vão desde do livro infantil e juvenil como Andersen e Grimm, passando por poesia de Camões a Pessoa, ficção de Eça e outros, cartas históricas como Pêro Vaz de Caminha, série e blogue que recomendo para quem de alguma forma desejar possuir estas obras e esteja minimamente aberto à leitura de clássico no monitor do computador, tablet ou smartphone... uma excelente oportunidade a aproveitar.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

PARABÉNS ALICE MUNRO - PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2013



Primeiro esclareço que como Canadiano de nascimento e amante de literatura, não só conheço razoavelmente bem a obra de Alice Munro, como desejava há muito que a mesma ganhasse o Prémio Nobel da Literatura e para mim soube da atribuição do galardão a esta contista com a mesma alegria com que soube há quinze anos da atribuição a José Saramago.


Uma escritora do sudoeste de Ontário, os seus livros são na generalidade contos com uma escrita feminina que retratam tensões familiares ou sociais dentro de pequenas comunidades rurais da sua área natal, onde muitas vezes a subserviência forçada do protagonista do conto – frequentemente fragilizado por problema ou deficiência pessoal, convenções sociais ou um comportamento obsessivo de alguem – leva a um desfecho mais ou menos previsível na tentativa de libertação individual.


Os dois livros de Alice Munro e já traduzidos que mais me marcaram foram “O amor de uma boa mulher” que se enquadra no género acima descrito, e a “A vista de Castle Rock” que falei aqui há já mais três anos, bem diferente, é sobretudo a história da sua família desde a Escócia no século XIX até à vida adulta de Alice Laidlaw de solteira em meados do século XX até ao seu primeiro casamento em que se passou a denominar Alice Munro.


Há poucos anos quase desconhecida em Portugal, nos últimos tem aparecido com maior regularidade traduções das obras de Alice Munro pela editora Relógio d'Água, sinal de que a qualidade desta magnífica contista Canadiana está a penetrar nos leitores Portugueses e seguramente muitos mais agora vão descobri-la e verão que vale a pena.


Mais uma vez Parabéns Alice Munro!

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Guerra e Paz de Lev Tolstói - Volume 1


Pensei se haveria de fazer uma abordagem sobre Guerra e Paz de Lev Tolstói logo ao terminar o primeiro volume ou esperar para o fim do romance, mas a importância deste tomo e o facto do mesmo ter uma espécie de conclusão final permitem-me uma resenha inicial antes de completar os seus quatro volumes.
Há já algum tempo que se me vem tornando evidente que a literatura mundial e de expressão portuguesa do século XIX tem obras-primas com uma escrita tão perfeita que são em simultâneo de fácil leitura, excelentes retratos de uma época, uma modelação perfeita das personagens e magníficas lições de ética, moral e crítica social, a que se associa ainda a virtude do seu texto não envelhecer.
O primeiro volume de Guerra e Paz consegue isto tudo na perfeição, expõe a vida aristocrática Russa, com os seus vícios e virtudes no início da época em que Napoleão ameaça toda a Europa e depois entra em guerra com este império do extremo oriental deste Continente. Amor, ciume, inveja, oportunismo, heroísmo, nacionalismo, ingenuidade, manha e altruísmo tudo está presente nesta sociedade que sai da sua fútil calma e abraça a guerra e onde os mais jovens partem para a batalha, enquanto pais e mulheres ficam entre São Petersburgo e Moscovo.
Uma escrita magistral, precisa e elegante num período em que o cultura francesa era o expoente máximo, é este o principal aspeto que torna este livro diferente do presente onde o inglês ocuparia aquele espaço de expressões e textos em francês. O livro termina com uma lição de moral na batalha de Austerlitz, onde se descobre a futilidade da ambição e dos vícios pessoais perante os valores reais da vida humana e da família.
Não há que temer entrar em Guerra e Paz pela dimensão da obra, para quem não se sentir com força para prosseguir esta saga da história das guerras napoleónicas, o primeiro volume tem princípio, meio e fim e dá a oportunidade a quem quiser prosseguir nesta epopeia russa para os volumes seguintes... é o que vou fazer a seguir e entrar no segundo volume.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

DIA MUNDIAL DA MÚSICA - a minha recordação musical mais antiga

Praticamente todos nós temos uma música que nos marcou em criança, que nos ficou na memória e a qual nunca mais nos esquecemos...
Sei que entrava no genérico de um programa de rádio no Canada... talvez para emigrantes. Não sei do que falavam a seguir, mas sei que a recordação musical mais antiga que tenho não é de uma balada de infância, não é de uma canção de cinema na televisão ou de um concerto num arraial de rua... é simplesmente deste tema tão marcante que se desenvolve em forma de sonata neste andamento:
Não é presunção, apenas aconteceu. Teria eu 2, 3 anos... também não sei, precisar. Só que nunca mais deixei de gostar desta música que saía daquele rádio sobre um frigorífico numa cada de emigrantes Portugueses e que me deixava parado, extasiado, enquanto soava e me marcava para sempre...

sábado, 28 de setembro de 2013

"O carteiro de Pablo Neruda" - Antonio Skármeta

Uma pequena e ternurenta estória de um jovem que teria sido carteiro de Pablo Neruda, da sua amizade que com este desenvolveu, do nascer da sua paixão quase adolescente mas cuja sobrevivência e amadurecimento acontece com o apadrinhamento do poeta.
A escrita altamente poética, assume em simultâneo uma homenagem à poesia, à metáfora e à arte literária, enquanto relata a vida do carteiro, as ideias do poeta, as relações sociais no seio de uma comunidade de pescadores e o desenvolvimento da situação política que levou Allende à presidência do Chile até à revolução que instalou posteriormente a ditadura e espalhou os seus venenos para matar a liberdade e o sonho que injeta esse amargo para despertar a consciência.
Uma obra de muito fácil leitura, com a leveza de um excelente aperitivo e saborosa como um doce.