Páginas

segunda-feira, 26 de maio de 2014

"Claraboia" de José Saramago

Editorial Caminho

"Claraboia", o segundo romance escrito por José Saramago no início da década de 1950 sob o pseudónimo de Honorato e cuja editora em 1953 nem se dignou a responder nem a publicar, é o único livro do género saído postumamente por opção do autor face à desfeita de só ter sido contactado para a sua publicação quando começou a ter nome na década de 1980, deixou tal a decisão aos seus herdeiros para após a sua morte.
Neste livro a escrita característica de Saramago ainda não nascera: todos os sinais de pontuação estão presentes, não há parágrafos longos e o encadeado de diálogos tem a devida separação. O livro espreita, como por um claraboia para relatar a vivência de seis famílias residentes no mesmo prédio e não sai deste edifício.
Quem leu a obra madura do escritor reconhece na trama as preocupações frequentes do autor, mas sendo uma obra do período da ditadura certas insinuações surgem disfarçadas. Estão já presentes várias das temáticas a serem desenvolvidas mais tarde: a luta de classes aqui disfarçada de assédios amorosos, questões filosóficas a partir do saber da experiência da vida e pelo confronto causa monárquica versus republicana, bem como a questão da identidade e objetivo de vida. No estilo, Saramago já se recorre à ironia introspetiva para denúncia e fazer análise psicossocial muito presente nas suas obras principais.
Não sendo uma obra com a maturidade como outras posteriores, é um romance simples, linear e interessante que se lê bem que já aponta para o Saramago do período Nobel. Gostei.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

"O Dia dos prodígios" de Lídia Jorge


"O Dia dos Prodígios" é o primeiro romance da grande série de obras escritas por Lídia Jorge, uma das autoras contemporâneas nacionais que maior número e diversidade de prémios literários de Portugal e do estrangeiro tem recebido.
Um romance publicado em 1980 que deve ter sido então uma pedrada no charco pela forma de escrita. A narrativa é constituída sobretudo pelo encadear de frases orais, por vezes articuladas, outras como que interrompidas por uma pontuação livre ou ainda com intercalação de afirmações, quase tudo brotando dos diálogos das personagens que convivem numa pequena aldeia isolada do interior do Algarve e onde se descreve, fala e se relata não só factos maravilhosos que ocorrem na terra que parecem pressagiar um grande evento, bem como se comenta a vida alheia. Por vezes a autora divide o texto em colunas, uma menor destinada a comentários e a outra à continuação do texto. Assim, aos poucos e de uma forma nem sempre linear, vai-se montando ao ritmo da pasmaceira do dia a dia o viver de uma pequena comunidade rural vítima da emigração e do esquecimento no final do Estado Novo... até que mais tarde se dá a Revolução do 25 de Abril e o nascer da esperança.
Para muitos o livro retrata de uma forma alegre e livre a mentalidade, os hábitos e os defeitos que caracterizavam o cidadão rural médio de então, o que nem sempre é abonatório: álcool, violência gratuita sobre animais e doméstica e alguma grosseria cruzam-se na montagem de um texto irónico e divertido que já foi adaptado ao teatro, mas é evidente que pertence a um período onde a ameaça da desilusão com libertação alcançada com Abril ainda não ensombrava a sociedade.
Lídia Jorge talvez seja das escritoras mais versáteis na escrita e este livro é bem diferente no estilo de outras obras posteriores de que gostei mais, embora talvez menos originais que é a grande marca desta obra aberta positivamente para o futuro.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"O Castelo" de Franz Kafka

Edições Livros do Brasil

É mais fácil ler o romance "O Castelo" de Franz Kafka  do que dissertar sobre ele. A trama está cheia de contrassensos absurdos como num sonho e as peças não se encaixam, nem seguem a ordem natural das coisas. Contudo cada momento é justificado profundamente na discussão das personagens com K, recorrendo a uma engenhosa e extensa argumentação plena de subtileza que desmonta as ideias contrárias em confronto sem dela brotar uma lógica consistente.
Um agrimensor estrangeiro vai ao encontro de uma vaga aberta no condado do castelo, chega à terra e sente uma desconfiança de toda a população e dos funcionários para com ele. É admitido, mas o lugar não abriu por necessidade, só que no sistema burocrático não mais é viável aquele ser cancelado, pois o seu funcionamento bloqueia a correção até por que a sua perfeição inexplicável é um facto e aceite por todos e a lógica dos decisores vem de entidades inacessíveis.
Para quem já leu "O Processo de Kafka verifica que os dois romances seguem rumos opostos para o personagem K. No Castelo este vai ao encontro do poder que não precisa dele mas aceita-o, para logo a seguir se lhe tornar inacessível, K pretende alcançar a remissão dos seus erros de que não foi acusado. Em "O Processo" é a máquina da justiça que vai ao encontro de K, este não sabe que mal cometeu, tenta e não consegue libertar-se da culpa de que o sistema o acusa. As duas obras completam-se na perfeição.
O livro da foto tem um posfácio de Max Brod, amigo de Kafka, a apreciar obra e expondo textos rasurados e não publicados nas versão inicial e póstuma deste romance. A sua apreciação sobre os 2 romances mencionados não se limita a uma visão terrena do conteúdo e crítica política, estende-se a uma perceção teológica e filosófica, análises que enriquecem em muito a interpretação, embora eu não consiga libertar-se da ideia mais terrena daquele absurdo Governo, até que alguns destes são mesmo  pecados da administração pública. Um excelente livro, que pode não ser acessível a todos, mas que serve como denúncia e reflexão ao sistema político em que vivemos.

domingo, 11 de maio de 2014

"Falconer" de John Cheever

Sextante Editora

Acabei de ler "Falconer" de John Cheever. O título corresponde ao nome da prisão aonde Farragut: toxicodependente desde a sua missão militar, pai, marido e professor; vai cumprir pena por fratricídio. A descrição do dia-a-dia no estabelecimento servirá ao protagonista para refletir na sua viva, angústias, família, infância, sexualidade e desenvolver o contacto social e também íntimo com os restantes reclusos bem como conhecer a traição e compreender como é o funcionamento subjacente ao sistema prisional.
Escrito numa linguagem realista e pouco vestida de artificialismos estilísticos, típica da literatura norte-americana, o livro não faz grandes juízos de valor, mas pela exposição expõe e aborda as causas das angústias, os receios do passado complementado com o desejo de liberdade e de remissão do cidadão norte-americano (um número, uma pessoa e uma consciência) na sociedade. Uma obra característica dos anos 1970, a geração onde a droga e o esforço da compreensão do eu numa sociedade em mudança do conservadorismo social para uma liberdade individual foi marcante.
Gostei, apesar do ambiente prisional não é deprimente, embora a vontade de remissão não seja um caminho alegre, contudo não tem a força de outros retratos dos Estados Unidos feitos mais recentemente como Submundo de Dom deLillo e de Liberdade de Franzen já aqui falados, até pela pequena dimensão deste romance não permite maiores aprofundamentos dos temas abordados.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

"Afirma Pereira" de António Tabucchi

Editora Leya

"Afirma Pereira" de António Tabucchi é um romance escrito sob a forma de um depoimento das declarações do jornalista lisboeta Pereira, no momento responsável pela página cultural da publicação para onde trabalha, que relatam a sucessão dos vários acontecimentos que antecederam o despertar da sua consciência, o levaram a sair do seu comodismo cobarde e a tomar uma ação de denúncia numa ditadura em Portugal dominada pela censura e a polícia política, isto num verão contemporâneo da guerra civil de Espanha e num Estado seguidor dos "bons costumes" da religião e subserviente  aos regimes então instalados na Alemanha e na Itália.
Numa linguagem linear, fácil de seguir e com capítulos curtos que descrevem as rotinas do dia-a-dia ou os eventos extraordinários ocorridos, bem como os diálogos e as ações que com Pereira interagiu nesse verão que estiveram na base da transformação da sua personalidade acomodada a um "eu hegemónico" para uma nova consciência ou alma que vai evidenciando o papel da literatura na formação da pessoa humana e no moldar da sociedade.
Uma pequena grande obra muito agradável de se ler que harmoniza o papel da ficção radicada na história com a capacidade da literatura despertar para a reflexão sobre a sociedade e questões de consciência sem se amarrar a campos ideológicos ou prejudicar o prazer associado ao lazer.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Nella Maissa - Parabéns pelos 100 anos de vida, das mulheres que mais deu pela música em Portugal


Nella Maissa, pianista, completa hoje 100 anos de vida. Ainda hoje a ouvi com uma lucidez incrível a falar de música e de músicos na rádio, sefardita, nascida em Turim, casa em Portugal para onde veio residir EM 1939 e desde então nunca abandonou o seu trabalho de divulgar os compositores portugueses e de os interpretar, algo que talvez ninguém nascido em terras lusitanas o tenham feito mais intensamente do que ela, vencedora de vários prémios musicais foi agraciada com a medalha de mérito cultural por todo o seu trabalho.

Pelos 100 Anos de Vida e o seu trabalho em prol da música: 
Parabéns Nella Maissa


domingo, 4 de maio de 2014

"A Quinta Essência" de Agustina Bessa-Luís


Terminei a leitura de "A quinta essência", de Agustina Bessa-Luís relativa "a uma forma de criação do nada coisa efémeras que nunca acabam"... "a região do fogo e do amor" e o livro faz isso.
É uma escrita onde não há é espaço de tempo para tanta ideia, informação e pormenor do que Agustina quer introduzir na construção frásica. Cada parágrafo é como um painel de talha dourada de um altar barroco, onde facilmente nos podemos perder tal é a densidade de elementos é um pórtico de Gaudi e dificilmente se apreende tudo à primeira.
O mundo a partir dos olhos de José Carlos, vindo de uma família pretensamente burguesa da região do Porto, uma classe que se habituou às regalias que de repente se torna alvo dos ódios no 25 de Abril, que desestabilizam o status quo e onde cada um encontra artifícios para se adaptar.
Nasce assim um projeto de vingança do protagonista que o leva até Macau... dá-se então a fascinação do que foi a história e o choque do encontro de duas civilizações e duas formas de pensar. Uma pretensa cultura superior vê-se perante outra requintada, profunda, já milenar e avançada e dificilmente compreensível para uns ocidentais com mera vocação comercial e evangelizadora que se instalam na península de Ama Cao. Descobre-se então como uma China que na sua suprema inteligência deixa o território tornar-se num cadinho de trocas de todo os género e mentalidades que salvaguardou uma coexistência e criou teia de relações únicas entre dois mundos.
O livro é uma joia (as pérolas são muito comuns no sul da Ásia e logo desvalorizadas pelas elites orientais) onde se mergulha e se percebe o que foram estes quinhentos anos de Portugueses/Jesuítas por terras do império do meio e os jogos dos chineses, as sujas filosofias, mas onde há o risco de nos perdermos em tal densidade que faz numa obra do tamanho de um volume de "Em busca do tempo perdido", um retrato social e histórico bem maior. Gostei muito, mas o livro nem sempre é fácil.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

"Memória das minhas putas tristes" - Gabriel García Marquez


"Memória das minhas putas tristes" é o último romance que Gabriel García Marquez escreveu. Um exame de consciência na velhice feito na velhice com uma reflexão sobre se aproveitou a vida. O protagonista no dia dos seus 90 anos decide oferecer a si mais uma noite de sexo com uma mulher jovem, mesmo demasiado nova, e descobre que nunca é tarde para se apaixonar e amar, desde que  o seu corpo e mente o permitam.
Num tom ora com a nostalgia do tempo ido, ora com a amargura do tempo desperdiçado, ora com a ânsia de recuperar ainda o tempo perdido, mas sempre com uma ternura triste temperada com ironia e humor, é uma obra do ocaso da vida de Gabriel García Marquez, sem a pujança e o maravilhoso dos "Cem anos de solidão" ou a paixão do "Amor em tempo de cólera", mas sente-se que lhe sobreviveu o estilo e a vontade de continuar a escrita, contudo chegara a hora de concluir uma carreira brilhante.
Pequeno, agradável, agridoce, divertido, nostálgico e num estilo característico do escritor, é um beijo ou um abraço de despedida de Gabriel Garcia Marquez que sabe bem aos seus admiradores, mas deixa aquele amargo de fim de carreira e aquele prazer de que ainda teve o cuidado de nos dizer a tempo um Adeus.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

23 de abril - Dia Mundial do Livro

Nos últimos anos tornei norma identificar nesta data e neste blogue os livros que mais gostara de ler ao longo dos anteriores 12 meses, talvez seja pretensioso dizer que coincidem com os melhores lidos, pois nisto de qualidade há sempre uns critérios objetivos, mas também outros subjetivos e até alguns subversivos. 
Tenho de assumir que a quantidade de obras lidas foi numerosa neste período e incluiu alguns dos títulos globalmente considerados mais importantes da história da literatura, o que torna a escolha desta vez bem mais complexa, contudo vou fazer um esforço de expor algumas das obras que ficaram no topo das que mais gostei de ler e considerei melhores segundo categorias distintas.

Melhor Livro de ficção nacional
Penso que a literatura contemporânea portuguesa está pujante e com qualidade, embora sofra de elogios promocionais a mais sobre quase tudo o que vai saindo, tornando difícil distinguir o bom trigo do joio valorizado para fins comerciais em benefício das editoras. Todavia, tendo em conta a sua riqueza interna e os 40 anos de liberdade que esta semana comemoramos, a escolha recaiu numa obra que mostra muito dos males da ditadura no passado e muitos dos problemas da terceira idade de hoje e ainda possui um estilo de escrita que embora influenciado não deixa de ter uma dose de originalidade:



Melhor  Livro de ficção de expressão portuguesa
Face à categoria acima apresentada aqui excluo Portugal. O conjunto da literatura lusófona expõe as subtilezas que resultam da diversidade lexical, gramatical e sintática da nossa língua e até as influências geográficas e climáticas que se perdem em traduções (como tornar compreensível ao leitor noutra língua o pormenor da origem da obra em África, Brasil ou Portugal face à posição dos pronomes na frase ou a preferência por cacimba, sereno, rocio, orvalho ou relento ou mesmo a frequência do gerúndio da maioria dos lusofalantes face ao seu uso escasso no norte e centro de Portugal?). No uso da linguagem foi Ondjaki quem mais me surpreendeu com o linguajar de Luanda. Mia Couto cria palavras moçambicanas que chocam ao substituir termos usuais. No Brasil sobrevivem sinónimos arcaicos, alguns que ainda subsistem em nichos rurais e ilhas de Portugal e mostram-se outras regras de criar neologismos... tudo isto justifica a frase de Pessoa "A minha pátria é a língua Portuguesa"... mas a obra literariamente mais original e profunda que li ao longo deste ano, nem sempre fácil, mas que se destacou pela qualidade interna foi:



Melhor Livro de ficção de outra língua original
Procurei aqui não incluir romances já reconhecidos como grandes clássicos da literatura mundial, tendo em conta a última categoria deste artigo e por que tal tenderia a afastar outras grande obras menos famosas. A hesitação rondou "Nostromo" de J Conrad, "O Sino da Islândia" de Laxness, "O Carteiro de Pablo Neruda" de Skarmeta (sem dúvida o mais pequeno e ternurento), ou "A Guerra do Fim do Mundo" de Llosa em grande parte baseado em factos reais e o conjunto de "O Quarteto de Alexandria" de Durrell, mas a escolha foi para uma grande obra recente, por vezes incómoda e desagradável, que reflete muitos dos temores da sociedade atual, denuncia muitos dos seus vícios e está em parte relacionada com a minha vida profissional:
Melhor Livro de ficção canadiana
Esta é uma categoria que resulta do facto de ser cidadão e natural do Canada, confesso contudo que só li um livro deste País ao longo deste ano e pela primeira vez sem ser na língua original, só que também o mesmo corresponde a um título de contos da escritora que foi este ano galardoada com o prémio Nobel da Literatura e como tal não poderia deixar de fora esta oportunidade para mais uma vez homenagear a escritora de quem sou um grande admirador:
Melhor ficção  de clássicos da literatura mundial
Aqui foi talvez o domínio mais complicado de seleção. Só considerei obras com mais de cem anos que recentemente foram reeditadas por serem tidas pelos críticos como grandes obras e continuarem a ser sucessos persistentes no tempo: "O Idiota" e "Os Irmãos Karamzov "de Dostoievsky a baterem-se com Guerra e Paz de Tolstói, romances mais pequenos como "O Monte dos Vendavais" de E Brontë, "História de duas cidades" de Dickens e mesmo originalmente em português por que não mencionar as deliciosas sátiras de "O Conde de Abranhos" e "O Mandarim" de Eça de Queiroz ou o "Dom Casmurro" de Assis, mas no fim penso que globalmente o clássico mais completo deste ano foi mesmo:


Nota: Os títulos "vencedores" estão sempre ligados ao endereço do artigo em que falei sobre a obra.

terça-feira, 22 de abril de 2014

22 de Abril - Dia da Terra

Porque hoje é o dia da Terra e eu nunca deixei de ser geólogo e Geocrusoe já foi sobretudo um blogue de Geologia, mesmo que hoje esta anda menos presente por aqui, fica neste espaço a lembrança da comemoração deste planeta que necessita da proteção do um dos seus filhos: o Homo sapiens


Recomendo-vos ainda uma visita hoje ao excelente Doodle animado da página da Google que celebra igualmente o dia da Terra estaticamente mostrado neste artigo.

UM BOM DIA PLANETA TERRA!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

"Venenos de Deus Remédios do Diabo" de Mia Couto




"Venenos de Deus Remédios do Diabo" de Mia Couto é um romance que mistura numa aldeia de Moçambique um pseudomédico português que ali vai parar perdido de amores por uma mulata que se torna ausente e na espera tenta curar moçambicanos doentes da alma ou do corpo, mas onde todos eles lhe mentem, enquanto escondem segredos e alimentam entre si ódios, traições e paixões temperadas com traumas de velhice e vinganças das aventuras de um passado jovem e saudoso que já se ensombra pelo espreitar da morte.
Um romance que que cria uma história maravilhosa, que roça a perversão misturada com as superstição populares locais, mas cheia de ternura e sempre atravessada pelo bom humor, a ironia e a ternura.
Mia Couto nesta obra mais do que expor uma série de neologismos, cria um mundo fantástico onde os sentimentos das pessoas são expressos por receios que animam as coisas que parecem transubstanciar-se nos medos das personagem. Uma pequena obra muito agradável que apesar de laivos sombrios está cheia de ternura e nos dá boa disposição e prazer. Recomendo a qualquer tipo de leitor.

sábado, 19 de abril de 2014

Votos de feliz Páscoa

Ressurreição de Piero della Francesca (sec XVI)

Como Cristão que sou, esta é para mim a noite mais Sagrada do ano e começa a minha principal festa litúrgica: a Páscoa.
A todos Feliz Páscoa, quer os crentes que partilham comigo a parte religiosa, quer a todos os outros com quem também compartilhamos a tradição desta data.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

"À espera no Centeio" de J. D. Salinger


Quando comprei o livro pouco mais sabia de que se tratava de uma obra da década de 1950 e das mais polémicas da literatura dos Estados Unidos.
O romance mais conhecido de J. D. Salinger "À espera no Centeio" cujo título corresponde a um verso da letra de uma canção que já perto de fim o protagonista, Holden Cauldfield, explica como a metáfora do modelo do seu  não-projeto de vida futura.
Holden, um jovem de 16 anos de uma família de elevados rendimentos, relata no livro, na primeira pessoa, de uma forma direta e numa linguagem despreocupada juvenil (penso que a tradução a atualizou o linguajar ao dos adolescentes da presente década), o seu último dia num colégio privado onde, à semelhança de outros anteriores, é mais uma vez reprovado, bem como a sua fuga sem plano para Nova Iorque onde vivia até chegar ao dia agendado para de facto regressar a casa nas sua férias do Natal.
Ao terminar a obra concluo que é apenas a descrição do que pode ser a queda de um adolescente protegido, contestatário, sem norte, sem perspetivas de vida, inteligente e convencido que é adulto... a única razão para a polémica talvez seja ele poder ser o retrato cru de muita gente nova com quem a sociedade não sabe lidar e por isso alguns críticos refugiam-se na crueza dos termos, na forma livre como o protagonista fala e procura descobrir a sexualidade e os seus receios face ao que o cerca.
Gostei do livro mais pela descrição do problema social do que pelos rótulos vindos de pruridos que falsas morais tentaram acusá-lo.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Homenagem sentida a Gabriel Garcia Marquez

Durante quase uma década devorei com sofreguidão todos os livros que encontrava de Gabriel Garcia Marquez... morreu mas continua vivo através dos seus livros cá em casa num espaço nobre da estante dos laureados com o prémio Nobel... hoje concluiu-se mais "Uma crónica de uma morte anunciada" mas não serão mais "100 anos de solidão", por que há sempre "O Amor em tempo de cólera" e se "Ninguém escreve ao Coronel" n"O outono do Patriarca" eu estou aqui para o ler n"A memória das minhas putas tristes" e espero que muito mais.
Obrigado pela horas e anos de prazer que me deste Gabriel Garcia Marquez, nunca te esquecerei.

sábado, 12 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" - Romance 4 - "Clea" de Lawrence Durrell


Terminei de ler "Clea", o último dos romances que constituem a tetralogia sobre Alexandria no período anterior e durante a 2.ª Grande Guerra Mundial escrita por Lawrence Durrell . A versão que li encontra-se reunida num único volume editada pela Dom Quixote  que mostro na imagem acima.


À semelhança dos dois primeiros romances, Clea volta a ter como narrador principal Darley: um professor, escritor, espião e diplomata inglês que escreve as suas memórias de Alexandria e do seu círculo de amigos, dominado por estrangeiros cultos e alta sociedade copta na cosmopolita cidade.
Se os anteriores volumes são ângulos diferentes das mesmas personagens e acontecimentos em grande parte sincrónicos antes da guerra, Clea fecha este quarteto já durante e no pós-conflito, permitindo assim neste andamento, justificar, fechar e completar o ciclo iniciado em Justine e prosseguido nos seguintes romances e levar-nos ao resultado final das paixões, traições, amizades e políticas antes relatadas e dar o retrato global da vida daquela urbe egípcia numa época específica e onde Durrell foi diplomata.
Apesar de ser uma espécie de epílogo dos romances anteriores, não deixa de nos dar novos ângulos e de mostrar que cada pessoa é o somatório de personagens, onde cada indivíduo apenas constrói uma das suas facetas mas que se pode desfazer ou alterar-se no tempo à medida que se reúnem os dados vindos aqueles com quem convivemos e conhecedores de dados distintos daqueles da verdade que construímos.
Já no fim deste magnífico quarteto, cujo primeiro volume inicialmente se estranha, e ao investigar este surpreendente escritor, percebi por que na sequência desta tetralogia chegou mesmo a finalista do júri do Nobel em 1962... ano da vitória de Steinbeck.

terça-feira, 8 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" romance 3 - "Mountolive" de Lawrence Durrel


"Mountolive", de Lawrence Durrel, gira em torno da carreira do diplomata homónimo, uma personagem pouco abordada nos anteriores volumes e tornando-se no protagonista do terceiro volume e ocupa o lugar do escritor como narrador das anteriores histórias de "O quarteto de Alexandria" e onde além do desenrolar da sua paixão a trama vai desembocar num romance de espionagem e guerrilha política no seio de Alexandria com as principais questões do médio oriente ante II Grande Guerra e que vem a colocar as várias personagens amigas e adversárias nos tomos anteriores agora em campos inimigos ou aliado, evidenciando assim novos interesses obscuros que estavam por detrás das relações de amizade, luxúria  e amor que antes foram explorados de uma forma mais emocional sem esta perspetiva.
Passado só em parte em Alexandria, a obra estende-se por outras partes do Egito e até do mundo e mostra de uma forma mais profunda a cultura copta e as suas preocupações de sobrevivência, bem como a sobreposição dos interesses políticos à amizade nas relações humanas a coberto de uma hipocrisia fria que governa a diplomacia.
É um romance cujo enredo é quase independente das tramas anteriores e com uma estrutura romanesca mais acessível e linear, embora várias situações se cruzem sincronicamente com acontecimentos antes descritos e nos mostre uma nova perspetiva e interpretação dos mesmos e cada vez mais esta tetralogia vai crescendo não só em dimensão, mas em riqueza literária do conjunto e evidenciando a multiplicidade de um indivíduo como pessoa.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" Romance 2 - "Balthazar" - Lawrence Durrell


O segundo volume da tetralogia "O quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell: "Balthazar"; é um magnífico exercício literário onde se coloca em dúvida a visão do escritor transposta para os seus livros com base em personalidades conhecidas e mostra uma realidade diferente da opinião antes contada pelo autor na sua ficção, isto com base numa abordagem crítica de uma das personagens do primeiro romance ao próprio conteúdo deste e às descrições e interpretações nele contidos pelo autor.
Neste romance, que não deve ser bem compreendido sem a leitura do anterior, quase não existem repetições de acontecimentos do primeiro volume, mas ocorrem outros que servem de reinterpretação e adequadamente relacionadas com o descrito na primeira versão. Existe ainda a introdução de algumas novas personagens ou o aprofundamento de algumas anteriormente conhecidas, o que leva a uma reanálise de "Justine" e no meu caso a ressaborear este livro com novo gosto mesmo depois de o ter lido.
Além de em "Balthazar" e com novos olhos se retomarem as temáticas de "Justine", é igualmente interessante a descrição de Durrell das tradições culturais urbanas da elite de Alexandria, como o seu Carnaval, e do Egito rural e da paisagem que cerca a cidade no tempo anterior à II Guerra Mundial.
"Balthazar" é assim um exercício literário que é um o romance sobre o papel do seu autor na interpretação da realidade, sem cair na frieza de ser um ensaio e mantendo uma trama ficcional viva e interessante.