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sexta-feira, 4 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" Romance 2 - "Balthazar" - Lawrence Durrell


O segundo volume da tetralogia "O quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell: "Balthazar"; é um magnífico exercício literário onde se coloca em dúvida a visão do escritor transposta para os seus livros com base em personalidades conhecidas e mostra uma realidade diferente da opinião antes contada pelo autor na sua ficção, isto com base numa abordagem crítica de uma das personagens do primeiro romance ao próprio conteúdo deste e às descrições e interpretações nele contidos pelo autor.
Neste romance, que não deve ser bem compreendido sem a leitura do anterior, quase não existem repetições de acontecimentos do primeiro volume, mas ocorrem outros que servem de reinterpretação e adequadamente relacionadas com o descrito na primeira versão. Existe ainda a introdução de algumas novas personagens ou o aprofundamento de algumas anteriormente conhecidas, o que leva a uma reanálise de "Justine" e no meu caso a ressaborear este livro com novo gosto mesmo depois de o ter lido.
Além de em "Balthazar" e com novos olhos se retomarem as temáticas de "Justine", é igualmente interessante a descrição de Durrell das tradições culturais urbanas da elite de Alexandria, como o seu Carnaval, e do Egito rural e da paisagem que cerca a cidade no tempo anterior à II Guerra Mundial.
"Balthazar" é assim um exercício literário que é um o romance sobre o papel do seu autor na interpretação da realidade, sem cair na frieza de ser um ensaio e mantendo uma trama ficcional viva e interessante.

segunda-feira, 31 de março de 2014

"Quarteto de Alexandria" - Romance 1 - "Justine" de Lawrence Durrell




Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "O quarteto de Alexandria: Justine" de Lawrence Durrell passado na cidade do mesmo nome no período ante-guerra e com o Egito sob o domínio britânico, não um volume separado como na imagem deste artigo, mas num livro único apresentado na coluna da esquerda.
Alexandria era então um centro cosmopolita onde se cruzavam as culturas mediterrânicas: a local árabe e as estrangeiras grega, judia, síria, francesa e a da potência dominante que viviam num mundo onde acima da miséria dos autóctones partilhavam lutas de política, amor e ócio.
O protagonista, um professor inglês que viveu nesse mundo conta as suas memórias com as personagens com quem estava mais próximo e reflete sobre as mulheres por quem se apaixonou e os vícios em que estas relações imergiam: o ciume, as obsessões pelo objeto amado, as dissertações de como os segurar, as infidelidades consentidas e não, a prostituição, a homossexualidade e a diplomacia entre as partes. Tudo isto, embora num estilo de escrita diferente, fez-me lembrar Proust, mas menos profundo na análise dos temas e dos valores. Gostei da forma como Durrell se serve de Justine para através do seu carácter descrever a cidade de Alexandria.
Por agora a prosseguir para o segundo romance Balthazar, personagem já conhecida em Justine.

quarta-feira, 26 de março de 2014

"Debaixo de Algum Céu" de Nuno Camarneiro

Edições Leya

Acabei de ler "Debaixo de algum Céu" um romance de Nuno Camarneiro que ganhou o prémio Leya em 2012.
Nesta obra que relata o dia-a-dia entre o Natal até ao primeiro dia do Ano Novo inclusive dos tão variados residentes de um edifício de apartamentos, o narrador, dividindo o texto em trechos independentes, vai montando os carácter de cada personagem enquanto constrói o mosaico das relações humanas, dos problemas individuais e das tensões e sentimentos que unem os habitantes daquele prédio.
Apesar do narrador por vezes dar a entender que a narração de uma história não tem de ser moral e de ao longo da obra parecer que se trata de um excelente exercício de escrita sem juízos de valor... ao completar o quadro no primeiro dia do ano a mensagem, as lições de vida e o significado que a esta podemos dar está lá toda, fornecendo à obra uma estrutura completa em termos de escrita, trama e mensagem.
Uma pequena obra com escrita arrojada, inovadora e fluída de que gostei em grande e recomendo.

sábado, 22 de março de 2014

"NOSTROMO - Uma história da beira-mar" de Joseph Conrad

Nostromo - Editora Dom Quixote

"Nostromo - uma historia da beira-mar" de Joseph Conrad é um romance minucioso que diz muito para além dos intensos pormenores com que é caracterizada profundamente a psicologia das personagens, as suas interligações sociais, a estrutura hierárquica de um povo, os vícios e a ganância das pessoas que podem destruir politicamente um Estado e o próprio amor.
Passado num País imaginário da América Latina, Conrad constrói a imagem nítida de um Estado com todos os defeitos estruturais que por norma perturbam o desenvolvimento deste continente, não faltando: o complexo de colónia, de colonizador, de estratificação de classes, de independência e de secessão e onde os seus recursos ou o seu próprio tesouro é a causa da pobreza de muitos, da desgraça da nação e da instabilidade politico-social permanente e até de vitimização do amor.
Muito é dito de uma forma subtil e inteligente com uma escrita magistral, condimentada com paixão, ódio, corrupção e integridade humana, bem como a frequente desilusão a que ficam condenados os idealistas.
Um grande e belo romance, que não perde atualidade, com paixão, melancolia, aventura, heroísmo e a cobardia que move a humanidade.

quarta-feira, 12 de março de 2014

"O Sino da Islândia" de Halldór Laxness


Terminei a leitura de "O sino da Islândia" um grande romance passado nos tempos da subordinação tirânica da ilha à Dinamarca. Uma obra que confirma definitivamente que o laureado com o prémio Nobel da literatura Halldór Laxness foi de facto um magnífico escritor do século XX, com livros bem diferentes mas que preservam a qualidade e levantam grandes questões sociais, políticas e éticas como já acontecia na obra-prima "Gente Independente".
"O Sino da Islândia" baseia-se em grande parte em pessoas e factos que existiram na realidade na transição do século XVII para XVIII e faz um retrato nacionalista da cultura, da mentalidade, das crenças e da história do povo islandês.
O sino marcava os grandes processos do principal tribunal da Islândia quase desde a origem do povoamento da ilha e assim simbolizava a justiça de uma sociedade e logo no início do romance é retirado por ordem do reino que ocupa o território, marcando assim um tempo em que o sistema está subjugado aos interesses de novos senhores e subservientes à potência estrangeira... só que nas voltas e reviravoltas algo levou a que se tentasse repor a memória, o sistema e o orgulho nacional, mas a evolução da trama deixa uma grande interrogação: será que os pobres de um povo escravizado são capazes de preferir a injustiça para salvaguardar os hábitos em que já se sente ambientado em detrimento de um seu salvador que o coloca num sistema que liberta as vítimas e castiga os poderosos por que já não sabem sobreviver de outro modo?
Preferir os benefícios da reposição da acusação de criminoso à liberdade e desprezar a sua retirada em tribunal pelos inconvenientes que isso traz em sociedade é algo que leva a profundas reflexões sobre até que ponto uma sociedade pode ser pervertida nos seus valores e princípios.
Um romance onde a distinção entre herói mítico, criminoso e oportunista se camuflam no nevoeiro das lendas, da cultura e da miséria de então do povo islandês. Um excelente livro.

terça-feira, 4 de março de 2014

"Os irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski


Ao terminar a leitura de "Os irmãos Karamázov" de Dostoiévski compreendi por que este romance é um dos mais importantes da história da literatura: conflito de gerações - exemplo de pai e reflexo nos filhos; conflito de moral - livre arbítrio e opção pelo certo ou prazer; conflito religioso - crente e ateu; conflito de consciência culpa coletiva e castigo individual; conflito sentimental ciúme/ódio/vingança e compreensão/amor/perdão.
Escrito em forma de relato de um observador externo dos acontecimentos por que passaram os voluptuosos Karamazov, o pai e os seus três filhos abandonados à sua sorte que mesmo herdando os mesmos vícios conseguem ser tão diferentes entre si, o romance levanta numerosas questões: a que mais atravessa o livro é se sem Deus tudo será permitido ao homem e se a humanidade sobreviverá? Contudo não se fica por aqui: pode um indivíduo ser culpado pelos outros? pode-se condenar alguém que não tem uma recordação positiva do pai? Podemos construir o nosso próprio inferno e aceitá-lo pela paixão a que nos dedicámos? Como construir um mundo melhor?
Apesar da profundidade da obra, o romance muitas vezes tem a velocidade vertiginosa de um thriller, a tensão de um policial e o romantismo de uma história de paixões e amor fraternal, intercalados com momentos de maior reflexão, sem nunca deixar de ter um estilo de escrita genial, bela e quase sempre fácil que agarra o leitor.
Vários indícios apontam para que o romance devesse prosseguir com um terceiro volume que Dostoiévski já não escreveu, mesmo assim, não deixa de ser uma obra completa que todos devem ler.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Utopia" de Thomas More

Provavelmente se passasse por uma livraria e visse o livro "Utopia" de Thomas More, escrito em 1518 não o compraria, apesar de saber o impacto que o mesmo provocou nas mentalidades do século XVI, do seu autor ter sido chanceler mor no tempo de Henrique VIII, deste o ter mandado matar pela sua fidelidade ao papa e mais recentemente ter sido elevado à categoria de Santo pela igreja Católica e um padroeiro dos políticos.
Todavia ao ter-me cruzado com esta obra em ebook gratuito decidi baixá-la e lê-la. Um livro fascinante, onde Thomas More disserta sobre uma sociedade ideal quase perfeita na ilha imaginária de Utopia, País em que há uma partilha responsável do trabalho entre todos, ausência de ócio pernicioso e a segurança e o bem-estar é assumido pelo Estado a um povo tolerante e inimigo das guerras.
Não subscrevo tudo o que Thomas More propõe, talvez nem ele, é um ensaio sobre um modelo ideal de sociedade e sem dúvida que mesmo decorridos quase cinco séculos é ainda um livro revolucionário que vale a pena ler e refletir.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Um Milionário em Lisboa - de José Rodrigues dos Santos

Este romance completa a biografia romanceada e parcialmente ficcionada por José Rodrigues dos Santos de Calouste Gulbenkian e iniciada no título "O Homem de Constantinopla". 
No primeiro romance tivemos as raízes do protagonista aprendiz para a sua vocação comercial desde criança, jovem e no início da sua vida adulta. Agora deparamo-nos com o memso já amadurecido, transformado plenamente num homem perspicaz e visionário para o mundo dos negócios do petróleo e enfrentar os vícios do sistema. Mesmo assim, este foi praticamente sempre um cidadão em fuga de perseguições raciais e culturais, sem nunca deixar de procurar a beleza na produção humana, o que o tornou num dos maiores colecionadores de arte do seu tempo.
O livro tem ainda um importante herói secundário, o filho de Calouste, tão semelhante e forte como o pai e como tal fonte de grandes choques de personalidades de convicções intensas.
Este romance denuncia longa e intensamente a dureza do genocídio arménio no início do século XX no império otomano e a forma como a Europa, sobretudo germânica, povo em relação ao qual o escritor não é nada simpático, fechava os olhos por interesse político. Mostra como nas duas grandes guerras se foi capaz de esquecer gratidões e criar inimigos onde eles não existiam, expõe a maldade reinante no mundo dos grandes grupos empresariais e como Portugal e Lisboa no extremo do continente e na sua pobreza e simplicidade pode ser uma surpresa agradável e cativante para muitos, a tal ponto que o homem mais rico do planeta legou a este País a maior fundação cultural do velho mundo.
Talvez por corresponder a um período mais maduro do protagonista e de guerras na Europa, o segundo romance tem uma escrita menos afetada por excessos floridos de figuras de estilo e mesmo descontando as partes ficcionadas que podem perturbar a imagem do verdadeiro Calouste Gulbenkian, recomendo a leitura deste conjunto de romances.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Homem de Constantinopla - José Rodrigues dos Santos

Este livro que se completa com uma segunda obra pretende romancear a vida de Calouste Gulbenkian que enriqueceu à sombra da ascensão da indústria do petróleo e foi o maior mecenas cultural e científico de Portugal. Um homem de origem arménia que deixou em Lisboa uma das maiores fundações privadas do mundo de apoio às artes e ciências e o espólio de um magnífico museu sobretudo de arte do século XX.
Este volume conta a infância, juventude e ascensão de Calouste até ao início da I Guerra Mundial, mas mesmo tendo em consideração a necessidade de inventar pormenores para sustentar a trama de um romance em torno de uma pessoa real, pelo que sei, a estória de "O homem de Constantinopla" também não é bem fiel à vida original da personagem ficcionada e deduzo mesmo alguma especulação para dar intensidade ao texto sem um respeito pertinente ao retrato de carácter e de psicologia do verdadeiro homem. O que é pena.
José Rodrigues dos Santos escreve corretamente, mas exagera nas figuras de estilo e metáforas fáceis, o que torna o texto pretensioso, desvirtua o equilíbrio da forma e dá à obra um tom mais de agrado popular e lúdico do que valor literário. Apesar de tudo, o romance é agradável, fornece dados interessantes sobre Calouste Gulbenkian e a sua época.
Está-se perante uma obra acessível a qualquer leitor, mesmo não habituado a obras intelectualmente mais exigentes, para quem ler é sobretudo um passatempo de lazer e manteve-me o interesse em ler o segundo romance para onde agora vou mergulhar. 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Complexo de Portnoy - Um livro que deixei a meio


Já há muitos anos que não deixo qualquer livro de literatura a meio, por vezes é uma prova de resistência e de princípio concluir a obra... mas confesso que de "O Complexo de Portnoy" de Philip Roth já chega, mesmo tendo chegado um pouco além de meio do romance.
Saturei-me dos desabafos, dos fetiches e dos sentimentos de culpa da vida sexual de Alexander Portnoy desde criança, passando pela adolescência e até à vida adulta no banco do psiquiatra em resultado da pressão da sua educação judaica em classe média baixa, perante uns pais conservadores e a sua inteligência ateia e egoísta. Tudo isto numa linguagem grosseira e de luxúria que anseia as mulheres gentias (goyiche) americanas tratadas apenas como objetos de desejo.
Não sei como acabaria a obra... mas de sacrifício por ler este complexado amoral já me bastou.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Conde de Abranhos de Eça de Queiroz


Acabei de ler o romance "O Conde de Abranhos" de Eça de Queiroz, talvez a obra mais sarcástica e mais crítica da classe política feita por este escritor, mesmo sem ser extensa.
Pela força da palavra, num estilo delicioso e cheio de humor, Eça de Queiroz expõe a biografia do político Abranhos, onde, de rajada, mostra o seu desprezo por parentes inconvenientes à sua imagem pública, o seu faro oportunista das situações, a sua desadequação do saber-fazer disfarçada pela retórica, as respetivas convenientes mudanças de posições, o clientelismo que se tende instalar a sua volta e o afastamento dos seus ideais de gestão pública dos interesses das classes mais baixas.
Eça de Queiroz, apesar de divertido, é duro pelo sarcasmo com a classe política e com o estado da Nação, um livro que se perdeu atualidade foi apenas no facto de todos os defeitos do sistema denunciados na obra hoje serem mais elaborados, ampliados e despudoradamente evidentes, tal como as suas consequências.
Uma excelente obra de lazer, divertida e cheia de crítica política que vale a pena ler...

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

"Alves & C.ª " de Eça de Queiroz


Nesta sequência de três obras de Eça de Queiroz que estou a ler, terminei agora o curto romance "Alves & C.ª " onde o escritor aborda um caso de adultério feminino para dissertar ironicamente sobre as soluções tradicionais e irrefletidas de defesa da honra e as suas consequências, bem como as alternativas mais racionais ou cobardes de conciliação e conformes com o espírito de muitos dos ofendidos e dos culpados, enquanto faz uma exposição do pecados privados face aos bons costumes e hipocrisias públicas sociais à época no campo da fidelidade conjugal.
Uma trama linear, com uma linguagem mais simples do que noutros livros de Eça, mas onde a ironia e a boa disposição continua sempre presente, mesmo durante os momentos mais dramáticos e intensos da desgraça do protagonista Alves. Um romance simples que diverte e dá prazer sem ser pretensioso.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O Mandarim de Eça de Queiroz


Acabei de ler o pequeno romance/novela "O Mandarim" de Eça de Queiroz (numa edição diferente da imagem e pertencente a uma coleção completa das obras deste escritor), um livro de muito fácil leitura pela sua qualidade de escrita, reduzida dimensão e pelo humor irónico, crítico e lição moral que contém.
Não haja dúvida que Eça domina a técnica da escrita literária como poucos portugueses o fizeram até hoje e o seu olho clínico é por norma um retrato social da sua época cheio de boa disposição. Neste caso a história mistura o fantástico, algumas ambições transversais à maioria das pessoas (o desejo de ser rico e acesso aos bens e ao prazer), um retrato da China pelos olhos ocidentais e os vícios mesquinhos do cidadão lusitano comum, terminando com um lição de moral onde o dinheiro não traz a felicidade a uma consciência culpada.
Uma obra que dá imenso prazer a ler e pode ser um aperitivo para entrar na obra de Eça ou então para o recordar sem ser através das suas obras mais extensas.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"Miramar" de Naguib Mahfouz

Editora Civilização

Conclui a leitura de "Miramar" do único escritor em língua árabe galardoado com o prémio Nobel da literatura até ao presente, neste caso de nacionalidade egípcia. Escolhi este livro com o objetivo de através desta forma de arte tentar compreender melhor a sociedade deste País.
O romance passa-se na década de 1960 e descreve, nos vários capítulos e na primeira pessoa, a vida por um curto período de quatro clientes egípcios ocidentalizados residentes na pensão Miramar, onde todos ficam fascinados pela criada jovem, bonita, rural e honesta com ambições à modernidade.
Assim, o relato daqueles dias é repetidamente exposto pelos olhares diferentes de cada um dos clientes as respetivas tentativas de a proteger ou de a seduzir, atitude posto em contraste com a pureza ética da jovem face aos interesses individuais destes hóspedes que desenvolveram vícios de sobrevivência numa sociedade em mudança devido à revolução em que o Egito passou do domínio britânico para a esfera dos ideais socialistas, período conturbado e vulnerável às ambições dos arrivistas oportunistas e da resistência dos saudosistas nacionalistas e onde cada um tenta tirar proveito próprio do novo ciclo face às suas origens.
A trama e as várias visões estão bem entrecruzadas, a escrita é fácil, embora os recurso a recordações sobre o passado político do País e a cultura islâmica por vezes tenham levado o tradutor a explicações em nota de rodapé para melhor entendimento do leitor, o estilo literário parece ocidentalizado, pelo que se torna numa obra fácil e dá uma visão do comportamento de uma franja social de cidadãos egipcios que vivem ocidentalmente numa sociedade conservadora, oriental, islâmica e indecisa entre dois mundos culturais. Gostei.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

"Amada de Vida" de Alice Munro


Acabei de ler a série de 14 contos que integram o livro "Amada Vida" de Alice Munro, a escritora canadiana vencedora do prémio Nobel da literatura em 2013 de quem sou grande admirador.
Foi a primeira vez que li as obras de Alice Munro sem ser na sua língua original e confesso que os sentimentos e prazeres que despertaram em mim nesta versão da editora Relógio d'Água foram semelhantes aos de quando a lia em inglês: sinal de que a tradução, a métrica e o estilo de escrita respeita o original que me encantava.
Os 14 contos correspondem a 10 ficções, seguida de 4 memórias autobiográficas do período da infância/adolescência da autora. Na sua grande maioria os contos são passados em meios essencialmente rurais, tendencialmente conservadores, sobretudo no período pós II Guerra Mundial ou meados dos século XX e onde os protagonistas são pessoas comuns sem nenhuma particularidade para serem tratados como heróis, expondo-se assim os seus simples e humanos anseios, receios, vícios e constrangimentos sociais na sua vida normal, onde pontua o amor, a sobrevivência e a traição; ambientes e situações em que Alice Munro também se reviu na sua juventude.
Alice Munro tem um estilo próprio de mostrar as virtudes e defeitos do cidadão comum sem os julgar globalmente pelas suas boas ou más decisões e é nisto que está a originalidade e a sua grandeza literária. Por norma prefiro as suas histórias mais pessoais, pelo despudor e elegância com que se mostra ao leitor, contudo, nas restantes histórias a autora consegue fazer o retrato global do interior das pessoas desde a infância até à velhice condicionadas pelo seu meio. Embora este não tenha sido o meu livro predilecto desta escritora, foi uma obra que gostei e recomendo para quem a quiser descobrir ou iniciar-se no conto.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

"O Monte dos Vendavais" de Emily Brontë

Edição book.it

Acabei de ler um dos livros mais famosos da literatura britânica do século XIX, "O Monte dos Vendavais" de Emily Brontë, uma estória obsessiva de paixão, despeito e vingança, onde o meio rural, a paisagem de charneca e o clima húmido e tempestuoso intensificam o ambiente opressivo e sombrio do romance. Se fosse uma obra literária atual caberia em grande parte no estilo negro gótico.
A estória é narrada com recurso à descrição de acontecimentos passados (analepse) que vão desenrolando a trama que explica a situação no presente, onde o ouvinte principal surge como autor da obra mas sem participar no evoluir do romance.
Como obra do período romântico os sentimentos, defeitos e qualidades das personagens são extremados, o que gera uma certa incredibilidade sob o elevado grau de subserviência das vítimas e da maldade dos maus, contudo o fio condutor da estória e estilo de escrita é cativante e prende o leitor à estória.
Para quem gosta de romances com sentimentos muito intensos num ambiente opressivo é uma obra interessante, para mim valeu mais pele estilo de escrita e de narrativa.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

FELIZ ANO DE 2014

A todos os que uma forma ou outra têm interagido com este blogue ao longo deste ano que agora finda, que pretendem continuar por aqui em 2014 ou passem a ser novos leitores, apresento os meus votos de boas leituras num
FELIZ E PRÓSPERO ANO 2014
que os vossos sonhos para o próximo ano se concretizem e que o mundo se torne mais justo e humano.
Bem hajam os construtores da Cultura, da Justiça e da Paz!
Imagem Wikipedia