segunda-feira, 1 de outubro de 2018

"Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" Gonçalo M. Tavares


Citações
"Se fizéssemos um cálculo do ritmo a que antes se caminhava pelas cidades e comparássemos com a velocidade actual concluiríamos que as pernas acompanham a evolução da técnica: está tudo mais rápido e as pernas não são excepção;"

"Não podemos observar enquanto fugimos"

"todos temos momentos em que olhamos para o lado errado e em que aquilo que é significativo acontece precisamente nas nossas costas."

Acabei de ler o pequeno mas magnífico romance "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" do escritor português contemporâneo Gonçalo M. Tavares.
Marius encontra na rua uma menina com trissomia 21 que diz chamar-se Hanna, estar perdida, procura o pai e faz-se acompanhar de uma caixa de fichas de ação de um curso educacional para crianças com desadaptação aos outros. A partir deste encontro começa uma caminhada de busca ao longo da qual Marius se cruza com personagens ímpares: um homem que cola cartazes em ruas secundárias para mudar a humanidade; um fotógrafo de animais que pretende também tirar fotos a Hanna; os judeus donos de um hotel que é o mapa dos campos de concentração nazi; o antiquário que dorme cercado de livros que quase o sufocam; os artista de miniaturas que a maioria não consegue ver e o homem de quarto Terezina obcecado com o equilíbrio do peso do que possui com o que tem, enquanto a menina consegue despertar sorrisos e simpatia à sua volta e requer permanente proteção daquele que a encontrou.
Gonçalo M. Tavares continua a ser o escritor português atual que mais me fascina, alguém com uma escrita única que denuncia a desumanidade da era da técnica na sociedade atual que sufoca sentimentos e cria personagens aberrantes. Os seus livros, na generalidade, desenvolvem-se num meio germanizado e este romance não é exceção, sem nunca dizer o país onde se situa, acaba em Berlim e os nomes e situações desenvolvem ambientes que se sente ser alemão, mas esta obra tem a ternura despertada por Hanna magistralmente narrada na passagem com a contabilidade de sorrisos despertados na rua.
As diferentes estórias que resultam do contacto com as personagens que vão desfilando no livro criam um romance que além de ser uma obra de arte literária, compatibiliza a frieza dos livros negros do autor com a ternura e simpatia de uma adolescente com trissomia 21 perdida no século onde a falta de calor nas relações humanas é uma característica transversal aos indivíduos que formam a sociedade contemporânea. Gostei muito e não consegui parar de ler esta fascinante obra.

8 comentários:

Pedrita disse...

não conhecia. fiquei curiosa. adorei a capa. beijos, pedrita

ematejoca disse...

Ainda não li, mas como me encontro no Porto, penso comprar esse livro.

Saudações outonais da minha cidade 😘

Carlos Faria disse...

Pedrita, Eu pelo menos gostei muito, sobretudo a forma como a adolescente cativa sorrisos e das personagens originais que o autor criou, além de muito bem escrito.

Ematejoca

Penso que é capaz de gostar, já encontrei um método de comentar no blogue da ematejoca, mas não tem sido fácil.

ematejoca disse...

Neste momento não há nada de especial no "ematejoca azul".
Gosto que o Carlos comente quando se trata de algo cultural para eu saber a sua opinião.
Não sei se gosta dos trabalhos de Robert MAPPLETHORPE, cuja exposição está a causar grande polémica em Serralves.

aprendendo a aprender disse...

Também fiquei curiosa. Não conhecia este autor.

Carlos Faria disse...

Ematejoca
Assisti à polémica com Mapplethorpe, mas confesso que não o conhecia, mas acompanho mais a pintura, música e literatura que a fotografia. Ouvi coisas contraditórias, não soube qual a verdade dos factos, li um post de Eduardo Pitta, que se coloca à margem da polémica e diz que a exposição é um flop e fundamente.
http://daliteratura.blogspot.com/2018/09/flop.html

Carlos Faria disse...

aprendendo a aprender
é dos escritores ainda jovem mais promissores de Portugal, embora frio e negro em vários dos seus livros da série negra, onde destaco Jerusalém e Aprender a rezar na era da técnica.
Tem uma obra difícil e espetacular que é uma réplica moderna dos Lusíadas com um herói contemporâneo. Gostei muito mas difícil de recomendar pela exigência na leitura.
Tem um conjunto de pequenos livros denominados o bairro onde cada um é uma estória com um dos principais artistas europeus que os coloca a viver todos no mesmo bairro e que se complementam.
Não gosto tanto da série que está a escreve sobre lendas e mitos, pelo seu aspeto estranho, mas estão muito bem escritas.
Este conjuga sentimentos, personagens estranhas e a habitual característica de ambiente germânico comum na maioria das suas obras.
Tem mais dois ou 3 livros que não li, mas é sem dúvida o escritor atual em Portugal que eu mais acompanho o seu trabalho.

Pedrita disse...

nossa, que livro fantástico. obrigada pela indicação. já vou atrás de outros. duas editoras passaram a publicar obras desse autor. ótima resenha, é tudo isso mesmo. tb já virei fã. quero ler outros. beijos, pedrita