Estreei-me no escritor, presentemente de língua inglesa, do arquipélago do Zanzibar na Tanzânia, Abdulrazak Gurnah, laureado com o Nobel da literatura em 2021, lendo um dos seus romances mais conhecidos "Junto ao Mar".
O romance começa com o narrar do idoso Saleh Omar da sua entrada como fugitivo do Zanzibar num aeroporto de Londres com o passaporte de Rajab Shaban, transparecendo que não sabe inglês, e com uma caixa de incenso apenas como principal bagagem. Após relatar o contacto com o agente de imigração e com uma voluntária para refugiados, é acolhido num centro de abrigo, onde buscam um tradutor para comunicar, encontram Latif Mahmud, este, igualmente um refugiado já naturalizado, suspeita de um usurpador do nome do seu pai, enquanto o primeiro desconfia que se trata do filho do homem de quem tomou a identidade. Entre o receio e a curiosidade, depois de alojado dá-se o encontro entre ambos e a narrativa passa para a história das duas famílias da parte de cada um: as falhas, os erros, as retaliações e as perseguições com a independência e os excessos de qualquer revolução que permitem um conhecimento mútuo e o crescimento de uma amizade inesperada.
Numa narrativa pouco acelerada, em parte nostálgica, em parte sentimental, a dar a conhecer a vida dos refugiados, das vítimas do fim da colonização e da guerra fria em África; o autor mostra com olhar africano o que foi a vida na parte oriental deste continente e as ligações históricas e comerciais entre os povos banhados pelo Índico.
Uma obra de divulgação civilizacional e cultural de uma parte do mundo muitas vezes esquecida ou contada apenas pela perspetiva europeia e vale conhecer pelo outro lado.
Gostei e deu para perceber a argumentação do comité Nobel das razões do galardão de literatura atribuído a Abdulrazak Gurnah. Fácil de ler e recomendo a quem quer alargar os seus conhecimentos sobre esta região de uma forma simpática e agradável.

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