segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

 

Excerto
"O amigo está numa casa em que todos, até os mais patifes, eram católicos desde as unhas dos pés até à flor dos cabelos. Lá que alguns pecaram pecaram....Uma casa fidalga sem pecado é mais enfadonha que uma boda sem bebedeira."

Acabei de ler o romance, o autor chama-lhe crónica romanceada, "A Grande Casa de Romarigães" do escritor português Aquilino Ribeiro, que possui uma obra vasta desde o final de 1.ª Grande Guerra até à década de 1960.
O livro conta a história das várias gerações que construíram, ampliaram e viveram nesta casa solarenga do Minho, com capela e uma grande quinta do lugar de Romarigães, um imóvel classificado de interesse público. A narrativa começa no início do século XVII, período de Portugal sob o domínio espanhol, e vai até meados do século XIX, já no período constitucional após as lutas liberais. Um solar com origem no sonho de um padre em adquirir o terreno, o que conseguiu a bom preço, que duma relação amorosa ilícita teve um filho que  permitiu prosseguir uma dinastia fidalga que dominou a zona e ali se estendeu por cerca de 300 anos, onde se falará da restauração, do terramoto de Lisboa, das invasões francesas, das lutas liberais vistas à distância da capital.
Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa (desconheço se são personagens reais), sendo que desde o início até ao final praticamente todos cheios de defeitos morais, tanto na sua vida privada, como nos métodos de assegurar a influência social e de preservar o património na família. Seis gerações de escassas virtudes e muitos vícios, vários dos atos mais importantes na obra estão ilustrados com estampas a preto e branco que valorizam o livro.
Aquilino Ribeiro viveu nesta casa como genro de um dos primeiros Presidentes da República que dela foi proprietário e quando esta já fazia parte de outra família que não a da dinastia das crónicas deste livro, considerado um dos mais importantes da literatura nacional de meados do século XX.
O escritor utiliza um vocabulário muitíssimo rico, com muitos regionalismos do Alto Minho, a que adiciona numerosos sinónimos raros das palavras de uso comum, pelo que deduzimos o seu significado: ora pelo contexto, ora com recurso ao dicionário se quisermos acompanhar toda a riqueza lexical da prosa. O tom utilizado é, na generalidade, satírico e mordaz, o que cria uma sucessão genealógica que varia de mesquinha a pródiga, patrões injustos e abusadores, quezilentos, dominados pela lascívia, preguiça ou oportunistas, tudo isto a coberto de valores tradicionais religiosos, ligados ao clero e ao poder. A literatura lusa tende a ser  um contraste absoluto da inglesa que tende a dignificar os líderes da comunidade e o seu povo, nesta obra praticamente ninguém desperta respeito, algo que talvez explique uma certa mentalidade portuguesa que penso também ter deixado escola o Brasil, que conduz à normalização da maledicência e à destruição da imagem da generalidade dos seus líderes sociais.
Como romance está excelentemente escrito e é uma narrativa cheia de vida.

Estado pouco conservado do imóvel presentemente
(fonte Wikipedia)

8 comentários:

Pedrita disse...

nossa, quero mutio ler, vou colocar lá na minha lista de livros q quero ler. adorei a capa. beijos, pedrita

Kelly Oliveira Barbosa disse...

"Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa" - tenho muito interesse por obras assim.

Carlos Faria disse...

Pedrita
A capa é uma das estampas do interior, pode ver representada a fachada da capela ao fundo no foto e o traje do século XIX.

Kelly
Apesar de cada biografia praticamente ter uma trama separada da anterior por uma geração, terá um retrato daquele Portugal matreiro e provinciano, algo como Amado fez com o Brasil.

Joaquim Ramos disse...

Tenho a coleção de 21 romances de Aquilino editada há muitos anos no Círculo de Leitores, e ainda a novela O Malhadinhas. Creio ter lido, talvez, quase todos, se me faltarem uns cinco é muito. A sua recensão fez-me lembrar os pormenores, que já me escapavam. Concordo inteiramente consigo, não conheço linguagem mais rica na literatura portuguesa - só com dicionário ao lado.
E posso adiantar também que os meus preferidos foram Terras do Demo, O Malhadinhas, Quando os Lobos Uivam, A Via Sinuosa e Lápides Partidas. E claro está A Casa Grande de Romarigães.

Carlos Faria disse...

Joaquim Ramos
O Malhadinhas foi leitura do meu 10º ou 11º ano de escolaridade, nunca que esqueci daquela personagem do povo.
Gostei muito de Volfrâmio, talvez não seja literariamente tão forte como este, mas como geólogo e sabedor do que foi aquela corrida ao ouro de então foi excelente perceber em pormenor aquele fenómeno.

Pedrita disse...

é linda demais a capa. nossa, vc não acredita, um amigo está em lisboa e comprou vários livros q vc indicou aqui. esse é um deles. em novembro ele vem ao brasil e traz. comprou 4 em sebos. com capas diferentes. ai, q emoção. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Poia como este se tornou uma obra de referência do século XX existem muitas edições. Nós chamamos aos sebos de alfarrabistas e aos livros antigos aí vendido de alfarrábios. É bom saber que terá a oportunidade de conhecer algumas obras que não estão disponíveis no Brasil, embora os livros em Portugal em termos absolutos sejam mais caros que aí, nos alfarrabistas por vezes há tesouros a muito bom preço.

Pedrita disse...

ah, tinha mesmo esquecido q aí sebos são alfarrabistas. meu amigo mesmo usou esse termo. confesso não fazer ideia quanto ele pagou, ele se recusa a me cobrar. estou ansiosa pra ver os livros ao vivo. só vi por fotos.