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terça-feira, 10 de março de 2026

"A Floresta Sombria" de Liu Cixin

 

Axiomas Iniciais

"a sobrevivência é a necessidade primordial de uma civilização"

"uma civilização cresce e expande-se continuamente, mas a quantidade de matéria no universo nunca se altera."

Ao ler "O problemas dos três corpos", do chinês Liu Cixin - obra de ficção científica que se tornou no primeiro romance da trilogia "O Passado do Planeta Terra" (apesar da história partir de meados do século XX, passar pelo presente e evoluir vários séculos para o futuro) - compreendi o seu sucesso no seu género literário, decidi ler os volumes seguintes e acabei de ler o segundo: "A Floresta Sombria".

A narrativa deste parte da exposição dos dois axiomas, este é um romance mais filosófico e menos centrado na física que o anterior, dividindo-se em duas épocas: a primeira dá continuidade ao volume anterior no início do século XXI e após o choque da divulgação do contacto com a civilização alienígena Trisolaris, a possibilidade desta chegar à Terra em quatrocentos anos e a ameaça de aniquilar a humanidade para aqui se estabelecer. Os protagonistas agora são quase todos diferentes. Assistimos ao surgir de vários movimentos sociais: os gerados pelo pânico da proximidade do fim, os humanistas ingénuos pela bondade que acreditam na coexistência pacífica, as Nações Unidas a buscar uma estratégia de sobrevivência ao embate com uma cultura mais avançada e os cientistas de várias áreas em busca de soluções para enfrentar o inimigo, mas há duas condicionantes:

1 - os alienígenas tem acesso a toda a informação do que se faz na Terra, só não acedem ao pensamento humano, o que leva ao Projeto Clausura com a nomeação de 4 humanos com poderes totais para cada um, secretamente, elaborar uma estratégia de salvação e os trisolarianos selecionam 3 pessoas para descobrirem os segredos (disruptores), desvalorizando Luo Ji, um astrónomo hedonista e excêntrico, mas o único que conhece os axiomas que não compreende e sabe as regras de derivação dadas pela mulher que estabeleceu o primeiro contacto extraterrestre, mas só pensa em tirar proveito do seu estatuto; e

2 - Os trisolarianos manipulam através dos cognis que enviaram para a Terra as experiências de mecânica quântica de modo a humanidade não evoluir científica e tecnologicamente.

A segunda época decorre dois séculos depois e, devido à descoberta da técnica de hibernação, alguns dos protagonistas voltam a acordar para concluir os planos dos enclausurados e enfrentar a ameaça dos trissolários, mas todos ficam desacreditados. Só que se entrou numa época em que a tecnologia evoluiu  para uma sociedade com grande conforto e deslumbrada do seu sucesso e bem-estar que se considera capaz de vencer o combate do Juízo Final com os Trisolaris. A humanidade vive em grande parte do Sistema Solar, tem frotas com naves de grandes dimensões e vida autónoma das aglomerações das nações em terra, todos possuem armamento nuclear de ponta, até à chegada da primeira sonda que põe a nu o grande fosso tecnológico imposto pelos cognis ao nível de física das partículas. O pânico instala-se e o combate é depois autodestrutivo, só Luo Ji percebe o porquê e é capaz de levar avante uma estratégia de controlo da situação, partindo de um ato seu que parecia tresloucado na primeira época como enclausurado.

Não sei chinês para comentar a escrita original de Liu Cixin, sei que a tradução direta do original para o português europeu tem uma grande qualidade literária. O escritor traz para a ficção científica a discussão de grandes questões filosóficas da humanidade, o que para muitos só seria aceitável nas grande narrativas de ficção tradicional, eleva o seu género literário ao das grandes obras de literatura mundial e, ao optar por condicionar grande parte da sua criatividade às limitações das leis das ciências, torna a sua narrativa muito mais credível e interessante. Num estilo totalmente diferente, "A Floresta Sombria" não me é menos marcante que "Os Demónios" de Dostoiévski, o lado negro que parece estar no interior de cada humano, afinal pode ser apenas uma necessidade. Parte do romance parece ter raízes em "A Laranja Mecânica" de Burgess, outra obra-prima fora das narrativas tradicionais.

O escritor não é benevolente com a humanidade, intencionalmente traz ao de cima um fundo sombrio no Homem, os axiomas da obra podem não ser verdadeiros, mas podem ser e, se o forem, o sonho de tentar comunicar com seres inteligentes extraterrestres pode virar a um pesadelo de consequências catastróficas.

Liu Cixin é um escritor chinês conhecedor da cultura ocidental, existem referências frequentes nos dois volumes a grandes personalidades e pensamentos ocidentais miscegenados com a autores e história da China, tornando-se numa obra literária com raízes globais.

Apesar da vasta cultura, menções e ideias profundas, Liu Cixin consegue uma narrativa que tanto pode manter a atenção de leitores que apenas leem na perspetiva de entretenimento fácil e suspense, existem passagens que quase parecem fazer parte de uma obra literatura barata, como levar leitores a refletir e a discutir as questões filosóficas e científicas semeadas na história, tornando-se num romance inclusivo para vários tipos de leitor, provenientes de culturas diferentes e por isso uma obra-prima.

Para já e ainda em estado de surpresa pelo conjunto destes dois romances, comecei a leitura do terceiro volume da trilogia, sabendo que há sempre o risco de desilusão depois de se ter estado num patamar elevado.

Citações

"Neste momento, o maior obstáculo à sobrevivência da humanidade é a própria humanidade"

"Haja civilização no tempo e não tempo na civilização"

"A escuridão é a mãe da vida e civilização."