Citação
"Se surgir o caos ao nível do pensamento, a ciência acaba."
Voltei à leitura de ficção científica, um género literário, tal como o policial, que é muitas vezes desprezado face às narrativas com tramas mais ou menos convencionais, mas onde cabem obras-primas de imaginação e qualidade literária. A busca de algo diferente e interessante levou-me a procurar obras recentes de ficção científica já de reconhecida qualidade por leitores e críticos. Neste conjunto encontrava-se "O Problema dos Três Corpos", do chinês Liu Cixin, prémio Hugo (atribuído por leitores do género) em 2015 e finalista do prémio Nebula (selecionado por críticos literários), além de prémios nacionais. Na escolha deparei-me com uma obra-prima que conjuga especulação científica com rigor, filosofia com entretenimento, análise social do início do século XXI com imaginação sobre outros mundos e o possível impacte do contacto entre a nossa realidade e uma civilização extraterrestre.
A trama desenvolve-se em três partes, a primeira inicia-se com o choque psicológico da investigadora astrofísica Ye Wenjie, sobrevivente de um violência da Revolução Cultural na China em 1967. A segunda, o seu acolhimento e trabalho numa base secreta isolada de monitorização de sinais de rádio terrestres ou vindos do exterior devido à sua especialidade científica, na sua amargura e isolamento alimenta o ódio pela civilização humana, na sequência da emissão de um sinal para fora do planeta surpreende-se, anos depois, com uma resposta e um alerta de precaução para a sua civilização não ser localizada por uma do exterior, que poderia destruir a humanidade, mas a sua revolta leva a secretamente agir em desfavor do ser humano.
A terceira parte tem outro protagonista e é nos nossos dias. Ocorrências estranhas desfazem leis da física, a perturbação do trabalho de Wang Miao em nanomateriais leva-o a procurar respostas junto de cientistas e a encontrar Ye Wenjie, todavia as perturbações da ciência já levaram ao suicídio de investigadores de ponta e Miao vê-se envolvido num trabalho policial que envolve o exército e todas as superpotências mundiais na busca de explicações para o que está a acontecer. É então levado a entrar num jogo de computador imersivo do surgimento e destruição de uma civilização de um exoplaneta com três sois, devido ao problema matemático de estimar as trajetórias destes três corpos para calendarizar a vida desses alienígenas. Com o tempo, torna-se evidente a correlação de tudo o que está a acontecer e tem a interferência dos Trissolários que usam o jogo para criar condições para ocupar a Terra na sequência do antigo contacto, havendo já uma multidão organizada disposta a acolher esses estranhos por desânimo com a civilização terrena, mas esta só chegará num futuro longínquo devido à limitação de viajar à velocidade da luz.
A obra tem um suporte inicial de grande rigor científico para no fim especular conhecimentos e tecnologias quando se retrata a civilização Trisolaris fora do jogo e com aspetos que são de pura criatividade e muito cinematográficas para passarem a filme e série de TV. Esta evolução a partir do rigor dá credibilidade à narrativa e apesar de falar de leis da física, a história não exige ser um técnico, qualquer pessoa percebe a exposição e as questões, mas ser de ciências dá um certo gozo.
Paralelamente, existem pelo meio várias interrogações filosóficas, a mais forte a do ser humano desiludido e revoltado destruir a sua civilização como retaliação (Atwood fez o mesmo em Orix and Crex), a existência de crentes na salvação externa, a necessidade de cooperação internacional para proteger a humanidade, será possível o Homem sobreviver ao choque de contacto com cultura extraterrestre? Esta dúvida esta brilhantemente colocada perto do final com gafanhotos e Liu Cixin tem assunto para dissertar nos romances seguintes que deram origem a um trilogia que aguardo receber para ler.
Gostei muito e recomendo a qualquer leitor que goste de narrativas bem contadas, bem escritas, fáceis de ler que especulem sobre a ciência e esta humanidade.
