sábado, 31 de dezembro de 2016

"Mystic River" de Dennis Lehane



Acabei de ler "Mystic River" a minha estreia em Dennis Lehane, um escritor atual dos Estados Unidos, que trabalhou com crianças com problemas psicológicos e depois se dedicou à escrita com obras de ficção do género thriller e policial, onde se encaixa este romance.
Três crianças de 11 anos brincam na rua quando uma delas é raptada por um carro, vítima de abusos e consegue fugir. Mais de 20 anos depois, já homens quando cada um segue a sua vida e a amizade do passado esfriou, ocorre o assassínio da filha de um deles, o que os leva a uma aproximação, sendo agora um investigador policial, outro suspeito e o restante vítima da situação, decorre então o trabalho de pesquisa num bairro pobre, com problemas de violência, degradação social e sem perspetivas de futuros para os mais desfavorecidos, enquanto a área vai sendo cercada por yuppies em ascensão económica.
Neste policial somos questionados sobre os traumas da infância, a desagregação social e familiar, as dificuldades de reabilitação de quem convive com o crime e vive no meio deste, bem como reflexões de quem investiga para garantir a segurança e retirar os criminosos da sociedade, num trama onde amizade, desconfiança e obrigações profissionais se cruzam.
Contudo este romance, já adaptado ao cinema, é muito mais que uma simples estória de entretenimento, pois, além de ter uma escrita literária de qualidade, tipicamente norte-americana, junta uma análise psicológica e social profunda de um meio urbano e grupo problemático, criando personagens complexas que elevam esta obra ao nível de outros géneros literários considerados alvos de maior respeito no mundo da literatura e da cultura que um simples thriller para explorar emoções e medos. Gostei e recomendo.

sábado, 24 de dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

sábado, 17 de dezembro de 2016

"A curva do Rio" de V. S. Naipaul


Acabei de ler "A curva do Rio" do britânico de ascendência indiana, nascido em Trinidade e Tobago e prémio Nobel da literatura: V. S. Naipaul. O romance narra a experiência de vida de amadurecimento de Salim vista pelos seus próprios olhos. Nascido na costa oriental africana, de uma família antiga e influente de ascendência asiática, de tradição muçulmana que na juventude ao não ver perspetivas de futuro na sua terra natal decide adquirir uma empresa de comércio numa cidade de um País no centro de África, recentemente descolonizado, onde as características do rio permitem que o local tenha um grande potencial económico de futuro e onde se cruzam as muitas culturas que nos últimos séculos moldaram este Continente: os africanos originais de etnias variadas, os colonos, os conselheiros ocidentais pós-independência, os povos há muito radicados a sul do Sara, os missionários, gente cristã, islâmica e das religiões tradicionais, todos sob a capa de um líder carismático da nova Africa cheio de vigor para criar um futuro glorioso, mas que com o tempo vai ramificando o seu poder para controlar todo o Estado e tirar proveito de todas as divergências, incoerências sociais, preconceitos e assim dominar, desculpar-se e alimentar conflitos que degradam a socieconomia e sua população inicialmente esperançada mas que vai enfrentando a desilusão, a corrupção e as guerras ao longo dos anos.
Eis um livro poeticamente escrito e sem ser agressivo, consegue retratar a violência humana e os vícios internos de sociedades vítimas de regimes opressivos e corruptos, onde oportunistas internos e externos condenam Povos inteiros e inocentes à estagnação económica e do conhecimento, comprometendo o evoluir de pessoas inocentes e os seus sonhos e, sobretudo, o futuro de nações inteiras... neste caso um continente inteiro espelhado neste País, através desta cidade situada na curva de um rio.
Este romance é efetivamente um magnífico retrato dos problemas da África subsariana no período pós-colonial, explica muito dos problemas que afetam ainda hoje esta zona do planeta e, apesar da negritude das questões denunciadas, consegue apresentar-se num estilo literário onde a poesia da escrita traça um quadro triste num belo livro. Gostei e recomendo a quem gosta de obras que dizem muito mais nas entrelinhas através de uma estética onde fealdade não estraga a beleza do saber expor com arte.

sábado, 10 de dezembro de 2016

AMOK de Stefan Zweig


Acabei de ler o livro "Amok" do austríaco Stefan Zweig, pela sua dimensão e estrutura, 74 páginas, poderá ser qualificado como um conto.
A história refere-se a uma confidência feita numa viagem de paquete entre a Índia e a Inglaterra por um passageiro amargurado e isolado que o narrador encontrou numa hora avançada da noite e relativa ao comportamento que ele tivera como médico perante uma mulher de sociedade que o procurara numa terra colonial onde exercia a sua profissão numa aldeia afastada para este lhe prestar um serviço que ele entende não ter sido solicitado de modo adequado face à força que emana da jovem, por isso decidiu-se por um estilo de conflito mútuo, a que se seguiu um arrependimento tardio e uma tempestade de sentimento incontrolável, denominada na língua nativa de estado "amok", que o leva a agir de forma descontrolada e a procurá-la, atitude que desemboca numa tragédia e num compromisso fatal.
Escrito com uma elegância e com um ritmo que nos faz mergulhar vertiginosamente no dilema médico, ético e inclusive moral, este conto mostra uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privada. Gostei.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O homem que gostava de cães" de Leonardo Padura


Acabei de ler "O homem que gostava de cães" do cubano Leonardo Padura, o livro cruza, através de capítulos intercalados, as vidas ficcionadas de Trosky, apenas como vítima e refugiado de Estaline; do seu assassino, o catalão Mercader; e os encontros do narrador do livro, um escritor falhado e vítima da opressão do regime em Cuba, com um homem doente, amante de cães que teria conhecido o criminoso e confidente dos pormenores da vida deste desde criança até ser formatado para o crime encomendado por Estaline e das suas reflexões posteriores.
Todos os capítulos, tanto nos aspetos ficcionados como nos históricos, são bastante prolixos em pormenores e descritos ora na primeira pessoa como memórias, ora como espetador, ora de forma romanceada, o que torna a obra muito densa, não só em termos de informação dos factos conhecidos, como também ao nível da especulação e, sobretudo, no aprofundamento do que foi a mentira criada em torno de uma proposta de modelo de sociedade igualitária para a libertação do Homem que se transformou num dos maiores pesadelos, máquina de morte e de opressão do século XX, onde Mercader um catalão inicialmente envolvido na guerra civil de Espanha foi trabalhado para ser um instrumento a ser usado para este engano, inicialmente como utopista de um sonho, depois desconfiado das mentiras e montagens que assistiu e por fim já consciente do mal mas impossibilitado de mudar o seu destino, no apaziguar da culpa ficou-lhe o amor pelos cães, tal como perdurou em Trostky e no narrador.
Um romance denso que é uma explicação de como foi possível transformar uma utopia numa distopia tão desumana. Uma narrativa onde, por vezes, o texto tem o aspeto de um relato quase jornalístico, noutras um estilo mais floreado com reflexões das personagens e dos sonhos e desilusões do mesmos, mas, sobretudo, uma denúncia destas terem sido conduzidas e vítimas do medo, um sentimento que é comum à outra obra de Padura que li este ano e falei aqui. Gostei e recomendo para quem quiser conhecer melhor o que foi o pesadelo estabelecido à sombra de um modelo que tinha como princípio libertar o Homem e cujo escritor também conheceu por dentro na sua adaptação a Cuba.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante - Volume IV de "A amiga genial"


"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante corresponde ao quarto e último volume da tetralogia "A amiga genial" e completa a história de uma amizade de vida inteira vista pelos olhos da amiga que se tornou culta e escritora mas que nunca deixou de ter uma admiração e até talvez um complexo de inferioridade face a outra companheira que apesar de não ter tido a mesma oportunidade de estudo lutou com todas as forças para sobreviver, ascender socialmente e revoltada criar um mundo à sua medida à sua volta e enfrentar dificuldades pessoais difíceis de ultrapassar.
Neste livro, após uma primeira metade ainda muito novelesca com amores e ódios, percursos políticos e sociais, bem como conflitos típicos da cidade berço da obra, não só das personagens que acompanhámos nos volumes anteriores, mas também agora dos seus filhos que assim passam de crianças a adolescentes a jovens; segue-se uma segunda parte mais instrospetiva, madura, com reflexões sobre a vida e marcada pelas desilusões, visualização da repetição dos mesmos erros nos mais novos após o calo e o saber dos mais velhos, as relações sociais, a amizade, os problemas socioeconómicos dos desfavorecidos, a corrupção económica e social na Itália e uma descrição nostálgica do que é Nápoles, bem como as mudanças de estilo de vida desde os anos 1990 até à atualidade fecham o ciclo.
Ideologicamente o livro já não promove um idealismo de esquerda, neste campo também com o tempo muitos se acomodam e torna-se evidente que certos ídolos tinham pés de barro e eram oportunistas de uma classe com privilégios que não estão dispostos a prescindir, apesar do discurso solidário. A escrita também se adapta à idade da pretensa narradora, tornando-se ela mesmo mais madura.
São inclusive dadas explicações do essencial da obra de uma forma indireta, isto quando se abprdam o conteúdo de publicações da narradora a falar da amizade, surgindo assim objetivos dos livros dentro do livro que não são mais que a tradução dos da tetralogia, numa perspetiva de alguém que os expõe arreigada a valores humanos fortes, mas libertos de tabus religiosos e pudores tradicionais muito característicos de alguém que viveu a revolução sexual dos anos 1960/70. Valeu a pena a maratona.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"História de Quem Vai e de Quem Fica" Volume III de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


"História de Quem Vai e de Quem Fica", o volume III da tetralogia de "A Amiga Genial", da escritora italiana Elena Ferrante, aborda, sobretudo, o início da vida de casada da narradora e da sua experiência de mãe nos anos de 1970, sendo neste mais escassas, frias e desconfiadas as referência à amiga sobre quem se centraram essencialmente o olhar da pretensa autora do texto nos dois anteriores livros.
Além da continuação da trama novelesca de amores, ódios, ciumes e traições, a componente de confronto ideológico esquerda direita, as sombras do terrorismo na sociedade de Itália e a contra ofensiva fascista, que caracterizou de facto a época em questão, têm agora um papel muito mais forte neste volume, todavia o livro não é isento, praticamente todas personagens conotadas com a esquerda têm bons princípio na sua conduta, enquanto o outro lado são sempre exploradores ou corruptos e limitam a liberdade dos seus opositores.
Para além do estilo elegante que caracteriza a escrita, a partir deste volume passa a ter um papel importante a exposição realista de pormenores descrições das sensações dos atos íntimos da narradora, como para vincar a liberdade e fundamentar a atitude da mulher na sua emancipação na sociedade, como também se intensifica a linguagem grosseira para tornar claro a forma de expressão e de pensar natural das pessoas sem o verniz pudico que muitas vezes cobre a literatura. Curiosamente o papel desse tipo de relatos na literatura é de forma indireta discutido na obra pelo impacte que provoca nos leitores.
Continuo a gostar do romance, apesar da sua extensão para a conclusão da obra, poder por vezes dar-me saudades de outros géneros onde pese menos o olhar feminino e sentimental do mundo. Já a ler o IV volume.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

"História do Novo Nome" ou Vol. II de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


O segundo volume da tetralogia "A Amiga Genial", agora intitulado: "História do Novo Nome", de Elena Ferrante, vem numa sequência perfeita do final do primeiro romance, que narra o nascimento e fortalecimento de uma amizade desde a infância escolar até à adolescência dos protagonistas exposta de forma integrada na vida social de um bairro pobre de Nápoles, terminando o anterior na mesma cerimónia de casamento que dá início ao presente livro que estende a estória destas relações e percursos individuais até ao final dos estudos da narradora, quando esta irá passa a ser uma jovem pronta para uma vida independente.
Tal como já dera a entender, a escrita é muito agradável e de fácil leitura, sendo que a trama se aproxima do desenrolar de uma telenovela popular, só que a escritora faz na obra análises individuais que permitem criar personagens complexas, cheias de virtudes e defeitos, expor as dificuldades de quem vive em meios sociais pobres, falar das barreiras que têm de se ultrapassar para uma integração num estrato cultural e económico mais elevado, incluindo os complexos de inferioridade de origens, e ainda mostrar a corrupção, vícios políticos e preconceitos que minam a vida dos cidadãos em Nápoles, sem esquecer as principais lutas ideológicas que marcaram a juventude na década de 1960.
Esta reunião de aspetos permite que se crie um romance acessível e fácil a leitores pouco atraídos para escritas e enredos complexos, que se limitem a estórias de paixões e ódios, mas sem deixar de interessar a apreciadores de obras mais profundas pela riqueza de informações e o pormenor com intervenientes, intensamente caracterizados e detentores de fortes em personalidade com potencialidades de serem referências na literatura.
Elena Ferrante, despe-se de preconceitos, faz uma obra realista nos aspetos públicos e pormenores da vida privada e íntima das suas personagens, sem apagar experiências marcantes da juventude associadas à descoberta e entrada na vida sexual ativa. Continuo a gostar muito da obra e a recomendar a qualquer leitor, sabendo que por questões de moral podem existir divergências do exposto no livro em termos de ideias e atos. Para já a avançar no terceiro volume desta narrativa.

domingo, 6 de novembro de 2016

Curiosidades geológicas: Efeito colateral do último sismo no centro de Itália - erupção de vulcões de lama

Voltando novamente ao tema geologia há muito arredado deste blogue que se tem dedicado sobretudo a livros, mas o principal que esteve na origem de Geocrusoe, apresento hoje uma curiosidade recente de que não ouvi falar nos noticiários nacionais, um efeito colateral dos tremores de terra no centro de Itália da passada semana: estes desencadearam a entrada em erupção de seis vulcões de lama, os quais podem ocorrer na sequência de chuvas muitos intensas, sismos com magnitude superior a 6 graus Richter e furos para a exploração de recursos geológicos, nomeadamente hidrocarbonetos.



Sobre esta tipologia de fenómeno geológico, pouco divulgado pelas populações em geral, já falei neste post, bem como aqui, aqui e aqui há quase 6 anos atrás.

Outro vídeo sobre o mesmo fenómeno ocorrido agora na Itália.


Embora sem a regularidade de há uns anos atrás, espero voltar novamente aos temas geológicos neste blogue, nem que seja para honrar a razão inicial da sua criação e do seu nome.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Não-Humano" de Osamu Dazai


"Não-humano" do japonês Osamu Dazai é um pequeno romance, sob a forma de cadernos de memórias, onde o protagonista conta a sua vida desde criança e a sua repulsa pelos outros por se sentir diferente, um ser não-humano, não compreendendo as pessoas com repulsa pela vida comum dos outros concidadãos.
Escrito pouco depois da II Grande Guerra, momento difícil em que os nipónicos perderam o orgulho no confronto, a obra reflete a insegurança e o receio pela sociedade em que a pessoa está inserida, neste caso o protagonista elabora uma estratégia de fuga: primeiro através de um comportamento de humor divertido que disfarça a angústia, para na juventude enveredar também pelo álcool e a exploração das mulheres que se apaixonam por ele em virtude da sua beleza e aspeto desprotegido. Logicamente tal comportamento atrai não só dificuldades financeiras, como amizades dúbias, rejeição e leva ao ostracismo e à degradação do indivíduo, que sobrevive por existir quem lhe estenda a mão, nem sempre com as melhores intenções, mas igualmente acompanhado pelo mau agradecimento a quem se esforça com uma boa ajuda humana.
A texto está magnificamente escrito e foi a última obra do autor que pouco depois se suicidou, um tipo de solução que o protagonista também procura por vezes no romance que, pontualmente, recordou-me "Cadernos do Subterrâneo" de Dostoiévski, embora o atual livro seja bem menos negro, talvez porque o narrador não procura o mal como livre escolha, mas sim é vítima de si mesmo por não compreender o mundo e, como tal, está mais aberto ao relacionamento humano que gostaria de entender, tornando-se até pouco sombrio numa caminhada de solidão e degradação pessoal. Gostei do livro, lê-se muito bem e é uma pequena grande obra de literatura.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"O Mestre e Margarita" de Mikaíl Bulgákov


"O Mestre e Margarita" escrito pelo russo Mikhaíl Bulgákov em plena ditadura de Estaline é daquelas obras alegóricas e metafóricas cujo enredo simboliza algo muito diferente da história narrada e só nesta perspetiva pode ser entendido e admirado, pois se levado à letra é um romance de imaginação e loucura vertiginosa.
Dois literatos, na época da lua cheia do equinócio da primavera (semana da Páscoa), discutem numa alameda de Moscovo um texto a publicar que evidencie a inexistência de Jesus, então o Diabo decide intervir, instalar-se na cidade e semear a confusão, explorando os principais defeitos e vícios das pessoas e instalando o caos generalizado, incluindo algumas mortes, escolhendo os escritores e um grupo ligado a um teatro como meio para atingir os seus fins. Intercaladamente há uma segunda narrativa com reflexões e a perspetiva de Pôncio Pilatos a descrever os dias da paixão de Yeshua em Jerusalém numa Páscoa longínqua. Só a meio da obra e com a entrada do Mestre na história se percebe ser este o romance escrito por ele e interdito por influentes no seio editorial, em paralelo ele se apaixonou por Margarita, uma bela mulher bem de vida e disposta a largar tudo por ele quando este desaparece.
Enquanto na antiga história da paixão, muito pormenorizada e com grandes diferenças do relato evangélico de Mateus, que escreve aqui notas dos seus dias com Yeshua, se vê alguém bom ser acusado e condenado inocentemente sem recorrer ao poder sobrenatural para alcançar a vitória do bem e onde a cobardia de Pôncio Pilatos conduziu à derrota da justiça, na história atual em Moscovo, Wolan e o seu séquito diabólico, pelo contrário utilizam toda uma panóplia de magia e feitiçaria para espalhar o seu mal e cativar as pessoas com eventos onde a imaginação e loucura é levada ao extremo e lembra contos de fadas e bruxaria com um enorme desvio à realidade natural das coisas.
Como alegoria, Bulgákov faz uma crítica feroz a Estaline e ao aparelho que consegue ainda ultrapassar o líder nos seus excessos, não faltando analogias a desaparecimentos, à censura, as clínicas psiquiátricas, à tortura e ao confisco, mas onde a cobardia do meio cultural colabra e é a principal ferramenta da instalação do mal na sociedade. Sem compreensão desta metáfora, o romance torna-se ilógico tal a sequência de traquinices inverosímeis que vão acontecendo ao longo do livro, por vezes os tradutores anotam a referência indireta e crítica aos defeitos do regime ditatorial que em denúncia numa escrita fluída e elegante duma narrativa que parece louca e divertida enquanto descobre uma situação grave que se vivia então em Moscovo e por isso considerado uma obra-prima da literatura do período soviético. Por tudo isto a obra pode não ser fácil para todos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"A Amiga Genial" de Elena Ferrante



"A Amiga Genial" de Elena Ferrante é a primeira obra que leio desta escritora italiana contemporânea, correspondendo a um dos maiores fenómenos literários dos últimos anos por em simultâneo coincidir com um grande êxito editorial e reconhecimento de qualidade do romance, sendo este o motivo que me despertou interesse após ouvir numerosas recomendações para a respetiva leitura.
Este título corresponde ao primeiro volume de uma tetralogia que conta pelos olhos da narradora as histórias de vida e da amizade desta com outra rapariga da mesma idade iniciada nos bancos da escola primária até ao começo da velhice integradas na teia das relações sociais do seu bairro pobre e popular de origem em Nápoles até ascensão e sucessos pessoais da autora e da sua amiga nesta cidade. O presente tomo vai da infância, passa pela adolescência e chega até à entrada da vida adulta da sua colega e decorre a partir da década de 1950. A autora que deseja ser escritora vai descobrindo que a companheira possui uma genial inteligência, mas descobre-se que há uma admiração mútua, grandes sonhos de ambas em ascensão socioeconómica, uma influência nos comportamentos entre si, onde cada uma considera a outra um modelo de capacidades, vontade de estudar e exemplo para condicionar a sua atitude.
A escrita do livro é magnificamente agradável e desperta um grande prazer de leitura que se associa ao conteúdo narrativo, onde somos cativados pelas lutas de sobrevivência destas personagens, as descobertas íntimas da puberdade, do amor, os estilos de vida familiar e social num bairro pobre de operários com pequenos empresários locais, os defeitos do sistema, desde a sombra das redes do crime organizado, aos esforços dos empreendedores, às vicissitudes porque estes passam até aos preconceitos e hábitos destas gentes que os preserva num gueto de onde é muito difícil sair ou subir na vida.
É um livro de muito fácil leitura, onde a análise social é exposta por meios simples, descomplicando a narrativa e a reflexão, gostei de tal modo do volume que imediatamente encomendei os restantes três para próximas leituras, reforçado pelo facto de ainda este ano Nápoles ter sido a minha região de férias e descoberta, havendo passagens que me recordam aqueles dias tão agradáveis que ali passei. Recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"O Lobo das Estepes" de Hermann Hesse


"O Lobo das Estepes" do escritor germânico Hermann Hesse, laureado com o prémio Nobel da literatura, apresenta o desencanto e revolta de um homem com a humanidade mas que inconscientemente anseia integrar-se no mundo que refuta e despreza por considera a sociedade rendida a um estilo de vida banal e medíocre nas suas relações em comunidade, curiosamente a sua luta para ultrapassar esta misantropia e depressão que o atrai para o suicídio desenvolve-se, precisamente, com a ajuda de pessoas de grupos sociais marginais e despromovidos, como prostitutas e músicos de salão traficantes de psicotrópicos, que lhe demonstram como valorizar e aproveitar a vida, desde a produção de arte genial e eterna, até tirar proveito da obra popular passageira capaz de só despertar o prazer frugal do momento e fundamental para temperar a vivência do ser humano e assim se justifica apostar na sobrevivência e adiar a morte inevitável em alternativa a se tornar num alienado vencido.
O romance tem uma espécie de prólogo editorial que pertence à obra, possui uma grande densidade psicológica e um conjunto de reflexões que evidenciam a contraditória luta íntima entre o aspirar ao sublime e a perfeição, exemplificados nas obras de Goethe e Mozart, e a importância de aproveitar o banal para tirar proveito da vida que justifique a sobrevivência numa luta de personalidades múltiplas de que cada indivíduo é na realidade composto, onde até mesmos génios como Goethe e Mozart são capazes de ser crianças e de amar a brincadeira, havendo assim que equilibrar a convivência na alma de cada um entre o desejo para os ideais e as tendências internas para os seus opostos.
Este romance, que é de facto uma obra-prima, antecede em muito a questão levantada por Umberto Eco em "O nome da Rosa": se o riso também faria parte de Deus ou era fruto do mal, sendo que Hesse, de uma forma diferente, evidencia que no ser humano a felicidade está em saber conjugar o sério, perfeito, maduro e imortal, com o divertido, tosco, infantil e passageiro que tempera a vida. Gostei muito do livro e a escrita é magnífica, os meus sublinhados de ideias interessantíssimas a reter surgiram em muitas das suas páginas, é uma obra que recomendo a leitura, mas a quem gosta de obras profundas e onde a facilidade do conteúdo exposto não seja um fator limitante ao prazer de ler.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

"As altas montanhas de Portugal" de Yann Martel



Acabei de ler o romance "As Altas Montanhas de Portugal" do escritor Canadiano Yann Martel, este é o quarto livro que leio deste autor que se tornou mundialmente famoso com "A vida de Pi" que ganhou o prémio booker prize em 2002 e foi adaptado ao cinema, mas é o primeiro que leio traduzido em Português.
Todos os romances de Martel têm uma estrutura, conteúdo e estilo original fugindo aos rótulos de outras escolas literárias, misturam acontecimentos fantásticos, mas distintos do realismo mágico ibero-americano; relacionamentos humanos com animais abordando análises de compreensão psicológica destes; questões filosóficas de cariz religioso e teológico e o impacte da morte nos protagonistas a partir de familiares próximos. Este não é exceção. Junta três narrativas distintas que se cruzam no Nordeste de Portugal, denominado por Altas Montanhas de Portugal, e, de forma mais ou menos direta, faz referências a personagens e animais comuns às três histórias.
A primeira alguém afetado por fatalidades na família próxima expressa a sua amargura adotando um andamento à recuas e vai procurar um artefacto religioso que descobre por indícios num diário de um missionário que trabalhou no seio da escravatura, empreende então em 1904 uma viagem de automóvel de Lisboa às Altas Montanhas de Portugal, uma inovação da época com todo o pasmo e aventura que esta travessia do País provoca descrita de uma forma divertida e sarcástica que envolve um Jesus simiesco. A segunda decorre numa sala de morgue de um hospital em Bragança onde o médico legista ouve uma dissertação de sua mulher falecida que aborda semelhanças da vida de Cristo e as obras de Agatha Cristhie, terminando com  a vida de um idoso autopsiado a pedido da viúva com um resultado original e envolvendo um primata. A última narrativa fala de um político que ascende a senador no Canada que confrontado com a perda da mulher desiste de tudo para se refugiar nas Altas Montanhas de Portugal, a terra dos seus ascendentes, com um chimpanzé .
A escrita é elegante e cheia de notas nostálgicas, descrições estéticas e sentimentais de uma forma bela, apesar do rigor descritivo de certos factos históricos e geográficos, têm por vezes erros ou alterações intencionais  do autor e traz até hoje animais pré-históricos da fauna ibérica.
A ideia de fundo do romance parece sintetizada no final da primeira narrativa: a humanidade é fruto de símios que se elevaram e não o resultado de anjos caídos. O livro lê-se bem e é agradável, mas algo estranho sem atingir o nível da obra mais famosa de Martel e mostra um retrato de Portugal pelos olhos de um Canadiano.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Morte no Verão" de Yukio Mishima


Uma coletânea de 10 contos do escritor japonês Yukio Mishima sendo "Morte no Verão" o de entrada da série contida neste livro, todos mostram dramas psicológicos mais ou menos intensos da vida dos seus protagonistas sobre a luta pela sobrevivência face à perda de entes amados, à obtenção de rendimentos, aos medos pessoais ou a forma de resolver as questões de honra tradicional, do amor e da amizade, brilhantemente escritos com numa rica linguagem onde muitas vezes fluem reflexões do interior das personagens resultantes dos efeitos da observação ou dos acontecimentos do mundo exterior dentro do pensamento e consciência das pessoas. Um deles é apresentado sob a forma de uma pequena peça de teatro.
Por vezes somos chocados pelo desenlace da narrativa, outras vivemos o drama interno das personagens, havendo mesmo alguns como que um jogo de espelhos das relações entre estas, que no conjunto mostram  a cultura japonesa ou  algumas das diferenças de mentalidade face ao ocidente, como o que narra um suicídio por honra ou as memórias e orações de gueixas num fundo muito distinto do que se teria no hemisfério judaicocristão.
Pessoalmente gostei de todas as histórias, umas mais do que de outras, mas todos elas me cativaram desde o início sem deixar de transparecer uma calma do desenrolar das histórias mesmo nos casos mais dramáticos, Gostei e recomendo a quem gosta do género contos e de conhecer outras culturas.

domingo, 18 de setembro de 2016

"Nora Webster" de Colm Tóibín



"Nora Webster", apesar de ser o romance mais recente Colm Tóibín foi o meu livro de estreia neste escritor atual da Irlanda, o qual já ganhou vários prémios literários e teve uma obra adaptada ao cinema.
Nora Webster narra a luta pela sobrevivência no dia a dia da homónima protagonista após a morte do seu marido, um professor conservador católico, à sombra de quem ela se habituara a viver, ficando então com cerca de 40 anos e 4 filhos, desde a idade do ensino básico até ao universitário, a seu cargo, passando então a enfrentar dificuldades financeiras, necessidade de compreender a psicologia variada dos seus descendentes e com personalidades, gostos e maturidades bem distintas, enquanto se adaptava à nova situação numa pequena cidade da República num período de tensão política com a violência na Irlanda do Norte e reivindicações laborais na parte independente da ilha que se deduz ser nos anos 1960/70.
Colm Tóibín mostra que é possível tornar cativante um romance escrito de uma forma límpida e quase sem floreados estilíticos sobre a vida de uma mulher comum, numa terra provinciana banal, sem ocorrência de grandes acontecimentos sociais e mesmo com tanta simplicidade prende o leitor.
Ao longo de todo o romance vamos conhecendo devagar os pensamentos, as recordações, os receios, os passatempos/fugas da vida de Nora e as suas pequenas decisões diárias desta viúva que são os passos para a sua emancipação forçada, bem como os problemas e a solidariedade da família alargada, dos amigos e da influência católica que permitem que ela não colapse perante os novos desafios que enfrenta.
Talvez o mais original neste romance seja o facto de a protagonista não deixar de ser uma mulher comum que na sua intimidade apenas luta para ultrapassar as suas fragilidades, mas que a sentimos como uma heroína, permitindo elevar a tal categoria uma pessoa comum que poderia ser a nossa vizinha onde parece que nada de especial se destaca mas onde um grande drama se desenrola e se vence. Gostei e recomendo.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

"CORRECÇÕES" de Jonathan Franzen



"Correcções" é o segundo romance que leio de Jonathan Franzen, um escritor dos Estados Unidos da atualidade e de elevada notoriedade pública. À semelhança de "Liberdade", o livro que agora li também se serve dos desencontros numa família para mostrar muitos dos problemas contemporâneos da sociedade norteamericana.
O romance conta os principais episódios da vida dos vários membros da família Lambert, desde meados dos século XX até à entrada do presente milénio, com maior pormenor do dia a dia de recente. Um agregado composto por pai, mãe, dois filhos e uma filha, todos com personalidades diferentes, com perspetivas do mundo distintas e com problemas pessoais, éticos e morais díspares, sendo comum a todos, a senilidade e demência do pai que a mãe enfrenta diariamente enquanto sonha reunir todos pelo Natal, enfrentando conflitos geracionais, de avós aos netos, passando pelo afastamento da nora e indo até às inconveniências individuais a tal desiderato.
Novas e velhas tecnologias de comunicação, globalização, consumismo, alcoolismo, depressões psíquicas, neoliberalismo, marketing de aliciamento financeiro, injustiça social, racismo, homossexualidade, assédio laboral, fardo da velhice, desencontros sentimentais e problemas de compreensão do amor familiar de uma forma ou outra são expostos no evoluir destas vidas que optam por formas mais ou menos corretas para os enfrentar, tudo isto numa escrita trabalhada de forma diferente em função do carácter da personagem ou do meio utilizado: reflexão psicológica, diálogo direto, telefone, correio-eletrónico, páginas de internet, SMS, etc. conferindo uma grande diversidade de estilos sempre com uma linguagem fácil, despretensiosa mas bem trabalhada literariamente. 
O romance varia de momentos hilariantes e irónicos, até ternos, depressivos e de angústia, em função das situações, gerando um retrato multifacetado da sociedade norteamericana através das vivências e sentimentos desta família da classe média-alta com as suas alegria, tristezas, receios e esperanças. Uma grande obra que não camufla a fealdade de muitos dramas pessoais e sociais de hoje.

domingo, 11 de setembro de 2016

No aniversário da morte de Antero de Quental


Culpado

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem á lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!


(Ponta Delgada 18 de abril 1842 - 11 de setembro de 1891)

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"AMERICANAH" de Chimamanda Ngozi Adichie


"Americanah" da escritora da Nigéria Chimamanda Adichie, de quem já li este livro e do qual muito gostara, é um romance que mostra não apenas as dificuldades de vida da população daquele País, como também os problemas que a sua juventude enfrenta ao emigrar ou refugiar-se no Reino Unido ou nos Estados Unidos, mostrando muitos dos preconceitos raciais e culturais nos Países de acolhimento com sociedades multiétnicas e ainda os desajustamentos daqueles que regressam à origem. Aliás, o título "Americanah" é o termo com que os Nigerianos designam os seus emigrantes que vêm da América aculturados, à semelhança dos Açorianos quando falam dos "calafonas" e "amercas" e os Continentais denominam "francius" aos que passam pela França.
O romance centra-se numa relação amorosa que se iniciou na adolescência no ensino secundário, se prolongou no universitário e é interrompida pela emigração legal da jovem para a América e ilegal dele para Inglaterra sendo então afetada pelas vicissitudes que cada um enfrenta relatada em partes distintas ao longo do livro.
Os penteados africanos e as novas tecnologias tornam-se peças importantes para a caracterização do mundo atual, não só pelo uso destas nas comunicações à distância, mas também quando parte dos capítulos se passa num salão cabeleireiro que suporta reflexões sobre a importância do cabelo na integração social e, sobretudo, por a protagonista se tornar numa blogger famosa, onde, a partir das experiências do dia-a-dia, denuncia e caracteriza os vários tipos de racismo e os preconceitos e ideias feitas nos povos de acolhimento. Enquanto a estadia ilegal do protagonista servirá para mostrar vertentes diferentes das dificuldades dos imigrantes. Por sua vez, os momentos vividos na Nigéria evidenciam a corrupção política neste Estado, as ideias irrealistas do povo sobre os países de sonho, a estratificação social, económica e educacional e ainda a aculturação que sofrem os que saem e voltam transformados ao local de origem, em contraste com os que permaneceram sempre na terra natal.
Chimamanda utiliza escritas diferentes em função das necessidades de narração da estória, textos comunicacionais privados no e-mail ou públicos na blogosfera e redes sociais, nas caracterizações dos falares do inglês britânico, americano, nigeriano e da influência da língua nativa da escritora: o igbo, contudo sem nunca perder nem a coerência nem a uma grande fluência, o que torna a leitura muito agradável e diversificada, mas sempre fácil e a tradução tece a preocupação de respeitar minimamente essa riqueza estilística.
Assim, estamos perante uma obra magnífica que é ao mesmo tempo uma história de amor, um manifesto contra a injustiça e o preconceito e um retrato do mundo globalizado e informatizado atual visto pelo olhos de uma Nigeriana. Interessante também o recurso a encontros sociais em salão ou em festas que recordam técnicas da literatura do século XIX e de Proust no século XX, para mostrar a diversidade intrínseca das classes média e alta que se cruzava nas suas relações de vida.
Americanah é de facto uma grande obra literária e um tratado social que enriquece a literatura contemporânea e alarga os horizontes de quem lê. Apesar de grande (cerca de 700 páginas) vale a pena ler e recomendo.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Reflexões sobre Bernardo Soares e sua poesia


Fernando Pessoa continua a ser para mim uma caixinha de surpresas, apesar de há tantos anos ler a sua obra, sob os mais variados heterónimos, nunca consegui esgotar novidades nos seus textos.
A coletânea de textos em prosa que constitui "O livro do desassossego", escrito sob o nome de Bernardo Soares, se tirar a Biblia, é sem dúvida a obra que ando há mais tempo a ler e nunca parei, está sempre à minha mesinha de cabeceira. Hoje leio um pouco, depois paro uns dias e mais tarde regresso a ela, e mesmo quando repito textos tenho sempre a sensação de estar a ler algo de novo e encontro sempre qualquer parágrafo que me fascina e releio como se fosse a primeira vez.
Apesar disso, só hoje descobri que Bernardo Soares também tem poemas e naturalmente nestes se sente aquela lassidão, indecisão do observador atento, que analisa o pormenor e discute a sua atitude e aqui vai um que testemunha esta personalidade.

Loura a face que espia
Cose, debruçada à janela,
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fosse outro era história
Mas o outro nunca nasceu...

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Jesus Cristo Bebia Cerveja" de Afonso Cruz


Acabei de ler o romance "Jesus Cristo bebia cerveja" do português Afonso Cruz, um dos escritores mais elogiados da atualidade, que tem uma forma de escrever original, cheia de metáforas e expressões estilísticas inovadoras e de quem já li vários livros, os quais, pelo menos, têm-me agradado sobretudo pela sua escrita e este não foi exceção.
Numa aldeia alentejana cruzam-se personagens tão díspares como uma arqueóloga da capital que se seduz pela rusticidade de um camponês em detrimento dos seus colegas cultos; um idoso professor ateu que conferencia com um sacerdote hindu e outro de religião africana sob o patrocínio de uma inglesa dona de uma aldeia de estrangeiros; um padre masoquista; um bar de streap num antigo avião, uma avó católica cujo maior sonho é visitar Jerusalém; uma neta que pretende atender a grande desejo dela enquanto se decide por se entregar a um pastor jovem e viril que cheira às coisas da terra ou ao idoso sábio e apaixonado que decide ajudá-la na viagem à Terra Santa através de uma solução original para a conquistar. Está assim reunido um cenário de singularidades que junto com a escrita criativa rapidamente cativa o leitor.
O desenrolar da história, misturado com ironia, comicidade e crítica social, leva à construção de páginas ora hilariantes, ora nostálgicas mas também por vezes tristes e até trágicas que denunciam injustiças e expõem sentimentos feridos e contraditórios.
Apesar de ter gostado do livro e de em muitas páginas me ter divertido, novamente aconteceu neste romance algo que me vem frequentemente a acontecer ao ler muitas das obras nacionais que se vão publicando nos últimos tempos em Portugal: prometem muito, são magnificamente trabalhadas em texto e depois esmorecem para o seu final, mas pior, não deixam uma mensagem ou conteúdo que me marque com uma ideia ou recordação forte, um sabor final a pouco face aos indícios com que começa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"O Retrato" de Nicolai Gogol


"O Retrato" do escritor russo do século XIX Nicolai Gogol, será mais um conto do que romance, dividido em duas partes: na primeira um pintor com talento, mas em dificuldades financeiras, cruza-se com um retrato inacabado num antiquário e fica fascinado pela força com que os olhos da pintura o fixam e consegue comprá-lo, só que a força desse olhar e um acontecimento, que parece fortuito, virão mudar a sua vida, dando-lhe nome como profissional, mas mediocridade no aproveitamento dado ao seu dom. Na segunda, compreender-se-á a origem da pintura e a razão da maldição que transportam esses olhos.
Não sendo uma obra que navega no mundo do fantástico, este insinua-se, tanto pelos efeitos nefastos que o quadro provocou no pintor, como na suposta transposição para a pintura dos efeitos do mal do agiota retratado.
"O Retrato", mesmo sem ser considerado a obra-prima de Gogol, neste conto, ele aborda a ideia de que é fulcral a arte contribuir para a edificação do Homem, sendo que o uso dos talentos para outros fins menos nobres um desvio deste objetivo, o qual pode ter reflexos na propagação do mal. Em paralelo, está também patente o conceito de ligação da origem do mal às causas e agentes de injustiça social, provavelmente uma influência das ideias políticas veiculadas pela revolução francesa, onde o "pecado" contra os mais pobres e desfavorecidos passa a ter uma relevância na moral muito mais forte do que no passado.
Muito bem escrito, como é característico da escola russa daquele século, e de fácil leitura, este conto é, sobretudo, uma alegoria ou parábola sobre o contributo da arte para moralização do Homem e uma crítica contra a injustiça social, preocupações que se refletirão noutros escritores como Dostoievki, Tchekhov e Tolstoi e assim se compreende porque Gogol está entre os génios literários mais influentes da Rússia. Gostei e recomendo.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

"História do Cerco de Lisboa" de José Saramago


"História do Cerco de Lisboa", do único laureado com o prémio Nobel da literatura de língua Portuguesa, José Saramgo, começa com um diálogo entre um revisor de textos e um autor de um ensaio de história em revisão relativo ao cerco de Lisboa no tempo de Dom Afonso Henriques na conquista da cidade aos mouros, um diálogo onde se reflete a importância do revisor naquilo que é publicado e se fala do sinal gráfico "deleatur" que indica corte de letras ou palavras no texto a publicar.
Após esta introdução, o revisor, contra todas as regras deontológicas da profissão, altera o texto do ensaio citado, não através de um deleatur, mas introduzindo um "não" numa verdade histórica que modifica o enquadramento deste evento dos inícios de Portugal.
Ficou então aberta a oportunidade para o romance passar a conter uma reflexão sobre o papel daqueles que intervêm no "moldar" a narração do passado histórico de um País, como, do protagonista ser desafiado a recontar a história do cerco de Lisboa alterada por aquela palavra, mas condicionado aos resultados finais do passado que moldam o presente. Deste modo passam a desenvolver-se duas estórias: a histórica, alterada e conciliada com a reinterpretação crítica e irónica de crónicas da época, onde não falta o tempero do amor cujo desenvolvimento o revisor controla e direciona e a outra no tempo atual, de onde lhe nasce uma que não controla e resulta da transgressão.
Saramago aproveita no cruzar destas estórias desfasadas no tempo para falar de Lisboa, dos vestígios daquela época na atual cidade,e para criticar mentalidades, perceções, preconceitos e os ajustamentos que a História sofre em função da religião e cultura de quem narra ou tem o poder de moldar a comunicação do conhecimento do passado face aos interesses do presente. Saramago aproveita ainda para utilizar em estórias diferentes e relatos das "fontes" escritas de estilo de narrativo distinto  e uso de várias forma ortográficas sintáticas que acrescentam uma grande riqueza ao texto.
É sem dúvida um excelente exercício criativo e uma reflexão sobre os primórdios da história de Portugal e abordagem de questões sociais de hoje, cheio de informações e de ironias subliminares, sem deixar de ser uma obra ao estilo de Saramago nem sempre fácil de ler e de abarcar tudo o que é díto nas entrelinhas. Gostei e recomendo sobretudo a quem aprecia a prosa deste escritor como é o meu caso.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FESTA do LIVRO 2016 na Horta - A colheita da visita para a minha biblioteca


Não costumo falar dos títulos que compro antes de os ler, mas visitei logo no seu primeiro dia a Festa do Livro 2016 que decorre nesta Semana do Mar e confesso-me agradavelmente surpreendido face ao ano passado. É verdade que do conjunto de de obras que tinha anotado para comprar em breve apenas encontrei uma: "Americanah" de Chimamanda Nogzi Adichie, mas também encontrei muitos bons livros que já li e outros de escritores que conheço que estiveram nas minhas mãos para aquisição, mas o pacote de compras já estava extenso e comecei a encolher a lista e esta reduziu-se a 9 obras.
Curiosamente uma já li quando jovem, mas não a tinha e por vezes apetecia-me folheá-la "A quinta dos animais" de Orwell. Também me aventurei por escritores famosos que nunca li: contos de Yukio Mishima e outro de Gogol, mais outro contemporâneo que tem merecido grandes elogios Colm Tóibín sem ser em nenhum destes casos as suas obras de referência, mas para a estreia por vezes é uma boa opção, pois mantém a esperança de que ainda há deles melhores títulos quer se tenha gostado ou não do livro por onde se começou.
Também não podia deixar passar a oportunidade de voltar a ler o concidadão Canadiano Yann Martel numa obra que até fala de Portugal, uma coincidência que me tem despertado interesse e como à muito queria ler "O cerco de Lisboa" de Saramago já arranquei com esta leitura.
Os últimos dois, Franzen e Hess, são as obras mais referidas deles e foram oportunidades do momento, mas houve muitos mais títulos que estiveram em vias de compra, pelo vale a pena passar por lá 

domingo, 7 de agosto de 2016

"Salambô" de Gustave Flaubert



"Salambô" do grande escritor francês do século XIX: Flaubert, é um romance histórico sobre a guerra dos mercenários que ocorreu entre os anos 241 e 238 antes de Cristo na cidade do norte de África de Cartago, então a grande rival de Roma para dominar o Mediterrâneo ocidental e por esta destruída após as três guerras púnicas que estabeleceu a hegemonia do Império Romano.
Durante a primeira destas guerras, Cartago contratou mercenários para criar exércitos contra os romanos com promessas de pagamento elevadas e lideradas pelo general cartaginês Amílcar, mas chegada a paz deixou estes militares junto às suas muralhas sem lhes pagar o acordado, enquanto rivalidades internas mantiveram o general distante. Esta situação, após uma farra soldadesca, conduziu a uma revolta e à tentativa dos mercenários de conquistarem Cartago e de se aliarem às outras cidades rivais das vizinhanças, todas na atual Tunísia. Flaubert introduz um cunho romântico, aproveitando-se do facto de um dos comandantes inimigos se ter casado com uma filha de Amílcar e este aliar-se a Cartago, elementos para imaginar uma história de paixão, ódio, vingança nesta guerra que acabou no massacre dos estrangeiros.
Salambô é uma personagem real, mas de nome desconhecido, os restantes protagonistas do romance são os famosos líderes históricos deste conflito, há batalhas e acontecimentos documentados, mas Flaubert fugiu à história para os adaptar ao seu romance. O escritor foi muito pormenorizado ao nível das descrições do armamento antigo e dos costumes dos povos de origem dos mercenários, bem como da barbárie que foi este conflito, usando uma terminologia técnica por vezes de difícil perceção que intercalou com relatos de ritos pagãos, superstições e luxo exuberante dos atos litúrgicos e das famílias dominantes, alternando assim partes de grande violência sanguinária de uma ferocidade sádica chocante, com momentos fantásticos que descrevem edifícios. roupagens e ritos pagãos onde domina o luxo de metais e pedras preciosas  e animais míticos típicos e objetos sagrados dos contos de mágicos.
Gostei da estória e aprendi história com o romance, mas confesso, para mim Flaubert foi hiperbólico ao falar da riqueza e não se conteve na descrição da violência atroz dos povos antigos que são tratados como selvagens cheios de sede de vingança geradora de um sofrimento sem limite ao seu inimigo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Festa do Livro 2016 da cidade da Horta

Todos os anos a na celebração da Semana do Mar, sempre com início no primeiro domingo de agosto, decorre, em paralelo ao festival náutico, gastronómico e lúdico, um evento especial dedicado aos livros organizado pela Biblioteca Pública João José da Graça, antes era a Feira do Livro, depois transformou-se em Festa do Livro.
Para divulgação, junto imagem com a lista dos livros que estarão em especial promoção nos vários dias da Festa do livro neste ano de 2016 na cidade da Horta, bem como o horário e endereço deste evento cultural.


Clique na imagem para a ampliar

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"O Sol Nasce Sempre" ou "Fiesta" de Ernest Hemingway


"O Sol Nasce Sempre", também intitulado noutra edições por "Fiesta", é um dos romances mais icónicos do laureado norteamericano com o Nobel da literatura Ernest Hemingway, embora talvez, para alguns leitores, seja moralmente dos mais difíceis de digerir, tendo em conta a sua componente hedonista ou, para os mais exagerados até niilista, e é uma obra muito diferente das outras que já li deste autor, nomeadamente as duas aqui e aqui faladas.
O romance narra, na perspetiva de um elemento pertencente a um grupo de amigos americanos e ingleses, que goza a vida passando uma temporada em Paris, homens e mulheres que procuram tirar o proveito máximo da noite boémia desta cidade onde confluem artistas plásticos, escritores e "bon-vivants", sem grandes planos que não seja usufruir desta liberdade de pensamento e divertimento, do sexo e álcool que marcou os anos loucos das décadas entres as duas guerras mundiais na capital francesa.
Este estilo desemboca também em vazio e incompatibiliza-se com sentimentos humanos como o amor e paixões de momento que brotam deste convívio sem compromissos, fidelidades mais tradicionais ou perspetivas de futuro. A ânsia de novas experiências num momento de saturação do que entretanto se foi disfrutando repetidamente e até à exaustão em Paris leva parte do grupo para festas de San Fermin em Pamplona, um meio muito diferente mas vivido num mesmo estilo na loucura daquelas festividades.
De uma forma que até parece despretensiosa, pelo estilo quase jornalístico da narração, conta-se assim o estilo de vida de uma geração de jovens hedonistas que aproveitam para gozar ao máximo o dia-a-dia, sem planos para o futuro e sem a restrições que o convívio social obriga. Diria que se "On the road" de Kerouac está para a geração beatnik nos anos 1950/60, "Fiesta" está para a geração louca e despreocupada dos anos 1920/30, duas denominadas por alguns "gerações perdidas". Se o primeiro, bem mais recente, mostra muito do modo de viver do seu autor, o gosto pelo estilo de vida preferido de Hemingway está nesta sua obra e a sua paixão pela "arte" tauromáquica está magnificamente tratada neste romance que foi sem dúvida o maior cartaz de sempre daquele festival a mundialmente famosa corrida de touros de San Fermin... a "fiesta".
Para quem pense que este livro é amoral, está errado, os riscos deste hedonismo estão bem expostos sem ser necessário narrar uma história que julgue as personagens ou dê uma lição de moral. Gostei.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

"A Mulher da Lama" de Joyce Carol Oates


Acabei de ler "A mulher da lama", romance com que me estreei nesta escritora norteamericana frequentemente nomeada para o prémio Nobel da literatura.
A obra narra a vida de uma mulher abandonada pela mãe num lamaçal, resgatada por um deficiente e depois adotada por um casal que são exemplos de bondade cristã, enquanto no seu crescimento ela se mostra muito inteligente, competente e trabalhadora e consegue subir muito alto na vida, momento em que a pressão do lugar, o facto de ser mulher e os problemas de ética que os cargos de topo enfrentam, a levam a grandes dificuldades para conseguir sobreviver num mundo de homens e de interesses financeiros sem valores num período extremado entre o 11 de setembro e o início da segunda invasão do Iraque.
Gostei da escrita, com parágrafo curtos que desenrolam uma sucessão de pensamentos, sensações e descrições sempre expostos pela mente da protagonista e numa vertente muito feminina. Todavia, J C Oates utiliza por vezes uma técnica onde os receios nas situações reais da narração são prolongados por pesadelos, nalguns casos de aparência surrealista, noutros violentos, misturados com as suas questões de consciência e onde nem sempre se distingue no momento o que de facto acontece no terreno do que se passa mente da personagem central da estória, o que me provocou algum mal-estar, retarda o evoluir da trama e diminuiu o prazer que senti no começo do livro.
Apesar destas fugas, que podem ter servido para contornar o modo como a protagonista poderia resolver dados problemas, é um livro interessante sobre a sobrevivência da mulher num papel de líder na sociedade contemporânea e vale, sobretudo, por expor essa luta sentida no feminino.

terça-feira, 19 de julho de 2016

"Hereges" Leonardo Padura


"Hereges" obra recente (2015) do escritor cubano Leonardo Padura, corresponde na realidade a uma trilogia de romances num único livro que se completam e correspondeu à minha estreia neste autor e na literatura de Cuba.
O primeiro romance decorre em dois tempos: um na época entre a ascensão nazi e a revolução cubana e o outro no período de transição de Fidel para Raul Castro. A trama tem como ponto de partida o facto histórico da recusa de desembarque em Havana dos refugiados judeus da Alemanha no transatlântico São Luís ali aportado em 1939 que tornou os seus passageiros vítimas do holocausto, onde de terra teria assistido a este desenlace um filho, já ali refugiado, de um casal então impedido de entrar em Cuba que supostamente tinha um retrato de Rembrandt de um judeu a representar Cristo, p qual seria objeto de negociação com as autoridades para este alcançar a sua liberdade, só que aquelas aceitaram a obra mas sem cumprir o prometido. No segundo tempo, o neto do casal contrata o trabalho de um detetive (personagem que é comum a muitas obras de Padura), ex-polícia, para não só investigar um possível crime de vingança do seu pais contra os corruptos que deixaram morrer os avós, como sobre o possível percurso do quadro.
O segundo romance recua ao tempo de Rembrandt e passa-se em Amesterdão, onde o quadro foi pintado, e narra a vida do modelo do retrato, um jovem sefardita vocacionado para a pintura, profissão interdita aos judeus que sofre as consequência da sua transgressão num período igualmente contemporâneo de outro genocídio judaico que está na origem da entrada do quadro na família do casal morto às mãos dos nazis. Esta relato está ligado a Portugal e à perseguição judia do tempo da imposição da conversão ao cristianismo de onde era originária a família deste discípulo do pintor.
O terceiro romance volta a Havana já no tempo de Raul Castro e é outra investigação do mesmo detetive sobre um desaparecimento de uma jovem, inteligente e culta, revoltada com o vazio da sociedade contemporânea e a corrupção em Cuba, só que novamente este caso vai-se cruzar com a família judaica proprietária do retrato, fechando assim um ciclo que é a saga desta família judaica e deste ficcionado trabalho de Rembrandt.
Este livro tem muito mais que um romance policial ou um histórico, serve de mote para falar da luta contra a opressão e da liberdade de pensar e de escolha das pessoas, os riscos de quem optar por se livrar destas amarras impostas pela política ou pela religião, desta forma torna-se evidente a analogia entre as perseguições ideológicas, os objetivos destas, a corrupção social na sociedade atual e a desilusão de quem acredita em messias como salvação no mundo, isto escrito numa Cuba que não é um exemplo de liberdade de pensamento e de ação, de cujos vícios dos últimos 80 anos são  expostos de uma forma mais ou menos direta, tornando-se assim numa estratégia inteligente de denúncia, não só do sistema que ali se desenvolveu e o antecedeu, como também do mundo contemporâneo ocidental teoricamente livre e garante de um futuro promissor.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O Meteorologista" de Olivier Rolin


O livro "O Meteorologista" do escritor francês contemporâneo, Olivier Rolin, apesar de possuir na capa o termo: "ficção"; não é, nem uma biografia de uma personagem histórica ficcionada, nem um relato de um acontecimento real exposto em forma de romance, mas sim, uma espécie de relatório com a exposição da vida de um cientista russo, Alexei Vangenheim (ou Wangenheim), que liderou a investigação meteorológica na URSS entre as duas grande guerras, foi um comunista convicto e uma vítima do genocídio do período estalinista, sem se saber exatamente a verdadeira causa da sua condenação e que curiosamente enquanto preso desenhou um conjunto de quadros didáticos que remeteu à sua pequena filha os quais estão anexos ao livro que por si só merecem uma observação atenta.
A obra baseada em investigação do autor e de terceiros, encontra-se intercalada com reflexões do escritor, interpretações hipotéticas sobre o seu período de deportado, considerações sobre a época e uma análise final sobre o sonho que foi a revolução russa e a desumanidade que esta trouxe através do terror que destruiu o próprio objetivo. do comunismo soviético. O texto, embora sem deixar de ser o de um relato, está trabalhado literariamente e cuidado, havendo numerosas metáforas, referências a ideias lançadas por romances clássicos e questões filosóficas e excertos das cartas do Meteorologista e de documentos oficiais do seu processo ou que o enquadram na época. Apesar de tudo e da crueldade do acontecimento lê-se com um prazer e com grande facilidade, compreendendo-se porque Rolin é um dos escritores e romancista da atualidade francesa já com diversos prémios pela qualidade das suas obras.
Curiosamente, em investigação na internet, eu descobri que Rolin ideologicamente é ele mesmo um comunista maoista... outro campo sobre o qual seguramente há muito a investigar para se compreender como também a revolução cultural contribuiu para a destruição do mesmo sonho ideolgógico. 
Mesmo sem ser um romance, gostei muito de ler este livro que me deu o mesmo prazer como se fosse uma obra de ficção e as análises políticas e sociais que são feitas sobre o comunismo, o estalinismo e o Meteorologista não são feitas de uma forma ideológica para atacar o que está na base desta ideologia. Recomendo a qualquer leitor que goste de boas leituras e fáceis, independentemente de serem ou não ficção.

sábado, 2 de julho de 2016

"O Grande Gatsby" de F. Scott Fitzgerald


Acabei de ler "O Grande Gatsby" de F. Scott Fitzgerald e fui surpreendido pelo conteúdo e mensagem subliminar da obra. Confesso que, apesar de muito ouvir falar deste romance, considerado um ícone da história da literatura dos Estados Unidos, nunca procurei saber a sua história, pois quando vi cartazes e thraillers das suas adaptações cinematográficas hollywoodescas, cheio de imagens feéricas e percebendo eu que se passava nos loucos anos 1920, pensava que se estaria numa história sobre a loucura daqueles tempos misturada com dinheiro de gangsters do período da lei seca.
Afinal eis que me saiu o desenrolar da paixão de um Gatsby que foi pobre por uma menina de rica que mostra quanto é falível o recurso ao enriquecimento e à ostentação social para reconquistar uma paixão ou recuperar o tempo perdido para o amor numa sociedade oca que se aproveita do momento, mas sem nenhuma profundidade moral para além da sobrevivência e onde o protagonista se tornou na grande vítima deste engano. Uma história maravilhosamente escrita, que se serve de um retrato de época para dizer muito mais que lá está escrito nas suas não muito numerosas páginas. Gostei e recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 28 de junho de 2016

"O Que Diz Molero" de Dinis Machado


"O Que Diz Molero", o originalíssimo e famoso romance de Dinis Machado, foi uma das obras de maior sucesso de vendas no último quartel do século XX em Portugal e rapidamente traduzido para vários países da Europa, de facto não conheço nenhum livro que lhe seja semelhante.
Dois homens, Austin e DeLuxe, dissertam ao longo de todo o romance com base no relatório de Molero relativo à investigação que lhe fora encomendada sobre a vida de uma personagem: "o rapaz", que nasceu num bairro popular de uma família problemática, cresceu na rua como gaiato cheio de aventuras com os seus pares e depois correu continentes dissertando sobre Miró, amando inúmeras mulheres, produzindo poemas e em busca da palavra, da arte literária e talvez de um motivo para a sua existência ou de conseguir produzir uma obra maior que o tornasse merecedor de uma estrela na constelação celestial dos grandes artistas  e pensadores da história da humanidade.
Apenas há a dissertação dos dois intervenientes numa sala e conduzida por Austin, sempre fundamentada no relatório de Molero, onde constam aspetos concretos e reflexões e interpretações sobre o rapaz. Isto feito através de uma escrita com poucos parágrafos, estes por vezes distam várias páginas e mesmo assim num texto cheio de criatividade e de descrições, por vezes hilariantes sobre os acontecimentos vividos pelo rapaz, o único não merecedor de um nome ou alcunha. Existem passagens de uma hilaridade tal que se tornam difíceis de ler, tal o gozo que provocam nos relatos as tropelias e maldades dos intervenientes, sobretudo os miúdos de rua no bairro, mas descritos com um seriedade estóica com base no relatório o que lhe dá um tom quase científico. Outros partes com reflexões sobre a arte, sobretudo a arte da palavra e do cinema, têm um ambiente mais etéreo de criação literária, com frases que alimentam um exposição surrealista, simbolista, mas intercalada com extensos pormenores triviais o que dá uma configuração estranha ao texto.
A verdade é que este romance é um murro de escrita criativa cheio de paródias expostas de uma forma séria, nostalgia sobre algo que talvez não exista e um humor requintado e culto que por vezes toca o sentimentalismo animal e outras num romantismo quase religioso, mágico e ascético. Todavia só é uma obra fácil para quem está habituado a ler e se diverte com a arte de brincar com a escrita.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CONTOS - Volume I Tchékhov


Acabei de ler o primeiro volume de uma extensa série de livros de uma coleção que procura reunir os Contos de Tchékhov, tendo também sido esta a minha entrada neste escritor famoso pelas suas curtas narrativas.
Para já Tchékhov apresenta nesta tradução direta do russo uma escrita muito límpida, que apesar de simples, consegue exprimir e descrever com uma grande intensidade e pormenor sentimentos, personagens, paisagens, cenas e tensões sociais.
A generalidade dos contos não têm finais felizes, antes denunciam problemas de injustiça e condutas desviantes dos protagonistas que acabam mal que mostram os problemas da sociedade russa altamente estratificada do século XIX. Contudo, pela estética do texto, estas histórias curtas e tristes não deprimem o leitor, antes pelo contrário, o escritor soube temperar com a quantidade certa de ironia e sarcasmo para que se tire prazer da leitura enquanto o coração vai descobrindo o retrato amargo que está a ser exposto e a beleza do texto permite ainda desfrutar com gosto a leitura.
Tchékhov tinha uma grande sensibilidade para a métrica nas suas narrativas, por isso tem-se a sensação plena de contos com a extensão exata e necessária para se expor a história sem sentir que a mesma acaba demasiado depressa ou se estende por palavras a mais e isto mostra a genialidade literária do escritor neste género de escrita. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Férias: Roma o regresso à cidade Eterna

Roma vista da cúpula do Vaticano

Uma revisita a Roma, esta cidade fascinante no trajeto de regresso, talvez a cidade com maior riqueza patrimonial de valor artístico do planeta, falei de Roma quando da anterior visita em 2009 aqui e aqui. Desta vez não penso passar grande tempo em museus e templos, apenas se possível saborear e observar a vida em Roma, pode ser que me surpreenda agora de um modo diferente, o que uma exploração muito programada não permitia.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Férias: Pozzuoli a cidade no vulcão que sobe e desce Campi Flegrei




Hoje é o dia de visita a Pozzuoli, uma antiga cidade à beira-mar, anterior ao Império Romano a oeste de Nápoles, com muitos património da antiguidade, que se situa dentro de uma caldeira costeira, parcialmente submarina de um grande vulcão: Campi Flegrei ou Campos Flegreanos, é mais um dia que junta férias e geologia.
Tal como acontece em muitos edifícios de vulcões ativos, estes tem a particularidade de ao longo do tempo se deformarem, havendo zonas que ora sobem ou descem, cone vulcânico como que "incha" ou "encolhe", inflação ou deflação, em função de movimentos do magma sobem ou descem dentro do edifício. Ora como esta caldeira se situa na costa parte dos edifícios costeiros e o porto ficam expostos a serem ora galgados ora a assistirem ao recuo das águas, transgressão e regressão, assim com o decurso dos anos, as ruínas romanas da foto que foram construídas em terra, já estiveram parcialmente submersas e agora estão emersas e bem acima da água, mas com sinais de erosão marinha, tal como já ocorreram portos que ficaram acima ou submersos pelo mar.
Em torno desta cidade existem ilhas resultantes de cones vulcânicos dentro da caldeira mas dentro do mar, bem como zonas dispersas com fumarolas, a mais conhecida é Solfatara, algo do género do que se observa nas Furnas em São Miguel e onde também se fazem cozidos enterrados no solo.
Pozzuoli é rica em piroclastos vulcânicos com grande percentagem de sílica, composição química que os romanos descobriram servir para produzir uma argamassa útil à construção civil: cimento (concreto no Brasil). Esta matéria-prima tem agora o nome de pozolana devido ao nome desta cidade, e muita da grandeza arquitetónica do Império Romano resulta desta descoberta, sendo o Panteão Romano o exemplo máximo da antiguidade do engenho do homem na construção de um grande monumento com cimento.
O mesmo observatório que acompanha a atividade do Vesúvio também monitoriza o vulcão de Campi Flegrei e sem dúvida esta é uma cidade muito exposta aos riscos vulcânicos e uma erupção deste pode igualmente afetar significativamente Nápoles, embora pelo impacte paisagístico do Vesúvio popularmente poucos de lembram que os Campos Flegreanos constituem um dos complexos vulcânicos mais perigosos da Terra. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Férias: Pompeia - A cidade luxuosa soterrada pelo Vesúvio


Hoje é o dia que dediquei à visita da cidade de Pompeia que a erupção do Vesúvio no ano de 79 DC soterrou  completamente e está hoje a ser exposta através de escavações arquelógicas que mostram aos visitantes a dimensão, a riqueza e o estilo de vida desta povoação de luxo, onde muitos romanos ricos vinham então passar períodos de repouso tal como hoje o fazem em muitas estâncias de férias.
Desta erupção resultou um texto com uma descrição de grande pormenor feita por um observador atento: o filósofo Plínio o jovem; Plínio o Velho, seu tio, foi então uma das vítimas do Vesúvio, o que permitiu aos geólogos saberem com grande pormenor o evoluir dos acontecimentos  e caracterizar o estilo eruptivo com um nome em honra deste sábio: Atividade Eruptiva do Tipo Pliniano, uma das mais perigosas pelas explosões que tem associadas e projeção de piroclastos quer sob a forma de queda de pedra-pomes ou de cinzas, quer sob a forma de escoadas piroclásticas de grande velocidade dos mesmos materiais capazes de soterrar vastas zonas, em Pompeia muitas das vítimas vaporizaram-se pelo calor, mas deixaram os moldes na cinza vulcânica e são hoje um dos elementos observáveis na estação arqueológica que é Património da Humanidade
Recordo que no Faial a formação da Caldeira resultou de uma erupção do tipo Pliniano que descrevi neste post no tempo em que este blogue dedicava grande parte da sua temática à Geologia.
Para esta cidade em concreto, fica abaixo um filme das suas últimas 24h e dá para perceber não só a erupção que num dia destruiu Pompeia, como compreender o facto de a mesma ter ficado perdida até ao século XVIII, quando ocasionalmente foi redescoberta.



Se não visualizar o vídeo no post, observe no Youtube aqui
Espero ter possibilidade de ainda postar fotografias do que observei no terreno nestas férias em Pompeia.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Férias: Nápoles Campânia - Primeiras Impressões


Após um primeiro impacto de a cidade me ter recebido sujíssima ontem, durante a noite Nápoles limpou-se e hoje tem sido uma surpresa agradável.


Famosa pelo seu Bairro Espanhol, um género de Bairro Alto, mas muito mais extenso, abundam ruas estreitas, lambretas, roupa a secar, portas despudoradamente abertas para a moradias do rés-do-chão.


Espaço de venda de tudo espalham-se pelas ruelas e o trânsito é do desenrasca, sinais e peões são objetos a contornar com perícia, mesmo assim parecem evitar chocar com as pessoas, mas passeios e tudo mais são espaços a transitar e passadeiras e semáforos são decoração a ignorar.


Monumentos não abundam, Castel Nuovo, Palácio Real, Duomo com o tesouro de São Januário e o seu sanguem que liquefaz-se em dias específicos e o interior luxuoso de Jesus Novo, quase esgotam uma cidade densamente povoada, barulhenta e castiça tem um ambiente muito diferente da luxuosa Milão ou da monumental Roma e Florença, mas vale a pena a visita.


Ainda houve tempo para sair de Nápoles e visitar Herculano, soterrada por escoadas piroclásticas que preservaram muitas casas na erupção do ano 79 do Vesúvio, vendo-se ainda tetos, madeiras e até uma fornada de pão fossilizados.