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quarta-feira, 10 de abril de 2019

E-book "Risco escuro na claridade" de Maiky da Silva



Li o ebook "Risco Escuro na Claridade" do brasileiro Maiky da Silva, um texto em forma epistolar mas onde o autor assume não serem cartas e na minha opinião assemelham-se mais a crónicas sucessivas que vão desenrolando um meada como um risco escuro a caminho da liberdade.
O protagonista, um órfão e acolhido por uma casal familiar que o trata ostensivamente de forma inferior face aos verdadeiros filhos, na sua revolta interna decide assumir o papel de louco e a situação torna-se não só convincente para aqueles com quem convive, como talvez para ele próprio, só que de repente ele passa a ser tratado pior do que um animal enjaulado e da revolta interna e de uma oportunidade surgirá a possibilidade do salto para a claridade.
Escrito como uma memória num desabafo desesperado e introspetivo, o texto desenrola-se num estilo de poesia sob a forma de prosa. Maily da Silva, ainda um jovem que revela grande potencial, escreve um lindíssimo texto onde a negritude da situação não macula a beleza da escrita e levanta imensas questões sobre o comportamento humano. Uma obra que é um grito no escuro que levanta belas ondas à sua volta como o quadro de Edvard Munch. Valeu a pena esta descoberta.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

"A Tempestade" de William Shakespeare e "O Mar e o Espelho" de W H Auden


Excerto de A Tempestade

"Sebastião: Lembro-me que destronastes o vosso irmão Próspero.
António: É verdade.
               E reparai como as vestes me assentam bem.
               Muito melhor que antes. Os vassalos do meu irmão eram então meus companheiros, e
               agora são meus servos tributários."

Um livro com duas obras relacionadas, uma de teatro: "A Tempestade" de William Shakespeare, a outra a seguir: o poema e texto "O mar e o Espelho" de W H Auden que acrescenta mais um episódio à peça anterior.
A Tempestade mais não é que um ato mágico que se abate sobre o navio onde viaja o rei de Nápoles e seu filho, bem como o usurpador do ducado de Milão e o irmão de rei, além de outros elementos da sua corte, fazendo-o encalhar precisamente na ilha onde o usurpado mágico, o Duque Próspero, está exilado com sua filha. A partir daqui, num confronto entre os planos traiçoeiros de subordinados ambiciosos e ingratos para com quem os governa e o plano organizado pelo verdadeiro duque de Milão, com a ajuda de alguns entes sobrenaturais, com o fim de os maus serem desmascarados e os bons reabilitados, desenvolve-se numa paródia moral, da luta entre o bem e o mal.
Ao contrário das tragédias mais conhecidas de Shakespeare, aqui não há mortos e a magia interfere no desenrolar da ação de uma forma direta, criando-se uma história fácil e agradável, mas onde as personagens de comportamento más e boas têm uma força dramática que as tornaram referências culturais na literatura.
A tradução desta peça foi precisamente feita por vários atores portugueses para ser representada numa das principais companhias de teatro de Portugal, criando um compromisso entre o estilo arcaico sob a técnica do verso e a arte dramática na atualidade. Gostei do texto e muito desta obra, que embora sem a popularidade de certas tragédias, mostra a grande capacidade de Shakespeare em fazer retratos psicológicos dos dramas da sociedade e denunciar o mal que as afeta.


Excerto de O Mar e o Espelho
"Se a idade, que é certamente
Tão retorcida quanto a juventude, parece mais sábia,
É porque a juventude ainda está apta a crer
Que vai levar a sua de qualquer modo, enquanto a idade
Sabe bem de mais que já levou o seu nada:"

W H Auden é um poeta inglês naturalizado americano que inclusive trabalhou texto para óperas de Stravinsky, que escreveu temas de religião e moral num modo moderno.
Esta sua obra "O Mar e o Espelho" começa com uma série de poemas, cada um recitado por uma das diferentes personagens de "A Tempestade" e desenvolvem um ato a seguir ao epílogo da peça original, a viagem de saída da ilha, com reflexões sobre a moralidade e o comportamento dos intervenientes do drama, poemas que gostei e fazem refletir sobre a anterior de Shakespeare.
A seguir existe um conjunto de textos de Ariel, o principal ser sobrenatural de A Tempestade, que confesso: pelo estilo de escrita, densidade e não sei se defeito de tradução, me levaram a desistir de ler. Saturavam-me antes de perceber o conteúdo. Valeram os poemas que enriqueceram o livro em muito.

A publicação deste livro, apesar de ser e de já estar em segunda edição, tem-se esgotado com rapidez, talvez por pessoas que tenham assistido à peça ou optem pelo conjunto, apenas o encontrei neste momento disponível neste endereço da Bibliografia Nacional Portuguesa

sábado, 18 de novembro de 2017

"Não digam que não temos Nada" de Madeleine Thien


"Não digam que não temos nada" de Madeleine Thien, é um livro que se arrisca a ser para mim o melhor romance contemporâneo que li ao longo do ano, dada a trama, o retrato histórico, a interligação com outras formas de arte como a poesia, a música e a caligrafia chinesa, e ainda pela elegante e bela escrita.
Este romance foi vencedor dos prémios literários: Governor General Prize 2016 (o mais reconhecido no Canada), Giller Prize 2016 e Edward Stanford Travel Writing 2017, e esteve na lista final do Man Booker Prize 2016, o que evidencia a excelência da obra desta escritora chino-canadiana.
O romance começa com as memórias de Marie do tempo da fuga do pai, em 1989, de casa em Vancouver, um importante pianista chinês e seu posterior suicídio. Prossegue com o pedido de acolhimento da uma refugiada Ai-ming após a revolta da praça Tianamen em Pequim. Então com as desconfianças entre a criança e a jovem, começa a descoberta do passado que as une, pela leitura do capítulo 17 do Livro dos Registos: obra do tio sonhador desta que narra de forma livre, romanceada e em volumes soltos, a história do seu amor e das dificuldades e aventuras da família desde a segunda guerra mundial até ao presente passando pelas várias revoltas na China. Assim, descobrimos que o pianista foi aluno e admirador do famoso compositor pai de Ai-ming e colega da violinista Zhulli filha do sonhador; um grupo unido pelo amor à música, à literatura e de livre pensamento com os riscos que daí decorrem no regime chinês.
Recorrendo à intercalações de momentos no presente e em vários do passado, assiste-se à saga de três gerações de músicos e amantes de livros e seus amigos face às perseguições injustificáveis na implantação do comunismo, depois nos loucos abusos da revolução cultural e, por fim, na revolta do sonho estudantil em Tianamen, sempre a abrir feridas com as mudanças do mesmo tema: simbolizado pelas Variações de Goldberg de Bach e onde depois de rearranjos a ária inicial volta como um fadado regresso ao passado.
O romance está cheio de citações de poetas chineses, de referências a obras musicais do ocidente com destaque para Bach, Chostakovitch, Prokofiev, Tchaikovsky e Ravel, entre outros e a atmosfera de ternura e da importância da arte, incluindo a caligrafia do chinesa, atravessa toda a obra mesmo nos períodos mais duros desta história. Magnífico romance, com um relato de 70 anos da história da China embora possa ser um pouco difícil para quem não conheça as características das peças musicais tão abundantemente citadas, como esta do vídeo e com a referência precisa desta gravação.

domingo, 11 de setembro de 2016

No aniversário da morte de Antero de Quental


Culpado

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem á lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!


(Ponta Delgada 18 de abril 1842 - 11 de setembro de 1891)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Reflexões sobre Bernardo Soares e sua poesia


Fernando Pessoa continua a ser para mim uma caixinha de surpresas, apesar de há tantos anos ler a sua obra, sob os mais variados heterónimos, nunca consegui esgotar novidades nos seus textos.
A coletânea de textos em prosa que constitui "O livro do desassossego", escrito sob o nome de Bernardo Soares, se tirar a Biblia, é sem dúvida a obra que ando há mais tempo a ler e nunca parei, está sempre à minha mesinha de cabeceira. Hoje leio um pouco, depois paro uns dias e mais tarde regresso a ela, e mesmo quando repito textos tenho sempre a sensação de estar a ler algo de novo e encontro sempre qualquer parágrafo que me fascina e releio como se fosse a primeira vez.
Apesar disso, só hoje descobri que Bernardo Soares também tem poemas e naturalmente nestes se sente aquela lassidão, indecisão do observador atento, que analisa o pormenor e discute a sua atitude e aqui vai um que testemunha esta personalidade.

Loura a face que espia
Cose, debruçada à janela,
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fosse outro era história
Mas o outro nunca nasceu...

quinta-feira, 5 de março de 2015

"Todos os contos de Edgar Allan Poe



Acabo de ler uma coletânea de todos os contos de Edgar Allan Poe, escritor americano da primeira metade do século XIX, um total de 69 estórias curtas, como se diria em inglês, sendo que a última até tem dimensão para ser considerada um pequeno romance ou novela.
Tendo em conta a quantidade de contos, não é de estranhar que não tenha gostado igualmente de todos eles, até porque um dos aspetos mais interessantes deste grande livro, cerca de 950 páginas, é a diversidade de géneros temáticos dos textos: desde terror, gótico, policial, ficção científica, fantástico, ironia, até tocar a poesia, Poe também é famoso como poeta, são áreas que entram nesta coletânea.
Os contos de ficção científica e os relatos associados à descrição de paisagens e viagens por vezes pecam por ser demasiado pormenorizados nas suas explicações e base técnica, acrescendo o facto, tal como poderá acontecer a alguma ficção científica que hoje se escreva, soam a ridículo quando lidos num futuro temporal afastado, tal é o desfasamento entre a previsão com o mundo real ou o saber científico. Sendo Poe o fundador deste género e no início da revolução das ciências do século XIX, não é de estranhar algum incómodo ao ler as justificações que propõe.
Todavia são geniais alguns dos contos policiais, de terror e góticos, outros géneros em que é considerado por muitos como o pioneiro e fonte de inspiração literária de nomes mundialmente famosos.
Saliento a qualidade do literária dos contos, comparável ao dos grandes nomes de escritores marcantes da época e a diversidade de géneros, sabendo que entre tanta quantidade, mesmo preservando o nível de escrita, existem alguns de que não gostei e outros que adorei e anotei para serem relidos.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nos 170.º aniversário do nascimento de Antero de Quental

Talvez o maior poeta Açoriano de todos os tempos, um idealista que não aguentou a pressão deste mundo injusto no qual ele sempre lutou para ser melhor.
Um soneto declamado em sotaque brasileito como prova da sua universalidade e reconhecimento de que a nossa pátria é a língua Portuguesa.

terça-feira, 20 de março de 2012

Começou a Primavera


Quando vier a primavera
Se eu já estiver morto
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se eu morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 8 de março de 2012

No dia da Mulher - José Luís Peixoto

A Mulher Mais Bonita do Mundo


estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram 
flores novas na terra do jardim, quero dizer 
que estás bonita. 


entro na casa, entro no quarto, abro o armário, 
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio 
de ouro. 


entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como 
se tocasse a pele do teu pescoço. 


há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. 


estás tão bonita hoje. 


os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 


estás dentro de algo que está dentro de todas as 
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever 
a beleza. 


os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios. 


de encontro ao silêncio, dentro do mundo, 
estás tão bonita é aquilo que quero dizer. 


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

domingo, 23 de outubro de 2011

Mário Quintana



Das Utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las.
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!


Poeta do Rio Grande do Sul, Brasil

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Melo Breyner Andresen


Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ARTUR GOULART - Salmo 152




O tempo que corre
é mar que se espraia.

As ondas são sonhos
perdidos por mim.

O vento é espuma
rendando desejos.

A rota é o longo
caminho da posse.

O amor é um barco
que eu fiz para ti.

in "no fio das palavras"

terça-feira, 10 de maio de 2011

Grandes Pensamentos 1


Imagem daqui




Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;

Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;

Porém há os que lutam toda a vida

Estes são os inprescindíveis.



Bertold Brecht



extraído daqui

domingo, 17 de abril de 2011

Alexandre O´Neill - Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!



Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia - António Gedeão

Imagem daqui

Dois poetas me fizeram amar a poesia, Fernando Pessoa e António Gedeão, o poeta da ciência, o homem que une o mundo da cultura ao mundo da investigação tecnológica de uma forma simplesmente genial.

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Arma Secreta - António Gedeão


De um dos meus poetas predilectos do século XX

Arma Secreta

Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na noite erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

António Gedeão

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

REMEMBRANCE DAY - POPPY DAY

Papoilas do Remembrance Day no Canada - foto de Benoit Aubry

11 de Novembro é o dia do armistício da I Grande Guerra. No Canada, à semelhança de muitos dos países da Europa, este é o dia para lembrar aqueles que caíram a defender os interesses da sua pátria, a muitos deles conseguimos os direitos, garantias e liberdades que hoje gozamos no Canada e nos países do velho continente.
O médico e poeta canadiano John McCrae na batalha da Flandres em Maio de 1915 viu morrer e assistiu ao funeral de um dos seus amigos compatriota, quando os campos estavam então cobertos de papoilas e escreveu o poema que se tornou, conjuntamente com a flor, num dos principais símbolos do Dia da Memória em todo o mundo Anglo-saxónico.

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie,
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.

John McCrae não sobreviveu para ver a força das suas palavras, foi um dos médicos infectados por pneumonia naquela guerra no seu hospital de campanha e também recordado neste dia...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Grandes poetas mundiais: Pablo Neruda


MAS DEU FRUTO

Mas quando
entre árido
sistemas dos píncaros
aparece
o homem
transformado,
quando da yurta
sai o homem
que há-de lutar com a natureza,
o homem que é não só
duma tribo,
mas da acesa massa humana,
não o errante
prófugo das altas solidões,
ginete de areia,
mas meu camarada,
associado ao destino do seu povo,
solidário de todo o ar humano,
filho e continuador da esperança,
então,
cumpriu-se a tarefa
entre as cicatrizes dos montes:
ali o homem é também nosso irmão.

Ali a terra dura deu seu fruto.

In "As uvas e o vento"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poetas e poemas oportunos: Sebastião da Gama 1

Imagem daqui com indicação do autor


Meu País Desgraçado

Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas ...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
— olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Sebastião da Gama extraído daqui

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mário de Sá-Carneiro

Torre Eiffel
Foto de Tristan Nitot, extraída e nas condições daqui

A minh'Alma fugiu pela Torre Eiffel acima;
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões -
Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas...

(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)

Mário Sá-Carneiro, Paris, 1915