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sábado, 7 de dezembro de 2019

"Um crime em Ponta Delgada" de Francisco José Viegas


Excertos
"Nas ilhas temos de inventar coisas para não morrermos. Temos de viver no meio de ilusões que gostamos muito."
"Não vale a pena sair da ilha para procurar paz em outro sítio qualquer."

Este é já o terceiro romance que leio do português Francisco José Viegas. Crime em Ponta Delgada, à semelhança de todos os anteriores, está classificado como policial, género de que fui um grande fã na adolescência. Pela minha parte este autor nas suas obras fala, sobretudo, de melancolia, de memórias, da beleza das terras reais que servem de cenário à estória, do interior das personagens e dos desencontros humanos na sociedade e isto une-se através de uma investigação criminal que atravessa a narrativa e dá corpo ao romance. É esta integração que me agrada nos livros de Viegas.
Um taxista transporta à noite para junto de uma praia nas imediações da cidade de Ponta Delgada um homem que reconhece ser um importante membro do partido do Governo dos Açores, pouco depois encontra-o morto na estrada com uma bala. O Comissário Castanheira em Lisboa sente-se estranho à cidade, divorciou-se da sua mulher com quem continua a conviver, mas decide ocupar uma vaga na ilha de São Miguel e é-lhe de imediato entregue o caso.
Castanheira procura conhecer quem é esta vítima, António Gomes Jardim: faialense, casado com uma continental e regressado ao Faial no período do conflito independentistas da FLA e autonomista do PSD que leva ao poder regional Mota Amaral e com a adesão à vida política Jardim mudara-se para a maior ilha do Arquipélago. Castanheira vai descobrir que este casal de mentalidade moderna e acomodado ao cosmopolitismo da Horta vai entrar em choque com a sociedade conservadora, elitista e reservada do poder político e económico micaelense. Estará perante um crime político entre separatistas e autonomistas ou Jardim terá pisado os usos das grandes famílias de São Miguel e então estaríamos perante um crime passional ou uma vingança de costumes.
Pelo meio Castanheiro terá tempo de descrever ilhas e perceber o que foi a conquista da Autonomia dos Açores, os abusos, os compromissos e os silenciamentos, bem como, o que era o estilo de vida em Ponta Delgada com um estrato social dominador, cheio de abusos ocultos que não permite forasteiros.
Gostei muito, sobretudo porque me recordou uma época que vivi como adolescente e jovem, década de 1970/80, porque curiosamente parte da narrativa ocorre precisamente onde vivi em São Miguel ou na ilha onde resido e vim morar quando criança. Um romance onde a descoberta do interior das personagens e os seus sentimentos são parte importante da narrativa com uma escrita cuidada e cheia de belas descrições humanas e paisagísticas do Faial e São Miguel, além de um retrato de época visto de um ângulo diferente do meu.

quarta-feira, 21 de março de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Bonitas Terras Açorianas 5 - Ribeira Grande


Principal povoação da costa norte da ilha de São Miguel. Ribeira Grande deve o seu nome ao curso de água que atravessa o seu centro, cujas margens presentemente são um belo jardim e um exemplo de como é possível aproveitar  as zonas sujeitas a inundação numa cidade sem ser com ocupação por edifícios habitacionais e de escritórios.


O centro histórico é uma área onde se encontram vários edifícios com cantaria de lava lindamente esculpida e que forma um contraste de cores com as alvenarias e as flores que se encontram nas vizinhanças.


Possui um teatro recuperado e ao qual foram adicionadas novas áreas com valências várias que o tornam num bom exemplo de como é possível compatibilizar o património histórico com a nova arquitetura, sem destruir nenhuma das partes e enriquecendo todo o conjunto.


Uma cidade calma, mas arquitetonicamente rica, sobretudo ao nível de património religioso, que importa visitar...


e explorar...


Ribeira Grande é uma pequena cidade que gosto, continua a ser o principal centro de energia geotérmica dos Açores, com um enquadramento tectónico algo instável, mas é uma terra onde já trabalhei que me deixou boas recordações, inclusive das suas gentes...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

VIAJAR como sacrifício

Nunca escondi que gosto de viajar em férias, mas em trabalho pode ser um enorme sacrifício e hoje é um desses casos.
Estar impossibilitado durante as idas e vindas para o emprego de ver a paisagem majestosa da Montanha do Pico diante do Faial, interromper os meus banhos diários no meu paraíso da terra após uma jornada de labor, deixar para trás os fins de tarde a ler enquanto o crepúsculo desce ao som do chilrear da numerosa avifauna que cerca o verde da Ribeirinha e a assistir os voos picados dos morcegos, tudo isto que me relaxa aqui, para me deslocar a São Miguel profissionalmente é um sacrifício enorme para quem não tira férias no Verão, precisamente para viajar sem perder as as benesses do tempo estival na ilha Azul...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

RIBEIRA DESPE-TE-QUE-SUAS

O vale da ribeira Despe-te-que-suas é um dos vales mais abruptamente escavados pelas águas no concelho de Nordeste na ilha de São Miguel, mas o nome do curso de água é também um dos nomes toponímicos mais originais e descritivos que conheço em Portugal.
O nome transmite a sensação de calor associada ao cansaço de quem se aventura a subir do litoral ao longo da ribeira para chegar às zonas mais interiores.

Além da força do vale, o verde da densa vegetação luxuriante faz lembrar uma floresta tropical, aqui mostrada de um ângulo menos comum que o habitual.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um Farol Perdido

Farol do Arnel - São Miguel. Foto de Carlos Campos

Entre as várias fotos que já recebi para possível publicação neste blog, esta é uma das mais me toca, por mostrar este farol de um ângulo que parece perdido sobre o mar, como que uma prova da solidão destes homens que a partir de terra tinham a função de guiar os homens do mar.

A memória da minha infância tem um espaço reservado para o farol da Ribeirinha: os cheiros dos seus motores, a rotatividade dos faroleiros e famílias com as crianças que iam e vinham todos todos, a companhia do feixe luminoso nocturno e a imponência do imóvel na paisagem, por isso, sempre que vejo um farol, fica-me cá dentro uma nostalgia e um vazio difícil de preencher...

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pela Ilha de São Miguel

Cidade de Ponta Delgada

Não são férias, apenas uma viagem de trabalho que me obriga a percorrer vários recantos da maior ilha dos Açores, provavelmente em contra-relógio para poder concluir todas as tarefas.
Espero apenas que também a meteorologia outonal não venha a perturbar o trabalho de campo e as viagens dos aviões interilhas.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

BONITAS TERRAS AÇORIANAS 2

(clique na imagem para a ampliar)

Água de Pau, em São Miguel, não é dos aglomerados urbanos que melhor conheço nesta ilha, mas sempre me impressionou o modo como surge na paisagem na estrada que vai no sentido Ponta Delgada para Vila Franca do Campo.
Num repente, entramos num aglomerado denso de casas, na sua grande maioria brancas, acomodadas na base de um cone vulcânico e algumas ruas empoleiradas como curvas de nível na vertente do cabeço, é como se já não coubessem junto das restantes, tudo isto à sombra de uma ermida que parede desafiar a igreja no centro da freguesia.
A animação comercial e do largo na estrada que a atravessa também merece uma paragem para observar e compreender um pouco da vida desta comunidade.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

BONITAS TERRAS AÇORIANAS


Este blogue tem-se concentrado no Faial e nas outras duas ilhas do Triângulo dos Açores: Pico e São Jorge, aquelas que me são mais póximas e de grande beleza, mas o Arquipélago possui 9 ilhas, cada uma cheia de especificidades encantadores, com povoações que possuem um ar bucólico, arranjado, imponente na paisagem ou acolhedor, que me ficam muito tempo na memória depois de uma visita.

Esta série de terras Açorianas bonitas, começa hoje pela pequena vila do Nordeste, a sede do concelho mais distante de Ponta Delgada na ilha de São Miguel, por isso raramente vou lá, mas é sempre um prazer ir.

Pequena, é verdade, mas a sua limpeza, os numerosos pequenos canteiros ajardinados, as molduras desenhadas em lava vulcânica nos vãos dos edifícios e ponte e o arranjo das suas ruas, dão um ar imensamente acolhedor ao centro da vila do Nordeste e deixam-me sempre vontade de lá voltar.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

PORTAS DO MAR

Portão do Porto das Velas

Nas principais povoações viradas ao mar nos Açores, por vezes, o porto era o principal e mais digno acesso à ilha, por isso não admira que à semelhança das cidades muralhadas, também existissem portas de entrada como magníficas obras de arte, só que estas não tinham um caracter defensivo e transformavam-se em autênticos arcos de triunfo.

Portas da cidade em Ponta Delgada no centro de uma praça e sem nenhum cais por perto

No século XX fizeram-se aterros sobre o mar que cobriram cais de entrada e realizaram-se ampliações de portos que despromoveram os antigos, assim as portas do mar foram deslocadas ou ficaram cercadas de terra.
Hoje estes imóveis já não cumprem a sua missão de bem acolher, ficou a penas a memória de arcos desenquadrados das suas funções iniciais, mas de grande beleza na arte de trabalhar o basalto.
Não me lembro de outros arcos de mesmo tipo, mas é provável que ainda existam ou tenham exisitido muitos mais.

sábado, 25 de julho de 2009

TRONQUEIRA - VALE DA RIBEIRA DO GUILHERME

(clique nas imagens para as ampliar)
Picos que formam a Serra da Tronqueira

Prometi um post com imagens do trabalho de reconhecimento na Serra da Tronqueira, mais especificamente pelo vale da Ribeira do Guilherme ou dos Moinhos, apesar de ter sido no Verão, não foi numa tarde ensolarada, aliás, em conformidade com o que se tem passado no presente mês de Julho.


O Vale da Ribeira do Guilherme alvo da nossa expedição

No trabalho pretendeu-se apenas verificar as condições de realização de uma intervenção manual num espaço ocupado por uma importante e densa cobertura florística natural da Macaronésia - a província biogeográfica de que os Açores faz parte, um tipo de floresta denominado por Laurissilva, tendo em conta a necessidade de assegurar a protecção deste património natural.

As explicações do trabalhador conhecedor da obra e do terreno

Como muitas vezes acontece, são os trabalhadores de campo que melhor conhecem o espaço e o nome popular das espécies da flora alvo do nosso estudo. Aprender com eles é sempre uma momento inesquecível pela forma como passam o saber acumulado da sua experiência do diária.

A Laurissilva que nos cercava e fonte de alimentação do priolo

O percurso não foi fácil, além de um chão por vezes naturalmente armadilhado, noutros casos escorregadio e, frequentemente, com a vegetação densa típica de zonas húmidas, requer alguma coragem e destreza, mas a meta era uma nascente captada para consumo o humano e no fim esta apresentou-se aos nossos olhos com o seu caudal puro e natural.

O alvo, uma importante nascente usada para o abastecimento humano

Referi antes que um particular interesse de preservação desta área residia na necessidade de conservação de uma das espécies de aves mais raras da Europa. Esta não se dignou surgir aos nossos olhos, mas se quiserem conhecer o priolo, com o nome científico Pyrrhula murina, visitem a página do Projecto Life Priolo ou a do Centro Ambiental do Priolo que contém boa informação e imagens deste exemplar endémico de São Miguel.

Oportunamente mostrarei algumas imagens de flora endémica encontrada aqui e nos Açores em geral.

terça-feira, 14 de julho de 2009

COSTA NORTE DE SÃO MIGUEL

Nesta visita de reconhecimento à Serra da Tronqueira não parámos aqui agora... mas passámos.

Assim fica aqui a paisagem que nos envolveu no caminho e onde já parara este ano.

A serra está lá em cima tão íngreme para escalar a pé.

E as plataformas da costa Norte tão suaves cá em baixo, cortadas por vales profundos, gozam-nos quando passamos de carro.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

NOVAMENTE EM EXPLORAÇÕES EM SÃO MIGUEL

Hoje vim em viagem de avião até Ponta Delgada.

Para me reunir aqui em trabalho...

Amanhã pretende-se reconhecimento de campo no seio da Serra da Tronqueira no Concelho de Nordeste, onde vive a ave mais rara da Europa: o priolo.
É esperar que o tempo colabore para o trabalho e recolha de imagens. Quiçá não nos surja um exemplar da avezinha tão rara, daria um bom post, não daria?

quinta-feira, 7 de maio de 2009

PSEUDOCRATERA DA FERRARIA

A zona da Ponta da Ferraria, junto ao extremo sudoeste da ilha de São Miguel, concentra várias estruturas vulcânicas de grande valor paisagístico e científico.
Na foto efectuada do cimo da arriba fóssil, da autoria de Carlos Campos, vê-se a plataforma do delta lávico, onde se encontra à esquerda a Pseudocratera e à direita o imóvel das termas.

Nesta zona litoral, antes do povoamento ocorreu uma erupção estromboliana que edificou um cone de escórias e originou uma escoada de lava que caíu pela arriba e construíu uma fajã lávica ou delta lávico.
O avanço da lava pelo mar gerou uma explosão freática que criou uma estrutura vulcânica em forma de cone encimada por uma cratera, mas sem estar associada a uma chaminé vulcânica para fornecimento de magma de profundidade, por isso se chama Pseudocratera, considerada pela sua raridade e beleza como um Geomonumento.
Ainda devido ao vulcanismo, existem na área duas nascentes termais que levaram à construção de termas e na costa são possíveis banhos quentes. Tudo isto levou a classificação desta zona como Monumento Natural Regional do Pico das Camarinhas e Ponta da Ferraria.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

FILÕES E EROSÃO DIFERENCIAL

O magma que alimenta os vulcões quando ascende da profundidade fá-lo sobre pressão, pelo que se existir nas paredes da chaminé vulcânica alguma fissura, o líquido viscoso tenderá a forçar e a penetrar nessas fracturas, alargando-as e preenchendo-as com o material vindo do interior da terra, depois de arrefecido, este transforma-se numa estrutura rochosa designada por filão, frequentemente de cor e orientação diferente das rochas envolventes, denominadas por encaixantes.
Filão de cor clara subvertical (indicado pelas setas a vermelho) bem evidente perante o encaixante escuro pouco inclinado (foto de Solange Cabeças)

No espírito de cooperação entretanto surgido entre vários frequentadores deste blog, hoje apresento acima uma fotografia efectuada por uma geóloga e colega de trabalho, que mostra um filão na ilha de São Miguel, que ficou descoberto com a retirada do solo e da vegetação para a abertura de um caminho.
Filão de basalto (s.l.) no Costado da Nau, ilha do Faial, saliente na paisagem por ser mais resistente à erosão que o encaixante, tufo vulcânico.

Quando à superfície os agentes de geodinâmica externa (vento, chuva, variações de temperatura e os próprios seres vivos) agridem as rochas, nem todas estas apresentam a mesma resistência à erosão e então dá-se a erosão diferencial. Se um filão for mais resistente que o encaixante, então fica saliente na paisagem e desnudado das rochas que o envolviam.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

MORRO DAS CAPELAS

No post de 9 de Março último "Erupções surtsianas pré-povoamento dos Açores" listei quase todos os edifícios vulcânicos açorianos deste tipo existentes nas várias ilhas do arquipélago e formados antes dos lusitanos para cá virem habitar, tendo então referido que tinha conhecimento de que o Morro das Capelas pertencia a este conjunto, mas que não tinha qualquer foto do mesmo.
O Morro das Capelas (Foto: Cláudio Almeida)

O bloguer Cláudio Almeida imediatamente se disponibilizou a recolher algumas imagens da referida estrutura, as quais foram-me enviadas esta semana e confirmam que se está perante um edifício vulcânico formado a partir de uma erupção submarina do tipo surtsiano.
Pormenor do tufo vulcânico do Morro das Capelas (Foto: Cláudio Almeida)

Assim, embora na forma do morro já não seja muito evidente o aspecto de cone vulcânico, ao olhar-se em pormenor as rochas que o formam, logo se verifica que a sua estrutura finamente estratificada e a cor típica da cinza vulcânica de uma erupção submarina, devido à formação de um mineral chamado palagonite é característica de uma erupção submarina surtsiana.
Estratificação e cor comum deste tipo de tufo nos Açores, por vezes designado por hialopiroclastito (Foto: Cláudio Almeida)

Igualmente esta estratificação cruzada em várias direcções e alinhamentos que os interceptam são visíveis nas fotografias do Costado da Nau no Faial e do Morro Grande em São Jorge e cujos grãos já se cimentaram devido ao longo do tempo em que estas rochas de formaram.
Assim, embora pareça muito diferente, o morro das Capelas teve uma origem semelhante à do vulcão dos Capelinhos com um estilo eruptivo muito bem ilustrado no vídeo da erupção submarina de Toba.

Ao Cláudio Almeida fica aqui o meu obrigado pela colaboração prestada ao blog Geocrusoe. Este continua aberto a outras colaborações, que entretanto já comecei a receber e tenham cabimento com o estilo deste espaço da blogosfera açoriana: ciências da terra, cultura e divulgação das nossas ilhas.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

FOTO DE FALHAS NORMAIS

Além dos vários posts publicados sobre as principais falhas geológicas do Faial com expressão no relevo da ilha, tinha também mostrado aqui um corte geológico numa frente de exploração de escórias vulcânicas no Pico onde a fractura das falhas e o movimento entre os dois blocos separados era muito evidente.

Foto de Carlos Campos realizada na ilha de São Miguel (clique para ampliar).

Agora um colega de trabalho forneceu-me um exemplo muito didáctico de duas falhas geológicas normais, observadas num corte geológico em material de composição pomítica (do tipo das pedra-pomes).
As duas fracturas, que ao serem geradas causam sismo e onde ocorrem deslizamentos ao longo dos tremores-de-terra, formaram-se num mesmo campo de forças e os seus movimentos combinam-se como resposta conjunta aos esforços que as rochas em causa sofrem e por isso se chamam falhas conjugadas, normalmente fazem um ângulo agudo entre si.
Pode-se igualmente verificar que do movimento destas falhas conjugadas, o bloco entre elas subiu, quer em relação à esquerda quer do que está à direita das falhas, formando uma estrutura mais elevada designada por Horst, quando estrutura entre as falhas abate, designa-se por Graben, que já falei pormenorizamente neste post.

quarta-feira, 25 de março de 2009

CONE DE ESCÓRIAS "FOSSILIZADO"

A abertura de uma estrada permite descobrir muitas vezes acontecimentos geológicos passados que ficaram cobertos por outros eventos mais recentes.
Na foto observa-se um cone vulcânico de escórias antigo (cinza escuro) perto de Vila Franca do Campo. Este esteve à superfície tempo suficiente para sobre ele se desenvolver um solo antigo (castanho escuro): paleossolo, agora coberto de pedra-pomes (creme-claro) projectada a partir do distante vulcão da Lagoa da Fogo.
O recorte do paleossolo no talude mostra ainda o relevo existente à data da erupção: paleorrelevo, hoje soterrado por uma topografia diferente.
É a partir da relação da sobreposição vertical, distribuição horizontal e modos de contacto das estuturas geológicas e dos vários tipos de rochas, que se torna possível aos olhos dos geólogos fazer a história geológica de um local, região ou mesmo do planeta.
O topo do cone aparece repetido na parte superior do talude apenas porque este possui um patamar e o degrau de cima volta a descobrir uma parte mais elevada da mesma estrutura, situação que permite igualmente determinar a sua forma a 3 dimensões (3D). Tudo isto numa exposição vertical das rochas, corte geológico, em resultado do talude da obra

segunda-feira, 9 de março de 2009

ERUPÇÕES SURTSIANAS pré-povoamento dos Açores

A concluir a série de vulcanismo surtsiano ou surtseiano, segundo a grafia de outros, aqui vai uma listagem de edifícios formados por este tipo de actividade eruptiva (caracterizada por a chaminé ter estado em contacto com a água do mar) e situados em diferentes ilhas dos Açores.

ILHA DO FAIAL
Costado da Nau, formou a antiga linha de costa do extremo ocidental do Faial até aos Capelinhos. Uma erupção irmã mais velha, muito próxima, mas semelhante na génese e na evolução.

Monte da Guia, um cone em ferradura, com uma dupla cratera a demonstrar a existências de duas bocas eruptivas durante a sua actividade, muito próximo de terra e unido a esta por um istmo de areia.

ILHA DO PICO
Ilhéus da Madalena, os restos de uma pequena ilha no canal Faial - Pico, com uma formação semelhante à ilha Sabrina e que já deve ter sido um cone único.

ILHA DE SÃO JORGE
Morro Grande, responsável por parte da área da fajã onde se instalou a vila de Velas, pois os materiais emitidos uniram o novo edifício a terra.

Morro de Lemos, a mesma erupção que construiu o edifício anterior, uma irmã de idade diferente ou uma actividade gémea? Dúvidas que ainda não me sinto devidamente esclarecido.

ILHA TERCEIRA
Monte Brasil, a erupção marinha que se uniu à ilha e criou uma angra abrigada, em torno do qual se instalou a cidade de Angra, hoje honrada com o título do Heroísmo. Foto de Luís Silveira, proveniente daqui


Ilhéu das Cabras, um cone vulcânico fragmentado mas com uma génese igual à da ilha Sabrina e uma duração bem superior...

ILHA DE SÃO MIGUEL
Ilhéu de Vila Franca do Campo, apesar de muito erodido, preserva ainda a sua cratera praticamente fechada ao mar mas inundada de água, como característico da actividade surtsiana.

Rosto de Cão ou Ilhéu de São Roque, os restos de um edifício muito erodido que deve ter sido um morro ligado à ilha e cuja forma fez lembrar a cabeça de um cão, o que ficou registado na toponímia de duas freguesias. Foto gentilmente cedida por Carlos Campos.

Ilhéus dos Mosteiros, os vizinhos da ilha Sabrina mas que sobreviveram por muito mais tempo e que nunca pertenceram à coroa britânica. Foto gentilmente cedida por Carlos Campos.

Embora sem foto, tenho informações que o Morro das Capelas corresponde a um outro edifício que se formou, sobretudo, a partir de uma actividade eruptiva do tipo surtsiano.

Poderão ter existido outras erupções do mesmo tipo ou haver ainda alguns edifícios que eu não conheça ou não tenho a certeza, mas julgo que listei os casos mais importantes.
Podem ver que algumas erupções estiveram sempre separadas da ilha vizinha e outras junto à costa uniram-se a terra, mas todas tiveram um período de actividade eruptiva em que a chaminé se encontrava inundada por água do mar. Mas atenção, também existem ilhéus hoje que não são surtsianos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

ILHA SABRINA - um incidente diplomático num vulcão Açoriano

O vulcão dos Capelinhos não foi a primeira erupção submarina nos Açores do tipo surtsiano após o povoamento das ilhas. Em Janeiro 1811, a oeste de São Miguel, defronte da ponta da Ferraria, a uma distância pouco superior a 5 km de terra, surgiu um vulcão submarino que se manteve activo, pelo menos, até ao início de Julho do mesmo ano, embora possam ter existido alguns períodos de repouso.

Desenhos da tripulação do navio britânico a descrever actividade eruptiva e a morfologia da ilha Sabrina. Imagem da Wikipédia

Embora a época dos descobrimentos já tivesse acabado, havia séculos, ainda não exisitia o actual conceito de águas territoriais ou nacionais, assim, a nova ilha pertenceria ao primeiro povo que a pisasse e nela hasteasse a sua bandeira nacional. Encontrando-se um navio militar britânico na região de São Miguel, de nome Sabrina, provavelmente em missão de reonhecimento devido a se estar na época de Napoleão e das invasões francesas, o mesmo fez então várias tentativas para desembarcar nesta nova terra, o que só conseguiu em 4 de Julho do mesmo ano, onde hasteou a bandeira, declarou a soberania britânica e baptizou a nova ilha de Sabrina.
O desenho da época evidencia bem a semelhança da erupção de Sabrina com as fotos das primeiras fases das erupções dos Capelinhos e de Surtsey. Imagem da Wikipédia

A situação poderia desencadear um incidente diplomático com os nossos aliados ingleses e em luta do nosso lado contra as invasões francesas: por no seio dos Açores, totalmente português, assumirem a soberania de uma décima ilha nascida do mar... Mas, tal como já referi, devido à erosão, o destino das ilhas vulcânicas é tornarem-se em montes submarinos e no caso de edifícios de cinza vulcânica, isso pode acontecer muito depressa, como descrito aqui para os Capelinhos. A este problema deu a Natureza uma solução rápida logo em Outubro do mesmo ano, provocando o desaparecimento total de Sabrina.

Costa ocidental de São Miguel, vendo-se à direita a pequena Ponta da Ferraria, defronte da qual a erupção construiu a ilha Sabrina.

Poderão ter ocorrido outras erupções submarinas nos Açores do tipo surtsiano após o povoamento, mas os Capelinhos, pela informação científica, e Sabrina, pelo incidente diplomático, tornaram-se nos dois casos mais famosos do Arquipélago deste estilo eruptivo.

Fonte parcial da informação do texto: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_Sabrina