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quarta-feira, 10 de abril de 2019

E-book "Risco escuro na claridade" de Maiky da Silva



Li o ebook "Risco Escuro na Claridade" do brasileiro Maiky da Silva, um texto em forma epistolar mas onde o autor assume não serem cartas e na minha opinião assemelham-se mais a crónicas sucessivas que vão desenrolando um meada como um risco escuro a caminho da liberdade.
O protagonista, um órfão e acolhido por uma casal familiar que o trata ostensivamente de forma inferior face aos verdadeiros filhos, na sua revolta interna decide assumir o papel de louco e a situação torna-se não só convincente para aqueles com quem convive, como talvez para ele próprio, só que de repente ele passa a ser tratado pior do que um animal enjaulado e da revolta interna e de uma oportunidade surgirá a possibilidade do salto para a claridade.
Escrito como uma memória num desabafo desesperado e introspetivo, o texto desenrola-se num estilo de poesia sob a forma de prosa. Maily da Silva, ainda um jovem que revela grande potencial, escreve um lindíssimo texto onde a negritude da situação não macula a beleza da escrita e levanta imensas questões sobre o comportamento humano. Uma obra que é um grito no escuro que levanta belas ondas à sua volta como o quadro de Edvard Munch. Valeu a pena esta descoberta.

domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Contos de Clarice Lispector


Este livro contém 61 contos daquela que é uma das principais artífices da escrita em língua portuguesa de todos os escritores de expressão lusa no século XX: a brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia. Este conjunto tem contos de extensão variada e só não reúne os que foram publicados pela primeira vez sob o título de obra "Laços de Família", pelo que poderíamos dizer que é uma coletânea de quase todos os contos desta autora.
Os contos não são uniformes em termos de extensão: vão de apenas uma única página até próximo da trintena; as temáticas são diversas, desde questões sociais, infância, problemas da degeneração pela velhice e indo até aos desejos corporais mais básicos; e o estilo de escrita é diversificado, até porque entre os mais antigos e os mais recentes há um espaço temporal de mais de três décadas, contudo todos estão excelentemente escritos, uns numa linguagem linear simples, como "Viagem a Petrópolis", outros com monólogos interiores e fluxo da consciência com técnicas modernistas que requerem um certo esforço para a compreensão da narrativa "Seco estudo de cavalos". Também não posso dizer que gostei de todos igualmente, uns deram-me grande prazer de ler, outros não tanto e alguns até foi com sacrifício que concluí a sua leitura.
Nesta coletânea, os contos estão arrumados e sequenciados de acordo com os livros em que foram inicialmente publicados, ao todo cinco, sendo evidente que a harmonia dentro destes conjuntos é maior que o todo, mas o que mais destaco é a mestria do domínio da escrita e da língua, alguns textos serão morais, outros amorais e até alguns por vezes a roçar o imoral ou a expor os íntimos desejos de uma mulher como os que foram publicados em "A via crucis do corpo", talvez os mais fáceis mas que gostei menos.
Antes apenas lera o romance/novela "A paixão segundo G. H." que adorara, alguns contos retomam o estilo e as obsessões: baratas, cabelos ruivos, náuseas animais e deambulações em torno de pormenores. Esta leitura serviu sobretudo para admirar a genialidade da escrita.

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Dois Irmãos" de Milton Hatoum


Estreei-me no escritor brasileiro Milton Hatoum com "Dois Irmãos" prémio Jabuti de 2001 e confesso que gostei muito da sua escrita, do seu modo de narrar, retratar Manaus e de expor conflitos psicológicos que moldam as suas personagens.
Dois Irmão narra a história de uma família de origem libanesa em Manaus vinda no início do século XX, a primeira geração de pai e filha, cristãos maronitas, o casamento desta com outro imigrante muçulmano, um pinga-amor apaixonado de um erotismo exacerbado pela sua mulher e depois dos seus três filhos, onde se destacam os gémeos Omar e Yaqub que desenvolvem um ódio figadal na adolescência ao amarem a mesma moça. A partir daqui, com base no que observou e lhe foi dito, Nael (filho de um dos gémeos com uma índia acolhida na família e a personagem mais equilibrada do conjunto) narra não só o desenvolvimento de Manaus ao longo de mais meio século, como a vida quotidiana típica num bairro do centro desta cidade e ainda o declínio desta família em virtude da rivalidade dos irmãos: Omar, um superprotegido da mãe com comportamento devasso e profissionalmente irresponsável, e Yaqub, votado a um maior desprezo que é o oposto do seu irmão tornando-se num engenheiro de sucesso, enquanto a irmã vive tentando equilibrar este conflito que se estende aos pais e tenta preservar o legado do passado.
A escrita com parágrafos extensos e grande recurso ao vocabulário local, faz magníficos retratos da região do Amazonas, da forma de vida do povo no centro de Manaus e explora o drama, com momentos de grande tensão, juntando com frequência um humor aos sentimentos hiperbólicos e por vezes sarcástico, o que suaviza as situações paroximais de expressão do ódio e dá um ambiente que chega a ser divertido no seio da dor que vai massacrando toda a família.
Se não gostei da devassidão destrutiva de Omar, adorei a qualidade da escrita e a força posta no conflito de sentimentos e a capacidade de retratar uma Manaus que penso ter desaparecido com a modernidade e  expor a sua gastronomia, são aspetos por que vale a pena conhecer este livro e este escritor.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Resistência" de Julián Fuks


O pequeno romance "A Resistência" do escritor Brasileiro Julián Fuks, filho de refugiados políticos Argentinos, o mais recente vencedor do prémio literário José Saramago, é uma obra em estilo de coletânea de curtas memórias do narrador sobre a sua relação com o irmão mais velho, adotado quando recém-nascido pelos pais, e a gestão das questões em torno da integração do mesmo no agregado de acolhimento. Esta situação permite em simultâneo narrar a história de toda a família que, por coincidência, tem grande similitude com a do próprio escritor: também são pais refugiados da Argentina em São Paulo, servindo esta técnica para denunciar alguns dos horrores da ditadura de onde saíam e a curiosidade de se fixarem num país, ainda não democrático, mas onde a simpatia Brasileira permitiu adotarem a nova terra como sua.
A escrita toma a forma de uma sucessão de crónicas brilhantemente escritas, com ternura, elegância e poesia onde o narrador as inicia servindo-se de uma frase ou palavra como mote para reflexões em questões psicológicas, de consciência, de perseguição política, de nostalgia do refugiado e da integração num meio diferente, criando uma espiral de pensamentos e frases fortes que montam um rendilhado em torno da ideia central dessa memória, enquanto o conjunto dos textos forma um caleidoscópio que cria uma visão multicolorida de grande sensibilidade estética dos vários problemas expostos no romance.
Um pequeno livro onde Julian lapida a língua portuguesa e demonstra como ela pode brilhar tanto quanto um diamante e soar com a sonoridade de uma sonata maravilhosa. Uma narrativa temperada pelo amor humano que mostra como a ternura também pode ser uma ferramenta de denúncia das dificuldades da vida e da injustiça política. Gostei muito desta pérola literária e recomendo a sua leitura.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado de Stefan Zweig


Acabei de ler os dois contos O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado, publicados no mesmo livro, de Stefan Zweig, um escritor de origem austríaca, mas que passou os seus últimos dias no Brasil.
O primeiro conto de algumas dezenas de páginas é relativo à vida de um alfarrabista (sebo): Mendel, que era capaz de se isolar do mundo para viver apenas para os seus livros, que fazia a sua vida profissional centrada num café barulhento sem se aperceber do que se passava à sua volta, inclusive este alheamento levou-o a cometer infantilidades em momento de guerra só compreensíveis a quem ama os seus alfarrábio mais que tudo. É uma estória lindíssima. Uma narrativa que vale não só pela forma de escrita, cheia de adjetivos, poesia e beleza , mas também por ser uma grande homenagem a este grupo de pessoas capaz de encontrar pérolas para os bibliófilos, mas vistos muitas vezes apenas como uns comerciantes de obras usadas, quando podem ser os maiores peritos no tema com que nos cruzamos.
O segundo conto, também de dezenas de páginas "A viagem ao passado", que praticamente termina com dois versos de Verlaine, é um puro Zweig, onde as paixões extremadas são exploradas como tema, as quais se confrontam com situações que levam a uma mudança brusca e à tomada de atitudes que no futuro levarão a um outro choque e possíveis remorsos sobre o passado. Neste caso um amor que a carreira e a guerra separou, mas depois dá-se o reencontro quando já tudo é diferente desse tempo anterior.
Gostei muito dos dois, mas o primeiro marca qualquer bibliófilo a que acresce a beleza da escrita e o valor da homenagem efetuada. Recomendo a todos que gostam de beleza literária em ficções curtas.

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

23 de abril comemora-se em Portugal o Dia Mundial do Livro, em Geocrusoe não costumo fazer a apreciação das minhas leituras anuais no dia de ano novo, mas sim nesta data e como sempre a escolha não é fácil e é função das marcas que as obras deixaram em mim, bem como as categorias são função do tipo de livros que li.


Mais Apreciada Leitura de obra Portuguesa


Não foi fácil a escolha entre este magnífico texto literário "Húmus", de Raul Brandão, e a pérola estilística de "O que diz Molero", de mais fácil leitura e igualmente original. Todavia, apesar de Húmus não ser de fácil, antes pelo contrário, é de uma perfeição de escrita e com profundidade de reflexão e abordagem filosófica que não poderia deixar a obra para trás em nome de uma facilitismo comercial que doentiamente me parece estar a degradar hoje em dia a literatura nacional. Um pequeno volume, mas um enorme livro.


Mais Apreciada Leitura de obra Lusófona

"A república dos sonhos", de Nélida Piñon, corresponde a uma saga familiar bem escrita que atravessa quatro gerações de uma família, das quais três na condição de imigrantes galegos que servem para contar não só os sonhos de quem escolheu o Brasil como sua pátria, lutou por ser alguém aos olhos dos outros ou na sua forma de ser e se confrontou com os obstáculos da integração mas também para analisar mais de meio século de história do país de acolhimento com todos os seus defeitos e virtudes e crises políticas, regimes democráticos e ditatoriais. Extenso, mas sem dúvida um bom livro.

Mais Apreciada Leitura de obra Original em língua estrangeira

Foi sem dúvida a escolha mais difícil, havia vários romances possíveis, alguns de laureados com o Nobel, mas a riqueza de informação neste livro sobre a vida da população urbana nigeriana, a caracterização da integração da emigração atual africana nos Estados Unidos e Reino Unido, além do facto de ser uma obra que mostra que na atualidade ainda se escrevem grandes e bons livros, pelo que ainda há esperança na continuação da literatura, incluindo a partir de países de grande dificuldade social e pouco admirados no ocidente, levaram-me a selecionar "Americanah" de Chimamand Ngozi Adichie.

Mais Apreciada Leitura de obra Canadiana


Apenas li três obras canadianas, "The origin of species", de Nino Ricci, foi lida na língua original  e ganhou GG prize do Canada em 2008. É sem dúvida um excelente romance que mostra muito do que é a vida multicultural do meu país natal, onde também ocorrem desencontros pelas diferenças, buscas de identidade e do significado da vida nesta biodiversidade de povos que segue muito das mesmas regras materializada na teoria da evolução de Darwin. Uma obra que me despertou interesse em ler outros título do autor e por isto eleita nesta categoria.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

sábado, 10 de outubro de 2015

"O tempo e o Vento" de Érico Veríssimo

"O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo, além de ser uma importante obra-prima da literatura brasileira, que estranhamente se encontra esgotada em Portugal, é um romance que nos últimos anos procurei ansiosamente adquirir com dois outros motivos: (1) por relatar a história do povoamento do Estado do Rio Grande do Sul que contou com um importantíssimo contributo de emigrantes dos Açores no século XVIII, Região onde vivo e estão todas as minhas raízes; (2) por Porto Alegre ter-se tornado cidade irmã da Horta e esta ter-se depois geminado com aquela capital do mesmo Estado através de uma votação unânime da Assembleia Municipal da Horta, em que eu participei, e não concebo ter contribuído para este ato sem conhecer a cultura daquela metrópole onde Érico Veríssimo é um dos seus expoentes máximos literários.
Assim após intensa pesquisa só consegui encontrar num alfarrabista da feira do livro de Lisboa um livro antigo, com ortografia anterior a 1973, com os dois primeiros volumes reunidos de "O Tempo e o Vento" que constituem a primeira das três partes desta extensa obra e designada por "O Continente".
"O Tempo e o Vento" é um romance em forma de saga que desenvolve a formação da família Cambará através da fusão de sangue índio, açoriano luso-flamengo, paulista e até de um salteador errante que se torna sedentário por amor. O narrar-se estas origens no século XVIII e o posterior evoluir das várias gerações Cambará serve de meio para dar a conhecer ao leitor as lutas entre Portugal, Espanha e oportunismos ingleses, bem como o papel das Missões jesuíticas, que levam à definição das fronteira meridionais do Brasil com o Uruguai e a Argentina e prosseguir pela criação da província do Continente do Rio Grande de São Pedro, as suas guerras internas e fronteiriças, o estabelecimento da sua população com migrações brasileiras e imigrações açorianas, lusitanas, alemães e italianas, passando pela independência do País e indo até ao início da república federal com a instituição do Estado do Rio Grande do Sul já no fim do século XIX com o seu carácter cultural único, com virtudes e defeitos bem evidenciados na obra, que mistura todas as proveniências do seus habitantes, aproveitamentos políticos, influências religiosas e onde as raízes açorianas merecem um destaque no romance, não só com a Cavalhadas típicas da Ribeira Grande em São Miguel, como a dança da chamarrita tão forte no Faial e Pico e a culinária misturada com os produtos locais.
Érico Veríssimo com uma escrita elaborada que mistura linguagem popular com a escorreita, não expõe de uma forma linear esta saga: a obra começa num momento em que a família Cambará está sitiada no seu ninho histórico quando das lutas entre republicanos e federalistas em 1897 e depois com recuos e avanços em capítulos diferentes constrói toda a história destas gentes com grandes personagens e perfis psicológicos fortíssimos como Pedro Missioneiro, Ana Terra, Rodrigo Cambará, Bibiana Terra Cambará, Licurgo Cambará e Ana Valéria Terra que sem dúvida estão ao nível de outras figuras da literatura mundial. Um magnífico romance que deve ser lido não só pelo povo do Rio Grande do Sul, mas por todos os Brasileiros e Portugueses, sobretudo Açorianos.
Espero ter oportunidade de ler as sequelas desta saga: "O Retrato", e "O Arquipélago" que completam "O Tempo e o Vento" e penetram pelo século XX e onde seguramente a influência Açoriana se deve ir autonomizando e tornando-se cada vez mais Brasileira.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa


Mergulhei no romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa logo no dia em que o adquiri numa publicação fac-similada da primeira edição no Brasil de 1956 e efetuada pela loja do jornal Público na coleção "800 anos de literaturas em Português". Este interesse na obra, há muito tempo esgotada em Portugal, resultava do facto desta estar qualificada como um dos trabalhos de ficção mais importantes escritos em Português e, inclusive, uma das obras de literatura mundial mais significativas de todo o século XX.
Em primeiro lugar saliento que gostei muito da trama: as memórias de Riobaldo narradas a Quelemén sobre o tempo em que fora jagunço e chegara a liderar um grupo na caça de um assassino de um chefe seu exemplar. Uma época em que se apaixonou por Diadorim, uma personagem travestida de soldado, em que sentia o dilema da paixão face os complexos de masculinidade e assumia o seu amor consentido pela distante e bela Otacília, período que lhe levantou questões sobre o bem, o mal, o Diabo a realização ou não de um pacto com este e até a dúvida sobre a existência deste ou não.
O romance não é uma estória linear: algumas das dúvidas sobre o bem, o mal e o demónio no protagonistas são lançadas ao ouvinte da narração, colocadas à reflexão por Riobaldo no texto que, em paralelo, também expõe os seus problemas morais e sentimentais e obriga-se a viajar no tempo para justificar determinados momentos da sua saga contra o inimigo e, em paralelo, descreve de uma forma poética a paisagem do sertão, as suas veredas, os seus rios e as suas gentes.
Guimarães Rosa utilizou no romance o modo de expressar sertanejo: vocábulos e sintaxe alterados pela linguagem popular, neologismos do escritor, regionalismos e ainda apresenta as espécies da fauna e flora da zona de Goiás, Minas Gerais e Baía como elementos simbólicos do carater das personagens, o que torna o texto num rendilhado complexo  que obriga a uma atenção intensa para quem não domina nenhum destes campos como eu e não estava prevenido para este estilo. Gostei do romance, embora por vezes tenha sido esgotante chegar à compreensão do conteúdo escrito e sei que nem tudo foi apreendido. Um livro que recomendo a quem além da magnífica estória, está disposto ao esforço de atenção e descoberta do que se esconde por detrás deste difícil texto. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Quincas Borba" de Machado de Assis


Apesar de Quincas Borba ser uma personagem fictícia introduzida no primeiro romance dos dois de Machado de Assis contidos neste livro, na realidade "Quincas Borba" é uma obra bem diferente no modo de escrita e na estrutura de "Memórias póstumas de Brás Cubas".
Agora não se está perante as memórias ou uma autobiografia do protagonista a qual envolve uma paixão de infidelidade conjugal, mas sim do relato exterior da vida do herdeiro do filósofo rico e criador do "Humanitismo" Quincas Borba: o professor rural Rubião e guardião do cão "Quincas Borba", homónimo do seu primeiro dono para lhe preservar o nome após a sua morte que opta por passar a viver na capital Rio de Janeiro.
Igualmente escrito com humor e ironia sobre os comportamentos sociais e políticos na capital, onde não falta uma paixão de Rubião, mas agora não satisfeita, mas também existe o problema da identidade e alienação psicológica do protagonista, a garantia de fidelidade do cão e duvidosa de Sofia, os amigos verdadeiros e os oportunistas de ocasião. Uma obra que penso mais madura e profunda, o romance de Machado de Assis que mais gostei. Recomendo a qualquer leitor tipo de leitor que goste de ficção pela facilidade de leitura e qualidade da sua escrita.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis


Acabei de ler o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis, o escritor brasileiro que para a mesma época se encontra em termos de importância ao nível de Eça de Queirós.
Na estrutura é um romance autobiográfico em estilo de memórias pessoais de Brás Cubas com a originalidade literária deste as escrever após a sua morte, embora sem referências à sua vida no além. Em termos de estilo e forma, apesar de anterior em cerca de 20 anos, este romance tem uma construção semelhante ao "Dom Casmurro" do mesmo autor já postado neste blogue, diferindo pelo seu maior distanciamento ao mundo religioso, maior proximidade à realidade política e pelo facto de agora o protagonista não ser a vítima de traições mas sim assumir o papel oposto.
Um romance cheio de ironia e humor, brilhantemente escrito, com retratos e algumas reflexões sobre o estilo de vida na cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século XIX, cujo texto se presta sobretudo ao prazer e entretimento suave do leitor. Gostei, mas não tem a riqueza e a imaginação criativa e de análise do comportamento humano de "O alienista".
O livro prossegue com outro romance de Machado de Assis: "Quincas Borba", personagem que já aparece em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e que agora penso descobrir nesta obra escrita 10 anos mais tarde.

domingo, 23 de novembro de 2014

"A Selva" de Ferreira de Castro

Acabei de ler "A Selva" de Ferreira de Castro, talvez o romance com maior sucesso editorial internacional de um escritor português na primeira metade do século XX e compreendi agora a razão por que se tornou tão famoso esta obra de ficção mas parcialmente baseada nas memórias da vida do autor.
Um romance com um texto muito bem escrito, fácil e acessível a qualquer pessoa, uma história simples que apela aos valores humanos e denuncia a exploração do homem pelo homem sem defender nenhuma ideologia em concreto, uma descrição da floresta amazónica com uma densidade, qualidade e plasticidade visual difícil de igualar, sendo a selva a verdadeira protagonista da obra.
No romance a vida brota da Amazónia no seu potencial máximo e por isso a selva é também uma cooperante assassina na luta pela sobrevivência, os nativos surgem como o povo ameaçado no seu território que se defende perante os recém-chegados que não os sabem acolher sem os descaracterizar, o homem surge como o principal inimigo de si mesmo, independentemente da sua classe ou etnia e a personagem principal é o sonhador que vê as suas crenças desmoronarem e renasce diferente com projetos de futuro.
Ferreira de Castro, para muitos o iniciador do neorrealismo, escreve uma obra fácil e ao mesmo tempo densa, que desperta prazer e curiosidade de leitura, mas cheia de imagens fortes que divulgam a Amazónia, a história da exploração desta terra pelos europeus, a vida difícil dos seringueiros na obtenção do latex no pós-primeira grande guerra mundial, o choque de mentalidades, o aproveitamento dos mais fracos e a sua desunião e um apelo pelo valores para que o homem não seja o algoz do outro homem. Um grande romance que recomendo a qualquer leitor.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"O Alienista" de Machado de Assis

O conto "O Alienista", onde o Dr. Simão Bacamarte estuda cientificamente alienados, escrito por Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil e filho de uma Açoriana, talvez seja a gema literária escrita na língua portuguesa mais brilhante no género de alegoria ou parábola. Uma história divertida e irónica, cheia de crítica social implícita e mordaz para com o ser humano, independente da sua classe, profissão ou grau de formação.
Na edição da Porto Editora, brilhantemente ilustrada, este conto ao nível de originalidade e de crítica nada fica atrás de "Animal Farm" de George Orwell, tendo sido escrito várias décadas antes, o que mostra o valor literário e a rica imaginação do seu autor.
Neste mundo ser alienado não será tentar sobreviver com uma vida de virtudes numa sociedade desequilibrada, egoísta e cheia de oportunistas? É esta a interrogação ou a descoberta do alienista ao tentar recolher e tratar os doentes psicóticos da sua cidade e ao perceber o comportamento individual e coletivo desde os seus habitantes mais humildes até às suas gentes mais importantes. 
Um pequeno livro que é uma obra-prima, divertida, de fácil leitura e brilhantemente escrito, mas que convida a uma grande reflexão. Um conto que recomendo a todos a sua leitura e para o qual nunca será tarde, nem cedo para se ler, tanto na adolescência como na velhice e sempre uma fonte de prazer.

domingo, 16 de novembro de 2014

"Mar Morto" de Jorge Amado

Jorge Amado em "Mar Morto" expõe a vida arriscada e miserável dos homens do mar ligados ao saveiros de São Salvador que uniam pela água as cidades na baía de Todos-os-Santos e do rio Paraguaçu nos anos de 1930. O romance é escrito de forma poética e destaca o sofrimento das mulheres destes homens devido à grande incerteza de garantias do seu futuro e dos seus filhos devido à grande probabilidade de perda dos seus maridos no mar.
O escritor utiliza o amor entre Guma, saveireiro, e Lívia, criada na cidade, para intensificar esta realidade e evidenciar os contrastes entre os pobres do bairro do porto e certos exploradores urbanos.
O livro vale muito pela forma poética do texto e também pelo retrato social, pois que a trama não tem a força de outras obras maiores passadas do autor neste Estado da Bahia, mas a obra dá imenso prazer à leitura devido à riqueza literária da sua prosa. Gostei e recomendo.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

"A Grande Arte" de Rubem Fonseca


Poucos livros do género policial e banditismo têm a genialidade de conjugar as grandes emoções deste tipo trama e ser em simultâneo uma obra de arte literária que deveria ser de culto. Rubem Fonseca consegue em "A Grande Arte" fazer uma paródia cheia de ação e referências culturais ligada ao submundo do crime, prostituição, narcotráfico e advocacia de investigação com um protagonista do tipo herói falhado, exceto na sua obsessão e sucesso com as mulheres, mas que gera simpatia no leitor, e criar um romance que é uma obra-prima.
Esta edição tem um prefácio de Francisco José Viegas e um posfácio de Vargas Llosa que fundamentam perfeitamente por que este romance violento, divertido e de puro entretimento deve ser de facto uma obra de referência no seu género.
Rubem Fonseca na sua escrita fria e do género reportagem acelerada, memórias e algumas brejeirices, intercalada de expressões irónicas e de riqueza cultural, cria uma trama única e que mostra como se transforma uma temática para muitos considerada menor num romance de nível literário superior do melhor ou o melhor que já li no género, que justifica o escritor ter o prémio Camões e  valoriza a literatura escrita em Português. Um livro recomendável e acessível a qualquer leitor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

"Agosto" de Rubem Fonseca


"Agosto" de Rubem Fonseca é uma viagem alucinante que mistura factos reais e ficcionais de jogo, corrupção, crime, política, prostituição e investigação criminal ao longo do mês que desembocou no suicídio do Presidente do Brasil Getúlio Vargas.
Escrito numa linguagem popular e sem almofadas para suavizar o choque da frieza dos comportamentos criminosos e do enredo e interesses partidários, o autor traça vários retratos que mostram as diversas realidades do que foram aqueles dias de crise política na violenta cidade do Rio de Janeiro, onde a vida humana pouco vale, tanto para autoridades públicas, como para redes do submundo e onde a honestidade e os princípios nas pessoas correspondem à situação de exceção.
Rubem Fonseca não faz julgamentos de forma direta, apesar de o desajustamento social do protagonista e honesto comissário servir de contrapeso de reflexão sobre a sociedade. O livro lê-se de rajada, tal como são atirados de forma sucessiva o evoluir dos acontecimentos daqueles dias.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

"Nação Crioula" de José Eduardo Agualusa


Escrito em estilo epistolar, o romance baseia-se em alguns factos reais, como o navio negreiro Nação Crioula, intercalados com acontecimentos de ficção.
A obra está estruturada como um conjunto de cartas de Fradique Mendes (personagem fictícia mantida por vários escritores do século XIX em artigos de jornais na sua época em Lisboa) entregues a Eça de Queirós e nas quais se relata a paixão do protagonista por Ana Olímpia (destinatária de várias missivas) e sua vida social em Luanda, se descreve o tipo de relações comerciais entre esta colónia e o Pernambuco no Brasil, bem como as contendas entre escravocratas, abolicionistas, negreiros e tensões para o fim desta exploração de mão de obra por parte de várias nações europeias.
José Eduardo Agualusa aproveita assim para expor numa escrita muito linear e epistolar os dilemas do fim da escravatura, vários preconceitos e desumanidades que modelavam a vivência de Luanda, Brasil, Portugal e perspetivas filosóficas, religiosas e políticas em confronto no império português com as visões e ideias vindas do norte da Europa, bem como alguns aspetos do comportamento dos africanos. O livro lê-se muito bem, gostei muito, tem uma escrita acessível e recomendo a qualquer  tipo de leitor.