terça-feira, 4 de outubro de 2016

"As altas montanhas de Portugal" de Yann Martel



Acabei de ler o romance "As Altas Montanhas de Portugal" do escritor Canadiano Yann Martel, este é o quarto livro que leio deste autor que se tornou mundialmente famoso com "A vida de Pi" que ganhou o prémio booker prize em 2002 e foi adaptado ao cinema, mas é o primeiro que leio traduzido em Português.
Todos os romances de Martel têm uma estrutura, conteúdo e estilo original fugindo aos rótulos de outras escolas literárias, misturam acontecimentos fantásticos, mas distintos do realismo mágico ibero-americano; relacionamentos humanos com animais abordando análises de compreensão psicológica destes; questões filosóficas de cariz religioso e teológico e o impacte da morte nos protagonistas a partir de familiares próximos. Este não é exceção. Junta três narrativas distintas que se cruzam no Nordeste de Portugal, denominado por Altas Montanhas de Portugal, e, de forma mais ou menos direta, faz referências a personagens e animais comuns às três histórias.
A primeira alguém afetado por fatalidades na família próxima expressa a sua amargura adotando um andamento à recuas e vai procurar um artefacto religioso que descobre por indícios num diário de um missionário que trabalhou no seio da escravatura, empreende então em 1904 uma viagem de automóvel de Lisboa às Altas Montanhas de Portugal, uma inovação da época com todo o pasmo e aventura que esta travessia do País provoca descrita de uma forma divertida e sarcástica que envolve um Jesus simiesco. A segunda decorre numa sala de morgue de um hospital em Bragança onde o médico legista ouve uma dissertação de sua mulher falecida que aborda semelhanças da vida de Cristo e as obras de Agatha Cristhie, terminando com  a vida de um idoso autopsiado a pedido da viúva com um resultado original e envolvendo um primata. A última narrativa fala de um político que ascende a senador no Canada que confrontado com a perda da mulher desiste de tudo para se refugiar nas Altas Montanhas de Portugal, a terra dos seus ascendentes, com um chimpanzé .
A escrita é elegante e cheia de notas nostálgicas, descrições estéticas e sentimentais de uma forma bela, apesar do rigor descritivo de certos factos históricos e geográficos, têm por vezes erros ou alterações intencionais  do autor e traz até hoje animais pré-históricos da fauna ibérica.
A ideia de fundo do romance parece sintetizada no final da primeira narrativa: a humanidade é fruto de símios que se elevaram e não o resultado de anjos caídos. O livro lê-se bem e é agradável, mas algo estranho sem atingir o nível da obra mais famosa de Martel e mostra um retrato de Portugal pelos olhos de um Canadiano.

8 comentários:

Kelly Oliveira disse...

Olá Carlos, quanta coisa em um livro só rs. Já fui há Portugal duas vezes, e realmente gosto muito do país. Ainda não li nenhuma obra de autor português, gostaria se possível, que você me indicasse alguma obra para começar. Abs.

Pedrita disse...

eu não gostei de a vida de pi. do filme. prometo repensar sobre o autor. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Kelly, para começar é sempre arriscado indicar uma só num país tão produtivo em livros mesmo na atualidade. Há os escritores clássicos, como Eça de Queirós no século XIX, onde poderia começar com "As cidades e as Serras" ou "A ilustre casa de Ramires"
No século XX o mais famoso é Saramago, é muitas vezes um escritor difícil, talvez os mais fáceis sejam: A jangada de pedra; As intermitências da morte ou O Ano da Morte de Ricardo Reis.
Nos escritores vivos atuais, talvez Nenhum Olhar de José Luís Peixoto; A máquina de fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe; Flores de Afonso Cruz e O tempo Morto é um bom lugar de Manuel Jorge Marmelo.

Carlos Faria disse...

Eu não vi o filme, mas gostei do livro, claro tem aquela vertente religiosa ecumnénica, misturada com fantasia e psicologia animal que deturpa um pouco a verdade dos factos para veicular as ideias do escritor, mas foi um livro marcante para mim.

Kelly Oliveira disse...

Obrigada Carlos, vou anotar e depois olhar direitinho por onde começo. Abs.

Anónimo disse...

Ainda bem que não leu em inglês.
Na Praça do Comércio, o protagonista contempla a estátua do… Marquês de Pombal.
A acção decorre em 1904 mas a dado passo surge a Calçada Ribeiro Santos, homenagem toponímica ao estudante morto pela PIDE.

Escrevem tudo à toa e tudo é editado à toa. Não há rigor algum
Para quem não conhece Portugal, o cheiro é igual.

Alessandra dos santos disse...

Oi! Gosto dos livros do Yann Martel. Li A vida de PI e Beatriz e Virgilio, esse último me levou a ler a Divina Comedia. Gostei de todos. Obrigada pela dica de leitura. Vai entrar na minha lista de compras. #LER #LiberdadeEsperancaRenovacao

Carlos Faria disse...

Anónimo, por saber desses erros e das alterações que faz sobre os evangelistas é que escrevi "apesar do rigor descritivo de certos factos históricos e geográficos, têm por vezes erros ou alterações intencionais do autor"