Mostrar mensagens com a etiqueta prémios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta prémios. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de março de 2019

"Luz em agosto" de William Faulkner


Excerto
"A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo do que recorda, por mais tempo até do que o conhecimento se interroga. Sabe, recorda, acredita num corredor num prédio de tijolo vermelho, grande e comprido, decrépito, frio e povoado de ecos..."

"Lembro-me de uma vez lhe ter dito que há um preço a pagar por se ser bom tal como o há por se ser mau; há sempre um custo. E são os bons que não podem recusar-se a pagar a fatura, quando ela chega."

Voltei pela segunda vez a William Faulkner, escritor norteamericano laureado com o Nobel da literatura, com este "Luz em Agosto" que conta a vida várias personagens de terras diferentes do sudeste dos Estados Unidos que se cruzam na cidade de Jefferson (fictícia), estado do Mississipi, num momento fulcral e de grande tensão para as mesmas, um local marcada pelo ódio racial, o radicalismo religioso conservador e as feridas resultantes da derrota do sul esclavagista perante o norte abolicionista e liberal.
Lena, uma adolescente, grávida e solteira parte do Alabama em busca do pai do seu filho chegando a Jefferson num dia de um incêndio de uma casa debruçada sobre a cidade. Joe é um irresponsável pouco inteligente que parte secretamente da sua relação clandestina e vai trabalhar para uma serração em Jefferson e é acolhido pelo colega de trabalho Natal (Christmas). Este por sua vez é um órfão fugido de uma família adotiva ultraconservadora que não consegue suportar a sua suspeita de ter sangue negro, vive numa cabana de uma solteirona descendente de uma família do norte, abolicionista, com um passado marcante, dona duma moradia sobranceira à cidade, ambos estabelecem uma relação amorosa secreta que acaba em crime e incêndio. Byron, de meia-idade, é um pacato trabalhador da mesma serração que acolhe a grávida, apercebe-se da sua situação de mãe solteira,algo não aceitável na comunidade, apercebe-se de quem é o pai e intimamente apaixona-se. Hightower é um ex-pregador metodista cuja admiração pelo avô morto na guerra civil é o cerne da sua divulgação da apostólica em detrimento dos temas da fé o que  associado a um escândalo com a sua mulher o leva à excomunhão, só que se torna no elo entre toda esta gente, apesar do seu conflito entre fé, dever, memória e descrença. Tudo isto atinge o climax no momento do assassínio da solteirona com a fuga de Natal, a perseguição, o parto, o encontro da parturiente com o pai e a sua irresponsabilidade numa cidade onde ódio racial e religião impedem o bom-senso.
Um retrato da América profunda, complexada e disfuncional no período entre as duas grandes guerras, cheia de feridas históricas.
Faulkner tem uma escrita própria, com um estilo literário complexo denominado fluxo de consciência que marcou o modernismo no após a 1.ª grande guerra, onde sequencialmente, temos narrativa da estória, pensamentos das personagens, reflexões do autor, diálogos, saltos no tempo e comentários numa cadeia de parágrafos longos que exigem concentração por na mesma frase sujeitos, predicados e factos estarem cruzados subtilmente ou muito distantes, parecendo que houve um lapso gramatical mas depois o leitor compreende a lógica da sintaxe.
Apesar de não ser sempre fácil, a escrita de Faulkner está cheia de beleza com metáforas originais, reflexões e personagens complexos e cheios de conflitos internos, mas obriga a um esforço do leitor por autor dispersar momentos e focos distintos no encadeado da narrativa que só muito mais tarde se cruzam, se completam e se tornam compreensíveis como a montagem de um quebra-cabeças.
Poucas personagens na literatura são tão densas e profundas como algumas das de Faulkner, Natal é uma do expoente máximo desta criatividade. Chega a ser suicida ao completar-se como um branco racista, orgulhoso e supremacista junto com a sua luta na vontade de alimentar a suspeita do seu sangue negro que o revolta e o obriga a vingar-se das humilhações de raça inferiorizada e a lutar pelo reconhecimento do direito à sua liberdade e igual dignidade. Outras personagens neste romance atingem níveis quase tão elevados como o dele neste conflito interno que os divide, une e os completa.
Confesso, gosto muito desta luta dentro da beleza do texto que está cheio de imagens parciais refletidas como por uma bola de espelhos, onde os retratos montados por Faulkner compõem um quadro final excelentemente estruturado com uma mirídade de peças que pareciam desencaixadas, mesmo que às vezes me irrite com as cambalhotas e desvios que sou forçado a dar ao longo da narrativa.
Um grande escritor, um génio e um expoente máximo da literatura que ao ser galardoado com o Nobel, reforça a credibilidade deste prémio e o honra por o ter reconhecido e premiado. 

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Os loucos da rua Mazur" de João Pinto Coelho


Acabei de ler "Os loucos da rua Mazur" do escritor português João Pinto Coelho, o romance que venceu o prémio Leya em 2017. É o segundo livro que leio deste autor em menos de um ano e ambos com memórias de sobreviventes ao período da II Grande Guerra na Polónia sob a ocupação estrangeira.
Um livreiro idoso em Paris em 2001 é contactado por um escritor famoso e sua mulher editora, pretendem escrever a história do que se passou na sua cidade durante a II Grande Guerra, logo se descobre que entre os três houve um passado longínquo juntos que deixou feridas muito fortes. A escrita desse passado dói a todos e assim vai sendo composto o que se passou naquela cidade no leste da Polónia, onde duas comunidades: uma cristã e outra judaica, coexistiam em bairros distintos e desconfiança mútua fomentada pelos seus líderes, mas tolerando-se em tempo de paz. É neste burgo que eles adolescentes se tornaram amigos: um cego judeu, outro cristão e ela filha de uma proscrita suspeita de bruxa. A amizade cresceu, mas a paixão alimentou o ciúme do preterido, então o País é invadido, a zona é primeiro ocupada por estalinista que querem moldar as pessoas, a pressão é mais forte com os polacos, os outros temem mais os que virão depois, os nazis e a retaliação será o pior vinda dos polacos. Nesta guerrilha o ciume leva à traição de uma amizade que deveria ser superior aos diferendos da cidade.
Um livro, que intercala capítulos do passado com mágoas do presente, denuncia uma realidade passada na Polónia que hoje muitos pretendem reescrever para apagar a sua culpa, existem memórias muito negras neste romance, há culpados em todos os lados, mas neste terror nem sempre foi preciso os nazis agirem, muitos aproveitaram a guerra para sujar as mãos em nome da fé, do racismo e da intolerância à sombra de um País ocupado por ditadores estrangeiros.
A escrita é escorreita e simple serve de suporte ao relato de uma história pouco falada que envergonha muitos polacos. Fácil leitura.

sábado, 25 de agosto de 2018

"O Mar" de John Banville


Excerto
"A sala estava tal como eu a recordava, ou parecia estar como eu a recordava, porque as recordações estão sempre ávidas por condizerem na perfeição com as coisas e os lugares do passado revisitado."

"Costumava dizer que se houvesse dor, pelo menos haveria como que uma certificação, uma autenticação, algo que lhe dissesse que o que lhe tinha acontecido era mais real do que qualquer realidade que conhecera até então. Mas não sentia dores, por enquanto."

Quando iniciei há uns anos uma lista de obras recomendadas que anotava para mais tarde comprar "O Mar" do irlandês John Banville e vencedor do Booker Prize em 2005 foi a obra que que abriu tal série", mas pouco tempo depois a obra esgotou em Portugal e só este ano foi reeditada. Já não me lembrava da temática, apenas sabia que considerava o primeiro parágrafo da obra avassalador, o único que lera num excerto e não corresponde a nenhum dos acima transcrito.
Max, após a morte da mulher por cancro revisita a aldeia de férias à beira mar aonde passava a sua infância e onde desenvolveu paixões fortes por duas mulheres membros de uma família em veraneio na casa onde agora se instalou. Começa então a memorizar o nascimento desses amores, as relações com as pessoas com quem conviveu, o mau ambiente na sua família de então, memórias que intercala com o desenrolar dos acontecimentos com a sua falecida mulher, a sua doença, o papel protetor da sua filha e os elementos na casa onde se encontra hospedado, quase sempre acompanhadas com a presença do mar.
A obra está muito bem escrita, predominam os parágrafo extensos e densos em adjetivos. O passado vai-se reconstituindo lentamente com uma nostalgia sombria devido às tragédias associadas, à dor do tempo perdido e ao amargor de uma velhice que se aproxima solitária. Apesar do magnífico primeiro parágrafo e talvez porque se seguiu à leitura de outro livro sobre memórias não alegres, fui sendo esmagado pela tristeza que ia atravessando o romance, sem mais me deslumbrar como o impacte d seu arranque. Contudo, é um bom pequeno romance.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

"As Avenidas Periféricas" de Patrick Modiano


Excerto
"Conversa estúpida. Palavras ocas. Personagens mortos. Mas eu ali estava, com os meus fantasmas, e, se fecho os olhos, recordo-me que uma senhora de idade, com avental branco, nos veio anunciar que o jantar estava pronto."

Nunca ouvira falar do escritor de França Patrick Modiano até ao dia em que lhe foi atribuído o prémio Nobel em 2014 e não me despertou curiosidade para o conhecer imediatamente. Uma promoção deste pequeno romance "As avenidas Periféricas" que também ganhara o também o prémio da academia francesa em 1972 foi a pedra de toque para contactar com o autor.
Sabia que o Nobel lhe fora atribuído pela sua arte de escrever acerca de memórias em França no tempo da ocupação nazi e este livro reúne esse aspeto. 
O narrador recorda cenas no bar de uma pensão numa aldeia de férias de campo na vizinhança de Paris, onde três homens conversavam, um deles era seu pai. Aos poucos vamos conhecendo estas personagens e a que se dedicavam, percebemos que a sua atividade levanta mais dúvidas sobre o carácter desta gente e das mulheres com quem convivem do que certezas, quem é este pai? uma incógnita de quem o filho se afastara e com quem aprendera técnicas de vigarice. O que fazem? Porque o pai se aproximou deles? Que riscos corre? Porque sente o filho a vontade de proteger o seu progenitor? Quem foram aquelas pessoas e como chocam aquela aldeia pacata? Que boatos os cercam?
A descoberta da verdade não é o mote do romance, mas as questões em reboliço, as tensões subjacentes, os sentimentos nesta aproximação filial e depois como terminou naquele país invadido que mais não era do que uma prisão desesperada para todos, inclusive gente fútil e pessoas de passado obscuro.
Curiosamente o romance recordou-me o modo como são expostas muitas personagens em António Lobo Antunes, o drama psicológico das relações humanas e apesar de não ter desgostado desta obra, prefiro na generalidade as do português que as pontas em aberto do laureado com Nobel neste seu livro.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Dois Irmãos" de Milton Hatoum


Estreei-me no escritor brasileiro Milton Hatoum com "Dois Irmãos" prémio Jabuti de 2001 e confesso que gostei muito da sua escrita, do seu modo de narrar, retratar Manaus e de expor conflitos psicológicos que moldam as suas personagens.
Dois Irmão narra a história de uma família de origem libanesa em Manaus vinda no início do século XX, a primeira geração de pai e filha, cristãos maronitas, o casamento desta com outro imigrante muçulmano, um pinga-amor apaixonado de um erotismo exacerbado pela sua mulher e depois dos seus três filhos, onde se destacam os gémeos Omar e Yaqub que desenvolvem um ódio figadal na adolescência ao amarem a mesma moça. A partir daqui, com base no que observou e lhe foi dito, Nael (filho de um dos gémeos com uma índia acolhida na família e a personagem mais equilibrada do conjunto) narra não só o desenvolvimento de Manaus ao longo de mais meio século, como a vida quotidiana típica num bairro do centro desta cidade e ainda o declínio desta família em virtude da rivalidade dos irmãos: Omar, um superprotegido da mãe com comportamento devasso e profissionalmente irresponsável, e Yaqub, votado a um maior desprezo que é o oposto do seu irmão tornando-se num engenheiro de sucesso, enquanto a irmã vive tentando equilibrar este conflito que se estende aos pais e tenta preservar o legado do passado.
A escrita com parágrafos extensos e grande recurso ao vocabulário local, faz magníficos retratos da região do Amazonas, da forma de vida do povo no centro de Manaus e explora o drama, com momentos de grande tensão, juntando com frequência um humor aos sentimentos hiperbólicos e por vezes sarcástico, o que suaviza as situações paroximais de expressão do ódio e dá um ambiente que chega a ser divertido no seio da dor que vai massacrando toda a família.
Se não gostei da devassidão destrutiva de Omar, adorei a qualidade da escrita e a força posta no conflito de sentimentos e a capacidade de retratar uma Manaus que penso ter desaparecido com a modernidade e  expor a sua gastronomia, são aspetos por que vale a pena conhecer este livro e este escritor.

domingo, 1 de abril de 2018

"A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead


Excertos
"Saíra da escravidão ou fora apanhada na teia desta: como descrever a situação de um fugitivo?"
"Os brancos punidos segundo a nova legislação eram simplesmente enforcados, mas não ficavam em exposição.... Quando vasculharam as cinzas da casa, não conseguiram distinguir o seu corpo do daqueles que protegera, porque o fogo apagara as diferenças de pele e tornara-os todos iguais. Assim penduraram os cinco corpos no trilho e ninguém reclamou pelo facto de o protocolo não ter sido respeitado."
"O mundo pode ser mau, mas as pessoas não têm de o ser, pelo menos se recusarem tal sina."

Por norma evito livros de ficção sobre a temática da escravatura nas Américas e do genocídio nazi, não para ignorar tais factos ignominiosos da história, mas sim por que sinto que mais do que sarar feridas de erros do passado, abrem mais vezes ódios raciais e servem de desculpa a erros do presente. O recente mui premiado romance "A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead, incluindo o National Book Award de 2016, aborda a escravatura, mas é, sobretudo, a narrativa da fuga de uma escrava do sul esclavagista dos Estados Unidos, a Geórgia, até ao norte, onde tal situação já então terminara no século XIX.
Cora, a protagonista, na sua viagem - onde o fantástico está presente em vários momentos do livro, como a estrada subterrânea que mais não é do que uma ferrovia escavada para apoio à libertação ou os médicos cientistas que usarão medidas de controlo de natalidade com técnicas sem ética, mas típicas de épocas mais tardias - passará por vários Estados: Carolina do Sul, do Norte, Tennessee e Indiana, e em cada um deles encontrará uma realidade diferente. Haverá sempre alguém a ajudar, por vezes com objetivos ocultos, mas o ódio da supremacia branca ou o medo do domínio preto acabará sempre por vencer e levar a situações de perseguição. Paralelamente, seremos apresentados à realidade em torno das personagens da sua raiz, daqueles que lhe deram a mão ou que a perseguiram e assim se vai retratando todo o mundo social que oprimia, mantinha ou lutava contra a escravatura naquela primeira metade do século XIX.
Pela tradução, nada a destacar da escrita, banal. A obra não sara feridas, mas também não abre, lê-se bem, por vezes é agradável, noutros choca, mas a esperança praticamente está sempre a iluminar a obra e o amor pela leitura é um dos aspetos mais positivos do livro e é uma maneira menos comum de tratar o tema escravatura.

domingo, 18 de março de 2018

"Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina" de Mário de Carvalho

Excertos

"E a simpleza repugna aos portugueses. Deixar alguém na despreocupação? A fruir dos seus direitos? Isso é antilusitano."

«Ora aí está, aquela minha ideia do geólogo é que era. Isto não há nada como as ciências exactas,»

"Lá em baixo, na paisagem, incrustada na duríssima permanência das coisas, onde só mandam castelos, menires, cromeleques, destoa, azulínea, e sobressalta, com transparência, a piscina modernaça e tratada a poder de fluidos caros e especiosos."

O título do livro "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina", prémio PEN clube de 2003, do escritor português, várias vezes premiado, Mário de Carvalho, já de si indicia que não se está perante uma obra de estilo tradicional, de facto, o autor classificou-a não de romance ou novela, mas de um cronovelema e, segundo ele, o termo é algo que "não rejeita nada e não se sujeita a imposições".
O texto é mesmo uma narrativa que flui naturalmente como um rio de humor agridoce que se encadeia na mudança de narrador, de tempo e de espaço, corre na terceira pessoa ou na primeira, por vezes é meramente descritivo, noutras são diálogos e onde a língua Portuguesa é explorada com uma riqueza vocabular enorme, ora num estrutura gramatical de excelência, mas vai da erudição ao calão, outras desce ao linguajar popular e no desrespeito pelas regras, a roçar o realismo mágico, e lá se vai construindo uma estória que mostra um Portugal sem disfarçar os seus defeitos e vícios comuns.
A trama do livro, numa paródia intercalada de reflexões críticas a Portugal e suas gentes, consiste na existência de dois coronéis reformados que recuperaram casas de campo no Alentejo, um decide ter uma piscina em torno do qual se reúnem e falam das aventuras dos seus tempos de guerra, para obtenção de água contratam um jovem vedor, mestre de xadrez, que nestas funções deambula pelo sul do País onde se depara com vários tipos de aventuras e peripécias no seu carro que chega a ser anfíbio, enquanto o seu tio lhe dá conselhos de macho apesar das suas relações complicadas com mulheres. Por sua vez, as esposas dos militares encontram-se ávidas de aventuras, uma invejando a outra nas suas conquistas, enquanto um filho leva uma vida a fazer graffiti numa caravana, sem dinheiro e no desprezo aos rigores castrenses, tudo isto vai-se cruzando e sendo observado por um mocho e um melro que a tudo assistem e comentam de uma oliveira e acrescentam ou cortam o seu ponto.
Como todas as paródias, o humor atravessa o texto, mas a sátira mordaz aos aspetos da vida do País deixa um sabor agridoce, que o fantástico, que por vezes entra, não apaga. Gostei, este cronovelema, num estilo tão distinto deste romance, mostra bem a versatilidade de Mário de Carvalho, um mestre genial da escrita e da língua Portuguesa e esta capacidade tornam este livro numa obra de arte e um desfile de possibilidades de explorar e tratar o idioma lusitano.

domingo, 28 de janeiro de 2018

"O Relatório de Brodeck" de Phillippe Claudel


Citações do livro
"A imbecilidade é uma doença que casa bem com o medo."
"Bastam a raiva e o ódio para desarranjar os cérebros. São aguardentes mais violentas."

Em "O relatório de Brodeck", do francês Philippe Claudel, o protagonista, é encarregado pelo Presidente do lugar a escrever um relatório em nome da população que justifique o assassinato coletivo, perpetrado pelos adultos da aldeia, de um visitante que ali se estabelecera há uns meses numa pousada e agitara as consciências pelo seu exotismo e simpatia, só que Brodeck não assistiu ao crime e logo na primeira frase do romance assume "não tive culpa de nada.".
A obra decorre no pós-guerra entre o dia em que o narrador interrompeu a sessão do crime da aldeia até à entrega do relatório que teve de escrever. Entretanto, Brodeck vai-nos narrando a sua via de órfão não natural da aldeia, o acolhimento por uma mulher e os acontecimentos mais importantes da aldeia fechada ao exterior, desconfiada por instinto de sobrevivência e onde todos são culpados de algo, inclusive contra o autor, denunciado na guerra como estrangeiro para um campo de concentração que o ensombra. Paralelamente, vamos descobrindo a chegada do assassinado, nunca disse o nome e ficou conhecido por "De Anderer" (o outro), mas que com o seu sorriso desconcertante e desenhos espelhava o mal que pesava na consciência local e desejavam esquecer.
Talvez por o escritor também  ser argumentista, a obra evolui de forma cinematográfica, enquanto o texto, cheio de metáforas, tem um encadeado de alegorias cujos acontecimentos fazem-nos refletir sobre ideias subjacentes. Nunca é dito qual é a guerra, subentende-se a II Grande Guerra. Nunca é dito o local, deduz-se ser um território fronteiriço da França com a Alemanha (Claudel é natural dessa faixa), daí a desconfiança para com os de fora. Não sabemos a raça de Brodeck, apenas é diferente. O povo tem um dialeto próprio germânico, tal como a Lorena do escritor, com imensas frases no livro sempre traduzidas, incluindo os equívocos malévolos que escondem.
O romance torna-se incómodo pelas perguntas que levanta, pela evidenciação do mal que somos capazes de fazer, nos momentos extremos ou fáceis, a opressão que tal provoca na consciência individual e coletiva e a reação contra quem de alguma forma nos faz lembrar aquilo que nos pesa.
O livro é muito fácil de ler, apesar de se subentender sombras a pesar quase todas as passagens, pouco extensos e marcante. Gostei muito.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Resistência" de Julián Fuks


O pequeno romance "A Resistência" do escritor Brasileiro Julián Fuks, filho de refugiados políticos Argentinos, o mais recente vencedor do prémio literário José Saramago, é uma obra em estilo de coletânea de curtas memórias do narrador sobre a sua relação com o irmão mais velho, adotado quando recém-nascido pelos pais, e a gestão das questões em torno da integração do mesmo no agregado de acolhimento. Esta situação permite em simultâneo narrar a história de toda a família que, por coincidência, tem grande similitude com a do próprio escritor: também são pais refugiados da Argentina em São Paulo, servindo esta técnica para denunciar alguns dos horrores da ditadura de onde saíam e a curiosidade de se fixarem num país, ainda não democrático, mas onde a simpatia Brasileira permitiu adotarem a nova terra como sua.
A escrita toma a forma de uma sucessão de crónicas brilhantemente escritas, com ternura, elegância e poesia onde o narrador as inicia servindo-se de uma frase ou palavra como mote para reflexões em questões psicológicas, de consciência, de perseguição política, de nostalgia do refugiado e da integração num meio diferente, criando uma espiral de pensamentos e frases fortes que montam um rendilhado em torno da ideia central dessa memória, enquanto o conjunto dos textos forma um caleidoscópio que cria uma visão multicolorida de grande sensibilidade estética dos vários problemas expostos no romance.
Um pequeno livro onde Julian lapida a língua portuguesa e demonstra como ela pode brilhar tanto quanto um diamante e soar com a sonoridade de uma sonata maravilhosa. Uma narrativa temperada pelo amor humano que mostra como a ternura também pode ser uma ferramenta de denúncia das dificuldades da vida e da injustiça política. Gostei muito desta pérola literária e recomendo a sua leitura.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lincoln no Bardo de George Saunders


Sabia que o vencedor do Booker Prize 2017 seria um livro diferente de todos os que já lera e foi a curiosidade que me levou a arriscar a ler "Lincoln no Bardo" de George Saunders, norteamericano, e neste aspeto, após a leitura, assumo a originalidade da estória e da escrita do romance que em nada se assemelha a nenhum outro. Assim, não admira que no início tenha estranhado, mas ao contrário do que por vezes acontece ao continuar a ler, aqui não "entranhei".
A estória arranca com a morte de Willliam (personagem histórica) filho do Presidente Lincoln após este, perante a enfermidade da criança, manter o baile na casa branca por o considerar importante para animar a comunidade da cidade, tensa com a guerra civil que os Estados Unidos então atravessam. Segue-se o funeral e a receção da criança na comunidade dos que já abandonaram esta vida mas resistem em permanecer no cemitério, onde vamos conhecendo o que os mais marcou individualmente enquanto estiveram na terra. Atordoado, William não reconhece a situação em que está, é visitado pelo pai durante a noite, depois há uma luta dos anjos do mal para conquistar os resistentes e o recém-chegado, este não cede ancorado na promessa da volta do Presidente. Assiste-se assim a s estratégias de solidariedade das almas, enquanto vamos descobrindo todos os seus vícios e defeitos privados do passado de que ainda não se libertaram. Assim, durante uma noite, vê-se o esforço coletivo para fazer o bem a alguém recém-chegado por parte de gente que se sabe estar condenada pelo que antes fizera, nalguns casos condutas bastante chocantes, tentando inclusive agir sobre o visitante vivo de forma metafísica.
Passando agora à escrita, novamente se entra numa texto diferente de tudo o que já li, o período respeitante à vida dos Lincoln desde a doença, baile, morte de William e sentimentos do Pai são narradas como uma coletânea de testemunhos, por norma de um parágrafo, cujos autores são referenciados ou como excertos de notícias ou livros de memórias novamente com a origem identificada (mesmo que fictícia), enquanto no além temos como que um texto dramático onde os atores vão referindo as suas partes e construindo uma peça que se assemelha a uma representação macabra cujos intervenientes têm de se recolher ao seu sarcófago com o nascer do sol e  onde cada personagem ou testemunho tem características sintáticas, lexicais e níveis da pessoa em si, o que dá uma mistura de estilos e formas de expressão variada, desde o formal até ao brejeiro, afinal na sociedade tudo isso coexiste como no livro e apesar de mais de 300 páginas a leitura é rápida pelo espaço livre entre textos para teatro.  O livro intercala por vezes capítulos referentes ao período em casa dos Lincoln com outros passados no sobrenatural, montando-se assim o conjunto da obra.
Técnica e imaginação não faltam no romance, se gostei? A minha resposta é não!
Há pontos incoerentes, o autor quis mostrar a ligação de cada um aos seus vícios e hábitos que nem no além se conseguem libertar, não sei se quis condenar indiretamente alguns comportamentos que hoje são aceites ao contrário do passado, além de mostrar a dor íntima de um pai que luta com o dever público e a discrição privada, mas que a obra dá lugar a muitas questões, lá isso permite, como exercício de escrita é uma jóia e talvez seja isso que justifica tão importante prémio.

sábado, 18 de novembro de 2017

"Não digam que não temos Nada" de Madeleine Thien


"Não digam que não temos nada" de Madeleine Thien, é um livro que se arrisca a ser para mim o melhor romance contemporâneo que li ao longo do ano, dada a trama, o retrato histórico, a interligação com outras formas de arte como a poesia, a música e a caligrafia chinesa, e ainda pela elegante e bela escrita.
Este romance foi vencedor dos prémios literários: Governor General Prize 2016 (o mais reconhecido no Canada), Giller Prize 2016 e Edward Stanford Travel Writing 2017, e esteve na lista final do Man Booker Prize 2016, o que evidencia a excelência da obra desta escritora chino-canadiana.
O romance começa com as memórias de Marie do tempo da fuga do pai, em 1989, de casa em Vancouver, um importante pianista chinês e seu posterior suicídio. Prossegue com o pedido de acolhimento da uma refugiada Ai-ming após a revolta da praça Tianamen em Pequim. Então com as desconfianças entre a criança e a jovem, começa a descoberta do passado que as une, pela leitura do capítulo 17 do Livro dos Registos: obra do tio sonhador desta que narra de forma livre, romanceada e em volumes soltos, a história do seu amor e das dificuldades e aventuras da família desde a segunda guerra mundial até ao presente passando pelas várias revoltas na China. Assim, descobrimos que o pianista foi aluno e admirador do famoso compositor pai de Ai-ming e colega da violinista Zhulli filha do sonhador; um grupo unido pelo amor à música, à literatura e de livre pensamento com os riscos que daí decorrem no regime chinês.
Recorrendo à intercalações de momentos no presente e em vários do passado, assiste-se à saga de três gerações de músicos e amantes de livros e seus amigos face às perseguições injustificáveis na implantação do comunismo, depois nos loucos abusos da revolução cultural e, por fim, na revolta do sonho estudantil em Tianamen, sempre a abrir feridas com as mudanças do mesmo tema: simbolizado pelas Variações de Goldberg de Bach e onde depois de rearranjos a ária inicial volta como um fadado regresso ao passado.
O romance está cheio de citações de poetas chineses, de referências a obras musicais do ocidente com destaque para Bach, Chostakovitch, Prokofiev, Tchaikovsky e Ravel, entre outros e a atmosfera de ternura e da importância da arte, incluindo a caligrafia do chinesa, atravessa toda a obra mesmo nos períodos mais duros desta história. Magnífico romance, com um relato de 70 anos da história da China embora possa ser um pouco difícil para quem não conheça as características das peças musicais tão abundantemente citadas, como esta do vídeo e com a referência precisa desta gravação.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"Os mandriões do vale fértil" de Albert Cossery


O romance "Os mandriões do vale fértil" do egípcio francófono Albert Cossery narra de forma irónica e sarcástica o estilo de vida de uma família que vive numa povoação dos subúrbios de uma cidade cujo pai incutiu nos três filhos o orgulho de ser de classe burguesa sem necessidade de trabalhar e a virtude que é passar o tempo a dormir sem necessidade de se misturar com a restante sociedade onde imperam os perigos daqueles que têm de trabalhar para sobreviver.
Assim conheceremos o filho que apenas acorda para comer e outras funções biológicas que ainda por vezes pede ajuda para não ter de sair da cama, o outro que desistiu do amor para que o descanso não fosse perturbado pela obrigação de chefe de família do terceiro que visita uma fábrica inacabada para justificar a impossibilidade de satisfazer a sua vontade de arranjar trabalho e as estratégias para impedir que o pai velho volte a casar devido às perturbações que tal traria ao ócio, bem como as pessoas que circundam este núcleo.
À semelhança dos dois anteriores que li, eis outra pérola literária, uma pequena obra com uma ironia requintada e inteligente onde a preguiça é elevada a um estatuto social só acessível a alguns perante a banalidade dos desprezíveis e perigosos humanos que têm de trabalhar. A obra ainda toca de forma sarcástica noutros comportamentos que a sociedade do politicamente correto contemporâneo sacraliza, tudo isto feito com um humor e qualidade de escrita e se percebe o grande prémio literário da francofonia pelo conjunto da obra atribuído pela França a este egípcio que preguiçosamente se estabeleceu por décadas num hotel de Paris. Adorei e não conseguia parar.

sábado, 6 de maio de 2017

"A Vegetariana" de Han Kang


Acabei de ler "A vegetariana" da escritora sul coreana Han Kang, romance vencedor do Man Booker Internacional Prize de 2016 onde na lista final também se encontrava o livro de expressão original portuguesa "Teoria Geral do Esquecimento" de J E Agualusa aqui abordado.
Estamos perante um romance que narra três episódios em torno de Yeong-hye, uma mulher sem nada de excecional que leva a sua pacata vida de casada numa normalidade obscura que de repente decide rejeitar comer qualquer alimento de origem animal, impondo tal disciplina em casa e encontra uma grande oposição de toda a sua família.
No primeiro relato, esta mudança de comportamento é vista pelo lado do marido que pede auxílio aos parentes da esposa para enfrentar a situação. O segundo relato decorre após o termo do primeiro e conta na primeira pessoa a atração e relação desencadeada no cunhado, artista que pinta flores em corpos nus com cobertura video desse trabalho, para com a figura central do livro, desenvolvendo-se então uma história em simultâneo erótica, sexual, imoral e também inocente. A terceira parte é a exposição da irmã que tenta salvar recém-convertida ao vegetarianismo, aquela analisa o que foi a vida desta, as atitudes de sobrevivência de ambas, o choque do comportamento do marido e a opção pelo tratamento psiquiátrico de Yeong-hye, com todas as consequências que daí resultarão face a uma mudança cada vez mais radical desta de unir-se ao mundo vegetal.
Não conheço a língua coreana para analisar como terá sido a escrita original de Han Kang, o romance resulta da tradução a partir da versão inglesa e em português transformou-se num texto claro, com frases elegantes e com um recurso escasso a floreados, apesar das flores serem muito importantes na obra. O início da obra é literariamente deslumbrante, depois perde alguma beleza face a uma violência psicológica e física que me surpreendeu, depois na segunda parte há uma conciliação entre beleza de escrita, erotismo, imoralidade e crueldade, sem o texto perder o seu carácter de obra de arte não pornográfica.
A terceira parte é uma narrativa deprimente de onde resultam mais questões do que ideias da escritora. Quais os limites das opções individuais sobre o uso do seu corpo e das atitudes de cada um? Pode um percurso imoral e de rejeição social ser o caminho para a salvação de alguém? Teremos o direito de comprometer o futuro de uma pessoa em nome dessa ética perante atitudes que não prejudicam terceiros? Gostei do romance, embora não seja uma obra que me tenha marcado especialmente, pois apenas levanta questões sem deixar mensagens claras. A opção do júri para dar a vitória a esta obra em detrimento da de Agualusa levanta-me dúvidas, embora a prefira a este livro de Ferrante que também gostei mas perdeu igualmente para "A vegetariana".

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

23 de abril comemora-se em Portugal o Dia Mundial do Livro, em Geocrusoe não costumo fazer a apreciação das minhas leituras anuais no dia de ano novo, mas sim nesta data e como sempre a escolha não é fácil e é função das marcas que as obras deixaram em mim, bem como as categorias são função do tipo de livros que li.


Mais Apreciada Leitura de obra Portuguesa


Não foi fácil a escolha entre este magnífico texto literário "Húmus", de Raul Brandão, e a pérola estilística de "O que diz Molero", de mais fácil leitura e igualmente original. Todavia, apesar de Húmus não ser de fácil, antes pelo contrário, é de uma perfeição de escrita e com profundidade de reflexão e abordagem filosófica que não poderia deixar a obra para trás em nome de uma facilitismo comercial que doentiamente me parece estar a degradar hoje em dia a literatura nacional. Um pequeno volume, mas um enorme livro.


Mais Apreciada Leitura de obra Lusófona

"A república dos sonhos", de Nélida Piñon, corresponde a uma saga familiar bem escrita que atravessa quatro gerações de uma família, das quais três na condição de imigrantes galegos que servem para contar não só os sonhos de quem escolheu o Brasil como sua pátria, lutou por ser alguém aos olhos dos outros ou na sua forma de ser e se confrontou com os obstáculos da integração mas também para analisar mais de meio século de história do país de acolhimento com todos os seus defeitos e virtudes e crises políticas, regimes democráticos e ditatoriais. Extenso, mas sem dúvida um bom livro.

Mais Apreciada Leitura de obra Original em língua estrangeira

Foi sem dúvida a escolha mais difícil, havia vários romances possíveis, alguns de laureados com o Nobel, mas a riqueza de informação neste livro sobre a vida da população urbana nigeriana, a caracterização da integração da emigração atual africana nos Estados Unidos e Reino Unido, além do facto de ser uma obra que mostra que na atualidade ainda se escrevem grandes e bons livros, pelo que ainda há esperança na continuação da literatura, incluindo a partir de países de grande dificuldade social e pouco admirados no ocidente, levaram-me a selecionar "Americanah" de Chimamand Ngozi Adichie.

Mais Apreciada Leitura de obra Canadiana


Apenas li três obras canadianas, "The origin of species", de Nino Ricci, foi lida na língua original  e ganhou GG prize do Canada em 2008. É sem dúvida um excelente romance que mostra muito do que é a vida multicultural do meu país natal, onde também ocorrem desencontros pelas diferenças, buscas de identidade e do significado da vida nesta biodiversidade de povos que segue muito das mesmas regras materializada na teoria da evolução de Darwin. Uma obra que me despertou interesse em ler outros título do autor e por isto eleita nesta categoria.

quinta-feira, 30 de março de 2017

"The Origin of Species" de Nino Ricci


Após uns tempos sem ler obras de literatura de ficção canadiana no original, espreitei a minha prateleira dedicada a estes livros e selecionei "The origin of Species" estreando-me em Nino Ricci, um escritor contemporâneo que foi premiado com o Governor General Prize for English fiction lpgo no seu primeiro romance em 1990, o galardão nacional literário mais prestigiante do País, e voltou em 2008 a ser o vencedor deste prémio com este título influenciado no trabalho e na personalidade de Charlles Darwin.
The Origin of Species" apesar de parecer complexo pelo número de temas abordados abaixo, introduzidos pelas diversidade das personagens, o enredo desenrola-se com uma narrativa fácil de se ler.
Alex Fratarcangeli de Toronto, com as suas raízes italianas pouco assumidas, em 1986 encontra-se a fazer a sua tese de doutoramento em Montreal sobre a influência da evolução das ciências na literatura, isto numa cidade sujeita à tensão linguística, política e cultural do Quebec
Alex vê-se então confrontado entre uma separação recente que o leva a consultas psiquiátricas em que omite o essencial; dúvidas sobre a via a desenvolver no seu trabalho universitário e ainda com as perturbações fruto das suas paixões passageiras com mulheres; as relações com estudantes de inglês refugiados no Canada devido à guerra de El Salvador, sobretudo María e o irmão; o apoio a dar ao seu orientador checoslovaco, desalojado por um divórcio e com problemas dos atos de cabeça-rapada do filho; o modo de manter o convívio com um aluno particular francófono, homossexual não assumido e o temor difundido na época pelos noticiários dos efeitos de Chernobyl e da epidemia da SIDA.
Já no debate de todas estas tensões cruza-se com um inquilina do prédio que sofre de Esclerose Múltipla avançada com quem desenvolve uma amizade e recebe uma carta de uma sueca mais velha com quem teve uma relação anterior a comunicar-lhe que ele tem um filho com cinco anos o que o leva a refletir sobre o significado da sobrevivência, das relações humana, da vida confrontado com a memória de uma viagem desastrada a acompanhar um investigador botânico inglês de difícil trato numa expedição ilegal nas Galápagos cujas memórias dos seus ditos se tornam pistas para as suas reflexões sobre o essencial das suas opções.
Nino Ricci mostra-se um mestre em gerir tensões psicológicas, dúvidas interiores e temas sensíveis face a uma sociedade diversificada com preconceitos, em competição e cheia de problemas, através de uma narrativa com recurso a uma linguagem simples, frequentes saltos no tempo a partir da memórias de Alex e as descrições de desventuras do dia-a-dia apresentados de uma forma irónica e divertida mas que abrem a porta a introspeções, autoanálise, crítica social e política e comparações com os dilemas da vida de Charles Darwin com os choques das suas investigações com as mentalidades e crenças religiosas na sua vida familiar e social e onde o confronto com o trabalho em preparação de Alfred R Wallace fará quebrar todas as amarras à semelhança do que ele mesmo terá de fazer face à descoberta de um filho que será como as madalenas da obra de Proust.
Afinal todos resultamos desta evolução e seleção natural onde compartilhamos genes entre anglo-saxónicos e franceses, entre machistas latinos no seio da guerra, a suecas desinibidas convertidas aos dilemas de Alex e Darwin. 
Nino Ricci em 27 anos apenas publicou 6 romances, destes 5 foram premiados com 8 prémios nacionais, além de um best-seller com a biografia de Pierre Trudeau, mostrando que apesar de pouco traduzido fora do Canada se está perante um dos escritores mais importantes do País. Gostei muito, apesar de já não estar habituado à leitura em inglês mas é uma excelente obra para imersão nesta língua e na cultura Canadiana.

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Aparição" de Vergílio Ferreira


Acabei de ler "Aparição" aquele que, segundo muitos, é o romance mais emblemático do importante escritor português da segunda metade do século XX: Vergílio Ferreira, prémio Camões pelo conjunto da sua obra em 1992.
A estória relata a experiência de integração social e profissional do primeiro ano de professor do beirão e recém-licenciado Alberto, colocado em Évora, uma cidade que lhe é estranha, tendo como meio o relacionamento que ele desenvolve com uma família local amiga do pai e com o grupo social das filhas. Aqui as suas reflexões e declarações existencialistas encontram eco em duas das raparigas e num aluno com impactes psicológicos que afetam os contactos entre os membros desta tertúlia, dando lugar ao aparecimento de desconfianças, receios, ciumes entre os elementos de um grupo típico de uma pequena comunidade fechada e provinciana. A situação agrava-se ainda com a ocorrência de um acidente e dos problemas individuais que conduzem à hostilização e  ostracização do estranho e culpabilização destes pelos efeitos das suas ideias referentes à importância do autoconhecimento do eu.
À semelhança de outras obras literárias até ao terceiro quartel do século XX, o cuidado pela perfeição do estilo de português na sua forma gramatical e sintática tradicional é uma marca importante do texto, onde as roturas com as regras, típicas da escrita criativa das últimas décadas em Portugal, estão ausentes. Acresce a este perfecionismo escolástico, a qualidade e a elegância de escrever de Vergílio Ferreira. Mas este romance é em simultâneo uma narrativa e um tratado de filosofia existêncialista, onde, intercalado com a narrativa dos acontecimentos e dos diálogos contidos na memória de Alberto e referentes a um ano de um passado já longínquo existem textos de pura reflexão sobre o "eu", onde as formas reflexivas do pensamento para destacar a autoindentificação no conhecer-se e no sentir-se é uma marca para estes pensamentos filosóficos e ideias que afetam todas as personagens da história: ora também em busca deste eu como em Alberto, ora como rejeição desta perturbação gerada por este tipo de análise.
Assumo que gostei do romance como história, apesar de o existencialismo ser uma forma de pensamento filosófico com a qual nunca senti  empatia e entrosamento, pelo que em determinados parágrafos fiquei mais pela apreciação da forma bela de escrever do que pelo conteúdo das ideias e para alguns leitores pode mesmo parecer partes coladas ao enredo incómodas à leitura do livro.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"O Sentido do Fim" de Julian Barnes


Acabei de lei o pequeno romance vencedor do prémio Man Booker Prize de 2011: "O Sentido de Fim", do escritor britânico Julian Barnes, a primeira obra que leio deste autor.
A história está dividida em duas partes: a primeira narra as memórias do protagonista do seu tempo de liceu até à universidade, a sua envolvências com os seus três amigos mais próximos, as reflexões saídas das aulas de alguns professores marcantes, a relação com a sua primeira namorada e a família desta, bem como seu fim quando foi sucedido pelo amigo que ele mais admirava pela sua inteligência, lucidez, visão de vida e o elemento mais promissor do grupo, mas que entretanto foi capaz de um ato extremo.
A segunda parte começa cerca de 40 anos depois, quando já divorciado e avô é surpreendido por uma doação em testamento da mãe da sua antiga namorada, na qual também está incluído o diário do seu admirado amigo. Começa então a tentativa de obtenção da obra e de descobertas estranhas que mostrarão como a memória de uma pessoa o pode atraiçoar sobre a realidade do foi o seu próprio passado e denunciar as suas escolhas medíocres após uma juventude onde se foi capaz de ser cruel para com aqueles que mais se amou sem se ter noção do nível a que se baixou e até à última página haverá sempre surpresas que fecham o ciclo da vida do narrador e a perspetiva deste do que é o sentido das opções de um indivíduo para os seus fins.
Destaco desde já que este romance contém um dos melhores textos literários que li até ao momento para obras do século XXI. Praticamente todos os seus parágrafos e diálogos são de uma perfeição de escrita e de uma beleza estilística clara que concilia a estética com a discussão de ideias num nível a que não estou habituado a ler em obras contemporâneas, que muitas vezes trabalham a escrita e esvaziam o conteúdo ou valorizam este e comprometem a forma de escrever. Aqui existe uma harmonia perfeita entre a reflexão e a arte de narrar, sem deixar de ser uma obra profunda e uma lição de vida cuja genialidade só se revela completa e clara nas últimas páginas do livro. Uma obra-prima!

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Lillias Fraser" de Hélia Correia


"Lillias Fraser" da escritora portuguesa Hélia Correia, cuja obra ganhou o prémio PEN clube de Portugal em 2002, enquanto a autora foi galardoada com prémio Camões de 2015, é um romance histórico que começa na Escócia em 1746, onde a protagonista, ainda criança e antes de uma derrota dos escoceses católicos interessados em conquistar o trono protestante da Inglaterra, tem a visão da morte do pai e foge antes do morticínio da suas gentes, salva-se e é depois protegida por várias pessoas de estatuto diverso destes dois povos em conflitos. Na sequência da sua odisseia vem parar a Lisboa, prossegue a sua vida entre vários protetores, sobrevive ao terramoto de 1755, novamente devido ao seu dom de ver a morte, passando depois na sua juventude por novos tormentos resultantes desta catástrofe entre gente que a acolhe e a persegue como uma pessoa diferente: loura, de olhos e pele clara; desembocando no período da guerra dos Sete Anos, onde Portugal se alia à Inglaterra e ela volta a cruzar-se com líderes militares dos povos da sua ilha. 
O romance envolve-se no realismo mágico, tem vários acontecimentos e personagens reais: desde a batalha inicial do livro, ao terramoto, clero influente do monarca português e militares do Reino Unido, tem muitos pormenores do que terão sido as dificuldades da população após a destruição de Lisboa e o caos social de então, bem como a ação da Inquisição e de Marquês de Pombal na época, tanto nas vertentes positivas como negativas deste.
A estória surge numa sequência de cenas que por vezes fornecem pistas futuras e outras vezes recusam prosseguir, originando um tratamento do tempo em forma de peças soltas descontínuas que por vezes abrem caminhos que fecham de seguida, além de em momentos ser uma narrativa de alguém do presente que investiga o passado e noutras a ação entrar dentro das personagens como se fossem estas os autores, paralelamente a imagem sobre os Portugueses e Portugal é frequentemente depreciativa da sua cultura e mentalidade, o que me criou algum desconforto, contudo é um romance onde aprendi factos sobre acontecimentos históricos e que sem me ter entusiasmado também não desgostei de ler e penso que valeu a pena conhecer esta obra.