Excertos
"Eu não estava preparado para acreditar num Deus da sabedoria sem um pingo de bom senso."
"Quando um homem se torna puro e perfeito, a influência do seu caráter espalha-se para que aqueles que buscam a verdade sejam naturalmente atraídos para ele."
Terminei a leitura de "O fio da navalha" do inglês Somerset Maugham, uma história de contrastes de de opções de vida dos seus vários personagens que assim pelas diferenças de estilo levam o leitor a pensar sobre como a sociedade valoriza o fútil, que muitas vezes leva ao desespero, e despreza quem segue ideais mais elevados, como o sentido da vida e a busca de Deus numa vida sem as amarras ao dinheiro e fora das convenções do que é o sucesso social, mesmo que tal leve à paz de espírito e à felicidade.
O escritor narra como um seu amigo americano, Elliot, - que vai sendo dado a conhecer na obra, residente em Paris e cujo sonho é a integração na alta-aristocracia em plena belle époque que comercializa obras de arte com os seus conterrâneos tirando dai grandes lucros - lhe apresentou Larry: um ex-aviador do Ilinois que após a 1.ª grande guerra entrou na busca do sentido da vida e da essência de Deus na sequência de ter visto a morte de um amigo que ele lhe salvou a vida em combate.
Maugham, que é também uma personagem neste romance, apresenta-nos o círculo próximo de Elliot, que inclui a sua sobrinha noiva do ex-piloto e demasiado apaixonada por ele, cujos ideais de vida são a riqueza e o brilho social americano, e também gente cuja meta é igual ao dela. Só que na trama ainda há artistas, prostitutas, desesperados com os azares da vida, personalidades da igreja e outros ligados à sabedoria e religiões orientais, numa panóplia que se cruza sob o manto de paixões, ambições e futilidades em contraste com a busca da perfeição e desprendimento de Larry pelas convenções tradicionais para o sucesso da vida. Tais contrastes ditarão desencontros, desilusões e outras situações extremas até ao fim da obra.
Maugham serve-se destes diferenças para fazer um romance que se passa em vários locais do mundo entre as duas grande guerras, onde não só conta uma história de amor e ciúme, como a intercala com questões filosóficas que abordam crenças do cristianismo e denúncias da incoerência prática cristã, sobretudo nos católicos, o que pode chocar os convencionais não abertos à dúvida e à crítica insidiosa, enquanto apresentam alternativas de conceitos religiosos orientais. A obra põe a nu a futilidade no sucesso social de uns perante os azares de outros e plena realização pessoal e encontro com a felicidade de outros que parecem derrotados pelas convenções da nossa civilização.
O romance que pode parecer complexo, é de facto de fácil leitura, pois nenhuma personagem é despida de aspetos humanos o que permite dar uma unidade à narrativa mesmo quando se abordam temas mais profundos, construindo uma excelente estória temperada com reflexões e questões sobre a humanidade, a filosofia e teologia sem cansar. Gostei muito e recomendo.


















