Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religião. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Conflito Interno" de Kamila Shamsie


Excerto
" "Mais medidas draconianas!", proclamara um dos adversários de esquerda; "um novo ataque aos verdadeiros ingleses e inglesas, desferido pela população migrante da Grã Bretanha", declarara outro, pertencente à extrema-direita. Era provável que ambas as fações bebessem café de canecas térmicas."

Kamila Shamsie, natural do Paquistão, já escreveu um romance que para mim foi o melhor que li no ano 2015: "Sombras Queimadas", voltou depois a escrever este grande livro "Conflito Interno", "Home Fire" no original, que foi nomeado para o Man Booker Prize de 2017, que evidencia a capacidade desta escritora em falar das feridas, sombras de dor psicológica e física naqueles que circulam em torno dos apanhados nos grandes conflitos civilizacionais e bélicos da humanidade ao longo do último século.
Isma, filha de uma família britânica de origem paquistanesa em Londres, cujo pai foi guerrilheiro pela causa islâmica no final do século XX e morto como terrorista pelos americanos, consegue partir para os Estados Unidos para estudar, lá onde encontra Eamonn, o filho do ministro inglês da Administração Interna com igual origem e tornam-se amigos. Ele volta à Inglaterra com interesse em conhecer a irmã dela mais nova: Aneeka, sem saber que um gémeo dela se tornara num guerrilheiro talibã no oriente. Os dois jovens apaixonam-se, mas ela irá aproveitar a relação familiar dele para libertar o irmão do extremismo para o qual ele fugira em busca de um princípio muito diferente do que lá encontrara. Tudo isto há de explodir nas mãos do Ministro Karamat quando Parvaiz arrependido quer regressar a casa e a sociedade e explora tudo: o racismo, a incompreensão, os choques culturais e a ambição de quem quer ainda vir a liderar o partido e ser o exemplo para todos  imigrantes islâmicos, rompendo à força todos os fios desta teia. 
O livro tem cinco capítulos, cada um deles em torno de uma destas cinco personagens diferentes, mas embrulhadas no mesmo problema que fere profundamente a sociedade atual, não só inglesa, cristã e muçulmana e desembocará numa tensão extrema, onde todos os aproveitamentos do sistema civilizacional contemporâneo são evidenciados e desembocam num final extremo ao nível de um clássico das grandes tragédias de teatro ou da ópera.
Gostei muito, mas mais ainda da anterior obra, por ser mais global e ter uma personagem que é um farol estoico no seio de tantas tempestades que a fustigaram, enquanto agora tudo parece vir a afundar-se até ao climax final, mas é um livro que, além de fácil leitura, deveria ser lido por todos para ajudar a compreender alguns dos desafios de enfrentar os problemas mais complexos da atualidade e vistos de vários prismas, numa narrativa estilisticamente bem escrita.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"2084 O Fim do Mundo" de Boulalem Sansal


Excertos
"correr em direção à queda é uma inclinação muito humana."

" a vida do crente perfeito é uma continuidade ininterrupta de gestos e palavras que se repetem, sem que lhe reste qualquer espaço para sonhar, hesitar, refletir; descrer, eventualmente, crer, talvez."

"O escravo que se reconhece escravo será sempre mais livre do que o seu senhor, mesmo que este seja o rei do mundo."

Interessou-me de imediato o tema deste romance, uma visão distópica futura em resultado do aparecimento de uma idade das trevas devido à tomada do mundo por uma ditadura global religiosa, uma obra do argelino Boulalem Sansal. "2084 O Fim do Mundo" foi vencedor do prémio da academia francesa em 2015.
O título pretende deixar clara a relação com o romance "1984" já falado neste blogue, um novo alerta de que certos maus sinais do presente podem conduzir ao fim da liberdade e a um regime de poder absoluto, só que a via seguida para esta distopia não é a apresentada antes por Orwell, agora alicerça-se num fanatismo religioso e no risco de uma guerra santa global que termina numa nova idade das trevas e ao fim do mundo como o conhecemos agora.
Ati foi exilado para um sanatório distante por tuberculose, nesse mundo questiona o seu País, o Abistão, único no mundo, onde todos são submetidos a uma fé e às suas cláusulas sem possibilidade de duvidar devido ao risco de morte, mas há noticiadas e boatos de guerras contra infiéis inimigos que não poderiam existir num Estado global. A elite religiosa governa e vive num espaço fechado em condições muito diferentes das consideradas conformes para o Povo. Após a sua cura, no regresso encontra um arqueólogo que descobriu uma cidade de antes da conversão da humanidade e este dá-lhe a entender que a história pode ser muito diferente da narrada oficialmente. Apesar da semente da dúvida estar lançada, a sua reinserção do sistema obriga-o a seguir as regras, até que se cruza com Koa em quem encontra a mesma curiosidade e perguntas. Começa então uma nova caminhada onde vão descobrir guetos de infiéis que sobrevivem em conluio com a elite, servindo a fundamentos da luta e a interesses da classe alta, empreendem uma viagem à capital, a cidade santa, onde se cruzam com  líderes num mundo de luxo mas num conflito fraticida para conquista total do poder, conhecem alguém com nostalgia do século XX que poucos sabem ter existido, memórias de uma época com problemas mas em que havia liberdade e não apenas submissão a uma lei religiosa criada à medida dos interesses dos líderes... uma revolução está em curso e eles serão peças usadas neste xadrez de uma sociedade organizada para a submissão do Povo.
Apesar da contracapa falar da globalização do islamismo como mote da obra, não sei se por questões de segurança do escritor, a verdade é que a estória decorre no domínio de uma nova religião que não é nenhuma das grandes da Terra no presente, embora certas características indiciem qual lhe terá servido de raiz principal, veja-se a máxima "Não há outro deus senão Yölah e Abi é o seu Delegado", mas na obra é assumido que resultou do aproveitamento de oportunistas gananciosos de outra anterior com valores, podendo até argumentar-se que tal só terá ocorrido no futuro sem acusar qualquer líder religioso até hoje, mas a similitude com algumas ideologias e radicalismos do presente torna esta obra num alerta para o caminho que a humanidade pode estar a trilhar. Contudo penso que nenhuma grande religião se pode sentir isenta dos vícios perigosos apontados em 2084.
Os capítulos tem características diferentes ao longo do desenrolar da estória, o primeiro é sem dúvida mais filosófico com uma análise sobre o aproveitamento religioso como arma de submissão física do povo e da sua mente capaz de travar a liberdade de pensamento. A seguir vêm a tentativa de explicar o nascimento da nova civilização e as incoerências do seu modelo, depois a caminhada da descoberta até ao clímax, no final da ainda se levantam alguns aspetos que dão que pensar sobre as virtudes do presente que se podem irrefletidamente deitar fora.
As referência a 1984 são muitas não só no texto, mas também nalgumas situações da narrativa e citações, mas é uma obra totalmente diferente da de Orwell. Também tem alguns aspetos menos aprofundados, mas muito do seu valor está nas entrelinhas e na capacidade de nos deixarmo-nos surpreender com a imaginação de um autor que consegue falar dos perigos do fanatismo religioso, possivelmente defendendo uma sociedade agnóstica,  a partir de um país islâmico ao criar uma cultura de tal forma estilizada que não o tornou num alvo a abater pela sua liberdade de escrever um romance deste teor quando muitos outros foram vítimas de fatwas por blasfémia denunciando o mesmo que Sansal... só por isto vale a pena ler o livro, além de toda a reflexão contida no romance. Talvez isto também justifique o prémio literário alcançado e sem gerar polémicas religiosas, numa obra que é de fácil leitura e um alerta para que a humanidade abra os olhos aos sinais deste tempo.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Feliz Natal a todos

Feliz celebração do Nascimento do Menino Jesus para todos os habituais visitantes deste blogue e suas Famílias que este período seja cheio de Amizade e do Amor que formam o coração do Natal.


Natal com livros é tão bom... só recebi 15 nestes dias.... ;-)

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Mordomo das Festas do Espírito Santo

As coroas em 2012

Já várias vezes falei neste blogue da maior festa religiosa tradicional dos Açores, comum a todas as ilhas do Arquipélago que se realiza sempre no domingo de Pentecostes (50 dias após a Páscoa): as festividades em louvor do Divino Espírito Santo, mas que duram três dias no Faial, Pico e São Jorge e que há década têm oficialmente associado, na segunda-feira, o dia da Região Autónoma dos Açores.

Foto de grupo como mordomo em 2012

Sendo uma celebração religiosa de raiz popular, esta tradição de séculos tem como cerne o culto do Espírito Santo, simbolizado por uma coroa encimada por uma pomba, sendo os festejos organizados por irmandades de leigos, cuja sede se chama império, com os seus estandartes e bandeiras. O elemento que num dado dia assume a organização do festejos chama-se Mordomo, nesta terça-feira de 2018 assumo eu esta tarefa em representação de minha mãe, as celebrações, além de atos litúrgicos como missa e procissão, envolvem distribuição de esmolas, organização de uma refeição de sopas de caldo de carne e pão (Sopas do Espírito Santo), arroz doce e outras iguarias típicas, além de atividades lúdicas organizadas pela direção da irmandade.

Refeição em 2012 na irmandade do Império Amarelo da Ribeirinha

No histórico de Geocrusoe encontrarão muitos outros posts sobre esta celebração de séculos que os Açorianos já exportaram para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina no Brasil, Nova Inglaterra e Califórnia nos EUA, Ontário e Colúmbia Britânica no Canada, entre outras partes do mundo. Se quiser saber mais consulte aqui símbolos, aqui sopa, aqui estandarte, aqui ritos religiosos, aqui impérios, aqui lendas. Pode igualmente clicar na etiqueta "Espírito Santo" onde haverá mais dissertações sobre o tema.

sábado, 31 de março de 2018

FELIZ PÁSCOA

Festejando com fé ou por tradição a todos desejo um excelente período Pascal

FELIZ PÁSCOA

A celebração da passagem dos judeus pelo Mar Vermelho 
na evolução da
celebração da passagem de Cristo morto à VIDA


Ressurreição de Cristo por António Leitão
(1575/80 - Vila Nova de Foz Coa)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"A obra ao Negro" de Marguerite Yourcenar


Citações
"roubar os segredos da morte para lutar contra ela, utilizar as receitas naturais para auxiliar ou contrariar a natureza, dominar o mundo e o homem, refazê-los, talvez criá-los..."
"Hei de morrer um pouco menos estúpido do que nasci"
"Uma onça de inércia pesa mais do que um alqueire de saber"

"A obra ao Negro" é o terceiro livro que leio de Marguerite Yourcenar, escritora de culto de nacionalidade e língua francesa, nascida em Bruxelas e também cidadã norteamericana, sendo que  "Memórias de Adriano" é um dos livros da minha vida, pelo que iniciei este romance com uma bitola elevada, apesar de bom, o estilo e  a mensagem são bem distintos um do outro.
O livro narra a vida do flamengo Zenão e a visão da sociedade europeia no século XVI, a época da reforma e contrarreforma religiosa, vista pelos olhos e a razão do protagonista que representa o espírito do renascimento ainda enraizado pelo misticismo medieval mas a libertar-se pela ânsia do saber científico, apesar de todos os riscos que isso representava para a sobrevivência deste filósofo, médico, investigador/alquimista e intimamente ateu e sodomita, quando as religiões, as cismas e a política partilhavam o poder e regiam a justiça segundo os seus interesses e ideias.
Zenão, nascido bastardo de uma jovem de família poderosa da banca da Flandres que pertencia à católica Espanha, educado por um cónego e apaixonado pelos segredos da natureza, filosofia e tecnologia, não convive bem com nenhuma das ideias e poderes estabelecidos, parte pelo mundo correndo riscos, enquanto tratados científicos anunciam importantes descobertas ainda enraizadas no pensamento religioso e quando este está em conflito sangrento e aliado a interesses de dinastias que disputam espaço na Europa. Assim, o protagonista terá contacto com tudo isto em várias partes do velho mundo e relações difíceis de familiares conservadores e reformistas e estará sempre sob a ameaça da condenação por heresia, sobrevive uma vezes a coberto de identidade falsa, outras protegido por religiosos tolerantes com quem tem sábias discussões e outras em ações de risco contra tudo e todos, como médico, aliado das vítimas e com a sua moral privada.
A obra densa de informações históricas arrumadas ao interesse da trama, dá-nos um retrato negro dos medos e conflitos associados à mudança do misticismo medieval para o renascimento. As cismas religiosas violentas, a inquisição e as descobertas marítimas numa época que hoje parece cheia de luz, mas que se nutria de terror e da coragem para mudar o estado de coisas. Nem Papa, nem Lutero são heróis, tudo está em mudança e luta pelos seus interesses. Zenão passa por isto à espera de se tornar vítima que ninguém como ele poderia escapar e é uma das personagens mais fortes de toda a literatura que já li.
Gostei, mas a densidade de informação e a escrita introspetiva do livro não o torna fácil a todos os leitores, parece um quadro negro de Hyeronimus Bosch ou de Pieter Bruegel, mas sem uma mensagem de governar para um mundo melhor que caracteriza as Memórias de Adriano, que prefiro, mas sem dúvida é um bom e culto romance.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

"O Poder e a Glória" de Graham Greene

Citações do livro
"O medo e a morte não eram as coisas piores, por vezes, a continuação da vida era um erro"
"A infelicidade também se podia tornar num hábito, tal como a piedade"
"Até um cobarde tem o sentido do dever"

Foi o meu regresso ao escritor inglês, mais popular pelos livros de espionagem, Graham Greene desde que o lera na minha juventude e, novamente, com um livro de ficção centrado em questões religiosas, tema de várias obras após a sua conversão, em adulto, ao cristianimo católico. "O Poder e a Glória" é o resultado da sua visita ao estado de Tabasco no México para conhecer a perseguição ao catolicismo (1928-34) que proibiu todo o clero de exercer qualquer culto ou qualquer manifestação de fé pelas pessoas sob a ameaça de crime de traição punível com a morte.
O romance descreve a resistência do que seria o último padre sobrevivente neste Estado após a interdição do clero e da oferta aos sacerdotes para renunciarem o seu exercício e se casarem com o benefício de uma pensão, o que levou ao fuzilamento de muitos, a fuga da maioria para outras partes do México, enquanto o protagonista clandestinamente mantém vivo o seu sacerdócio para preservar a fé na região em oposição a outro que opta pelo casamento e pensão.
Tudo seria uma simples perseguição, não fosse Graham Greene escolher como herói um padre que se torna alcoólico, que numa paixão tem uma filha que ama, que se esforça por obter as condições de prática sacerdotal e descobre como se acomodara aos hábitos do clero quando fora livre, sendo agora uma ameaça às pessoas que quer apoiar na sua salvação e espalha a morte, ou seja, um anti-herói, que até reconhece virtudes ao colega renegado, mesmo assim, ele não desiste da sua fé, da sua luta e das suas obrigações até deixar-se cair nas malhas dos seus perseguidores de quem já escapara algumas vezes para em consciência salvar a alma de um ladrão.
É neste dilema pessoal de vocação sacerdotal e fé de alguém que se considera indigno para as suas funções que a obra glorifica este homem, que em situações de humilhação em humilhação, ora cheias de ternura, ora de horror  e outras onde só um entendedor da essência do culto, como a necessidade de comprar vinho de uva onde impera a lei seca e, clandestinamente, lhe propõem em alternativa brandy, que resiste e é despojado do seu produto, mas que no seu dever se sente um condenado que salva e é nisto que se percebe a grandeza deste livro que foi um sucesso em meados do século XX. Uma grande obra de introspeção que opõe a força da fé à fragilidade humana dentro de um padre. Gostei muito, mesmo sendo uma obra que implicitamente assume muitos dos defeitos do catolicismo, compreende-o muito bem.

domingo, 24 de dezembro de 2017

O cerne do Natal está no nascimento de uma Criança - Jesus


A palavra natal vem de nato, nascido; por isso natalidade indica número de nascimentos. Quando em Roma se celebrava o sol de inverno como fonte de vida e a natureza parecia morta os Cristãos aproveitaram a festa para celebrar o Nascimento de Jesus, a quem consideravam a verdadeira Vida e fonte de Luz. Se o Natal lembra esperança e amor é porque associamos estas ideias ao ver um recém-nascido como o Menino Jesus. Votos de um FELIZ NATAL  a todos os leitores de Geocrusoe.
Foto: Pormenor do presépio do  Agrupamento 973 do CNE no exterior do centro de culto de São Mateus na Ribeirinha.

domingo, 10 de dezembro de 2017

"Os Milagres do Anticristo" de Selma Lagerlöf


O romance: "Os Milagres do Anticristo", da escritora sueca Selma Lagerlöf, a primeira mulher vencedora de um prémio Nobel da literatura, é uma obra que usa o fantástico tomando lendas e crenças para criar uma sátira e levar a uma reflexão sobre a confusão entre comportamentos sociais, ideologias políticas e fé religiosa.
A partir de uma crença generalizada na Sicília de que o anticristo terá a mesma aparência que Cristo e dum acontecimento que Selma conheceu numas férias naquela ilha, da substituição (à socapa) de uma imagem de altar por outra falsa; a escritora cria uma parábola de reflexão com humor e ironia sobre a confusão da ideia política de socialismo e da mensagem do cristianismo, ambientada à terra siciliana e com recurso aos mitos, religiosidade, disfunções sociais, vícios culturais, sede de justiça e paixões que formam a imagem coletiva do estilo de vida siciliano.
Na colina romana do Capitólio uma sibila profetizou a César Augusto que ali se adoraria Cristo ou o anticristo, mas não o homem fraco. Após a conversão de Roma ali construiu-se a igreja Aracoeli (eu conheço-a e para mim o seu interior é um dos mais belos e ricos da cidade), onde uma imagem de Cristo menino é venerada durante séculos para evitar a adoração do mal, mas no de 1800 uma inglesa ambiciona a sua posse e procede à sua troca, com o embuste descoberto fica com a falsa e viaja por muitos locais onde se operam maravilhas, até ir parar a um altar numa pequena e pobre cidade da Sicília e nesta comunidade esquecida muito muda com o patrocínio de uma devota apaixonada por um revolucionário e o sucesso do povoado é um exemplo para a região do Etna, até que se descobre a verdade das origens da imagem "milagreira" que só agia a favor do interesse mundano.
A escrita é muito fácil e cativante. A forma de explorar mitos e hiperbolizar acontecimentos fantásticos faz parte do estilo desta escritora nórdica, que neste romance deixa os de origem pagã da Escandinávia e pega nos associados às crenças Católicas e denúncia subtil dos defeitos estruturais da sociedade latina, com aproveitamentos religiosos e políticos nas questões de ideologia e fé, No fim a obra dá um grande abanão a quem vai pensando que se emite alguma opinião de fundo sobre religião, mas não deixa de ser mordaz a quem quer aproveitar o cristianismo para fins ideológicos. Como todo o romance que mexe com religião, valores e estilos de vida, o livro pode chocar, mas no fundo é uma excelente reflexão a brincar com a crendice popular e o aproveitamento político e social desta. Gostei muito.

sábado, 25 de novembro de 2017

"Cândido ou o Optimismo" de Voltaire


Acabei de ler um dos mais famosos romances do pensador francês do tempo do Iluminismo no século XVIII: Voltaire e o seu "Cândido ou o Optimismo" numa edição da revista Visão que tem editado clássicos históricos da literatura mundial.
A obra é uma paródia, cheia de fantástico, ironias, sarcasmos e críticas às filosofias otimistas da época propagadas por Leibnitz. Goza com os conceitos do mal, moral e físico, e a razão suficiente para explicar a injustiça da sociedade europeia quando se dizia que o mundo estava a evoluir para o melhor pois criado por um Deus que nos quer bem. Em paralelo, lança farpas à tentativa da religião maniatar o pensamento das pessoas e a liberdade social, bem como ao absolutismo, escravatura, libertinagem, práticas abusivas dos cristãos, muçulmanos e outras questões polémicas de então.
Cândido, acolhido numa família nobre, assimila as filosofias otimistas do percetor do palácio, assiste a amores escondidos do pessoal, apaixona-se pela filha do anfitrião: Cunegundes, é apanhado e expulso para uma terra cheia de terror e injustiça, sem deixar de crer que está no melhor dos mundos e tudo se destina ao bem.
Segue-se então uma série acelerada de desaires, onde combate, é ferido, sobrevive, reencontra o percetor em desgraça e doente de luxúria que narra a morte de toda a família do palácio. Fogem para Lisboa apanham com o terramoto, são condenados pela inquisição para terminar o tremores, escapa sozinho e reencontra a sua amada morta que lhe conta a sobrevivência. Partem para Buenos Aires, perde de novo a sua amada para o governador. Chega a um Eldorado de indígenas perfeito, mas a paixão o faz querer sair e recuperar Cunegundes. Então riquíssimo sofre nova série de desventuras: reencontra gente que vira morrer, comerciantes ladrões, amigos oportunistas, padres lascivos, médicos charlatães, reis destronados, cai nas mãos de muçulmanos sem perder o otimismo e no fim percebe como alcançar o melhor dos mundos.
A obra está cheia de cenas mirabolantes, ridículas e divertidas, gente que morre mas depois sobreviveu, mitos fantásticos e pormenores históricos da realidade da época, cujas quase 200 notas em rodapé nos dão excelentes informações dos aspetos escondidos no simbolismo do texto.
Portugal é então o país mais rico da Europa, com um povo ignorante e dominado por um clero fanático e retrógado. Este País e as suas gentes têm um papel muito importante dada a sua magnificência na época. Gostei, mais ainda porque as notas complementam muito bem esta paródia fantástica e sem elas o livro perdia muito da sua atração e compreensão.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A Queda" de Albert Camus


Acabei de ler "A Queda" o último romance do francês Albert Camus, prémio Nobel da Literatura.
Num bar de Amesterdão um cliente habitual reconhece a entrada de um francês estranho ao local, um compatriota, e logo o interpela, apresenta-se, traduz-lhe o pedido de bebida e começa a narrar a sua vida desde o início da sua carreira de advogado brilhante em Paris, associada a um comportamento farisaico cheio de amor-próprio, sempre disposto a transmitir uma imagem de bondoso e altruísta, para ser admirado em sociedade, mas também com uma vida de conquista de mulheres, permitindo correr a sua fama, para se aproveitar do género feminino e ser plenamente admirado por todos, isto tudo até a sua vida dar uma grande volta e se tornar num juiz-penitente exilando na capital da Holanda, atividade que explica no fim do livro.
A obra é uma reflexão filosófica sobre a futilidade do estilo de vida em sociedade em torno da idealização da imagem pública de sucesso e a consciência do mal que praticamos enquanto se é pessoa de bem e se julga o outro.
O texto está brilhantemente escrito, cheio de força e ritmo. Todavia, a narrativa só não é um monólogo por sabermos pelos comentários do narrador o teor de algumas intervenções do outro ouvinte. Isto torna a linguagem típica de um falador que abafa qualquer outra voz. A técnica fez-me lembrar o romance "Cadernos do subterrâneo" de Dostoievsky, simplesmente agora é a tentativa de socializar e de se salientar em sociedade e não de ostracização e autoflagelação do protagonista no livro russo... pelo menos até à queda e conversão em juiz-penitente de Jean Baptiste Clemance.
Apesar de ser pequena esta obra e da força do texto, a partir de certo momento esta pode tornar-se cansativa, tal como quando ouvimos alguém que ininterruptamente não se cala, só que este fala-barato diz muito e desmonta a futilidade desta sociedade sem valor e corrompida farisaicamente pelo mal.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"JUDAS" de Amos Oz


Acabei de ler o segundo livro do escritor israelita Amos Oz e o meu primeiro romance dele: "Judas".
O romance passa-se em Jerusalém no inverno de 1959, onde um jovem, tímido e sentimental, a fazer uma tese de doutoramento sobre Jesus visto pelos judeus ao longo dos tempos, por motivo de desalento com o fim do namoro e dificuldades financeiras, decide abandonar a investigação e encontra um emprego de companhia numa casa com um idoso tagarela e uma viúva por quem se sente atraído mas inacessível. Neste trabalho Samuel terá tempo para refletir sobre o que o seu povo disse do que teria sido Jesus, mas também questionar-se sobre Judas, talvez o primeiro cristão de fé cujo seu papel na crucifixão teria sido para a glória do seu mestre e da qual saiu desiludido tornando-se conhecido como um traidor e ainda um peso para os judeus.
A intercalar as reflexões históricas e religiosas está o fio condutor da narrativa com a vida naquele inverno do jovem e as suas descobertas sobre o passado recente: o comportamento desastrado dele na sua atração por Atália, o jogo desta, as descobertas das perspetivas distintas em torno da criação de Israel pelo velho, o defunto marido e o pai da viúva e as desconfianças e ameaças árabes vistas no contexto da época mas que ainda hoje são atuais. Estes dois tempos entrecruzados no romance são sempre contados de uma forma introspetiva e serena, por vezes com um humor requintado e abordagens naturais a situações de algum anormalidade e com uma excelente escrita. Gostei muito mas não é um livro que desperte vibrações e emoções fortes ou suspense, pois reina ao longo de toda a obra uma calma e uma interioridade na forma de expor os acontecimentos e as reflexões mas que dá prazer apreciar o texto. 

domingo, 1 de outubro de 2017

"O Colecionador de Mundos" de Ilija Trojanow

O livro "O Colecionador de Mundos", do Búlgaro refugiado na Alemanha que viveu na Jugoslávia, Itália, Índia e Quénia e presentemente na Austria e escreve em alemão: Ilija Trojanow, narra de modo romanceado três importantes ações da vida do militar, aventureiro, espião e diplomata inglês do século XIX: Sir Richard Francis Burton.
Como todas as obras históricas, o romance está amarrado no essencial aos factos então ocorridos, mas vale pela forma de os narrar e os floreados à sua volta, criando uma obra original, criativa, com a análise social do encontro de culturas (indiana hindu e muçulmana, árabe e africana) e juntando ficção à realidade dos acontecimentos.
O livro é composto por três momentos da vida de Burton, cada um exposto com uma dupla visão que se intercalam e se completam: primeiro o serviço na Índia com a descoberta do hinduísmo, do islão, o choque de culturas e a desconfiança entre povos e onde se conhecem as impressões do protagonista e a versão do chefe de criadagem, um natural local; depois a sua peregrinação a Medina e a Meca, haje ou hadj, disfarçado de muçulmano indiano e integrado numa caravana de povos a partir do Cairo, neste feito que chocou o islão vemos o relato de Burton e uma recolha de testemunhos de companheiros crentes na tentativa de julgar o sacrilégio do infiel; e por fim a expedição a partir do Zanzibar que levou à descoberta do lago Vitória e da nascente do Nilo narrada por ele e um escravo local libertado guia dos ocidentais.
Assim se revela a vida de uma lenda que até à sua morte levantou especulação de qual a sua verdadeira fé, o seu modo de ver o mundo, os povos e as religiões. Um livro muito interessante, cheio de ensinamentos culturais, história, aventura e excelentemente escrito. Recomendo.



quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Ao arrepio" de Joris-Karl Huysmans


O romance "Ao arrepio", por vezes traduzido por "Às avessas", é considerado a obra-prima literária de Joris-Karl Huysmans e a mais importante do estilo decandentista surgido em França no final do século XIX e terá influenciado Wilde para Dorian Gray. Apesar de revolucionário no estilo, é uma obra algo difícil pelo grande número de géneros culturais tratados e referências a autores e seus trabalhos.
Des Esseintes é o herdeiro de uma família nobre e heróis de França, mas de uma fragilidade oposta à dos antepassados Após o colégio religioso de classe entra numa vida de prazeres à sombra da riqueza, desfrutando tudo o que a sociedade lhe pode oferecer, até sentir o declínio do mundo que o cerca. Decide então afastar-se e criar numa casa o seu mundo-museu, cerca-se de tudo o que admira para fugir à realidade e entrar no ideal que lhe traga as recordações que valoriza e admira. Assim, desde o estudo das cores dos aposentos, complementada com gemas numa tartaruga para efeitos de luz; passando pela dissertação da biblioteca de clássicos da Roma decadente; continua pela descrição de quadros e de artistas contidos nas divisões; analisa a adequação das flores do jardim para criar cenários idealizados; ensaia  aromas que geram atmosferas e lembranças; disserta sobre músicas de excelência da história e critica os escritores seus contemporâneos. Tudo isto sempre com profundidade, algum sarcasmo e indolência final. Existem momentos de uma riqueza descritiva geniais e outros surpreendentes que se arrastam até um final não menos imprevisto.
Após o romance um prefácio do autor escrito 20 anos depois, onde disserta sobre o conteúdo do romance, o seu impacte no meio cultural de Paris, até o conflito que gerou com Zola, e aponta as sementes que o levaram em seguida não só à sua conversão ao catolicismo, como os pontos desenvolvidos nos seus posteriores romances, como a personagem Durtal de "Além" que aqui falei.
Apesar de por vezes ser fastidioso nas descrições e da letargia com que Des Esseintes se reveste, gostei muito da obra, contudo a bagagem informativa e os aspetos culturais focados não a tornam fácil a um leitor ávido de desenrolares rápidos e narrativas simples dos momentos, um livro diferente entre tudo o que já li.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Reino do Amanhã" de J. G. Ballard


Terminei a leitura do "Reino do Amanhã" do escritor inglês J. G. Ballard, uma distopia que evidencia os risco presente de escravatura e de ditadura que pode resultar da combinação do consumismo atual com o desporto interesseiramente organizado nas comunidades, neste caso a região suburbana de Heathrow - Londres, onde apenas há valores para uma sobrevivência oca e materialista sem as referências coletivas tradicionais.
Na sequência de um tiroteio num megacentro comercial em Brooklands é morto o pai de Richard Pearson, um publicitário recém-despedido e este desloca-se à periferia onde descobre um aglomerado habitacional descaracterizado cuja vida se desenrola em torno da autaestrada e das grandes superfícies comerciais: "uma estação de serviço junto a uma estrada com duas faixas de rodagem imprimia um sentido de comunidade mais profundo que qualquer igreja ou capela, uma maior consciência de cultura partilhada do que uma biblioteca ou uma galeria municipal poderiam oferecer... ...o estacionamento estava prestes a tornar-se uma das maiores necessidades espirituais da população britânica."
Na cidade, Pearson descobre o mal-estar do subúrbio, aproveitado pelo Metro-Centre com publicidade incutida à população articulada com equipas desportivas suportadas por aquele templo do consumo e geradores de uma violência oca e xenofobia em espiral crescente e onde o pai ora pareceu uma vítima ora uma peça eliminada quem fomentava uma revolução e guerrilha em Brooklands.
Pearson decide mudar-se e investigar o fenómeno e a morte, alia-se tacitamente ao Metro-Centre e, numa evolução do vazio, a loucura da ditadura consumista instala-se como uma nova religião, extrema-se em revolta com exércitos civis em defesa do seu deus comercial e um Estado sujo que procura conter uma situação descontrolada.
A obra evolui para uma tensão extrema e denuncia a violência das periferias urbanas, torna-se sombria e repetitiva na demonstração exaustiva da semelhança entre os crentes desta nova religião do consumo com o desporto organizado através dos seus símbolos e ritos paralelos às fés tradicionais... mas "As pessoas são capazes da mais maravilhosa demência." uma obra atual da sociedade numa evolução mais sombria que a do "Admirável mundo novo" de Huxley. Um romance, com uma escrita crua, por vezes ácida, que incomoda pela denúncia do caminho que estamos a seguir. Um alerta contra a alienação em que o ocidente consumista está a cair.

terça-feira, 13 de junho de 2017

"As Regras da Casa da Sidra" de John Irving


O romance do norte-americano John Irving "As regras da Casa da Sidra" que acabei de ler, não sei se intencional ou não, apresenta um resumo, tanto no site onde comprei o livro, como no verso da capa deste, que se desvia em muito do cerne da questão principal levantada pela obra: o aborto pela livre escolha da mulher. Não importa se o leitor deste post é a favor da questão ou não, mas os vários episódios principais que marcam as personagens de um modo ou outro encaminham sempre o problema para esta questão ética.
Wilbur Larch jovem do Maine decide seguir medicina, na sua fase de viragem a adulto é-lhe ofertada pelo pai uma noite com uma acompanhante mais velha, depois conhece a filha, mais tarde já como médico e perante uma gravidez indesejada desta, ele recusa-se à interrupção, o que a conduz indiretamente à morte. Uma marca deixada pela mãe e o fim da filha levam-no a recolher-se num orfanato onde se torna no médico residente, viciado em éter, que estabelece uma rotina com os acolhidos e de onde dá plena liberdade às grávidas que ali se dirigem para estas criarem um novo órfão, a acolher na instituição para adoção, ou de evitar um filho indesejado. Uma prática então ilegal, este agir leva a que o estabelecimento seja visitado por muitas mulheres e entre os bebés que acolhe afeiçoa-se a um: Homer, cujas peripécias o impediram de ser adotado. Wilbur ensina-lhe a sua profissão e torna-o num obstreta dotado de prática exemplar, mas que recusa o papel de Deus na decisão de uma vida. Um casal jovem, bonito e rico vai ao orfanato e recebe o jovem de igual idade para a sua quinta de maçãs e sidra. Começa então uma relação amorosa a três que mistura admiração mútua, desejo, respeito e transgressões, com tempo este órfão torna-se central na empresa, mas à distância o médico velho prepara o seu sucessor e sabe que só o seu educando pode ocupar aquele local e monta uma estratégia para o seu trabalho continuar.
A obra está escrita por vezes de uma forma crua, com  tons científicos de práticas médicas, noutros está cheia de ternura, numa mostra de relações humanas onde se cruzam questões éticas e os instintos íntimos, redigido de uma forma elegante. Para mim a personagem principal da obra não é o protagonista Homer, mas sim quem o criou.
Sim, gostei muito do romance, que até no amor entre personagens principais cria situações incómodas para os princípios éticos de uma relação familiar, de amizade e amorosa, além de outras situações que perturbam o leitor, é sem dúvida um grande romance, inclusive no tamanho (750 páginas), bem escrito, com ironia e amargura temperada com questões de ética, carinho e paixão, que recomendo a quem o preconceito não se sobrepõe à questão ética que a obra aborda.

terça-feira, 25 de abril de 2017

"ALÉM" de J. K. Huysmans


Quando me interessei em descobrir o francês J. K. Huysmans, na sequência da leitura recente de "Submissão" de Houellebecq, verifiquei que aquele, além de ser um escritor com poucos romances traduzidos disponíveis em Portugal, também era um autor cuja vida e obra foi marginalizada por certas elites culturais e sociais desde o final do século XIX. Tal aconteceu não só por ele ter iniciado a sua carreira como um brilhante discípulo literário de Zola, no estilo "naturalista" e se ter mudado para o "decadente" que era rival do primeiro grupo de escritores, tendo sido nesta corrente um dos expoentes máximos na ficção, mas também, pela sua mudança individual de pessoa descrente, laica e ainda mergulhado no ocultismo, para um católico convicto, transpondo paras as suas obras literárias este percurso com a criação de uma personagem seu alter-ego, Durtal, onde em várias obras relata a vida que considerou degradante (decadente) e a mudança para uma fé profunda, praticante e escrupulosa, sendo então rejeitado na sociedade intelectual materialista que predomina na cultura ocidental.
O romance "Além" de Huysmans é o segundo romance do período decadente, onde Durtal é um escritor em ascensão e está a escrever a biografia de Gilles de Rais (personagem real, que após ter sido colega de armas de Joana D'Arc, se tornou na figura mais sombria da história de França desde a idade média, pelas suas atrocidades do seu culto satânico com atos sádicos, assassinos e pedofilia), Nesta busca o protagonista entra em contacto com contemporâneos e descobre que os ritos e práticas diabólicas persistem ainda no final do século XIX, com os adoradores do mal e práticas hediondas num conflito permanente que envolve cidadãos comuns, crentes, cultos, investigadores, cientistas e hierarquia da igreja e configura uma permanente luta entre o mal para dominar e o bem para resistir e permanecer fiel ao ideal Cristão.
Huysmans é portador de uma escrita escorreita, vocabulário extenso, por vezes recorre a palavras menos usuais, a que junta uma prosa de grande elegância típica de um escritor de excelência e com a clareza típica do estilo da época. Tal não invalida que algumas páginas de "Além" não deixem de ser muito perturbadoras nas descrições dos rituais satânicos e escatológicos, com divulgação de crenças obscuras, práticas degradantes e mesmo horripilantes. Desengane-se quem pensa encontrar o terror popular de espíritos de outros mundos, erotismo barato ou pormenores pornográficos: Não! Apesar de tudo o que se subentende dos relatos e de alguma ousadias, Huysmans não cai na literatura de cordel do horror, não romantiza paixões com espíritos, nem retrata bacanais. É uma obra tem negritude nalgumas passagens, mas também está cheia de momentos de boa disposição, reflexões sociais sobre a época, críticas à arquitetura de uma monumento de Paris, saborosas apreciações gastronómicas de repastos de amigos, discussões sobre mitos medievais enriquecidas por citações de obras de referência que, à semelhança de Umberto Eco ou de Jorge Luís Borges, não importa se existem ou fazem parte do mundo mágico criado pelo escritor para suportar a trama.
Gostei do livro, mas alerto que se trata de uma obra com uso do macabro e com situações de grande degradação humana que não são recomendáveis a leitores suscetíveis de se impressionar e romanceia o início da conversão religiosa de Huysmans.