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domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

"Obra Reunida" de Juan Rulfo


Excertos
"Esta aldeia está cheia de ecos. Parece que estão fechados no interior das paredes ou por baixo das pedras. Quando andas, sentes que vão pisando os teus passos. Ouves estalidos. Gargalhadas. Umas gargalhadas já muito velhas, como estivessem cansadas de rir. E vozes já gastas pelo uso."
in Pedro Páramo, novela.

"San Gabriel sai do nevoeiro húmido de orvalho. As nuvens da noite dormiram sobre o povoado procurando o calor das gentes. Agora está para sair o sol e a névoa levanta-se devagar, enrolando o seu lençol, deixando fios brancos em cima dos telhados. Um vapor cinzento, apenas visível, sobe das árvores e da terra molhada atraído pelas nuvens;..."
in "Na madrugada", conto.

"Quem exercia este ofício era Dionisio Pinzón, um dos homens mais pobres de San Miguel del Milagro. Vivia numa casinha do bairro do Arrabal, na companhia da sua mãe, enferma e velha, mais pela miséria do que pelos anos."
in O galo de ouro, novela.

O mexicano Juan Rulfo é considerado o pai do estilo realismo mágico da América Latina e o escritor que segundo Gabriel Garcia Marquez (GGM), mais o terá influenciado. Este livro, além um um preâmbulo de GGM, junta três obras deste escritor: as novelas "Pedro Páramo" e "O Galo de Outro", bem como o conjunto de contos publicados sob o título "A planície em chamas" ou "O Llano em Chamas". No fundo o conjunto da sua produção literária que abandonou a sua criação no auge do seu sucesso.
A primeira novela é de facto surpreendente, narra a vida de Pedro Páramo, o homem forte numa terra rural onde ele põe e dispõe de tudo e de todos, inclusive das mulheres e das vida e propriedade dos homens de forma incólume, entretanto na sua vida há uma paixão marcante que no seu domínio totalitário teve de esperar décadas para ser atendida. A história é contada como memórias e vozes de consciência dos colaboradores, das vítimas e até dos lamentos dos mortos, expostas de forma dispersa, sem uma sequência cronológica nem respeito pela continuidade da trama, misturando situações díspares, o real e o mágico para no fim se completar o quadro num estilo de escrita que é de facto ímpar e literariamente de uma riqueza difícil de explicar.
A seguir seguem-se vários contos pouco extensos e passados na planície semiárida do interior do México, com momentos da guerra dos cristeros, outros de vinganças, outros de amores que dão um ideia do que seria a vida no coração profundo do país e distante dos centros urbanos, normalmente pautado pela pobreza e desolação, só que todos eles são magnificamente escritos.
A última novela conta a vida de um indigente desprezado por todos que de pregoeiro toma conta de um galo de combate derrotado e ferido e o torna num vencedor, então começa a sua peregrinação onde encontra uma mulher cantadeira que lhe dará a sorte e o azar do futuro da sua vida. Novamente o realismo mágico impõe-se associado a uma escrita de um génio.
Gostei do livro e tal como Gabriel Garcia Marquez se deixou maravilhar por Juan Rulfo, vale a pena conhecer esta genialidade, cujas obras se limitam a poucas centenas de páginas brilhantes, felizmente aqui reunidas, embora também existam em separado. Soube-me a pouco o que de facto este mexicano legou à literatura latinoamericana, pena não haver mais obras.primas de Juan Rulfo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

sábado, 4 de junho de 2016

"Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher" de Stefan Zweig



"Vinte Quatro Hortas da Vida de Uma Mulher", do austríaco Stefan Zweig, é uma pequena novela que evidencia como uma situação, não preparada, nem intencional, pode levar a comportamentos repentinos, socialmente criticáveis e ostracizantes, mas onde uma mente aberta e compreensiva é capaz não só de entender, como até de não deixar afetar o seu relacionamento com que assim age. Há sentimentos por vezes mais fortes que a razão que fomentam a loucura e marcam uma pessoa e, em simultâneo, correspondem até ao ponto mais alto da vida e aquele por qual valeu a pena viver.
Uma escrita muito elegante, tal como o meio social onde o enredo se passa, a trama principal é uma narração em estilo de confidência em primeira pessoa, despoletada por uma crítica social e coscuvilheira sobre o comportamento de uma terceira pessoa. O texto evidencia uma mestria do escritor na  forma de descrever sentimentos e de expor a sua expressão psicológica e física.
Uma novela que se lê muito bem, tanto pela beleza da escrita, como pela elegância com que a história é narrada. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

"A Pérola" de John Steinbeck


Não sei se "A Pérola" é um conto ou uma novela, mas sei que é uma excelente fábula do laureado com o Nobel da literatura John Steinbeck, maravilhosamente escrita e procura mostrar que apesar das dificuldades da pobreza, o encontrar de um tesouro desejado pode não ser o fim de todos os problemas e até atrair muitos outros males que estão no coração das pessoas.
A forma de passar a música os sentimentos sentidos pelo pescador de pérolas perante a realidade que sente e vê à sua volta é genial e a escrita é tão bela que várias vezes repeti parágrafos para me deliciar. Um lindo conto ou novela, com uma lição de moral subjacente que recomendo a qualquer tipo de pessoa que goste de ler.