Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta História. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sexta-feira, 8 de março de 2019

"A Guerra das Salamandras" de Karel Capek


Excertos
"Não podemos fruir calmamente dos dons da nossa civilização nem dos frutos da nossa cultura enquanto existirem à nossa volta milhões e milhões de seres infelizes e inferiores, mantidos artificialmente num estado animal."

"Terá de ser sempre a natureza a aparar os golpes dos homens? Estás a ver? Nem tu próprio acreditas que eles vão ajudar-se a si próprios! Estás a ver? No fundo gostarias de te fiar que a humanidade vai ser salva por alguém ou alguma coisa!"

Acabei de ler "A Guerra das Salamandras" do checo Karel Capek, uma alegoria e uma sátira divertida e também uma denúncia distópica sobre a via suicida da civilização gananciosa que leva a humanidade à escravidão e à autodestruição. Publicado em plena ascensão do nazismo, este regime é criticado subtil, inteligente e metaforicamente, tal como a estratégia desastrosa e interesseira dos restantes Países Europeus para enfrentar aquela perigosa ideologia. Contudo este romance não perdeu qualquer atualidade e pode-se ver nele as denúncias dos erros do neoliberalismo, os perigos da hipocrisia em democracia e ainda a ameaça de catástrofe ecológica provocada pelo Homem e sua tecnologia no presente. O livro poderia ter sido escrito tal e qual hoje como denúncia dos vícios da globalização no presente.
Toda a estória é alegórica: O comandante Van Toch, um checo da marinha mercante ao serviço da Holanda numa ilha da Indonésia, descobre uma espécie de salamandra desconhecida, consegue relacionar-se com elas e verifica que as mesmas são ótimas caçadoras de pérolas em troca de utensílios, pois têm vocação de construção de estruturas subaquáticas e espírito comercial e social. Van Toch desenvolve então um projeto com o apoio de um capitalista judeu colega de escola para criar um império comercial usando como mão de obra estes animais povoando numerosos recantos do Índico com estes animais. Aos poucos o segredo torna-se público e alvo do interesse de todas os Países que querem adquirir salamandras como mão de obra escrava barata para o meio marinho, dada as suas capacidade laborais e de engenharia, só que estas desenvolvem a capacidade de falar e de aprender a cultura dos homens. A mudança e crescimento da economia global torna-se então gigante e dependente desta espécie que debaixo de água desenvolve secretamente a sua própria nação até se revoltar contra a exploração dos humanos e declarar-lhes guerra para os dominar.
Não é possível classificar o estilo literário de Capek nesta obra, onde há um desfile de escrita criativa: temos textos com estilo escorreito e quase vitoriano; partes que correspondem a excertos de peças jornalísticas, incluindo parangonas de arte gráfica numa linguagem bem distinta; atas de empresas com as suas especificidades; artigos científicos, sobretudo biologia e geologia; capítulos que são puro ensaio filosófico sobre o rumo da humanidade e baseados no comportamento das duas espécies cujo confronto se adivinha; análises sociológicas e sátiras ao modo de ser dos vários povos que não apenas europeus(o português nem é esquecido); etc. construindo assim uma panóplia de géneros e formas com uma imaginação fértil enorme.
Apesar da denúncia do destino sombrio do rumo da humanidade e momentos catastróficos, o bom humor e a ironia atravessam toda a obra, inclusive a intervenção do autor perante conveniência de alcançar um fim digno para o Homem no livro ou não fosse este o verdadeiro protagonista da estória e alvo do alerta e aviso de Karel Capek.
Uma obra genial ao nível de "O admirável mundo novo", "1984" e outras distopias marcantes da história da literatura, mas com a particularidade de não ser deprimente mas sim divertida. Uma obra-prima.
Como curiosidade, outra obra deste autor criou a palavra hoje usada internacionalmente de "robot" e diz-se que não recebeu o prémio Nobel da literatura para não irritar Adolfo Hitler.

sexta-feira, 1 de março de 2019

"Luz em agosto" de William Faulkner


Excerto
"A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo do que recorda, por mais tempo até do que o conhecimento se interroga. Sabe, recorda, acredita num corredor num prédio de tijolo vermelho, grande e comprido, decrépito, frio e povoado de ecos..."

"Lembro-me de uma vez lhe ter dito que há um preço a pagar por se ser bom tal como o há por se ser mau; há sempre um custo. E são os bons que não podem recusar-se a pagar a fatura, quando ela chega."

Voltei pela segunda vez a William Faulkner, escritor norteamericano laureado com o Nobel da literatura, com este "Luz em Agosto" que conta a vida várias personagens de terras diferentes do sudeste dos Estados Unidos que se cruzam na cidade de Jefferson (fictícia), estado do Mississipi, num momento fulcral e de grande tensão para as mesmas, um local marcada pelo ódio racial, o radicalismo religioso conservador e as feridas resultantes da derrota do sul esclavagista perante o norte abolicionista e liberal.
Lena, uma adolescente, grávida e solteira parte do Alabama em busca do pai do seu filho chegando a Jefferson num dia de um incêndio de uma casa debruçada sobre a cidade. Joe é um irresponsável pouco inteligente que parte secretamente da sua relação clandestina e vai trabalhar para uma serração em Jefferson e é acolhido pelo colega de trabalho Natal (Christmas). Este por sua vez é um órfão fugido de uma família adotiva ultraconservadora que não consegue suportar a sua suspeita de ter sangue negro, vive numa cabana de uma solteirona descendente de uma família do norte, abolicionista, com um passado marcante, dona duma moradia sobranceira à cidade, ambos estabelecem uma relação amorosa secreta que acaba em crime e incêndio. Byron, de meia-idade, é um pacato trabalhador da mesma serração que acolhe a grávida, apercebe-se da sua situação de mãe solteira,algo não aceitável na comunidade, apercebe-se de quem é o pai e intimamente apaixona-se. Hightower é um ex-pregador metodista cuja admiração pelo avô morto na guerra civil é o cerne da sua divulgação da apostólica em detrimento dos temas da fé o que  associado a um escândalo com a sua mulher o leva à excomunhão, só que se torna no elo entre toda esta gente, apesar do seu conflito entre fé, dever, memória e descrença. Tudo isto atinge o climax no momento do assassínio da solteirona com a fuga de Natal, a perseguição, o parto, o encontro da parturiente com o pai e a sua irresponsabilidade numa cidade onde ódio racial e religião impedem o bom-senso.
Um retrato da América profunda, complexada e disfuncional no período entre as duas grandes guerras, cheia de feridas históricas.
Faulkner tem uma escrita própria, com um estilo literário complexo denominado fluxo de consciência que marcou o modernismo no após a 1.ª grande guerra, onde sequencialmente, temos narrativa da estória, pensamentos das personagens, reflexões do autor, diálogos, saltos no tempo e comentários numa cadeia de parágrafos longos que exigem concentração por na mesma frase sujeitos, predicados e factos estarem cruzados subtilmente ou muito distantes, parecendo que houve um lapso gramatical mas depois o leitor compreende a lógica da sintaxe.
Apesar de não ser sempre fácil, a escrita de Faulkner está cheia de beleza com metáforas originais, reflexões e personagens complexos e cheios de conflitos internos, mas obriga a um esforço do leitor por autor dispersar momentos e focos distintos no encadeado da narrativa que só muito mais tarde se cruzam, se completam e se tornam compreensíveis como a montagem de um quebra-cabeças.
Poucas personagens na literatura são tão densas e profundas como algumas das de Faulkner, Natal é uma do expoente máximo desta criatividade. Chega a ser suicida ao completar-se como um branco racista, orgulhoso e supremacista junto com a sua luta na vontade de alimentar a suspeita do seu sangue negro que o revolta e o obriga a vingar-se das humilhações de raça inferiorizada e a lutar pelo reconhecimento do direito à sua liberdade e igual dignidade. Outras personagens neste romance atingem níveis quase tão elevados como o dele neste conflito interno que os divide, une e os completa.
Confesso, gosto muito desta luta dentro da beleza do texto que está cheio de imagens parciais refletidas como por uma bola de espelhos, onde os retratos montados por Faulkner compõem um quadro final excelentemente estruturado com uma mirídade de peças que pareciam desencaixadas, mesmo que às vezes me irrite com as cambalhotas e desvios que sou forçado a dar ao longo da narrativa.
Um grande escritor, um génio e um expoente máximo da literatura que ao ser galardoado com o Nobel, reforça a credibilidade deste prémio e o honra por o ter reconhecido e premiado. 

sábado, 16 de fevereiro de 2019

"Conflito Interno" de Kamila Shamsie


Excerto
" "Mais medidas draconianas!", proclamara um dos adversários de esquerda; "um novo ataque aos verdadeiros ingleses e inglesas, desferido pela população migrante da Grã Bretanha", declarara outro, pertencente à extrema-direita. Era provável que ambas as fações bebessem café de canecas térmicas."

Kamila Shamsie, natural do Paquistão, já escreveu um romance que para mim foi o melhor que li no ano 2015: "Sombras Queimadas", voltou depois a escrever este grande livro "Conflito Interno", "Home Fire" no original, que foi nomeado para o Man Booker Prize de 2017, que evidencia a capacidade desta escritora em falar das feridas, sombras de dor psicológica e física naqueles que circulam em torno dos apanhados nos grandes conflitos civilizacionais e bélicos da humanidade ao longo do último século.
Isma, filha de uma família britânica de origem paquistanesa em Londres, cujo pai foi guerrilheiro pela causa islâmica no final do século XX e morto como terrorista pelos americanos, consegue partir para os Estados Unidos para estudar, lá onde encontra Eamonn, o filho do ministro inglês da Administração Interna com igual origem e tornam-se amigos. Ele volta à Inglaterra com interesse em conhecer a irmã dela mais nova: Aneeka, sem saber que um gémeo dela se tornara num guerrilheiro talibã no oriente. Os dois jovens apaixonam-se, mas ela irá aproveitar a relação familiar dele para libertar o irmão do extremismo para o qual ele fugira em busca de um princípio muito diferente do que lá encontrara. Tudo isto há de explodir nas mãos do Ministro Karamat quando Parvaiz arrependido quer regressar a casa e a sociedade e explora tudo: o racismo, a incompreensão, os choques culturais e a ambição de quem quer ainda vir a liderar o partido e ser o exemplo para todos  imigrantes islâmicos, rompendo à força todos os fios desta teia. 
O livro tem cinco capítulos, cada um deles em torno de uma destas cinco personagens diferentes, mas embrulhadas no mesmo problema que fere profundamente a sociedade atual, não só inglesa, cristã e muçulmana e desembocará numa tensão extrema, onde todos os aproveitamentos do sistema civilizacional contemporâneo são evidenciados e desembocam num final extremo ao nível de um clássico das grandes tragédias de teatro ou da ópera.
Gostei muito, mas mais ainda da anterior obra, por ser mais global e ter uma personagem que é um farol estoico no seio de tantas tempestades que a fustigaram, enquanto agora tudo parece vir a afundar-se até ao climax final, mas é um livro que, além de fácil leitura, deveria ser lido por todos para ajudar a compreender alguns dos desafios de enfrentar os problemas mais complexos da atualidade e vistos de vários prismas, numa narrativa estilisticamente bem escrita.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

"O espião que saiu do frio" de John le Carré


Excertos
"Que julgas tu que os espiões são? Sacerdotes, santos e mártires? São um deplorável cortejo  de tolos vaidosos, e também traidores, sim;"
"Não podemos construir o comunismo sem acabar com o individualismo."

Uma obra com mais de 50 anos, e considerada um clássico no seu género e talvez o romance de espionagem mais famoso da história, "O Espião que saiu do frio", do inglês John le Carré, o grande mestre no estilo e ele próprio um ex-expião, narra um conflito sangrento no jogo da obtenção de informações secretas entre os dois lados do muro de Berlim nas décadas de 1950-60.
Leamas dirige a célula de espionagem da Inglaterra em Berlim Ocidental, onde possui uma rede de agentes do outro lado, só que uma mudança de liderança a leste leva à morte em série dos seus informadores e à destruição da sua célula. No regresso a casa é desafiado a abandonar os serviços, a se humilhar publicamente para ficar desacreditado e ser assediado pelos seus adversários, para deste modo poder deslocar-se à Alemanha Oriental e proceder à sua vingança. Só que pelo meio surge uma relação amorosa e do outro lado o desenrolar do processo está cheio de surpresas, é que no jogo de traições e no uso dos seus agentes de forma enganosa nenhuma das partes se pode deixar atada por princípios e os logros vêm de quem está do nosso lado.
Um romance que além do suspense, junta reflexões sobre a ética no confronto entre o modelo de liberdade individual no ocidente e o da sobreposição dos interesses coletivos à pessoa então no oriente europeu, levados ao extremo no mundo secreto da espionagem no auge da guerra fria que discretamente foi sangrenta e cheia de traições.
Fácil leitura, escrita escorreita e um retrato de uma realidade discreta que ainda sobrevive no conflito diplomático e de interesses entre os Estados que raramente vem ao de cima. Gostei.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Os loucos da rua Mazur" de João Pinto Coelho


Acabei de ler "Os loucos da rua Mazur" do escritor português João Pinto Coelho, o romance que venceu o prémio Leya em 2017. É o segundo livro que leio deste autor em menos de um ano e ambos com memórias de sobreviventes ao período da II Grande Guerra na Polónia sob a ocupação estrangeira.
Um livreiro idoso em Paris em 2001 é contactado por um escritor famoso e sua mulher editora, pretendem escrever a história do que se passou na sua cidade durante a II Grande Guerra, logo se descobre que entre os três houve um passado longínquo juntos que deixou feridas muito fortes. A escrita desse passado dói a todos e assim vai sendo composto o que se passou naquela cidade no leste da Polónia, onde duas comunidades: uma cristã e outra judaica, coexistiam em bairros distintos e desconfiança mútua fomentada pelos seus líderes, mas tolerando-se em tempo de paz. É neste burgo que eles adolescentes se tornaram amigos: um cego judeu, outro cristão e ela filha de uma proscrita suspeita de bruxa. A amizade cresceu, mas a paixão alimentou o ciúme do preterido, então o País é invadido, a zona é primeiro ocupada por estalinista que querem moldar as pessoas, a pressão é mais forte com os polacos, os outros temem mais os que virão depois, os nazis e a retaliação será o pior vinda dos polacos. Nesta guerrilha o ciume leva à traição de uma amizade que deveria ser superior aos diferendos da cidade.
Um livro, que intercala capítulos do passado com mágoas do presente, denuncia uma realidade passada na Polónia que hoje muitos pretendem reescrever para apagar a sua culpa, existem memórias muito negras neste romance, há culpados em todos os lados, mas neste terror nem sempre foi preciso os nazis agirem, muitos aproveitaram a guerra para sujar as mãos em nome da fé, do racismo e da intolerância à sombra de um País ocupado por ditadores estrangeiros.
A escrita é escorreita e simple serve de suporte ao relato de uma história pouco falada que envergonha muitos polacos. Fácil leitura.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

"A seta do Tempo" de Martin Amis


Acabei de ler o estranho livro "A seta do Tempo" do inglês Martin Amis, onde o mais importante a forma de a contar às arrecuas a estória, não apenas do fim para o princípio, mas sim descrita como um filme em reverso com o tempo e os acontecimentos a andarem para trás.
Na cama de um hospital a consciência de um médico em estado terminal começa a ver a sua vida em marcha atrás no tempo. Assim se vai dissecando a biografia do protagonista, não só ele se desloca às arrecuas, pois tudo fica mais novo à sua volta. Nos diálogos, as respostas antecedem as perguntas. No dia-a-dia, o lixo é distribuído nos caminhos, recolhido até casa, retirado dos sacos, transformado em comida, ingerido e depois cozinhado. No comércio, o cliente recebe dinheiro pela mercadoria que entrega ao vendedor, enquanto as pessoas se deitam de manhã para depois se levantarem à noite. A neve sobe, etc.
Nesta caminhada retrógrada descobrimos que o médico após uma vida promíscua com enfermeiras, saiu da cidade onde se encontra, muda várias vezes de identidade e terras com apoios surpreendentes até entrar na Alemanha, chegar a Auschwitz, um campo onde ressuscitam judeus, estes são distribuídos pela Europa e ele faz experiências com mulheres e crianças retirando-lhe químicos que as melhoram, até ele casar, virar a adolescente, se tornar bebé e chegar à mãe.
Assim se vai percebendo como se formou esta mente nazi, se denuncia fugas à justiça com apoios escandalosos e secretos, isto com recurso a uma técnica em que as consequências antecedem às causas, invertendo os efeitos.
Por vezes torna-se estranho a descrição dos factos ao contrário, por exemplo, os maus-tratos acabam em saúde, mas vários pensamentos dedutivos em torno da descrição retrógrada surgem lógicos  face a uma sequência invertida. 
A estória não narra nada de belo e até aproveita o funcionamento orgânico da vida e a prática médica para um tom ainda mais chocante. A generalidade dos assuntos tratados são conhecidos, mas a perspetiva da criação desta mente perversa, construída ao contrário, torna a obra originalíssima, embora estranha. Por vezes tropeçamos na leitura e compreensão, por mentalmente tendermos a evoluir o pensamento com a seta do tempo ao contrário da do romance.
Um desafio e uma obra que é verdadeiramente de escrita criativa, feita por um grande escritor contemporâneo que gosta de mexer com o leitor.


terça-feira, 18 de setembro de 2018

"Artigo 22" ou "CATCH-22" de Joseph Heller


Excertos
"- Eles tentam matar-me - afirmou Yossarian, calmamente.
- Ninguém tenta matar-te!
- Então, porque fazem fogo sobre mim?
- Fazem fogo sobre todos. Querem matar toda a gente.
- Não vejo onde está a diferença."

"Não fui eu que provoquei esta guerra, por muito que o imundo Wintergreen diga o contrário. Procuro apenas reduzi-la a um clima de negócios. Que há de errado nisso?"

"Artigo 22", no Brasil "Ardil 22" e no original "Catch-22", do norte-americano Joseph Heller, é considerado um dos mais importantes romances do século XX nos EUA e é uma paródia do princípio ao fim sobre o absurdo da guerra, os proveitos económicos e os interesses de pessoas ligadas ao meio militar, incluindo as suas altas patentes.
A estória passa-se numa base aérea na pequena ilha italiana de Pianosa, junto à Toscânia, durante a segunda grande guerra. Centrada numa esquadrilha de oficiais após o início da invasão pelos aliados da Itália e ao longo da reconquista da península a Mussolini e a Hítler. Yossarian, comandante de bombardeiro, após dezenas de operações começa a ter medo de morrer ao ver a agressividade da luta anti-aérea alemã e após atingir o número de operações a que estava obrigado quer regressar aos Estados Unidos, só que o Coronel e líder da base vai sempre subindo o número de operações de forma que Yossarian nunca consegue atingir o limite, entretanto, ele vai implementando estratégias de doença, de loucura e desentendimentos para conseguir o seu objetivo. Enquanto isso, vamos conhecendo as guerrilhas entre as chefias para ascenderem de posto vitimizando os inferiores, os esquemas de negócios das messes e o mercado negro, a prostituição em torno de tantos homens sós, algumas baixas inglórias, problemas de consciência do médico e do capelão e, sobretudo, os sonhos de projeção na comunicação social de altas patentes para subir de posto, capazes de imaginar o absurdo para serem heróis de notícias, além do ardil que consta no artigo 22 tantas vezes invocado, que nunca se conhece na íntegra, para que tudo se mantenha tão mal como está. São largas dezenas de oficiais que se veem emaranhados nesta teia parodiada onde nada tem saída nem lógica.
O romance desenvolve-se com toda a amargura do absurdo kafkiano, só que numa narrativa onde todo o mal e medo é dissecado pelo ridículo humorístico das situações parodiadas, tecendo-se uma teia de onde nada tem saída para continuar tudo estranhamente na mesma, é o ardil de onde nada tem solução no sistema montado é a guerra como meio de sobrevivência de alguns. Divertido, mesmo em momentos tristes o que pode chocar alguns, mas é por esse gozo que gostei do romance.

domingo, 9 de setembro de 2018

"Um homem de partes" de David Lodge


Excertos
"Tive muitas aventuras. Na maior parte delas não houve amor. Pela parte que me toca - e também pela que toca à maioria das mulheres - tratou-se apenas de uma permuta de prazer. A ideia de que temos de fingir que estamos apaixonados por uma mulher para termos relações sexuais com ela - ideia que devemos ao cristianismo e à ficção romântica - é absurda. Só serve para causar frustração física e sofrimento emocional."

"Esta multidão de cérebros vagos, amáveis e acríticos é a matéria-prima com que o velho e querido Marx contava para exercer a ditadura do proletariado,"

Acabei de ler o romance biográfico sobre H. G. Wells - um dos pioneiros da literatura de ficção científica como previsão e alerta do evoluir da humanidade a médio-prazo fruto das descobertas tecnológicas conjugadas com os defeitos do sistema social na transição do século XIX para o XX - escrito pelo inglês David Lodge e com o título "Um homem de partes".
Recomendaram-me esta obra, não só para conhecer Lodge (de quem ainda só li um romance cheio de humor, este), mas, sobretudo, para compreender quem fora Wells, o autor de: A máquina do tempo, A guerra dos mundos, O homem invisível, A Ilha de Doutor Moreau e muito contos, de quem tudo o que lera eu gostara, por isto tomei a decisão de comprar este livro que foi um murro no estômago.
Wells, de origem humildes passou por dificuldades devido à pobreza na infância, mas foi sempre um leitor inveterado e com isto tornou-se num socialista não marxista, num hedonista defensor do amor livre no que considerava quase o cerne da mudança da humanidade, num promotor da igualdade de direitos para homens e mulheres sob um governo mundial único sem Estados, num interessado pelas descobertas em tecnologia e ciências e num escritor de grande sucesso com obras de ficção científica e chocantes pela promoção das suas ideias radicais que o torna rico e num praticante de sexo livre (deduz-se praticado com mais de cem mulheres cultas e de famílias influentes), sendo que as mais importantes na sua vida foram as suas esposas (curiosamente humildes e mesmo frígidas) e cerca de uma dezena de amantes jovens, inteligentes e progressistas, cujas manutenção da relação era do pleno conhecimento e compreensão da sua segunda esposa que sempre amou.
O livro que começa com o ocaso da vida de Wells, faz depois uma retrospetiva e discussão com ele próprio do que foi a sua vida, dos escândalos, das suas lutas políticas com socialistas mais moralistas, das diferendos com outros escritores como Henry James e Bernard Shaw e em paralelo assistimos às mudanças de mentalidades, às evoluções sociais, económicas e estilos culturais na Inglaterra desde 1860 até 1945 e na Europa com a revolução russa e as duas grandes guerras.
A escrita escorreita é principalmente de um tom alegre, por vezes sarcástico e crítico, embora a obra tenha poucos pormenores de práticas íntimas, o livro choca pela forma como Wells praticou  e defendeu amoralmente a sua visão de sexo livre, fez a sua defesa e a oposição aos ideais mais puritanos e tradicionais. Apesar de eu ser um respeitador liberal dos costumes, não sou um antagonista de certos valores cristãos e familiares e daí o grande murro no estômago que levei com este romance amarrado à realidade do que foi a vida de H. G. Wells. Mas é um grande romance.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"Um Gentleman em Mocovo" de Amor Towles


O romance "Um Gentleman em Moscovo", do norteamericano Amor Towles, apesar de ser uma obra contemporânea, é um dos melhores exemplos do que é a delicadeza e a graciosidade colocada em ficção para transformar um livro numa joia de entretenimento com alguma informação histórica  intercalada quanto baste para não perder a sua essência de leveza literária e agradar ao leitor que não deseja aventurar-se para além de um lazer leve com charme e humor inteligente.
O Conde Aleksandr Rostov, descendente de uma das famílias da melhor nobreza da Rússia czarista, na sequência da revolução bolchevique é levado a julgamento pelo seu passado aristocrático, todavia um poema de 1913, de quem é reconhecido como autor e com um elogio à causa comunista, livra-o da pena de morte, ficando apenas limitado a prisão-perpétua domiciliária no hotel mais luxuoso de Moscovo, o Metropol, no qual era hóspede residente. Assim, é despromovido para os alojamentos dos antigos criados dos clientes e recomeça a sua vida.
Se antes fora um cavalheiro de hábitos requintados, um exemplo de aplicar a melhor etiqueta social da Europa e conviveu com a sociedade mais nobre do Velho Continente, lentamente o Conde adaptar-se-á à nova realidade, aproveitando o que de melhor pode usufruir no seu hotel descobrindo recantos antes vedado a ele como hóspede, deste modo vai cativando amizades nos empregados, estabelece contacto com hóspedes pela sua habilidade diplomática e cultura, inclusive ensina regras a personalidades do novo regime e assim sobrevive ao longo de décadas, onde se vai descobrindo certas mudanças no país, alguns pormenores absurdos do regime e inclusive desenvolve amizades, uma relação amorosa e até consegue educar uma criança.
Com uma escrita que procura conciliar a delicadeza do estrato aristocrático e típica do estilo anglo-saxónico, conciliada com uma ironia subtil que permite criticar muitos aspetos da União Soviética sem ofender ideologicamente o leitor e sem sobranceria para com a pátria e cultura russa, o Conde Rostov, como gentleman, consegue uma vida de charme e luxo numa sociedade onde os problemas eram transversais à maioria da população, mas sem deixar de ser um prisioneiro político exilado na sua pátria que ama. Uma leitura leve, cheia de bom-humor, boa-disposição e agradável mas inteligente bastante diferente da maioria da literatura contemporanea.


sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

sábado, 14 de julho de 2018

"A Geração da Utopia" de Pepetela


Excertos
"Uma sociedade onde o Estado ia abolir as classes, segundo Aníbal, uma sociedade sem Estado pois este tendia a ser o manto sob o qual novas classes se criaria, segundo Marta."

"A tal revolução que tem à frente não vai ser como ele imagina. Nunca nenhuma é como os sonhos dos sonhadores.... As revoluções são para libertar, e libertam quando têm sucesso. Mas por um instante apenas. Nos instante a seguir se esgotam. E tornam-se cadáveres putrefactos que os ditos revolucionários carregam às costas toda a vida."

"O problema é esse, o Estado comporta-se como o pai e o filho tem de lhe contar tudo, já não tem direito à privacidade... Não há lugar para sentimentos, relações humanas, apenas relações de poder. Os homens deixaram de ser homens..."

"- Enganou-se numa coisa, colocou a questão numa alternativa. Eu morri e desencantei-me. Os dois caminhos num só.
- O desencanto é sempre uma morte, não é?"

"quisemos fazer desta terra um País em África, afinal apenas fizemos mais um país africano."

Fui agradavelmente surpreendido por este romance "A Geração da Utopia" do angolano Pepetela que eu sabia retratar uma certa juventude angolana universitária em Lisboa que foi "apanhada" pelo início da guerra colonial e aderiu à causa independentista em torno do MPLA, sendo que o próprio escritor foi um militante deste movimento pró-soviético.
O livro narra quatro episódios, separados no tempo, em torno de vários dos jovens que estudaram em Lisboa:
- 1961 em Lisboa, o despertar dos jovens para a luta da independência de Angola, as suas preocupações de cidadania quando brotam as paixões físicas e ideológicas, fieis à sua terra e povo, mas reféns numa metrópole controlada pela ditadura de Salazar.
- 1972 no leste interior de Angola, quando na luta independentista já reinava o cansaço nos primeiros combates, nasceram as desconfianças sobre os que tomaram as rédeas da guerra e surgiu o despertar dos oportunistas para salvar a pele ou subirem na hierarquia à custa do povo e do guerrilheiro.
- 1982 perto de Benguela, com a guerra civil no auge, numa Angola já independente, onde se reflete o desencanto com os resultados da revolução e se denuncia o Estado como o polvo que com o seu sistema esmaga o povo e impede o cumprimento da promessa de dar às pessoas um futuro melhor.
- 1991 em Luanda, quando a democracia vingou e a causa comunista passou a ser tabu, há a adesão ao liberalismo económico mas este continua a ser pasto para a subida dos oportunistas, os mesmos agentes agora reconvertidos, enquanto o povo continua na miséria e é amansado por táticas de alheamento coletivo.
No final fica um conjunto de estórias que montam a história de Angola, fazem o elogio dos idealistas e homenageiam aqueles que sofreram pela causa do País, sem escamotear o papel dos que da mesma geração fizeram emperrar esta revolução e como estes se vão acomodando aos tempos, sendo que a nova geração, filha da utopia, já tem um passado para refletir os erros cometidos e discutir o futuro, cujas más sementes já se viam a germinar em 1991 e os frutos se podem perceber hoje pelo que se sabe de Angola no presente.
Assim, Pepetela torna-se na voz da consciência de Angola com uma narrativa, que apesar de denunciar as causas da desilusão, consegue construir um livro fácil, até com algum humor subtil e o tom alegre africano num romance bem escrito que junta vocabulário das línguas bantas e alguma sintaxe angolana. Gostei e vale a pena ler, até porque nos ensina a compreender o desvirtuar das boas causas.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

9 de Julho de 1998 - 2018 - 20 anos após o Sismo no Faial

Eram 5h19m da madrugada do dia 9 de julho de 1998 quando a Ribeirinha, onde vivo e vivia, foi atingida por um sismo de magnitude 5,9 Richter e devido a ser o local mais próximo do epicentro, uns escassos 5 km, este alcançou a intensidade VIII-IX Mercalli, o choque destruiu a povoação ao ponto que se vê nas fotos abaixo:

Uma destruição de mais de 90% do parque habitacional da Ribeirinha, ainda mais significativa nos Espalhafatos, o outro lugar da freguesia. Cinco mortos numa população de cerca de 500 habitantes, 1% dos residentes e isto pode dar a perspetiva de quantos seriam se tal destruição tivesse avassalado uma cidade de muitos milhares ou milhões de habitantes. Houve mais 3 óbitos nas localidades contíguas: Pedro Miguel e Salão, mas ligeiramente mais distantes do epicentro. Os danos estenderam-se por toda a ilha do Faial e ainda Pico e São Jorge.


Apesar de isolados por estrada, sem luz, água e em pouco minutos de outros meios de telecomunicação, a inter-ajuda no lugar da Ribeirinha das pessoas foi enorme, desde o auxílio na retirada de soterrados, ao apoio a feridos, passando pelo acalmar indivíduos em estado de choque; a verdade é que praticamente todos habitantes reunidos em torno do edifício polivalente recém-inaugurado por volta das 9 horas foi servida uma refeição ligeira com bolachas, pão, queijo, manteiga, leite e café fruto da partilha das instituições locais e dos residentes organizada por voluntários...pouco tempo depois começaram a chegar os primeiros socorros em virtude do desbloqueio das vias de acesso. Um dia difícil, mas onde a solidariedade imperou e foi a palavra de ordem.


Nos Espalhafatos, sem um local de acolhimento adequado e com vias internas também cortadas pela queda de pontes, foi mais difícil a organização das populações, mas a solidariedade foi a mesma, não faltaram exemplos de ajuda mútua e cooperação.


Uma data em que o programa de vida de todos os Ribeirinhenses, tal como também para muitos outros Faialenses, Picoenses e alguns Jorgenses, mudou para sempre, houve dor, mas houve solidariedade humana desde a primeira hora, naquele dia não houve divisões políticas... estas vieram mais tarde e não tiveram origem no Povo e geraram outros problemas; mas neste 9 de Julho de 2018, 20 anos depois daquela catástrofe, quero lembrar a coragem e a cooperação desta gente, sem esquecer os que partiram e para todos eles a minha homenagem.


Agora, 20 anos depois, ainda há cicatrizes, físicas e psíquicas, há património perdido e até subsiste algum por recuperar, mas no essencial a vida das pessoas e da comunidade reconstituiu-se e tomou um rumo. Ficou a memória da Ribeirinha e dos Espalhatos anterior ao sismo em muitos então jovens e adultos. Hoje as crianças olham a freguesia como se esta sempre tivesse sido assim e parecem-me com todas as condições para virem a ser felizes como nós antes do sismo fôramos sempre sujeitos aos percalços da natureza e da história e é esta a minha homenagem às gentes que aqui vivem.

Fotos cedidas há uma década por Conceição Quaresma desta freguesia para este blogue.

terça-feira, 19 de junho de 2018

"Meridiano 28" de Joel Neto


Excertos
"A primeira impressão que José Filemom teve da Horta foi essa: a de uma cidade que entardece à sombra, como lhe houvessem amputado metade do dia...
...
Na manhã seguinte, porém, uma luz radiosa veio dos lados do Morro da Espalamaca, projectou-se no mar, incendiou as arestas do casario e as torres das igrejas, e o Pico explodiu em frente, imperial, como restos de uma civilização que uma tragédia tivesse devolvido à superfície."

"Na sua cidade, naquela pequeníssima cidade atirada para os altos encapelados do oceano, escondia-se, afinal, uma chave para entender o seu país."

"Muitas vezes os crimes mais hediondos são cometidos a pretexto dos sentimentos mais elevados."

Não me é fácil falar do romance "Meridiano 28" lançado este mês pelo escritor Açoriano Joel Neto. Não só porque cruza várias estórias em diferentes tempos, locais e em estilos distintos (o que dificulta qualquer sinopse sem desvirtuar a ficção e sem revelar a trama); como também estas estórias retratam a cidade Horta e mostram o seu papel fulcral no mundo ocidental nos anos que antecederam à II Grande Guerra e durante esta  (o que moldou o seu carácter cosmopolita liberal e a transformou numa urbe muito maior e mais importante que as suas dimensões físicas); e ainda porque o autor não perde a oportunidade para expor a ilha durante o vulcão dos Capelinhos já em 1957/58 e até faz várias "selfies" dele com a Horta nos tempos atuais (mostrando o que esta é agora em 2018) e com tudo isto, além da estória, faz História.
Importa desde já deixar claro que este romance escrito por um Terceirense e cuja trama se centra na Horta, não é um livro regional, é uma peça literária de categoria nacional que ombreia com obras contemporâneas de referência no País e digna de traduções fora da lusofonia. É uma obra que pela sua profundidade e riqueza literária é universal e é literatura nascida nos Açores destinada ao mundo, tal como já fizeram outros escritores de renome em relação às suas terras: Victor Hugo com Paris, Érico Verríssimo com o Rio Grande do Sul e Eduardo Mendoza com Barcelona, só para citar alguns exemplos do passado ao presente.
Ao nível da trama, a Filemom, nascido no Faial, desenraizado da sua terra natal e gestor de um site de citações literárias, é encomendado a biografia de alguém que lhe é próximo e terá desmascarado um criminoso nazi refugiado na Horta. Na sua investigação, ele tem acesso a cadernos diários do pretenso herói, desloca-se à ilha e descobre a pujança social e cultural desta terra onde escalaram as rotas dos hidroviões entre Europa e os EUA, visitada por estrelas mundiais e onde residiam os locais e famílias inglesas, americanas, alemãs, entre outras nacionalidades, por aqui estarem sediados os nós de amarração dos cabos submarinos das empresas comunicação telegráfica entre o velho e o novo mundo, gerando um intercâmbio difícil de igualar noutro ponto do planeta numa cidade tão pequena. O investigador vai assim descobrindo este passado real, com estórias de amizades, tradições, paixões, amores polémicos que mexem com preconceitos, ciúmes e até ódios, concebendo uma grande estória, enquanto o narrador toma ainda contacto com a realidade desta terra hoje e algumas das suas referências atuais. Em paralelo, a vida pessoal deste entra num turbilhão complicado de relações pessoais, problemas de consciência e obrigações. No seu trabalho abrem-se ainda portas para memórias do seu passado em Porto Alegre (RS) e investigações na Alemanha, Praga e Nova Iorque.
Pode-se dizer que além das personagens da trama, há uma personagem principal no livro: a cidade da Horta, no que foi até meados do século XX e é presentemente. Uma cidade descrita paisagística e socialmente, que foi centro dos principais acontecimentos mundiais, que recebeu influências das mais diversas nações do ocidente e assistiu de "bancada" à II Grande Guerra e viu em direto confrontos reais da batalha do Atlântico, num espaço onde pessoas de povos inimigos mantinham o convívio, o respeito e a amizade junto com os locais. Joel Neto disseca tão bem estas personagens que mostra porque a Horta foi designada a mais pequena das grandes cidades do mundo.
Ao nível da escrita, Joel Neto é igual a si próprio, não embarca na moda da escrita criativa que embrulha estórias banais numa revolução de sintaxe e figuras de estilo. Tal como no seu anterior romance: Arquipélago, ele escreve de forma escorreita, sem exageros estilísticos, embora a forma se vá adaptando ao serviço da narrativa, muda se são transcrições do diário, reflexões do narrador, descrições sociais ou geográficas ou desenrolar de ações e assim constrói uma grande estória.
Um dos aspetos interessantes do livro é a inclusão no início de alguns capítulos de paráfrases de grandes obras da literatura mundial. Chega a ser desafiante determinar a fonte, pois recorda-nos outras obras lidas, embora em certos casos o autor dê pistas claras e noutros, não tivesse o biógrafo um site de citações, estas são bem referenciadas. É nesta intertextualidade que ao mostrar a vida social na Horta no auge de brilhantismo somos brindados com entradas de Tolstoi, o que enche de orgulho qualquer Faialense.
Sendo Geocrusoe um blogue que nasceu como de divulgação geológica, não poderia deixar passar as muitas menções ao enquadramento geotectónico dos Açores, mesmo que expostas com um saber presciente da personagem na sua juventude naturalista.
História e estória, onde se cria uma magnífica trama em torno de paixões, sonhos, ciúme e ideologias, narrado de modo emocionante, com trabalho detetivesco e surpresas até ao final. Cruza-se realidade histórica e extrapolam-se factos. Um romance que é um excelente e grande livro e uma magnífica homenagem à cidade da Horta que, sendo diferente, complementa a reconhecida obra "Mau Tempo no Canal" de Vitorino Nemésio. Como Faialense, não me limito a dizer que gostei muito, tenho, sobretudo, que agradecer ao escritor por esta grande obra sobre a Horta.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Biografia de "Pierre Elliot Trudeau" por Nino Ricci


Foi a leitura deste livro de ficção de Nino Ricci que me despertou interesse em ler outras obras deste escritor e comecei pelo género biografia, neste caso com um ebook, em inglês e referente à vida do primeiro-ministro mais emblemático da história do Canada: Pierre Trudeau, pai do líder do atual Governo Federal Canadiano Justin Trudeau.
Nunca lera biografias não ficcionadas, o presente livro/ebook é a história e a análise da vida de Pierre Trudeau com destaque dos aspetos mais marcantes que mudaram a sua forma de pensar, bem como as suas atitudes e decisões públicas que moldaram o Canada contemporâneo.
Filho de uma família conservadora católica de Montreal, Pierre foi educado num colégio religioso para famílias abastadas que induzia nos seus alunos a cultura francófona e o catolicismo como marcas de identidade nacionalista do Quebec para deste modo abrir uma frente ideológica de combate a facção anglo-saxónica e protestante minoritária na província mas fortemente maioritária e dominante ao longo de todo o País. Assim surge um jovem preparado para o combate separatista, ultraconservador e manipulado religiosamente que se alia a movimentos deste cariz e por vezes de cariz até fascista.
É este Pierre que depois vai estudar em Havard, Sorbonne e Londres e descobre uma realidade exterior ao seu meio fechado e retrógrado, contacta então com ideias diferentes, por vezes mesmo radicais de esquerda e passa a assumir-se como cidadão do mundo, fortemente influenciado por vários líderes filosóficos que lecionavam por onde passara. Por opção sua, vai à descoberta de outros países interditos ao seu mundo colegial: União Soviética, China e regressa mudado à sua cidade.
Pierre, uma esperança para o movimento elitista e separatista, de repente assume a defesa de mineiros numa greve, é ostracizado pelos influentes, funda um jornal onde expõe ideias revolucionárias como a não entrada do Estado na vida privada dos cidadãos, aproxima-se do partido federal liberal, é admirado por governantes de então e mais tarde lidera o partido e chega a Primeiro-ministro. Promove então uma revolução cultural e abre uma frente em prol do federalismo que entre em guerra direta com os mais aguerridos secessionistas francófonos, católicos ultraconservadores.
O líder do País, já de meia idade casa com uma jovem que por sua vez é alvo das revistas de socialite, o que perturba a estabilidade do casal e faz tremer ideias conservadoras por uma atitude extrema sua. Trudeau muda a constituição do Canada, assume o bilinguismo oficial e o multiculturalismo, reforça o papel social no Estado, ganha eleições, perde, volta a ganhar, mas a sua marca humanitária e de união são a referência do Canada contemporâneo.
O livro está brilhantemente escrito, de fácil leitura e por vezes é mesmo emotiva a forma como Nino Ricci expõe os dilemas ideológicos dele e da época, religioso e libertário nas várias fases da vida de Pierre Trudeau, tornando esta biografia cheia de vida, o que justifica o sucesso que foi o livro no Canada, apesar do seu  género literário. Gostei muito, o ebook pode ser acedido aqui.

sábado, 14 de abril de 2018

"Pátria" de Fernando Aramburu


Excertos
"Dizer-te que peço desculpa, mas que não posso te cumprimentar porque isso me iria trazer problemas. Mas se te vir na rua quero que saibas que te estou a cumprimentar em pensamento."

"A mim mandam-me executar um fulano e eu executo seja quem for. A sua missão não era pensar nem sentir, mas sim cumprir ordens. Os que depois criticam não entendem isto."

"Pedir perdão exige mais coragem do que disparar uma arma, do que acionar uma bomba. Isso qualquer um faz. Basta ser jovem, crédulo e ter o sangue quente."

"Não estarás a insinuar que a paz está em perigo porque a viúva de um assassinado vem passar umas horas a sua casa?"

"Pátria", do hispano-basco Fernando Aramburu, foi um livro que antes de estar traduzido já eu estava ansioso por ler. É um retrato das tensões sociais ao longo de décadas entre gente amiga numa povoação onde todos se conhecem no País Basco sobre a pressão do terrorismo separatista da ETA, entra ainda uns anos pós acordo de paz já no século XXI, mas em que as feridas ainda sangram. Um romance que tem sido um sucesso editorial em Espanha, mesmo agora sobre pressões secessionista na Catalunha.
Miren e Bittori foram as maiores amigas desde a infância na sua terra nos arredores de San Sebastián, ambas casaram e suas as famílias continuaram a partilhar a mesma amizade e cooperação, até que um dia o filho de uma se torna membro da estrutura terrorista da ETA, depois o marido da outra é ameaçado e mais tarde assassinado, isto numa terra onde todos se conhecem, os jovens convivem  em grupo e a pressão separatista considera inimigo quem não assume a defesa desta guerra.
A narrativa vai-se completando com as descrições de cenas passadas ao longo de décadas, onde de coabitam os encontros/desencontros, o amadurecimento das amizades/inimizades, o domínio do medo/preconceito com a opção pela sujeição à pressão ou pela tentativa de ultrapassar, o crime, as vítimas e as feridas sangrantes com a benção de uma igreja comprometida.
A escrita é muito fácil, por vezes com um narrador externo omnisciente e sarcástico que nos dá a conhecer os sentimentos dúbios, frequentemente encadeados como no parágrafo anterior, que une a hipocrisia das situações com a realidade oculta. Outras vezes é tenso, contudo, mesmo nos momentos mais violentos, não é agressivo, pois há sempre um tempero que não ultrapassa uma certa sobriedade e distanciamento de forma ao leitor sentir os vários aspetos em conflito sem tomar uma opção inequívoca por uma das partes, mas sem desculpar culpados.
Adorei o livro e li-o de rajada, recomendo a qualquer leitor pela sua facilidade de leitura e retrato real do que é uma sociedade extremada que se deixa dominar pela violência que impede de ouvir o outro de quem é amigo apenas por já não haver condições sociais de conviverem com a diferença, mesmo que esta seja simplesmente não estar assumida ou não fazer parte dos objetivos.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"A obra ao Negro" de Marguerite Yourcenar


Citações
"roubar os segredos da morte para lutar contra ela, utilizar as receitas naturais para auxiliar ou contrariar a natureza, dominar o mundo e o homem, refazê-los, talvez criá-los..."
"Hei de morrer um pouco menos estúpido do que nasci"
"Uma onça de inércia pesa mais do que um alqueire de saber"

"A obra ao Negro" é o terceiro livro que leio de Marguerite Yourcenar, escritora de culto de nacionalidade e língua francesa, nascida em Bruxelas e também cidadã norteamericana, sendo que  "Memórias de Adriano" é um dos livros da minha vida, pelo que iniciei este romance com uma bitola elevada, apesar de bom, o estilo e  a mensagem são bem distintos um do outro.
O livro narra a vida do flamengo Zenão e a visão da sociedade europeia no século XVI, a época da reforma e contrarreforma religiosa, vista pelos olhos e a razão do protagonista que representa o espírito do renascimento ainda enraizado pelo misticismo medieval mas a libertar-se pela ânsia do saber científico, apesar de todos os riscos que isso representava para a sobrevivência deste filósofo, médico, investigador/alquimista e intimamente ateu e sodomita, quando as religiões, as cismas e a política partilhavam o poder e regiam a justiça segundo os seus interesses e ideias.
Zenão, nascido bastardo de uma jovem de família poderosa da banca da Flandres que pertencia à católica Espanha, educado por um cónego e apaixonado pelos segredos da natureza, filosofia e tecnologia, não convive bem com nenhuma das ideias e poderes estabelecidos, parte pelo mundo correndo riscos, enquanto tratados científicos anunciam importantes descobertas ainda enraizadas no pensamento religioso e quando este está em conflito sangrento e aliado a interesses de dinastias que disputam espaço na Europa. Assim, o protagonista terá contacto com tudo isto em várias partes do velho mundo e relações difíceis de familiares conservadores e reformistas e estará sempre sob a ameaça da condenação por heresia, sobrevive uma vezes a coberto de identidade falsa, outras protegido por religiosos tolerantes com quem tem sábias discussões e outras em ações de risco contra tudo e todos, como médico, aliado das vítimas e com a sua moral privada.
A obra densa de informações históricas arrumadas ao interesse da trama, dá-nos um retrato negro dos medos e conflitos associados à mudança do misticismo medieval para o renascimento. As cismas religiosas violentas, a inquisição e as descobertas marítimas numa época que hoje parece cheia de luz, mas que se nutria de terror e da coragem para mudar o estado de coisas. Nem Papa, nem Lutero são heróis, tudo está em mudança e luta pelos seus interesses. Zenão passa por isto à espera de se tornar vítima que ninguém como ele poderia escapar e é uma das personagens mais fortes de toda a literatura que já li.
Gostei, mas a densidade de informação e a escrita introspetiva do livro não o torna fácil a todos os leitores, parece um quadro negro de Hyeronimus Bosch ou de Pieter Bruegel, mas sem uma mensagem de governar para um mundo melhor que caracteriza as Memórias de Adriano, que prefiro, mas sem dúvida é um bom e culto romance.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

"O Poder e a Glória" de Graham Greene

Citações do livro
"O medo e a morte não eram as coisas piores, por vezes, a continuação da vida era um erro"
"A infelicidade também se podia tornar num hábito, tal como a piedade"
"Até um cobarde tem o sentido do dever"

Foi o meu regresso ao escritor inglês, mais popular pelos livros de espionagem, Graham Greene desde que o lera na minha juventude e, novamente, com um livro de ficção centrado em questões religiosas, tema de várias obras após a sua conversão, em adulto, ao cristianimo católico. "O Poder e a Glória" é o resultado da sua visita ao estado de Tabasco no México para conhecer a perseguição ao catolicismo (1928-34) que proibiu todo o clero de exercer qualquer culto ou qualquer manifestação de fé pelas pessoas sob a ameaça de crime de traição punível com a morte.
O romance descreve a resistência do que seria o último padre sobrevivente neste Estado após a interdição do clero e da oferta aos sacerdotes para renunciarem o seu exercício e se casarem com o benefício de uma pensão, o que levou ao fuzilamento de muitos, a fuga da maioria para outras partes do México, enquanto o protagonista clandestinamente mantém vivo o seu sacerdócio para preservar a fé na região em oposição a outro que opta pelo casamento e pensão.
Tudo seria uma simples perseguição, não fosse Graham Greene escolher como herói um padre que se torna alcoólico, que numa paixão tem uma filha que ama, que se esforça por obter as condições de prática sacerdotal e descobre como se acomodara aos hábitos do clero quando fora livre, sendo agora uma ameaça às pessoas que quer apoiar na sua salvação e espalha a morte, ou seja, um anti-herói, que até reconhece virtudes ao colega renegado, mesmo assim, ele não desiste da sua fé, da sua luta e das suas obrigações até deixar-se cair nas malhas dos seus perseguidores de quem já escapara algumas vezes para em consciência salvar a alma de um ladrão.
É neste dilema pessoal de vocação sacerdotal e fé de alguém que se considera indigno para as suas funções que a obra glorifica este homem, que em situações de humilhação em humilhação, ora cheias de ternura, ora de horror  e outras onde só um entendedor da essência do culto, como a necessidade de comprar vinho de uva onde impera a lei seca e, clandestinamente, lhe propõem em alternativa brandy, que resiste e é despojado do seu produto, mas que no seu dever se sente um condenado que salva e é nisto que se percebe a grandeza deste livro que foi um sucesso em meados do século XX. Uma grande obra de introspeção que opõe a força da fé à fragilidade humana dentro de um padre. Gostei muito, mesmo sendo uma obra que implicitamente assume muitos dos defeitos do catolicismo, compreende-o muito bem.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Resistência" de Julián Fuks


O pequeno romance "A Resistência" do escritor Brasileiro Julián Fuks, filho de refugiados políticos Argentinos, o mais recente vencedor do prémio literário José Saramago, é uma obra em estilo de coletânea de curtas memórias do narrador sobre a sua relação com o irmão mais velho, adotado quando recém-nascido pelos pais, e a gestão das questões em torno da integração do mesmo no agregado de acolhimento. Esta situação permite em simultâneo narrar a história de toda a família que, por coincidência, tem grande similitude com a do próprio escritor: também são pais refugiados da Argentina em São Paulo, servindo esta técnica para denunciar alguns dos horrores da ditadura de onde saíam e a curiosidade de se fixarem num país, ainda não democrático, mas onde a simpatia Brasileira permitiu adotarem a nova terra como sua.
A escrita toma a forma de uma sucessão de crónicas brilhantemente escritas, com ternura, elegância e poesia onde o narrador as inicia servindo-se de uma frase ou palavra como mote para reflexões em questões psicológicas, de consciência, de perseguição política, de nostalgia do refugiado e da integração num meio diferente, criando uma espiral de pensamentos e frases fortes que montam um rendilhado em torno da ideia central dessa memória, enquanto o conjunto dos textos forma um caleidoscópio que cria uma visão multicolorida de grande sensibilidade estética dos vários problemas expostos no romance.
Um pequeno livro onde Julian lapida a língua portuguesa e demonstra como ela pode brilhar tanto quanto um diamante e soar com a sonoridade de uma sonata maravilhosa. Uma narrativa temperada pelo amor humano que mostra como a ternura também pode ser uma ferramenta de denúncia das dificuldades da vida e da injustiça política. Gostei muito desta pérola literária e recomendo a sua leitura.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

"Focos de Tensão" de George Friedman


"Focos de Tensão" de George Friedman, filho de uma família judaica do leste da Europa refugiada nos Estados Unidos, é um ensaio onde o autor, académico, procura evidenciar que a paz na Europa não é um facto definitivo, existindo muitos aspetos em que este continente possui tensões que podem fugir ao controlo dos seus dirigentes, nomeadamente: nacionalismos (o caso da Catalunha nem é lembrado), interesses económicos, receios, crenças e particularidades que são explosivas e cujo um incidente pode levar a guerras.
Assim, após se compreender os caminhos que levaram a Europa a dominar o mundo cultural, política, económica e militarmente, Portugal não é esquecido, este continente, pela sua filosofia e tensões internas, em 3 décadas no século XX tornou-se marginal e desinteressante para as várias potências do século XXI, um mero rico fraco, incapaz de se defender de ameaças de guerra ou de se impor para salvaguardar os seus interesses: um cadinho cujos equilíbrios em que assenta a sua paz, inclusive na União europeia, a qualquer momento pode entrar em rotura. Um ensaio que é uma lição de história e um aviso aos europeus. Li-o em formato ebook, mas existe também a versão em livro de papel.