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segunda-feira, 8 de abril de 2019

"As sete mulheres de Barba Azul" de Anatole France

Excerto
"A minha avó dizia que a experiência não serve, na vida, para nada e que permanecemos, no que somos, sempre os mesmos."

O pequeno livro com o conto "As sete mulheres de Barba Azul" do francês Anatole France vencedor do prémio Nobel de 1921. Razão porque despertou curiosidade passar por mais um autor com este galardão.
Neste conto Anatole France inverte o sentido da estória tradicional e em vez de um Barba Azul  mau, sanguinário e assassino em série das suas seis anteriores mulheres, mas descoberto pela curiosidade da sétima, temos aqui um bom e ingénuo nobre que não aprendeu nada com as mulheres que foi tendo e o enganaram sucessivamente e que as foi perdendo por diversas causas inocentemente até à última que lhe prepara a cilada final.
Bem escrito e a narrativa talvez pretenda dizer que a própria humanidade ininterruptamente não se corrige com os seus erros do passado, repetindo-os sem aprender com a história.
O conto pode ferir alguma sensibilidade feminista pelo facto de na trama todas as mulheres serem más, mas penso que não é essa a intenção do escritor e sim a recomendar para as pessoas não cairem sempre nos mesmos erros e não deixa de ser um pequeno e barato livro divertido.

sexta-feira, 1 de março de 2019

"Luz em agosto" de William Faulkner


Excerto
"A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo do que recorda, por mais tempo até do que o conhecimento se interroga. Sabe, recorda, acredita num corredor num prédio de tijolo vermelho, grande e comprido, decrépito, frio e povoado de ecos..."

"Lembro-me de uma vez lhe ter dito que há um preço a pagar por se ser bom tal como o há por se ser mau; há sempre um custo. E são os bons que não podem recusar-se a pagar a fatura, quando ela chega."

Voltei pela segunda vez a William Faulkner, escritor norteamericano laureado com o Nobel da literatura, com este "Luz em Agosto" que conta a vida várias personagens de terras diferentes do sudeste dos Estados Unidos que se cruzam na cidade de Jefferson (fictícia), estado do Mississipi, num momento fulcral e de grande tensão para as mesmas, um local marcada pelo ódio racial, o radicalismo religioso conservador e as feridas resultantes da derrota do sul esclavagista perante o norte abolicionista e liberal.
Lena, uma adolescente, grávida e solteira parte do Alabama em busca do pai do seu filho chegando a Jefferson num dia de um incêndio de uma casa debruçada sobre a cidade. Joe é um irresponsável pouco inteligente que parte secretamente da sua relação clandestina e vai trabalhar para uma serração em Jefferson e é acolhido pelo colega de trabalho Natal (Christmas). Este por sua vez é um órfão fugido de uma família adotiva ultraconservadora que não consegue suportar a sua suspeita de ter sangue negro, vive numa cabana de uma solteirona descendente de uma família do norte, abolicionista, com um passado marcante, dona duma moradia sobranceira à cidade, ambos estabelecem uma relação amorosa secreta que acaba em crime e incêndio. Byron, de meia-idade, é um pacato trabalhador da mesma serração que acolhe a grávida, apercebe-se da sua situação de mãe solteira,algo não aceitável na comunidade, apercebe-se de quem é o pai e intimamente apaixona-se. Hightower é um ex-pregador metodista cuja admiração pelo avô morto na guerra civil é o cerne da sua divulgação da apostólica em detrimento dos temas da fé o que  associado a um escândalo com a sua mulher o leva à excomunhão, só que se torna no elo entre toda esta gente, apesar do seu conflito entre fé, dever, memória e descrença. Tudo isto atinge o climax no momento do assassínio da solteirona com a fuga de Natal, a perseguição, o parto, o encontro da parturiente com o pai e a sua irresponsabilidade numa cidade onde ódio racial e religião impedem o bom-senso.
Um retrato da América profunda, complexada e disfuncional no período entre as duas grandes guerras, cheia de feridas históricas.
Faulkner tem uma escrita própria, com um estilo literário complexo denominado fluxo de consciência que marcou o modernismo no após a 1.ª grande guerra, onde sequencialmente, temos narrativa da estória, pensamentos das personagens, reflexões do autor, diálogos, saltos no tempo e comentários numa cadeia de parágrafos longos que exigem concentração por na mesma frase sujeitos, predicados e factos estarem cruzados subtilmente ou muito distantes, parecendo que houve um lapso gramatical mas depois o leitor compreende a lógica da sintaxe.
Apesar de não ser sempre fácil, a escrita de Faulkner está cheia de beleza com metáforas originais, reflexões e personagens complexos e cheios de conflitos internos, mas obriga a um esforço do leitor por autor dispersar momentos e focos distintos no encadeado da narrativa que só muito mais tarde se cruzam, se completam e se tornam compreensíveis como a montagem de um quebra-cabeças.
Poucas personagens na literatura são tão densas e profundas como algumas das de Faulkner, Natal é uma do expoente máximo desta criatividade. Chega a ser suicida ao completar-se como um branco racista, orgulhoso e supremacista junto com a sua luta na vontade de alimentar a suspeita do seu sangue negro que o revolta e o obriga a vingar-se das humilhações de raça inferiorizada e a lutar pelo reconhecimento do direito à sua liberdade e igual dignidade. Outras personagens neste romance atingem níveis quase tão elevados como o dele neste conflito interno que os divide, une e os completa.
Confesso, gosto muito desta luta dentro da beleza do texto que está cheio de imagens parciais refletidas como por uma bola de espelhos, onde os retratos montados por Faulkner compõem um quadro final excelentemente estruturado com uma mirídade de peças que pareciam desencaixadas, mesmo que às vezes me irrite com as cambalhotas e desvios que sou forçado a dar ao longo da narrativa.
Um grande escritor, um génio e um expoente máximo da literatura que ao ser galardoado com o Nobel, reforça a credibilidade deste prémio e o honra por o ter reconhecido e premiado. 

sábado, 9 de fevereiro de 2019

"Mistérios" de Knut Hamsun


"Mistérios" do noruguês Knut Hamsun, vencedor do prémio Nobel da literatura, apesar de publicado no final do século XIX parece uma obra muito mais recente pelo estilo de escrita, estrutura das personagens e trama. É um romance de uma modernidade que pode mesmo ter feito evoluir a história da literatura desde então, apesar de fácil leitura é incómodo, pois lança questões sobre como vivemos em sociedade, como somos, só que não nos descansa com respostas.
Nagel decide de repente desembarcar numa pequena cidade costeira de fiorde que o impressionou durante a estação de verão caracterizado por períodos de dias longuíssimos ou as populares noites brancas. Instala-se então num hotel e aos poucos vai conhecendo as pessoas daquela comunidade, sobretudo com o auxílio de um pobre inválido de um acidente profissional que é usado e abusado pela população em geral e chamado de Anão.
Aos poucos vão-se revelando as fragilidades e os defeitos pessoais mesquinhos de vários habitantes, bem como comportamentos estranhos, enquanto Nagel, propositadamente, vai dando uma imagem dúbia e contraditória de si mesmo e contando pormenores fantásticos e góticos da sua vida perturbando toda a população e semeando a desconfiança em cada um por sentirem ameaçados os seus segredos. Depois desta semente de discórdia ele próprio decide sair de cena, deixando-nos igualmente sem compreender esta forte personagem enigmática e cheia de mistério e sem dúvida tornando-se num fantasma na memória da cidade.
Bem escrito, Hamsun num discurso de contraditórios vai fazendo uma denúncia de vícios estratégicos de alguns líderes políticos europeus de então e vai colocando a nu a fragilidade humana no relacionamento social, onde reina uma hipocrisia pública perante defeitos privados que de todos são conhecidos, mas que as obrigações de bom relacionamento impõem e condicionam a sociedade, que podem tacitamente servirem de arma de arremesso sem ser efetivamente usados.
Deverá ter sido a originalidade de Hamun em desenvolver narrativas como estas que deve ter servido de justificação ao Nobel, pois olhando para a literatura da época é uma obra muito à frente do seu tempo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Babbitt" de Sinclair Lewis

Excertos
"A extraordinária, crescente e salutar estandardização das lojas, escritórios, ruas, hotéis, roupas e jornais através de todos os Estados Unidos mostra como o nosso modelo  de vida é forte e duradoiro."

"O cerne da sua religião era que era respeitável e benéfico para os negócios ser visto a frequentar a igreja; que a igreja impedia os elementos maus de se tornarem ainda piores..."

Terminei a leitura de "Babbitt" do norteamericano Sinclair Lewis, o primeiro escritor deste país a receber o prémio Nobel da literatura. Tanto a capa da imagem como a tradução não correspondem à da edição que li, pois o livro que comprei obtive-o num daqueles vendedores de obras usadas comuns em estações de transportes públicos em Lisboa e deduzo que o exemplar deve ter acompanhado uma coleção associada a um jornal ou revista com autorização da já extinta Difel.
Babbit é um agente imobiliário de sucesso, vive bem e acomodado à filosofia conservadora da ideologia capitalista dos EUA numa cidade imaginária (Zenith) de média dimensão, mas com problemas de choque de gerações em família devido a filhos mais progressistas e a uma mulher tradicional.
Babbit tem amigos e é membro das associações próximas do poder e neste meio envolve-se nos esquemas para os elementos pertencentes à classe dominante tirarem proveito das políticas públicas e opções estratégicas de gestão de Zenith. O seu grupo enfrenta a luta para erradicar a propagação de ideias mais igualitárias, reivindicações sindicais e teologias que defendam os mais fracos, ou seja, os considerados derrotados da sociedade por culpa prória, mas cujos sacrifícios e dificuldades servem de suporte aos senhores e seu bem-estar. Só que Babbit no seu coração tem ideais de justiça, simpatias por questões sociais e anseia por alguns prazeres, tentações que a seguir a sua vontade poderá ter de pagar muito caro face à pressão do meio que o cerca.
O romance tem uma evolução quase linear do dia a dia de Babbit e com isso faz um retrato, com um humor sarcástico e frio, do egoísmo e oportunismo da classe capitalista e dos empresários em ascensão na década de 1920 durante a lei seca. Insinua as estratégias dos dominadores para preservarem o seu comodismo, enriquecerem e esmagarem os argumentos de esquerda. Não se esquece de criticar as numerosas religiões criadas à medida dos interesses de grupo que proliferam no País e ainda é mordaz com as preocupações da moral puritana de então. É uma obra marcadamente de esquerda e agnóstica, embora estes dois mundos sejam denunciados pela hipocrisia dos ricos bem comportados, oportunamente "crentes" e de direita.
A escrita sem grandes artifícios de embelezamento é realista e ombreia com o tom de crítica irónica da sociedade que o autor quis retratar através dos ziguezagues, anseios e receios de Babbit e o romance vale sobretudo por essa caracterização e mordacidade das desumanidades do regime típico dos EUA. Um romance de fácil leitura que surpreende até à última página.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

"As Avenidas Periféricas" de Patrick Modiano


Excerto
"Conversa estúpida. Palavras ocas. Personagens mortos. Mas eu ali estava, com os meus fantasmas, e, se fecho os olhos, recordo-me que uma senhora de idade, com avental branco, nos veio anunciar que o jantar estava pronto."

Nunca ouvira falar do escritor de França Patrick Modiano até ao dia em que lhe foi atribuído o prémio Nobel em 2014 e não me despertou curiosidade para o conhecer imediatamente. Uma promoção deste pequeno romance "As avenidas Periféricas" que também ganhara o também o prémio da academia francesa em 1972 foi a pedra de toque para contactar com o autor.
Sabia que o Nobel lhe fora atribuído pela sua arte de escrever acerca de memórias em França no tempo da ocupação nazi e este livro reúne esse aspeto. 
O narrador recorda cenas no bar de uma pensão numa aldeia de férias de campo na vizinhança de Paris, onde três homens conversavam, um deles era seu pai. Aos poucos vamos conhecendo estas personagens e a que se dedicavam, percebemos que a sua atividade levanta mais dúvidas sobre o carácter desta gente e das mulheres com quem convivem do que certezas, quem é este pai? uma incógnita de quem o filho se afastara e com quem aprendera técnicas de vigarice. O que fazem? Porque o pai se aproximou deles? Que riscos corre? Porque sente o filho a vontade de proteger o seu progenitor? Quem foram aquelas pessoas e como chocam aquela aldeia pacata? Que boatos os cercam?
A descoberta da verdade não é o mote do romance, mas as questões em reboliço, as tensões subjacentes, os sentimentos nesta aproximação filial e depois como terminou naquele país invadido que mais não era do que uma prisão desesperada para todos, inclusive gente fútil e pessoas de passado obscuro.
Curiosamente o romance recordou-me o modo como são expostas muitas personagens em António Lobo Antunes, o drama psicológico das relações humanas e apesar de não ter desgostado desta obra, prefiro na generalidade as do português que as pontas em aberto do laureado com Nobel neste seu livro.

sábado, 24 de março de 2018

"Os despojos do dia" de Kazuo Ishiguro


Excerto
"Certamente só pode ser um «grande» mordomo aquele que está em condições de apontar para os seus anos de serviço e dizer que empregou os seus talentos a servir um grande cavalheiro - e, através dele, a servir a humanidade."

Há vários anos recomendaram-me "Os despojos do Dia" como uma prova da excelências da literatura japonesa. Anotei, o tempo passou e não comprei, até que o último Nobel atribuído a Kazuo Ishiguro me levou à compra e então deparei-me com um livro sobre a sociedade conservadora inglesa, narrado pela personagem mais obsessivamente britânica que li até hoje e numa escrita magnífica, sem artificialismos estilísticos, mas de uma beleza pura que confere um equilíbrio difícil de encontrar num texto das memórias e ideias preconcebidas de um mordomo sobre a sua profissão.
Stevens sente que está a cometer pequenos erros profissionais desde a mudança para o seu atual patrão, um norteamericano que comprou a residência de lord Darlington, a quem ele sempre servira como mordomo até à morte daquele. Ao aperceber-se da tensão, o novo proprietário que pretende ir por uns dias aos Estados Unidos recomenda-lhe uma viagem para espairecer e conhecer a Inglaterra. Setvens que tem em mente aventurar-se a contratar uma ex-governanta que lhe escreveu, aceita a recomendação e faz uma viagem de uma semana até à cidade da antiga colega, ao longo desta reflete sobre o que são os deveres profissionais de um grande mordomo, como foi a sua vida ao entregar-se ao distinto lord, recorda outros que optaram por aproveitar a sua vida, enquanto ele cumpria servir alguém em quem pôs todas as suas esperanças para através dele estar ao serviço do mundo, só que que ao logo da deslocação vai-se apercebendo de falhas neste processo, vai encontrando gente que lhe desperta para outras realidades e descobre a beleza do mundo que o rodeava e desconhecia. Um verdadeiro exame curricular sobre a validade da sua vida e da sua forma de pensar.
A partir desta história fica claro que Ishiguro, filho de japoneses, nascido no Japão e imigrante na Inglaterra desde os 5 anos, é um escritor inglês, talvez o único aspeto nipónico neste livro é descobrir que a cultura conservadora inglesa e japonesa compartilham a sobriedade no mostrar os sentimentos, no falar e no agir em sociedade e ambos têm a obsessão dos rituais de pormenores no mais diversos atos comuns do dia a dia e nisto este livro é também uma mostra genial do que é ser"british".
Uma reflexão psicológica sobre o sentido da vida, mas relatada de uma das formas mais belas que li em literatura, com momentos onde o choque de sentimentos com o dever desrespeita a humanidade que há em cada um em nome de uma pretensa perfeição de saber estar em sociedade. Um livro de uma grande beleza e subtileza. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

"Os Milagres do Anticristo" de Selma Lagerlöf


O romance: "Os Milagres do Anticristo", da escritora sueca Selma Lagerlöf, a primeira mulher vencedora de um prémio Nobel da literatura, é uma obra que usa o fantástico tomando lendas e crenças para criar uma sátira e levar a uma reflexão sobre a confusão entre comportamentos sociais, ideologias políticas e fé religiosa.
A partir de uma crença generalizada na Sicília de que o anticristo terá a mesma aparência que Cristo e dum acontecimento que Selma conheceu numas férias naquela ilha, da substituição (à socapa) de uma imagem de altar por outra falsa; a escritora cria uma parábola de reflexão com humor e ironia sobre a confusão da ideia política de socialismo e da mensagem do cristianismo, ambientada à terra siciliana e com recurso aos mitos, religiosidade, disfunções sociais, vícios culturais, sede de justiça e paixões que formam a imagem coletiva do estilo de vida siciliano.
Na colina romana do Capitólio uma sibila profetizou a César Augusto que ali se adoraria Cristo ou o anticristo, mas não o homem fraco. Após a conversão de Roma ali construiu-se a igreja Aracoeli (eu conheço-a e para mim o seu interior é um dos mais belos e ricos da cidade), onde uma imagem de Cristo menino é venerada durante séculos para evitar a adoração do mal, mas no de 1800 uma inglesa ambiciona a sua posse e procede à sua troca, com o embuste descoberto fica com a falsa e viaja por muitos locais onde se operam maravilhas, até ir parar a um altar numa pequena e pobre cidade da Sicília e nesta comunidade esquecida muito muda com o patrocínio de uma devota apaixonada por um revolucionário e o sucesso do povoado é um exemplo para a região do Etna, até que se descobre a verdade das origens da imagem "milagreira" que só agia a favor do interesse mundano.
A escrita é muito fácil e cativante. A forma de explorar mitos e hiperbolizar acontecimentos fantásticos faz parte do estilo desta escritora nórdica, que neste romance deixa os de origem pagã da Escandinávia e pega nos associados às crenças Católicas e denúncia subtil dos defeitos estruturais da sociedade latina, com aproveitamentos religiosos e políticos nas questões de ideologia e fé, No fim a obra dá um grande abanão a quem vai pensando que se emite alguma opinião de fundo sobre religião, mas não deixa de ser mordaz a quem quer aproveitar o cristianismo para fins ideológicos. Como todo o romance que mexe com religião, valores e estilos de vida, o livro pode chocar, mas no fundo é uma excelente reflexão a brincar com a crendice popular e o aproveitamento político e social desta. Gostei muito.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

"A Queda" de Albert Camus


Acabei de ler "A Queda" o último romance do francês Albert Camus, prémio Nobel da Literatura.
Num bar de Amesterdão um cliente habitual reconhece a entrada de um francês estranho ao local, um compatriota, e logo o interpela, apresenta-se, traduz-lhe o pedido de bebida e começa a narrar a sua vida desde o início da sua carreira de advogado brilhante em Paris, associada a um comportamento farisaico cheio de amor-próprio, sempre disposto a transmitir uma imagem de bondoso e altruísta, para ser admirado em sociedade, mas também com uma vida de conquista de mulheres, permitindo correr a sua fama, para se aproveitar do género feminino e ser plenamente admirado por todos, isto tudo até a sua vida dar uma grande volta e se tornar num juiz-penitente exilando na capital da Holanda, atividade que explica no fim do livro.
A obra é uma reflexão filosófica sobre a futilidade do estilo de vida em sociedade em torno da idealização da imagem pública de sucesso e a consciência do mal que praticamos enquanto se é pessoa de bem e se julga o outro.
O texto está brilhantemente escrito, cheio de força e ritmo. Todavia, a narrativa só não é um monólogo por sabermos pelos comentários do narrador o teor de algumas intervenções do outro ouvinte. Isto torna a linguagem típica de um falador que abafa qualquer outra voz. A técnica fez-me lembrar o romance "Cadernos do subterrâneo" de Dostoievsky, simplesmente agora é a tentativa de socializar e de se salientar em sociedade e não de ostracização e autoflagelação do protagonista no livro russo... pelo menos até à queda e conversão em juiz-penitente de Jean Baptiste Clemance.
Apesar de ser pequena esta obra e da força do texto, a partir de certo momento esta pode tornar-se cansativa, tal como quando ouvimos alguém que ininterruptamente não se cala, só que este fala-barato diz muito e desmonta a futilidade desta sociedade sem valor e corrompida farisaicamente pelo mal.

domingo, 20 de agosto de 2017

"Terra Abençoada" de Pearl S. Buck



Acabei de ler "Terra Abençoada" de Pearl S. Buck, escritora norteamericana galardoada com prémio Nobel da literatura.
A estória passa-se na China no rural, distante dos grandes centros e deduz-se que deve ter início no final do século XIX e estende-se por várias décadas e embora se fale de uma revolução não é claro que seja a comunista, apesar de algumas das ideias emanadas por esta por vezes transpareçam na narrativa.
Wang Lung um pobre filho de um pequeno lavrador solicita ao pai que lhe arranje uma mulher, sem defeito, não bela e trabalhadora para o ajudar no seu sonho de se tornar proprietário de terras e lhe dar filhos. É-lhe então entregue uma escrava da casa senhorial mais importante da cidade próxima. Enquanto ele trabalha arduamente, compra terras, a companheira servilmente o ajuda e lhe dá filhos, tornando-se num pequeno caso de sucesso, mas vem uma seca e emigra só não volta a encontrar meios para melhorar-se, regressa com a família e vários acasos transformam-no num dos homens mais ricos da região e ele procura criar a sua dinastia alicerçada nos filhos homens numa sociedade onde as mulheres são vendidas e mais não são que meras reprodutoras, concubinas ou servas, por isso não admira que arranje outras nestas condições para sua casa e honrar o seu nome e assim o seu sucesso sempre ligado ao amor à terra e ao trabalho e em desprezo pelas mulheres serve para conhecermos a vida rural e a mentalidade daqueles tempos na China.
A narrativa é feita numa linguagem simples, fácil como de um relator que conhece os pensamentos das suas personagens mas não julga procedimentos, mesmo que choquem os ocidentais, a obra torna-se num primeiro volume de uma saga que noutros romances relatará a vida das gerações seguintes e foi um grande sucesso de vendas em meados do século XX. Gostei, não me fascinou a escrita, mas aprende-se muito do que era a China num passado pouco antes de se tornar na República atual.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"A um deus desconhecido" de John Steinbeck



"A um Deus desconhecido", do norteamericano laureado com o Nobel John Steinbeck, é um romance onde, além da ligação do agricultor à terra e das suas dificuldades de sobrevivência face à insegurança dos seus rendimentos e à dependência dos caprichos meteorológicos que habitualmente é abordado em muitas obras deste escritor, mergulha também nas raízes religiosas do homem colocando em confronto visão vertical do cristianismo com a os antecedentes animistas que explicam o equilíbrio da produção agrícola com uma perspetiva horizontal do espírito que atravessa todas as coisas da natureza.
Joseph Wayne de uma quinta do leste dos Estados Unidos sonha com uma nova herdade na Califórnia cuja terra está aberta à ocupação de novos exploradores, pede a benção ao pai para cumprir este objetivo que no ocaso da vida lha concede e promete estar sempre a acompanhá-lo de cima depois da vida o deixar. O protagonista parte para o oeste, adquire um prometedor campo, tem conhecimento de histórias de secas passadas, encontra indícios de cultos índios à fertilidade da terra e encanta-se com uma árvore na qual sente expressar-se toda força da vida do vale. A morte do pai leva os irmãos a se juntarem à exploração marcada pelo sucesso.
A visão de fanatismo religioso de um dos irmãos e as preocupações de um padre face os sinais animistas levam a que a sua árvore seja abatida e desde de então tudo declina: a seca, a fome a miséria, a migração, mas Joseph resiste no terreno que assumiu proteger, nem que para isso tenha de se tornar no sacerdote capaz de oferecer o supremo sacrifício a esse deus que dá a vida à terra.
Steinbeck para mim é o escritor que melhor mostra o modo como o agricultor vê o campo, a paisagem e interpreta o sinais meteorológicos e descreve a atividade da agricultura tradicional e a vida rural na primeira metade do século XX, fazendo tudo isto com uma escrita perfeita, plena de beleza e de metáfora originais e este romance cria imagens que são quadros perfeitos neste domínio. A temática saudosista de uma crença abandonada mas em pleno equilíbrio com a natureza em choque com uma fé contemporânea desenraizada da terra na alma de um agricultor leva a uma história onde o misticismo e as dúvidas sobre o espírito que controla o mundo atravessam toda a obra como uma luta entre o racionalismo, a religião, a ternura pelo que nos rodeia e o amor sob a a dureza da vida rural. Um pequeno romance que é uma pérola literária.

domingo, 5 de março de 2017

"A Ponte sobre o Drina" de Ivo Andric

O romance "A ponte sobre o Drina", do bósnio croata e prémio Nobel da literatura em 1961: Ivo Andric, tem como protagonista esta obra de arquitetura, ou seja, a história da sua origem, construção e posterior importância desta infraestrutura, que é Património Mundial da Humanidade, na vida da cidade de Visegrad, a qual serviu de ligação entre o mundo islâmico/turco e o mundo cristão/sérvio e entre a cultura ocidental e oriental da Europa através dos Balcãs desde meados do século XVI, até à sua primeira destruição parcial na I Grande Guerra Mundial do século XX.
À semelhança do anterior livro que li deste autor "A crónica de Travnik", o mesmo caracteriza-se por uma escrita muito elegante, rica de adjetivos e metáforas em série e por vezes prolixa de pormenores, o que dá lugar a uma narrativa que se desenrola a um ritmo lento, como a vida na província. No presente romance não há um protagonista, o narrador faz desfilar uma série de personagens desde o não ficcionado sérvio raptado pelos turcos, que ocupavam a zona no século XV, para torná-lo militar forçado ao serviço do islamismo, ou seja um janízaro, que se tornou Mehmed Paxá, com um cargo equivalente a Primeiro-ministro governando todo o vasto Império Otomano, o qual decidiu mandar contruir esta ponte na sua província natal, prosseguido com personagens reais e lendárias, bem como a origem das lendas associadas à sua construção e ao imóvel, para depois ao longo de três séculos relatar estórias relacionadas com cidadãos sérvios, bósnios e judeus desta cidade, desde as suas paixões, investimentos, desgraças, amizades e tensões entre os vários credos e com as mudanças de mão dos povos que ocuparam e lutaram pelo domínio ou independência desta zona multiétnica da antiga Jugoslávia: turcos, austríacos, sérvios e bósnios; tudo isto sempre à sombra desta imponente ponte que marcava o pulsar cultural e social de Visegrad, unia mundos tão diversos e assistiu a mudanças muito significativas no modo de viver das populações e assistiu ao nascer de novas tecnologias industriais.
Assim, numa obra única e como numa passarela desfilam aventuras de juventude, reflexões de velhice, discussões de ideias, gente ébria e sóbria, exércitos, amores, paixões, ciúmes, desconfianças, rivalidades e ódios que em momentos de paz são mutuamente toleráveis, por vezes ridículos ou causadores de incidentes divertidos, mas que em períodos de guerra atingem extremos de desumanidade que deixam marcas para sempre.
Um grande livro, que dá a conhecer a complexidade do que é a mistura multicultural da Bósnia-Herzegovina tendo como ponto de união esta ponte secular Património da Humanidade, isto num romance que é também uma obra de arte global.
Visegrad e a sua ponte (wikipedia)

sábado, 17 de dezembro de 2016

"A curva do Rio" de V. S. Naipaul


Acabei de ler "A curva do Rio" do britânico de ascendência indiana, nascido em Trinidade e Tobago e prémio Nobel da literatura: V. S. Naipaul. O romance narra a experiência de vida de amadurecimento de Salim vista pelos seus próprios olhos. Nascido na costa oriental africana, de uma família antiga e influente de ascendência asiática, de tradição muçulmana que na juventude ao não ver perspetivas de futuro na sua terra natal decide adquirir uma empresa de comércio numa cidade de um País no centro de África, recentemente descolonizado, onde as características do rio permitem que o local tenha um grande potencial económico de futuro e onde se cruzam as muitas culturas que nos últimos séculos moldaram este Continente: os africanos originais de etnias variadas, os colonos, os conselheiros ocidentais pós-independência, os povos há muito radicados a sul do Sara, os missionários, gente cristã, islâmica e das religiões tradicionais, todos sob a capa de um líder carismático da nova Africa cheio de vigor para criar um futuro glorioso, mas que com o tempo vai ramificando o seu poder para controlar todo o Estado e tirar proveito de todas as divergências, incoerências sociais, preconceitos e assim dominar, desculpar-se e alimentar conflitos que degradam a socieconomia e sua população inicialmente esperançada mas que vai enfrentando a desilusão, a corrupção e as guerras ao longo dos anos.
Eis um livro poeticamente escrito e sem ser agressivo, consegue retratar a violência humana e os vícios internos de sociedades vítimas de regimes opressivos e corruptos, onde oportunistas internos e externos condenam Povos inteiros e inocentes à estagnação económica e do conhecimento, comprometendo o evoluir de pessoas inocentes e os seus sonhos e, sobretudo, o futuro de nações inteiras... neste caso um continente inteiro espelhado neste País, através desta cidade situada na curva de um rio.
Este romance é efetivamente um magnífico retrato dos problemas da África subsariana no período pós-colonial, explica muito dos problemas que afetam ainda hoje esta zona do planeta e, apesar da negritude das questões denunciadas, consegue apresentar-se num estilo literário onde a poesia da escrita traça um quadro triste num belo livro. Gostei e recomendo a quem gosta de obras que dizem muito mais nas entrelinhas através de uma estética onde fealdade não estraga a beleza do saber expor com arte.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"O Lobo das Estepes" de Hermann Hesse


"O Lobo das Estepes" do escritor germânico Hermann Hesse, laureado com o prémio Nobel da literatura, apresenta o desencanto e revolta de um homem com a humanidade mas que inconscientemente anseia integrar-se no mundo que refuta e despreza por considera a sociedade rendida a um estilo de vida banal e medíocre nas suas relações em comunidade, curiosamente a sua luta para ultrapassar esta misantropia e depressão que o atrai para o suicídio desenvolve-se, precisamente, com a ajuda de pessoas de grupos sociais marginais e despromovidos, como prostitutas e músicos de salão traficantes de psicotrópicos, que lhe demonstram como valorizar e aproveitar a vida, desde a produção de arte genial e eterna, até tirar proveito da obra popular passageira capaz de só despertar o prazer frugal do momento e fundamental para temperar a vivência do ser humano e assim se justifica apostar na sobrevivência e adiar a morte inevitável em alternativa a se tornar num alienado vencido.
O romance tem uma espécie de prólogo editorial que pertence à obra, possui uma grande densidade psicológica e um conjunto de reflexões que evidenciam a contraditória luta íntima entre o aspirar ao sublime e a perfeição, exemplificados nas obras de Goethe e Mozart, e a importância de aproveitar o banal para tirar proveito da vida que justifique a sobrevivência numa luta de personalidades múltiplas de que cada indivíduo é na realidade composto, onde até mesmos génios como Goethe e Mozart são capazes de ser crianças e de amar a brincadeira, havendo assim que equilibrar a convivência na alma de cada um entre o desejo para os ideais e as tendências internas para os seus opostos.
Este romance, que é de facto uma obra-prima, antecede em muito a questão levantada por Umberto Eco em "O nome da Rosa": se o riso também faria parte de Deus ou era fruto do mal, sendo que Hesse, de uma forma diferente, evidencia que no ser humano a felicidade está em saber conjugar o sério, perfeito, maduro e imortal, com o divertido, tosco, infantil e passageiro que tempera a vida. Gostei muito do livro e a escrita é magnífica, os meus sublinhados de ideias interessantíssimas a reter surgiram em muitas das suas páginas, é uma obra que recomendo a leitura, mas a quem gosta de obras profundas e onde a facilidade do conteúdo exposto não seja um fator limitante ao prazer de ler.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

"História do Cerco de Lisboa" de José Saramago


"História do Cerco de Lisboa", do único laureado com o prémio Nobel da literatura de língua Portuguesa, José Saramgo, começa com um diálogo entre um revisor de textos e um autor de um ensaio de história em revisão relativo ao cerco de Lisboa no tempo de Dom Afonso Henriques na conquista da cidade aos mouros, um diálogo onde se reflete a importância do revisor naquilo que é publicado e se fala do sinal gráfico "deleatur" que indica corte de letras ou palavras no texto a publicar.
Após esta introdução, o revisor, contra todas as regras deontológicas da profissão, altera o texto do ensaio citado, não através de um deleatur, mas introduzindo um "não" numa verdade histórica que modifica o enquadramento deste evento dos inícios de Portugal.
Ficou então aberta a oportunidade para o romance passar a conter uma reflexão sobre o papel daqueles que intervêm no "moldar" a narração do passado histórico de um País, como, do protagonista ser desafiado a recontar a história do cerco de Lisboa alterada por aquela palavra, mas condicionado aos resultados finais do passado que moldam o presente. Deste modo passam a desenvolver-se duas estórias: a histórica, alterada e conciliada com a reinterpretação crítica e irónica de crónicas da época, onde não falta o tempero do amor cujo desenvolvimento o revisor controla e direciona e a outra no tempo atual, de onde lhe nasce uma que não controla e resulta da transgressão.
Saramago aproveita no cruzar destas estórias desfasadas no tempo para falar de Lisboa, dos vestígios daquela época na atual cidade,e para criticar mentalidades, perceções, preconceitos e os ajustamentos que a História sofre em função da religião e cultura de quem narra ou tem o poder de moldar a comunicação do conhecimento do passado face aos interesses do presente. Saramago aproveita ainda para utilizar em estórias diferentes e relatos das "fontes" escritas de estilo de narrativo distinto  e uso de várias forma ortográficas sintáticas que acrescentam uma grande riqueza ao texto.
É sem dúvida um excelente exercício criativo e uma reflexão sobre os primórdios da história de Portugal e abordagem de questões sociais de hoje, cheio de informações e de ironias subliminares, sem deixar de ser uma obra ao estilo de Saramago nem sempre fácil de ler e de abarcar tudo o que é díto nas entrelinhas. Gostei e recomendo sobretudo a quem aprecia a prosa deste escritor como é o meu caso.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"O Sol Nasce Sempre" ou "Fiesta" de Ernest Hemingway


"O Sol Nasce Sempre", também intitulado noutra edições por "Fiesta", é um dos romances mais icónicos do laureado norteamericano com o Nobel da literatura Ernest Hemingway, embora talvez, para alguns leitores, seja moralmente dos mais difíceis de digerir, tendo em conta a sua componente hedonista ou, para os mais exagerados até niilista, e é uma obra muito diferente das outras que já li deste autor, nomeadamente as duas aqui e aqui faladas.
O romance narra, na perspetiva de um elemento pertencente a um grupo de amigos americanos e ingleses, que goza a vida passando uma temporada em Paris, homens e mulheres que procuram tirar o proveito máximo da noite boémia desta cidade onde confluem artistas plásticos, escritores e "bon-vivants", sem grandes planos que não seja usufruir desta liberdade de pensamento e divertimento, do sexo e álcool que marcou os anos loucos das décadas entres as duas guerras mundiais na capital francesa.
Este estilo desemboca também em vazio e incompatibiliza-se com sentimentos humanos como o amor e paixões de momento que brotam deste convívio sem compromissos, fidelidades mais tradicionais ou perspetivas de futuro. A ânsia de novas experiências num momento de saturação do que entretanto se foi disfrutando repetidamente e até à exaustão em Paris leva parte do grupo para festas de San Fermin em Pamplona, um meio muito diferente mas vivido num mesmo estilo na loucura daquelas festividades.
De uma forma que até parece despretensiosa, pelo estilo quase jornalístico da narração, conta-se assim o estilo de vida de uma geração de jovens hedonistas que aproveitam para gozar ao máximo o dia-a-dia, sem planos para o futuro e sem a restrições que o convívio social obriga. Diria que se "On the road" de Kerouac está para a geração beatnik nos anos 1950/60, "Fiesta" está para a geração louca e despreocupada dos anos 1920/30, duas denominadas por alguns "gerações perdidas". Se o primeiro, bem mais recente, mostra muito do modo de viver do seu autor, o gosto pelo estilo de vida preferido de Hemingway está nesta sua obra e a sua paixão pela "arte" tauromáquica está magnificamente tratada neste romance que foi sem dúvida o maior cartaz de sempre daquele festival a mundialmente famosa corrida de touros de San Fermin... a "fiesta".
Para quem pense que este livro é amoral, está errado, os riscos deste hedonismo estão bem expostos sem ser necessário narrar uma história que julgue as personagens ou dê uma lição de moral. Gostei.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

"As vinhas da Ira" de John Steinbeck



O romance "As vinhas da Ira" é considerado o principal livro do laureado com o Nobel John Steinbeck e é efetivamente uma obra marcante para quem lê.
"As vinhas da ira" retrata, através da história de uma família despojada da sua propriedade rural no Oklahoma, a histórica desumanidade que foi a emigração forçada de centenas de milhares de agricultores dos estados do sudoeste dos Estados Unidos nas décadas de 1920 e 1930, vítimas da ocorrência em simultâneo de uma grande seca, tempestades de poeira, execução bancária das dívidas agrícolas e da substituição da mão de obra rural pelas máquinas agrícolas.
Steinbeck não se limita a denunciar a ditadura financeira da banca, como causa principal desta emigração de famílias de agricultores, sobretudo a caminho da Califórnia, depois de as fazer passar de pequenos a médios proprietários para indigentes sem nada, sem terrenos e sem condições de trabalho. O escritor aprofunda também a desumanidade que houve no destino da emigração, onde o grande latifundiário californiano levou ao extremo a exploração destas vítimas que, aliciadas por uma propaganda intencionalmente enganosa e interesseira vinda de oeste, ficou refém da ambição dos ricos produtores do vale de São Joaquim onde se criaram novas condições de exploração do homem pelo homem com a colaboração das forças políticas e policiais contra estas já vítimas da injustiça da ditadura financeira, novamente vítimas de um capitalismo económico desenfreado.
O romance alterna pequenos capítulos estilisticamente brilhantes com apresentação do enquadramento geral das várias situações ocorridas na época, com outros mais extensos e escrita mais realista com o dia a dia da família Joads, desde velhos a crianças, com início do despojamento dos seus terrenos no Oklahoma até à suprema exploração na Califórnia, com descrição das condições de vida duríssimas desta gente e da força de algumas personagem para enfrentar tamanha desumanidade e exploração. Uma grande, bela e marcante obra, que por si só é um prémio Nobel merecido. recomendo a todos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

"As confissões de Félix Krull" de Thomas Mann


A obra "As confissões de Félix Krull" corresponde ao livro que Thomas Mann, vencedor de um Nobel da literatura, estava ainda a escrever aos 80 anos quando morreu, embora tenha trabalhado o seu conteúdo desde novo, é contudo um romance incompleto, mesmo assim, já com três centenas de páginas, deixou potencial para vir a ser outra obra deste escritor da dimensão de "A montanha mágica", embora num estilo totalmente diferente.
O romance corresponde às memórias da vida do protagonista, que sempre se sentiu predestinado a alcançar um lugar importante na sociedade, embora nascido de uma família burguesa e pouco exemplar que caiu na ruína quando ainda ele era adolescente. Deste modo, movido pelo seu fascínio e convencimento, dotado de poucos escrúpulos, lá conseguiu passo a passo e sem se desviar dos seus objetivos ocupar o lugar de alguém da nobreza e conhecer o mundo, infelizmente esta viagem global teve apenas uma etapa na obra pela não conclusão desta, mas que curiosamente se passa em Lisboa e ocupa quase um terço do livro.
Mann descreve o povo português e a capital de Portugal de uma forma bem original e diferente do habitual servindo-se de uma personagem sábia residente nesta cidade e que faz lembrar outras figura de grande saber que o escritor criou para dar a conhecer ao leitor mundos da evolução da história e da filosofia noutros grandes romances dele, neste caso Kuckuck é paleontólogo e será por esta via que debitará fascinantes e empoladas informações de antropologia e da biologia, misturada com algum fantasia.
Escrito numa linguagem por vezes irónica, noutras divertida ou sarcástica, o romance está cheio de humor e é com interesse que se lê a geografia e a antropologia de Lisboa e dos portugueses, que se contacta com o rei D Carlos e uma certa crítica social desde a Alemanha, passando por Paris e terminando em Lisboa, infelizmente sem as restantes etapas anunciadas na obra por esse mundo fora e quando Félix ainda era um jovem de 20 anos que se percebe teria chegado à velhice por algumas pistas que vão sendo deixadas no relato feito. Um romance acessível, interessante e que vale a pena ler.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

"Os jardins da memória" de Ohran Pamuk


A trama de "Os Jardins da Memória", do laureado com Nobel Ohran Pamuk (o título original traduzir-se-ia por "O livro negro"), é a investigação levada a cabo pelo protagonista para encontrar a sua mulher e prima, desaparecida voluntariamente, através de uma pesquisa que mergulha nas suas memórias familiares e nas pistas dos textos do cunhado/primo: um cronista famoso cujos escritos se centram na forma de sermos nós próprios, na busca da nossa verdadeira identidade baseado nos saberes esotéricos, místicos e histórias sobre a cidade de Istambul e do povo otomano.
O protagonista vai descobrindo que ele, como todos nós, frequentemente querermos incarnar o nosso ídolo, que somos parte de outros que nos influenciaram e cujas memórias - as flores do jardim do que somos nós próprios - mostram quanto mudamos e quanto o mundo muda nos nossos olhos com essa evolução. Tudo isto numa cidade cuja história sempre foi de transição entre a cultura oriental e ocidental, entre o islamismo e o cristianismo, entre a tradição e o modernismo e sem nunca saber qual a sua real identidade, tal como a Turquia, cuja história é narrada ao estilo de contos da sabedoria oriental.
O romance é interessante e o tema talvez não pudesse encontrar um melhor enquadramento geográfico e cultural que o da cidade de Istambul/Constantinopla/Bizâncio, todavia o livro não é de fácil leitura. Intercalando capítulos que são crónicas publicadas no jornal, enraizadas no saber esotérico e místico, que nos dão pistas para os outros que narram o drama que se vai desenrolando no interior do protagonista e na sua busca para encontrar a sua identidade, a sua esposa e o primo que se esconde, a obra origina um texto denso e cíclico como as ideias fixas sobre o tempo e as memórias em Proust, agravado pelas múltiplas referências culturais e históricas estranhas a um ocidental. Todavia fez-me ficar muito interessado em conhecer Istambul.
Um livro que é bom, mas cuja dificuldade leva a só o recomendar a quem gosta de ler obras que dão luta.

domingo, 20 de dezembro de 2015

"O adeus às armas" de Ernest Hemingway


Em "O Adeus às armas" Ernest Hemingway, prémio Nobel de 1954, relata o nascimento e a sobrevivência do amor no tempo da I Grande Guerra, tendo como pano de fundo a derrota e posterior retirada italiana perante os austro-húngaros na batalha de Carporetto, a nordeste de Veneza, conflito onde o escritor participou como voluntário americano motorista de ambulâncias e viveu um caso de paixão, à semelhança do protagonista do livro, um oficial voluntário do mesmo País, sendo por isso, uma obra fortemente baseada na sua experiência pessoal.
Neste misto de descrição do conflito real, o seu caso e o poder da paixão ficcionado, Hemingway aproveita, não só para pôr questões sobre a guerra, mas também expor a crueldade desta e ainda fazer uma reflexão à sua renúncia face à superioridade do amor, onde tudo mais passa a secundário.
Escrito sem muitas figuras de estilo, Hemingway utiliza uma linguagem, por vezes quase jornalística, na descrição da paisagem e da guerra, outras vezes, com recurso a diálogos quase ridículos como o serão todas as conversas de apaixonados à semelhança das cartas de amor de Fernando Pessoa, criando assim uma narração ao mesmo tempo encantadora e dura, como só ele é capaz quando fala de conflitos bélicos e dos prazeres da vida, um belíssimo romance que recomendo a qualquer tipo de leitor.  

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

"Não se paga! Não se paga!" de Dario Fo


Há muito tempo que aqui não falava de teatro, ontem foi dia de ver o grupo amador Faialense "Teatro de Giz" que tem encenado nesta ilha autores de grande reconhecimento internacional, desta vez o laureado com o Nobel da literatura: Dario Fo, com a sua obra "Não se paga! Não se paga!".
Uma paródia sobre uma revolta popular contra os preços, que depois contagia todos, inclusive os mais conservadores e legalistas e até agentes de autoridade. Ocorrem momentos hilariantes, outros menos realistas mas que a brincar levam ao desabafo sobre muitas verdades amargas sentidas por quem tem de sobreviver no dia-a-dia e, em paralelo, há uma crítica à politica da Igreja Católica sobre o controlo da natalidade.
A representação e encenação está muito bem conseguida, envolvendo todo o espaço e vale a pena assistir se vive no Faial e ainda não foi ver, hoje é o último dia. Diverti-me imenso.