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sábado, 26 de janeiro de 2019

Contos de Clarice Lispector


Este livro contém 61 contos daquela que é uma das principais artífices da escrita em língua portuguesa de todos os escritores de expressão lusa no século XX: a brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia. Este conjunto tem contos de extensão variada e só não reúne os que foram publicados pela primeira vez sob o título de obra "Laços de Família", pelo que poderíamos dizer que é uma coletânea de quase todos os contos desta autora.
Os contos não são uniformes em termos de extensão: vão de apenas uma única página até próximo da trintena; as temáticas são diversas, desde questões sociais, infância, problemas da degeneração pela velhice e indo até aos desejos corporais mais básicos; e o estilo de escrita é diversificado, até porque entre os mais antigos e os mais recentes há um espaço temporal de mais de três décadas, contudo todos estão excelentemente escritos, uns numa linguagem linear simples, como "Viagem a Petrópolis", outros com monólogos interiores e fluxo da consciência com técnicas modernistas que requerem um certo esforço para a compreensão da narrativa "Seco estudo de cavalos". Também não posso dizer que gostei de todos igualmente, uns deram-me grande prazer de ler, outros não tanto e alguns até foi com sacrifício que concluí a sua leitura.
Nesta coletânea, os contos estão arrumados e sequenciados de acordo com os livros em que foram inicialmente publicados, ao todo cinco, sendo evidente que a harmonia dentro destes conjuntos é maior que o todo, mas o que mais destaco é a mestria do domínio da escrita e da língua, alguns textos serão morais, outros amorais e até alguns por vezes a roçar o imoral ou a expor os íntimos desejos de uma mulher como os que foram publicados em "A via crucis do corpo", talvez os mais fáceis mas que gostei menos.
Antes apenas lera o romance/novela "A paixão segundo G. H." que adorara, alguns contos retomam o estilo e as obsessões: baratas, cabelos ruivos, náuseas animais e deambulações em torno de pormenores. Esta leitura serviu sobretudo para admirar a genialidade da escrita.

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Os loucos da rua Mazur" de João Pinto Coelho


Acabei de ler "Os loucos da rua Mazur" do escritor português João Pinto Coelho, o romance que venceu o prémio Leya em 2017. É o segundo livro que leio deste autor em menos de um ano e ambos com memórias de sobreviventes ao período da II Grande Guerra na Polónia sob a ocupação estrangeira.
Um livreiro idoso em Paris em 2001 é contactado por um escritor famoso e sua mulher editora, pretendem escrever a história do que se passou na sua cidade durante a II Grande Guerra, logo se descobre que entre os três houve um passado longínquo juntos que deixou feridas muito fortes. A escrita desse passado dói a todos e assim vai sendo composto o que se passou naquela cidade no leste da Polónia, onde duas comunidades: uma cristã e outra judaica, coexistiam em bairros distintos e desconfiança mútua fomentada pelos seus líderes, mas tolerando-se em tempo de paz. É neste burgo que eles adolescentes se tornaram amigos: um cego judeu, outro cristão e ela filha de uma proscrita suspeita de bruxa. A amizade cresceu, mas a paixão alimentou o ciúme do preterido, então o País é invadido, a zona é primeiro ocupada por estalinista que querem moldar as pessoas, a pressão é mais forte com os polacos, os outros temem mais os que virão depois, os nazis e a retaliação será o pior vinda dos polacos. Nesta guerrilha o ciume leva à traição de uma amizade que deveria ser superior aos diferendos da cidade.
Um livro, que intercala capítulos do passado com mágoas do presente, denuncia uma realidade passada na Polónia que hoje muitos pretendem reescrever para apagar a sua culpa, existem memórias muito negras neste romance, há culpados em todos os lados, mas neste terror nem sempre foi preciso os nazis agirem, muitos aproveitaram a guerra para sujar as mãos em nome da fé, do racismo e da intolerância à sombra de um País ocupado por ditadores estrangeiros.
A escrita é escorreita e simple serve de suporte ao relato de uma história pouco falada que envergonha muitos polacos. Fácil leitura.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

"Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" Gonçalo M. Tavares


Citações
"Se fizéssemos um cálculo do ritmo a que antes se caminhava pelas cidades e comparássemos com a velocidade actual concluiríamos que as pernas acompanham a evolução da técnica: está tudo mais rápido e as pernas não são excepção;"

"Não podemos observar enquanto fugimos"

"todos temos momentos em que olhamos para o lado errado e em que aquilo que é significativo acontece precisamente nas nossas costas."

Acabei de ler o pequeno mas magnífico romance "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" do escritor português contemporâneo Gonçalo M. Tavares.
Marius encontra na rua uma menina com trissomia 21 que diz chamar-se Hanna, estar perdida, procura o pai e faz-se acompanhar de uma caixa de fichas de ação de um curso educacional para crianças com desadaptação aos outros. A partir deste encontro começa uma caminhada de busca ao longo da qual Marius se cruza com personagens ímpares: um homem que cola cartazes em ruas secundárias para mudar a humanidade; um fotógrafo de animais que pretende também tirar fotos a Hanna; os judeus donos de um hotel que é o mapa dos campos de concentração nazi; o antiquário que dorme cercado de livros que quase o sufocam; os artista de miniaturas que a maioria não consegue ver e o homem de quarto Terezina obcecado com o equilíbrio do peso do que possui com o que tem, enquanto a menina consegue despertar sorrisos e simpatia à sua volta e requer permanente proteção daquele que a encontrou.
Gonçalo M. Tavares continua a ser o escritor português atual que mais me fascina, alguém com uma escrita única que denuncia a desumanidade da era da técnica na sociedade atual que sufoca sentimentos e cria personagens aberrantes. Os seus livros, na generalidade, desenvolvem-se num meio germanizado e este romance não é exceção, sem nunca dizer o país onde se situa, acaba em Berlim e os nomes e situações desenvolvem ambientes que se sente ser alemão, mas esta obra tem a ternura despertada por Hanna magistralmente narrada na passagem com a contabilidade de sorrisos despertados na rua.
As diferentes estórias que resultam do contacto com as personagens que vão desfilando no livro criam um romance que além de ser uma obra de arte literária, compatibiliza a frieza dos livros negros do autor com a ternura e simpatia de uma adolescente com trissomia 21 perdida no século onde a falta de calor nas relações humanas é uma característica transversal aos indivíduos que formam a sociedade contemporânea. Gostei muito e não consegui parar de ler esta fascinante obra.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Dois Irmãos" de Milton Hatoum


Estreei-me no escritor brasileiro Milton Hatoum com "Dois Irmãos" prémio Jabuti de 2001 e confesso que gostei muito da sua escrita, do seu modo de narrar, retratar Manaus e de expor conflitos psicológicos que moldam as suas personagens.
Dois Irmão narra a história de uma família de origem libanesa em Manaus vinda no início do século XX, a primeira geração de pai e filha, cristãos maronitas, o casamento desta com outro imigrante muçulmano, um pinga-amor apaixonado de um erotismo exacerbado pela sua mulher e depois dos seus três filhos, onde se destacam os gémeos Omar e Yaqub que desenvolvem um ódio figadal na adolescência ao amarem a mesma moça. A partir daqui, com base no que observou e lhe foi dito, Nael (filho de um dos gémeos com uma índia acolhida na família e a personagem mais equilibrada do conjunto) narra não só o desenvolvimento de Manaus ao longo de mais meio século, como a vida quotidiana típica num bairro do centro desta cidade e ainda o declínio desta família em virtude da rivalidade dos irmãos: Omar, um superprotegido da mãe com comportamento devasso e profissionalmente irresponsável, e Yaqub, votado a um maior desprezo que é o oposto do seu irmão tornando-se num engenheiro de sucesso, enquanto a irmã vive tentando equilibrar este conflito que se estende aos pais e tenta preservar o legado do passado.
A escrita com parágrafos extensos e grande recurso ao vocabulário local, faz magníficos retratos da região do Amazonas, da forma de vida do povo no centro de Manaus e explora o drama, com momentos de grande tensão, juntando com frequência um humor aos sentimentos hiperbólicos e por vezes sarcástico, o que suaviza as situações paroximais de expressão do ódio e dá um ambiente que chega a ser divertido no seio da dor que vai massacrando toda a família.
Se não gostei da devassidão destrutiva de Omar, adorei a qualidade da escrita e a força posta no conflito de sentimentos e a capacidade de retratar uma Manaus que penso ter desaparecido com a modernidade e  expor a sua gastronomia, são aspetos por que vale a pena conhecer este livro e este escritor.

terça-feira, 19 de junho de 2018

"Meridiano 28" de Joel Neto


Excertos
"A primeira impressão que José Filemom teve da Horta foi essa: a de uma cidade que entardece à sombra, como lhe houvessem amputado metade do dia...
...
Na manhã seguinte, porém, uma luz radiosa veio dos lados do Morro da Espalamaca, projectou-se no mar, incendiou as arestas do casario e as torres das igrejas, e o Pico explodiu em frente, imperial, como restos de uma civilização que uma tragédia tivesse devolvido à superfície."

"Na sua cidade, naquela pequeníssima cidade atirada para os altos encapelados do oceano, escondia-se, afinal, uma chave para entender o seu país."

"Muitas vezes os crimes mais hediondos são cometidos a pretexto dos sentimentos mais elevados."

Não me é fácil falar do romance "Meridiano 28" lançado este mês pelo escritor Açoriano Joel Neto. Não só porque cruza várias estórias em diferentes tempos, locais e em estilos distintos (o que dificulta qualquer sinopse sem desvirtuar a ficção e sem revelar a trama); como também estas estórias retratam a cidade Horta e mostram o seu papel fulcral no mundo ocidental nos anos que antecederam à II Grande Guerra e durante esta  (o que moldou o seu carácter cosmopolita liberal e a transformou numa urbe muito maior e mais importante que as suas dimensões físicas); e ainda porque o autor não perde a oportunidade para expor a ilha durante o vulcão dos Capelinhos já em 1957/58 e até faz várias "selfies" dele com a Horta nos tempos atuais (mostrando o que esta é agora em 2018) e com tudo isto, além da estória, faz História.
Importa desde já deixar claro que este romance escrito por um Terceirense e cuja trama se centra na Horta, não é um livro regional, é uma peça literária de categoria nacional que ombreia com obras contemporâneas de referência no País e digna de traduções fora da lusofonia. É uma obra que pela sua profundidade e riqueza literária é universal e é literatura nascida nos Açores destinada ao mundo, tal como já fizeram outros escritores de renome em relação às suas terras: Victor Hugo com Paris, Érico Verríssimo com o Rio Grande do Sul e Eduardo Mendoza com Barcelona, só para citar alguns exemplos do passado ao presente.
Ao nível da trama, a Filemom, nascido no Faial, desenraizado da sua terra natal e gestor de um site de citações literárias, é encomendado a biografia de alguém que lhe é próximo e terá desmascarado um criminoso nazi refugiado na Horta. Na sua investigação, ele tem acesso a cadernos diários do pretenso herói, desloca-se à ilha e descobre a pujança social e cultural desta terra onde escalaram as rotas dos hidroviões entre Europa e os EUA, visitada por estrelas mundiais e onde residiam os locais e famílias inglesas, americanas, alemãs, entre outras nacionalidades, por aqui estarem sediados os nós de amarração dos cabos submarinos das empresas comunicação telegráfica entre o velho e o novo mundo, gerando um intercâmbio difícil de igualar noutro ponto do planeta numa cidade tão pequena. O investigador vai assim descobrindo este passado real, com estórias de amizades, tradições, paixões, amores polémicos que mexem com preconceitos, ciúmes e até ódios, concebendo uma grande estória, enquanto o narrador toma ainda contacto com a realidade desta terra hoje e algumas das suas referências atuais. Em paralelo, a vida pessoal deste entra num turbilhão complicado de relações pessoais, problemas de consciência e obrigações. No seu trabalho abrem-se ainda portas para memórias do seu passado em Porto Alegre (RS) e investigações na Alemanha, Praga e Nova Iorque.
Pode-se dizer que além das personagens da trama, há uma personagem principal no livro: a cidade da Horta, no que foi até meados do século XX e é presentemente. Uma cidade descrita paisagística e socialmente, que foi centro dos principais acontecimentos mundiais, que recebeu influências das mais diversas nações do ocidente e assistiu de "bancada" à II Grande Guerra e viu em direto confrontos reais da batalha do Atlântico, num espaço onde pessoas de povos inimigos mantinham o convívio, o respeito e a amizade junto com os locais. Joel Neto disseca tão bem estas personagens que mostra porque a Horta foi designada a mais pequena das grandes cidades do mundo.
Ao nível da escrita, Joel Neto é igual a si próprio, não embarca na moda da escrita criativa que embrulha estórias banais numa revolução de sintaxe e figuras de estilo. Tal como no seu anterior romance: Arquipélago, ele escreve de forma escorreita, sem exageros estilísticos, embora a forma se vá adaptando ao serviço da narrativa, muda se são transcrições do diário, reflexões do narrador, descrições sociais ou geográficas ou desenrolar de ações e assim constrói uma grande estória.
Um dos aspetos interessantes do livro é a inclusão no início de alguns capítulos de paráfrases de grandes obras da literatura mundial. Chega a ser desafiante determinar a fonte, pois recorda-nos outras obras lidas, embora em certos casos o autor dê pistas claras e noutros, não tivesse o biógrafo um site de citações, estas são bem referenciadas. É nesta intertextualidade que ao mostrar a vida social na Horta no auge de brilhantismo somos brindados com entradas de Tolstoi, o que enche de orgulho qualquer Faialense.
Sendo Geocrusoe um blogue que nasceu como de divulgação geológica, não poderia deixar passar as muitas menções ao enquadramento geotectónico dos Açores, mesmo que expostas com um saber presciente da personagem na sua juventude naturalista.
História e estória, onde se cria uma magnífica trama em torno de paixões, sonhos, ciúme e ideologias, narrado de modo emocionante, com trabalho detetivesco e surpresas até ao final. Cruza-se realidade histórica e extrapolam-se factos. Um romance que é um excelente e grande livro e uma magnífica homenagem à cidade da Horta que, sendo diferente, complementa a reconhecida obra "Mau Tempo no Canal" de Vitorino Nemésio. Como Faialense, não me limito a dizer que gostei muito, tenho, sobretudo, que agradecer ao escritor por esta grande obra sobre a Horta.

domingo, 18 de março de 2018

"Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina" de Mário de Carvalho

Excertos

"E a simpleza repugna aos portugueses. Deixar alguém na despreocupação? A fruir dos seus direitos? Isso é antilusitano."

«Ora aí está, aquela minha ideia do geólogo é que era. Isto não há nada como as ciências exactas,»

"Lá em baixo, na paisagem, incrustada na duríssima permanência das coisas, onde só mandam castelos, menires, cromeleques, destoa, azulínea, e sobressalta, com transparência, a piscina modernaça e tratada a poder de fluidos caros e especiosos."

O título do livro "Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina", prémio PEN clube de 2003, do escritor português, várias vezes premiado, Mário de Carvalho, já de si indicia que não se está perante uma obra de estilo tradicional, de facto, o autor classificou-a não de romance ou novela, mas de um cronovelema e, segundo ele, o termo é algo que "não rejeita nada e não se sujeita a imposições".
O texto é mesmo uma narrativa que flui naturalmente como um rio de humor agridoce que se encadeia na mudança de narrador, de tempo e de espaço, corre na terceira pessoa ou na primeira, por vezes é meramente descritivo, noutras são diálogos e onde a língua Portuguesa é explorada com uma riqueza vocabular enorme, ora num estrutura gramatical de excelência, mas vai da erudição ao calão, outras desce ao linguajar popular e no desrespeito pelas regras, a roçar o realismo mágico, e lá se vai construindo uma estória que mostra um Portugal sem disfarçar os seus defeitos e vícios comuns.
A trama do livro, numa paródia intercalada de reflexões críticas a Portugal e suas gentes, consiste na existência de dois coronéis reformados que recuperaram casas de campo no Alentejo, um decide ter uma piscina em torno do qual se reúnem e falam das aventuras dos seus tempos de guerra, para obtenção de água contratam um jovem vedor, mestre de xadrez, que nestas funções deambula pelo sul do País onde se depara com vários tipos de aventuras e peripécias no seu carro que chega a ser anfíbio, enquanto o seu tio lhe dá conselhos de macho apesar das suas relações complicadas com mulheres. Por sua vez, as esposas dos militares encontram-se ávidas de aventuras, uma invejando a outra nas suas conquistas, enquanto um filho leva uma vida a fazer graffiti numa caravana, sem dinheiro e no desprezo aos rigores castrenses, tudo isto vai-se cruzando e sendo observado por um mocho e um melro que a tudo assistem e comentam de uma oliveira e acrescentam ou cortam o seu ponto.
Como todas as paródias, o humor atravessa o texto, mas a sátira mordaz aos aspetos da vida do País deixa um sabor agridoce, que o fantástico, que por vezes entra, não apaga. Gostei, este cronovelema, num estilo tão distinto deste romance, mostra bem a versatilidade de Mário de Carvalho, um mestre genial da escrita e da língua Portuguesa e esta capacidade tornam este livro numa obra de arte e um desfile de possibilidades de explorar e tratar o idioma lusitano.

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"A Resistência" de Julián Fuks


O pequeno romance "A Resistência" do escritor Brasileiro Julián Fuks, filho de refugiados políticos Argentinos, o mais recente vencedor do prémio literário José Saramago, é uma obra em estilo de coletânea de curtas memórias do narrador sobre a sua relação com o irmão mais velho, adotado quando recém-nascido pelos pais, e a gestão das questões em torno da integração do mesmo no agregado de acolhimento. Esta situação permite em simultâneo narrar a história de toda a família que, por coincidência, tem grande similitude com a do próprio escritor: também são pais refugiados da Argentina em São Paulo, servindo esta técnica para denunciar alguns dos horrores da ditadura de onde saíam e a curiosidade de se fixarem num país, ainda não democrático, mas onde a simpatia Brasileira permitiu adotarem a nova terra como sua.
A escrita toma a forma de uma sucessão de crónicas brilhantemente escritas, com ternura, elegância e poesia onde o narrador as inicia servindo-se de uma frase ou palavra como mote para reflexões em questões psicológicas, de consciência, de perseguição política, de nostalgia do refugiado e da integração num meio diferente, criando uma espiral de pensamentos e frases fortes que montam um rendilhado em torno da ideia central dessa memória, enquanto o conjunto dos textos forma um caleidoscópio que cria uma visão multicolorida de grande sensibilidade estética dos vários problemas expostos no romance.
Um pequeno livro onde Julian lapida a língua portuguesa e demonstra como ela pode brilhar tanto quanto um diamante e soar com a sonoridade de uma sonata maravilhosa. Uma narrativa temperada pelo amor humano que mostra como a ternura também pode ser uma ferramenta de denúncia das dificuldades da vida e da injustiça política. Gostei muito desta pérola literária e recomendo a sua leitura.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Perguntem a Sarah Gross" de João Pinto Coelho


Apesar de "Perguntem a Sarah Gross" ser um romance escrito por um português contemporâneo, João Pinto Coelho, a obra nada tem relacionado com Portugal, nem sequer uma referência ao país.
A trama desenrola-se com duas estórias ocorridas em tempos diferentes que se vão alternando na sequência dos capítulos. A mais recente é contada na primeira pessoa pela narradora, esta expõe a sua entrada num colégio de elite no Connecticut fugida do Oregon, as lutas que tem de enfrentar entre o conservadorismo de alguns da instituição na década de 1960, a dificuldade de aceitação de negros no estabelecimento, um problema pessoal que esconde, mas tudo merece a genial proteção da diretora, a mulher exemplar Sarah Gross, da qual ela pouco sabe.
A outra estória percebe-se que tem um narrador distinto, começa no final da I Grande Guerra quando  Henrick Gross, um americano judeu de ascendência polaca, decide alistar-se e contribuir para a independência da Polónia, estabelecer-se na cidade de origem do pai, tornando-se numa importante figura e onde a sua filha Sarah cresce até que a terra é tomada pelos nazis, mudam-lhe o nome para Auschwitz e quase tudo se desmorona, mas a excecionalidade de Sarah floresce. Depois, os dois tramas fundem-se várias décadas depois com suspense, memórias, proteção, dor e se percebe quem contou e quem foi Sarah Gross.
O romance com uma escrita escorreita, e agradável, sem malabarismos de sintaxe ou a seguir as tendências criativas da modernidade, é de fácil leitura, mesmo nas páginas negras do preconceito então reinante nos Estados Unidos ou na descida aos infernos do genocídio judaico. Apesar de recheado de informações históricas, onde os polacos não surgem tão alheios ao antissemitismo, gera suspense na luta de sobrevivência contra a desumanidade enfrentada por Sarah ou nas ameaças sentidas pela narradora e tem um final que em vários aspetos surpreende o leitor. Gostei muito.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

"A queda de um Anjo" de Camilo Castelo Branco


Terminei a leitura de "A queda de um anjo" de Camilo Castelo Branco, a primeira obra que me lembro de ler deste profícuo escritor português da época de Eça, e apesar de ainda integrada no seu período romântico é essencialmente uma sátira com uma crítica mordaz cheia de humor a um Portugal conservador e oportunista e à classe política.
Calisto Elói, um transmontano de Miranda, casado com uma prima para gerir um património elevado, é um quarentão erudito, de educação conservadora e dedicado aos clássicos da antiguidade de onde extrai uma moral rígida. É então proposto para candidato a deputado em Lisboa em defesa da terra, pois o incumbente no cargo nada faz pela região. Calisto é eleito e aí vem o provinciano para a capital. Apesar do choque com realidades urbanas, a sua retórica permite um sucesso nos debates contra mentes progressistas defensoras da cultura e torna-se numa referência na defesa da moral e do recato, até ao dia em que se apaixona e entra em confronto com tudo o que defendeu, enfrenta a luta de sua mulher para o reconquistar e serve de gáudio aos seus adversários.
Ao princípio o vocabulário rebuscado da obra criou-me dificuldades em entrar, mas o humor e ironia atravessa toda a obra e torna-se tão doce como um papo de anjo. Há aspetos que mudaram muito em Portugal desde o século XIX, mas a mudança de comportamento em Camilo vê-se ainda hoje e infelizmente é muitas vezes para pior e para ações bem menos honestas e divertidas. Gostei e diverti-me muito.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

"A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares


Acabei de ler o pequeno romance de personagens e acontecimentos do domínio do fantástico e dos mitos "A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares. Uma obra que ao longo de cerca de 150 páginas que encadeia personagens e situações irrealistas descritas como normais, mesmo que absurdas, deixando-nos como se estivéssemos numa banda-desenhada ou num sonho e onde os heróis não são necessariamente benéficos nem a sobrevivência ao serviço do bem. a
Alguns relatos com um toque de terror puro mas de tal forma estranho que se torna cómico são expostos de forma fria sem sentimentos mas narrados com uma naturalidade como se vivêssemos numa sociedade apática incapaz de se chocar e onde se cruza o mundo da tecnologia, as revoltas sociais e mesmo factos históricos
Escrita é perfeita, cheia de ritmo e da frieza que caracteriza Gonçalo M. Tavares nos seus livros negros, o que me desperta um prazer de leitura que pouco escritores nacionais são capazes de conseguir, embora a obra tenha soltas pistas de reflexão não é uma obra com mensagem para além do papel lúdico e da capacidade de expor a fealdade de situações com uma beleza estilística inigualável. Gostei, mas será uma obra estranha aos olhos de muitos leitores e como se assistíssemos por dentro a uma luta de anti-heróis num pesadelo que não assusta.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"O Homem Domesticado" de Nuno Gomes Garcia


"O homem domesticado" do português Nuno Gomes Garcia mostra uma distopia que veio instalar na Europa, mais intensamente em França, após uma catástrofe "O Grande Flagelo" que matou a maioria dos homens e em menor escala as mulheres, só que as deixou na generalidade inférteis, e com chegada à Presidência de Marine (suspeito que este e outros nomes não são casuais na obra) onde se construiu uma sociedade com reprodução humana artificial, não uterina e com a geração de machos homogeneizados, submissos ao domínio absoluto da mulher. Após se compreender o modelo social, um acontecimento violento transforma transforma a narrativa quase num policial, onde deduções certas e erradas da estória e justificação política terão a explicação até ao final.
Ao contrário de outras distopias recentes, onde pelo exagero se denunciam tendência e riscos em que a sociedade pode cair, casos de "Submissão" de Houellebecq ou de "Oryx e Crake" de Atwood; Gomes Garcia cria uma realidade distinta da atual, embora sem ignorar ideias atuais, como considerar estereótipos de género não naturais certas características de feminilidade ou masculinidade, preconceitos de que a violência social com origem só no homem, optando assim por um estilo muito mais próximo de Huxley em O Admirável Mundo Novo ou "A Ilha". 
Contudo, ao contrário de muitas distopias que li, onde é evidente a mensagem subjacente, a ideia a passar em "O Homem Domesticado" é algo dúbia. Tanto pode chocar para levar à reflexão sobre certos preconceitos machistas através destes machos completamente submissos onde o papel na sociedade se limita ao estereótipo ultrapassado da mulher como mera serva do homem e até publicamente oculta através com a burka, aqui na versão cache-tout para os machos; como pode ser o de satirizar a ideia supremacista da superioridade da raça branca, loura e de olhos azuis aqui bem degenerada; ou de evidenciar que os atuais defeitos da sociedade não resultam da predominância do homem nos lugares de poder, pois a mulher é bem capaz de criar um sistema opressivo, violento e ditatorial onde a justiça é subjugada ao objetivo político ou até denunciar tiques másculos de extrema-direita em Marine Le Pen. Quem sabe se não será tudo isto em simultâneo?
A escrita é clara, com poucos floreados poéticos como em muitas distopias, sem excluir algum recurso a metáforas e comparações estilísticas para a embelezar literariamente. Um livro fácil de se ler, para alguns terá momentos chocantes, mas não me marcou com a intensidade dos romances do mesmo género e acima citados.

sábado, 20 de maio de 2017

"A Falha" de Luís Carmelo


O romance "A Falha", do escritor Português Luís Carmelo, tem a particularidade de ser um livro onde o autor coloca na obra o seu saber profissional como professor de escrita criativa. Este livro, no interior de cada um dos seus capítulos, expõe estilos onde se descreve a ação na perspetiva de um observador exterior a esta, reflexões íntimas das personagens envolvidas na estória, com formas distintas em função da psicologia destas, abordagens críticas de um narrador conhecedor do pensamento das pessoas que integram a trama e ainda a textos que mostram formas de outras entidades apresentarem o que se passa na trama. Criando assim uma panóplia diversificada de géneros de escrita que enriquece a obra.
No que se refere à trama, esta começa com a apresentação e encaminhamento de sete personagens que se dirigem para Elvas para um jantar de colegas de liceu de há 25 anos atrás que se reúnem habitualmente a cada cinco anos e onde cada uma tem não só evoluções pessoais e marcas diversificadas em função do relacionamento com os seus companheiros de adolescência, amores, desconfianças, descobertas origens sociais distintas e evoluções de vida diferentes, bem como fruto do 25 de Abril, o que confere a cada uma um carácter muito próprio. Segue-se o encontro e refeição onde as tensões entre estas estão presentes e disfarçadas pelas regras de relacionamento social impostas na vida adulta complementada com uma atividade lúdica de uma prova de vinho e visita a uma pedreira onde um acidente os deixa encerrados no interior de uma caverna cuja necessidade de convívio numa situação extrema se torna numa abordagem psicológica intensa e acompanhada da incerteza de salvamento. Após o resgate bem descrito desenvolve-se uma análise temporal dos efeitos da crise em cada um deles e o modo como estes ultrapassam melhor ou pior aquele tenso momento.
A escrita mesmo diversificada é fácil, embora, por vezes, a mudança de momento, estilo e perspetiva da narrativa perturbe o leitor, mas mesmo sem considerar estilos de um génio literário, o livro vale não só por essa riqueza de formas, como o romance, além de momentos de elevada tensão, tem uma multiplicidade de características que alimentam o suspense que nos prende à leitura. A obra tem cenas muito cinematográficas que até levaram à sua adaptação a um filme dirigido por João Mário Grilo. Apesar de não ser uma obra premiada, considero-a de nível não inferior a muitas outras nacionais cujas críticas e as editoras publicitam com louvores intensos. Gostei.

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

23 de abril comemora-se em Portugal o Dia Mundial do Livro, em Geocrusoe não costumo fazer a apreciação das minhas leituras anuais no dia de ano novo, mas sim nesta data e como sempre a escolha não é fácil e é função das marcas que as obras deixaram em mim, bem como as categorias são função do tipo de livros que li.


Mais Apreciada Leitura de obra Portuguesa


Não foi fácil a escolha entre este magnífico texto literário "Húmus", de Raul Brandão, e a pérola estilística de "O que diz Molero", de mais fácil leitura e igualmente original. Todavia, apesar de Húmus não ser de fácil, antes pelo contrário, é de uma perfeição de escrita e com profundidade de reflexão e abordagem filosófica que não poderia deixar a obra para trás em nome de uma facilitismo comercial que doentiamente me parece estar a degradar hoje em dia a literatura nacional. Um pequeno volume, mas um enorme livro.


Mais Apreciada Leitura de obra Lusófona

"A república dos sonhos", de Nélida Piñon, corresponde a uma saga familiar bem escrita que atravessa quatro gerações de uma família, das quais três na condição de imigrantes galegos que servem para contar não só os sonhos de quem escolheu o Brasil como sua pátria, lutou por ser alguém aos olhos dos outros ou na sua forma de ser e se confrontou com os obstáculos da integração mas também para analisar mais de meio século de história do país de acolhimento com todos os seus defeitos e virtudes e crises políticas, regimes democráticos e ditatoriais. Extenso, mas sem dúvida um bom livro.

Mais Apreciada Leitura de obra Original em língua estrangeira

Foi sem dúvida a escolha mais difícil, havia vários romances possíveis, alguns de laureados com o Nobel, mas a riqueza de informação neste livro sobre a vida da população urbana nigeriana, a caracterização da integração da emigração atual africana nos Estados Unidos e Reino Unido, além do facto de ser uma obra que mostra que na atualidade ainda se escrevem grandes e bons livros, pelo que ainda há esperança na continuação da literatura, incluindo a partir de países de grande dificuldade social e pouco admirados no ocidente, levaram-me a selecionar "Americanah" de Chimamand Ngozi Adichie.

Mais Apreciada Leitura de obra Canadiana


Apenas li três obras canadianas, "The origin of species", de Nino Ricci, foi lida na língua original  e ganhou GG prize do Canada em 2008. É sem dúvida um excelente romance que mostra muito do que é a vida multicultural do meu país natal, onde também ocorrem desencontros pelas diferenças, buscas de identidade e do significado da vida nesta biodiversidade de povos que segue muito das mesmas regras materializada na teoria da evolução de Darwin. Uma obra que me despertou interesse em ler outros título do autor e por isto eleita nesta categoria.

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Aparição" de Vergílio Ferreira


Acabei de ler "Aparição" aquele que, segundo muitos, é o romance mais emblemático do importante escritor português da segunda metade do século XX: Vergílio Ferreira, prémio Camões pelo conjunto da sua obra em 1992.
A estória relata a experiência de integração social e profissional do primeiro ano de professor do beirão e recém-licenciado Alberto, colocado em Évora, uma cidade que lhe é estranha, tendo como meio o relacionamento que ele desenvolve com uma família local amiga do pai e com o grupo social das filhas. Aqui as suas reflexões e declarações existencialistas encontram eco em duas das raparigas e num aluno com impactes psicológicos que afetam os contactos entre os membros desta tertúlia, dando lugar ao aparecimento de desconfianças, receios, ciumes entre os elementos de um grupo típico de uma pequena comunidade fechada e provinciana. A situação agrava-se ainda com a ocorrência de um acidente e dos problemas individuais que conduzem à hostilização e  ostracização do estranho e culpabilização destes pelos efeitos das suas ideias referentes à importância do autoconhecimento do eu.
À semelhança de outras obras literárias até ao terceiro quartel do século XX, o cuidado pela perfeição do estilo de português na sua forma gramatical e sintática tradicional é uma marca importante do texto, onde as roturas com as regras, típicas da escrita criativa das últimas décadas em Portugal, estão ausentes. Acresce a este perfecionismo escolástico, a qualidade e a elegância de escrever de Vergílio Ferreira. Mas este romance é em simultâneo uma narrativa e um tratado de filosofia existêncialista, onde, intercalado com a narrativa dos acontecimentos e dos diálogos contidos na memória de Alberto e referentes a um ano de um passado já longínquo existem textos de pura reflexão sobre o "eu", onde as formas reflexivas do pensamento para destacar a autoindentificação no conhecer-se e no sentir-se é uma marca para estes pensamentos filosóficos e ideias que afetam todas as personagens da história: ora também em busca deste eu como em Alberto, ora como rejeição desta perturbação gerada por este tipo de análise.
Assumo que gostei do romance como história, apesar de o existencialismo ser uma forma de pensamento filosófico com a qual nunca senti  empatia e entrosamento, pelo que em determinados parágrafos fiquei mais pela apreciação da forma bela de escrever do que pelo conteúdo das ideias e para alguns leitores pode mesmo parecer partes coladas ao enredo incómodas à leitura do livro.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

"As Naus" de António Lobo-Antunes


O romance "As Naus", de António Lobo-Antunes, publicado em 1988 e agora reeditado na coleção Livros RTP, cruzou-se casualmente comigo numa papelaria quando estava lá por outros motivos e então despertou-me a curiosidade o modo como este original escritor lusitano trataria o cruzamento do tema das descobertas com o dos retornados após a independência das colónias portuguesas na sequência da revolução de Abril.
Num romance pouco extenso, com a escrita típica de António Lobo-Antunes, onde  se intercalam tempos diferentes, mudanças de sujeito e de espaço ao longo de longos parágrafos, o autor desfila um conjunto de personagens que no passado foram os heróis, escritores ou figuras das crónicas do período das descobertas e da expansão cultural portuguesa, nomeadamente Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, São Francisco Xavier e Manuel de Sousa Sepúlveda, reis de Portugal,entre outros, sem esquecer a sombra marcante de D. Sebastião e o seu mito, descrevendo muitas das dificuldades, loucuras e glórias daquela época áurea que viveram, mas que mais tarde os mesmos se tornaram colonos em Goa, Moçambique, Angola e Guiné, com todos os vícios de que são muitas vezes acusados e ainda alvo dos ódios e das bajulações dos povos indígenas e que por fim ainda passam para o papel de retornados a Portugal, expulsos dos locais onde criaram raízes, sendo mal-aceites na pátria de origem com uma organização de acolhimento viciada pela embriaguez dos conceitos de liberdade e socialismo onde neste ambiente se adaptando aos mais variados géneros de personalidades e papéis: desde o que se transforma em oportunista, às vítimas de espoliações, aos que entram no mundo negro da prostituição e dos proxenetas, aos desadaptados e às perdas de identidade onde tudo isto se vai cruzando de forma absurda ao longo da obra.
Apesar das numerosas denúncias contidas na obra, que ora se subentendem, ora são ditas de forma dura, nua e mesmo cruel, por vezes misturadas com alguns preconceitos de mentalidade da nossa sociedade, o livro consegue criar um tom irónico e divertido no seio das desgraças expostas, mas não se furta a mostrar a necessidade de os portugueses em todas estas épocas precisarem de um D. Sebastião para manter a esperança e viabilizar a sobrevivência deste Povo... apesar deste salvador sempre na sombra que no fundo dos lusitanos nunca morreu ele nunca aparece, apenas nos levou a uma derrota marcante.
Gostei do livro, mas reconheço que estou habituado à escrita de António Lobo Antunes e para quem não a entranhar este romance torna-se difícil, se não mesmo incompreensível.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Lillias Fraser" de Hélia Correia


"Lillias Fraser" da escritora portuguesa Hélia Correia, cuja obra ganhou o prémio PEN clube de Portugal em 2002, enquanto a autora foi galardoada com prémio Camões de 2015, é um romance histórico que começa na Escócia em 1746, onde a protagonista, ainda criança e antes de uma derrota dos escoceses católicos interessados em conquistar o trono protestante da Inglaterra, tem a visão da morte do pai e foge antes do morticínio da suas gentes, salva-se e é depois protegida por várias pessoas de estatuto diverso destes dois povos em conflitos. Na sequência da sua odisseia vem parar a Lisboa, prossegue a sua vida entre vários protetores, sobrevive ao terramoto de 1755, novamente devido ao seu dom de ver a morte, passando depois na sua juventude por novos tormentos resultantes desta catástrofe entre gente que a acolhe e a persegue como uma pessoa diferente: loura, de olhos e pele clara; desembocando no período da guerra dos Sete Anos, onde Portugal se alia à Inglaterra e ela volta a cruzar-se com líderes militares dos povos da sua ilha. 
O romance envolve-se no realismo mágico, tem vários acontecimentos e personagens reais: desde a batalha inicial do livro, ao terramoto, clero influente do monarca português e militares do Reino Unido, tem muitos pormenores do que terão sido as dificuldades da população após a destruição de Lisboa e o caos social de então, bem como a ação da Inquisição e de Marquês de Pombal na época, tanto nas vertentes positivas como negativas deste.
A estória surge numa sequência de cenas que por vezes fornecem pistas futuras e outras vezes recusam prosseguir, originando um tratamento do tempo em forma de peças soltas descontínuas que por vezes abrem caminhos que fecham de seguida, além de em momentos ser uma narrativa de alguém do presente que investiga o passado e noutras a ação entrar dentro das personagens como se fossem estas os autores, paralelamente a imagem sobre os Portugueses e Portugal é frequentemente depreciativa da sua cultura e mentalidade, o que me criou algum desconforto, contudo é um romance onde aprendi factos sobre acontecimentos históricos e que sem me ter entusiasmado também não desgostei de ler e penso que valeu a pena conhecer esta obra.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Reflexões sobre Bernardo Soares e sua poesia


Fernando Pessoa continua a ser para mim uma caixinha de surpresas, apesar de há tantos anos ler a sua obra, sob os mais variados heterónimos, nunca consegui esgotar novidades nos seus textos.
A coletânea de textos em prosa que constitui "O livro do desassossego", escrito sob o nome de Bernardo Soares, se tirar a Biblia, é sem dúvida a obra que ando há mais tempo a ler e nunca parei, está sempre à minha mesinha de cabeceira. Hoje leio um pouco, depois paro uns dias e mais tarde regresso a ela, e mesmo quando repito textos tenho sempre a sensação de estar a ler algo de novo e encontro sempre qualquer parágrafo que me fascina e releio como se fosse a primeira vez.
Apesar disso, só hoje descobri que Bernardo Soares também tem poemas e naturalmente nestes se sente aquela lassidão, indecisão do observador atento, que analisa o pormenor e discute a sua atitude e aqui vai um que testemunha esta personalidade.

Loura a face que espia
Cose, debruçada à janela,
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fosse outro era história
Mas o outro nunca nasceu...