Acabei de ler o estranho livro "
A seta do Tempo" do inglês Martin Amis, onde o mais importante a forma de a contar às arrecuas a estória, não apenas do fim para o princípio, mas sim descrita como um filme em reverso com o tempo e os acontecimentos a andarem para trás.
Na cama de um hospital a consciência de um médico em estado terminal começa a ver a sua vida em marcha atrás no tempo. Assim se vai dissecando a biografia do protagonista, não só ele se desloca às arrecuas, pois tudo fica mais novo à sua volta. Nos diálogos, as respostas antecedem as perguntas. No dia-a-dia, o lixo é distribuído nos caminhos, recolhido até casa, retirado dos sacos, transformado em comida, ingerido e depois cozinhado. No comércio, o cliente recebe dinheiro pela mercadoria que entrega ao vendedor, enquanto as pessoas se deitam de manhã para depois se levantarem à noite. A neve sobe, etc.
Nesta caminhada retrógrada descobrimos que o médico após uma vida promíscua com enfermeiras, saiu da cidade onde se encontra, muda várias vezes de identidade e terras com apoios surpreendentes até entrar na Alemanha, chegar a Auschwitz, um campo onde ressuscitam judeus, estes são distribuídos pela Europa e ele faz experiências com mulheres e crianças retirando-lhe químicos que as melhoram, até ele casar, virar a adolescente, se tornar bebé e chegar à mãe.
Assim se vai percebendo como se formou esta mente nazi, se denuncia fugas à justiça com apoios escandalosos e secretos, isto com recurso a uma técnica em que as consequências antecedem às causas, invertendo os efeitos.
Por vezes torna-se estranho a descrição dos factos ao contrário, por exemplo, os maus-tratos acabam em saúde, mas vários pensamentos dedutivos em torno da descrição retrógrada surgem lógicos face a uma sequência invertida.
A estória não narra nada de belo e até aproveita o funcionamento orgânico da vida e a prática médica para um tom ainda mais chocante. A generalidade dos assuntos tratados são conhecidos, mas a perspetiva da criação desta mente perversa, construída ao contrário, torna a obra originalíssima, embora estranha. Por vezes tropeçamos na leitura e compreensão, por mentalmente tendermos a evoluir o pensamento com a seta do tempo ao contrário da do romance.
Um desafio e uma obra que é verdadeiramente de escrita criativa, feita por um grande escritor contemporâneo que gosta de mexer com o leitor.