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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

"O espião que saiu do frio" de John le Carré


Excertos
"Que julgas tu que os espiões são? Sacerdotes, santos e mártires? São um deplorável cortejo  de tolos vaidosos, e também traidores, sim;"
"Não podemos construir o comunismo sem acabar com o individualismo."

Uma obra com mais de 50 anos, e considerada um clássico no seu género e talvez o romance de espionagem mais famoso da história, "O Espião que saiu do frio", do inglês John le Carré, o grande mestre no estilo e ele próprio um ex-expião, narra um conflito sangrento no jogo da obtenção de informações secretas entre os dois lados do muro de Berlim nas décadas de 1950-60.
Leamas dirige a célula de espionagem da Inglaterra em Berlim Ocidental, onde possui uma rede de agentes do outro lado, só que uma mudança de liderança a leste leva à morte em série dos seus informadores e à destruição da sua célula. No regresso a casa é desafiado a abandonar os serviços, a se humilhar publicamente para ficar desacreditado e ser assediado pelos seus adversários, para deste modo poder deslocar-se à Alemanha Oriental e proceder à sua vingança. Só que pelo meio surge uma relação amorosa e do outro lado o desenrolar do processo está cheio de surpresas, é que no jogo de traições e no uso dos seus agentes de forma enganosa nenhuma das partes se pode deixar atada por princípios e os logros vêm de quem está do nosso lado.
Um romance que além do suspense, junta reflexões sobre a ética no confronto entre o modelo de liberdade individual no ocidente e o da sobreposição dos interesses coletivos à pessoa então no oriente europeu, levados ao extremo no mundo secreto da espionagem no auge da guerra fria que discretamente foi sangrenta e cheia de traições.
Fácil leitura, escrita escorreita e um retrato de uma realidade discreta que ainda sobrevive no conflito diplomático e de interesses entre os Estados que raramente vem ao de cima. Gostei.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

House of Cards de Michael Dobbs


Excertos
"Quando as árvores são todas derrubadas, até um arbusto parece grande"
"É próprio da ambição exigir algumas baixas entre as tropas."
"Aqueles que desejam trepar ao cimo das árvores mais altas têm de aceitar as consequências que é verem expostas as suas partes mais vulneráveis."

Não vejo séries de televisão há vários anos, mas ouvi falar que House of Cards como uma forma de expor os bastidores negros da política, pelo que ao me cruzar com o livro que lhe serviu de base, ao descobrir que o seu autor era ele mesmo um político de carreira, vivendo precisamente na sombra  do poder, além de que o romance era do género de suspense político e estava em promoção, comprei de imediato este "House of Cards" do inglês e lord Michael Dobbs.
Ao contrário da série de TV, o livro original decorre em Londres e pouco tempo após Margaret Tatcher. Numas eleições o Primeiro-ministro (criado pelo autor) vence com uma maioria escassa e não segue o conselho de renovação do homem forte dos bastidores do seu partido: Francis Urquhart. Começa então um conjunto de fugas de informações que debilitam o executivo, há escândalos que envolvem a família do líder do governo, os mídia fazem o cerco manipulados por vários interesses. O leitor conhece os passos do autor das maldades e uma jornalista procura compreender o que se está a passar, no clímax da tensão surge demissão do Primeiro-ministro e a convocação de eleições internas, mas as chantagens e pressões levam a demissões dos candidatos e o o caminho vai-se abrindo a Francis, que tudo manipula sem escrúpulos.
Os estilo de escrita, embora não seja inovador, é bem trabalhado, cuidado, elegante e adequa-se ao género de suspense, tem a particularidade de quase todos os capítulos terem uma frase ou uma citação que torna concisa as manobras nele feitas a sangue-frio e alertas para os riscos que estão associados à carreira política, respetiva ambição e exposição pública. (os excertos são na maioria desses introitos)
Gostei do livro e da estória, que chama a atenção para o mundo escondido da política e mostra que numa época ainda sem as redes sociais da internet, hoje acusadas de fake-news criadas deliberadamente segundo interesses já era uma técnica praticada a coberto da eventual independência e ética dos meios de comunicação social levada a cabo pelos grupos editoriais das TV e jornais.
Um livro lúdico, sem pretensiosismos que se desenrola a um ritmo alucinante e mantém o leitor agarrado à estória, bem feito e com conhecimento de causa.

sábado, 1 de setembro de 2018

"A Pousada da Jamaica" de Daphne Du Maurier


Excerto
"A rapariga continuou sentada no chão ao lado da cadeira acabada de desocupar. Através da janela da cozinha, viu que o Sol já desaparecera atrás da colina mais distante e em breve a malevolência do crepúsculo de Novembro envolveria a Pousada da Jamaica, mais uma vez."

"A Pousada da Jamaica" da inglesa Daphne Du Maurier, é o típico romance que junta o suspense, a tensão psicológica, o amor romântico, os bons reféns dos maus e surpresas até ao fim para se adaptar com sucesso ao cinema tal como fez o mestre do género Hitchcock com esta obra.
A estória passa-se no início do século XIX quando Mary Yellan, após a morte da sua mãe viúva para fazer a última vontade desta vende a quinta e parte para a casa da tia materna na Cornualha, onde espera encontrar a proteção de uma mulher que se lembra de ser alegre, só que agora esta está casada com o dono de uma estalagem rural, vive oprimida pelo terror da vida do seu marido com um bando de bandidos alcoólicos que se suspeita dedicarem totalmente ao mal. Mary tentará descobrir o que se passa naquela casa que já não tem hóspedes e vai descobrindo uma teia que se torna cada vez mais macabra e da qual fica refém. Infelizmente a ajuda que encontra nas proximidades parece vir de gente cujos indícios são ainda piores, situação agravada por se apaixonar por quem não se recomenda.
Maurier escreve de forma escorreita e despretensiosa, mas cuidada, agradável e literariamente boa. Constrói assim uma obra de entretenimento sem descer à vulgaridade, enriquecida com a descrição pormenorizada da paisagem da charneca da Cornualha e ainda com análises psicológicas densas das personagens que cria.
Gostei do livro que prende o leitor, é fácil, bem estruturado e bem cuidado.


terça-feira, 26 de junho de 2018

"A Tábua de Flandres" de Arturo Pérez-Reverte


Excertos
"Na realidade, meus filhos, paroquianos, constituímos um bizarro exército. Temos a desfaçatez de perseguir segredos que, no fundo,  mais não são do que os enigmas da nossa própria vida."

"Uma vez li que o homem não nasceu para resolver o problema do mundo mas sim para averiguar em que consiste esse problema..."

"A Tábua de Flandres", do espanhol Pérez-Reverte, é um romance onde o autor junta o género policial, enigma/charada e crime a uma boa escrita trabalhada com estilo, fazendo numerosas referências culturais, neste caso música e pintura, e ainda adiciona momentos de reflexão e de análise psicológica com as personagens, tornando o livro  numa boa obra literária.
Júlia, uma restauradora de arte, trabalha numa pintura em madeira com 300 anos de van Huys, pertencente a uma coleção privada e destinada a um leilão que representa uma partida de xadrez. Ela descobre sob a tinta a questão oculta sobre quem matou o cavaleiro, iniciando-se uma charada cuja resposta estará nas jogadas antecedentes ao exposto na tela. A presença da mensagem escondida valoriza o quadro e durante os esforços de resolução ocorre uma morte associada a um desafio para a continuação da partida, há assim sobreposição de um crime no passado e assassinatos no presente. Um jogador é convidado a desenrolar a partida enquanto a polícia se perde entre questões fúteis face às considerações discutidas pelas personagens centrais da trama, as regras e o simbolismo são a chave de tudo e indiciam o risco de vida para Júlia.
Além da boa escrita, reflexões e análise de enigmas lançadas com as estratégias e regras do xadrez, o autor consegue até manter o interesse do leitor por várias dezenas de páginas após se desvendar os mistérios, isto porque Pérez-Reverte concilia a técnica do suspense policial com os ingredientes da boa literatura, agradando não só os leitores de obras de ação, como outros mais exigentes literariamente.

domingo, 28 de janeiro de 2018

"O Relatório de Brodeck" de Phillippe Claudel


Citações do livro
"A imbecilidade é uma doença que casa bem com o medo."
"Bastam a raiva e o ódio para desarranjar os cérebros. São aguardentes mais violentas."

Em "O relatório de Brodeck", do francês Philippe Claudel, o protagonista, é encarregado pelo Presidente do lugar a escrever um relatório em nome da população que justifique o assassinato coletivo, perpetrado pelos adultos da aldeia, de um visitante que ali se estabelecera há uns meses numa pousada e agitara as consciências pelo seu exotismo e simpatia, só que Brodeck não assistiu ao crime e logo na primeira frase do romance assume "não tive culpa de nada.".
A obra decorre no pós-guerra entre o dia em que o narrador interrompeu a sessão do crime da aldeia até à entrega do relatório que teve de escrever. Entretanto, Brodeck vai-nos narrando a sua via de órfão não natural da aldeia, o acolhimento por uma mulher e os acontecimentos mais importantes da aldeia fechada ao exterior, desconfiada por instinto de sobrevivência e onde todos são culpados de algo, inclusive contra o autor, denunciado na guerra como estrangeiro para um campo de concentração que o ensombra. Paralelamente, vamos descobrindo a chegada do assassinado, nunca disse o nome e ficou conhecido por "De Anderer" (o outro), mas que com o seu sorriso desconcertante e desenhos espelhava o mal que pesava na consciência local e desejavam esquecer.
Talvez por o escritor também  ser argumentista, a obra evolui de forma cinematográfica, enquanto o texto, cheio de metáforas, tem um encadeado de alegorias cujos acontecimentos fazem-nos refletir sobre ideias subjacentes. Nunca é dito qual é a guerra, subentende-se a II Grande Guerra. Nunca é dito o local, deduz-se ser um território fronteiriço da França com a Alemanha (Claudel é natural dessa faixa), daí a desconfiança para com os de fora. Não sabemos a raça de Brodeck, apenas é diferente. O povo tem um dialeto próprio germânico, tal como a Lorena do escritor, com imensas frases no livro sempre traduzidas, incluindo os equívocos malévolos que escondem.
O romance torna-se incómodo pelas perguntas que levanta, pela evidenciação do mal que somos capazes de fazer, nos momentos extremos ou fáceis, a opressão que tal provoca na consciência individual e coletiva e a reação contra quem de alguma forma nos faz lembrar aquilo que nos pesa.
O livro é muito fácil de ler, apesar de se subentender sombras a pesar quase todas as passagens, pouco extensos e marcante. Gostei muito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" de Robert Louis Stevenson


O livro "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" do escocês Robert Louis Stevenson que acabei de ler é uma edição com três contos, onde o que dá nome ao livro tem a dimensão quase de uma novela e é talvez a obra mais famosa do autor. A capa no post é diferente da que li, pois a publicação que tenho não está à venda, mas a capa mostras contém precisamente à mesma coletânea.
Todas as histórias entram no domínio do gótico ou temas que exploram a aproximação de mortos, situações de quase terror, embora nestes relatos pareçam envolvidas pelo saber científico numa Inglaterra vitoriana. A primeira: "O furta-defuntos", baseia-se no problema ocorrido no Reino Unido no século XIX da comercialização ilegal de cadáveres para investigação médica, neste caso, além de encobrimento dos crimes, especula-se uma situação arrepiante que os traficantes terão enfrentado.
No segundo, "Olalla", um soldado ferido é acolhido numa família de montanha para recuperação, onde os anfitriões com um passado nobre sofreram degenerescência ao longo de séculos pelo mal que terão feito e o amor do hóspede por uma jovem fica refém dessa maldição. Uma forma regressiva de trazer para a literatura a teoria de evolução de Darwin, então tentar vencer na opinião pública.
A última história: "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde", que dá o nome ao livro, é uma referência na literatura, clássico do género gótico. Dr. Jekyll, um homem exemplar e benemérito, surge associado a um Sr. Hyde que além de assustar pela sua falta de humanidade, pratica um crime hediondo e parece protegido do doutor, sem se saber que motivações obscuras dão ascendente do execrável personagem ao bondoso doutor. Após se pensar estar numa situação de chantagem, descobre-se a explicação final que envolve a luta permanente entre o bem e mal no ser humano, as cedências a este e a curiosidade do cientista quando despreza a ética. Um magnífico conto que vai muito além de uma história de ficção, entrando sim no campo das reflexões sobre o comportamento das pessoas perante os desafios e as escolhas morais e éticas.
Uma escrita com parágrafos extensos característica das narrativas daquele período, com magníficas metáforas e outras figuras de estilo que deliciam o leitor. Gostei sobretudo do último conto: magnífico.

domingo, 14 de maio de 2017

"Rebecca" de Daphne du Maurier


Li Rebecca", da escritora inglesa Daphne du Maurier, sobretudo para conhecer o livro que esteve na base do filme homónimo e uma da obras mais empolgantes do realizador Alfred Hitchcook que eu vira no cinema há umas décadas atrás e sabia muito ter gostado, mas já com poucas memórias da história. Algumas passagens do romance recordaram-me cenas do filme e inclusive certas memórias revelavam-me o evoluir de alguns momentos da narrativa, todavia, felizmente, nunca o desenlace final, o que permitiu manter o suspense até à última página.
A protagonista narra o modo de como jovem de companhia de uma velha rica e presunçosa conheceu num hotel de verão em Monte Carlo um inglês mais idoso, senhor de uma importante mansão e viúvo de Rebecca, uma mulher admirada pela sua beleza e vida social que morrera recentemente num acidente. O encontro entre os dois conduziu a um casamento repentino e ao choque da sua entrada numa nova vida na imponente residência de Manderley cheia de memórias da anterior mulher e onde a mordoma que criara e se afeiçoara à anterior dona alimenta um ódio à nova senhora sentindo-a como intrusa e usurpadora sem o nível da anterior. No seio destas dificuldades e insegurança da segunda Mrs. de Winter, narradas no início a um ritmo lento e nostálgico, um incidente traz ao de cima com grande violência e perigo dúvidas sobre as causas da morte de Rebecca que colocam em ameaça uma relação ainda cheia de incertezas de ser fruto de um amor correspondido e onde o fantasma da falecida parece vir vingar-se ao longo de uma investigação policial cheia de suspense até ao final.
O romance apresenta uma escrita muito feminina, cheia de sentimentos e pormenores dos espaços percorridos e situações narradas por um coração de mulher e essa forma sente-se não só na sensação de insegurança e lentidão de adaptação social na primeira metade da obra, como na força do companheirismo e do amor com que a ansiedade do suspense é combatida na segunda metade da obra face a todos os perigos que colocam em risco um amor que se descobre ser forte, apesar de uma sombra do passado que afinal era uma ameaça mas por razões bem díspares dos receios da segunda Mrs. de Winter.
Uma obra que junta romantismo, literatura policial e suspense brilhantemente escrita e estruturada, com um grande tempero feminino. Gostei e recomendo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Mystic River" de Dennis Lehane



Acabei de ler "Mystic River" a minha estreia em Dennis Lehane, um escritor atual dos Estados Unidos, que trabalhou com crianças com problemas psicológicos e depois se dedicou à escrita com obras de ficção do género thriller e policial, onde se encaixa este romance.
Três crianças de 11 anos brincam na rua quando uma delas é raptada por um carro, vítima de abusos e consegue fugir. Mais de 20 anos depois, já homens quando cada um segue a sua vida e a amizade do passado esfriou, ocorre o assassínio da filha de um deles, o que os leva a uma aproximação, sendo agora um investigador policial, outro suspeito e o restante vítima da situação, decorre então o trabalho de pesquisa num bairro pobre, com problemas de violência, degradação social e sem perspetivas de futuros para os mais desfavorecidos, enquanto a área vai sendo cercada por yuppies em ascensão económica.
Neste policial somos questionados sobre os traumas da infância, a desagregação social e familiar, as dificuldades de reabilitação de quem convive com o crime e vive no meio deste, bem como reflexões de quem investiga para garantir a segurança e retirar os criminosos da sociedade, num trama onde amizade, desconfiança e obrigações profissionais se cruzam.
Contudo este romance, já adaptado ao cinema, é muito mais que uma simples estória de entretenimento, pois, além de ter uma escrita literária de qualidade, tipicamente norte-americana, junta uma análise psicológica e social profunda de um meio urbano e grupo problemático, criando personagens complexas que elevam esta obra ao nível de outros géneros literários considerados alvos de maior respeito no mundo da literatura e da cultura que um simples thriller para explorar emoções e medos. Gostei e recomendo.

terça-feira, 19 de julho de 2016

"Hereges" Leonardo Padura


"Hereges" obra recente (2015) do escritor cubano Leonardo Padura, corresponde na realidade a uma trilogia de romances num único livro que se completam e correspondeu à minha estreia neste autor e na literatura de Cuba.
O primeiro romance decorre em dois tempos: um na época entre a ascensão nazi e a revolução cubana e o outro no período de transição de Fidel para Raul Castro. A trama tem como ponto de partida o facto histórico da recusa de desembarque em Havana dos refugiados judeus da Alemanha no transatlântico São Luís ali aportado em 1939 que tornou os seus passageiros vítimas do holocausto, onde de terra teria assistido a este desenlace um filho, já ali refugiado, de um casal então impedido de entrar em Cuba que supostamente tinha um retrato de Rembrandt de um judeu a representar Cristo, p qual seria objeto de negociação com as autoridades para este alcançar a sua liberdade, só que aquelas aceitaram a obra mas sem cumprir o prometido. No segundo tempo, o neto do casal contrata o trabalho de um detetive (personagem que é comum a muitas obras de Padura), ex-polícia, para não só investigar um possível crime de vingança do seu pais contra os corruptos que deixaram morrer os avós, como sobre o possível percurso do quadro.
O segundo romance recua ao tempo de Rembrandt e passa-se em Amesterdão, onde o quadro foi pintado, e narra a vida do modelo do retrato, um jovem sefardita vocacionado para a pintura, profissão interdita aos judeus que sofre as consequência da sua transgressão num período igualmente contemporâneo de outro genocídio judaico que está na origem da entrada do quadro na família do casal morto às mãos dos nazis. Esta relato está ligado a Portugal e à perseguição judia do tempo da imposição da conversão ao cristianismo de onde era originária a família deste discípulo do pintor.
O terceiro romance volta a Havana já no tempo de Raul Castro e é outra investigação do mesmo detetive sobre um desaparecimento de uma jovem, inteligente e culta, revoltada com o vazio da sociedade contemporânea e a corrupção em Cuba, só que novamente este caso vai-se cruzar com a família judaica proprietária do retrato, fechando assim um ciclo que é a saga desta família judaica e deste ficcionado trabalho de Rembrandt.
Este livro tem muito mais que um romance policial ou um histórico, serve de mote para falar da luta contra a opressão e da liberdade de pensar e de escolha das pessoas, os riscos de quem optar por se livrar destas amarras impostas pela política ou pela religião, desta forma torna-se evidente a analogia entre as perseguições ideológicas, os objetivos destas, a corrupção social na sociedade atual e a desilusão de quem acredita em messias como salvação no mundo, isto escrito numa Cuba que não é um exemplo de liberdade de pensamento e de ação, de cujos vícios dos últimos 80 anos são  expostos de uma forma mais ou menos direta, tornando-se assim numa estratégia inteligente de denúncia, não só do sistema que ali se desenvolveu e o antecedeu, como também do mundo contemporâneo ocidental teoricamente livre e garante de um futuro promissor.

sexta-feira, 25 de março de 2016

"Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins

O romance "Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins, vencedor do prémio romance/novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2009, decorre durante as operações de salvamento de um cego, o protagonista, e de uma criança, sugados por um esgoto antigo de Lisboa na sequência de uma inundação relâmpago da cidade.
Habitualmente não gosto da escrita de jornalistas que viram a escritores, mas este foi uma exceção, não deixa a sensação de se estar a ler uma reportagem ou um texto demasiado estilizado para disfarçar o tom de redação noticiosa. Gostei da forma como escreve.
Todavia a estória surpreendeu-me, tinha imaginado que esta se desenvolvesse segundo duas linhas possíveis: uma viagem pelo subsolo lisboeta ao estilo de guia subterrâneo de uma Lisboa menos conhecida ou uma narração com a forma diferente de um cego ver o mundo e de este o ver. Afinal no romance existem muitos relatos paralelos da vida das personagens mais importantes da obra, memórias anteriores ao momento em que a ação se desenrola: a operação de busca e resgate. Há dissertações sobre a religião, a vida de santos, os milagres ansiados para a cura da cegueira e até espetáculos de magia e os azares de vida do principal amigo do protagonista, um mágico pouco afortunado. Por vezes salta-se do mundo do ilusionista para o dos milagres, que talvez nem sejam tão distantes assim, mas o certo é que o final da história me surpreendeu e talvez daí resultar uma certa desilusão nas minhas expectativas.
Este é o segundo livro que leio onde a igreja de São Sebastião da Pedreira é o ponto de partida para uma Lisboa subterrânea e onde a ameaça de um terramoto se concretiza sobre a cidade, o outro: "Terramoto" de Vitorio Kali, li-o há mais de 20 anos, fico com alguma suspeita de não ser uma mera coincidência, mas as obras são bem diferentes.
Sobre o romance que agora li, houve passagens de que gostei, outras em que me diverti com a ironia que praticamente é transversal a toda a obra, mas tambén senti aproveitamentos fáceis de abordar crenças religiosas e que se podia ter ido mais além nas vias que esperava encontrar, todavia penso ser uma obra interessante de se ler e cada um depois tirar a sua opinião

domingo, 22 de março de 2015

"O Pintassilgo" de Donna Tartt


"O pintassilgo" de Donna Tartt que acabei de ler, que se serve da homónima obra-prima da pintura flamenga de Fabritius como ponto de partida, pode enquadrar-se no género literário habitualmente designado por "thriller", até porque os ingredientes e estrutura da obra estão lá todos, mas é também um romance muito mais profundo, pois para além da excitação e ritmo e ânsia a que este tipo de histórias normalmente se limita, há também uma reflexão e abordagem à sensação de perda de alguém que se ama, neste caso a mãe, e de quem estamos dependentes para encontrar o nosso espaço num mundo vertiginoso e niilista.  A escolha da autodestruição como revolta a esta perda e desnorte e a possibilidade de reabilitação da pessoa mesmo como consequência das más escolhas nesta via de protesto leva a uma interrogação no final do livro: será que o mal pode provocar o bem?
No romance vemos muito  de uma geração jovem norte-americana sem referências e sem o farol dos mais velhos, perdida entre a droga, a desatenção dos pais através de uma comunidade que passa pelo mundo da arte, dos antiquários e do submundo que também obscurece este grupo, com ladrões, chantagens, vítimas inocentes e culpadas.
Um livro extenso, quase 900 páginas, muito bom, num estilo de escrita que parece casual mas cuidado tipicamente norteamericano, que consegue conciliar a literatura de fácil leitura para quem se contenta com romances de entretenimento, mas que junta sem perturbar interrogações de maior dificuldade de resposta para leitores mais exigentes literariamente. Gostei muito e recomendo a qualquer pessoa.

domingo, 14 de dezembro de 2014

"Os luminares" de Eleanor Catton


"Os Luminares" da neozelandesa Eleanor Catton é um romance de ficção e entretenimento com recurso ao suspense em torno de um crime ocorrido numa cidade recém-criada pela corrida ao ouro na Costa Ocidental da Nova Zelândia em meados do século XIX.
A obra, extensa (884 páginas), com uma caracterização física e psicológica profunda das personagens, apresenta uma escrita muito cuidada, rica e tradicional. O texto possui uma estrutura semelhante à dos romances ingleses e franceses característica da época em que se desenrola a estória, com vilões, prostitutas, ingénuos, vinganças, crimes, pesquisas criminais, julgamentos em tribunal e paixões num mundo onde as mulheres são uma raridade. As pistas vão sendo expostas com o desenrolar do enredo, mas apenas se esclarecem as dúvidas com um regresso aos antecedentes do crime na última parte do livro que vai até à exposição no final.
"Os Luminares" foi prémio de ficção Governor General 2013 no Canada, destinado a autores residentes ou nascidos neste País, como também Man Booker Prize 2013, entregue a obras escritas em inglês na Commonwealth. Nem sempre estes galardões correspondem a obras que me agradem pela positiva, mas neste caso fiquei muito bem impressionado, tendo ainda em conta a maturidade da escrita numa jovem então com 27 anos e o talento demonstrado, o que evidencia que se podem fazer bons romances atuais sem cortar com a tradição de escrita e estrutura literária clássica. Gostei muito e recomendo a todos a leitura.

domingo, 3 de agosto de 2014

"O nome da rosa" de Umberto Eco

"O nome da rosa" de Umberto Eco foi um dos principais sucessos literários na Europa em meados da década de 1980 e teve outro êxito na versão cinematográfica imediatamente a seguir, que então vi e esperei para me esquecer de quase toda a trama para ler o livro, que é talvez a obra mais famosa deste escritor italiano.
Um romance sobre livros, questões teológicas e políticas do final da idade média que se enquadra tanto no género policial, como histórico, onde, através de uma investigação em torno de uma série de crimes sucessivos de frades ligados às funções de copistas, bibliotecários, guardiães do saber e se encobrimento das heresias e conceitos perigosos para a fé numa abadia remota das montanhas da península itálica, Eco aproveita para dissertar sobre os principais conflitos entre o interesse material e político da Igreja (inclusive a pobreza desta como tema de fé) no tempo do papa João XXII e do imperador germânico Luís da Baviera, bem como expor as questões teológicas, os princípios e modo de agir da inquisição ainda antes da contrarreforma e ainda dar a conhecer a vida religiosa, as superstições e os mitos característicos nos alvores do fim da submissão da ciência ao poder religioso. Interessantíssimo o tratamento dado ao medo dos teólogos ao riso, à comédia e a dúvida se Jesus alguma vez riu.
Sob o ponto de vista policial os principais ingredientes destas obras estão presentes, todavia este são muitas vezes intercalados por profundas dissertações sobre as questões acima mencionadas, tornando-se numa fonte de informação histórica e perdendo o aspeto ligeiro típico da caça ao criminoso ou criminosos. É igualmente uma denúncia de que a paixão por livros, pelo saber e fanatismo de fé pode ser levada a extremos tais que se torna também numa obscuridade e numa ameaça. Um grande livro sem dúvida, mas nem sempre fácil pela sua enorme riqueza e profundidade temática, mas que demonstra a compatibilidade entre o gosto popular e o erudito transformando-o num clássico de literatura do género.