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segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

sábado, 2 de junho de 2018

"Moby-Dick" de Herman Melville


Excertos
Não quero no meu bote homem que não tenha medo da baleia.» ... a coragem mais consistente e mais proveitosa é aquela que nasce da justa avaliação do perigo diante do qual se está, ... um homem totalmente desprovido de medo é um camarada mais perigoso que um cobarde."


"... olhemos para esta portentosa mandíbula inferior, que se assemelha à tampa estreita e comprida de uma imensa caixa de rapé, com a dobradiça numa extremidade em vez de num dos lados. Se a abrirmos de modo a erguê-la e a exibir a sua fileira de dentes, parece uma terrífica ponte levadiça, e ai, é exactamente o que ela é na pesca para tantas desgraçadas criaturas..."

Compreendo! Não é a primeira vez que acontece. A trovoada da noite passada virou a bússola do avesso, Sr. Starbuck... mais nada. Presumo que já ouviste falar de um fenómeno destes.» ... uma vez aniquilada a sua qualidade de íman, a agulha antes magnética fica reduzida à inutilidade da agulha de tricotar de uma dona de casa..."

Este grande clássico da literatura do século XIX: Moby-Dick, do americano Herman Melville, é muito mais que a narrativa de uma viagem contada pelo marinheiro Ismael num navio baleeiro sob as ordens do capitão Ahab com a ideia-fixa de matar o cachalote albino que num acidente anterior lhe amputara a perna e a descrição da faina ali desenrolada. Este livro é também um enorme tratado, escrito de forma literária, da atividade da baleação e do conhecimento técnico, por vezes científico em meados do século XIX sobre os cetáceos e a vida dos baleeiros.
Apenas o primeiro quarto do livro e umas dezenas das páginas finais da obra, de um volume com mais de 600, são essencialmente de narrativa ficcionada, na inicial ficamos conhecer os antecedentes do narrador Ismael que o levaram ao navio Pequod, relatados com grande humor, e na última conta-se o confronto do capitão Ahab e da tripulação com Moby-Dick. Os dois terços centrais da obra são relatos de acontecimentos da viagem que servem de ponte à descrição da atividade e cultura baleeira e a caracterização dos cetáceos.
Tão importante são os aspetos descritivos e técnicos da baleação e cetáceos que muitos capítulos quase não importam para a ficção, são como "fichas" das múltiplas atividades desenvolvidas numa baleeira em viagem: a explicação das funções específicas dos diferentes membros da tripulação, das profissões a bordo e a estrutura de comando; a descrição em pormenor dos utensílios e do seu manuseio, sem esquecer as variabilidades entre comunidades baleeiras repartidas por vários locais da Terra, sobretudo no ocidente; a classificação científica das várias espécies de cetáceos baseada na anatomia externa e, por vezes, órgãos internos e ainda do potencial comercial de distintos tipos de cetáceos e descrição dos produtos obtidos; a exposição de todas as tarefas no ato da caça ao cachalote e transformação deste em alto-mar, sendo a embarcação um navio-fábrica com ferreiros, carpinteiros e outras profissões; os relatos das tradições, superstições e lendas que envolvem a baleação; e ainda e regras de cortesia, diplomacia e códigos de ética dos navios desta faina. Cria-se assim um quadro global de toda a cultura relacionada com esta atividade no mar e das comunidades portuárias associadas por volta de 1850.
A tentativa de descrever tecnicamente e numa linguagem com estilo literário de ficção e cheia de simbolismos, todo o saber dos cetáceos, numa época ainda radicada em muitas incertezas, leva a que por vezes não só se sinta a desatualização da exposição, dando-lhe um cariz que parece ridículo, como a inclusão dos cetáceos  nos peixes e não nos mamíferos, e a forte influência religiosa com numerosas referências ao antigo testamento na perspetiva das religiões protestantes mais radicais anglo-saxónicas, sendo o cachalote também designado por Leviatã e com frequência enquadrado em histórias bíblicas ou da hagiografia cristã, além de personagens e cenas simbólicas, dá um tom conservador e místico à obra numa estranha mistura de figuras de estilo e descrições mecânicas semelhante a tratados científicos medievais, onde o misticismo baralha as observações empíricas.
Por sua vez, as várias dezenas de "fichas" para os diferentes tópicos, o seu grande pormenor descritivo feitas neste estilo místico-científico e alheias à trama tornam a leitura do livro muitas vezes fastidiosa pelo enorme manancial de informação, as um bom documento para historiadores da baleação.
A escrita tem a marca da genialidade estilística do autor e é típica do século XIX, um misto de exposição jornalística cheia de metáforas literárias e opiniões do narrador, é o afinco de Melville incluir todo o universo da baleação neste romance que torna exasperante ler tanta informação sem importar para a trama, mas o escritor nunca secundariza o simbolismo  e misticismo em Moby-Dick.
Confesso, que dada a importância da baleação no Faial e Pico, ter conhecido baleeiros e ao descobrir-me bisneto de alguém que tinha convivido no século XIX com a baleação na Nova Inglaterra despertou-me interesse pela temática, caso contrário teria sido ainda mais difícil acompanhar tanto pormenor, apesar de se estar perante uma obra-prima e marcante da literatura mundial.
Eis uma grande obra literária que não se limitou a ser um romance, mas sim um compêndio completo do saber de então da arte e da atividade da baleação, o que torna esta obra difícil para muitos leitores devido à minúcia com que este assunto é exposto no seio da ficção, o que exige uma dose significativa de resistência para continuar a leitura até ao fim se a temática não interessar.

sábado, 12 de maio de 2018

"A Ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells


Excertos
"No entanto sabia que, se toda aquela dor estivesse a ser experimentada no aposento ao lado por alguém sem voz, acredito que poderia conviver com ela. É somente quando a dor alheia é dotada de voz e põe os nossos nervos à flor da pele que a piedade brota dentro de nós."

"Suponho que existe algo na forma humana que atrai a nossa mentalidade artística de modo mais poderoso do que uma forma animal qualquer. Mas não me restringi a produzir humanos."

"O tipo de inteligência que consigo em geral é de nível muito baixo."

Confesso que durante anos não li "A ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells por pensar que estaria perante uma obra juvenil, erro meu. Esta obra pode de facto ser lida de forma limitada como uma estória simples ou resultar numa adaptação ao cinema acéfalo dos efeitos especiais que despertam emoções sem regar a razão, mas o texto e a trama do livro inclui grandes reflexões ao nível de questões de ética na investigação científica e os riscos que a humanidade pode correr se a sua curiosidade não for temperada pelo bom-senso.
Como pessoa formada em ciências, este romance alerta que o querer saber e experimentar deve ter limites deontológicos. O primeiro excerto que acima publiquei aponta também para outro problema do comportamento do homem perante o sofrimento da humanidade e a sua consciência.
Após um naufrágio, o protagonista relata como foi salvo e despejado numa ilha onde um cientista obsessivo leva ao extremo a tentativa de transformar animais em humanos. Claro que esta aberração quando implementa só poderia levar à catástrofe e Wells é um escritor genial em contar histórias enquanto põe o leitor a refletir sobre a ética em ciências.
Tratando-se de uma obra anterior à descoberta da genética, a ferramenta encontrada para alcançar o fim pretendido parece-nos hoje arcaica, mas com manipulação de genes ou formas para o homem criar uma biodiversidade ao seu gosto de criador as questões de ética são as mesmas e são estas que saltam junto com a aventura do nosso náufrago.
Um livro muito fácil de se ler devido a uma narrativa límpida, elegante e descritiva sem recurso a grandes criatividades de escrita que perturbem o desenrolar dos acontecimentos e as reflexões são feitas de uma forma tão bem enquadra no evoluir da história que não dificultam a leitura. Gostei muito espero ainda ler mais obras deste escritor e um dos pais da ficção científica que vai além do entretenimento.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"História do Mundo" de Andrew Marr



Eis um livro fora do campo da ficção, área que tem prevalecido neste blogue. "História do Mundo" de Andrew Marr é uma exposição da evolução da humanidade.
Começa com aquela Eva (não a bíblica, embora também aqui se especule) que acompanhou a primeira migração da humanidade para fora do berço africano que levou à expansão da espécie com os genes daquela mãe por todos os continentes da Terra.
Prossegue com o surgir da agricultura, das primeiras cidades como sociedades  organizadas e o surgir de civilizações em todos os cantos do planeta, descreve muitas suas características marcantes.
A seguir entra-se mais num rol de líderes de povos que foram desde heróis humanitários até agentes de terror, mas que moldaram o mundo global atual e termina com pormenores menos conhecidos do próprio século XX e volta a especular a partir de tendências de hoje em dia.
Não é um livro só com uma visão ocidentalista da história global. Nós somos frutos da miscigenação das culturas asiática, médio oriente e mediterrâneo, como Chinesa, Mongol, Indiana, Egípcia, Judia, Fenícia, Grega, Romana, Portuguesa, Espanhola Inglesa e Holandesa, etc. que deixaram marcas muito fortes à escala planetária, mas também somos resultado de civilizações quase esquecidas:  Etíope, Mali, Inca, Azteca e até de Aborígenes.
Houve guerreiros heróis pelas suas vitórias que espalharam o terror como Gengis Khan, Ivan o Terrível e derrotados que estiveram mais próximo de vencer do que de perder: Napoleão ou Hítler, mas é deste resultado final que se fala, mas também há heróis que venceram pela paz como Ghandi
Houve revoluções que para semear a justiça que cultivaram a injustiça e povos que se fecharam ao mundo e depois se abriram como o Japão que influencia o presente à escala global.
Houve gente que lutou pela igualdade e outros que apostaram na escravatura, mas que deu melhores condições que alguns que usaram pessoas livres na revolução industrial e neste confronto houve nações que o mundo ostracizou como o Haiti e outras que foram espoliadas de todo.
Há líderes megalómanos por orgulho e por amor, pessoas de onde brotaram religiões que ora libertam, ora escravizam e por vezes semeiam o amor, noutros o ódio.
O livro é uma história do mundo cheia de pessoas, informações, curiosidades, acidentes e incidentes que moldaram a Humanidade para quem gosta de saber como chegámos até ao presente não se limitando a uma visão ocidental.