quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Coelho em Paz de John Updike

Excerto
"Estou velho de mais para me renovar."

Terminei o último volume desta tetralogia de John Updike: "Coelho em Paz", também vencedor do prémio Pulitzer para ficção. À semelhança de cada romance anterior a sequência entre eles corresponde ao salto de uma década, agora está-se no ano de 1988, na transição de Reagan para Bush(pai), em plena perestroika, declínio do domínio soviético, ascensão do terrorismo árabe e a SIDA (aids) é uma epidemia que marca toda a sociedade. Harry já é avô, tem agora 56 anos, sofre de graves problemas cardíacos, o seu estatuto social leva-o a ter um condomínio na Florida para o inverno, delegou a gestão do seu stand automóvel no filho, Nelson, sente-se atraído pela nora, enquanto a sua mulher permanece com espírito jovem e empreendedor. Apesar das disfunções da idade e da doença, os hábitos e defeitos de Coelho mantém-se e a sua má relação com Nelson persiste na desconfiança mútua e ressentimentos, mas encanta-se com os netos.
Provavelmente com o objetivo de pôr termo à tetralogia, Updike coloca este cinquentão com tiques de um septuagenário. As imensas memórias do passado permitem narrar a evolução dos costumes e do urbanismo nos EUA e talvez sejam estas recordações as partes mais profundas e trabalhadas do livro. O facto de o ter envelhecido antes da idade e doente permitiu manter os desejos sexuais num corpo com limitações físicas ainda com o peso do desejo no seu comportamento. Coelho deixa-se arrastar por uma relação que evidencia a falta de valores éticos de quem se deixa levar pelo instinto. Igualmente o choque de gerações é agudizado pela toxicodependência de Nelson que leva a uma situação insustentável na família e serve para expor situações de preconceito, a não reconversão das pessoas na velhice embora volúveis ao amor avô-netos.
Este volume e o primeiro foram os que mais gostei, apesar das questões de sexo serem em todos tratadas sem tabus de pensamentos e atos e tal levar a uma linguagem grosseira no texto se recato, a exposição das fragilidades da velhice, o amor aos netos, a casmurrice de quem arca com muitas memórias e se vê no ocaso da vida e o retrato da evolução social de 40 anos nos EUA dão a este romance muita ternura e interesse. Até consegui simpatizar com este Coelho: um cidadão que teve sonhos elevados quando estrela de basquetebol na juventude que se tornou numa pessoa banal e cheia de complexos, mas atado aos desejos sexuais e incorrigível, apesar de ver os defeitos de todos os outros, ele foi um homem comum insatisfeito que procurou o amor sem o saber dar ou receber.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"Coelho Enriquece" de John Updike


Excerto
"Como se pode respeitar o mundo se este é conduzido por um grupo de miúdos que envelheceram."

No terceiro volume da tetralogia Coelho, o escritor norte-americano John Updike transporta-nos para a vida nos Estados Unidos em 1979, na presidência de Carter em plena crise dos reféns da embaixada dos EUA em Teerão.
Em "Coelho Enriquece" vencedor do prémio Pulitzer para ficção, Harry já é quarentão, acomodado numa vida social e profissional rotineira e entediante, após alcançar o desafogo financeiro pelas cedências pessoais economicamente oportunas e quando o filho jovem sente todas as inseguranças da idade (muito semelhantes às do progenitor que ele agora não compreende), originando o conflito de gerações ao tentar encaminhar o herdeiro contra a vontade deste que se quer afirmar sem se afastar de casa e responsabilizando o pai de todos os seus males. O protagonista casualmente encontra uma jovem que suspeita ser sua filha da relação contada em "Corre, Coelho" que irá despertar a sua curiosidade e levá-lo a agir em conformidade.
Apesar de neste volume não haver o culminar de uma crise e depois a descompressão à semelhança dos anteriores, a tensão vai ardendo sempre em lume-brando com picos mais elevados mas sem nunca ser plenamente resolvida. Um dos aspetos mais fortes neste romance é a insistência da vertente sexual das personagens com numerosos pormenores libidinosos e obsessivos  na vida íntima de Coelho que são descritos sem filtro na narrativa. Embora sem um estilo pornográfico, as descrições destes atos e pensamentos eróticos são pormenorizadas com um realismo intenso que podem repugnar alguns leitores. Pior ainda quando parecem ser transversais a toda a sua geração saída da revolução sexual com a queda de tabus e ávida de experiências antes que a velhice chegue.
A escrita bem trabalhada, por isso não casual, mas assegura aquele estilo realista de aparente despreocupação comum a muitas obras das últimas décadas nos Estados Unidos.
Gostei da história, recordei muitos acontecimentos noticiosos que marcaram a minha adolescência, aliás o prémio atribuído por norma premeia retratos históricos dos EUA, mas senti um certo enfado nas obsessões e pormenores da vida íntima de Coelho, não sendo eu partidário de censuras morais, aprecio algum recato e pudor em arte, apesar de Updike seguramente pretender retratar a influência do líbido das pessoas no seu comportamento social e mostrar que apesar de uma vida pública adulta ninguém na realidade se liberta das tensões hormonais iniciadas na adolescência, agindo-se emocionalmente muitas vezes como criança sob uma falsa fachada madura num permanente conflito.


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

"O Assassinato de Roger Ackroyd" de Agatha Christie


Voltei após muitas década a um policial de Agatha Christie, com uma obra que não devo ter lido antes "O Assassinato de Roger Ackroyd".
Numa pequena aldeia o médico Sheppard, narrador da história, depara-se com o suicídio de uma doente sua e confidente de Roger Ackroyd, este também amigo do doutor. Ela enviara uma carta a Roger a contar que estava a ser chantageada por alguém próximo, após o jantar ele começa a ler perante o clínico. Este pouco depois regressa a casa e recebe um telefonema do assassinato do amigo, e descobre que nenhum dos pernoitara com o morto se apercebera do crime, que estava fechado no seu escritório. Porque telefonaram a Sheppard  do exterior?
Os indícios apontam para o enteado da vítima, ausente mas que esteve na área no período da homicídio, ou talvez um estranho que visitou o prédio, mas poderá ser qualquer um dos hóspedes da casa: cunhada, sobrinha, mordomo, governanta, secretário particular, um militar amigo e até uma criada. A polícia está determinada a provar a culpa do enteado mas a sobrinha pede ao médico para este interceder para que o seu vizinho reformado ajude o resolver este caso para não se cometer um erro, só então Sheppard descobre que ao lado vive o famoso Hercule Poirot. Este aceita, coloca o médico como seu ajudante neste processo sem esquecer a irmã deste, uma mulher curiosa e perspicaz pronta a palpitar.
Este romance talvez tenha uma das tramas e solução mais elaboradas das muitas obras de Christie, escrito escorreita, mas sem nenhum destaque estilístico em termos literário, vale pelo enredo e interesse num crescendo ao longo do livro até ao surpreendente final que até a mim me apanhou desprevenido após sentir que dominava as regras das intrigas imaginados por esta autora.
Um policial que mostra o expoente alto da genialidade da autora em criar romances deste género. Gostei e é uma leitura cheia de emoção e prazer lúdico.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

"Regressa, Coelho" de John Updike

Excerto
"é tudo vida, sexo, fogo, respiração, uma combinação com oxigénio a todo o momento deslizamos à beira da conflagração"

"Regressa, Coelho", o segundo romance da tetralogia Coelho do norteamericano John Updike, decorre em 1969 cerca de uma década após as desilusões do início da vida adulta do primeiro volume que apresentei aqui.
Agora Coelho já tem vários anos de vida familiar rotineira, a mãe envelheceu e tem a doença de Parkinson, ele trabalha como tipógrafo, o filho Nelson é adolescente, a mulher Janice tem emprego na empresa do pai dela, enquanto na sociedade há a revolução sexual, hippie e a contestação à guerra do Vietname. A monotonia do lar é afetada por uma crise quando a mulher se satura do marido, arranja um colega como amante e toda a situação se desmorona. Coelho a seguir conhece num bar de negros uma jovem de um meio rico, fugida de casa que sobrevive vendendo-se. Ele decide acolhê-la e traz para casa um conjunto de novos problemas que agravar-se-ão com o aproveitamento de um amigo dela preto, traficante de drogas, despudorado e revoltado contra a comunidade branca. 
A obra faz um retrato das fragilidades das famílias perante as novas ideias sociais de comportamento sexual, emancipação das mulheres e conflito de gerações; agravadas pelo racismo, o capitalismo desumano, a política interesseira, o sonho comunista e as feridas da guerra do Vietname. Como no primeiro romance, as tensões irão num crescendo até uma catástrofe a cerca de um terço do fim da obra, dando-se então o retorno a um novo equilíbrio de sentimentos e razão após a crise.
Neste volume a religião passa para um plano supérfluo e a vida sexual das personagens torna-se o foco das relações humanas: medos, sonhos, experimentação, desinibição do pudor e desilusão. Deste modo e numa linguagem realista sem tabus há a descrição de relatos de práticas e pensamentos sexuais, sem filtro linguístico, o que leva ao uso de calão e ditos eróticos e grosseiros que podem ferir algumas suscetibilidades, contudo não têm fins de escrita erótica, mas evidenciam o peso da intimidade e dos desejos na estabilidade emocional das pessoas num estilo nu e cru.
Tirando o reparo de pudor a eventuais interessados no livro, gostei do romance que novamente não faz juízos de valor, é de fácil leitura e um retrato intenso de uma época nos Estados Unidos.

domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas

Excerto
"Falta-te alguma experiência literária para seres um bom polícia. Todos nós devíamos, antes de entrar para isto, ler uma biblioteca."

"Um crime capital" foi o primeiro livro que li de Francisco José Viegas, homem dos meios da comunicação social e da cultura em Portugal e com vários livros publicados de poesia e policiais traduzidos e é nesta última categoria que o presente romance se insere.
Após a realização de um concerto de música erudita integrado na organização do "Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura" um casal de ouvintes é descoberto morto na bancada do anfiteatro, pouco depois um brasileiro do sistema informático do evento é baleado. São estes os pontos de partida para o velho polícia da judiciária Jaime Ramos investigar, então cruzar-se-á com uma antiga amante envenenada que lhe deixa recordações antigas, com uma rede de contrabando de quadros de pintura brasileira que tem como base a cidade do Porto e usa este evento europeu em proveito próprio, com a descoberta de adultério entre casais de sócios inimigos públicos mas cooperantes na clandestinidade e com um advogado de um clã do Brasil da alta-finança e comércio de arte que faz a ligação entre o interesses nestes dois países lusófonos.
Este romance é um exemplo de que uma obra do género policial pode também ser uma boa obra de escrita literária, fornecedora de informação cultural  que aproveita um acontecimento histórico, neste caso a Porto-2001, tendo mesmo sido publicado em folhetins num jornal da cidade durante aquele importante evento cultural, mantendo um vertente lúdica, de mistério e qualidade cultural.
Um romance que descreve com poesia e realismo a paisagem e o clima da cidade do Porto, que fala de prazeres particulares em forma de hábitos e tem a inteligência de apresentar pintores brasileiros e falar de livros, semeando interesses culturais sem maçar o leitor e assegurando o ritmo da narrativa. Jaime Ramos é um detetive à moda antiga, com gostos pessoais bem vincados, fugindo à disciplina burocrática e desencontrado com este presente informatizado e acelerado, ama o seu Porto belo, chuvoso e com passado e de onde é capaz de fugir à revelia das regras para pensar com cabeça fria e à distância, numa ilha dos Açores de onde descreve maravilhas que passam fora da rota do vulgar turista deste Arquipélago.
Gostei muito e lê-se com facilidade e com qualidade de escrita, informação e formação. Espero voltar ao escritor.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"Corre, Coelho" de John Updike


Excerto
"A princípio, acontece muitas vezes que o caminho certo parece errado."

Estreei-me em John Updike, um dos escritores norteamericanos mais premiado, com o primeiro volume da sua tetralogia mais famosa em torno da personagem Coelho, Rabbit no original, romance com o título "Corre, Coelho". Havia tempo que tentava conhecer este autor, mas pretendia começar por este conjunto, só que nunca encontrava os 4 volumes juntos, esta semana numa promoção, quando a editora já nem existe, eis que finalmente os encontro de forma a completar o ciclo.
Harry Angstrom, conhecido por Coelho, tem 26 anos em 1959, foi uma estrela de basquetebol no liceu numa cidade de média dimensão na Pensilvânia. Ao acabar os estudos casou-se apressadamente por uma gravidez não desejada e entrou numa vida rotineira e vazia, tem um emprego frustrante de vendedor de máquinas de cozinha e a mulher desmazelada e alcoólica espera novo filho. Cansado disto, decide abruptamente abandonar o lar, recolhe-se em casa do seu antigo treinador que o apresenta a uma prostituta por quem ele se sente atraído e encontra uma companheira com virtudes por que ele ansiava. Só que um pastor Pentecostal com preocupações sociais tenta a reconciliação dele com a sua paroquiana, apesar de Harry ter formação Luterana, e eis que a esposa tem uma filha e surge uma oportunidade, pouco depois seguida de um acidente. Destas situações brotarão as temáticas desenvolvidas no romance: o amadurecimento humano, a desilusão no arranque da vida adulta, as questões de família face ao vazio matrimonial onde a relação sexual conta mas quando ainda subsistem tabus face à excitação da descoberta de uma companhia alternativa sem preconceitos, situações que levam as questões de moral e de religião com as diferenças de pensamento em credos distintos que se misturam com os problemas do dia-a-dia de cidadãos comuns numa sociedade capitalista, oca pronta para acusações.
John Updike tem uma boa escrita mas tipicamente norteamericana: escorreita, elegante e cheia de figuras de estilo, só que dá a impressão de estarmos perante um texto informal, quer pela menção de pormenores banais e corriqueiros, quer pela referência a marcas comerciais conhecidas, diálogos básicos e ainda um retrato da sociedade não floreado. Algumas vezes a narrativa entra em cenas mais íntimas, contudo sem descer à vulgaridade na descrição e sem ser chocante, mas subentende-se a prática do ato. Este é um aspeto que por vezes é difícil de integrar em literatura sem ser uma expressão de arrojo ou afronta, mas o escritor fá-lo de forma equilibrada e tem importância para as decisões das personagens, mas o romance não faz um julgamento individual dos vários comportamentos, o que também evidencia ponderação na obra.
Gostei da estória, da escrita, das abordagens e pretendo continuar. Só não o faço de imediato pois quando leio estórias por muito tempo em contínuo ocorre uma imersão minha nas personagens o que por vezes me perturba, mas espero voltar muito em breve a esta tetralogia. Fácil leitura.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

"Contos Escolhidos" de Maupassant

Há uns anos atrás pediram-me para cooperar num quiosque de venda de livros antigos numa feira para recolha de fundos de uma instituição de proteção de animais. Enquanto exercia a função de voluntário vendedor fui explorando o espólio e entre as obras descobri este "Contos Escolhidos" do francês do século XIX Guy Maupassant, editado em 1966, com folhas já muito amarelas e várias delas ainda por abrir, desconhecendo o autor decidi comprar para um dia o descobrir, e apesar do tempo decorrido posso agora dizer que valeu a pena, tal como os outros usados que então adquiri.
Um conjunto de 26 contos ao estilo realista, na sua maioria pequenos, passados frequentemente no meio rural da Normandia, onde se narra uma ocorrência com gente comum ou onde alguém conta uma memória de algo que com ela se passou ou assistiu e muitas vezes com um final inesperado ou com uma crítica de costumes ou a vícios pessoais.
Escrita fácil acessível e deliciosa de se ler. Gostei muito e um bom indício para mais leituras de contos de Maupasant.

domingo, 4 de agosto de 2019

"O Pátio Maldito" de Ivo Andric


O croata, Ivo Andric é um dos dois escritores laureados com o Nobel da literatura, então como jugoslavo, que penso já ter lido tudo o que está neste momento editado e disponível em Portugal,  "O Pátio Maldito", a terceira obra que leio dele, soube-me a pouco, este pequeno livro tinha potencial para uma narrativa longa mas ficou-se por uma novela com pouco mais de 100 páginas. Todas as premissas do que foi o efeito do império otomano sobre os povos dos Balcãs e o sudeste da Europa, incluindo península itálica com o venezianos e a Igreja Católica está lá... mas o autor limitou-se a um retrato ligeiro que deixa à imaginação o leitor aprofundar.
Dois frades de um convento limpam a cela e os despojos deixados por frei Petar velho e recém-falecido, mas o jovem frei Rastislav apenas recorda as memórias dos relatos Petar de quando foi a Istambul e preso por suspeita de espionagem, tendo então ficado vários meses detido n'O Pátio Maldito de onde contava: a vida do diretor da prisão de marginal a polícia; do jovem de Esmirna detido por gostar de ler e se ter encantado com a biografia do irmão de um sultão que lutou pelo trono e vencido tendo sido utilizado pelo ocidente como refém ao em benefício dos interesses de uma ordem religiosa, do Vaticano, de França e de Nápoles; do detido que apenas via denunciantes nos outros detidos e da panóplia de prisioneiros e de tipos de carácter que por ali encontrou das várias nacionalidades do império Otomano.
Muito bem escrito, embora de uma forma literariamente  conservadora, Andric mostra a diversidade das gentes do império muçulmano que dominou a Europa oriental por 500 anos, exposta na vitrina que era a prisão da capital e vista pelos olhos de um cristão bósnio.
Gostei, mas soube-me a pouco, pois tinha assuntos para estas 100 páginas se multiplicarem por quatro o cinco vezes de uma forma deliciosa.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"Auto de Fé" de Elias Canetti

Acabei de ler "Auto-de-Fé", o único romance de Elias Canetti, autor búlgaro que adquiriu a cidadania inglesa, escreveu sobretudo em alemão e vencedor do prémio Nobel da literatura, essencialmente pelas suas obras de ensaio e memórias. Um livro que me deixou impressões contraditórias.
Peter Kien é um apaixonado por livros, estudioso e perito em sinologia, dono da maior biblioteca privada da cidade e detentor de uma fenomenal memória, mas vive isolado do convívio humano por ser um misantropo exacerbado. Na sua casa conhece o porteiro, que lhe assegura o afastamento de intrusos, e a criada, mas deixa-se cativar por esta que lhe demonstra interesseiramente uma admiração por livros que o confunde e com quem vem a casar. Começa então o seu calvário com a ganância da esposa, a sua infidelidade e a ocupação do seu espaço, mas na sua delicadeza é ele que abandona o lar, onde conhece a escória da sociedade com o pior tipo de personagens que se aproveita dele. Peter leva a sua biblioteca na cabeça e contrata um anão para o ajudar no seu transporte livreiro. O choque da sua inadaptação levam ao descalabro psicológico e à confusão da sua imaginação desenraizada do convívio, talvez possa ser salvo pelo seu irmão distante, um psiquiatra gestor de um manicómio que se entusiasmou na cura de loucos.
Canetti leva o aprofundamento das suas personagens trágicas ao extremo da racionalidade, criando situações que se desenvolvem ao pormenor e longamente, o que por vezes leva a uma certa saturação do desenrolar da estória. O que acompanha com a intercalação de muitas informações provenientes da vasta cultura do escritor e do protagonista, este considera o livro acima da pessoa humana.
A escrita é riquíssima, cheia de imagens fortes, a narrativa toca o irrealismo que é enriquecido com a loucura e o desencontro das mentes dos personagens na interpretação do outro e da sociedade. É sem dúvida um grande romance, mas também pela extensão que nalguns momentos satura, mas a beleza do texto assegurou a persistência da leitura e levou-me sobretudo a querer conhecer a obra de memórias autobiográficas de Canetti.
Uma obra difícil e desafiante.

domingo, 21 de julho de 2019

"Um, ninguém e cem mil" de Luigi Pirandello


Excerto
"Você acredita que se conhece, se não se construir de alguma maneira?... Só somos capazes de conhecer aquilo a que conseguimos dar forma."

Em "Um, ninguém e cem mil" o escritor italiano Luigi Pirandello, laureado com o Nobel da literatura, constrói uma dialética, cheia de humor e reflexão, em torno da busca de identidade que cada um tem de si e daquelas que e os outros fazem de nós próprios,não somos únicos mas uma miríade de personagens. Somos uma composição múltipla de todas essas individualidades criadas por nós e por quem socializamos.
A partir de um comentário da mulher enquanto Vitangelo Moscarda se olhava ao espelho, no qual ela lhe comunica a inclinação do seu nariz de que ele nunca se apercebera, começa um conjunto de reflexões de como sou eu? Que imagem têm os outros de mim? Questões que se tornam numa obsessão que vão mudar a sua vida de banqueiro a viver à sombra da sua riqueza herdada em alguém que não apenas se quer mudar mas deseja que os outros o modelem com uma personalidade diferente.
Escrito em estilo de autorreflexão, onde trespassa ao longo dos parágrafos humor, apreciação do problema e dedução, Pirandello monta a mudança de uma personalidade a partir de um ensaio de autoanálise do protagonista.
Originalíssmo e divertido, embora exaustivo pela miríade de variantes que se vão labirinticamente cruzando, não perde interesse por ser relativamente curto, o que alimenta a vontade de saber como ficará Vitangelo Moscarda no fim do romance.
Fiquei com curiosidade de descobrir outras obras deste escritor.

domingo, 14 de julho de 2019

"O legado de Humboldt" de Saul Bellow


Excerto
"É verdade que as melhores coisas da vida estão à livre disposição de qualquer um, mas ninguém é suficientemente livre para desfrutar as melhores coisas da vida."

"Antigamente, os mais amargos reveses da vida enriqueciam apenas os corações dos desgraçados ou tinham unicamente um valor espiritual. Mas hoje em dia qualquer acontecimento pavoroso pode ser transformado numa mina de ouro."

Ao fim de muitos anos voltei a Saul Bellow, vencedor do Nobel da literatura, nascido no Canadá, de ascendência judia e naturalizado Norte-Americano, através do romance: O legado de Humboldt.
Charlie Citrine parte do interior dos EUA para Nova Iorque com o objetivo de conhecer o poeta que o deslumbrou: Humboldt. Com este desenvolve uma amizade profunda que acompanha o auge da carreira dele, só que esta entra em declínio enquanto a de Charlie caminha para o sucesso. Este vem para Chicago onde cresceu, só que a ascensão não é bem digerida por quem entrou em decadência, o que leva ao distanciamento entre ambos, mas não ao fim da admiração. Quando na meia-idade a vida de Citrine se começa a complicar, culturalmente e ao nível privado, já Humboldt morreu, mas ficaram as recordações e as lições por ele deixadas, enquanto se embrulha com mulheres, divórcio e amigos pouco abonatórios da cidade dos gangsters, é então que vem a descobrir que não foi esquecido pelo seu antigo amigo que lhe deixou um legado e a vida dará uma volta.
Bellow escreve bem, de uma forma realista, crua e cobre tudo isto com ironia amarga, humor inteligente e crítica ao estilo de vida norteamericano e de Chicago, que é fútil, onde imperam sonhos básicos capitalistas. Tudo isto é intercalado com numerosas referências/citações culturais, religiosas e filosóficas de pensadores do ocidente. Assim, a narrativa desta amizade serve de pretexto para retratar a sociedade dos Estados Unido, onde o dinheiro complica as relações humanas e os sentimentos, as escapatórias no sexo são normais e os oportunistas pululam construindo fachadas de sucesso e abusando da bondade, o que cria momentos de depressão, vazio moral e sede do transcendente.
Apesar de extenso, mais de 500 páginas, gostei muito, durante dias vivi as amarguras e desventuras deste génio cheio de recordações que nunca perdeu a admiração e amizade pelo seu ídolo cultural numa América oca, onde o dinheiro e a ânsia de sucesso são o modo de vida por excelência.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

"O Processo de Adão Pollo" J. M. G. Le Clézio

Excerto
"Se preferem, Deus tanto se compreende através do seu inverso, do seu Diabo, como dele próprio, na sua essência."

Acabei a primeira leitura de uma obra do francês Le Clézio, precisamente com o romance da sua estreia como escritor: "O Processo de Adão Pollo" alguém que décadas depois foi laureado com com o Nobel da literatura.
Adão Pollo, não se lembra se é desertor das forças armadas ou de um manicómio, sabe que se acolheu numa vivenda abandonada sobre o mar, onde recebe uma amiga que lhe traz mantimentos e tem esboços de situações passadas, talvez uma violação. Desta moradia observa pessoas, animais e acontecimentos que o rodeiam, começa a identificar-se com os seres que vê, entra em delírio com essa comunhão existencial que interfere com a paranóia do medo de ser expulso pelos donos da habitação, mas quando impulsivamente comunica a sua filosofia ao povo dá-se o seu colapso. É interceptado pelas autoridades e levado para uma casa de alienados, onde estudantes de psiquiatria o interrogam. Percebemos então que é um jovem licenciado, muito inteligente que fugiu de casa face ao seu anseio de liberdade e de viver que narra várias situações da sua vida e levanta numerosas questões existenciais deixando os alunos perdidos no seu inquérito de diagnóstico.
A obra excelentemente escrita articula uma narrativa original com escrita criativa experimental e incorpora questões de filosofia existencialista, tentando também revelar a psique de uma mente perturbada que roça a genialidade entre alienação e o racional ao nível das suas interrogações e vontade de viver.
Como obra de ficção gostei de ler, como texto de análise psicológica e filosófica é interessante e a originalidade da estrutura narrativa tornam-no cativante, o que justifica ter sido um sucesso editorial, mesmo sem ser um livro acessível ou interessante para qualquer leitor.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

"O Pregado" de Günter Grass

Excertos
"A esperança desatravanca a História. A esperança  desembaraça, dos estorvos de época, a linha que chamamos progresso. E sobrevive, porque é a única realidade."
"...a grandiosa e importante verdade que é o facto de nenhum ordenamento político poder ser realmente bom se não estiver ao serviço do bem da generalidade das pessoas."

Numa promoção recente para autores com prémio Nobel comprei um conjunto de livros: uns para descobrir escritores, outros para revisitá-los e inclusive dois para ver se me reconciliava com certos laureados após uma primeira leitura que não me cativou. O alemão Günter Grass estava neste último pacote, depois de ler  há uns anos atrás "A Ratazana" que foi uma tortura para mim. Agora, neste "O Pregado", já antes traduzido como "O Linguado", fiquei ciente da bagagem cultural desta obra que mostra a sabedoria do escritor.
O Pregado não é um romance fácil de se ler, quer pela narrativa (saltitante num tempo longo e articulada entre factos e realismo mágico) quer pela dimensão (grande número de personagens, páginas, uma exposição enciclopédica de referências da história de um Povo e do evoluir da sua gastronomia) e pelos pormenores da província da Pomerânia e sua capital Gdansk, hoje integradas na Polónia, onde Günter Grass nasceu quando pertencentes à Alemanha, tendo a cidade então o nome de Danzig, uma importante urbe da Prússia sempre ambicionada por germânicos e eslavos.
A trama é difícil resumir, a atual esposa do protagonista está grávida e aquele encarna a memória da história dos homens da Pomerânia. Assim, lembra-se das mulheres que teve em diferentes instante-tempos desde o Neolítico até à greve nos estaleiros de Gdansk em 1970, irá então contar-lhe as biografias de uma dezenas dessas esposas ao longo de milhares de anos em nove capítulos que correspondem aos meses da gravidez de Insebill e assumindo que toda a sua história foi fruto do aconselhamento de um pregado falante, pescado nesse início remoto quando este se comprometeu a orientá-lo nas várias épocas sempre que o pedisse se o devolvesse ao mar Báltico. Em paralelo, o pregado voltou a ser pescado por mulheres feministas no século XX que o levam a julgamento por ter cultivado o machismo nas recomendações que deu ao homem da Pomerânia no relacionamento com as esposas.
Em cada capítulo a narrativa centra-se numa época distinta, embora misture memórias do passado e conhecimentos do futuro que fornecem provas para o julgamento. Através dos diferentes tempos descobre-se que a sociedade começou por ser matriarcal, onde as mulheres teriam 3 seios de forma a assegurar as suas funções femininas e acalmar os homens, mas depois com a agricultura, caça, pesca e intercâmbio das civilizações e globalização, além dos conselhos do pregado, a comunidade virou a machista, bélica e com a escravatura das mulheres que se revoltam na época moderna.
A linha da história é feita pela evolução gastronómica liderada pelas mulheres, desde os tempos recoletores. Assistimos à introdução do fogo na arte de cozinhar os alimentos, à incorporação dos cereais, legumes, aromáticas e diferentes animais e técnicas, a revolução que resultou dos Portugueses terem difundido a preços baixos as especiarias pelo norte da Europa (Vasco da Gama é uma das personagens que vê o fruto da sua descoberta numa Calcutá de hoje miserável onde vive Madre Teresa), a importância da introdução da batata, os combates dos povos germânicos, eslavos, nórdicos para conquistar este território hoje polaco, montando assim o essencial da história de Gdansk e seus arredores até à conclusão do julgamento e parto da atual mulher num momento onde o papel feminino aspira a ocupar o lugar a que tem direito e quer condenar o machismo no passado.
Günter Grass, alicerçado num conto fantástico tradicional, na história real da zona da Pomerânia e na evolução da gastronomia, cria uma trama que mistura factos da história, personagens verdadeiras e ficcionadas, reflexões sobre erros da humanidade que se repetem ainda no presente, num texto ora poético, ora irónico, por vezes crítico, noutros é um relato jornalístico e nalguns momentos é ordinário e grosseiro erótico e noutros está cheio de ternura e denúncia dos crimes da igreja, dos nacionalismos, do poder político e das ideologias.
Um grande romance cuja complexidade e dimensão por vezes dificulta a leitura e compreensão de pormenores, pode até ser fastidioso e malicioso mas que também tem momentos cativantes e a destilar um saber enciclopédico que ensina o leitor. Gostei, mas não é uma obra acessível a todos.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

"A Guarda Branca" de Mikhaíl Bulgákov


"A Guarda Branca" do escritor ucraniano Mikhaíl Bulgákov conta-nos a agitação em Kiev no período de transição do regime urbano nacionalista, que declarara a independência da Ucrânia face à Rússia com o apoio dos alemães na sequência da revolução bolchevique, para o regime seguinte de índole socialista nacionalista que toma a cidade com a fuga dos germânicos na perspetiva da derrota destes na 1.ª Grande Guerra. Segundo regime que por sua vez cairá com a invasão soviética que terminará com essa desejada separação, mas que já não entra na história deste romance.
A trama passa-se com a adesão à causa nacionalista tradicional dos três irmãos Turbin, órfãos de uma família culta de vida universitária, e das vicissudes por que eles passam com a tomada da capital pelos partidários nacionalistas socialistas.
Bulgákov narra a história dos principais acontecimentos em 1918 e no início de 1919, enquanto intercala tais situações com a guerra civil, reflexões e análises dos irmãos e seus amigos militares próximos, construindo um retrato pormenorizado desta revolução em Kiev que colocou em confronto ideologias tradicionais e revolucionários à sombra da ameaça externa bolchevique e imperialista da Rússia. Fica claro o dilema deste país encaixado entre as aspirações germânicas e russas, sendo a Ucrânia uma vítima dos interesses das potências vizinhas adversárias também ideologicamente.
A narrativa é algo tumultuosa, uma vez que o estilo de Bulgákov mistura situações caóticas no terreno, pesadelos, reflexões, alucinações e simbolismos junto com a passagem rápidas de personagens reais e fictícias relacionadas com a guerra, contudo a percepção do que terá sido este ano revolucionário fica bem patente na estória, a que se junta o facto de ter sido escrito num período onde a censura estalinista obriga a subtilezas em muitas passagens.
Gostei sobretudo pela informação histórica que esta ficção permite e ainda por mostrar os maiores dilemas da Ucrânia de hoje em dia entre o desejo de se aproximar do Ocidente e a vontade da Rússia em ter este País sob a sua influência, além dos nacionalismos ocos entre povos que habitam o mesmo espaço.


terça-feira, 11 de junho de 2019

"Fundação" de Isaac Asimov

Excertos
... meus senhores, a queda de um Império é uma coisa imensa e que não é fácil de combater. Ela é ditada por uma burocracia em ascensão, por uma iniciativa em decréscimo, uma imobilidade de castas, um aprisionamento da curiosidade - uma centena de outros fatores."

"A violência é o último refúgio dos incompetentes."

Este livro foi a minha estreia em leitura de obras de mera ficção científica em mundos fora da Terra, já lera obras distópicas previstas para o futuro, mas a "Fundação" de Isaac Asimov, russo naturalizado norteamericano, é uma estória que se passa no espaço, não localizada no tempo, num período em que o homem já colonizou numerosos planetas na galáxia e mostra a força do conhecimento como garante da civilização, causas do declínio desta e o papel da religião (crença), do comércio/economia (ferramenta de bem-estar) como força agregadora de impérios, bem como a inteligência e a astúcia serem mais mais eficazes na preservação do poder do que a guerra e a violência. 
No enredo o homem povoa toda a galáxia num império, o desenvolvimento da ciência "psico-história" permite determinar com grande precisão o evoluir da sociedade no futuro e o seu autor prevê o declínio irreversível do império a que se seguirá um recuo milenar da civilização. Então para acelerar a recuperação da humanidade força a criação de uma colónia num planeta que assegurará a preservação do saber e da tecnologia e servirá de gérmen ao renascimento galático do Homem, deixando mecanismos para este enfrentar as crises que previu nesta caminhada. 
O livro está narrado em cinco episódios espaçados no tempo que se completam e começam com o papel da psico-história, o início da cidade Terminus, duas grande crises que cujo fundador previu e o último com a substituição da religião pela economia como meio de assegurar o preservação do império.
O romance tem um estilo bastante cinematográfico ou de série televisiva, numa escrita escorreita sem preocupações de cultura literária, mas possui mensagens subliminares fortes que convidam o leitor a pensar, sem o obrigar a análises, se for alguém com apenas interesse lúdico, por isso pode ser em simultâneo uma obra popular e de culto pela sua profundidade e daí classificada uma das melhores no seu género.
Estranhamente o poder na obra radica apenas nos homens, às mulheres está reservado um papel de subserviência caseira. Apenas no último episódio existem mulheres enquadras numa sociedade totalmente machista, onde estes são os políticos, os guerreiros, os investigadores e depositários da sabedoria. Pergunto-me se será apenas uma marca do modo de pensar na década de 1950 ou mentalidade do escritor? Igualmente choca que com tantos avanços científicos algumas necessidades sejam bem típicos do século XX: a energia nuclear, eletrodomésticos, recursos minerais, etc.
O livro lê-se muito bem, tem pontos de elevado suspense e ideias para colocar à discussão para quem estiver atento e não se limita a ser um leitor passivo.