Há momentos que nos marcam definitivamente, o sismo de 9 de Julho de 1998, sem dúvida, foi aquele evento que mais me moldou na vida adulta e como autarca naquele momento tive de continuar intensamente envolvido nos anos seguintes. Embora por vezes tenha sido ouvido na comunicação social sobre vários problemas, muito sofrimento assisti e silenciei para manter o controlo da situação no terreno, até que um momento de dor intenso desembocou no meu primeiro artigo de opinião:
SISMO DE 9 DE JULHO
REQUIEM AOS NOSSOS MORTOS ESQUECIDOS
A internet é um dos meus favoritos meios para me actualizar profissional e socialmente e acompanhar o evoluir desta cultura de terceira vaga. Sentado diante do computador, encontro uma página do sul do Ontário, refere-se ao sistema regional de vigilância sísmica. Abro-a, apresentam-se, a título exemplificativo, alguns registos locais interessantes de vários sismos mundiais, para meu espanto leio: 9 de Julho de 1998, Açores, Mg 6 - ao lado da figura do sismograma alguns dados importantes: 8 mortos, 110 feridos, 1100 habitações destruídas.
Aquele dado - 8 mortos - não me sai da cabeça, uma voz insistente grita-me: Mentira, são mais! Pensa bem... Conta.
Inicio uma viagem por todas as casas dali destruídas e percebi então a falsidade daquele número.
O Joaquim, de 70 anos, meses após o sinistro ainda gritava entre os idosos acolhidos no acampamento, transportado com frequência para a urgência, voltava amansado pelos sedativos, a sua voz silenciou-se eternamente naquele ano.
A Conceição, 77 anos, durante ano e meio arrastou-se para fazer o Modelo 1, o Atestado de residência, a Certidão de teor, a Declaração de IRS, etc. mas foi a Elvira quem entregou ao CPR a Certidão de óbito...
A Antónia, de 50 anos, após tratamentos ambulatórios, percorria as várias via-sacras com estações nos Cartórios de registo predial e notarial, na fazenda, no CPR, na Junta, etc., agora descansa no cemitério.
A Maria, 64 anos, cozinhou para um acampamento inteiro, convenceu a família a ceder um terreno destinado à colocação de um bairro de pré-fabricados, outro para a deposição de entulho e ainda outro para permitir acessos às estruturas de apoio aos sinistrados, tratou de montanhas de papéis entretanto solicitados, recebeu em troca o pedido da certidão de óbito datado da véspera do seu falecimento.
Após tudo isto os - 8 mortos - continuam-me sem sair da cabeça.
Ontem, a Luisa, de 81 anos, pediu-me boleia, não conseguia subir a camioneta para ir à cidade buscar mais outra certidão entretanto solicitada. Pergunto-me, durante quanto tempo aguentará ela?
Há pouco, Felismina, após outra deslocação para tratamentos químicos e de radioterapia, questionou-me: Se eu não chegar ao fim a minha filha perde os direitos?...
Os - 8 mortos - permanecem na internet e ninguém diz nada...
Até quando?
Ribeirinha, 31 de Janeiro de 2000
Nota: Os nomes, sequência e as idades destes relatos verídicos foram alterados.
Publicado no Jornal Telégrafo, em 9 de Fevereiro de 2000.

A minha rua em Julho de 1998 (Foto Conceição Quaresma)