sábado, 7 de janeiro de 2017

"Lillias Fraser" de Hélia Correia


"Lillias Fraser" da escritora portuguesa Hélia Correia, cuja obra ganhou o prémio PEN clube de Portugal em 2002, enquanto a autora foi galardoada com prémio Camões de 2015, é um romance histórico que começa na Escócia em 1746, onde a protagonista, ainda criança e antes de uma derrota dos escoceses católicos interessados em conquistar o trono protestante da Inglaterra, tem a visão da morte do pai e foge antes do morticínio da suas gentes, salva-se e é depois protegida por várias pessoas de estatuto diverso destes dois povos em conflitos. Na sequência da sua odisseia vem parar a Lisboa, prossegue a sua vida entre vários protetores, sobrevive ao terramoto de 1755, novamente devido ao seu dom de ver a morte, passando depois na sua juventude por novos tormentos resultantes desta catástrofe entre gente que a acolhe e a persegue como uma pessoa diferente: loura, de olhos e pele clara; desembocando no período da guerra dos Sete Anos, onde Portugal se alia à Inglaterra e ela volta a cruzar-se com líderes militares dos povos da sua ilha. 
O romance envolve-se no realismo mágico, tem vários acontecimentos e personagens reais: desde a batalha inicial do livro, ao terramoto, clero influente do monarca português e militares do Reino Unido, tem muitos pormenores do que terão sido as dificuldades da população após a destruição de Lisboa e o caos social de então, bem como a ação da Inquisição e de Marquês de Pombal na época, tanto nas vertentes positivas como negativas deste.
A estória surge numa sequência de cenas que por vezes fornecem pistas futuras e outras vezes recusam prosseguir, originando um tratamento do tempo em forma de peças soltas descontínuas que por vezes abrem caminhos que fecham de seguida, além de em momentos ser uma narrativa de alguém do presente que investiga o passado e noutras a ação entrar dentro das personagens como se fossem estas os autores, paralelamente a imagem sobre os Portugueses e Portugal é frequentemente depreciativa da sua cultura e mentalidade, o que me criou algum desconforto, contudo é um romance onde aprendi factos sobre acontecimentos históricos e que sem me ter entusiasmado também não desgostei de ler e penso que valeu a pena conhecer esta obra.

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Mystic River" de Dennis Lehane



Acabei de ler "Mystic River" a minha estreia em Dennis Lehane, um escritor atual dos Estados Unidos, que trabalhou com crianças com problemas psicológicos e depois se dedicou à escrita com obras de ficção do género thriller e policial, onde se encaixa este romance.
Três crianças de 11 anos brincam na rua quando uma delas é raptada por um carro, vítima de abusos e consegue fugir. Mais de 20 anos depois, já homens quando cada um segue a sua vida e a amizade do passado esfriou, ocorre o assassínio da filha de um deles, o que os leva a uma aproximação, sendo agora um investigador policial, outro suspeito e o restante vítima da situação, decorre então o trabalho de pesquisa num bairro pobre, com problemas de violência, degradação social e sem perspetivas de futuros para os mais desfavorecidos, enquanto a área vai sendo cercada por yuppies em ascensão económica.
Neste policial somos questionados sobre os traumas da infância, a desagregação social e familiar, as dificuldades de reabilitação de quem convive com o crime e vive no meio deste, bem como reflexões de quem investiga para garantir a segurança e retirar os criminosos da sociedade, num trama onde amizade, desconfiança e obrigações profissionais se cruzam.
Contudo este romance, já adaptado ao cinema, é muito mais que uma simples estória de entretenimento, pois, além de ter uma escrita literária de qualidade, tipicamente norte-americana, junta uma análise psicológica e social profunda de um meio urbano e grupo problemático, criando personagens complexas que elevam esta obra ao nível de outros géneros literários considerados alvos de maior respeito no mundo da literatura e da cultura que um simples thriller para explorar emoções e medos. Gostei e recomendo.

sábado, 24 de dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

sábado, 17 de dezembro de 2016

"A curva do Rio" de V. S. Naipaul


Acabei de ler "A curva do Rio" do britânico de ascendência indiana, nascido em Trinidade e Tobago e prémio Nobel da literatura: V. S. Naipaul. O romance narra a experiência de vida de amadurecimento de Salim vista pelos seus próprios olhos. Nascido na costa oriental africana, de uma família antiga e influente de ascendência asiática, de tradição muçulmana que na juventude ao não ver perspetivas de futuro na sua terra natal decide adquirir uma empresa de comércio numa cidade de um País no centro de África, recentemente descolonizado, onde as características do rio permitem que o local tenha um grande potencial económico de futuro e onde se cruzam as muitas culturas que nos últimos séculos moldaram este Continente: os africanos originais de etnias variadas, os colonos, os conselheiros ocidentais pós-independência, os povos há muito radicados a sul do Sara, os missionários, gente cristã, islâmica e das religiões tradicionais, todos sob a capa de um líder carismático da nova Africa cheio de vigor para criar um futuro glorioso, mas que com o tempo vai ramificando o seu poder para controlar todo o Estado e tirar proveito de todas as divergências, incoerências sociais, preconceitos e assim dominar, desculpar-se e alimentar conflitos que degradam a socieconomia e sua população inicialmente esperançada mas que vai enfrentando a desilusão, a corrupção e as guerras ao longo dos anos.
Eis um livro poeticamente escrito e sem ser agressivo, consegue retratar a violência humana e os vícios internos de sociedades vítimas de regimes opressivos e corruptos, onde oportunistas internos e externos condenam Povos inteiros e inocentes à estagnação económica e do conhecimento, comprometendo o evoluir de pessoas inocentes e os seus sonhos e, sobretudo, o futuro de nações inteiras... neste caso um continente inteiro espelhado neste País, através desta cidade situada na curva de um rio.
Este romance é efetivamente um magnífico retrato dos problemas da África subsariana no período pós-colonial, explica muito dos problemas que afetam ainda hoje esta zona do planeta e, apesar da negritude das questões denunciadas, consegue apresentar-se num estilo literário onde a poesia da escrita traça um quadro triste num belo livro. Gostei e recomendo a quem gosta de obras que dizem muito mais nas entrelinhas através de uma estética onde fealdade não estraga a beleza do saber expor com arte.

sábado, 10 de dezembro de 2016

AMOK de Stefan Zweig


Acabei de ler o livro "Amok" do austríaco Stefan Zweig, pela sua dimensão e estrutura, 74 páginas, poderá ser qualificado como um conto.
A história refere-se a uma confidência feita numa viagem de paquete entre a Índia e a Inglaterra por um passageiro amargurado e isolado que o narrador encontrou numa hora avançada da noite e relativa ao comportamento que ele tivera como médico perante uma mulher de sociedade que o procurara numa terra colonial onde exercia a sua profissão numa aldeia afastada para este lhe prestar um serviço que ele entende não ter sido solicitado de modo adequado face à força que emana da jovem, por isso decidiu-se por um estilo de conflito mútuo, a que se seguiu um arrependimento tardio e uma tempestade de sentimento incontrolável, denominada na língua nativa de estado "amok", que o leva a agir de forma descontrolada e a procurá-la, atitude que desemboca numa tragédia e num compromisso fatal.
Escrito com uma elegância e com um ritmo que nos faz mergulhar vertiginosamente no dilema médico, ético e inclusive moral, este conto mostra uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privada. Gostei.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O homem que gostava de cães" de Leonardo Padura


Acabei de ler "O homem que gostava de cães" do cubano Leonardo Padura, o livro cruza, através de capítulos intercalados, as vidas ficcionadas de Trosky, apenas como vítima e refugiado de Estaline; do seu assassino, o catalão Mercader; e os encontros do narrador do livro, um escritor falhado e vítima da opressão do regime em Cuba, com um homem doente, amante de cães que teria conhecido o criminoso e confidente dos pormenores da vida deste desde criança até ser formatado para o crime encomendado por Estaline e das suas reflexões posteriores.
Todos os capítulos, tanto nos aspetos ficcionados como nos históricos, são bastante prolixos em pormenores e descritos ora na primeira pessoa como memórias, ora como espetador, ora de forma romanceada, o que torna a obra muito densa, não só em termos de informação dos factos conhecidos, como também ao nível da especulação e, sobretudo, no aprofundamento do que foi a mentira criada em torno de uma proposta de modelo de sociedade igualitária para a libertação do Homem que se transformou num dos maiores pesadelos, máquina de morte e de opressão do século XX, onde Mercader um catalão inicialmente envolvido na guerra civil de Espanha foi trabalhado para ser um instrumento a ser usado para este engano, inicialmente como utopista de um sonho, depois desconfiado das mentiras e montagens que assistiu e por fim já consciente do mal mas impossibilitado de mudar o seu destino, no apaziguar da culpa ficou-lhe o amor pelos cães, tal como perdurou em Trostky e no narrador.
Um romance denso que é uma explicação de como foi possível transformar uma utopia numa distopia tão desumana. Uma narrativa onde, por vezes, o texto tem o aspeto de um relato quase jornalístico, noutras um estilo mais floreado com reflexões das personagens e dos sonhos e desilusões do mesmos, mas, sobretudo, uma denúncia destas terem sido conduzidas e vítimas do medo, um sentimento que é comum à outra obra de Padura que li este ano e falei aqui. Gostei e recomendo para quem quiser conhecer melhor o que foi o pesadelo estabelecido à sombra de um modelo que tinha como princípio libertar o Homem e cujo escritor também conheceu por dentro na sua adaptação a Cuba.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante - Volume IV de "A amiga genial"


"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante corresponde ao quarto e último volume da tetralogia "A amiga genial" e completa a história de uma amizade de vida inteira vista pelos olhos da amiga que se tornou culta e escritora mas que nunca deixou de ter uma admiração e até talvez um complexo de inferioridade face a outra companheira que apesar de não ter tido a mesma oportunidade de estudo lutou com todas as forças para sobreviver, ascender socialmente e revoltada criar um mundo à sua medida à sua volta e enfrentar dificuldades pessoais difíceis de ultrapassar.
Neste livro, após uma primeira metade ainda muito novelesca com amores e ódios, percursos políticos e sociais, bem como conflitos típicos da cidade berço da obra, não só das personagens que acompanhámos nos volumes anteriores, mas também agora dos seus filhos que assim passam de crianças a adolescentes a jovens; segue-se uma segunda parte mais instrospetiva, madura, com reflexões sobre a vida e marcada pelas desilusões, visualização da repetição dos mesmos erros nos mais novos após o calo e o saber dos mais velhos, as relações sociais, a amizade, os problemas socioeconómicos dos desfavorecidos, a corrupção económica e social na Itália e uma descrição nostálgica do que é Nápoles, bem como as mudanças de estilo de vida desde os anos 1990 até à atualidade fecham o ciclo.
Ideologicamente o livro já não promove um idealismo de esquerda, neste campo também com o tempo muitos se acomodam e torna-se evidente que certos ídolos tinham pés de barro e eram oportunistas de uma classe com privilégios que não estão dispostos a prescindir, apesar do discurso solidário. A escrita também se adapta à idade da pretensa narradora, tornando-se ela mesmo mais madura.
São inclusive dadas explicações do essencial da obra de uma forma indireta, isto quando se abprdam o conteúdo de publicações da narradora a falar da amizade, surgindo assim objetivos dos livros dentro do livro que não são mais que a tradução dos da tetralogia, numa perspetiva de alguém que os expõe arreigada a valores humanos fortes, mas libertos de tabus religiosos e pudores tradicionais muito característicos de alguém que viveu a revolução sexual dos anos 1960/70. Valeu a pena a maratona.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"História de Quem Vai e de Quem Fica" Volume III de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


"História de Quem Vai e de Quem Fica", o volume III da tetralogia de "A Amiga Genial", da escritora italiana Elena Ferrante, aborda, sobretudo, o início da vida de casada da narradora e da sua experiência de mãe nos anos de 1970, sendo neste mais escassas, frias e desconfiadas as referência à amiga sobre quem se centraram essencialmente o olhar da pretensa autora do texto nos dois anteriores livros.
Além da continuação da trama novelesca de amores, ódios, ciumes e traições, a componente de confronto ideológico esquerda direita, as sombras do terrorismo na sociedade de Itália e a contra ofensiva fascista, que caracterizou de facto a época em questão, têm agora um papel muito mais forte neste volume, todavia o livro não é isento, praticamente todas personagens conotadas com a esquerda têm bons princípio na sua conduta, enquanto o outro lado são sempre exploradores ou corruptos e limitam a liberdade dos seus opositores.
Para além do estilo elegante que caracteriza a escrita, a partir deste volume passa a ter um papel importante a exposição realista de pormenores descrições das sensações dos atos íntimos da narradora, como para vincar a liberdade e fundamentar a atitude da mulher na sua emancipação na sociedade, como também se intensifica a linguagem grosseira para tornar claro a forma de expressão e de pensar natural das pessoas sem o verniz pudico que muitas vezes cobre a literatura. Curiosamente o papel desse tipo de relatos na literatura é de forma indireta discutido na obra pelo impacte que provoca nos leitores.
Continuo a gostar do romance, apesar da sua extensão para a conclusão da obra, poder por vezes dar-me saudades de outros géneros onde pese menos o olhar feminino e sentimental do mundo. Já a ler o IV volume.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

"História do Novo Nome" ou Vol. II de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


O segundo volume da tetralogia "A Amiga Genial", agora intitulado: "História do Novo Nome", de Elena Ferrante, vem numa sequência perfeita do final do primeiro romance, que narra o nascimento e fortalecimento de uma amizade desde a infância escolar até à adolescência dos protagonistas exposta de forma integrada na vida social de um bairro pobre de Nápoles, terminando o anterior na mesma cerimónia de casamento que dá início ao presente livro que estende a estória destas relações e percursos individuais até ao final dos estudos da narradora, quando esta irá passa a ser uma jovem pronta para uma vida independente.
Tal como já dera a entender, a escrita é muito agradável e de fácil leitura, sendo que a trama se aproxima do desenrolar de uma telenovela popular, só que a escritora faz na obra análises individuais que permitem criar personagens complexas, cheias de virtudes e defeitos, expor as dificuldades de quem vive em meios sociais pobres, falar das barreiras que têm de se ultrapassar para uma integração num estrato cultural e económico mais elevado, incluindo os complexos de inferioridade de origens, e ainda mostrar a corrupção, vícios políticos e preconceitos que minam a vida dos cidadãos em Nápoles, sem esquecer as principais lutas ideológicas que marcaram a juventude na década de 1960.
Esta reunião de aspetos permite que se crie um romance acessível e fácil a leitores pouco atraídos para escritas e enredos complexos, que se limitem a estórias de paixões e ódios, mas sem deixar de interessar a apreciadores de obras mais profundas pela riqueza de informações e o pormenor com intervenientes, intensamente caracterizados e detentores de fortes em personalidade com potencialidades de serem referências na literatura.
Elena Ferrante, despe-se de preconceitos, faz uma obra realista nos aspetos públicos e pormenores da vida privada e íntima das suas personagens, sem apagar experiências marcantes da juventude associadas à descoberta e entrada na vida sexual ativa. Continuo a gostar muito da obra e a recomendar a qualquer leitor, sabendo que por questões de moral podem existir divergências do exposto no livro em termos de ideias e atos. Para já a avançar no terceiro volume desta narrativa.

domingo, 6 de novembro de 2016

Curiosidades geológicas: Efeito colateral do último sismo no centro de Itália - erupção de vulcões de lama

Voltando novamente ao tema geologia há muito arredado deste blogue que se tem dedicado sobretudo a livros, mas o principal que esteve na origem de Geocrusoe, apresento hoje uma curiosidade recente de que não ouvi falar nos noticiários nacionais, um efeito colateral dos tremores de terra no centro de Itália da passada semana: estes desencadearam a entrada em erupção de seis vulcões de lama, os quais podem ocorrer na sequência de chuvas muitos intensas, sismos com magnitude superior a 6 graus Richter e furos para a exploração de recursos geológicos, nomeadamente hidrocarbonetos.



Sobre esta tipologia de fenómeno geológico, pouco divulgado pelas populações em geral, já falei neste post, bem como aqui, aqui e aqui há quase 6 anos atrás.

Outro vídeo sobre o mesmo fenómeno ocorrido agora na Itália.


Embora sem a regularidade de há uns anos atrás, espero voltar novamente aos temas geológicos neste blogue, nem que seja para honrar a razão inicial da sua criação e do seu nome.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Não-Humano" de Osamu Dazai


"Não-humano" do japonês Osamu Dazai é um pequeno romance, sob a forma de cadernos de memórias, onde o protagonista conta a sua vida desde criança e a sua repulsa pelos outros por se sentir diferente, um ser não-humano, não compreendendo as pessoas com repulsa pela vida comum dos outros concidadãos.
Escrito pouco depois da II Grande Guerra, momento difícil em que os nipónicos perderam o orgulho no confronto, a obra reflete a insegurança e o receio pela sociedade em que a pessoa está inserida, neste caso o protagonista elabora uma estratégia de fuga: primeiro através de um comportamento de humor divertido que disfarça a angústia, para na juventude enveredar também pelo álcool e a exploração das mulheres que se apaixonam por ele em virtude da sua beleza e aspeto desprotegido. Logicamente tal comportamento atrai não só dificuldades financeiras, como amizades dúbias, rejeição e leva ao ostracismo e à degradação do indivíduo, que sobrevive por existir quem lhe estenda a mão, nem sempre com as melhores intenções, mas igualmente acompanhado pelo mau agradecimento a quem se esforça com uma boa ajuda humana.
A texto está magnificamente escrito e foi a última obra do autor que pouco depois se suicidou, um tipo de solução que o protagonista também procura por vezes no romance que, pontualmente, recordou-me "Cadernos do Subterrâneo" de Dostoiévski, embora o atual livro seja bem menos negro, talvez porque o narrador não procura o mal como livre escolha, mas sim é vítima de si mesmo por não compreender o mundo e, como tal, está mais aberto ao relacionamento humano que gostaria de entender, tornando-se até pouco sombrio numa caminhada de solidão e degradação pessoal. Gostei do livro, lê-se muito bem e é uma pequena grande obra de literatura.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"O Mestre e Margarita" de Mikaíl Bulgákov


"O Mestre e Margarita" escrito pelo russo Mikhaíl Bulgákov em plena ditadura de Estaline é daquelas obras alegóricas e metafóricas cujo enredo simboliza algo muito diferente da história narrada e só nesta perspetiva pode ser entendido e admirado, pois se levado à letra é um romance de imaginação e loucura vertiginosa.
Dois literatos, na época da lua cheia do equinócio da primavera (semana da Páscoa), discutem numa alameda de Moscovo um texto a publicar que evidencie a inexistência de Jesus, então o Diabo decide intervir, instalar-se na cidade e semear a confusão, explorando os principais defeitos e vícios das pessoas e instalando o caos generalizado, incluindo algumas mortes, escolhendo os escritores e um grupo ligado a um teatro como meio para atingir os seus fins. Intercaladamente há uma segunda narrativa com reflexões e a perspetiva de Pôncio Pilatos a descrever os dias da paixão de Yeshua em Jerusalém numa Páscoa longínqua. Só a meio da obra e com a entrada do Mestre na história se percebe ser este o romance escrito por ele e interdito por influentes no seio editorial, em paralelo ele se apaixonou por Margarita, uma bela mulher bem de vida e disposta a largar tudo por ele quando este desaparece.
Enquanto na antiga história da paixão, muito pormenorizada e com grandes diferenças do relato evangélico de Mateus, que escreve aqui notas dos seus dias com Yeshua, se vê alguém bom ser acusado e condenado inocentemente sem recorrer ao poder sobrenatural para alcançar a vitória do bem e onde a cobardia de Pôncio Pilatos conduziu à derrota da justiça, na história atual em Moscovo, Wolan e o seu séquito diabólico, pelo contrário utilizam toda uma panóplia de magia e feitiçaria para espalhar o seu mal e cativar as pessoas com eventos onde a imaginação e loucura é levada ao extremo e lembra contos de fadas e bruxaria com um enorme desvio à realidade natural das coisas.
Como alegoria, Bulgákov faz uma crítica feroz a Estaline e ao aparelho que consegue ainda ultrapassar o líder nos seus excessos, não faltando analogias a desaparecimentos, à censura, as clínicas psiquiátricas, à tortura e ao confisco, mas onde a cobardia do meio cultural colabra e é a principal ferramenta da instalação do mal na sociedade. Sem compreensão desta metáfora, o romance torna-se ilógico tal a sequência de traquinices inverosímeis que vão acontecendo ao longo do livro, por vezes os tradutores anotam a referência indireta e crítica aos defeitos do regime ditatorial que em denúncia numa escrita fluída e elegante duma narrativa que parece louca e divertida enquanto descobre uma situação grave que se vivia então em Moscovo e por isso considerado uma obra-prima da literatura do período soviético. Por tudo isto a obra pode não ser fácil para todos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"A Amiga Genial" de Elena Ferrante



"A Amiga Genial" de Elena Ferrante é a primeira obra que leio desta escritora italiana contemporânea, correspondendo a um dos maiores fenómenos literários dos últimos anos por em simultâneo coincidir com um grande êxito editorial e reconhecimento de qualidade do romance, sendo este o motivo que me despertou interesse após ouvir numerosas recomendações para a respetiva leitura.
Este título corresponde ao primeiro volume de uma tetralogia que conta pelos olhos da narradora as histórias de vida e da amizade desta com outra rapariga da mesma idade iniciada nos bancos da escola primária até ao começo da velhice integradas na teia das relações sociais do seu bairro pobre e popular de origem em Nápoles até ascensão e sucessos pessoais da autora e da sua amiga nesta cidade. O presente tomo vai da infância, passa pela adolescência e chega até à entrada da vida adulta da sua colega e decorre a partir da década de 1950. A autora que deseja ser escritora vai descobrindo que a companheira possui uma genial inteligência, mas descobre-se que há uma admiração mútua, grandes sonhos de ambas em ascensão socioeconómica, uma influência nos comportamentos entre si, onde cada uma considera a outra um modelo de capacidades, vontade de estudar e exemplo para condicionar a sua atitude.
A escrita do livro é magnificamente agradável e desperta um grande prazer de leitura que se associa ao conteúdo narrativo, onde somos cativados pelas lutas de sobrevivência destas personagens, as descobertas íntimas da puberdade, do amor, os estilos de vida familiar e social num bairro pobre de operários com pequenos empresários locais, os defeitos do sistema, desde a sombra das redes do crime organizado, aos esforços dos empreendedores, às vicissitudes porque estes passam até aos preconceitos e hábitos destas gentes que os preserva num gueto de onde é muito difícil sair ou subir na vida.
É um livro de muito fácil leitura, onde a análise social é exposta por meios simples, descomplicando a narrativa e a reflexão, gostei de tal modo do volume que imediatamente encomendei os restantes três para próximas leituras, reforçado pelo facto de ainda este ano Nápoles ter sido a minha região de férias e descoberta, havendo passagens que me recordam aqueles dias tão agradáveis que ali passei. Recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"O Lobo das Estepes" de Hermann Hesse


"O Lobo das Estepes" do escritor germânico Hermann Hesse, laureado com o prémio Nobel da literatura, apresenta o desencanto e revolta de um homem com a humanidade mas que inconscientemente anseia integrar-se no mundo que refuta e despreza por considera a sociedade rendida a um estilo de vida banal e medíocre nas suas relações em comunidade, curiosamente a sua luta para ultrapassar esta misantropia e depressão que o atrai para o suicídio desenvolve-se, precisamente, com a ajuda de pessoas de grupos sociais marginais e despromovidos, como prostitutas e músicos de salão traficantes de psicotrópicos, que lhe demonstram como valorizar e aproveitar a vida, desde a produção de arte genial e eterna, até tirar proveito da obra popular passageira capaz de só despertar o prazer frugal do momento e fundamental para temperar a vivência do ser humano e assim se justifica apostar na sobrevivência e adiar a morte inevitável em alternativa a se tornar num alienado vencido.
O romance tem uma espécie de prólogo editorial que pertence à obra, possui uma grande densidade psicológica e um conjunto de reflexões que evidenciam a contraditória luta íntima entre o aspirar ao sublime e a perfeição, exemplificados nas obras de Goethe e Mozart, e a importância de aproveitar o banal para tirar proveito da vida que justifique a sobrevivência numa luta de personalidades múltiplas de que cada indivíduo é na realidade composto, onde até mesmos génios como Goethe e Mozart são capazes de ser crianças e de amar a brincadeira, havendo assim que equilibrar a convivência na alma de cada um entre o desejo para os ideais e as tendências internas para os seus opostos.
Este romance, que é de facto uma obra-prima, antecede em muito a questão levantada por Umberto Eco em "O nome da Rosa": se o riso também faria parte de Deus ou era fruto do mal, sendo que Hesse, de uma forma diferente, evidencia que no ser humano a felicidade está em saber conjugar o sério, perfeito, maduro e imortal, com o divertido, tosco, infantil e passageiro que tempera a vida. Gostei muito do livro e a escrita é magnífica, os meus sublinhados de ideias interessantíssimas a reter surgiram em muitas das suas páginas, é uma obra que recomendo a leitura, mas a quem gosta de obras profundas e onde a facilidade do conteúdo exposto não seja um fator limitante ao prazer de ler.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

"As altas montanhas de Portugal" de Yann Martel



Acabei de ler o romance "As Altas Montanhas de Portugal" do escritor Canadiano Yann Martel, este é o quarto livro que leio deste autor que se tornou mundialmente famoso com "A vida de Pi" que ganhou o prémio booker prize em 2002 e foi adaptado ao cinema, mas é o primeiro que leio traduzido em Português.
Todos os romances de Martel têm uma estrutura, conteúdo e estilo original fugindo aos rótulos de outras escolas literárias, misturam acontecimentos fantásticos, mas distintos do realismo mágico ibero-americano; relacionamentos humanos com animais abordando análises de compreensão psicológica destes; questões filosóficas de cariz religioso e teológico e o impacte da morte nos protagonistas a partir de familiares próximos. Este não é exceção. Junta três narrativas distintas que se cruzam no Nordeste de Portugal, denominado por Altas Montanhas de Portugal, e, de forma mais ou menos direta, faz referências a personagens e animais comuns às três histórias.
A primeira alguém afetado por fatalidades na família próxima expressa a sua amargura adotando um andamento à recuas e vai procurar um artefacto religioso que descobre por indícios num diário de um missionário que trabalhou no seio da escravatura, empreende então em 1904 uma viagem de automóvel de Lisboa às Altas Montanhas de Portugal, uma inovação da época com todo o pasmo e aventura que esta travessia do País provoca descrita de uma forma divertida e sarcástica que envolve um Jesus simiesco. A segunda decorre numa sala de morgue de um hospital em Bragança onde o médico legista ouve uma dissertação de sua mulher falecida que aborda semelhanças da vida de Cristo e as obras de Agatha Cristhie, terminando com  a vida de um idoso autopsiado a pedido da viúva com um resultado original e envolvendo um primata. A última narrativa fala de um político que ascende a senador no Canada que confrontado com a perda da mulher desiste de tudo para se refugiar nas Altas Montanhas de Portugal, a terra dos seus ascendentes, com um chimpanzé .
A escrita é elegante e cheia de notas nostálgicas, descrições estéticas e sentimentais de uma forma bela, apesar do rigor descritivo de certos factos históricos e geográficos, têm por vezes erros ou alterações intencionais  do autor e traz até hoje animais pré-históricos da fauna ibérica.
A ideia de fundo do romance parece sintetizada no final da primeira narrativa: a humanidade é fruto de símios que se elevaram e não o resultado de anjos caídos. O livro lê-se bem e é agradável, mas algo estranho sem atingir o nível da obra mais famosa de Martel e mostra um retrato de Portugal pelos olhos de um Canadiano.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Morte no Verão" de Yukio Mishima


Uma coletânea de 10 contos do escritor japonês Yukio Mishima sendo "Morte no Verão" o de entrada da série contida neste livro, todos mostram dramas psicológicos mais ou menos intensos da vida dos seus protagonistas sobre a luta pela sobrevivência face à perda de entes amados, à obtenção de rendimentos, aos medos pessoais ou a forma de resolver as questões de honra tradicional, do amor e da amizade, brilhantemente escritos com numa rica linguagem onde muitas vezes fluem reflexões do interior das personagens resultantes dos efeitos da observação ou dos acontecimentos do mundo exterior dentro do pensamento e consciência das pessoas. Um deles é apresentado sob a forma de uma pequena peça de teatro.
Por vezes somos chocados pelo desenlace da narrativa, outras vivemos o drama interno das personagens, havendo mesmo alguns como que um jogo de espelhos das relações entre estas, que no conjunto mostram  a cultura japonesa ou  algumas das diferenças de mentalidade face ao ocidente, como o que narra um suicídio por honra ou as memórias e orações de gueixas num fundo muito distinto do que se teria no hemisfério judaicocristão.
Pessoalmente gostei de todas as histórias, umas mais do que de outras, mas todos elas me cativaram desde o início sem deixar de transparecer uma calma do desenrolar das histórias mesmo nos casos mais dramáticos, Gostei e recomendo a quem gosta do género contos e de conhecer outras culturas.