terça-feira, 16 de outubro de 2018

"Os loucos da rua Mazur" de João Pinto Coelho


Acabei de ler "Os loucos da rua Mazur" do escritor português João Pinto Coelho, o romance que venceu o prémio Leya em 2017. É o segundo livro que leio deste autor em menos de um ano e ambos com memórias de sobreviventes ao período da II Grande Guerra na Polónia sob a ocupação estrangeira.
Um livreiro idoso em Paris em 2001 é contactado por um escritor famoso e sua mulher editora, pretendem escrever a história do que se passou na sua cidade durante a II Grande Guerra, logo se descobre que entre os três houve um passado longínquo juntos que deixou feridas muito fortes. A escrita desse passado dói a todos e assim vai sendo composto o que se passou naquela cidade no leste da Polónia, onde duas comunidades: uma cristã e outra judaica, coexistiam em bairros distintos e desconfiança mútua fomentada pelos seus líderes, mas tolerando-se em tempo de paz. É neste burgo que eles adolescentes se tornaram amigos: um cego judeu, outro cristão e ela filha de uma proscrita suspeita de bruxa. A amizade cresceu, mas a paixão alimentou o ciúme do preterido, então o País é invadido, a zona é primeiro ocupada por estalinista que querem moldar as pessoas, a pressão é mais forte com os polacos, os outros temem mais os que virão depois, os nazis e a retaliação será o pior vinda dos polacos. Nesta guerrilha o ciume leva à traição de uma amizade que deveria ser superior aos diferendos da cidade.
Um livro, que intercala capítulos do passado com mágoas do presente, denuncia uma realidade passada na Polónia que hoje muitos pretendem reescrever para apagar a sua culpa, existem memórias muito negras neste romance, há culpados em todos os lados, mas neste terror nem sempre foi preciso os nazis agirem, muitos aproveitaram a guerra para sujar as mãos em nome da fé, do racismo e da intolerância à sombra de um País ocupado por ditadores estrangeiros.
A escrita é escorreita e simple serve de suporte ao relato de uma história pouco falada que envergonha muitos polacos. Fácil leitura.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

"A seta do Tempo" de Martin Amis


Acabei de ler o estranho livro "A seta do Tempo" do inglês Martin Amis, onde o mais importante a forma de a contar às arrecuas a estória, não apenas do fim para o princípio, mas sim descrita como um filme em reverso com o tempo e os acontecimentos a andarem para trás.
Na cama de um hospital a consciência de um médico em estado terminal começa a ver a sua vida em marcha atrás no tempo. Assim se vai dissecando a biografia do protagonista, não só ele se desloca às arrecuas, pois tudo fica mais novo à sua volta. Nos diálogos, as respostas antecedem as perguntas. No dia-a-dia, o lixo é distribuído nos caminhos, recolhido até casa, retirado dos sacos, transformado em comida, ingerido e depois cozinhado. No comércio, o cliente recebe dinheiro pela mercadoria que entrega ao vendedor, enquanto as pessoas se deitam de manhã para depois se levantarem à noite. A neve sobe, etc.
Nesta caminhada retrógrada descobrimos que o médico após uma vida promíscua com enfermeiras, saiu da cidade onde se encontra, muda várias vezes de identidade e terras com apoios surpreendentes até entrar na Alemanha, chegar a Auschwitz, um campo onde ressuscitam judeus, estes são distribuídos pela Europa e ele faz experiências com mulheres e crianças retirando-lhe químicos que as melhoram, até ele casar, virar a adolescente, se tornar bebé e chegar à mãe.
Assim se vai percebendo como se formou esta mente nazi, se denuncia fugas à justiça com apoios escandalosos e secretos, isto com recurso a uma técnica em que as consequências antecedem às causas, invertendo os efeitos.
Por vezes torna-se estranho a descrição dos factos ao contrário, por exemplo, os maus-tratos acabam em saúde, mas vários pensamentos dedutivos em torno da descrição retrógrada surgem lógicos  face a uma sequência invertida. 
A estória não narra nada de belo e até aproveita o funcionamento orgânico da vida e a prática médica para um tom ainda mais chocante. A generalidade dos assuntos tratados são conhecidos, mas a perspetiva da criação desta mente perversa, construída ao contrário, torna a obra originalíssima, embora estranha. Por vezes tropeçamos na leitura e compreensão, por mentalmente tendermos a evoluir o pensamento com a seta do tempo ao contrário da do romance.
Um desafio e uma obra que é verdadeiramente de escrita criativa, feita por um grande escritor contemporâneo que gosta de mexer com o leitor.


domingo, 7 de outubro de 2018

"Mr. Vertigo" de Paul Auster


Citação
"temos de encarar o nosso talento como um instrumento elástico que deveremos puxar tanto quanto possível."

Voltei novamente ao escritor norteamericano Paul Auster, agora com Mr. Vertigo, que à semelhança do anterior, é de novo uma obra biográfica, mas desta vez narrada na primeira pessoa.
Walt Rawley conta a sua vida desde o momento em que miúdo de rua, órfão em Saint Louis e fã da equipa de basebol Cardinals é retirado da cidade pelo Mestre com a promessa de o fazer voar e informado-o da aceitação dos violentos tios que o acolhiam por obrigação sem amor. Após um treino cheio de trabalho e tarefas duríssimas num ermo na companhia de um jovem negro, de uma índia velha, do treinador e da mulher amada por este, Walt descobre que de facto tem o dom da levitação e começa o seu voo pelos EUA sob a direção artística do seu formador.
Uma ascensão meteórica que é interrompida pelo invejoso tio, pela vingança que a natureza exerce aos dotados desta capacidade e a morte do Mestre. Assim, no auge, vê-se ainda jovem de novo só num país onde o sexo, o submundo dos vícios e a paixão do basebol o dominam e levam-no à vertigem da queda (vértigo) de forma imparável, até conseguir uma fuga, reabilitar-se, ter uma vida adulta quase normal com a memória de um passado glorioso e uma velhice perto de alguém que ele admirara.
Com uma componente inicial de maravilhoso, nesta biografia vislumbram-se os males da América profunda: racismo, jogo, sexo, capitalismo bolsista e outros problemas que a vida do Rapaz Prodígio e depois Mr. Vertigo atravessaram ao longo de quase 8 décadas de história. Escrito como memória do protagonista, com reflexões e introspeções ao estilo de Auster, é uma obra que dá a conhecer os Estados Unidos do século XX e a dificuldade de se vencer neste país duro cheio de armadilhas e onde é mais fácil qualquer um tropeçar do que voar...

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

"Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" Gonçalo M. Tavares


Citações
"Se fizéssemos um cálculo do ritmo a que antes se caminhava pelas cidades e comparássemos com a velocidade actual concluiríamos que as pernas acompanham a evolução da técnica: está tudo mais rápido e as pernas não são excepção;"

"Não podemos observar enquanto fugimos"

"todos temos momentos em que olhamos para o lado errado e em que aquilo que é significativo acontece precisamente nas nossas costas."

Acabei de ler o pequeno mas magnífico romance "Uma menina está perdida no seu século à procura do pai" do escritor português contemporâneo Gonçalo M. Tavares.
Marius encontra na rua uma menina com trissomia 21 que diz chamar-se Hanna, estar perdida, procura o pai e faz-se acompanhar de uma caixa de fichas de ação de um curso educacional para crianças com desadaptação aos outros. A partir deste encontro começa uma caminhada de busca ao longo da qual Marius se cruza com personagens ímpares: um homem que cola cartazes em ruas secundárias para mudar a humanidade; um fotógrafo de animais que pretende também tirar fotos a Hanna; os judeus donos de um hotel que é o mapa dos campos de concentração nazi; o antiquário que dorme cercado de livros que quase o sufocam; os artista de miniaturas que a maioria não consegue ver e o homem de quarto Terezina obcecado com o equilíbrio do peso do que possui com o que tem, enquanto a menina consegue despertar sorrisos e simpatia à sua volta e requer permanente proteção daquele que a encontrou.
Gonçalo M. Tavares continua a ser o escritor português atual que mais me fascina, alguém com uma escrita única que denuncia a desumanidade da era da técnica na sociedade atual que sufoca sentimentos e cria personagens aberrantes. Os seus livros, na generalidade, desenvolvem-se num meio germanizado e este romance não é exceção, sem nunca dizer o país onde se situa, acaba em Berlim e os nomes e situações desenvolvem ambientes que se sente ser alemão, mas esta obra tem a ternura despertada por Hanna magistralmente narrada na passagem com a contabilidade de sorrisos despertados na rua.
As diferentes estórias que resultam do contacto com as personagens que vão desfilando no livro criam um romance que além de ser uma obra de arte literária, compatibiliza a frieza dos livros negros do autor com a ternura e simpatia de uma adolescente com trissomia 21 perdida no século onde a falta de calor nas relações humanas é uma característica transversal aos indivíduos que formam a sociedade contemporânea. Gostei muito e não consegui parar de ler esta fascinante obra.

sábado, 29 de setembro de 2018

"Tempos Difíceis" de Charles Dickens


Excertos
"Uma mão forte nunca funcionará...Concordar com tomar um dos lados artificialmente e para sempre com razão, e outro lado artificialmente e para sempre enganado, nunca, nunca irá funcionar.... Deixe milhares e milhares de pessoas a sós, todas a levarem vidas dessas e todas a caírem numa confusão desse género e elas serão um só..."

"Todas as forças estreitamente aprisionadas laceram e destroem. O ar que teria sido saudável para a terra, a água que a teria enriquecido, o calor que a teria amadurecido, desfazem-na quando enjaulados."

"Tempos difíceis" de Charles Dickens é um romance escrito em meados do século XIX que engloba crítica social transversal a vários setores ativos (sobretudo política, industrial, obreiro e sindical), uma denúncia das condições de vida dos operários, a exposição do preconceito que envolve a luta de classes que acredita que uma é toda má e a outra sempre boa, um manifesto ambiental contra a poluição industrial urbana, uma proposta para uma educação que conjugue o amadurecimento emocional com a aquisição do conhecimento para a evolução saudável do indivíduo e ainda uma estória detetivesca a cobrir tudo isto para garantir um certo suspense temperado com algum sarcasmo dos defeitos civilizacionais.
Na cidade de Coketown (fictícia) proliferam fábricas que a cobrem de negro e cuja laboração é assegurada por um grupo de pessoas denominado Braços. Um banqueiro assume a sua ascensão da pobreza para o seu lugar social como fruto do seu trabalho o que o motiva para desprezar os trabalhadores que sofrem e não sobem na vida como ele. Por sua vez o chefe de uma família comercial educa os seus filhos apenas para uma estratégia racional, sem emoções baseada em factos contrapondo-se ao pessoal de um circo de onde acolhe uma criança e nesta via de formação a sua filha aceita casar-se com o banqueiro bem mais velho para bem de um irmão estroina e imaturo, o que causa a inveja de uma velha dama preterida, as dificuldades dos trabalhadores conduz a lideranças no seio dos braços onde uma esmagada desonrosa e desonestamente a outra, paralelamente surge um roubo no banco e uma tentativa de vingança passional cuja engrenagem é acelerada por oportunistas do momento aos vislumbrarem todos estes defeitos dos protagonistas. Assim se constrói uma trama que conduz a uma lição de ética, moral, uma proposta de convivência social e um manifesto ambiental.
A escrita é escorreita, mas num tom algo artificial pela opção sinuosa para deixar críticas sociais veladas e denunciar preconceitos sem tomar partido por uma das parte, apontar rumos e deixar pistas para o crime e vícios individuais sem abrir todo os segredos, além de denunciar problemas ambientais já evidentes à data da obra.
Um excelente livro que apela à justiça social, à cooperação entre classes e a uma educação plena da pessoa humana. Fácil de ler e interessante.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

"Artigo 22" ou "CATCH-22" de Joseph Heller


Excertos
"- Eles tentam matar-me - afirmou Yossarian, calmamente.
- Ninguém tenta matar-te!
- Então, porque fazem fogo sobre mim?
- Fazem fogo sobre todos. Querem matar toda a gente.
- Não vejo onde está a diferença."

"Não fui eu que provoquei esta guerra, por muito que o imundo Wintergreen diga o contrário. Procuro apenas reduzi-la a um clima de negócios. Que há de errado nisso?"

"Artigo 22", no Brasil "Ardil 22" e no original "Catch-22", do norte-americano Joseph Heller, é considerado um dos mais importantes romances do século XX nos EUA e é uma paródia do princípio ao fim sobre o absurdo da guerra, os proveitos económicos e os interesses de pessoas ligadas ao meio militar, incluindo as suas altas patentes.
A estória passa-se numa base aérea na pequena ilha italiana de Pianosa, junto à Toscânia, durante a segunda grande guerra. Centrada numa esquadrilha de oficiais após o início da invasão pelos aliados da Itália e ao longo da reconquista da península a Mussolini e a Hítler. Yossarian, comandante de bombardeiro, após dezenas de operações começa a ter medo de morrer ao ver a agressividade da luta anti-aérea alemã e após atingir o número de operações a que estava obrigado quer regressar aos Estados Unidos, só que o Coronel e líder da base vai sempre subindo o número de operações de forma que Yossarian nunca consegue atingir o limite, entretanto, ele vai implementando estratégias de doença, de loucura e desentendimentos para conseguir o seu objetivo. Enquanto isso, vamos conhecendo as guerrilhas entre as chefias para ascenderem de posto vitimizando os inferiores, os esquemas de negócios das messes e o mercado negro, a prostituição em torno de tantos homens sós, algumas baixas inglórias, problemas de consciência do médico e do capelão e, sobretudo, os sonhos de projeção na comunicação social de altas patentes para subir de posto, capazes de imaginar o absurdo para serem heróis de notícias, além do ardil que consta no artigo 22 tantas vezes invocado, que nunca se conhece na íntegra, para que tudo se mantenha tão mal como está. São largas dezenas de oficiais que se veem emaranhados nesta teia parodiada onde nada tem saída nem lógica.
O romance desenvolve-se com toda a amargura do absurdo kafkiano, só que numa narrativa onde todo o mal e medo é dissecado pelo ridículo humorístico das situações parodiadas, tecendo-se uma teia de onde nada tem saída para continuar tudo estranhamente na mesma, é o ardil de onde nada tem solução no sistema montado é a guerra como meio de sobrevivência de alguns. Divertido, mesmo em momentos tristes o que pode chocar alguns, mas é por esse gozo que gostei do romance.

domingo, 9 de setembro de 2018

"Um homem de partes" de David Lodge


Excertos
"Tive muitas aventuras. Na maior parte delas não houve amor. Pela parte que me toca - e também pela que toca à maioria das mulheres - tratou-se apenas de uma permuta de prazer. A ideia de que temos de fingir que estamos apaixonados por uma mulher para termos relações sexuais com ela - ideia que devemos ao cristianismo e à ficção romântica - é absurda. Só serve para causar frustração física e sofrimento emocional."

"Esta multidão de cérebros vagos, amáveis e acríticos é a matéria-prima com que o velho e querido Marx contava para exercer a ditadura do proletariado,"

Acabei de ler o romance biográfico sobre H. G. Wells - um dos pioneiros da literatura de ficção científica como previsão e alerta do evoluir da humanidade a médio-prazo fruto das descobertas tecnológicas conjugadas com os defeitos do sistema social na transição do século XIX para o XX - escrito pelo inglês David Lodge e com o título "Um homem de partes".
Recomendaram-me esta obra, não só para conhecer Lodge (de quem ainda só li um romance cheio de humor, este), mas, sobretudo, para compreender quem fora Wells, o autor de: A máquina do tempo, A guerra dos mundos, O homem invisível, A Ilha de Doutor Moreau e muito contos, de quem tudo o que lera eu gostara, por isto tomei a decisão de comprar este livro que foi um murro no estômago.
Wells, de origem humildes passou por dificuldades devido à pobreza na infância, mas foi sempre um leitor inveterado e com isto tornou-se num socialista não marxista, num hedonista defensor do amor livre no que considerava quase o cerne da mudança da humanidade, num promotor da igualdade de direitos para homens e mulheres sob um governo mundial único sem Estados, num interessado pelas descobertas em tecnologia e ciências e num escritor de grande sucesso com obras de ficção científica e chocantes pela promoção das suas ideias radicais que o torna rico e num praticante de sexo livre (deduz-se praticado com mais de cem mulheres cultas e de famílias influentes), sendo que as mais importantes na sua vida foram as suas esposas (curiosamente humildes e mesmo frígidas) e cerca de uma dezena de amantes jovens, inteligentes e progressistas, cujas manutenção da relação era do pleno conhecimento e compreensão da sua segunda esposa que sempre amou.
O livro que começa com o ocaso da vida de Wells, faz depois uma retrospetiva e discussão com ele próprio do que foi a sua vida, dos escândalos, das suas lutas políticas com socialistas mais moralistas, das diferendos com outros escritores como Henry James e Bernard Shaw e em paralelo assistimos às mudanças de mentalidades, às evoluções sociais, económicas e estilos culturais na Inglaterra desde 1860 até 1945 e na Europa com a revolução russa e as duas grandes guerras.
A escrita escorreita é principalmente de um tom alegre, por vezes sarcástico e crítico, embora a obra tenha poucos pormenores de práticas íntimas, o livro choca pela forma como Wells praticou  e defendeu amoralmente a sua visão de sexo livre, fez a sua defesa e a oposição aos ideais mais puritanos e tradicionais. Apesar de eu ser um respeitador liberal dos costumes, não sou um antagonista de certos valores cristãos e familiares e daí o grande murro no estômago que levei com este romance amarrado à realidade do que foi a vida de H. G. Wells. Mas é um grande romance.

sábado, 1 de setembro de 2018

"A Pousada da Jamaica" de Daphne Du Maurier


Excerto
"A rapariga continuou sentada no chão ao lado da cadeira acabada de desocupar. Através da janela da cozinha, viu que o Sol já desaparecera atrás da colina mais distante e em breve a malevolência do crepúsculo de Novembro envolveria a Pousada da Jamaica, mais uma vez."

"A Pousada da Jamaica" da inglesa Daphne Du Maurier, é o típico romance que junta o suspense, a tensão psicológica, o amor romântico, os bons reféns dos maus e surpresas até ao fim para se adaptar com sucesso ao cinema tal como fez o mestre do género Hitchcock com esta obra.
A estória passa-se no início do século XIX quando Mary Yellan, após a morte da sua mãe viúva para fazer a última vontade desta vende a quinta e parte para a casa da tia materna na Cornualha, onde espera encontrar a proteção de uma mulher que se lembra de ser alegre, só que agora esta está casada com o dono de uma estalagem rural, vive oprimida pelo terror da vida do seu marido com um bando de bandidos alcoólicos que se suspeita dedicarem totalmente ao mal. Mary tentará descobrir o que se passa naquela casa que já não tem hóspedes e vai descobrindo uma teia que se torna cada vez mais macabra e da qual fica refém. Infelizmente a ajuda que encontra nas proximidades parece vir de gente cujos indícios são ainda piores, situação agravada por se apaixonar por quem não se recomenda.
Maurier escreve de forma escorreita e despretensiosa, mas cuidada, agradável e literariamente boa. Constrói assim uma obra de entretenimento sem descer à vulgaridade, enriquecida com a descrição pormenorizada da paisagem da charneca da Cornualha e ainda com análises psicológicas densas das personagens que cria.
Gostei do livro que prende o leitor, é fácil, bem estruturado e bem cuidado.


sábado, 25 de agosto de 2018

"O Mar" de John Banville


Excerto
"A sala estava tal como eu a recordava, ou parecia estar como eu a recordava, porque as recordações estão sempre ávidas por condizerem na perfeição com as coisas e os lugares do passado revisitado."

"Costumava dizer que se houvesse dor, pelo menos haveria como que uma certificação, uma autenticação, algo que lhe dissesse que o que lhe tinha acontecido era mais real do que qualquer realidade que conhecera até então. Mas não sentia dores, por enquanto."

Quando iniciei há uns anos uma lista de obras recomendadas que anotava para mais tarde comprar "O Mar" do irlandês John Banville e vencedor do Booker Prize em 2005 foi a obra que que abriu tal série", mas pouco tempo depois a obra esgotou em Portugal e só este ano foi reeditada. Já não me lembrava da temática, apenas sabia que considerava o primeiro parágrafo da obra avassalador, o único que lera num excerto e não corresponde a nenhum dos acima transcrito.
Max, após a morte da mulher por cancro revisita a aldeia de férias à beira mar aonde passava a sua infância e onde desenvolveu paixões fortes por duas mulheres membros de uma família em veraneio na casa onde agora se instalou. Começa então a memorizar o nascimento desses amores, as relações com as pessoas com quem conviveu, o mau ambiente na sua família de então, memórias que intercala com o desenrolar dos acontecimentos com a sua falecida mulher, a sua doença, o papel protetor da sua filha e os elementos na casa onde se encontra hospedado, quase sempre acompanhadas com a presença do mar.
A obra está muito bem escrita, predominam os parágrafo extensos e densos em adjetivos. O passado vai-se reconstituindo lentamente com uma nostalgia sombria devido às tragédias associadas, à dor do tempo perdido e ao amargor de uma velhice que se aproxima solitária. Apesar do magnífico primeiro parágrafo e talvez porque se seguiu à leitura de outro livro sobre memórias não alegres, fui sendo esmagado pela tristeza que ia atravessando o romance, sem mais me deslumbrar como o impacte d seu arranque. Contudo, é um bom pequeno romance.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

"As Avenidas Periféricas" de Patrick Modiano


Excerto
"Conversa estúpida. Palavras ocas. Personagens mortos. Mas eu ali estava, com os meus fantasmas, e, se fecho os olhos, recordo-me que uma senhora de idade, com avental branco, nos veio anunciar que o jantar estava pronto."

Nunca ouvira falar do escritor de França Patrick Modiano até ao dia em que lhe foi atribuído o prémio Nobel em 2014 e não me despertou curiosidade para o conhecer imediatamente. Uma promoção deste pequeno romance "As avenidas Periféricas" que também ganhara o também o prémio da academia francesa em 1972 foi a pedra de toque para contactar com o autor.
Sabia que o Nobel lhe fora atribuído pela sua arte de escrever acerca de memórias em França no tempo da ocupação nazi e este livro reúne esse aspeto. 
O narrador recorda cenas no bar de uma pensão numa aldeia de férias de campo na vizinhança de Paris, onde três homens conversavam, um deles era seu pai. Aos poucos vamos conhecendo estas personagens e a que se dedicavam, percebemos que a sua atividade levanta mais dúvidas sobre o carácter desta gente e das mulheres com quem convivem do que certezas, quem é este pai? uma incógnita de quem o filho se afastara e com quem aprendera técnicas de vigarice. O que fazem? Porque o pai se aproximou deles? Que riscos corre? Porque sente o filho a vontade de proteger o seu progenitor? Quem foram aquelas pessoas e como chocam aquela aldeia pacata? Que boatos os cercam?
A descoberta da verdade não é o mote do romance, mas as questões em reboliço, as tensões subjacentes, os sentimentos nesta aproximação filial e depois como terminou naquele país invadido que mais não era do que uma prisão desesperada para todos, inclusive gente fútil e pessoas de passado obscuro.
Curiosamente o romance recordou-me o modo como são expostas muitas personagens em António Lobo Antunes, o drama psicológico das relações humanas e apesar de não ter desgostado desta obra, prefiro na generalidade as do português que as pontas em aberto do laureado com Nobel neste seu livro.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"Um Gentleman em Mocovo" de Amor Towles


O romance "Um Gentleman em Moscovo", do norteamericano Amor Towles, apesar de ser uma obra contemporânea, é um dos melhores exemplos do que é a delicadeza e a graciosidade colocada em ficção para transformar um livro numa joia de entretenimento com alguma informação histórica  intercalada quanto baste para não perder a sua essência de leveza literária e agradar ao leitor que não deseja aventurar-se para além de um lazer leve com charme e humor inteligente.
O Conde Aleksandr Rostov, descendente de uma das famílias da melhor nobreza da Rússia czarista, na sequência da revolução bolchevique é levado a julgamento pelo seu passado aristocrático, todavia um poema de 1913, de quem é reconhecido como autor e com um elogio à causa comunista, livra-o da pena de morte, ficando apenas limitado a prisão-perpétua domiciliária no hotel mais luxuoso de Moscovo, o Metropol, no qual era hóspede residente. Assim, é despromovido para os alojamentos dos antigos criados dos clientes e recomeça a sua vida.
Se antes fora um cavalheiro de hábitos requintados, um exemplo de aplicar a melhor etiqueta social da Europa e conviveu com a sociedade mais nobre do Velho Continente, lentamente o Conde adaptar-se-á à nova realidade, aproveitando o que de melhor pode usufruir no seu hotel descobrindo recantos antes vedado a ele como hóspede, deste modo vai cativando amizades nos empregados, estabelece contacto com hóspedes pela sua habilidade diplomática e cultura, inclusive ensina regras a personalidades do novo regime e assim sobrevive ao longo de décadas, onde se vai descobrindo certas mudanças no país, alguns pormenores absurdos do regime e inclusive desenvolve amizades, uma relação amorosa e até consegue educar uma criança.
Com uma escrita que procura conciliar a delicadeza do estrato aristocrático e típica do estilo anglo-saxónico, conciliada com uma ironia subtil que permite criticar muitos aspetos da União Soviética sem ofender ideologicamente o leitor e sem sobranceria para com a pátria e cultura russa, o Conde Rostov, como gentleman, consegue uma vida de charme e luxo numa sociedade onde os problemas eram transversais à maioria da população, mas sem deixar de ser um prisioneiro político exilado na sua pátria que ama. Uma leitura leve, cheia de bom-humor, boa-disposição e agradável mas inteligente bastante diferente da maioria da literatura contemporanea.


sábado, 11 de agosto de 2018

" As cores da Infâmia" de Albert Cossery

Excertos
"É isso mesmo que te reprovo. Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com cobertura do governo."

"A verdade não tem nenhum futuro, ao passo que a mentira é portadora de grandes esperanças."

"Fica sabendo que a honra é uma noção abstracta, inventada como sempre pela casta dos dominadores para que o mais pobre dos pobres possa orgulhar-se de possuí-la."

Albert Cossery, um egípcio que escrevia em francês, tornou-se num dos meus autores de eleição pelo seu humor sarcástico nos seus pequenos livros, o seu elogio manha como arte de sobrevivência dos mais desprotegidos ou pelo elogio irónico dos defeitos humanos e da sociedade.
"As cores da infâmia" não me desiludiu, faz uma crítica acérrima da diferença no modo de roubar dos fracos e dos poderosos e como frequente nas suas obras, a presente romance também decorre no Cairo, com as personagens principais a viver na pobreza.
Ossama é um jovem pobre que aprendeu que pelo trabalho honrado não sairia da miséria, teve um mestre que o ensinou a ser carteirista e como autodidacta aperfeiçoou o seu ofício, vestindo-se bem para poder selecionar ricos sem levantar suspeitas. Após a espreita e o seu último roubo na carteira da vítima há uma carta de um empreiteiro de construção onde se vê tática de ganhar muito a comercializar edifícios sociais frágeis com risco para os moradores pobres, tudo isto em conluio com um irmão de  ministro o que permite viabilizar a estratégia.
Que fazer com este achado num país onde jornais, poder e corruptos formam uma teia difícil de romper e passar a denúncia? Terá de pedir conselho ao seu mestre e este a um escritor que ex-presidiário pela denúncia de atos políticos num livro, mas que se tornou num génio de se divertir com o cinismo das pessoas em sociedades em todos os estratos.
Divertidíssima a forma como Cossery brinca com os males da sociedade tornando-os em deliciosas guloseimas virtuosas nos seus romances. Adorei.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

"As oito Montanhas" de Paolo Cognetti


O romance "As oito montanhas" do italiano Paolo Cognetti é a história de uma criança de pais que se uniram após agruras nas cordilheiras dos Alpes orientais da Itália, se apaixonaram pelas montanhas e quiseram ensinar com grandes dificuldades esse amor pelas alturas ao seu rebento. É a narrativa do nascer da amizade entre este filho e um pequeno guardador de gado montanhês que se foi desenvolvendo de forma pura e agreste como os pináculos dos Alpes ocidentais até à idade madura. É a evidenciação do contraste entre a beleza e poesia da natureza e da vida nestas altitudes quilométricas face à rotina e à fealdade do dia a dia comum nas grandes urbes desenvolvidas nas planícies do sopé destes monumentos naturais que se erguem aos céus no norte da Itália. É a dificuldade da sobrevivência do amor perante os constrangimentos da sociedade moderna.
O livro é um poema em prosa, uma descrição de uma cultura em extinção, o homem montanhês perante a pressão desta sociedade desnaturalizada que invade tudo, mas que apesar de não se adaptar aos cumes dos Alpes e bordeja os Himalaias, sabe como destruir esse património e saber de vida centenário.
Um romance originalíssimo de um jovem milanês escrito em 2016 que toca a alma, mas também faz doer com o ocaso de uns tempos que pela mudança estão a desaparecer.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

GONE, BABY, GONE de Dennis Lehane

Excerto
"Perguntei-me porque teria sido permitido a uma criança de oito anos viver nesta terra apenas o tempo suficiente para sofrer tudo o que de horrível nela existe."

Apesar de o título "Gone,Baby, Gone" não estar traduzido, é uma obra transposta para Português do norteamericano Dennis Lehane, que corresponde a uma letra de uma canção mencionada no romance. O livro de ficção que talvez mais me fez sofrer e partir-me o coração desde há muito tempo. Contudo Lehane é de facto um escritor que mexe com o leitor rebuscando o mais negro que existe na sociedade, tendo por norma o cenário da grande Boston como acontece neste e noutros livro como Mistic River já falado neste blogue.
Na sequência do desaparecimento de uma criança de 4 anos, na região de Boston e filha de uma mãe nada exemplar, um casal de detetives privados são contratados para entrar na busca, depois de integrados na equipa da polícia local de crimes contra crianças, com o tempo verifica-se que o caso pode estar associado a redes muito mais marginais de tráfico de drogas, cartéis, conluio entre polícias e traficantes e vinganças entre grupos, até que um segundo desaparecimento cruza o caso com redes bem mais negras de prostituição e pedofilia onde a partir de um momento já nem se sabe quem foge à lei, quem se serve desta para fazer o mal e quem coopera entre gangues, polícias e quem está inocente neste confronto.
Não é um livro frequentemente violento, mas tem algumas cenas com foras da lei muito intensas e numa delas deduz-se de uma forma especialmente dura as atrocidades que a escória humana pode infligir a uma criança. Dói, repugna mesmo que colocado em obra para nos fazer refletir sobre estes problemas que a sociedade enferma e os defeitos da lei cujo cumprimento remete o futuro de crianças para meios sem amor e as arranca de onde poderiam ser felizes, tudo isto sob a espreita da escória que a humanidade consegue criar.
A narrativa não se limita aos clichés do romance de polícias e bandidos, entra na reflexão dos problemas e tem preocupações literárias estilísticas, embora esta seja realista sem floreados estranhos a um meio duro da sociedade. Na obra há gente boa, gente que aparente ser boa, gente má e escória que não deveria ter tido possibilidade de nascer pelo mal que semeia, mas o que mexe com o leitor e o sacode é ver gente que procura vias erradas para corrigir o mal, sujando-se enquanto a reposição da lei é capaz de sujar o que de melhor temos: crianças inocentes. Uma obra de ação que o leitor tem de estar alerta pelo que pode nela encontrar.

sábado, 28 de julho de 2018

"Leviathan" de Paul Auster


Excertos
"... o terrorismo tinha o seu lugar no combate geral. Se usado correctamente, poderia transformar-se num instrumento eficaz para fazer ressaltar as questões em jogo, para elucidar o público acerca da natureza do poder institucional."

"Algumas histórias são demasiado terríveis ... e só há uma maneira de as deixarmos entrar dentro de nós: fugindo-lhes, virando as costas, procurando furtivamente a escuridão."

Já havia longos anos que não lia o americano Paul Auster e regressei com um romance de 1992 "Leviathan", onde se saboreia aquele estilo em que a narrativa vai fluindo na companhia de reflexões contínuas sobre o que vai sendo contado, calmamente, apesar da pressa que o narrador diz ter em acabar a estória antes que seja a polícia a decifrar o enigma, mas esta progride devagar, como se ele tivesse todo o tempo do mundo.
O livro arranca com a notícia de um bombista que morre no Wisconsin ao montar uma bomba artesanal, o que leva Peter, escritor em Nova Iorque, a acreditar que se trata do seu amigo Benjamin Sachs. Decide então narrar como o conheceu e como cresceu a sua amizade e admiração por aquele também dotado de grande potencial para ser um ótimo escritor. O que sabe ele da sua infância, como via o seu casamento, como ele se relacionava com os outros e a sua mulher, o acidente porque passou, até que uma sequência abrupta de acontecimentos terríveis em série o tornaram num bombista que queria despertar consciências na América, mas com o cuidado de não semear terror e de não causar mortes.
Nesta narrativa, bem anterior ao 11 de setembro, a reflexão vai acompanhado a exposição, quase todas as informações vão sendo minadas pela dúvida de Peter, o que permite juntar a sua reflexão e interpretação dos factos narrados, lançado o seu significado numa sucessão de ondas que alimentam toda a maré de acontecimentos.
Gostei e muito e fiquei com vontade de regressar em breve a Auster, com este ritmo suave de análise psicológica e social que vai complementando a narrativa que flui como um rio numa planície até chegar à sua foz.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

"Dois Irmãos" de Milton Hatoum


Estreei-me no escritor brasileiro Milton Hatoum com "Dois Irmãos" prémio Jabuti de 2001 e confesso que gostei muito da sua escrita, do seu modo de narrar, retratar Manaus e de expor conflitos psicológicos que moldam as suas personagens.
Dois Irmão narra a história de uma família de origem libanesa em Manaus vinda no início do século XX, a primeira geração de pai e filha, cristãos maronitas, o casamento desta com outro imigrante muçulmano, um pinga-amor apaixonado de um erotismo exacerbado pela sua mulher e depois dos seus três filhos, onde se destacam os gémeos Omar e Yaqub que desenvolvem um ódio figadal na adolescência ao amarem a mesma moça. A partir daqui, com base no que observou e lhe foi dito, Nael (filho de um dos gémeos com uma índia acolhida na família e a personagem mais equilibrada do conjunto) narra não só o desenvolvimento de Manaus ao longo de mais meio século, como a vida quotidiana típica num bairro do centro desta cidade e ainda o declínio desta família em virtude da rivalidade dos irmãos: Omar, um superprotegido da mãe com comportamento devasso e profissionalmente irresponsável, e Yaqub, votado a um maior desprezo que é o oposto do seu irmão tornando-se num engenheiro de sucesso, enquanto a irmã vive tentando equilibrar este conflito que se estende aos pais e tenta preservar o legado do passado.
A escrita com parágrafos extensos e grande recurso ao vocabulário local, faz magníficos retratos da região do Amazonas, da forma de vida do povo no centro de Manaus e explora o drama, com momentos de grande tensão, juntando com frequência um humor aos sentimentos hiperbólicos e por vezes sarcástico, o que suaviza as situações paroximais de expressão do ódio e dá um ambiente que chega a ser divertido no seio da dor que vai massacrando toda a família.
Se não gostei da devassidão destrutiva de Omar, adorei a qualidade da escrita e a força posta no conflito de sentimentos e a capacidade de retratar uma Manaus que penso ter desaparecido com a modernidade e  expor a sua gastronomia, são aspetos por que vale a pena conhecer este livro e este escritor.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.