quarta-feira, 1 de julho de 2015

"Arquipélago" de Joel Neto


"Arquipélago" de Joel Neto despertou-me a curiosidade por ser uma obra recente, escrita por um Açoriano, tratar-se de um romance ambientado a esta região insular que habito e por acompanhar parte da atividade cronística e interventiva do seu autor.
Considero este romance uma obra diferente do habitual que se publica não apenas nestas ilhas, como inclusive ao nível nacional, foge ao estilo preponderante do que vai saindo no panorama literário de Portugal. Gosto de originalidade em detrimento da onda avassaladora que se submete às tendências de uma época e tende a homogeneizar tudo o que entretanto vai saindo num dado período e neste aspeto "Arquipélago" é de facto diferente e segue um estilo próprio.
"Arquipélago" é um romance que em simultâneo conjuga divulgação da cultura e beleza Açoriana, a história e os mitos que pululam por estas ilhas (com destaque na Terceira), o amor, a magia, o crime, a investigação, a denúncia de problemas sociais e inclusive inclui casos e situações reais bem como especulações recentes propagadas na comunicação social insular sobre determinados vestígios patrimoniais existentes nos Açores. Levantando questões que provável e intencionalmente nem sempre são respondidas no livro.
Penso que Joel Neto poderia ter caracterizado melhor o falar terceirense, mesmo assim, o estilo de vida desta ilha está magnificamente caracterizado. A obra tem um desenrolar cronológico algo incomum, começa num momento perto do último quartel do século passado, estende-se até ao presente ano, penetra no próximo e depois tem um epílogo a descrever os dados mais marcantes dos protagonistas nas próximas décadas e pelo meio saltita por vezes entre estes momentos e outros mais recuados. Literariamente sinto que não atinge o nível de duas das minhas referências da literatura Açoriana: "Mau tempo no Canal" de Vitorino Nemésio e "Gente Feliz com Lágrimas" de João de Melo, mesmo assim, penso que pode tornar-se num dos romances que melhor caracterizam estas ilhas e as suas gentes. Valeu a pena esta leitura... e recomendo sobretudo a quem pretender conhecer as tradições mais Açorianas e as gentes destas ilhas.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Férias: Expo Milão 2015

Milão surge nesta rota por ter sido a porta de entrada e saída na minha viagem para Florença e Toscânia e a estadia foi para tentar ver a Última Ceia de Da Vinci, objetivo novamente não conseguido, mas deu-se a coincidência de estar a decorrer a Expo Milão 2015 e esta feira internacional recordar-me os tempos que Portugal se achava cheio de esperança e se aventurou com a Expo Lisboa 98 e por isso serviu a visita para termos de comparação, se na capital das descobertas o tema foi os oceanos, aqui no coração industrial da Lombardia o tema é a Alimentação, sob o lema "Nutrir o Planeta, Energia para a Vida".
Espero depois refletir neste blogue as impressões de um dia nesta expo 17 anos depois de Lisboa e ver os seus reflexos na Milão de hoje.

sábado, 20 de junho de 2015

Férias Toscânia: Pisa e a torre inclinada ou a importância da geotecnia

Torre de Pisa, imagem daqui

Este blogue nasceu com a divulgação da geologia como um dos seus temas principais e destinada a dar a conhecer neste campo o Faial e demais Açores, com o tempo este campo tem praticamente desaparecido  por já ter dado o fundamental sobre a ilha onde vivo, mas sou sempre geólogo e juntar curiosidades geológicas com lazer, sobretudo viagens e cultura é um dos meus prazeres e por isso na visita a Pisa não posso desperdiçar esta oportunidade.
A cidade de Pisa, a terra de Galileu Galilei, é conhecida sobretudo pela sua torre inclinada, onde o cientista fez a experiência sobre a queda dos graves, o desvio da vertical neste monumento resulta do facto de na época não ser regra efetuarem-se estudos geotécnicos para se compreender a reação das rochas quando sujeitas à carga vertical resultante da implantação de um edifício sobre elas, é que nem todas se comportam de igual modo e curiosamente, apesar da pequena área da torre desta basílica, sobre existem sobretudo dois tipos de espessuras de camadas de rocha e graus de saturação de água e a altura implicou  desta estrutura implicou uma peso significativo tendo as duas espessuras e quantidade de água reagido de forma diferente, uma compactando-se mais do que a outra e assim o chão que servia de suporte desta desceu de modo mais acentuado levando à inclinação da torre. Hoje não há grande construtora que não tenha antes do início do arranque de um projeto, quer seja edifícios com uma dimensão significativa como arranha-céus ou um mero pavilhão de exposições, barragens e até estradas que não faça sondagens mais ou menos complexas para conhecer as rochas subjacentes e o seu comportamento geotécnico ou reológico tendo em conta o peso a que ser sujeita e os efeitos que tal pode ter na construção de modo a se corrigir eventuais problemas atempadamente.
Tudo isto faltou em Pisa, a cedência continua e foi preciso uma intervenção geotécnica e de engenharia civil para evitar o colapso da torre cuja inclinação prosseguia de modo contínuo, mas agora chegou o momento de ir explorar a cidade e a sua atração turística.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Férias Toscânia: Siena, em busca da cidade medieval italiana

Siena e os seus princípais símbolos- imagem daqui

Siena é outra cidade património mundial por o seu centro preservar a arquitetura e o planeamento de uma grande cidade medieval. Infelizmente tal resultou do facto desta então importante terra ter sido muito afetada pela peste negra o que fez perder a sua grande dinâmica política e económica na Toscânia, ao contrário de Florença, estagnando assim no tempo o que permitiu preservar todo o seu centro histórico tornando-o num autêntico museu vivo.
Agora falta-me explorar este património, a sua praça e o seu belíssimo duomo. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Férias Toscânia - Florença: o berço do Renascimento

Florença: imagem daqui

Florença foi uma das cidades que mais cedo desejei visitar, contudo, talvez tenha levado mais de uma década entre a decisão e a programação da visita, mas depois de ter passado rapidamente por Veneza, reconheci que não poderia passar mais tempo para comparar aquelas que artisticamente e arquitetonicamente devem ser as duas cidades mais marcantes da Itália.
Espero neste berço do renascimento e património mundial, não só conhecer a arquitetura como arte, como os grandes Giotto, Boticelli, da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Caravaggio e outros artistas que viram projetada a sua luz genial através da família Medici na terra do grande Dante cuja obra-prima, "A divina comédia" já li e também de Maquiavel.
Sendo esta a capital da Toscânia, à qual cheguei de comboio para conhecer a paisagem entre a Lombardia e esta cidade, e estando numa das províncias mais cosmopolitas deste país, penso ainda visitar, pelo menos duas das cidades com património conhecido mundialmente e ainda na minha rota operática ter mais um grande momento musical, agora com um obra suis generis e como vai sendo curiosamente hábito, na Itália não ouço óperas italianas.
Espero assim ao longo desta semana colher impressões suficientes sobre a vida atual, a gastronomia e o estado da arte da cidade de Florença e da província da Toscânia.


sábado, 13 de junho de 2015

"O tempo morto é um bom lugar" de Manuel Jorge Marmelo


"O tempo morto é um bom lugar" de Manuel Jorge Marmelo, autor que só conhecia de contos publicados em jornais, foi o primeiro romance que li deste escritor/jornalista que se encontra entre os autores atuais com maior projeção pública no meio editorial nacional.
É um romance sobre a atualidade social, cultural e económica de Portugal e aproveita-se da ideia algo corrente quando se olha o País de que é bem mais agradável a vida na prisão do que a luta do cidadão comum para sobreviver.
O livro divide-se em três partes: Na primeira um jornalista, desempregado e preso, narra as razões da prisão: o assassinato de uma celebridade de um "reality show" com quem teve uma relação na sequência de lhe ter sido encomendada a feitura de uma autobiografia, que nunca chegou a escrever, e descobre que o tempo morto na cadeia é bem mais vantajoso que o da liberdade. Na segunda descobre-se o suicídio do jornalista e conhece-se a pretensa vida da celebridade, os problemas que enfrentou desde criança até à mudança de vida e as potencialidades do sonho da fama. A última cobre uma investigação jornalística sobre quem terá morto a jovem e quem terá sido de facto o autor da autobiografia póstuma.
Estas partes  têm relatos paralelos e denunciam os problemas que a sociedade portuguesa atravessa: acusações políticas que se subentendem os destinatários, a vacuidade do mundo mediático e as dificuldades do cidadão comum. A escrita não é alheia ao estilo jornalístico, mas é interessante e apesar de se narrarem dificuldades, o tom irónico tira o carácter deprimente às situações, embora a obra só seja conclusiva no aspeto de ser uma forma de se chorar o Portugal do presente. Gostei e, mesmo tendo em conta que é um retrato frio e duro da conjuntura atual, é de leitura fácil. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"O livro de Jón" de Ófeigur Sigurdsson


"O livro de Jón", do Islandês Ófeigur Sigurdsson, é um romance epistolar constituído por mais de duas dezenas de cartas escritas por Jón à sua mulher durante o período da erupção do vulcão Katla de 1755 (a maior que há memória nesta ilha desde o povoamento e que teve um impacte climático planetário) e enquanto se encontrava refugiado numa gruta a sudeste deste, por um motivo pessoal e anterior à catástrofe, no local onde não só construiu a sua habitação, como inclusive um hospital e acolheu alguns dos maiores cientistas e pensadores daquele povo naquela época.
Apesar de ser uma obra ficcional, grande número das personagens, incluindo Jón, tiveram existência real e o autor aproveita este estilo não só para descrever muitos dos problemas sociais, económicos e políticos da Islândia de então, como mostrar a mentalidade, usos e costumes deste povo insular e ainda fazer uma descrição literária da erupção do Katla e dos seus efeitos catastróficos, inclusive responsabilizando-a do terramoto de Lisboa igualmente descrito com grande força. Contudo a obra mistura realidade, sonhos e uma natureza que por vezes é mágica.
A escrita é acessível, muito poética, sentimental e o romance é pequeno, embora por vezes os parágrafos seja extensos, só não temos o eco das cartas na mulher amada, nem se vem a saber se de facto estas chegaram à destinatária. Gostei da obra e recomendo, até pela descrição da erupção, sobretudo das enxurradas glaciares resultantes do contacto do magma quente com a calote de gelo que cobre a ilha nesta zona, originando assim os "jökullhlaups", vivamente descritos no livro.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa


Mergulhei no romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa logo no dia em que o adquiri numa publicação fac-similada da primeira edição no Brasil de 1956 e efetuada pela loja do jornal Público na coleção "800 anos de literaturas em Português". Este interesse na obra, há muito tempo esgotada em Portugal, resultava do facto desta estar qualificada como um dos trabalhos de ficção mais importantes escritos em Português e, inclusive, uma das obras de literatura mundial mais significativas de todo o século XX.
Em primeiro lugar saliento que gostei muito da trama: as memórias de Riobaldo narradas a Quelemén sobre o tempo em que fora jagunço e chegara a liderar um grupo na caça de um assassino de um chefe seu exemplar. Uma época em que se apaixonou por Diadorim, uma personagem travestida de soldado, em que sentia o dilema da paixão face os complexos de masculinidade e assumia o seu amor consentido pela distante e bela Otacília, período que lhe levantou questões sobre o bem, o mal, o Diabo a realização ou não de um pacto com este e até a dúvida sobre a existência deste ou não.
O romance não é uma estória linear: algumas das dúvidas sobre o bem, o mal e o demónio no protagonistas são lançadas ao ouvinte da narração, colocadas à reflexão por Riobaldo no texto que, em paralelo, também expõe os seus problemas morais e sentimentais e obriga-se a viajar no tempo para justificar determinados momentos da sua saga contra o inimigo e, em paralelo, descreve de uma forma poética a paisagem do sertão, as suas veredas, os seus rios e as suas gentes.
Guimarães Rosa utilizou no romance o modo de expressar sertanejo: vocábulos e sintaxe alterados pela linguagem popular, neologismos do escritor, regionalismos e ainda apresenta as espécies da fauna e flora da zona de Goiás, Minas Gerais e Baía como elementos simbólicos do carater das personagens, o que torna o texto num rendilhado complexo  que obriga a uma atenção intensa para quem não domina nenhum destes campos como eu e não estava prevenido para este estilo. Gostei do romance, embora por vezes tenha sido esgotante chegar à compreensão do conteúdo escrito e sei que nem tudo foi apreendido. Um livro que recomendo a quem além da magnífica estória, está disposto ao esforço de atenção e descoberta do que se esconde por detrás deste difícil texto. 

domingo, 17 de maio de 2015

"FOME" de Knut Hamsun


Compreendo que "Fome", do laureado norueguês com o prémio Nobel Knut Hamsun, publicado no distante ano de 1890, tenha provocado uma revolução literária na época onde na literatura se cruzavam as influências naturalistas de Zola e realistas de Balzac, pelo as questões sociais enquadravam as tramas da ficção, mas eis um romance onde protagonista, no início da sua carreira de escritor, opta por sobreviver com fome e tentar escrever artigos para os jornais na perspetiva destes os aceitarem e daí obter rendimentos que lhe permitam comprar o seu sustento e alojamento.
A fome passa então a ser a principal companheira do artista, que vai relatando a sua vagabundagem miserável pelas ruas de Kristiania (Oslo), descrevendo as suas sensações físicas fruto da sua carência, os contactos com personagens da cidade e, sobretudo, salientando a sua dignidade, onde se recusa a pedir ou a aceitar esmola ou até em ser beneficiado por um ato que considere manchar a sua dignidade, lutando pela preservação da sua honra e correção, embora por vezes se martirize por deixar-se cair em tentações e maldades. 
Assim a sua vida de fome por vezes é interrompida por algum trabalho aceite e pago, outras vezes quase desfalece por imperativo da fome, mas chama a si todas as culpas do seu mal, não há um juízo social, não há denúncias de imperfeições do sistema em que vive. São divertidas a sua forma de ironicamente perder as oportunidade de se alimentar no seu esforço de preservar a sua dignidade, mesmo com roupa por lavar e com falta de peças para completar o seu vestuário e no fim da obra, uma saída talvez surpreendente para quem acompanhou este homem de que nunca se chega a saber o seu verdadeiro nome. Gostei, é de fácil leitura e recomendo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

"A condição humana" de André Malraux



"A Condição Humana" de André Malraux  foi um dos livros que mais dificuldade tive de ler nos últimos tempos, apesar de ter gostado da obra, bem como dos temas tratados.
O autor, através de reflexões colocadas pelas personagens no seio de uma guerra civil histórica, mostra a ação de diferentes tipos de lutadores comunistas em Xangai, que interagem com gestores de interesses económicos franceses e oportunistas que negoceiam a sua sobrevivência financeira no ambiente instável da implantação da república da década de 1920 na China e a sua tentativa de emancipação das potências ocidentais.
Surge assim uma série de quadros que decorrem ao longo de horas ou distanciados de dias, que se completam como num puzzle e no fim dão uma imagem multifacetada dos dilemas que se coloca ao idealista que luta (neste caso, literalmente) pelas suas ideias, põe em risco a sua vida e depois se sente traído face a um conjunto de interesses políticos e económicos da teia nacional e internacional. No meio da solidão a que o guerrilheiro se sente votado, no desespero e dúvida, para alcançar um fim, verifica, tal como Lampedusa escrevera, que foi carne para o canhão da mudança para tudo ficar na mesma. Uma fatalidade? Isto, para um idealista desiludido como eu, é um osso duro de roer.
Não li na língua original, mas numa tradução de Jorge de Sena, o que me leva a perguntar como será mesmo a escrita de Malraux: nesta versão há uma densidade de reflexões reunidas por uma floresta de vírgulas, ponto e vírgulas, dois pontos e parêntesis que muitas vezes me fizeram perder no emaranhado deste arvoredo de pontuação e de ideias. A maior dificuldade que senti foi mesmo adaptação ao forma do texto. Na verdade foram raras as páginas que não tive de voltar atrás para saber quem pensava o quê e o que pensava mesmo, mesmo assim, nem sempre fiquei convencido que estava a seguir o trilho certo. Apesar disto. Gostei da obra, das reflexões, do encontro de culturas e dos choque entre ideologia e a realidade.

terça-feira, 28 de abril de 2015

"A Peste" de Albert Camus


"A Peste" de Albert Camus, prémio Nobel de 1957, fica entre os livros mais marcantes que li. Não só por ser um magnífico romance ao abordar a questão do Homem em sociedade face a desafios extremos, estar muito bem escrito, mas também, por desenvolver um tema que me é caro: a catástrofe pública e o exílio duma comunidade; que me recordam a situação de ter sido sinistrado de um sismo, responsável e residente de campos de acolhimento de desalojados.
"A Peste" narra o viver da cidade, Orão, Argélia, até o aparecimento da epidemia infetocontagiosa, o longo período de quarentena da sua população e os comportamentos no desaparecimento da doença, vistos pelos olhos de um médico que lutou e enfrentou o problema, em combinação com as memórias das pessoas que com ele trabalharam na crise.
Desde o surgir da doença no livro que me vieram os paralelismos com "Ensaio sobre a cegueira" de Saramago, que li antes do sismo na minha comunidade. Neste predomina a ação entre quem ficou doente e segregado da sociedade. Camus destaca as relações humanas em quem procura proteger a comunidade da peste. Nos dois há um exílio do resto do mundo, só que agora é duplicado: da equipa face aos doentes e dos ainda saudáveis com o mundo exterior.
Interessante as mudanças de comportamentos em consequência da situação: o casal que vivia uma relação distante que separados pela quarentena preferem se juntar, o Padre que aproveita a doença para pregar o arrependimento mas cujo sofrimento maior de uma criança inocente altera a sua visão, o que tenta furar o cerco para ir ter com a sua paixão e se converte a dedicar ao combate, o que definha com a esperança do fim da luta à doença. A  moral, a ética e a crença são assim abordadas em moldes filosóficos não cansativos.
Ficou-me a certeza que, pela duração, uma epidemia, tal como uma longa guerra são bem mais desgastantes que uma catástrofe momentânea que passa, mas ambas deixam feridas e mudam a pessoa humana para sempre à custa da dor que deixam. Excelente romance.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia Mundial do Livro - As minhas escolhas das leituras de um ano

No Dia Mundial do Livro já é tradição eu expor uma seleção das obras que mais me marcaram ao longo dos últimos 12 meses. Este ano correspondeu à leitura de várias dezenas de obras, desde o romance, novela e conto, passando por obras contemporâneas a clássicos anteriores ao século XX, só para falar do tipo de literatura a que tenho dedicado este blogue, contudo não é uma escolha fácil e nem eu próprio estou seguro se noutro dia não escolheria livros diferentes, mas no balanço do momento, eis as opções que tive:

Romance nacional
"A Quinta essência" de Agustina Bessa-Luís.

Não é uma obra de leitura fácil, tal é a densidade de ideias e pormenores expostos neste "A quinta essência" e onde se mostra a importância e o choque do encontro de culturas entre Portugueses e Chineses ao longo dos últimos 500 anos e tendo como base Macau, aqui se vê que a pretensa superioridade do ocidente no final é bem mais fraca face à riqueza do conhecimento e tradição oriental. Um livro que nos ensina muito e inclusive existem mulheres orientais bem fortes ao contrário do que se pensa na Europa.

Novela/conto em expressão lusófona
"O Alienista" de Machado de Assis

A categoria de novela surge pelo facto de que a obra que mais me impressionou, entre todas de ficção escritas originalmente em Português, foi um conto/novela, uma história do tipo alegoria, cheia de crítica sociopolítica com mais de um século mas que se mantém plenamente atual. "O Alienista", a brincar, dá-nos uma grande lição para compreendermos a mentalidade lusófona, com todos os seus defeitos. Brilhante, de extrema facilidade de leitura e pequena dimensão, uma pérola literária.

Romance em língua original estrangeira
"Mataram a Cotovia" de Harper Lee

No campo de literatura lida e proveniente de vários países e línguas e escritas no século XX e XXI a escolha não foi fácil, hesitei entre este pequeno e magnífico romance, onde através dos olhos de uma criança vê a luta do pai pela justiça e os riscos que tal acarreta numa sociedade racista. "Mataram a Cotovia" pequeno romance é uma escolha pessoal hesitante pois tanto poderia ter recaído em "Tudo o que sobe deve convergir" (uma coletânea de contos), "A leste do Paraíso", "O deserto dos Tártaros", ou "O coração das Trevas", mas esta seleção é de uma e não mais obras, fica por isso aqui a menção das que coloquei a igual nível.

Clássicos da literatura ocidental
"A educação sentimental" de Gustave Flaubert

Muitos leitores limitam-se a ler obras mais recentes e perdem a memória de obras escritas noutras épocas que moldaram as mentalidades contemporâneas e influenciaram grandes escritores posteriores, para que não se perca a oportunidade de conhecer os marcos da história da literatura, tento conhecer obras de séculos passados que se tornaram clássicos pela sua qualidade e referência cultural. Foram várias as obras que me marcaram do século XIX, mas pela informação histórica, pela estilo moderno da escrita e análise social que ainda se mantém atual "A educação sentimental" foi a escolhida.

Este ano estranhamente não li nenhuma obra de literatura Canadiana e como tal este tópico fica vazio, não por falta de qualidade, apenas ausência de leituras neste capítulo, mas assumo que é o Canadá tem uma riqueza literária que merecia ser melhor conhecida.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

"A cor do hibisco" de Chimamanda Ngozi Adichie

Esta foi a minha primeira entrada num mundo de produção literária africana subsaariana não lusófona e confesso que fiquei agradavelmente surpreendido.
"A cor do hibisco" de Chimamanda Ngozi Adichie é o relato da experiência da protagonista da passagem de adolescente à juventude/vida adulta, cujo pai, industrial e rico, é fanaticamente católico, numa comunidade nigeriana em colapso económico, político e social, onde coexiste a pobreza extrema, o racionamento de bens e ainda nas famílias alargadas persistem pessoas de religiões tradicionais e outras que equilibram as visões cristãs com as tradições pagãs que aparam os choques destes encontros com um humanismo que o extremismo bloqueia.
A escritora toca os sentimentos e confusões típicos da adolescência, enquanto sem se inibir, questiona algumas regras católicas sem as julgar, põe a nu, de forma dura, os excessos fanáticos e choques culturais religiosos e ainda denuncia a corrupção política que coloca o povo nigeriano na miséria num Estado onde alguns usam o dinheiro público em proveito, próprio recorrendo mesmo à violência para alcançar os seus fins, enquanto outros, cheios de valores e bom-senso, se tornam vítimas e se veem forçados a emigrar.
O romance está muito bem escrito, numa narrativa sem preocupações de criatividade modernista que perturbem a leitura, embora tenha muito léxico e frases comuns da língua ibo, mas de tal forma integrados que o leitor não se perde e quando necessário existe a adequada tradução englobada no texto de uma forma natural. Gostei muito do romance e espero ter oportunidade de ler outras obras desta escritora de grande sensibilidade e potencial literário elevado.

sábado, 18 de abril de 2015

"Tudo o que sobe deve convergir" de Flannery O'Connor



Acabei de ler a conjunto de nove contos de Flannery O'Connor reunidos no livro "Tudo o que sobe deve convergir", adorei a escrita e a forma destas pequenas histórias, com 30 páginas em média cada, todas com personagens complexadas e onde se expõe, de uma forma crua e dura, os preconceitos sociais do racismo e da obsessão religiosa no sudeste dos Estados Unidos.
Apesar da omnipresença do preconceito e de relatos de fím trágico em quase todos as histórias, o livro não é deprimente devido à qualidade da escrita e de até estar presente alguma ironia ou humor de forma subtil nos relatos.
A estrutura perfeita dos contos em termos de duração da história, a tensão psicológica no protagonista, personagens que são cidadãos simples da sociedade rural ou de pequenas cidades e a qualidade do conjunto fizeram-me recordar a laureada com o Nobel: Alice Munro; embora as temáticas sejam bem distintas. Gostei muito e recomendo a quem gostaria de encontrar contos bem estruturados e magnificamente narrados.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"A educação sentimental" de Gustave Flaubert



O romance "A educação sentimental" de Gustave Flaubert, começou-me a surpreender logo no início: a escrita era diferente da de outros autores do século XIX do período romântico, parecia muito mais contemporânea, tanto nas figuras de estilo, como na sintaxe; depois, as personagens eram complexas, sem serem  exclusivamente boas ou más, como em Charles Dickens ou até em Victor Hugo, mas sim um misto de tudo um pouco, moldáveis às circunstâncias políticas e sociais do contexto e do momento em que se surgem e evoluem ao longo da obra.
"A educação sentimental" mostra a lição da vida de um jovem ambicioso perante a realidade da sociedade que entretanto não consegue romper com certos princípios resultantes da descoberta de uma paixão, inicialmente platónica mas utópica, e que por isso se torna refém de armadilhas e do evoluir da sociedade francesa no seio da segunda fase da revolução francesa, onde praticamente no meio da violência tudo se conjuga para que a mudança preserve os vícios da sociedade e os hábitos dos mais poderosos.
Assim, progressivamente vai-se descobrindo como Flaubert faz um retrato da sociedade de então e uma denúncia do comportamento do ser humano, onde o protagonista em vez de se tornar num vencedor, se rende e se acomoda a esta realidade, vencido nos seus ideais sociais e sentimentais.
Um romance que apesar de parecer a história de uma paixão é um relato rico da história de França de meados do século XIX que o transforma numa obra-prima cheia de informações subliminares e dá para compreender porque se tornou numa referência literária para Kafka e Proust no século XX.

sábado, 4 de abril de 2015

"Os peixes também sabem cantar" de Halldór Laxness


Halldór Laxness corresponde ao escritor de ficção que nos últimos 3 anos descobri e mais me marcou neste espaço de tempo. "Os peixes também sabem cantar" talvez seja dos 3 romances que li o de mais fácil leitura ao grande público, mas continua a retratar e a tratar a sociedade e a cultura islandesa com o mesmo estilo poético que em "Gente Independente" ou no "O sino da Islândia", apesar da análise política ser agora mais suave e superficial.
Uma romance que se desenvolve como as memórias de infância até ao início da vida adulta do seu protagonista: Álfgrímur, abandonado pela mãe, filho de pai desconhecido e acolhido à nascença pelos seus avós adotivos, os donos de uma pensão que recebe os islandeses mais pobres das várias partes da ilha em Reiquiavique no início do século XX, quando a cidade se começa a potenciar como futura capital do País ainda sob o domínio dinamarquês.
O livro tem dois mundos: o da pensão dominado pelo sino de prata do relógio, com a fronteira no torniquete da cancela e onde se hospeda uma série de personagens ímpares que mostram a vida miserável do povo, as suas superstições, o orgulho das tradições, músicas, poesias em convívio com os valores éticos e morais dos avós, também pescadores e incapazes de se renderem às regras do mercado em benefício próprio para explorarem as pessoas.
O outro mundo que Álfgrímur vai descobrir situa-se além do portão, dominado pelo sino do relógio da igreja, possui homens de negócio sujeitos às regras da Dinamarca, sofre a transição socioeconómica associada ao desenvolvimento industrial e comercial, onde a hipocrisia convive com um conjunto de pessoas que deambulam sem se enraizarem neste meio, também orgulhosas das suas tradições e interessadas na notoriedade da Islândia mundial, onde se destaca uma vítima deste sistema: um cantor lírico de fama mundial que ninguém na cidade o ouviu cantar, nem sua mãe, que dizem ser parente próximo do protagonista, que o vai conhecer, estabelecer amizade e desvendar o seu segredo, que o marcará para o futuro na mudança da da seu destino de pescador de peixe-lapa para a vocação de encontrar e cantar a nota pura e mostrá-la ao Mundo. Gostei muito, embora seja um romance menos profundo que os outros dois acima referenciados.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Em memória de quem era o cineasta ativo mais idoso do mundo: MANOEL OLIVEIRA


Manoel Oliveira com 106 anos, não só era um marco pela sua extensa obra de realizador de filmes, iniciada em 1931 com uma curta-metragem documental "Douro, faina fluvial", para passar a longas-metragens de ficção com o referência histórica que foi "Aniki-Bobó" em  1942, prosseguindo a sua atividade praticamente ininterrupta até 2014 com a mais recente obra "O velho do Restelo". Nem sempre amado pelo grande público português, devido ao ritmo lento do desenrolar da ação nas suas películas, onde muitos nem se apercebiam que tinham a oportunidade para apreciar a poesia da fotografia, este realizador era um caso de sucesso em França pela pela forma artística com que fazia passar a história na sala de cinema.
Em Portugal Manoel Oliveira era contudo uma referência cultural conhecida de todos, mesmo os que não viam os seus filmes ou se limitavam a ver o seu papel de ator na Canção de Lisboa de 1933 ou na obra de Wim Wenders "Lisbon Story" de 1994, mas poucos se lembram que antes da sua carreira na 7.ª arte foi atleta e campeão nacional de salta à vara e um piloto de desporto automóvel na década de 1920/30.
Vi várias obras deste realizador, menos do que desejava por as mesmas em Portugal passarem menos fora de Lisboa por razões comerciais, mas admirava a sua fotografia e sem dúvida foi quem melhor colocou em filme os romances da sua conterrânea do Porto: Agustina Bessa-Luís.
Manoel Oliveira morreu hoje de paragem cardíaca, mas ainda trabalhava para mais filmes... Portugal ficou mais pobre e fica a aqui a minha homenagem a este génio da cultura nacional de referência internacional.