sábado, 25 de fevereiro de 2017

"O Rei Lear" de William Shakespeare


Acabei de ler a única das grandes tragédias de William Shakespeare que desconhecia o texto e o enredo: "O rei Lear", numa edição e tradução recentes que segundo os autores faz parte de um projeto em curso que pretende publicar todas as obras deste génio mundial da literatura dramática em português, tentando conciliar o estilo original do autor com uma linguagem contemporânea, respeitando a forma e a estrutura poética sempre que possível. Pelos excertos que li do texto original pela internet para comparar esta versão, penso que o objetivo está a ser conseguido, pois o tom, a cadência, o ritmo e o texto na língua de Camões fizeram-me sentir o mesmo de quando li as mesmas passagens da obra em inglês e as ideias base eram as mesmas, mostrando uma fidelidade muito boa. As notas finais permitem ainda pormenorizações sobre publicações antigas de referência da obra e algumas particularidades para as soluções encontradas neste livro.
O Rei Lear desenvolve o tema do engano e do aproveitamento da senilidade e do amor paterno por filhos interesseiros em prejuízo de honestos, não bajuladores e respeitadores dos princípios e deveres filiais.
Duas histórias correm em paralelo, a do rei Lear, que divide o seu reino pelas duas filhas mais velhas que o ludibriam, deserdando a mais nova que o admira sem mentiras, bem como o caso de um nobre, Gloucester, que se deixa levar pela intriga de um filho bastardo em prejuízo do legítimo honesto e ingénuo na maldade. O desenrolar do drama levará não só à descoberta dos erros de interpretação tanto no rei louco pela idade, como no conde, e as tentativas de repor a justiça, mas a guerra levada a cabo com os maquiavélicos traidores, como não poderia deixar de ser numa tragédia, termina com a morte de muitos dos que intervieram nesta luta entre a justiça ou o bem e a injustiça ou mal.
A obra talvez não tenha as frases isoladas fortes do texto de Hamlet, o desenlace é bem mais negro que o de Macbeth, não é o ciúme como em Otello que se deixa alimentar pela maldade mas somente a fragilidade da velhice que é vítima da ganância dos novos e nem há o romantismo de Romeu e Julieta, todavia é uma grande obra que levanta igualmente numerosas questões sobre a esperteza das trevas face à crendice das palavras de quem ama e é justo e onde, sem o conflito de gerações, ficamos perante a crueza da ingratidão filial face ao declínio físico e psíquico dos progenitores que os trouxeram à vida.
Pequena no tamanho, é uma tragédia grande em mensagem, estrutura e complexidade moral, uma obra-prima que gostei e vale a pena ler, enquanto este projeto Shakespeare, levado a cabo pelos tradutores da Universidade do Porto, motivou-me a descobrir mais obras deste génio.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

"As Naus" de António Lobo-Antunes


O romance "As Naus", de António Lobo-Antunes, publicado em 1988 e agora reeditado na coleção Livros RTP, cruzou-se casualmente comigo numa papelaria quando estava lá por outros motivos e então despertou-me a curiosidade o modo como este original escritor lusitano trataria o cruzamento do tema das descobertas com o dos retornados após a independência das colónias portuguesas na sequência da revolução de Abril.
Num romance pouco extenso, com a escrita típica de António Lobo-Antunes, onde  se intercalam tempos diferentes, mudanças de sujeito e de espaço ao longo de longos parágrafos, o autor desfila um conjunto de personagens que no passado foram os heróis, escritores ou figuras das crónicas do período das descobertas e da expansão cultural portuguesa, nomeadamente Luís de Camões, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, São Francisco Xavier e Manuel de Sousa Sepúlveda, reis de Portugal,entre outros, sem esquecer a sombra marcante de D. Sebastião e o seu mito, descrevendo muitas das dificuldades, loucuras e glórias daquela época áurea que viveram, mas que mais tarde os mesmos se tornaram colonos em Goa, Moçambique, Angola e Guiné, com todos os vícios de que são muitas vezes acusados e ainda alvo dos ódios e das bajulações dos povos indígenas e que por fim ainda passam para o papel de retornados a Portugal, expulsos dos locais onde criaram raízes, sendo mal-aceites na pátria de origem com uma organização de acolhimento viciada pela embriaguez dos conceitos de liberdade e socialismo onde neste ambiente se adaptando aos mais variados géneros de personalidades e papéis: desde o que se transforma em oportunista, às vítimas de espoliações, aos que entram no mundo negro da prostituição e dos proxenetas, aos desadaptados e às perdas de identidade onde tudo isto se vai cruzando de forma absurda ao longo da obra.
Apesar das numerosas denúncias contidas na obra, que ora se subentendem, ora são ditas de forma dura, nua e mesmo cruel, por vezes misturadas com alguns preconceitos de mentalidade da nossa sociedade, o livro consegue criar um tom irónico e divertido no seio das desgraças expostas, mas não se furta a mostrar a necessidade de os portugueses em todas estas épocas precisarem de um D. Sebastião para manter a esperança e viabilizar a sobrevivência deste Povo... apesar deste salvador sempre na sombra que no fundo dos lusitanos nunca morreu ele nunca aparece, apenas nos levou a uma derrota marcante.
Gostei do livro, mas reconheço que estou habituado à escrita de António Lobo Antunes e para quem não a entranhar este romance torna-se difícil, se não mesmo incompreensível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"O Sentido do Fim" de Julian Barnes


Acabei de lei o pequeno romance vencedor do prémio Man Booker Prize de 2011: "O Sentido de Fim", do escritor britânico Julian Barnes, a primeira obra que leio deste autor.
A história está dividida em duas partes: a primeira narra as memórias do protagonista do seu tempo de liceu até à universidade, a sua envolvências com os seus três amigos mais próximos, as reflexões saídas das aulas de alguns professores marcantes, a relação com a sua primeira namorada e a família desta, bem como seu fim quando foi sucedido pelo amigo que ele mais admirava pela sua inteligência, lucidez, visão de vida e o elemento mais promissor do grupo, mas que entretanto foi capaz de um ato extremo.
A segunda parte começa cerca de 40 anos depois, quando já divorciado e avô é surpreendido por uma doação em testamento da mãe da sua antiga namorada, na qual também está incluído o diário do seu admirado amigo. Começa então a tentativa de obtenção da obra e de descobertas estranhas que mostrarão como a memória de uma pessoa o pode atraiçoar sobre a realidade do foi o seu próprio passado e denunciar as suas escolhas medíocres após uma juventude onde se foi capaz de ser cruel para com aqueles que mais se amou sem se ter noção do nível a que se baixou e até à última página haverá sempre surpresas que fecham o ciclo da vida do narrador e a perspetiva deste do que é o sentido das opções de um indivíduo para os seus fins.
Destaco desde já que este romance contém um dos melhores textos literários que li até ao momento para obras do século XXI. Praticamente todos os seus parágrafos e diálogos são de uma perfeição de escrita e de uma beleza estilística clara que concilia a estética com a discussão de ideias num nível a que não estou habituado a ler em obras contemporâneas, que muitas vezes trabalham a escrita e esvaziam o conteúdo ou valorizam este e comprometem a forma de escrever. Aqui existe uma harmonia perfeita entre a reflexão e a arte de narrar, sem deixar de ser uma obra profunda e uma lição de vida cuja genialidade só se revela completa e clara nas últimas páginas do livro. Uma obra-prima!

sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev


O excelente romance"Pais e Filhos" do russo Ivan Turguéniev, escrito em meados do século XIX, além de ser um dos clássicos mais importantes da literatura deste país, é uma obra marcante na literatura mundial, pois é ele que define e cria o termo "niilismo" como forma de pensar e de ser de uma personagem que questiona e rejeita, à priori, qualquer autoridade, instituição ou  costume de modo a querer revolucionar a sociedade, tema que posteriormente será desenvolvido por Dostoievski e outros importantes escritores, com todas as suas forças e fraquezas, benefícios e perigos e ainda alvo de linhas filosóficas, nomeadamente Nietzche, aspetos que moldaram profundamente a literatura global no último século e meio.
Escrito de uma forma fácil, mas elegante, e com pormenores descritivos subtis, que não só embelezam o texto como também caracterizam situações e sentimentos; a história é essencialmente marcada pelo conflito das formas de pensar em duas gerações: a dos filhos no final da juventude, então com todo o vigor, espírito de contestação e vontade de mudar o mundo, insatisfeitos com a dos pais, onde estes com as lições da vida se tornaram já conservadores, acomodados e inseguros perante os seus descendentes, para quem vivem e a quem admiram, sem saber como gerir este desacordo geracional.
Centrado sobretudo em duas famílias diferentes mas de pais recatados e filhos de espírito revolucionários ou influenciados por estes ideais, junto com algumas personagens, incluindo femininas fortes que vão criar o choque não só entre as ideias geracionais como também com a natureza biológica da vida e dos sentimentos. A história coloca a nu o conflito geracional de séculos e as suas limitações da própria natureza e realidade que leva a que ora uns saiam vencidos pela crueza do acaso, embora com um futuro promissor e vítimas de aspetos menores do destino e outros se arrumem perante a força do mundo, tornando-se em pessoas com carreiras consideradas modelos para o comum dos mortais na sociedade em que se inserem.
Um livro não muito grande, fácil e muito rico não só em mensagens, como influente filosoficamente que marcou o futuro da literatura. Gostei muito e recomendo.

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O leilão do lote 49" de Thomas Pynchon


A experiência de leitura deste pequeno romance "O leilão do lote 49", do norteamericano Thomas Pynchon, teve a particularidade de apesar de muitas vezes me ter feito sentir como que perdido na narrativa, ao me cruzar com personagens paranóicas, situações absurdas, uma mistura de informação científica séria com aspeto de fantástico junto com irrealidades que se parecem verdades, além de uma série de cenas cuja lógica aparentemente está ausente, levou-me a um livro que me cativou desde a primeira página. O evoluir das situações onde a coerência está como que ausente gera uma história que toma um aspeto de mistério a resolver na tentativa de decifrar um conjunto de pistas que parecem loucas.
Oedipa é informada que foi nomeada testamenteira de um ex-namorado, multimilionário e que para as suas funções poderá contar com a ajuda de um advogado de um escritório com quem o falecido trabalhava. Surpreendida parte para a localidade deste e onde ele era o maior proprietário e investidos da zona. A partir daqui as peripécias sucedem, cada uma mais estranha do que a outra, desde a interferência do seu psiquiatra que enlouquece, ao advogado com quem ela trai o marido mas que a seguir foge com uma adolescente, passando pela envolvência do esposo como homem da rádio, mas que tem alucinações com LSD, ao contacto com um grupo musical de adolescentes denominado Paranoids cujo o nome é coerente com a respetiva forma de ser, até um grupo de teatro cujo ator principal e encenador adapta uma peça antiga deixando pistas que se combinam com elementos encontrados na coleção de selos do morto, que apontam para a existência de uma rede de correios secreta instalada na sociedade para se autonomizar das redes oficiais que Oedipa tenta descobrir através de investigadores de literatura, cientistas que trabalham na entropia dos sistemas e filatelistas, levando tudo isto a uma série de situações de paródia, com informações subtis de análise social e psicológica nos Estados Unidos.
A obra parece uma evolução dos livros de Kafka, juntando cultura pop e erudita, clássica e contemporânea, além de ciências, num mundo absurdo com análises psicológicas que geram um estilo original, por alguns denominado de pós-modernista, que a mim parece-me trazer para a literatura as correntes artísticas da pintura pop-art de Warhol, do surrealismo de Dali, entre outros, mas sendo prolixa em informações como um quadro de Pieter Bruegel, gerando-se assim uma mescla onde nos enredamos que apesar de labiríntica me deu muito prazer em sentir-me perdido em situações por vezes de difícil compreensão, se não mesmo incompreensíveis.
Gostei, contudo só recomendo a quem os esforço de análise do que se está a ler e da apreciar a forma de escrita e narrativa dão prazer, mas não a um leitor que se entusiasme apenas com enredos e textos fáceis de seguir sem esforço.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

sábado, 7 de janeiro de 2017

"Lillias Fraser" de Hélia Correia


"Lillias Fraser" da escritora portuguesa Hélia Correia, cuja obra ganhou o prémio PEN clube de Portugal em 2002, enquanto a autora foi galardoada com prémio Camões de 2015, é um romance histórico que começa na Escócia em 1746, onde a protagonista, ainda criança e antes de uma derrota dos escoceses católicos interessados em conquistar o trono protestante da Inglaterra, tem a visão da morte do pai e foge antes do morticínio da suas gentes, salva-se e é depois protegida por várias pessoas de estatuto diverso destes dois povos em conflitos. Na sequência da sua odisseia vem parar a Lisboa, prossegue a sua vida entre vários protetores, sobrevive ao terramoto de 1755, novamente devido ao seu dom de ver a morte, passando depois na sua juventude por novos tormentos resultantes desta catástrofe entre gente que a acolhe e a persegue como uma pessoa diferente: loura, de olhos e pele clara; desembocando no período da guerra dos Sete Anos, onde Portugal se alia à Inglaterra e ela volta a cruzar-se com líderes militares dos povos da sua ilha. 
O romance envolve-se no realismo mágico, tem vários acontecimentos e personagens reais: desde a batalha inicial do livro, ao terramoto, clero influente do monarca português e militares do Reino Unido, tem muitos pormenores do que terão sido as dificuldades da população após a destruição de Lisboa e o caos social de então, bem como a ação da Inquisição e de Marquês de Pombal na época, tanto nas vertentes positivas como negativas deste.
A estória surge numa sequência de cenas que por vezes fornecem pistas futuras e outras vezes recusam prosseguir, originando um tratamento do tempo em forma de peças soltas descontínuas que por vezes abrem caminhos que fecham de seguida, além de em momentos ser uma narrativa de alguém do presente que investiga o passado e noutras a ação entrar dentro das personagens como se fossem estas os autores, paralelamente a imagem sobre os Portugueses e Portugal é frequentemente depreciativa da sua cultura e mentalidade, o que me criou algum desconforto, contudo é um romance onde aprendi factos sobre acontecimentos históricos e que sem me ter entusiasmado também não desgostei de ler e penso que valeu a pena conhecer esta obra.

sábado, 31 de dezembro de 2016

"Mystic River" de Dennis Lehane



Acabei de ler "Mystic River" a minha estreia em Dennis Lehane, um escritor atual dos Estados Unidos, que trabalhou com crianças com problemas psicológicos e depois se dedicou à escrita com obras de ficção do género thriller e policial, onde se encaixa este romance.
Três crianças de 11 anos brincam na rua quando uma delas é raptada por um carro, vítima de abusos e consegue fugir. Mais de 20 anos depois, já homens quando cada um segue a sua vida e a amizade do passado esfriou, ocorre o assassínio da filha de um deles, o que os leva a uma aproximação, sendo agora um investigador policial, outro suspeito e o restante vítima da situação, decorre então o trabalho de pesquisa num bairro pobre, com problemas de violência, degradação social e sem perspetivas de futuros para os mais desfavorecidos, enquanto a área vai sendo cercada por yuppies em ascensão económica.
Neste policial somos questionados sobre os traumas da infância, a desagregação social e familiar, as dificuldades de reabilitação de quem convive com o crime e vive no meio deste, bem como reflexões de quem investiga para garantir a segurança e retirar os criminosos da sociedade, num trama onde amizade, desconfiança e obrigações profissionais se cruzam.
Contudo este romance, já adaptado ao cinema, é muito mais que uma simples estória de entretenimento, pois, além de ter uma escrita literária de qualidade, tipicamente norte-americana, junta uma análise psicológica e social profunda de um meio urbano e grupo problemático, criando personagens complexas que elevam esta obra ao nível de outros géneros literários considerados alvos de maior respeito no mundo da literatura e da cultura que um simples thriller para explorar emoções e medos. Gostei e recomendo.

sábado, 24 de dezembro de 2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

sábado, 17 de dezembro de 2016

"A curva do Rio" de V. S. Naipaul


Acabei de ler "A curva do Rio" do britânico de ascendência indiana, nascido em Trinidade e Tobago e prémio Nobel da literatura: V. S. Naipaul. O romance narra a experiência de vida de amadurecimento de Salim vista pelos seus próprios olhos. Nascido na costa oriental africana, de uma família antiga e influente de ascendência asiática, de tradição muçulmana que na juventude ao não ver perspetivas de futuro na sua terra natal decide adquirir uma empresa de comércio numa cidade de um País no centro de África, recentemente descolonizado, onde as características do rio permitem que o local tenha um grande potencial económico de futuro e onde se cruzam as muitas culturas que nos últimos séculos moldaram este Continente: os africanos originais de etnias variadas, os colonos, os conselheiros ocidentais pós-independência, os povos há muito radicados a sul do Sara, os missionários, gente cristã, islâmica e das religiões tradicionais, todos sob a capa de um líder carismático da nova Africa cheio de vigor para criar um futuro glorioso, mas que com o tempo vai ramificando o seu poder para controlar todo o Estado e tirar proveito de todas as divergências, incoerências sociais, preconceitos e assim dominar, desculpar-se e alimentar conflitos que degradam a socieconomia e sua população inicialmente esperançada mas que vai enfrentando a desilusão, a corrupção e as guerras ao longo dos anos.
Eis um livro poeticamente escrito e sem ser agressivo, consegue retratar a violência humana e os vícios internos de sociedades vítimas de regimes opressivos e corruptos, onde oportunistas internos e externos condenam Povos inteiros e inocentes à estagnação económica e do conhecimento, comprometendo o evoluir de pessoas inocentes e os seus sonhos e, sobretudo, o futuro de nações inteiras... neste caso um continente inteiro espelhado neste País, através desta cidade situada na curva de um rio.
Este romance é efetivamente um magnífico retrato dos problemas da África subsariana no período pós-colonial, explica muito dos problemas que afetam ainda hoje esta zona do planeta e, apesar da negritude das questões denunciadas, consegue apresentar-se num estilo literário onde a poesia da escrita traça um quadro triste num belo livro. Gostei e recomendo a quem gosta de obras que dizem muito mais nas entrelinhas através de uma estética onde fealdade não estraga a beleza do saber expor com arte.

sábado, 10 de dezembro de 2016

AMOK de Stefan Zweig


Acabei de ler o livro "Amok" do austríaco Stefan Zweig, pela sua dimensão e estrutura, 74 páginas, poderá ser qualificado como um conto.
A história refere-se a uma confidência feita numa viagem de paquete entre a Índia e a Inglaterra por um passageiro amargurado e isolado que o narrador encontrou numa hora avançada da noite e relativa ao comportamento que ele tivera como médico perante uma mulher de sociedade que o procurara numa terra colonial onde exercia a sua profissão numa aldeia afastada para este lhe prestar um serviço que ele entende não ter sido solicitado de modo adequado face à força que emana da jovem, por isso decidiu-se por um estilo de conflito mútuo, a que se seguiu um arrependimento tardio e uma tempestade de sentimento incontrolável, denominada na língua nativa de estado "amok", que o leva a agir de forma descontrolada e a procurá-la, atitude que desemboca numa tragédia e num compromisso fatal.
Escrito com uma elegância e com um ritmo que nos faz mergulhar vertiginosamente no dilema médico, ético e inclusive moral, este conto mostra uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privada. Gostei.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O homem que gostava de cães" de Leonardo Padura


Acabei de ler "O homem que gostava de cães" do cubano Leonardo Padura, o livro cruza, através de capítulos intercalados, as vidas ficcionadas de Trosky, apenas como vítima e refugiado de Estaline; do seu assassino, o catalão Mercader; e os encontros do narrador do livro, um escritor falhado e vítima da opressão do regime em Cuba, com um homem doente, amante de cães que teria conhecido o criminoso e confidente dos pormenores da vida deste desde criança até ser formatado para o crime encomendado por Estaline e das suas reflexões posteriores.
Todos os capítulos, tanto nos aspetos ficcionados como nos históricos, são bastante prolixos em pormenores e descritos ora na primeira pessoa como memórias, ora como espetador, ora de forma romanceada, o que torna a obra muito densa, não só em termos de informação dos factos conhecidos, como também ao nível da especulação e, sobretudo, no aprofundamento do que foi a mentira criada em torno de uma proposta de modelo de sociedade igualitária para a libertação do Homem que se transformou num dos maiores pesadelos, máquina de morte e de opressão do século XX, onde Mercader um catalão inicialmente envolvido na guerra civil de Espanha foi trabalhado para ser um instrumento a ser usado para este engano, inicialmente como utopista de um sonho, depois desconfiado das mentiras e montagens que assistiu e por fim já consciente do mal mas impossibilitado de mudar o seu destino, no apaziguar da culpa ficou-lhe o amor pelos cães, tal como perdurou em Trostky e no narrador.
Um romance denso que é uma explicação de como foi possível transformar uma utopia numa distopia tão desumana. Uma narrativa onde, por vezes, o texto tem o aspeto de um relato quase jornalístico, noutras um estilo mais floreado com reflexões das personagens e dos sonhos e desilusões do mesmos, mas, sobretudo, uma denúncia destas terem sido conduzidas e vítimas do medo, um sentimento que é comum à outra obra de Padura que li este ano e falei aqui. Gostei e recomendo para quem quiser conhecer melhor o que foi o pesadelo estabelecido à sombra de um modelo que tinha como princípio libertar o Homem e cujo escritor também conheceu por dentro na sua adaptação a Cuba.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante - Volume IV de "A amiga genial"


"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante corresponde ao quarto e último volume da tetralogia "A amiga genial" e completa a história de uma amizade de vida inteira vista pelos olhos da amiga que se tornou culta e escritora mas que nunca deixou de ter uma admiração e até talvez um complexo de inferioridade face a outra companheira que apesar de não ter tido a mesma oportunidade de estudo lutou com todas as forças para sobreviver, ascender socialmente e revoltada criar um mundo à sua medida à sua volta e enfrentar dificuldades pessoais difíceis de ultrapassar.
Neste livro, após uma primeira metade ainda muito novelesca com amores e ódios, percursos políticos e sociais, bem como conflitos típicos da cidade berço da obra, não só das personagens que acompanhámos nos volumes anteriores, mas também agora dos seus filhos que assim passam de crianças a adolescentes a jovens; segue-se uma segunda parte mais instrospetiva, madura, com reflexões sobre a vida e marcada pelas desilusões, visualização da repetição dos mesmos erros nos mais novos após o calo e o saber dos mais velhos, as relações sociais, a amizade, os problemas socioeconómicos dos desfavorecidos, a corrupção económica e social na Itália e uma descrição nostálgica do que é Nápoles, bem como as mudanças de estilo de vida desde os anos 1990 até à atualidade fecham o ciclo.
Ideologicamente o livro já não promove um idealismo de esquerda, neste campo também com o tempo muitos se acomodam e torna-se evidente que certos ídolos tinham pés de barro e eram oportunistas de uma classe com privilégios que não estão dispostos a prescindir, apesar do discurso solidário. A escrita também se adapta à idade da pretensa narradora, tornando-se ela mesmo mais madura.
São inclusive dadas explicações do essencial da obra de uma forma indireta, isto quando se abprdam o conteúdo de publicações da narradora a falar da amizade, surgindo assim objetivos dos livros dentro do livro que não são mais que a tradução dos da tetralogia, numa perspetiva de alguém que os expõe arreigada a valores humanos fortes, mas libertos de tabus religiosos e pudores tradicionais muito característicos de alguém que viveu a revolução sexual dos anos 1960/70. Valeu a pena a maratona.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"História de Quem Vai e de Quem Fica" Volume III de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


"História de Quem Vai e de Quem Fica", o volume III da tetralogia de "A Amiga Genial", da escritora italiana Elena Ferrante, aborda, sobretudo, o início da vida de casada da narradora e da sua experiência de mãe nos anos de 1970, sendo neste mais escassas, frias e desconfiadas as referência à amiga sobre quem se centraram essencialmente o olhar da pretensa autora do texto nos dois anteriores livros.
Além da continuação da trama novelesca de amores, ódios, ciumes e traições, a componente de confronto ideológico esquerda direita, as sombras do terrorismo na sociedade de Itália e a contra ofensiva fascista, que caracterizou de facto a época em questão, têm agora um papel muito mais forte neste volume, todavia o livro não é isento, praticamente todas personagens conotadas com a esquerda têm bons princípio na sua conduta, enquanto o outro lado são sempre exploradores ou corruptos e limitam a liberdade dos seus opositores.
Para além do estilo elegante que caracteriza a escrita, a partir deste volume passa a ter um papel importante a exposição realista de pormenores descrições das sensações dos atos íntimos da narradora, como para vincar a liberdade e fundamentar a atitude da mulher na sua emancipação na sociedade, como também se intensifica a linguagem grosseira para tornar claro a forma de expressão e de pensar natural das pessoas sem o verniz pudico que muitas vezes cobre a literatura. Curiosamente o papel desse tipo de relatos na literatura é de forma indireta discutido na obra pelo impacte que provoca nos leitores.
Continuo a gostar do romance, apesar da sua extensão para a conclusão da obra, poder por vezes dar-me saudades de outros géneros onde pese menos o olhar feminino e sentimental do mundo. Já a ler o IV volume.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

"História do Novo Nome" ou Vol. II de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


O segundo volume da tetralogia "A Amiga Genial", agora intitulado: "História do Novo Nome", de Elena Ferrante, vem numa sequência perfeita do final do primeiro romance, que narra o nascimento e fortalecimento de uma amizade desde a infância escolar até à adolescência dos protagonistas exposta de forma integrada na vida social de um bairro pobre de Nápoles, terminando o anterior na mesma cerimónia de casamento que dá início ao presente livro que estende a estória destas relações e percursos individuais até ao final dos estudos da narradora, quando esta irá passa a ser uma jovem pronta para uma vida independente.
Tal como já dera a entender, a escrita é muito agradável e de fácil leitura, sendo que a trama se aproxima do desenrolar de uma telenovela popular, só que a escritora faz na obra análises individuais que permitem criar personagens complexas, cheias de virtudes e defeitos, expor as dificuldades de quem vive em meios sociais pobres, falar das barreiras que têm de se ultrapassar para uma integração num estrato cultural e económico mais elevado, incluindo os complexos de inferioridade de origens, e ainda mostrar a corrupção, vícios políticos e preconceitos que minam a vida dos cidadãos em Nápoles, sem esquecer as principais lutas ideológicas que marcaram a juventude na década de 1960.
Esta reunião de aspetos permite que se crie um romance acessível e fácil a leitores pouco atraídos para escritas e enredos complexos, que se limitem a estórias de paixões e ódios, mas sem deixar de interessar a apreciadores de obras mais profundas pela riqueza de informações e o pormenor com intervenientes, intensamente caracterizados e detentores de fortes em personalidade com potencialidades de serem referências na literatura.
Elena Ferrante, despe-se de preconceitos, faz uma obra realista nos aspetos públicos e pormenores da vida privada e íntima das suas personagens, sem apagar experiências marcantes da juventude associadas à descoberta e entrada na vida sexual ativa. Continuo a gostar muito da obra e a recomendar a qualquer leitor, sabendo que por questões de moral podem existir divergências do exposto no livro em termos de ideias e atos. Para já a avançar no terceiro volume desta narrativa.