quarta-feira, 23 de Abril de 2014

23 de abril - Dia Mundial do Livro

Nos últimos anos tornei norma identificar nesta data e neste blogue os livros que mais gostara de ler ao longo dos anteriores 12 meses, talvez seja pretensioso dizer que coincidem com os melhores lidos, pois nisto de qualidade há sempre uns critérios objetivos, mas também outros subjetivos e até alguns subversivos. 
Tenho de assumir que a quantidade de obras lidas foi numerosa neste período e incluiu alguns dos títulos globalmente considerados mais importantes da história da literatura, o que torna a escolha desta vez bem mais complexa, contudo vou fazer um esforço de expor algumas das obras que ficaram no topo das que mais gostei de ler e considerei melhores segundo categorias distintas.

Melhor Livro de ficção nacional
Penso que a literatura contemporânea portuguesa está pujante e com qualidade, embora sofra de elogios promocionais a mais sobre quase tudo o que vai saindo, tornando difícil distinguir o bom trigo do joio valorizado para fins comerciais em benefício das editoras. Todavia, tendo em conta a sua riqueza interna e os 40 anos de liberdade que esta semana comemoramos, a escolha recaiu numa obra que mostra muito dos males da ditadura no passado e muitos dos problemas da terceira idade de hoje e ainda possui um estilo de escrita que embora influenciado não deixa de ter uma dose de originalidade:



Melhor  Livro de ficção de expressão portuguesa
Face à categoria acima apresentada aqui excluo Portugal. O conjunto da literatura lusófona expõe as subtilezas que resultam da diversidade lexical, gramatical e sintática da nossa língua e até as influências geográficas e climáticas que se perdem em traduções (como tornar compreensível ao leitor noutra língua o pormenor da origem da obra em África, Brasil ou Portugal face à posição dos pronomes na frase ou a preferência por cacimba, sereno, rocio, orvalho ou relento ou mesmo a frequência do gerúndio da maioria dos lusofalantes face ao seu uso escasso no norte e centro de Portugal?). No uso da linguagem foi Ondjaki quem mais me surpreendeu com o linguajar de Maputo. Mia Couto cria palavras moçambicanas que chocam ao substituir termos usuais. No Brasil sobrevivem sinónimos arcaicos, alguns que ainda subsistem em nichos rurais e ilhas de Portugal e mostram-se outras regras de criar neologismos... tudo isto justifica a frase de Pessoa "A minha pátria é a língua Portuguesa"... mas a obra literariamente mais original e profunda que li ao longo deste ano, nem sempre fácil, mas que se destacou pela qualidade interna foi:



Melhor Livro de ficção de outra língua original
Procurei aqui não incluir romances já reconhecidos como grandes clássicos da literatura mundial, tendo em conta a última categoria deste artigo e por que tal tenderia a afastar outras grande obras menos famosas. A hesitação rondou "Nostromo" de J Conrad, "O Sino da Islândia" de Laxness, "O Carteiro de Pablo Neruda" de Skarmeta (sem dúvida o mais pequeno e ternurento), ou "A Guerra do Fim do Mundo" de Llosa em grande parte baseado em factos reais e o conjunto de "O Quarteto de Alexandria" de Durrell, mas a escolha foi para uma grande obra recente, por vezes incómoda e desagradável, que reflete muitos dos temores da sociedade atual, denuncia muitos dos seus vícios e está em parte relacionada com a minha vida profissional:
Melhor Livro de ficção canadiana
Esta é uma categoria que resulta do facto de ser cidadão e natural do Canada, confesso contudo que só li um livro deste País ao longo deste ano e pela primeira vez sem ser na língua original, só que também o mesmo corresponde a um título de contos da escritora que foi este ano galardoada com o prémio Nobel da Literatura e como tal não poderia deixar de fora esta oportunidade para mais uma vez homenagear a escritora de quem sou um grande admirador:
Melhor ficção  de clássicos da literatura mundial
Aqui foi talvez o domínio mais complicado de seleção. Só considerei obras com mais de cem anos que recentemente foram reeditadas por serem tidas pelos críticos como grandes obras e continuarem a ser sucessos persistentes no tempo: "O Idiota" e "Os Irmãos Karamzov "de Dostoievsky a baterem-se com Guerra e Paz de Tolstói, romances mais pequenos como "O Monte dos Vendavais" de E Brontë, "História de duas cidades" de Dickens e mesmo originalmente em português por que não mencionar as deliciosas sátiras de "O Conde de Abranhos" e "O Mandarim" de Eça de Queiroz ou o "Dom Casmurro" de Assis, mas no fim penso que globalmente o clássico mais completo deste ano foi mesmo:


Nota: Os títulos "vencedores" estão sempre ligados ao endereço do artigo em que falei sobre a obra.

terça-feira, 22 de Abril de 2014

22 de Abril - Dia da Terra

Porque hoje é o dia da Terra e eu nunca deixei de ser geólogo e Geocrusoe já foi sobretudo um blogue de Geologia, mesmo que hoje esta anda menos presente por aqui, fica neste espaço a lembrança da comemoração deste planeta que necessita da proteção do um dos seus filhos: o Homo sapiens


Recomendo-vos ainda uma visita hoje ao excelente Doodle animado da página da Google que celebra igualmente o dia da Terra estaticamente mostrado neste artigo.

UM BOM DIA PLANETA TERRA!

segunda-feira, 21 de Abril de 2014

"Venenos de Deus Remédios do Diabo" de Mia Couto




"Venenos de Deus Remédios do Diabo" de Mia Couto é um romance que mistura numa aldeia de Moçambique um pseudomédico português que ali vai parar perdido de amores por uma mulata que se torna ausente e na espera tenta curar moçambicanos doentes da alma ou do corpo, mas onde todos eles lhe mentem, enquanto escondem segredos e alimentam entre si ódios, traições e paixões temperadas com traumas de velhice e vinganças das aventuras de um passado jovem e saudoso que já se ensombra pelo espreitar da morte.
Um romance que que cria uma história maravilhosa, que roça a perversão misturada com as superstição populares locais, mas cheia de ternura e sempre atravessada pelo bom humor, a ironia e a ternura.
Mia Couto nesta obra mais do que expor uma série de neologismos, cria um mundo fantástico onde os sentimentos das pessoas são expressos por receios que animam as coisas que parecem transubstanciar-se nos medos das personagem. Uma pequena obra muito agradável que apesar de laivos sombrios está cheia de ternura e nos dá boa disposição e prazer. Recomendo a qualquer tipo de leitor.

sábado, 19 de Abril de 2014

Votos de feliz Páscoa

Ressurreição de Piero della Francesca (sec XVI)

Como Cristão que sou, esta é para mim a noite mais Sagrada do ano e começa a minha principal festa litúrgica: a Páscoa.
A todos Feliz Páscoa, quer os crentes que partilham comigo a parte religiosa, quer a todos os outros com quem também compartilhamos a tradição desta data.

sexta-feira, 18 de Abril de 2014

"À espera no Centeio" de J. D. Salinger


Quando comprei o livro pouco mais sabia de que se tratava de uma obra da década de 1950 e das mais polémicas da literatura dos Estados Unidos.
O romance mais conhecido de J. D. Salinger "À espera no Centeio" cujo título corresponde a um verso da letra de uma canção que já perto de fim o protagonista, Holden Cauldfield, explica como a metáfora do modelo do seu  não-projeto de vida futura.
Holden, um jovem de 16 anos de uma família de elevados rendimentos, relata no livro, na primeira pessoa, de uma forma direta e numa linguagem despreocupada juvenil (penso que a tradução a atualizou o linguajar ao dos adolescentes da presente década), o seu último dia num colégio privado onde, à semelhança de outros anteriores, é mais uma vez reprovado, bem como a sua fuga sem plano para Nova Iorque onde vivia até chegar ao dia agendado para de facto regressar a casa nas sua férias do Natal.
Ao terminar a obra concluo que é apenas a descrição do que pode ser a queda de um adolescente protegido, contestatário, sem norte, sem perspetivas de vida, inteligente e convencido que é adulto... a única razão para a polémica talvez seja ele poder ser o retrato cru de muita gente nova com quem a sociedade não sabe lidar e por isso alguns críticos refugiam-se na crueza dos termos, na forma livre como o protagonista fala e procura descobrir a sexualidade e os seus receios face ao que o cerca.
Gostei do livro mais pela descrição do problema social do que pelos rótulos vindos de pruridos que falsas morais tentaram acusá-lo.

quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Homenagem sentida a Gabriel Garcia Marquez

Durante quase uma década devorei com sofreguidão todos os livros que encontrava de Gabriel Garcia Marquez... morreu mas continua vivo através dos seus livros cá em casa num espaço nobre da estante dos laureados com o prémio Nobel... hoje concluiu-se mais "Uma crónica de uma morte anunciada" mas não serão mais "100 anos de solidão", por que há sempre "O Amor em tempo de cólera" e se "Ninguém escreve ao Coronel" n"O outono do Patriarca" eu estou aqui para o ler n"A memória das minhas putas tristes" e espero que muito mais.
Obrigado pela horas e anos de prazer que me deste Gabriel Garcia Marquez, nunca te esquecerei.

sábado, 12 de Abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" - Romance 4 - "Clea" de Lawrence Durrell


Terminei de ler "Clea", o último dos romances que constituem a tetralogia sobre Alexandria no período anterior e durante a 2.ª Grande Guerra Mundial escrita por Lawrence Durrell . A versão que li encontra-se reunida num único volume editada pela Dom Quixote  que mostro na imagem acima.


À semelhança dos dois primeiros romances, Clea volta a ter como narrador principal Darley: um professor, escritor, espião e diplomata inglês que escreve as suas memórias de Alexandria e do seu círculo de amigos, dominado por estrangeiros cultos e alta sociedade copta na cosmopolita cidade.
Se os anteriores volumes são ângulos diferentes das mesmas personagens e acontecimentos em grande parte sincrónicos antes da guerra, Clea fecha este quarteto já durante e no pós-conflito, permitindo assim neste andamento, justificar, fechar e completar o ciclo iniciado em Justine e prosseguido nos seguintes romances e levar-nos ao resultado final das paixões, traições, amizades e políticas antes relatadas e dar o retrato global da vida daquela urbe egípcia numa época específica e onde Durrell foi diplomata.
Apesar de ser uma espécie de epílogo dos romances anteriores, não deixa de nos dar novos ângulos e de mostrar que cada pessoa é o somatório de personagens, onde cada indivíduo apenas constrói uma das suas facetas mas que se pode desfazer ou alterar-se no tempo à medida que se reúnem os dados vindos aqueles com quem convivemos e conhecedores de dados distintos daqueles da verdade que construímos.
Já no fim deste magnífico quarteto, cujo primeiro volume inicialmente se estranha, e ao investigar este surpreendente escritor, percebi por que na sequência desta tetralogia chegou mesmo a finalista do júri do Nobel em 1962... ano da vitória de Steinbeck.

terça-feira, 8 de Abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" romance 3 - "Mountolive" de Lawrence Durrel


"Mountolive", de Lawrence Durrel, gira em torno da carreira do diplomata homónimo, uma personagem pouco abordada nos anteriores volumes e tornando-se no protagonista do terceiro volume e ocupa o lugar do escritor como narrador das anteriores histórias de "O quarteto de Alexandria" e onde além do desenrolar da sua paixão a trama vai desembocar num romance de espionagem e guerrilha política no seio de Alexandria com as principais questões do médio oriente ante II Grande Guerra e que vem a colocar as várias personagens amigas e adversárias nos tomos anteriores agora em campos inimigos ou aliado, evidenciando assim novos interesses obscuros que estavam por detrás das relações de amizade, luxúria  e amor que antes foram explorados de uma forma mais emocional sem esta perspetiva.
Passado só em parte em Alexandria, a obra estende-se por outras partes do Egito e até do mundo e mostra de uma forma mais profunda a cultura copta e as suas preocupações de sobrevivência, bem como a sobreposição dos interesses políticos à amizade nas relações humanas a coberto de uma hipocrisia fria que governa a diplomacia.
É um romance cujo enredo é quase independente das tramas anteriores e com uma estrutura romanesca mais acessível e linear, embora várias situações se cruzem sincronicamente com acontecimentos antes descritos e nos mostre uma nova perspetiva e interpretação dos mesmos e cada vez mais esta tetralogia vai crescendo não só em dimensão, mas em riqueza literária do conjunto e evidenciando a multiplicidade de um indivíduo como pessoa.

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" Romance 2 - "Balthazar" - Lawrence Durrell


O segundo volume da tetralogia "O quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell: "Balthazar"; é um magnífico exercício literário onde se coloca em dúvida a visão do escritor transposta para os seus livros com base em personalidades conhecidas e mostra uma realidade diferente da opinião antes contada pelo autor na sua ficção, isto com base numa abordagem crítica de uma das personagens do primeiro romance ao próprio conteúdo deste e às descrições e interpretações nele contidos pelo autor.
Neste romance, que não deve ser bem compreendido sem a leitura do anterior, quase não existem repetições de acontecimentos do primeiro volume, mas ocorrem outros que servem de reinterpretação e adequadamente relacionadas com o descrito na primeira versão. Existe ainda a introdução de algumas novas personagens ou o aprofundamento de algumas anteriormente conhecidas, o que leva a uma reanálise de "Justine" e no meu caso a ressaborear este livro com novo gosto mesmo depois de o ter lido.
Além de em "Balthazar" e com novos olhos se retomarem as temáticas de "Justine", é igualmente interessante a descrição de Durrell das tradições culturais urbanas da elite de Alexandria, como o seu Carnaval, e do Egito rural e da paisagem que cerca a cidade no tempo anterior à II Guerra Mundial.
"Balthazar" é assim um exercício literário que é um o romance sobre o papel do seu autor na interpretação da realidade, sem cair na frieza de ser um ensaio e mantendo uma trama ficcional viva e interessante.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

"Quarteto de Alexandria" - Romance 1 - "Justine" de Lawrence Durrell




Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "O quarteto de Alexandria: Justine" de Lawrence Durrell passado na cidade do mesmo nome no período ante-guerra e com o Egito sob o domínio britânico, não um volume separado como na imagem deste artigo, mas num livro único apresentado na coluna da esquerda.
Alexandria era então um centro cosmopolita onde se cruzavam as culturas mediterrânicas: a local árabe e as estrangeiras grega, judia, síria, francesa e a da potência dominante que viviam num mundo onde acima da miséria dos autóctones partilhavam lutas de política, amor e ócio.
O protagonista, um professor inglês que viveu nesse mundo conta as suas memórias com as personagens com quem estava mais próximo e reflete sobre as mulheres por quem se apaixonou e os vícios em que estas relações imergiam: o ciume, as obsessões pelo objeto amado, as dissertações de como os segurar, as infidelidades consentidas e não, a prostituição, a homossexualidade e a diplomacia entre as partes. Tudo isto, embora num estilo de escrita diferente, fez-me lembrar Proust, mas menos profundo na análise dos temas e dos valores. Gostei da forma como Durrell se serve de Justine para através do seu carácter descrever a cidade de Alexandria.
Por agora a prosseguir para o segundo romance Balthazar, personagem já conhecida em Justine.

quarta-feira, 26 de Março de 2014

"Debaixo de Algum Céu" de Nuno Camarneiro

Edições Leya

Acabei de ler "Debaixo de algum Céu" um romance de Nuno Camarneiro que ganhou o prémio Leya em 2012.
Nesta obra que relata o dia-a-dia entre o Natal até ao primeiro dia do Ano Novo inclusive dos tão variados residentes de um edifício de apartamentos, o narrador, dividindo o texto em trechos independentes, vai montando os carácter de cada personagem enquanto constrói o mosaico das relações humanas, dos problemas individuais e das tensões e sentimentos que unem os habitantes daquele prédio.
Apesar do narrador por vezes dar a entender que a narração de uma história não tem de ser moral e de ao longo da obra parecer que se trata de um excelente exercício de escrita sem juízos de valor... ao completar o quadro no primeiro dia do ano a mensagem, as lições de vida e o significado que a esta podemos dar está lá toda, fornecendo à obra uma estrutura completa em termos de escrita, trama e mensagem.
Uma pequena obra com escrita arrojada, inovadora e fluída de que gostei em grande e recomendo.

sábado, 22 de Março de 2014

"NOSTROMO - Uma história da beira-mar" de Joseph Conrad

Nostromo - Editora Dom Quixote

"Nostromo - uma historia da beira-mar" de Joseph Conrad é um romance minucioso que diz muito para além dos intensos pormenores com que é caracterizada profundamente a psicologia das personagens, as suas interligações sociais, a estrutura hierárquica de um povo, os vícios e a ganância das pessoas que podem destruir politicamente um Estado e o próprio amor.
Passado num País imaginário da América Latina, Conrad constrói a imagem nítida de um Estado com todos os defeitos estruturais que por norma perturbam o desenvolvimento deste continente, não faltando: o complexo de colónia, de colonizador, de estratificação de classes, de independência e de secessão e onde os seus recursos ou o seu próprio tesouro é a causa da pobreza de muitos, da desgraça da nação e da instabilidade politico-social permanente e até de vitimização do amor.
Muito é dito de uma forma subtil e inteligente com uma escrita magistral, condimentada com paixão, ódio, corrupção e integridade humana, bem como a frequente desilusão a que ficam condenados os idealistas.
Um grande e belo romance, que não perde atualidade, com paixão, melancolia, aventura, heroísmo e a cobardia que move a humanidade.

quarta-feira, 12 de Março de 2014

"O Sino da Islândia" de Halldór Laxness


Terminei a leitura de "O sino da Islândia" um grande romance passado nos tempos da subordinação tirânica da ilha à Dinamarca. Uma obra que confirma definitivamente que o laureado com o prémio Nobel da literatura Halldór Laxness foi de facto um magnífico escritor do século XX, com livros bem diferentes mas que preservam a qualidade e levantam grandes questões sociais, políticas e éticas como já acontecia na obra-prima "Gente Independente".
"O Sino da Islândia" baseia-se em grande parte em pessoas e factos que existiram na realidade na transição do século XVII para XVIII e faz um retrato nacionalista da cultura, da mentalidade, das crenças e da história do povo islandês.
O sino marcava os grandes processos do principal tribunal da Islândia quase desde a origem do povoamento da ilha e assim simbolizava a justiça de uma sociedade e logo no início do romance é retirado por ordem do reino que ocupa o território, marcando assim um tempo em que o sistema está subjugado aos interesses de novos senhores e subservientes à potência estrangeira... só que nas voltas e reviravoltas algo levou a que se tentasse repor a memória, o sistema e o orgulho nacional, mas a evolução da trama deixa uma grande interrogação: será que os pobres de um povo escravizado são capazes de preferir a injustiça para salvaguardar os hábitos em que já se sente ambientado em detrimento de um seu salvador que o coloca num sistema que liberta as vítimas e castiga os poderosos por que já não sabem sobreviver de outro modo?
Preferir os benefícios da reposição da acusação de criminoso à liberdade e desprezar a sua retirada em tribunal pelos inconvenientes que isso traz em sociedade é algo que leva a profundas reflexões sobre até que ponto uma sociedade pode ser pervertida nos seus valores e princípios.
Um romance onde a distinção entre herói mítico, criminoso e oportunista se camuflam no nevoeiro das lendas, da cultura e da miséria de então do povo islandês. Um excelente livro.

terça-feira, 4 de Março de 2014

"Os irmãos Karamázov" de Fiódor Dostoiévski


Ao terminar a leitura de "Os irmãos Karamázov" de Dostoiévski compreendi por que este romance é um dos mais importantes da história da literatura: conflito de gerações - exemplo de pai e reflexo nos filhos; conflito de moral - livre arbítrio e opção pelo certo ou prazer; conflito religioso - crente e ateu; conflito de consciência culpa coletiva e castigo individual; conflito sentimental ciúme/ódio/vingança e compreensão/amor/perdão.
Escrito em forma de relato de um observador externo dos acontecimentos por que passaram os voluptuosos Karamazov, o pai e os seus três filhos abandonados à sua sorte que mesmo herdando os mesmos vícios conseguem ser tão diferentes entre si, o romance levanta numerosas questões: a que mais atravessa o livro é se sem Deus tudo será permitido ao homem e se a humanidade sobreviverá? Contudo não se fica por aqui: pode um indivíduo ser culpado pelos outros? pode-se condenar alguém que não tem uma recordação positiva do pai? Podemos construir o nosso próprio inferno e aceitá-lo pela paixão a que nos dedicámos? Como construir um mundo melhor?
Apesar da profundidade da obra, o romance muitas vezes tem a velocidade vertiginosa de um thriller, a tensão de um policial e o romantismo de uma história de paixões e amor fraternal, intercalados com momentos de maior reflexão, sem nunca deixar de ter um estilo de escrita genial, bela e quase sempre fácil que agarra o leitor.
Vários indícios apontam para que o romance devesse prosseguir com um terceiro volume que Dostoiévski já não escreveu, mesmo assim, não deixa de ser uma obra completa que todos devem ler.

quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2014

"Utopia" de Thomas More

Provavelmente se passasse por uma livraria e visse o livro "Utopia" de Thomas More, escrito em 1518 não o compraria, apesar de saber o impacto que o mesmo provocou nas mentalidades do século XVI, do seu autor ter sido chanceler mor no tempo de Henrique VIII, deste o ter mandado matar pela sua fidelidade ao papa e mais recentemente ter sido elevado à categoria de Santo pela igreja Católica e um padroeiro dos políticos.
Todavia ao ter-me cruzado com esta obra em ebook gratuito decidi baixá-la e lê-la. Um livro fascinante, onde Thomas More disserta sobre uma sociedade ideal quase perfeita na ilha imaginária de Utopia, País em que há uma partilha responsável do trabalho entre todos, ausência de ócio pernicioso e a segurança e o bem-estar é assumido pelo Estado a um povo tolerante e inimigo das guerras.
Não subscrevo tudo o que Thomas More propõe, talvez nem ele, é um ensaio sobre um modelo ideal de sociedade e sem dúvida que mesmo decorridos quase cinco séculos é ainda um livro revolucionário que vale a pena ler e refletir.

sábado, 15 de Fevereiro de 2014

Um Milionário em Lisboa - de José Rodrigues dos Santos

Este romance completa a biografia romanceada e parcialmente ficcionada por José Rodrigues dos Santos de Calouste Gulbenkian e iniciada no título "O Homem de Constantinopla". 
No primeiro romance tivemos as raízes do protagonista aprendiz para a sua vocação comercial desde criança, jovem e no início da sua vida adulta. Agora deparamo-nos com o memso já amadurecido, transformado plenamente num homem perspicaz e visionário para o mundo dos negócios do petróleo e enfrentar os vícios do sistema. Mesmo assim, este foi praticamente sempre um cidadão em fuga de perseguições raciais e culturais, sem nunca deixar de procurar a beleza na produção humana, o que o tornou num dos maiores colecionadores de arte do seu tempo.
O livro tem ainda um importante herói secundário, o filho de Calouste, tão semelhante e forte como o pai e como tal fonte de grandes choques de personalidades de convicções intensas.
Este romance denuncia longa e intensamente a dureza do genocídio arménio no início do século XX no império otomano e a forma como a Europa, sobretudo germânica, povo em relação ao qual o escritor não é nada simpático, fechava os olhos por interesse político. Mostra como nas duas grandes guerras se foi capaz de esquecer gratidões e criar inimigos onde eles não existiam, expõe a maldade reinante no mundo dos grandes grupos empresariais e como Portugal e Lisboa no extremo do continente e na sua pobreza e simplicidade pode ser uma surpresa agradável e cativante para muitos, a tal ponto que o homem mais rico do planeta legou a este País a maior fundação cultural do velho mundo.
Talvez por corresponder a um período mais maduro do protagonista e de guerras na Europa, o segundo romance tem uma escrita menos afetada por excessos floridos de figuras de estilo e mesmo descontando as partes ficcionadas que podem perturbar a imagem do verdadeiro Calouste Gulbenkian, recomendo a leitura deste conjunto de romances.

sábado, 8 de Fevereiro de 2014

O Homem de Constantinopla - José Rodrigues dos Santos

Este livro que se completa com uma segunda obra pretende romancear a vida de Calouste Gulbenkian que enriqueceu à sombra da ascensão da indústria do petróleo e foi o maior mecenas cultural e científico de Portugal. Um homem de origem arménia que deixou em Lisboa uma das maiores fundações privadas do mundo de apoio às artes e ciências e o espólio de um magnífico museu sobretudo de arte do século XX.
Este volume conta a infância, juventude e ascensão de Calouste até ao início da I Guerra Mundial, mas mesmo tendo em consideração a necessidade de inventar pormenores para sustentar a trama de um romance em torno de uma pessoa real, pelo que sei, a estória de "O homem de Constantinopla" também não é bem fiel à vida original da personagem ficcionada e deduzo mesmo alguma especulação para dar intensidade ao texto sem um respeito pertinente ao retrato de carácter e de psicologia do verdadeiro homem. O que é pena.
José Rodrigues dos Santos escreve corretamente, mas exagera nas figuras de estilo e metáforas fáceis, o que torna o texto pretensioso, desvirtua o equilíbrio da forma e dá à obra um tom mais de agrado popular e lúdico do que valor literário. Apesar de tudo, o romance é agradável, fornece dados interessantes sobre Calouste Gulbenkian e a sua época.
Está-se perante uma obra acessível a qualquer leitor, mesmo não habituado a obras intelectualmente mais exigentes, para quem ler é sobretudo um passatempo de lazer e manteve-me o interesse em ler o segundo romance para onde agora vou mergulhar.