quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia Mundial do Livro - As minhas escolhas das leituras de um ano

No Dia Mundial do Livro já é tradição eu expor uma seleção das obras que mais me marcaram ao longo dos últimos 12 meses. Este ano correspondeu à leitura de várias dezenas de obras, desde o romance, novela e conto, passando por obras contemporâneas a clássicos anteriores ao século XX, só para falar do tipo de literatura a que tenho dedicado este blogue, contudo não é uma escolha fácil e nem eu próprio estou seguro se noutro dia não escolheria livros diferentes, mas no balanço do momento, eis as opções que tive:

Romance nacional
"A Quinta essência" de Agustina Bessa-Luís.

Não é uma obra de leitura fácil, tal é a densidade de ideias e pormenores expostos neste "A quinta essência" e onde se mostra a importância e o choque do encontro de culturas entre Portugueses e Chineses ao longo dos últimos 500 anos e tendo como base Macau, aqui se vê que a pretensa superioridade do ocidente no final é bem mais fraca face à riqueza do conhecimento e tradição oriental. Um livro que nos ensina muito e inclusive existem mulheres orientais bem fortes ao contrário do que se pensa na Europa.

Novela/conto em expressão lusófona
"O Alienista" de Machado de Assis

A categoria de novela surge pelo facto de que a obra que mais me impressionou, entre todas de ficção escritas originalmente em Português, foi um conto/novela, uma história do tipo alegoria, cheia de crítica sociopolítica com mais de um século mas que se mantém plenamente atual. "O Alienista", a brincar, dá-nos uma grande lição para compreendermos a mentalidade lusófona, com todos os seus defeitos. Brilhante, de extrema facilidade de leitura e pequena dimensão, uma pérola literária.

Romance em língua original estrangeira
"Mataram a Cotovia" de Harper Lee

No campo de literatura lida e proveniente de vários países e línguas e escritas no século XX e XXI a escolha não foi fácil, hesitei entre este pequeno e magnífico romance, onde através dos olhos de uma criança vê a luta do pai pela justiça e os riscos que tal acarreta numa sociedade racista. "Mataram a Cotovia" pequeno romance é uma escolha pessoal hesitante pois tanto poderia ter recaído em "Tudo o que sobe deve convergir" (uma coletânea de contos), "A leste do Paraíso", "O deserto dos Tártaros", ou "O coração das Trevas", mas esta seleção é de uma e não mais obras, fica por isso aqui a menção das que coloquei a igual nível.

Clássicos da literatura ocidental
"A educação sentimental" de Gustave Flaubert

Muitos leitores limitam-se a ler obras mais recentes e perdem a memória de obras escritas noutras épocas que moldaram as mentalidades contemporâneas e influenciaram grandes escritores posteriores, para que não se perca a oportunidade de conhecer os marcos da história da literatura, tento conhecer obras de séculos passados que se tornaram clássicos pela sua qualidade e referência cultural. Foram várias as obras que me marcaram do século XIX, mas pela informação histórica, pela estilo moderno da escrita e análise social que ainda se mantém atual "A educação sentimental" foi a escolhida.

Este ano estranhamente não li nenhuma obra de literatura Canadiana e como tal este tópico fica vazio, não por falta de qualidade, apenas ausência de leituras neste capítulo, mas assumo que é o Canadá tem uma riqueza literária que merecia ser melhor conhecida.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

"A cor do hibisco" de Chimamanda Ngozi Adichie

Esta foi a minha primeira entrada num mundo de produção literária africana subsaariana não lusófona e confesso que fiquei agradavelmente surpreendido.
"A cor do hibisco" de Chimamanda Ngozi Adichie é o relato da experiência da protagonista da passagem de adolescente à juventude/vida adulta, cujo pai, industrial e rico, é fanaticamente católico, numa comunidade nigeriana em colapso económico, político e social, onde coexiste a pobreza extrema, o racionamento de bens e ainda nas famílias alargadas persistem pessoas de religiões tradicionais e outras que equilibram as visões cristãs com as tradições pagãs que aparam os choques destes encontros com um humanismo que o extremismo bloqueia.
A escritora toca os sentimentos e confusões típicos da adolescência, enquanto sem se inibir, questiona algumas regras católicas sem as julgar, põe a nu, de forma dura, os excessos fanáticos e choques culturais religiosos e ainda denuncia a corrupção política que coloca o povo nigeriano na miséria num Estado onde alguns usam o dinheiro público em proveito, próprio recorrendo mesmo à violência para alcançar os seus fins, enquanto outros, cheios de valores e bom-senso, se tornam vítimas e se veem forçados a emigrar.
O romance está muito bem escrito, numa narrativa sem preocupações de criatividade modernista que perturbem a leitura, embora tenha muito léxico e frases comuns da língua ibo, mas de tal forma integrados que o leitor não se perde e quando necessário existe a adequada tradução englobada no texto de uma forma natural. Gostei muito do romance e espero ter oportunidade de ler outras obras desta escritora de grande sensibilidade e potencial literário elevado.

sábado, 18 de abril de 2015

"Tudo o que sobe deve convergir" de Flannery O'Connor



Acabei de ler a conjunto de nove contos de Flannery O'Connor reunidos no livro "Tudo o que sobe deve convergir", adorei a escrita e a forma destas pequenas histórias, com 30 páginas em média cada, todas com personagens complexadas e onde se expõe, de uma forma crua e dura, os preconceitos sociais do racismo e da obsessão religiosa no sudeste dos Estados Unidos.
Apesar da omnipresença do preconceito e de relatos de fím trágico em quase todos as histórias, o livro não é deprimente devido à qualidade da escrita e de até estar presente alguma ironia ou humor de forma subtil nos relatos.
A estrutura perfeita dos contos em termos de duração da história, a tensão psicológica no protagonista, personagens que são cidadãos simples da sociedade rural ou de pequenas cidades e a qualidade do conjunto fizeram-me recordar a laureada com o Nobel: Alice Munro; embora as temáticas sejam bem distintas. Gostei muito e recomendo a quem gostaria de encontrar contos bem estruturados e magnificamente narrados.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"A educação sentimental" de Gustave Flaubert



O romance "A educação sentimental" de Gustave Flaubert, começou-me a surpreender logo no início: a escrita era diferente da de outros autores do século XIX do período romântico, parecia muito mais contemporânea, tanto nas figuras de estilo, como na sintaxe; depois, as personagens eram complexas, sem serem  exclusivamente boas ou más, como em Charles Dickens ou até em Victor Hugo, mas sim um misto de tudo um pouco, moldáveis às circunstâncias políticas e sociais do contexto e do momento em que se surgem e evoluem ao longo da obra.
"A educação sentimental" mostra a lição da vida de um jovem ambicioso perante a realidade da sociedade que entretanto não consegue romper com certos princípios resultantes da descoberta de uma paixão, inicialmente platónica mas utópica, e que por isso se torna refém de armadilhas e do evoluir da sociedade francesa no seio da segunda fase da revolução francesa, onde praticamente no meio da violência tudo se conjuga para que a mudança preserve os vícios da sociedade e os hábitos dos mais poderosos.
Assim, progressivamente vai-se descobrindo como Flaubert faz um retrato da sociedade de então e uma denúncia do comportamento do ser humano, onde o protagonista em vez de se tornar num vencedor, se rende e se acomoda a esta realidade, vencido nos seus ideais sociais e sentimentais.
Um romance que apesar de parecer a história de uma paixão é um relato rico da história de França de meados do século XIX que o transforma numa obra-prima cheia de informações subliminares e dá para compreender porque se tornou numa referência literária para Kafka e Proust no século XX.

sábado, 4 de abril de 2015

"Os peixes também sabem cantar" de Halldór Laxness


Halldór Laxness corresponde ao escritor de ficção que nos últimos 3 anos descobri e mais me marcou neste espaço de tempo. "Os peixes também sabem cantar" talvez seja dos 3 romances que li o de mais fácil leitura ao grande público, mas continua a retratar e a tratar a sociedade e a cultura islandesa com o mesmo estilo poético que em "Gente Independente" ou no "O sino da Islândia", apesar da análise política ser agora mais suave e superficial.
Uma romance que se desenvolve como as memórias de infância até ao início da vida adulta do seu protagonista: Álfgrímur, abandonado pela mãe, filho de pai desconhecido e acolhido à nascença pelos seus avós adotivos, os donos de uma pensão que recebe os islandeses mais pobres das várias partes da ilha em Reiquiavique no início do século XX, quando a cidade se começa a potenciar como futura capital do País ainda sob o domínio dinamarquês.
O livro tem dois mundos: o da pensão dominado pelo sino de prata do relógio, com a fronteira no torniquete da cancela e onde se hospeda uma série de personagens ímpares que mostram a vida miserável do povo, as suas superstições, o orgulho das tradições, músicas, poesias em convívio com os valores éticos e morais dos avós, também pescadores e incapazes de se renderem às regras do mercado em benefício próprio para explorarem as pessoas.
O outro mundo que Álfgrímur vai descobrir situa-se além do portão, dominado pelo sino do relógio da igreja, possui homens de negócio sujeitos às regras da Dinamarca, sofre a transição socioeconómica associada ao desenvolvimento industrial e comercial, onde a hipocrisia convive com um conjunto de pessoas que deambulam sem se enraizarem neste meio, também orgulhosas das suas tradições e interessadas na notoriedade da Islândia mundial, onde se destaca uma vítima deste sistema: um cantor lírico de fama mundial que ninguém na cidade o ouviu cantar, nem sua mãe, que dizem ser parente próximo do protagonista, que o vai conhecer, estabelecer amizade e desvendar o seu segredo, que o marcará para o futuro na mudança da da seu destino de pescador de peixe-lapa para a vocação de encontrar e cantar a nota pura e mostrá-la ao Mundo. Gostei muito, embora seja um romance menos profundo que os outros dois acima referenciados.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Em memória de quem era o cineasta ativo mais idoso do mundo: MANOEL OLIVEIRA


Manoel Oliveira com 106 anos, não só era um marco pela sua extensa obra de realizador de filmes, iniciada em 1931 com uma curta-metragem documental "Douro, faina fluvial", para passar a longas-metragens de ficção com o referência histórica que foi "Aniki-Bobó" em  1942, prosseguindo a sua atividade praticamente ininterrupta até 2014 com a mais recente obra "O velho do Restelo". Nem sempre amado pelo grande público português, devido ao ritmo lento do desenrolar da ação nas suas películas, onde muitos nem se apercebiam que tinham a oportunidade para apreciar a poesia da fotografia, este realizador era um caso de sucesso em França pela pela forma artística com que fazia passar a história na sala de cinema.
Em Portugal Manoel Oliveira era contudo uma referência cultural conhecida de todos, mesmo os que não viam os seus filmes ou se limitavam a ver o seu papel de ator na Canção de Lisboa de 1933 ou na obra de Wim Wenders "Lisbon Story" de 1994, mas poucos se lembram que antes da sua carreira na 7.ª arte foi atleta e campeão nacional de salta à vara e um piloto de desporto automóvel na década de 1920/30.
Vi várias obras deste realizador, menos do que desejava por as mesmas em Portugal passarem menos fora de Lisboa por razões comerciais, mas admirava a sua fotografia e sem dúvida foi quem melhor colocou em filme os romances da sua conterrânea do Porto: Agustina Bessa-Luís.
Manoel Oliveira morreu hoje de paragem cardíaca, mas ainda trabalhava para mais filmes... Portugal ficou mais pobre e fica a aqui a minha homenagem a este génio da cultura nacional de referência internacional.

sábado, 28 de março de 2015

"Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho


"Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho, é um romance muito premiado que decorre na província romana da Lusitânia, no tempo de imperador Marco Aurélio, na cidade imaginária de Tarcisis, que se situaria no atual Alentejo, não muito longe de Évora, reflete o problema da aplicação da justiça numa sociedade em mudança, com a insegurança das primeiras invasões mouras a preocupar os dirigentes, com a nova religião cristã a proliferar entre os mais humildes e a conquistar outros mais importantes e a colocar em causa as tradições pagãs e minar as decisões dos governantes que pretendam agir justamente no seio de um equilíbrio precário.
Mário Carvalho tem uma escrita lexical muito rica a que se juntam os nomes dos objetos, cargos e tradições da época, originando um texto onde a variedade dos vocábulos da nossa língua está bem acima do habitual. Além disso, com inteligência e subtileza, o autor coloca em debate muitos dos problemas da sociedade da época que são ainda preocupações de hoje: a tendência interesseira de uns em manipular a opinião pública na conquista do poder, a dificuldade de se ser justo numa sociedade influenciável, supersticiosa e tradicionalista perante os desestabilizadores das populações em ambientes de crise e de mudança de valores e ainda o dilema de distinção do interesse público e os sentimentos privados.
A estória, muito bem contada e vista pelo homem da justiça, mostra os vícios ocultos e fragilidades das várias partes, os desafios e desconfiança que o cristianismo punha ao império romano, as paixões do coração que também obscurecem a gestão do homem justo e levam a que este fique preso numa teia que se vai montando. Os problemas de então podem levar a uma reflexão sobre a situação nacional no ambiente de crise atual. Um excelente romance acessível a qualquer leitor e altamente recomendável.

domingo, 22 de março de 2015

"O Pintassilgo" de Donna Tartt


"O pintassilgo" de Donna Tartt que acabei de ler, que se serve da homónima obra-prima da pintura flamenga de Fabritius como ponto de partida, pode enquadrar-se no género literário habitualmente designado por "thriller", até porque os ingredientes e estrutura da obra estão lá todos, mas é também um romance muito mais profundo, pois para além da excitação e ritmo e ânsia a que este tipo de histórias normalmente se limita, há também uma reflexão e abordagem à sensação de perda de alguém que se ama, neste caso a mãe, e de quem estamos dependentes para encontrar o nosso espaço num mundo vertiginoso e niilista.  A escolha da autodestruição como revolta a esta perda e desnorte e a possibilidade de reabilitação da pessoa mesmo como consequência das más escolhas nesta via de protesto leva a uma interrogação no final do livro: será que o mal pode provocar o bem?
No romance vemos muito  de uma geração jovem norte-americana sem referências e sem o farol dos mais velhos, perdida entre a droga, a desatenção dos pais através de uma comunidade que passa pelo mundo da arte, dos antiquários e do submundo que também obscurece este grupo, com ladrões, chantagens, vítimas inocentes e culpadas.
Um livro extenso, quase 900 páginas, muito bom, num estilo de escrita que parece casual mas cuidado tipicamente norteamericano, que consegue conciliar a literatura de fácil leitura para quem se contenta com romances de entretenimento, mas que junta sem perturbar interrogações de maior dificuldade de resposta para leitores mais exigentes literariamente. Gostei muito e recomendo a qualquer pessoa.

quinta-feira, 5 de março de 2015

"Todos os contos de Edgar Allan Poe



Acabo de ler uma coletânea de todos os contos de Edgar Allan Poe, escritor americano da primeira metade do século XIX, um total de 69 estórias curtas, como se diria em inglês, sendo que a última até tem dimensão para ser considerada um pequeno romance ou novela.
Tendo em conta a quantidade de contos, não é de estranhar que não tenha gostado igualmente de todos eles, até porque um dos aspetos mais interessantes deste grande livro, cerca de 950 páginas, é a diversidade de géneros temáticos dos textos: desde terror, gótico, policial, ficção científica, fantástico, ironia, até tocar a poesia, Poe também é famoso como poeta, são áreas que entram nesta coletânea.
Os contos de ficção científica e os relatos associados à descrição de paisagens e viagens por vezes pecam por ser demasiado pormenorizados nas suas explicações e base técnica, acrescendo o facto, tal como poderá acontecer a alguma ficção científica que hoje se escreva, soam a ridículo quando lidos num futuro temporal afastado, tal é o desfasamento entre a previsão com o mundo real ou o saber científico. Sendo Poe o fundador deste género e no início da revolução das ciências do século XIX, não é de estranhar algum incómodo ao ler as justificações que propõe.
Todavia são geniais alguns dos contos policiais, de terror e góticos, outros géneros em que é considerado por muitos como o pioneiro e fonte de inspiração literária de nomes mundialmente famosos.
Saliento a qualidade do literária dos contos, comparável ao dos grandes nomes de escritores marcantes da época e a diversidade de géneros, sabendo que entre tanta quantidade, mesmo preservando o nível de escrita, existem alguns de que não gostei e outros que adorei e anotei para serem relidos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"Servidão Humana" de Somerset Maugham



Tendo muito de autobiográfico, "Servidão Humana" é um livro sobre as dores do amadurecimento de uma pessoa desde a infância até à entrada na vida adulta, um período que se inicia cheio de esperanças no futuro que se vão desmoronando à medida que embatem no mundo real e deixam o amargo triste da desilusão e da frustação.
A obra começa com a perda dos país de Phillip aos dez anos, a ida para casa dos tios onde a religião faz parte da profissão e das decisões, assim ainda criança o protagonista começa logo por ver-se numa teia de crenças que condicionam as suas decisões e a insegurança para romper essas amarras, quando consegue finalmente as primeiras libertações no final da adolescência é altura de serem as dificuldades da vida e as limitações humanas a evidenciarem que dificilmente se totalmente livre.
Na transição para a vida adulta novas lutas pessoais entram em jogo, as amarras das paixões, a necessidade de autossustento para sobrevivência num mundo que nem sempre é justo ou compreensivo com o protagonista e onde os erros também contribuem para essa servidão, até que se descobre que viver é saber adaptar-se a tudo isto.
Um excelente livro, magnificamente escrito, que mostra a educação e o crescimento de uma criança na classe média inglesa, onde o peso da religião e dos costumes tem muita força e cheio de referências ao mundo do estudo da arte em Paris, com destaque para a pintura e da medicina em Londres no início do século XX, bem como da realidade de sobrevivência difícil de então.
Apesar de se saber que é um romance muito autobiográfico, a obra tem uma densidade, ternura, irritação e reflexão com uma magnífica narrativa que a torna numa obra-prima literária. Recomendo a quem aprecia excelente literatura. Gostei muito.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati


"O deserto dos tártaros" conta a vida do militar Drogo desde a sua saída da academia jovem e cheio de sonhos heróicos para a vida que é enviado para a isolada Fortaleza, situada na fronteira defronte ao "deserto dos tártaros", onde além da rotina, nada se passa à exceção da espera interminável de eventuais invasores para conquista da heroicidade.
Dino Buzzati, com uma mestria literária genial, mostra-nos o efeito da rotina e da habituação que alimenta o comodismo, o receio da mudança e deixa uma pessoa refém das suas amarras, escrava, imóvel no tempo e alheia ao mundo exterior que flui sem parar, em progressiva mudança, a evoluir e onde arriscar é chave para dar significado à vida.
O livro desenvolve-se não num ambiente nostálgico, mas antes na esperança no futuro improvável, ironicamente a glória do combate, onde pela espera da guerra se desperdiçam as oportunidades do presente e se perdem os objetivos de vida, criando uma uma sensação de progressiva frustração absurda que resulta da imobilidade vazia até ser demasiado tarde, face aos que de facto lutaram no seu presente e se tornaram vencedores pela capacidade de decisão e de correr riscos.
Um romance ao mesmo tempo alegórico, triste e muito bonito, um apelo a arregaçarmos as mãos e conquistarmos a nossa vida com os riscos da liberdade, antes que se perca tudo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad


Há livros que nunca será demais ler e reler numerosas vezes que sempre terão algo de novo para nos questionar ou dizer, "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad é um desses livros. Um pequeno romance, cujo conteúdo é enorme e por mais que se leia, levantará sempre novas perguntas sobre até onde pode ir o fundo negro do homem na exploração e no desprezo pelo outro.
Um livro inquietante onde um Europeu, Marlow, relato o que viu ao navegar pela floresta primitiva através do rio Congo para ir buscar alguém que estava no posto mais distante da companhia que abastecia a Bélgica de marfim e se tornara incómodo.
O relato mostra o que homem civilizado e moderno é capaz de fazer a um povo, que representa a origem da humanidade na floresta primitiva, para satisfazer os seus interesses e sem dar qualquer importância à vida e ao bem-estar do seu semelhante e como este escravizado ainda é capaz de se humilhar ao serviço deste super-homem de valores e princípios que o explorou.
Uma obra aproveitada para as partes mais inquietantes do filme de Coppola "Appocalipse Now", com uma descrição forte, cinematográfica, com uma escrita moderna apesar de ser de 1902 e cheia de interrogações subtis, colocadas pelas dúvidas e consciência de Marlow.
Mais grave ainda é descobrir como alguém com o sonho de civilizar o povo da floresta se transforma num deus do mal depois de todo o horror que viu no rio Congo. Uma obra de arte, incómoda, que agita a consciência, feita para pessoas que se interrogam mas também para aquelas que se deixam enganar por este Europeu de valores que abolira a escravatura que deve ser lida várias vezes na vida.

sábado, 24 de janeiro de 2015

"O vermelho e o negro" de Stendhal


"O vermelho e o negro" de Stendhal, pseudónimo de Henri-Marie Beyle, escrito em 1830, poucas décadas depois da revolução francesa por um bonapartista convicto, é um romance que possui uma estrutura característica do século XIX, a limpidez da escrita, a linearidade da história e capítulos intitulados seguidos de frases ou citações que nos introduzem no conteúdo dessa divisão da obra, possui também um conjunto de pormenores que o distanciam do romantismo e o colocam como precursor do realismo. A análise social omnisciente do autor coloca virtudes, defeitos e contradições em todas as classes sociais e as personagens possuem todas essas características, não havendo bons perfeitos e maus apenas diabólicos, o clero é constituído por pessoas que encerram todos os vícios da sociedade e digladiam-se para conservar o poder individual terreno e egoísta.
Stendhal desenvolve uma trama onde o ainda adolescente Julien Sorel, de origem humilde é marcado pela ambição como marca do estrato baixo que olha para os outros sentido-se em desvantagem por condições de nascimento, o que lhe perturba as paixões. Os burgueses e nobres lutam para garantir o seu estatuto social, os primeiros ascendendo com a revolução e os segundo em declínio desde da monarquia e sentem-se com direitos adquiridos e olhas as pessoas como peças do seu xadrez. As suas mulheres de sociedade são escravas dos seus sentimentos e não se limitam aos seus iguais, são capazes de ver em Sorel um amante a esconder. Tudo isto gera conflitos, ora os novelescos do amor, ora sociais e políticos, onde o protagonista inseguro procura a ascensão numa idade imatura das paixões, tornando-se vítima desta rede de interesses.
Se podemos ver uma história de paixões, existem numerosas subtilezas e críticas sociais ao século XIX e ruturas com a ética e a moral prevalecente no passado, pelo que o romance vai muito além do amor para se tornar numa profunda análise e retrato pensado da sociedade francesa contemporânea de Stendhal, o que o torna numa obra-prima no seu género, cheio de ensinamentos e agradável de se ler. Gostei muito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Viagem ao fim da noite" Céline


Apesar de ser um bom romance não posso dizer que "Viagem ao fim da noite" de Louis-Ferdinand Céline virá a ser um dos livros da minha vida.
Um protagonista, Bardamu, que começa por relatar como foi o seu alistamento no exército francês para a I Grande Guerra, que nos mostra magistralmente o absurdo desta, pois o cidadão do povo é mera carne para canhão útil às classes dirigentes, que não lhe reconhece qualquer outro valor, motivo que poderia justificar a sua fuga, transforma-se depois numa quase história da sua vida de fugas para a frente, não planeada e onde por norma as pessoas com que se cruza, tal como ele, são covardes, egoístas e apenas motivadas por dinheiro ou pelas hormonas que dão vida ao baixo-ventre, consequentemente as deceções são sucessivas ao longo das situações em que se vai envolvendo.
Poder-se-ia considerar uma obra de protesto ou descontentamento com a sociedade, mas também nenhuma personagem da obra serve de contraste para apontar caminho, por isso a viagem é negra e mergulhada na escuridão da noite, a loucura resulta da rotura da luta entre o mau ser que somos e aquele que temos de mostrar socialmente, tornando-se assim mais numa obra de contracultura do que formativa.
A escrita tem uma pontuação e sintaxe por vezes desconcertante, o uso de calão nem sempre é necessário, pelo que a obra valeu sobretudo para conhecer uma dos escritores mais polémicos do século XX em França.

domingo, 4 de janeiro de 2015

"O retorno" de Dulce Maria Cardoso


"O retorno", de Dulce Maria Cardoso, corresponde ao desfilar da vida de um adolescente de 15 anos durante a vinda de Angola da sua família para Portugal como consequência da revolução do 25 de Abril de 1974, da descolonização e da entrada da guerrilha em Luanda, isto depois das boas memórias do que tinha sido os seus últimos tempos naquela colónia.
O romance mostra, dura e cruamente, o desagrado que foi para a comunidade de retornados a Revolução dos Cravos e os preconceitos raciais que se avolumaram neste período de instabilidade social, isto aos olhos de um adolescente cuja sexualidade desperta e tem dificuldade em compreender tudo o que está a acontecer à sua volta: o desenraizamento da sua terra natal, a descoberta do líbido, a entrada num Portugal que lhe é totalmente estranho e a desconfiança do Povo que os acolhe e ingenuamente os culpa de comportamentos coloniais numa época em que a esquerda não tinha qualquer pudor em se impor a todos.
A escrita, sem uso de vários sinais de pontuação e onde os diálogos e os pensamentos surgem encadeados dentro dos parágrafos, desenvolve-se a um ritmo acelerado dos acontecimentos, sem esconder que se está perante um grupo vítima inocente do 25 de Abril que passou dificuldades e enfrentou a crueldade dos lusitanos quando tanto falavam de liberdade e de direitos. Gostei da obra e recomento, apesar da dureza de algumas expressões, pois fez-me recordar muitos dos desabafos de retornados com que então convivi e mostra que a revolução de facto, numa fase inicial pelo menos, não foi positiva para todos os cidadãos deste Portugal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"A Leste do Paraíso" de John Steinbeck

"A leste do Paraíso" de John Steinbeck é um romance cheio de mensagens subliminar tendo como base a vida de três gerações de duas famílias que no final do século XIX se cruzam no vale do Salinas na Califórnia. Uma é a do próprio escritor, os Hamilton, que cresceu do idealismo desinteressado e humano do seu patriarca imigrante. A outra, ficcionada, os Trask é progressivamente marcada pela luta entre a bondade e a maldade e a possibilidade de uma pessoa vencer o mal que há em si.
Steinbeck serve-se do relato bíblico do fraticídio de Abel por Caim e da oportunidade deste em se reabilitar do seu crime, refugiando-se a Leste do Paraíso, para evidenciar que a recusa do idealismo em aceitar o mal pode ser causa de rejeição de quem necessita de se reabilitar, mas cabendo a este a responsabilidade de escolher o bem.
Apesar da filosofia subjacente, a obra é muito acessível, está brilhantemente escrita, as personagens cativam o leitor, a trama é muito bem construída e o fio da história mantém um interesse continuado mesmo quando intercalado de informações históricas da época que vai desde a guerra dos Estados Unidos com o México à I Grande Guerra Mundial. Um romance magnífico que recomendo a qualquer leitor e dá para perceber a genialidade de Steinbeck, o vencedor do prémio Nobel da literatura de 1962.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Votos de FELIZ NATAL

Imagem extraída daqui

Geocrusoe deseja a todos os leitores deste blogue espalhados pelo mundo, tanto interessados em ciências da Terra como em livros ou com outros gostos, que tenham um Feliz Natal e aproveitem esta quadra para presentear os amigos com bons livros dos mais variados géneros.