Páginas

terça-feira, 21 de junho de 2022

"O Quarteto de Havana II - Morte em Havana" de Leonardo Padura

 

Acabo de ler o terceiro romance deste quarteto de casos policiais, independentes, que se desenrolam na capital de Cuba nas estações sucessivas do mesmo ano de 1989 e resolvidos pelo tenente Mario Conde: o polícia frustrado que sempre desejou ser escritor. "Morte em Havana" começa com a descoberta do corpo de um travesti estrangulado na noite da festividade da transfiguração de Cristo. Este é filho de alguém poderoso na cidade, vestia o traje de uma mulher criado por um grande cenógrafo do país, mas retirado do ativo por perseguição à sua orientação sexual e não acatar as diretrizes para a arte impostas pelo regime.

O detetive, com preconceito contra os homossexuais, vai descobrindo o que fora o sofrimento da vida da vítima: um católico em confronto com a pai, a sua intimidade e a hipocrisia do regime; apercebe-se do grande homem do teatro e cultura exilado profissionalmente que lhe conta a sua vida e a cruz dos chamados de invertidos, o que desemboca em autorreflexões sobre a sua paixão pela escrita numa Havana que persegue cidadãos de grande valor e honra por questões íntimas, mas criadores livres, num sistema que martiriza o povo, até compreender como tudo isto levou a um homicídio hediondo que também foi um autossacrifício de entrega de um crente.

Bem escrito, com reflexões que servem de metáfora para denunciar as revoluções culturais comunistas, mas sem criticar o sistema tão diretamente. Padura escreve um romance policial que é, ao mesmo tempo, uma obra de apelo ao respeito pela diferença e contra o preconceito, a que junta um nível literário e informação cultural e onde entram personagens reais marcantes da filosofia e cultura parisiense dos anos 1960/70, mostra a vida difícil do povo em Cuba e tudo isto no género policial fácil mas sem ser uma narrativa banal de entretenimento.

Como bónus, o romance contém um excelente conto de Mario Conde, neste, Padura mostra a sua genialidade de escrita de histórias curtas e as influências de Sartre e Camus na forma de pensar do detetive. Gostei.

terça-feira, 14 de junho de 2022

"Senhora Oráculo" de Margaret Atwood

 

Frase inicial na obra

"Planeei com todo o cuidado a minha morte; ao contrário da minha vida, que passou sinuosamente de uma coisa para a outra, apesar das minhas débeis tentativas para a controlar."

Margaret Atwood é sem dúvida a escritora Canadiana de quem mais obras li, se antes sempre na língua original, "Senhora Oráculo" foi o primeiro romance dela que li traduzido para português, a sensação não é a mesma, mas a velocidade de leitura compensou.

Joan Foster, ao sentir-se acossada com todos os seus problemas, decidiu simular a sua morte no lago Ontário e refugiar-se em Itália. Ali vê o seu passado: desde uma infância complexada como gorda perante uma mãe que não perdoava os seus desleixes e até ser uma figura pública com o sucesso "Senhora Oráculo" - livro que assumiu ter inspiração espírita -, só que também é uma escritora de literatura barata de cordel, personagem que esconde por vergonha num pseudónimo, sendo ainda esposa de um universitário de esquerda revolucionária e a quem mente dizendo-se ensaísta e a quem trai com um artista de choque, de repente é chantageada por um homem que descobre todos os seus segredos e decide desaparecer mas a sua situação complica-se cada vez mais. 

Ao longo da obra vamos conhecendo os receios e desejos de Joan Foster, as suas mentiras, o conforto dado por sua tia e o medo e revolta com sua mãe, os homens diversos e por vezes estranhos de que se aproxima e se relaciona, a sua experiência espírita e o esforço de criar personagens típicas da literatura de cordel mas em parte inspiradas na sua experiência de vida e excertos desta literatura sem ambições mas rentável.

É uma das primeiras obras de ficção de Atwood: uma autora profícua que intercala romances, ensaios, coletâneas de poesia, contos, e até livros infantis. Este livro já tem indícios dos caminhos que a escritora seguiria: mistura numa obra de várias narrativas, poesia, estilos distintos de escrita, factos reais, paranormais, medos e psicoses e até refere a via que a tornou famosíssima da ficção-científica. A exposição nem sempre linear e alguns pontos não me parecem totalmente resolvidos, mas é interessante ver como a autora expõe algumas dificuldades no desenrolar das personagens e da narrativa. Gostei.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

"O Mistério do Ataúde Grego" Ellery Queen

 

Acabo de ler um livro que faz parte das republicações da coleção Vampiro, edições retomadas há poucos anos de uma série de publicações periódicas que existia e fazia parte das obras policiais e de mistério que devorava na minha adolescência. Alimentei então o meu gosto pela leitura até passar para géneros de outro calibre literário. Infelizmente não sei o nome da maioria das obras que naquela época lia, retive melhor o nome dos escritores e dos protagonistas, alguns muito conhecidos no género, contudo não me lembro de Ellery Queen, este é o pseudónimo de dois autores: Daniel Nathan e seu primo Emanuel Lepofsky que criaram o detetive com aquele nome e cujas obras correspondem às narrativas dos seus casos.
"O Mistério do Ataúde Grego" ocorre quando o advogado de Khalkis, após o funeral do negociante de arte, descobre o desaparecimento do testamento que o morto alterara na véspera e guardara no seu cofre. O advogado dizia que ninguém na casa do defunto tivera acesso à caixa-forte entre a  colocação do documento e o enterramento, chamada as autoridades, a situação vai conduzir ao mistério de quem o retirou e onde o escondeu num sítio que ficou fechado, a que se seguem homicídios relacionados com um caso de chantagem e tráfico de uma obra pintura de Leonardo da Vinci antes roubada. Entre procuradores do ministério público, um conjunto de polícias e detetives e várias voltas no desenrolar dos acontecimentos, será o cérebro do jovem Ellery Queen, para espanto dos seus superiores mais velhos, quem desvenderá o desaparecimento do testamento e identificará o homicida.
Uma obra de mistério e crime cuja escrita é trabalhada sem grandes pretensões literárias mas correta e elegante, segue à risca os traços do género policial: vão-se lançando pistas verdadeiras e falsas que confundem as o enredo e desafiam o leitor numa narrativa que não deseja ir além de um romance de entretenimento agradável.  Para quem gosta do estilo, é de facto uma história desafiante.

sábado, 28 de maio de 2022

"Os detetives selvagens" de Roberto Bolaño

 

Citação

"o poeta não morre, afunda-se, mas não morre."

Acabei de ler o meu segundo e extenso romance do chileno Roberto Bolaño: "Os Detetives Selvagens" e tal como o enorme anterior "2666" este é sem dúvida uma obra difícil de classificar, aliás, é este o legado dos livros deste autor: trabalhos que procuram mudar os estilo e a forma de fazer literatura latinoamericana e, sem dúvida, que ele conseguiu distinguir-se.

O romance está dividido em três partes: a primeira, em 1975, é a narrativa, em forma de diário, de Juan García Madero, um órfão com 17 anos que é forçado pelos tutores a seguir direito quando queria literatura, mas que entra em contacto com um grupo de poetas que querem criar um novo movimento literário de poesia mexicana: o "real visceralismo"; que teria origem numa poeta há muito desaparecida e cuja obra era quase desconhecida: Cesárea Tinajero. O grupo é então liderado por Arturo Belano e Ulises Lima a que se associaram diversos jovens, uns filhos de ricos, outros miseráveis, que vivem uma vida revolucionária em termos de arte e de costumes livres que Juan relata e onde mergulha nessa forma de viver e prática sexual. Esta parte termina numa cena de fuga na noite de final do ano em que Garcia Madero participa para proteger uma prostituta do seu explorador.

Na segunda parte temos múltiplas narrativas ao estilo de memórias, desde muito curtas a mais extensas, por vezes são quase contos autónomos. Nestas temos episódios de vida dos diversos membros reais visceralistas ou de gente que esteve em contacto com Belano e Lima. Relatos que vão de 1976 a 1996 e além de mostrarem o estilo de vida de sexo livre, álcool e drogas de muitos das personagens envolvidas, evidencia a busca do grupo em descobrir quem foi Cesárea e a sua obra desaparecida. Entretanto, vai-se montando, de um modo mais ou menos caótico, a biografia daqueles dois líderes e poetas não aceites pela escolas artísticas estabelecidas e, muitas vezes, em confronto com a própria lei. É evidente que Arturo Belano é um alter ego do autor, pois, conhecida a biografia de Bolaño, verifica-se ao longo da narrativa que estes dois são ambos chilenos de esquerda, refugiados no México devido a Pinochet, procuram mudar a literatura, vivem com dificuldades e estabelecem-se mais tarde em Barcelona onde têm família. Talvez muitas das memórias expostas mais não sejam que retratos do que foi a vida de muitos jovens próximos do autor e algumas personagens e referências na obra são escritores e artistas consagrados que se misturam com outros ficcionados no livro.

A terceira parte, retoma novamente o diário de Garcia Madero, com a continuação da fuga na passagem para o ano de 1976, a que se associa uma busca para encontrar Cesárea Tinajero pela região desértica de Sonora, enquanto são perseguidos por inimigos que tentam recapturar a fugitiva que retiraram ao explorador desta, isto numa viagem e investigação que dura cerca de um mês e com um final surpreendente.

A escrita é muito cativante, com um estilo fácil de leitura, mas verifica-se que é muto cuidada, mesmo quando segue a forma do falar diário banal e nas memórias, onde por vezes se adequa a forma ao tipo de personagem que a narra, culto em várias áreas ou cidadão comum. Bolaño faz uso de vocábulos grosseiros, sobretudo de cariz sexual, e relatos explícitos das relações íntimas sem se ater perante as várias orientações das personagens, o que pode ferir certos leitores mais pudicos ou preconceituosos, mas faz um retrato cru e, provavelmente, realista do grupo constituído pelos artistas e jovens de esquerda latinoamericanos de língua hispânica que se exilou na cidade do México e em Barcelona na década de 1970 por razões políticas e das suas ligações com as gentes destas cidades e a outras partes do mundo. Gostei da obra, é efetivamente original e mostra todo um universo hispânico, contudo, não deixa de ser um romance extenso com partes mais ou menos vivas, mas todas cheias da força da capacidade narrativa que era o forte deste escritor.

terça-feira, 10 de maio de 2022

"O Duplo" de Fiódor Dostoievski

 

Acabei de ler a novela "O Duplo" do russo Fiódor Dostoievski, uma obra da juventude literária do escritor, talvez autor que mais me marcou até hoje.

Yakov Petrovich Goljadlkin é um funcionário público de meia idade que trabalha numa repartição, um dia opta por faltar ao serviço e gozar um pouco de liberdade, alugou uma carruagem para viajar por São Petersburgo, onde, sem querer, se cruza com colegas e o seu chefe, nesta tensão, decide ir ao seu médico onde se torna evidente o seu estado de perturbação psicológica. Ali critica as pessoas que lhe são próximas e o doutor avisa-o da necessidade de tomar a medicação. À noite, na sua viagem, encontra uma réplica sua mais nova, Goljadkin Jr., que se torna seu amigo inicial, mas, no dia seguinte descobre que é o seu novo colega e entra desequilíbrio e em guerra com o seu duplo, sente que este conspira contra ele e todos à sua volta o pretendem destruir, até assistirmos ao desenlace possível desta luta  consigo mesmo e as instituições.

A novela tem uma escrita por vezes vertiginosa e um relato caótico que mostra a amargura de Goljadkin e a sua perturbação psicológica, embora sem a profundidade das obras maduras de Dostoievski, mas já aqui estão presentes os temas de desequilíbro da personalidade fruto das pressões sociais e a revolta impotente dos cidadãos contra as instituições, isto numa Rússia onde o poder dos superiores não é discutido pelos inferiores.

A narrativa pode ser vista como uma alegoria das dificuldades porque passou o escritor cruzada com um retrato dos problemas da sociedade russa e das disfunções que minam a sanidade mental. Gostei do livro, é uma boa iniciação ao autor, mas ainda muito longe da profundidade de outras obras posteriores que definem a sua genialidade. Fácil de ler.

terça-feira, 3 de maio de 2022

"O teu rosto amanhã - Veneno e sombra e adeus" Volume III de Javier Marías

 

Excertos

"Oh, sim, uma pessoa nunca é, o que é" ... "como tão-pouco deixamos de ser inteiramente aquilo que fomos"

"O Estado precisa da traição, da venalidade, da intrujice, do delito, das ilegalidades, da conspiração, dos golpes baixos (em contrapartida, as heroicidades apenas a conta-gotas e de tempos a tempos). ... Porque julgas que se criam cada vez mais delitos novos?"

Acabei de ler o terceiro e último volume de "O teu rosto amanhã" do espanhol Javier Marías, um romance difícil de classificar, é essencialmente uma obra de ficção, mas possui duas personagens importantes que foram pessoas reais, Peter Wheeler e o pai do escritor, além de aspetos da experiência de vida do autor e da sua relação com a Universidade de Oxford, aqui como narrador no papel do seu avatar: Jacques Deza, além de referências a numerosas ocorrências hist´rocas da guerra civil de de Espanha e, um pouco menos, dos serviços secretos ingleses na II Grande Guerra.

Efetivamente, este romance que começa com o alerta do narrador de que ninguém devia falar e contar nada, mas centra-se num grupo anónimo de pessoas, não reconhecido pelos serviços secretos ingleses que tem como tarefa "a «coragem de de ver» e que assumem «a irresponsabilidade de ver», e o contam.", tal como diz Javier Marías no epílogo e, como eu percebi da obra: fica sem remorsos das consequências perniciosas e, até mesmo por vezes catastróficas, para as pessoas por eles observadas e descritas nos seus relatórios ultrassecretos. Pelo meio, vamos acompanhando a relação do protagonista com a sua mulher, de quem está separado, mas que mantêm uma amizade e relação em virtude dos filhos, além de uma incerteza se ao nível da manutenção do amor entre eles.

Assim este romance resulta num extenso desfilar de inconfidências e reflexões sobre como somos num dado momento, como mudamos no tempo, como nos denunciamos no que fomos ou no que podemos vir a ser no futuro através das nossas conversas, interpelações e de como podemos observar nos outros todas essas indiscrições e as potencialidades dos eus de cada um.

Apesar da originalidade do tema, que não é um romance do género de espionagem, nem policial, nem de memórias, nem histórico, nem ensaio, nem romântico, mas que de facto envolve isto tudo, foi a escrita que me fascinou, apesar de com menos sinonímias e adjetivações neste volume, talvez para não exagerar a extensão do texto, a narrativa continua sem pressa em concluir as ideias e os factos que vai lançando vão sendo intercalados por divagações que se afastam do ponto inicial, mas após uma caminhada mais ou menos longa retoma-se o tema com um remate final e completando o assunto muitas linhas ou páginas posteriores após uma viagem com numerosas referências paralelas.

A riqueza lexical, as variações de sintaxe e as comparações das subtilezas linguísticas existentes entre a várias frases em inglês (por norma traduzidas dentro do parágrafo) e as ideias e dizeres em espanhol geram uma beleza intencional e trabalhada ao pormenor do ponto de vista literário e evidenciam estar-se perante um escritor contemporâneo com um valor acima da média, contudo, como já disse, poderá não ser uma leitura fácil para quem não tenha por hábito degustar as frases e as palavras, além da extensão do romance.

Este foi o romance que mais gostei nos últimos tempos, mas não é uma obra fácil para qualquer leitor. É livro para quem degusta a escrita e não tem pressa. Um texto para gente que não desespera ansiosa pela conclusão duma ação rápida  e ágil, pois esta espraia-se por reflexões e divagações do narrador, criando uma imagem parada sobre a qual recai uma extensa legenda analítica e psicológica. A introspeção sobre a mente humana, como fomos, somos e podemos vir a ser e a consciência que temos disto e do que assistimos e fizemos ou pensamos vir a fazer é um traço que atravessa toda a exposição narrativa. Para mim uma obra-prima e original, uma peça de literatura de alto gabarito que requer estar preparado para a apreciar.

Mensagem sobre o volume I

Mensagem sobre o volume II

sábado, 23 de abril de 2022

Dia Mundial do Livro, os melhores livros ao longo de um ano

É sempre na celebração do Dia do Livro que apresento aquelas obras cujas leituras considerei as melhores em várias categorias das que li nos 12 meses anteriores. Este foi um ano onde, por motivos vários, li muito menos livros que em iguais períodos anteriores, mesmo assim, eis as minhas escolhas:

Melhor Livro de Literatura em Português

Apesar da releitura do emblemático "Memorial do Convento" e de José Saramago ser e um dos meus escritores preferidos, talvez pela novidade e questões que levanta sobre o 25 de Abril e o regime democrático que desde 1974 se estabeleceu em Portugal, a minha escolha recaiu sobre "Os Memoráveis" de Lídia Jorge, com uma excelente escrita e vários pontos para lusitano refletir.


Melhor Livro de Literatura Canadiana

Estive quase a não incluir esta categoria habitual por ter sido um único livro que li nesta rubrica ao longo destes 12 meses, mas a sua qualidade é tal que não permitiu deixar de recomendar "selected stories" da Nobel Alice Munro.


Melhor Romance Histórico

A biografia de César Augusto de John Williams exposta através do género epistolar "Augustus" vale mesmo uma leitura.


O melhor ensaio em  formato de  livro digital

Pelas questões e informações nele contidas, a escolha recaiu em "Sapiens - História breve da Humanidade" por Yuval Noah Harari, não subscrevo integralmente as suas ideias e penso que há aspetos especulativos, mas vale a pena ler esta ensaio.


Boas leituras neste Dia Mundial do Livro.

sábado, 16 de abril de 2022

"O teu rosto amanhã" Vol. II - Dança e Sonho, de Javier Marías

 

Excerto

"Nunca sabemos até que ponto e de que modo somos observados pelos que nos rodeiam, pelos mais próximos e mais leais, que aparentam renunciar há muito à objectividade e dar-nos por certos..."

Continuo a leitura desta vasta narrativa que começou no primeiro volume com o aviso de Jacques Deza de que nunca devemos contar nada, falar, dizer, responder, mas  que logo se tornou numa extensa e prolixa exposição do modo como foi recrutado para um serviço secreto inglês no ambiente da Universidade de Oxford e das memórias benevolentes do seu pai denunciado ao regime de Franco na sequência da guerra civil de Espanha e da sua relação com a sua mulher de quem recentemente se separara em Madrid o o trouxera de novo para Londres.

O segundo volume, com o subtítulo das suas duas partes: Dança e Sonho, o narrador, Jaime, Jack ou Jacobo Deza continua a contar pormenorizadamente a sua vida, as justificações de seu pai para a sua benevolência e as surpresas de comportamento dos membros da equipa de trabalho do serviço secreto e dos seus orientadores académicos Peter e . Jacques continua a não saber quem o dirige, talvez Tupra e para quem o seu esforço contribui. Enquanto a narrativa se torna numa reflexão sobre o comportamento humano face à culpa, à reação ao medo, à necessidade de nos proteger e de nos integrarmos socialmente  e à capacidade de fazer o mal extremo como defesa e factos históricos e da atualidade política.

Confesso, Javier Marías - com o seu texto cheio de sinónimos, paralelismos e referências a semelhanças e diferenças entre o idioma inglês e o castelhano para levar à análise das múltiplas faces de cada questão ou assunto que debate ou reflete - conquistou-me pela riqueza da sua escrita e beleza literária da sua forma de narrativa. Onde um escritor em momento de suspense tende de cortar o momento para nos deixar presos e retomá-lo mais tarde ou então despejar de chofre o que nos vai surpreender, Javier Marías dilata o tempo e expõe reflexões do instante em câmara lenta ao longo de páginas sucessivas sem nos cansar, enquanto a espada no seu trajeto vertiginoso ao longo de todo esse período prossegue o seu caminho para uma cabeça em risco de ser decepada e, terminada essa duração esticada, não houve perda de emoção, nem do efeito que nos prendeu ao instante inicial. Só um génio consegue fazer isto em texto.

A teoria de que o tempo é relativo está de facto intrinsecamente instalada nesta narrativa, tudo decorre a uma velocidade cronológica variável de acordo com a vontade do narrador e transposta para a escrita, por norma sem pressa alguma, mas não ao ritmo a que o leitor está habituado ver decorrer uma ação. A riqueza lexical e as variações de sintaxe no texto são de  modo a gerar uma beleza intencional e trabalhada ao pormenor do ponto de vista literário e evidenciam estar-se perante um escritor contemporâneo com um valor acima da média, contudo poderá não ser uma leitura fácil a quem não tem por hábito degustar as frases e as palavras, além da extensão do romance... entretanto, já entrei no terceiro volume que vem em continuidade de cena iniciada no segundo.

quarta-feira, 30 de março de 2022

"O teu rosto amanhã" Vol. I - Febre e Lança - de Javier Marías

 

Excertos

"tudo tem o seu tempo para ser acreditado, até o mais inverosímil e o mais anódino, o mais incrível e o mais ignorante."

"Há uma obsessão por compreender o odioso, no fundo há uma malsã  fascinação por isso, e com isto faz-se um imenso favor aos odiosos. Eu não compartilho essa curiosidade infinita do nosso tempo..."

Há muito que ouvia falar do espanhol Javier Marías como um dos escritores mais originais da atualidade, mas só agora me decidi a descobrir e logo através da sua obra mais extensa: o romance de três volumes "O teu rosto amanhã". No primeiro tomo duas partes do romance: "Febre" e "Lança".

Jacques Deza, começa a obra a explicar a importância de estar calado, de nunca se contar nada, ele, um madrileno recém-separado regressou à Inglaterra para fazer um programa de cultura espanhola na BBC, doutorado na Universidade de Oxford, frequenta a casa de um professor amigo naquela academia, lá é convidado a integrar um grupo secreto. Este procura interpretar o comportamento de pessoas seguidas pelo serviços de informação britânicos e ver-se-á num mundo onde responder, contar e dizer são armas bumerangue que atacam quem fala. Seguem-se reflexões sobre os indivíduos, a importância da comunicação, a pressão social, questões da atualidade, efeitos psicológicos da guerra civil de Espanha e da II Grande Guerra, disserta ainda sobre a sua vida individual, familiar e com quem convive e vai contando, contando, contando memórias ao contrário do que avisara.

A escrita, com um vocabulário rico e culto, cheia de referências linguísticas, é de uma fertilidade de adjetivos e pormenores, sinonímias lexicais que se estendem por longos parágrafos que vão desenvolvendo uma musicalidade em ritmos lentos que é única nos autores atuais que conheço. A densidade dos pensamentos, dos conteúdos desenvolvidos e das referências históricas e culturais tornam o texto como uma versão contemporânea de Proust, Musil temperado com o género de literatura de ficção académica anglo-saxónico típico de Robertson Davies e David Lodge, mas  mais rebuscado que estes.

A narrativa não tem pressa em concluir as ideias e os temas que vai lançando... vai divagando sem se perder no ponto inicial, embora o leitor por vezes se desencontre, mas após uma caminhada mais ou menos longa retoma com um remate final e completa o assunto começado muitas linhas ou páginas antes.

Não será um texto fácil para leitores apressados ou que não apreciem deixar-se passear na beleza do texto saboreando-o para depois chegar à conclusão, é um romance que avança a velocidade lenta, quase de caracol, mas para quem sabe apreciar é delicioso e compreendo porque se diz ser mais um candidato a Nobel, não sei, para mim já atingiu tal nível que não necessita de tal prémio para eu reconhecer a sua grande qualidade... não consigo parar e já adquiri e iniciei o segundo volume.

segunda-feira, 14 de março de 2022

"Vício Intrínseco" de Thomas Pynchon

Excerto

"O quê? Só devia confiar nas pessoas boas? Meu, as pessoas boas são compradas e vendidas todos os dias. Mais vale confiar em alguém mau, de vez em quando, não faz nem mais nem menos sentido. Quer dizer que dava a mesma hipótese a ambos os lados.

Acabei de ler o meu segundo livro do escritor americano contemporâneo, de estilo pós-moderno, Thomas Pynchon: Vício Intrínseco. Passado nos anos de 1970, Doc Sportello, é um detetive privado, viciado em marijuana que entre as suas alucinações, passagem por bares, cervejas, mulheres várias e confronto com a polícia que persegue hippies e drogados na região de Hollywood e tem nele um alvo, faz investigações de raptos e crimes, embora por vezes ele confunda a realidade com os devaneios provocados pela erva. No início é visitado por uma sua ex-namorada a dizer que o seu amante riquíssimo está em vias de ser raptado ou assassinado pela esposa e respetivo amante e sai em seguida. Só que ambos desaparecem e Doc entra a investigação num mundo de droga, tráfico, hippies, polícias, crimes e justiça feita fora das regras legais e infiltrados em redes mafiosas.

O romance monta como um puzzle a Califórnia de então, o movimento hippie cheia de droga, gente do cinema, muitas referências a grupos musicais reais e músicos de então, trajes e cortes de cabelo, a contestação ao Vietname e o choque cultural da época. Contudo a narrativa não é linear, típico no movimento pós-moderno, existem mudanças bruscas de ambiente de reais para alucinatórios, muitas personagens, entrada na mente do protagonista que nem sabe se está a assistir a factos reais ou a efeitos da droga, o que faz com que o leitor se possa perder, mas vale a pena prosseguir pois as peças vão-se ligando no meio deste labirinto de cenas ora psicadélicas ou com humor negro, ora de crítica social, ora de entrada no submundo da prostituição, tráfico de droga ou de influências, interesses imobiliários, polícias corruptos e os que não olham a meios para alcançar a vingança ou limpeza de uma sociedade que consideram decadente e bons e maus marginais e personagens que são caricaturas originais. 

Não é fácil seguir a história, mas diverti-me e por isso valeu a pena a leitura, um policial onde nem sempre sabemos se houve de facto crimes e assassínios, umas vezes sim, outras não, faz parte da linguagem labiríntica da obra.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

"Putas Assassinas" de Roberto Bolaño

 

Citação

"Uma pessoa nunca acaba de ler, embora os livros acabem, da mesma maneira que uma pessoa nunca acaba de viver, ainda que a morte seja um dado certo."

"Putas Assassinas" é um livro com 13 contos do escritor chileno Roberto Bolaño, de quem só tinha lido, há muitos anos, o romance que foi um sucesso de vendas quando publicado no início deste século: "2666", que deu a conhecer a todo o mundo este autor já pouco depois da sua morte.

Nestes contos sente-se a a referência frequente a aspetos autobiográficos do escritor, que parece ser o narrador de quase todos eles. Assim, temos relatos com a família na cidade México na sequência da fuga desta do Chile devido ao golpe de estado que derrubou Allende. Há textos com acontecimentos intercalados com reflexões pessoais sob a vida difícil dos poetas e escritores chilenos de esquerda devido à perseguição da ditadura. Em três contos acompanhamos a vida errante de B em vários locais da Europa, nomeadamente Barcelona, onde Bolaño viveu grande parte da sua vida. Temos narrativas que são contadas a ele de experiências passadas por outros refugiados. Os contos sobre terceiros são autênticas descidas ao inferno negro no mundo da prostituição, pornografia e até abusos, não sexuais, de crianças na Índia associados a ritos e crenças religiosas. Certos contos são de uma negritude extrema mas com uma escrita cativante que mesmo no relato do horror dá prazer ler o texto. Não sei se muitas dos nomes referidos nos contos são poetas reais ou ficcionais, mas o conjunto dá a conhecer a dificuldade deste tipo de autores, onde muitos passam incógnitos e com dificuldades pela vida literária, numa luta pessoal pela sobrevivência artística e individual.

Gostei do livro, alguns contos tocaram-me mais do que outros, por vezes existem referências a atos de depravação sexual e uso de termos grosseiros associados, mas nada de erótico, apenas um retrato duro e difícil da vida porque muita gente passa sem o autor fazer uma abordagem moral do assunto. No campo político, a obra é marcadamente de esquerda e honra as vítimas das ditaduras na América hispânica e embora o autor dê a entender que o seu poeta de eleição não seja Neruda, esse surge como um farol no Chile.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

"Quarteto de Havana I - Ventos de Quaresma" de Leonardo Padura


Acabei de ler o segundo romance do primeiro volume do Quarteto de Havana do escritor cubano Leonardo Padura: "Ventos de Quaresma", outro policial protagonizado por Mário Conde, tenente da esquadra central de Havana que sonhava ser escritor e se tornou polícia de investigação criminal. Sobre o anterior obra podem ver o texto aqui.

Havana sofre os efeitos da fustigação habitual de ventos intensos e penetrantes que costumam sentir-se pela época da quaresma na cidade, neste ambiente, pouco a seguir a se cruzar na rua com uma mulher por quem se sente imediatamente atraído, é entregue a Mário Conde o caso do assassinato de uma jovem professora da escola pré-universitária de que ele fora aluno anteriormente. A vítima é alguém da juventude do partido e cidadã exemplar para as novas gerações. Ao longo da investigação, o tenente vai descobrir ligações promíscuas desta docente ao elenco diretivo, ao mercado negro, ao mundo da droga e, inclusive, a ultrapassagem dos limites éticos de intimidade com certos alunos. Entretanto, sob a pressão deste vento contínuo, o investigador deambula entre as suas recordações da escola, a amizade com os colegas, sobretudo o gordo Magricela (tornado inválido na guerra de Angola) e a necessidade de satisfazer a sua paixão aguda e perturbadora por aquela mulher que toca saxofone, enquanto a sua vida prossegue o crónico percurso decadente com amigos frustrados com a vida que afogam as mágoas no álcool, na comida, no beisebol e nas recordações dos tempos de sonho em que eram estudantes.

Padura tem uma forma única de escrever a decadência culta das suas personagens, onde, em simultâneo, transpira a banalidade da vida comum e vazia das classes que sobrevivem com as dificuldades do dia-a-dia e a elegância e o cuidado de um bom escritor que junta o discurso e pensar banal ao pensar culto e escrever literário. A forma de descrição dos efeitos do vento sobre as pessoas e Havana, bem como a denúncia discreta dos problemas sociais do regime, sem ofender este último, e os vícios privados da sociedade e das suas personagens, dão-me um grande prazer na leitura da sua prosa, uma vez com tons poéticos e elevados e outros de elogios dos prazeres decadentes. Um livro que não se fica por ser um policial mas também é uma texto literário. Gostei.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

"As mil e uma noites" Volume 2

 

Acabei de ler o segundo volume da tradução feita pela E-primatur da coletânea de contos que constituem a obra "As mil uma noites" e com a informação de se basear nos manuscritos mais antigos desta. Este conjunto é composto de 3 volume e já falara aqui do primeiro quando o lera.

O presente volume é a continuidade do anterior a partir da narrativa de Xerazade na 102.ª noite  como mulher de Xariar e vai até à 282.ª. Cada conto, por norma atravessa noites sucessivas, sendo interrompidos muitas vezes em momento de suspense com a confissão à irmã Dinarzade de que haverá muitas mais a contar se o príncipe lhe poupar a vida, uma estratégia de lhe alimentar a curiosidade e a poupar a sua morte como costumava fazer às suas mulheres após a noite de núpcias. Frequentemente, a mudança de de uma para outra história diferente faz-se também a meio da narrativa noturna para assim manter a suspenso com a nova e o interesse de Xariar.

Ao contrário do primeiro volume, neste poucos contos são curtos e raramente têm uma lição de moral no seu cerne, sendo comum a beleza dos jovens, o luxo das elites, a atração sexual como normalidade, os atributos físicos das mulheres dependentes de ricos que evitam o acesso ao exterior e o erotismo da narrativa que entra em choque com a ideia atual de um islamismo muito conservador e casto. Aqui o enlace no casal apaixonado, nem sempre com o laço matrimonial, é visto frequentemente como um prémio e sem a censura de moral religiosa, mas sempre sujeito à bondade do deus altíssimo e as referências ao Corão são muitas. Nem todos os contos são fantásticos, mas os mais extensos são dominados pela fantasia e personagens mágicas.

O texto que intercala narrativa em prosa com passagens complementares em verso, procura verbalizar a linguagem oral ao estilo antigo. Existem muitas notas sobre a escolha de determinados termos na tradução, explicações de vocabulário, de costumes da época e referências a correções e adoção de excertos de edições antigas de diferentes regiões geográficas do médio oriente de modo a tornar coerente o discurso e consistente o conto.

Fácil de ler, embora, por vezes, me cansei do excesso de pormenores de luxo, gastronomia rica, beleza e fantasia, mas isto resulta do estilo da obra original que procura entrar num mundo que vai muito além da realidade e procura ir ao encontro da imaginação de estratos sociais ricos, belos e cheios de luxo que estariam na base da felicidade e justiça na idade média no médio oriente no seio da cultura islâmica de então.

Pelos dados transmitidos até ao final deste volume, o terceiro completa histórias já narradas que têm outros desenvolvimentos e variantes noutras edições das Mil e Uma Noites e textos com informações gastronómicas e de costumes muito referidos nestes 2 volumes mas pouco desenvolvidos. Um tomo para completar a visão do conjunto que foi esta obra e das variantes que havia no passado, sendo que não há contos para além da 282.ª noite, muito longe do total de 1001 que se poderia depreender do título. 

Gostei, vale a pena ler para compreender como no início do segundo milénio os árabes eram bem diferentes daquilo que são hoje em termos de mentalidade.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

"ULISSES" de James Joyce

                                    

Tentei ler o romance "Ulisses" do irlandês James Joyce, considerado um marco na literatura contemporânea pela sua forma revolucionária de escrita e o recurso ao fluxo da consciência, obra que este ano celebra 100 anos de publicação.

O romance não tem um enredo linear, vai narrando cenas que decorrem ao longo de um dia desde o pequeno almoço (sabe-se ser 16 de junho de 1904) de várias personagens que se cruzam em Dublin por serem colegas, partilharem espaços comuns ou irem a acontecimentos ao longo de 24h e termina na madrugada seguinte. Entre as várias personagens, Harold Bloom é a mais presente e por isso o protagonista da obra, sendo em torno dele quem o texto mais se centra e na sua vida pessoal, nomeadamente a sua mulher soprano que o trai. Há personagens que surgem em várias momentos diferentes e outras são meros aparecimentos acidentais neste percurso. Na primeira centena de páginas ocorrem cenas de preparação do pequeno almoço, passeio por uma praia, ida a um talho, entrada numa igreja, participação num funeral de amigo, discussão na redação de um jornal, entrando nós nas reflexões pessoais da personagem central da cena e de outras, bem como de acontecimentos lhe vêm à memória ou discussões sobre o relacionamento da Irlanda e sua sociedade com o Império em que ainda estão integrados.

A escrita flui à semelhança do dia, ora descrevendo o meio, ora expondo as reflexões, ora entrando nas memórias, ora expondo diálogos e muitas vezes com referências bíblicas, aos clássicos da Grécia antiga, às obras de Shakespeare ou a factos históricos. Ao longo do parágrafo pode ocorrer mudanças bruscas mesmo de sujeito, de tempo ou de assunto em sequência onde o leitor se pode perder e reencontrar, ou não como me aconteceu por vezes ou referências a outras momentos do texto.

Assumo, gosto de obras desafiantes difíceis e várias delas até me cativaram e me marcaram e me divertiram, como "O homem sem qualidades" de Musil, o conjunto de "Em busca do Tempo Perdido" de Proust, ou "A Piada Infinita" de Foster Wallace e até mesmo "A divina Comédia" de Dante, entre outros. Em todos os livros que acabo de citar entrei com medo e depois cativaram-me, mas este Ulisses não. Não sei se mais tarde darei continuidade à leitura e possa algum dia vir a tirar gozo da leitura deste romance, para já não tirei qualquer prazer, nem interesse. Motivos suficientes para interromper na página 168 quando ainda faltavam outras 562, não me submeto aos críticos da literatura que endeusarem esta obra, não estava a gostar minimamente e pronto.

Não recomendo a quem goste de apreciar uma história ou uma escrita agradável pela sua elegância e poesia. Salvou-se a capa desta edição que para mim é linda.

sábado, 22 de janeiro de 2022

"A Laranja Mecânica" de Anthony Burgess

 

Citação

"Será porventura um homem que escolhe o mal de certa forma melhor que um homem ao qual foi imposto o bem?"

Acabei de ler "A Laranja Mecânica" do inglês Anthony Burgess escrito na década de 1960 e adaptado ao cinema por Kubrik, não considero uma obra de ficção científica, mas é sem dúvida uma obra distópica, uma reflexão sobre a violência juvenil e dos limites do Estado para impor-se aos cidadãos para controlar essa mesma violência.

Alex narra a sua vida de adolescente e líder de um gangue cuja vida noturna era atacar cidadãos pacíficos, roubar e violar mulheres, para durante o dia ter uma vida mais calam ou de ressaca da noitada. Só que num desses atos é preso por homicídio. Pela sua idade o detido é convidado para cobaia de um método psiquiátrico sem o informar plenamente das suas consequências. Estas retiram-lhe o livre arbítrio pois torna-se incapaz de fazer o mal a outros por uma indução de indisposição no exercício de tal prática. Sendo ainda alvo de aproveitamento político depois destes danos.

A obra, um clássico da literatura distópica, tem a particularidade de estar escrita com recurso a uma gíria (denominada Nadsate) que Burgess criou, a qual procura evidenciar o linguajar hermético da adolescência e também  como em literatura este tipo de vocabulário não é utilizado, contudo a leitura torna-se no início difícil, havendo um dicionário no fim para dar apoio ao leitor. Todavia a dinâmica que o autor imprime ao texto, se houver habituação aos vocábulos, a leitura torna-se não só fluída como nos faz entrar na mente de um adolescente.

O filme que vi pela primeira vez há várias décadas é um dos filmes que mais me marcou até hoje e o livro ainda é mais impressionante, mas pode não ser uma obra fácil de ler devido a série de atos de violência física ou psicológica ao longo da narrativa, além do Nadsate... mas gostei muito do livro

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

"SAPIENS - História Breve da Humanidade" de Yuval Noah Harari

 

Acabei de ler, em E-book, o ensaio "Sapiens História Breve da Humanidade" do israelita Yuval Noah Harari. A obra tenta mostrar como a nossa espécie, saída da evolução biológica e, como tal, refém da física e da biologia, evoluiu através das revoluções cognitiva, agrícola e, recentemente, científica e tecnológica, se libertou de muitas amarras da natureza e está em vias de ser criadora de um novo Sapiens e, por isso, o deus criador de um novo "Homem". Daí o subtítulo "Sapiens de Animais a Deuses".

Escrito de uma forma vibrante, cada capítulo narra uma parte marcante da história da humanidade onde o homem dá um salto e se torna mais distinto das outras espécies animais, construindo mundos diferentes que levantam novos desafios físicos e questões éticas e morais, mas que, à primeira vista, parecem benéficos para a espécie, mas Harari duvida do seu contributo para um homem mais feliz.

A questão da felicidade e a vontade de vencer a morte é recorrente na obra. O autor questiona se com esta evolução não estamos a ficar cada vez mais escravos e menos felizes, havendo ainda o risco de o Homo sapiens, na sua busca de felicidade e vitória da morte, estar prestes a construir um outro Homem que, apesar dos sonhos que temos, pode resultar num monstro destruidor da própria humanidade.

A ideia lançada neste livro do Homem criador de um novo homem e, por isso, num papel de deus, levou a um outro ensaio posterior que foi o primeiro ebook que li do autor: "Homo Deus", que perspetiva o futuro, e, tal como neste, são obras que assumidamente negam o deus sobrenatural e redefinem o conceito de religião como qualquer ideologia ou crença que defenda absolutamente as suas verdades independentemente de acreditar no transcendental. Este aspeto é muito bem justificado por Yuval Noah Harari, o autor que mais tem contribuído para o meu caminhar para o agnosticismo, por isso a obra pode chocar crentes em ideologias ou religiões.

Muito fácil de ler e acessível a qualquer leitor que goste deste tipo de temas ou se questione sobre a humanidade.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

"O Quarteto de Havana I - Um passado Perfeito" de Leonardo Padura

 

Acabei de ler o romance policial "Um Passado Perfeito", escrito pelo cubano Leonardo Padura. Este faz parte com outras três obras do mesmo género e independentes entre si do designado "Quarteto de Havana", que foi editado em dois volumes, cada um contendo 2 casos de investigação protagonizados tenente Mário Conde.

Num sábado de madrugada Mário Conde em ressaca da noitada é acordado pelo seu superior para investigar o desaparecimento de um quadro superior de uma empresa pública de importações, eis que ele se apercebe que se trata do seu colega exemplar e ambicioso da escola pré-universidade que, além de ter subido alto na vida, lhe roubou a sua colega bonita e de boas famílias por quem sempre esteve apaixonado. No desenrolar o seu trabalho vai contactar com a mulher dos seus sonhos, as memórias do passado com companheiros de ensino e lutar com o preconceito e desconfiança da perfeição daquela estrela ascendente, avivando sua paixão pela mulher dos seus sonhos e suspeita no desaparecimento.

Passado no final da década de 1980, quando a União Soviética começa a ruir, Padura mostra a decadência do seu protagonista, um homem culto, escritor falhado que virou a polícia, mergulhou no álcool face às suas frustrações, desamores e dificuldades do país: uma metáfora, sem hostilizar o sistema político, que mostra as fragilidades e consequências sociais do castrismo, pondo a nu a pobreza em Havana, expondo vítimas das intervenções militares de Cuba em Angola em nome do comunismo e o frequente sonho de muitos fugirem para o estrangeiro que lhes é inacessível, enquanto uma elite procura subir no setor público através de mecanismos pouco lícitos e permanentemente sob a vigilância do partido único que não consegue eliminar a corrupção e as vigarices. 

Uma escrita realista, escorreita da decadente sociedade e das suas personagens centrais. Lê-se muito bem e onde o estilo policial é uma ferramenta de apoio para mostrar Cuba, assim vai muito além de um simples romance de investigação criminal. Gostei e é fácil de ler, sem ser literatura banal ou de cordel.