quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Jesus Cristo Bebia Cerveja" de Afonso Cruz


Acabei de ler o romance "Jesus Cristo bebia cerveja" do português Afonso Cruz, um dos escritores mais elogiados da atualidade, que tem uma forma de escrever original, cheia de metáforas e expressões estilísticas inovadoras e de quem já li vários livros, os quais, pelo menos, têm-me agradado sobretudo pela sua escrita e este não foi exceção.
Numa aldeia alentejana cruzam-se personagens tão díspares como uma arqueóloga da capital que se seduz pela rusticidade de um camponês em detrimento dos seus colegas cultos; um idoso professor ateu que conferencia com um sacerdote hindu e outro de religião africana sob o patrocínio de uma inglesa dona de uma aldeia de estrangeiros; um padre masoquista; um bar de streap num antigo avião, uma avó católica cujo maior sonho é visitar Jerusalém; uma neta que pretende atender a grande desejo dela enquanto se decide por se entregar a um pastor jovem e viril que cheira às coisas da terra ou ao idoso sábio e apaixonado que decide ajudá-la na viagem à Terra Santa através de uma solução original para a conquistar. Está assim reunido um cenário de singularidades que junto com a escrita criativa rapidamente cativa o leitor.
O desenrolar da história, misturado com ironia, comicidade e crítica social, leva à construção de páginas ora hilariantes, ora nostálgicas mas também por vezes tristes e até trágicas que denunciam injustiças e expõem sentimentos feridos e contraditórios.
Apesar de ter gostado do livro e de em muitas páginas me ter divertido, novamente aconteceu neste romance algo que me vem frequentemente a acontecer ao ler muitas das obras nacionais que se vão publicando nos últimos tempos em Portugal: prometem muito, são magnificamente trabalhadas em texto e depois esmorecem para o seu final, mas pior, não deixam uma mensagem ou conteúdo que me marque com uma ideia ou recordação forte, um sabor final a pouco face aos indícios com que começa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"O Retrato" de Nicolai Gogol


"O Retrato" do escritor russo do século XIX Nicolai Gogol, será mais um conto do que romance, dividido em duas partes: na primeira um pintor com talento, mas em dificuldades financeiras, cruza-se com um retrato inacabado num antiquário e fica fascinado pela força com que os olhos da pintura o fixam e consegue comprá-lo, só que a força desse olhar e um acontecimento, que parece fortuito, virão mudar a sua vida, dando-lhe nome como profissional, mas mediocridade no aproveitamento dado ao seu dom. Na segunda, compreender-se-á a origem da pintura e a razão da maldição que transportam esses olhos.
Não sendo uma obra que navega no mundo do fantástico, este insinua-se, tanto pelos efeitos nefastos que o quadro provocou no pintor, como na suposta transposição para a pintura dos efeitos do mal do agiota retratado.
"O Retrato", mesmo sem ser considerado a obra-prima de Gogol, neste conto, ele aborda a ideia de que é fulcral a arte contribuir para a edificação do Homem, sendo que o uso dos talentos para outros fins menos nobres um desvio deste objetivo, o qual pode ter reflexos na propagação do mal. Em paralelo, está também patente o conceito de ligação da origem do mal às causas e agentes de injustiça social, provavelmente uma influência das ideias políticas veiculadas pela revolução francesa, onde o "pecado" contra os mais pobres e desfavorecidos passa a ter uma relevância na moral muito mais forte do que no passado.
Muito bem escrito, como é característico da escola russa daquele século, e de fácil leitura, este conto é, sobretudo, uma alegoria ou parábola sobre o contributo da arte para moralização do Homem e uma crítica contra a injustiça social, preocupações que se refletirão noutros escritores como Dostoievki, Tchekhov e Tolstoi e assim se compreende porque Gogol está entre os génios literários mais influentes da Rússia. Gostei e recomendo.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

"História do Cerco de Lisboa" de José Saramago


"História do Cerco de Lisboa", do único laureado com o prémio Nobel da literatura de língua Portuguesa, José Saramgo, começa com um diálogo entre um revisor de textos e um autor de um ensaio de história em revisão relativo ao cerco de Lisboa no tempo de Dom Afonso Henriques na conquista da cidade aos mouros, um diálogo onde se reflete a importância do revisor naquilo que é publicado e se fala do sinal gráfico "deleatur" que indica corte de letras ou palavras no texto a publicar.
Após esta introdução, o revisor, contra todas as regras deontológicas da profissão, altera o texto do ensaio citado, não através de um deleatur, mas introduzindo um "não" numa verdade histórica que modifica o enquadramento deste evento dos inícios de Portugal.
Ficou então aberta a oportunidade para o romance passar a conter uma reflexão sobre o papel daqueles que intervêm no "moldar" a narração do passado histórico de um País, como, do protagonista ser desafiado a recontar a história do cerco de Lisboa alterada por aquela palavra, mas condicionado aos resultados finais do passado que moldam o presente. Deste modo passam a desenvolver-se duas estórias: a histórica, alterada e conciliada com a reinterpretação crítica e irónica de crónicas da época, onde não falta o tempero do amor cujo desenvolvimento o revisor controla e direciona e a outra no tempo atual, de onde lhe nasce uma que não controla e resulta da transgressão.
Saramago aproveita no cruzar destas estórias desfasadas no tempo para falar de Lisboa, dos vestígios daquela época na atual cidade,e para criticar mentalidades, perceções, preconceitos e os ajustamentos que a História sofre em função da religião e cultura de quem narra ou tem o poder de moldar a comunicação do conhecimento do passado face aos interesses do presente. Saramago aproveita ainda para utilizar em estórias diferentes e relatos das "fontes" escritas de estilo de narrativo distinto  e uso de várias forma ortográficas sintáticas que acrescentam uma grande riqueza ao texto.
É sem dúvida um excelente exercício criativo e uma reflexão sobre os primórdios da história de Portugal e abordagem de questões sociais de hoje, cheio de informações e de ironias subliminares, sem deixar de ser uma obra ao estilo de Saramago nem sempre fácil de ler e de abarcar tudo o que é díto nas entrelinhas. Gostei e recomendo sobretudo a quem aprecia a prosa deste escritor como é o meu caso.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

FESTA do LIVRO 2016 na Horta - A colheita da visita para a minha biblioteca


Não costumo falar dos títulos que compro antes de os ler, mas visitei logo no seu primeiro dia a Festa do Livro 2016 que decorre nesta Semana do Mar e confesso-me agradavelmente surpreendido face ao ano passado. É verdade que do conjunto de de obras que tinha anotado para comprar em breve apenas encontrei uma: "Americanah" de Chimamanda Nogzi Adichie, mas também encontrei muitos bons livros que já li e outros de escritores que conheço que estiveram nas minhas mãos para aquisição, mas o pacote de compras já estava extenso e comecei a encolher a lista e esta reduziu-se a 9 obras.
Curiosamente uma já li quando jovem, mas não a tinha e por vezes apetecia-me folheá-la "A quinta dos animais" de Orwell. Também me aventurei por escritores famosos que nunca li: contos de Yukio Mishima e outro de Gogol, mais outro contemporâneo que tem merecido grandes elogios Colm Tóibín sem ser em nenhum destes casos as suas obras de referência, mas para a estreia por vezes é uma boa opção, pois mantém a esperança de que ainda há deles melhores títulos quer se tenha gostado ou não do livro por onde se começou.
Também não podia deixar passar a oportunidade de voltar a ler o concidadão Canadiano Yann Martel numa obra que até fala de Portugal, uma coincidência que me tem despertado interesse e como à muito queria ler "O cerco de Lisboa" de Saramago já arranquei com esta leitura.
Os últimos dois, Franzen e Hess, são as obras mais referidas deles e foram oportunidades do momento, mas houve muitos mais títulos que estiveram em vias de compra, pelo vale a pena passar por lá 

domingo, 7 de agosto de 2016

"Salambô" de Gustave Flaubert



"Salambô" do grande escritor francês do século XIX: Flaubert, é um romance histórico sobre a guerra dos mercenários que ocorreu entre os anos 241 e 238 antes de Cristo na cidade do norte de África de Cartago, então a grande rival de Roma para dominar o Mediterrâneo ocidental e por esta destruída após as três guerras púnicas que estabeleceu a hegemonia do Império Romano.
Durante a primeira destas guerras, Cartago contratou mercenários para criar exércitos contra os romanos com promessas de pagamento elevadas e lideradas pelo general cartaginês Amílcar, mas chegada a paz deixou estes militares junto às suas muralhas sem lhes pagar o acordado, enquanto rivalidades internas mantiveram o general distante. Esta situação, após uma farra soldadesca, conduziu a uma revolta e à tentativa dos mercenários de conquistarem Cartago e de se aliarem às outras cidades rivais das vizinhanças, todas na atual Tunísia. Flaubert introduz um cunho romântico, aproveitando-se do facto de um dos comandantes inimigos se ter casado com uma filha de Amílcar e este aliar-se a Cartago, elementos para imaginar uma história de paixão, ódio, vingança nesta guerra que acabou no massacre dos estrangeiros.
Salambô é uma personagem real, mas de nome desconhecido, os restantes protagonistas do romance são os famosos líderes históricos deste conflito, há batalhas e acontecimentos documentados, mas Flaubert fugiu à história para os adaptar ao seu romance. O escritor foi muito pormenorizado ao nível das descrições do armamento antigo e dos costumes dos povos de origem dos mercenários, bem como da barbárie que foi este conflito, usando uma terminologia técnica por vezes de difícil perceção que intercalou com relatos de ritos pagãos, superstições e luxo exuberante dos atos litúrgicos e das famílias dominantes, alternando assim partes de grande violência sanguinária de uma ferocidade sádica chocante, com momentos fantásticos que descrevem edifícios. roupagens e ritos pagãos onde domina o luxo de metais e pedras preciosas  e animais míticos típicos e objetos sagrados dos contos de mágicos.
Gostei da estória e aprendi história com o romance, mas confesso, para mim Flaubert foi hiperbólico ao falar da riqueza e não se conteve na descrição da violência atroz dos povos antigos que são tratados como selvagens cheios de sede de vingança geradora de um sofrimento sem limite ao seu inimigo.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Festa do Livro 2016 da cidade da Horta

Todos os anos a na celebração da Semana do Mar, sempre com início no primeiro domingo de agosto, decorre, em paralelo ao festival náutico, gastronómico e lúdico, um evento especial dedicado aos livros organizado pela Biblioteca Pública João José da Graça, antes era a Feira do Livro, depois transformou-se em Festa do Livro.
Para divulgação, junto imagem com a lista dos livros que estarão em especial promoção nos vários dias da Festa do livro neste ano de 2016 na cidade da Horta, bem como o horário e endereço deste evento cultural.


Clique na imagem para a ampliar

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"O Sol Nasce Sempre" ou "Fiesta" de Ernest Hemingway


"O Sol Nasce Sempre", também intitulado noutra edições por "Fiesta", é um dos romances mais icónicos do laureado norteamericano com o Nobel da literatura Ernest Hemingway, embora talvez, para alguns leitores, seja moralmente dos mais difíceis de digerir, tendo em conta a sua componente hedonista ou, para os mais exagerados até niilista, e é uma obra muito diferente das outras que já li deste autor, nomeadamente as duas aqui e aqui faladas.
O romance narra, na perspetiva de um elemento pertencente a um grupo de amigos americanos e ingleses, que goza a vida passando uma temporada em Paris, homens e mulheres que procuram tirar o proveito máximo da noite boémia desta cidade onde confluem artistas plásticos, escritores e "bon-vivants", sem grandes planos que não seja usufruir desta liberdade de pensamento e divertimento, do sexo e álcool que marcou os anos loucos das décadas entres as duas guerras mundiais na capital francesa.
Este estilo desemboca também em vazio e incompatibiliza-se com sentimentos humanos como o amor e paixões de momento que brotam deste convívio sem compromissos, fidelidades mais tradicionais ou perspetivas de futuro. A ânsia de novas experiências num momento de saturação do que entretanto se foi disfrutando repetidamente e até à exaustão em Paris leva parte do grupo para festas de San Fermin em Pamplona, um meio muito diferente mas vivido num mesmo estilo na loucura daquelas festividades.
De uma forma que até parece despretensiosa, pelo estilo quase jornalístico da narração, conta-se assim o estilo de vida de uma geração de jovens hedonistas que aproveitam para gozar ao máximo o dia-a-dia, sem planos para o futuro e sem a restrições que o convívio social obriga. Diria que se "On the road" de Kerouac está para a geração beatnik nos anos 1950/60, "Fiesta" está para a geração louca e despreocupada dos anos 1920/30, duas denominadas por alguns "gerações perdidas". Se o primeiro, bem mais recente, mostra muito do modo de viver do seu autor, o gosto pelo estilo de vida preferido de Hemingway está nesta sua obra e a sua paixão pela "arte" tauromáquica está magnificamente tratada neste romance que foi sem dúvida o maior cartaz de sempre daquele festival a mundialmente famosa corrida de touros de San Fermin... a "fiesta".
Para quem pense que este livro é amoral, está errado, os riscos deste hedonismo estão bem expostos sem ser necessário narrar uma história que julgue as personagens ou dê uma lição de moral. Gostei.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

"A Mulher da Lama" de Joyce Carol Oates


Acabei de ler "A mulher da lama", romance com que me estreei nesta escritora norteamericana frequentemente nomeada para o prémio Nobel da literatura.
A obra narra a vida de uma mulher abandonada pela mãe num lamaçal, resgatada por um deficiente e depois adotada por um casal que são exemplos de bondade cristã, enquanto no seu crescimento ela se mostra muito inteligente, competente e trabalhadora e consegue subir muito alto na vida, momento em que a pressão do lugar, o facto de ser mulher e os problemas de ética que os cargos de topo enfrentam, a levam a grandes dificuldades para conseguir sobreviver num mundo de homens e de interesses financeiros sem valores num período extremado entre o 11 de setembro e o início da segunda invasão do Iraque.
Gostei da escrita, com parágrafo curtos que desenrolam uma sucessão de pensamentos, sensações e descrições sempre expostos pela mente da protagonista e numa vertente muito feminina. Todavia, J C Oates utiliza por vezes uma técnica onde os receios nas situações reais da narração são prolongados por pesadelos, nalguns casos de aparência surrealista, noutros violentos, misturados com as suas questões de consciência e onde nem sempre se distingue no momento o que de facto acontece no terreno do que se passa mente da personagem central da estória, o que me provocou algum mal-estar, retarda o evoluir da trama e diminuiu o prazer que senti no começo do livro.
Apesar destas fugas, que podem ter servido para contornar o modo como a protagonista poderia resolver dados problemas, é um livro interessante sobre a sobrevivência da mulher num papel de líder na sociedade contemporânea e vale, sobretudo, por expor essa luta sentida no feminino.

terça-feira, 19 de julho de 2016

"Hereges" Leonardo Padura


"Hereges" obra recente (2015) do escritor cubano Leonardo Padura, corresponde na realidade a uma trilogia de romances num único livro que se completam e correspondeu à minha estreia neste autor e na literatura de Cuba.
O primeiro romance decorre em dois tempos: um na época entre a ascensão nazi e a revolução cubana e o outro no período de transição de Fidel para Raul Castro. A trama tem como ponto de partida o facto histórico da recusa de desembarque em Havana dos refugiados judeus da Alemanha no transatlântico São Luís ali aportado em 1939 que tornou os seus passageiros vítimas do holocausto, onde de terra teria assistido a este desenlace um filho, já ali refugiado, de um casal então impedido de entrar em Cuba que supostamente tinha um retrato de Rembrandt de um judeu a representar Cristo, p qual seria objeto de negociação com as autoridades para este alcançar a sua liberdade, só que aquelas aceitaram a obra mas sem cumprir o prometido. No segundo tempo, o neto do casal contrata o trabalho de um detetive (personagem que é comum a muitas obras de Padura), ex-polícia, para não só investigar um possível crime de vingança do seu pais contra os corruptos que deixaram morrer os avós, como sobre o possível percurso do quadro.
O segundo romance recua ao tempo de Rembrandt e passa-se em Amesterdão, onde o quadro foi pintado, e narra a vida do modelo do retrato, um jovem sefardita vocacionado para a pintura, profissão interdita aos judeus que sofre as consequência da sua transgressão num período igualmente contemporâneo de outro genocídio judaico que está na origem da entrada do quadro na família do casal morto às mãos dos nazis. Esta relato está ligado a Portugal e à perseguição judia do tempo da imposição da conversão ao cristianismo de onde era originária a família deste discípulo do pintor.
O terceiro romance volta a Havana já no tempo de Raul Castro e é outra investigação do mesmo detetive sobre um desaparecimento de uma jovem, inteligente e culta, revoltada com o vazio da sociedade contemporânea e a corrupção em Cuba, só que novamente este caso vai-se cruzar com a família judaica proprietária do retrato, fechando assim um ciclo que é a saga desta família judaica e deste ficcionado trabalho de Rembrandt.
Este livro tem muito mais que um romance policial ou um histórico, serve de mote para falar da luta contra a opressão e da liberdade de pensar e de escolha das pessoas, os riscos de quem optar por se livrar destas amarras impostas pela política ou pela religião, desta forma torna-se evidente a analogia entre as perseguições ideológicas, os objetivos destas, a corrupção social na sociedade atual e a desilusão de quem acredita em messias como salvação no mundo, isto escrito numa Cuba que não é um exemplo de liberdade de pensamento e de ação, de cujos vícios dos últimos 80 anos são  expostos de uma forma mais ou menos direta, tornando-se assim numa estratégia inteligente de denúncia, não só do sistema que ali se desenvolveu e o antecedeu, como também do mundo contemporâneo ocidental teoricamente livre e garante de um futuro promissor.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O Meteorologista" de Olivier Rolin


O livro "O Meteorologista" do escritor francês contemporâneo, Olivier Rolin, apesar de possuir na capa o termo: "ficção"; não é, nem uma biografia de uma personagem histórica ficcionada, nem um relato de um acontecimento real exposto em forma de romance, mas sim, uma espécie de relatório com a exposição da vida de um cientista russo, Alexei Vangenheim (ou Wangenheim), que liderou a investigação meteorológica na URSS entre as duas grande guerras, foi um comunista convicto e uma vítima do genocídio do período estalinista, sem se saber exatamente a verdadeira causa da sua condenação e que curiosamente enquanto preso desenhou um conjunto de quadros didáticos que remeteu à sua pequena filha os quais estão anexos ao livro que por si só merecem uma observação atenta.
A obra baseada em investigação do autor e de terceiros, encontra-se intercalada com reflexões do escritor, interpretações hipotéticas sobre o seu período de deportado, considerações sobre a época e uma análise final sobre o sonho que foi a revolução russa e a desumanidade que esta trouxe através do terror que destruiu o próprio objetivo. do comunismo soviético. O texto, embora sem deixar de ser o de um relato, está trabalhado literariamente e cuidado, havendo numerosas metáforas, referências a ideias lançadas por romances clássicos e questões filosóficas e excertos das cartas do Meteorologista e de documentos oficiais do seu processo ou que o enquadram na época. Apesar de tudo e da crueldade do acontecimento lê-se com um prazer e com grande facilidade, compreendendo-se porque Rolin é um dos escritores e romancista da atualidade francesa já com diversos prémios pela qualidade das suas obras.
Curiosamente, em investigação na internet, eu descobri que Rolin ideologicamente é ele mesmo um comunista maoista... outro campo sobre o qual seguramente há muito a investigar para se compreender como também a revolução cultural contribuiu para a destruição do mesmo sonho ideolgógico. 
Mesmo sem ser um romance, gostei muito de ler este livro que me deu o mesmo prazer como se fosse uma obra de ficção e as análises políticas e sociais que são feitas sobre o comunismo, o estalinismo e o Meteorologista não são feitas de uma forma ideológica para atacar o que está na base desta ideologia. Recomendo a qualquer leitor que goste de boas leituras e fáceis, independentemente de serem ou não ficção.

sábado, 2 de julho de 2016

"O Grande Gatsby" de F. Scott Fitzgerald


Acabei de ler "O Grande Gatsby" de F. Scott Fitzgerald e fui surpreendido pelo conteúdo e mensagem subliminar da obra. Confesso que, apesar de muito ouvir falar deste romance, considerado um ícone da história da literatura dos Estados Unidos, nunca procurei saber a sua história, pois quando vi cartazes e thraillers das suas adaptações cinematográficas hollywoodescas, cheio de imagens feéricas e percebendo eu que se passava nos loucos anos 1920, pensava que se estaria numa história sobre a loucura daqueles tempos misturada com dinheiro de gangsters do período da lei seca.
Afinal eis que me saiu o desenrolar da paixão de um Gatsby que foi pobre por uma menina de rica que mostra quanto é falível o recurso ao enriquecimento e à ostentação social para reconquistar uma paixão ou recuperar o tempo perdido para o amor numa sociedade oca que se aproveita do momento, mas sem nenhuma profundidade moral para além da sobrevivência e onde o protagonista se tornou na grande vítima deste engano. Uma história maravilhosamente escrita, que se serve de um retrato de época para dizer muito mais que lá está escrito nas suas não muito numerosas páginas. Gostei e recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 28 de junho de 2016

"O Que Diz Molero" de Dinis Machado


"O Que Diz Molero", o originalíssimo e famoso romance de Dinis Machado, foi uma das obras de maior sucesso de vendas no último quartel do século XX em Portugal e rapidamente traduzido para vários países da Europa, de facto não conheço nenhum livro que lhe seja semelhante.
Dois homens, Austin e DeLuxe, dissertam ao longo de todo o romance com base no relatório de Molero relativo à investigação que lhe fora encomendada sobre a vida de uma personagem: "o rapaz", que nasceu num bairro popular de uma família problemática, cresceu na rua como gaiato cheio de aventuras com os seus pares e depois correu continentes dissertando sobre Miró, amando inúmeras mulheres, produzindo poemas e em busca da palavra, da arte literária e talvez de um motivo para a sua existência ou de conseguir produzir uma obra maior que o tornasse merecedor de uma estrela na constelação celestial dos grandes artistas  e pensadores da história da humanidade.
Apenas há a dissertação dos dois intervenientes numa sala e conduzida por Austin, sempre fundamentada no relatório de Molero, onde constam aspetos concretos e reflexões e interpretações sobre o rapaz. Isto feito através de uma escrita com poucos parágrafos, estes por vezes distam várias páginas e mesmo assim num texto cheio de criatividade e de descrições, por vezes hilariantes sobre os acontecimentos vividos pelo rapaz, o único não merecedor de um nome ou alcunha. Existem passagens de uma hilaridade tal que se tornam difíceis de ler, tal o gozo que provocam nos relatos as tropelias e maldades dos intervenientes, sobretudo os miúdos de rua no bairro, mas descritos com um seriedade estóica com base no relatório o que lhe dá um tom quase científico. Outros partes com reflexões sobre a arte, sobretudo a arte da palavra e do cinema, têm um ambiente mais etéreo de criação literária, com frases que alimentam um exposição surrealista, simbolista, mas intercalada com extensos pormenores triviais o que dá uma configuração estranha ao texto.
A verdade é que este romance é um murro de escrita criativa cheio de paródias expostas de uma forma séria, nostalgia sobre algo que talvez não exista e um humor requintado e culto que por vezes toca o sentimentalismo animal e outras num romantismo quase religioso, mágico e ascético. Todavia só é uma obra fácil para quem está habituado a ler e se diverte com a arte de brincar com a escrita.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CONTOS - Volume I Tchékhov


Acabei de ler o primeiro volume de uma extensa série de livros de uma coleção que procura reunir os Contos de Tchékhov, tendo também sido esta a minha entrada neste escritor famoso pelas suas curtas narrativas.
Para já Tchékhov apresenta nesta tradução direta do russo uma escrita muito límpida, que apesar de simples, consegue exprimir e descrever com uma grande intensidade e pormenor sentimentos, personagens, paisagens, cenas e tensões sociais.
A generalidade dos contos não têm finais felizes, antes denunciam problemas de injustiça e condutas desviantes dos protagonistas que acabam mal que mostram os problemas da sociedade russa altamente estratificada do século XIX. Contudo, pela estética do texto, estas histórias curtas e tristes não deprimem o leitor, antes pelo contrário, o escritor soube temperar com a quantidade certa de ironia e sarcasmo para que se tire prazer da leitura enquanto o coração vai descobrindo o retrato amargo que está a ser exposto e a beleza do texto permite ainda desfrutar com gosto a leitura.
Tchékhov tinha uma grande sensibilidade para a métrica nas suas narrativas, por isso tem-se a sensação plena de contos com a extensão exata e necessária para se expor a história sem sentir que a mesma acaba demasiado depressa ou se estende por palavras a mais e isto mostra a genialidade literária do escritor neste género de escrita. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Férias: Roma o regresso à cidade Eterna

Roma vista da cúpula do Vaticano

Uma revisita a Roma, esta cidade fascinante no trajeto de regresso, talvez a cidade com maior riqueza patrimonial de valor artístico do planeta, falei de Roma quando da anterior visita em 2009 aqui e aqui. Desta vez não penso passar grande tempo em museus e templos, apenas se possível saborear e observar a vida em Roma, pode ser que me surpreenda agora de um modo diferente, o que uma exploração muito programada não permitia.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Férias: Pozzuoli a cidade no vulcão que sobe e desce Campi Flegrei




Hoje é o dia de visita a Pozzuoli, uma antiga cidade à beira-mar, anterior ao Império Romano a oeste de Nápoles, com muitos património da antiguidade, que se situa dentro de uma caldeira costeira, parcialmente submarina de um grande vulcão: Campi Flegrei ou Campos Flegreanos, é mais um dia que junta férias e geologia.
Tal como acontece em muitos edifícios de vulcões ativos, estes tem a particularidade de ao longo do tempo se deformarem, havendo zonas que ora sobem ou descem, cone vulcânico como que "incha" ou "encolhe", inflação ou deflação, em função de movimentos do magma sobem ou descem dentro do edifício. Ora como esta caldeira se situa na costa parte dos edifícios costeiros e o porto ficam expostos a serem ora galgados ora a assistirem ao recuo das águas, transgressão e regressão, assim com o decurso dos anos, as ruínas romanas da foto que foram construídas em terra, já estiveram parcialmente submersas e agora estão emersas e bem acima da água, mas com sinais de erosão marinha, tal como já ocorreram portos que ficaram acima ou submersos pelo mar.
Em torno desta cidade existem ilhas resultantes de cones vulcânicos dentro da caldeira mas dentro do mar, bem como zonas dispersas com fumarolas, a mais conhecida é Solfatara, algo do género do que se observa nas Furnas em São Miguel e onde também se fazem cozidos enterrados no solo.
Pozzuoli é rica em piroclastos vulcânicos com grande percentagem de sílica, composição química que os romanos descobriram servir para produzir uma argamassa útil à construção civil: cimento (concreto no Brasil). Esta matéria-prima tem agora o nome de pozolana devido ao nome desta cidade, e muita da grandeza arquitetónica do Império Romano resulta desta descoberta, sendo o Panteão Romano o exemplo máximo da antiguidade do engenho do homem na construção de um grande monumento com cimento.
O mesmo observatório que acompanha a atividade do Vesúvio também monitoriza o vulcão de Campi Flegrei e sem dúvida esta é uma cidade muito exposta aos riscos vulcânicos e uma erupção deste pode igualmente afetar significativamente Nápoles, embora pelo impacte paisagístico do Vesúvio popularmente poucos de lembram que os Campos Flegreanos constituem um dos complexos vulcânicos mais perigosos da Terra. 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Férias: Pompeia - A cidade luxuosa soterrada pelo Vesúvio


Hoje é o dia que dediquei à visita da cidade de Pompeia que a erupção do Vesúvio no ano de 79 DC soterrou  completamente e está hoje a ser exposta através de escavações arquelógicas que mostram aos visitantes a dimensão, a riqueza e o estilo de vida desta povoação de luxo, onde muitos romanos ricos vinham então passar períodos de repouso tal como hoje o fazem em muitas estâncias de férias.
Desta erupção resultou um texto com uma descrição de grande pormenor feita por um observador atento: o filósofo Plínio o jovem; Plínio o Velho, seu tio, foi então uma das vítimas do Vesúvio, o que permitiu aos geólogos saberem com grande pormenor o evoluir dos acontecimentos  e caracterizar o estilo eruptivo com um nome em honra deste sábio: Atividade Eruptiva do Tipo Pliniano, uma das mais perigosas pelas explosões que tem associadas e projeção de piroclastos quer sob a forma de queda de pedra-pomes ou de cinzas, quer sob a forma de escoadas piroclásticas de grande velocidade dos mesmos materiais capazes de soterrar vastas zonas, em Pompeia muitas das vítimas vaporizaram-se pelo calor, mas deixaram os moldes na cinza vulcânica e são hoje um dos elementos observáveis na estação arqueológica que é Património da Humanidade
Recordo que no Faial a formação da Caldeira resultou de uma erupção do tipo Pliniano que descrevi neste post no tempo em que este blogue dedicava grande parte da sua temática à Geologia.
Para esta cidade em concreto, fica abaixo um filme das suas últimas 24h e dá para perceber não só a erupção que num dia destruiu Pompeia, como compreender o facto de a mesma ter ficado perdida até ao século XVIII, quando ocasionalmente foi redescoberta.



Se não visualizar o vídeo no post, observe no Youtube aqui
Espero ter possibilidade de ainda postar fotografias do que observei no terreno nestas férias em Pompeia.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Férias: Nápoles Campânia - Primeiras Impressões


Após um primeiro impacto de a cidade me ter recebido sujíssima ontem, durante a noite Nápoles limpou-se e hoje tem sido uma surpresa agradável.


Famosa pelo seu Bairro Espanhol, um género de Bairro Alto, mas muito mais extenso, abundam ruas estreitas, lambretas, roupa a secar, portas despudoradamente abertas para a moradias do rés-do-chão.


Espaço de venda de tudo espalham-se pelas ruelas e o trânsito é do desenrasca, sinais e peões são objetos a contornar com perícia, mesmo assim parecem evitar chocar com as pessoas, mas passeios e tudo mais são espaços a transitar e passadeiras e semáforos são decoração a ignorar.


Monumentos não abundam, Castel Nuovo, Palácio Real, Duomo com o tesouro de São Januário e o seu sanguem que liquefaz-se em dias específicos e o interior luxuoso de Jesus Novo, quase esgotam uma cidade densamente povoada, barulhenta e castiça tem um ambiente muito diferente da luxuosa Milão ou da monumental Roma e Florença, mas vale a pena a visita.


Ainda houve tempo para sair de Nápoles e visitar Herculano, soterrada por escoadas piroclásticas que preservaram muitas casas na erupção do ano 79 do Vesúvio, vendo-se ainda tetos, madeiras e até uma fornada de pão fossilizados.