terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad


Há livros que nunca será demais ler e reler numerosas vezes que sempre terão algo de novo para nos questionar ou dizer, "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad é um desses livros. Um pequeno romance, cujo conteúdo é enorme e por mais que se leia, levantará sempre novas perguntas sobre até onde pode ir o fundo negro do homem na exploração e no desprezo pelo outro.
Um livro inquietante onde um Europeu, Marlow, relato o que viu ao navegar pela floresta primitiva através do rio Congo para ir buscar alguém que estava no posto mais distante da companhia que abastecia a Bélgica de marfim e se tornara incómodo.
O relato mostra o que homem civilizado e moderno é capaz de fazer a um povo, que representa a origem da humanidade na floresta primitiva, para satisfazer os seus interesses e sem dar qualquer importância à vida e ao bem-estar do seu semelhante e como este escravizado ainda é capaz de se humilhar ao serviço deste super-homem de valores e princípios que o explorou.
Uma obra aproveitada para as partes mais inquietantes do filme de Coppola "Appocalipse Now", com uma descrição forte, cinematográfica, com uma escrita moderna apesar de ser de 1902 e cheia de interrogações subtis, colocadas pelas dúvidas e consciência de Marlow.
Mais grave ainda é descobrir como alguém com o sonho de civilizar o povo da floresta se transforma num deus do mal depois de todo o horror que viu no rio Congo. Uma obra de arte, incómoda, que agita a consciência, feita para pessoas que se interrogam mas também para aquelas que se deixam enganar por este Europeu de valores que abolira a escravatura que deve ser lida várias vezes na vida.

sábado, 24 de janeiro de 2015

"O vermelho e o negro" de Stendhal


"O vermelho e o negro" de Stendhal, pseudónimo de Henri-Marie Beyle, escrito em 1830, poucas décadas depois da revolução francesa por um bonapartista convicto, é um romance que possui uma estrutura característica do século XIX, a limpidez da escrita, a linearidade da história e capítulos intitulados seguidos de frases ou citações que nos introduzem no conteúdo dessa divisão da obra, possui também um conjunto de pormenores que o distanciam do romantismo e o colocam como precursor do realismo. A análise social omnisciente do autor coloca virtudes, defeitos e contradições em todas as classes sociais e as personagens possuem todas essas características, não havendo bons perfeitos e maus apenas diabólicos, o clero é constituído por pessoas que encerram todos os vícios da sociedade e digladiam-se para conservar o poder individual terreno e egoísta.
Stendhal desenvolve uma trama onde o ainda adolescente Julien Sorel, de origem humilde é marcado pela ambição como marca do estrato baixo que olha para os outros sentido-se em desvantagem por condições de nascimento, o que lhe perturba as paixões. Os burgueses e nobres lutam para garantir o seu estatuto social, os primeiros ascendendo com a revolução e os segundo em declínio desde da monarquia e sentem-se com direitos adquiridos e olhas as pessoas como peças do seu xadrez. As suas mulheres de sociedade são escravas dos seus sentimentos e não se limitam aos seus iguais, são capazes de ver em Sorel um amante a esconder. Tudo isto gera conflitos, ora os novelescos do amor, ora sociais e políticos, onde o protagonista inseguro procura a ascensão numa idade imatura das paixões, tornando-se vítima desta rede de interesses.
Se podemos ver uma história de paixões, existem numerosas subtilezas e críticas sociais ao século XIX e ruturas com a ética e a moral prevalecente no passado, pelo que o romance vai muito além do amor para se tornar numa profunda análise e retrato pensado da sociedade francesa contemporânea de Stendhal, o que o torna numa obra-prima no seu género, cheio de ensinamentos e agradável de se ler. Gostei muito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Viagem ao fim da noite" Céline


Apesar de ser um bom romance não posso dizer que "Viagem ao fim da noite" de Louis-Ferdinand Céline virá a ser um dos livros da minha vida.
Um protagonista, Bardamu, que começa por relatar como foi o seu alistamento no exército francês para a I Grande Guerra, que nos mostra magistralmente o absurdo desta, pois o cidadão do povo é mera carne para canhão útil às classes dirigentes, que não lhe reconhece qualquer outro valor, motivo que poderia justificar a sua fuga, transforma-se depois numa quase história da sua vida de fugas para a frente, não planeada e onde por norma as pessoas com que se cruza, tal como ele, são covardes, egoístas e apenas motivadas por dinheiro ou pelas hormonas que dão vida ao baixo-ventre, consequentemente as deceções são sucessivas ao longo das situações em que se vai envolvendo.
Poder-se-ia considerar uma obra de protesto ou descontentamento com a sociedade, mas também nenhuma personagem da obra serve de contraste para apontar caminho, por isso a viagem é negra e mergulhada na escuridão da noite, a loucura resulta da rotura da luta entre o mau ser que somos e aquele que temos de mostrar socialmente, tornando-se assim mais numa obra de contracultura do que formativa.
A escrita tem uma pontuação e sintaxe por vezes desconcertante, o uso de calão nem sempre é necessário, pelo que a obra valeu sobretudo para conhecer uma dos escritores mais polémicos do século XX em França.

domingo, 4 de janeiro de 2015

"O retorno" de Dulce Maria Cardoso


"O retorno", de Dulce Maria Cardoso, corresponde ao desfilar da vida de um adolescente de 15 anos durante a vinda de Angola da sua família para Portugal como consequência da revolução do 25 de Abril de 1974, da descolonização e da entrada da guerrilha em Luanda, isto depois das boas memórias do que tinha sido os seus últimos tempos naquela colónia.
O romance mostra, dura e cruamente, o desagrado que foi para a comunidade de retornados a Revolução dos Cravos e os preconceitos raciais que se avolumaram neste período de instabilidade social, isto aos olhos de um adolescente cuja sexualidade desperta e tem dificuldade em compreender tudo o que está a acontecer à sua volta: o desenraizamento da sua terra natal, a descoberta do líbido, a entrada num Portugal que lhe é totalmente estranho e a desconfiança do Povo que os acolhe e ingenuamente os culpa de comportamentos coloniais numa época em que a esquerda não tinha qualquer pudor em se impor a todos.
A escrita, sem uso de vários sinais de pontuação e onde os diálogos e os pensamentos surgem encadeados dentro dos parágrafos, desenvolve-se a um ritmo acelerado dos acontecimentos, sem esconder que se está perante um grupo vítima inocente do 25 de Abril que passou dificuldades e enfrentou a crueldade dos lusitanos quando tanto falavam de liberdade e de direitos. Gostei da obra e recomento, apesar da dureza de algumas expressões, pois fez-me recordar muitos dos desabafos de retornados com que então convivi e mostra que a revolução de facto, numa fase inicial pelo menos, não foi positiva para todos os cidadãos deste Portugal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"A Leste do Paraíso" de John Steinbeck

"A leste do Paraíso" de John Steinbeck é um romance cheio de mensagens subliminar tendo como base a vida de três gerações de duas famílias que no final do século XIX se cruzam no vale do Salinas na Califórnia. Uma é a do próprio escritor, os Hamilton, que cresceu do idealismo desinteressado e humano do seu patriarca imigrante. A outra, ficcionada, os Trask é progressivamente marcada pela luta entre a bondade e a maldade e a possibilidade de uma pessoa vencer o mal que há em si.
Steinbeck serve-se do relato bíblico do fraticídio de Abel por Caim e da oportunidade deste em se reabilitar do seu crime, refugiando-se a Leste do Paraíso, para evidenciar que a recusa do idealismo em aceitar o mal pode ser causa de rejeição de quem necessita de se reabilitar, mas cabendo a este a responsabilidade de escolher o bem.
Apesar da filosofia subjacente, a obra é muito acessível, está brilhantemente escrita, as personagens cativam o leitor, a trama é muito bem construída e o fio da história mantém um interesse continuado mesmo quando intercalado de informações históricas da época que vai desde a guerra dos Estados Unidos com o México à I Grande Guerra Mundial. Um romance magnífico que recomendo a qualquer leitor e dá para perceber a genialidade de Steinbeck, o vencedor do prémio Nobel da literatura de 1962.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Votos de FELIZ NATAL

Imagem extraída daqui

Geocrusoe deseja a todos os leitores deste blogue espalhados pelo mundo, tanto interessados em ciências da Terra como em livros ou com outros gostos, que tenham um Feliz Natal e aproveitem esta quadra para presentear os amigos com bons livros dos mais variados géneros.

domingo, 21 de dezembro de 2014

"Mataram a Cotovia" de Harper Lee

"Mataram a Cotovia" de Harper Lee, é um livro ao estilo de memórias da infância de uma menina que vai descobrindo os contrastes entre a população da sua pequena cidade no Alabama, marcada pelo racismo e o segregacionismo, e o comportamento do seu pai, advogado, viúvo cheio de valores humanos e defensor da equidade de todas as pessoas, que procura incutir de forma inteligente estes valores nos seus filhos.
O objetivo do progenitor poderia ser conseguido sem sobressaltos não fosse ele nomeado defensor de um negro contra uma acusação de um homem branco pertencente a uma família desestruturada de valores, passando então o advogado a lutar pela justiça, contra o preconceito social e ainda na garantia da proteção dos seus filhos nesta tempestade.
O romance, embora relatado pela mente de uma criança, tem uma escrita muito poética e os valores vão sendo descobertos de uma forma progressiva e até mesmo a crítica ao comportamento coletivo é temperada pelo bom senso, compreensão e exposição de algumas pessoas que educam a protagonista, sobretudo o pai. O livro é uma obra prima, marcante e foi prémio Pulitzer de 1961 e de facto é uma obra maravilhosa que recomendo a todos.

domingo, 14 de dezembro de 2014

"Os luminares" de Eleanor Catton


"Os Luminares" da neozelandesa Eleanor Catton é um romance de ficção e entretenimento com recurso ao suspense em torno de um crime ocorrido numa cidade recém-criada pela corrida ao ouro na Costa Ocidental da Nova Zelândia em meados do século XIX.
A obra, extensa (884 páginas), com uma caracterização física e psicológica profunda das personagens, apresenta uma escrita muito cuidada, rica e tradicional. O texto possui uma estrutura semelhante à dos romances ingleses e franceses característica da época em que se desenrola a estória, com vilões, prostitutas, ingénuos, vinganças, crimes, pesquisas criminais, julgamentos em tribunal e paixões num mundo onde as mulheres são uma raridade. As pistas vão sendo expostas com o desenrolar do enredo, mas apenas se esclarecem as dúvidas com um regresso aos antecedentes do crime na última parte do livro que vai até à exposição no final.
"Os Luminares" foi prémio de ficção Governor General 2013 no Canada, destinado a autores residentes ou nascidos neste País, como também Man Booker Prize 2013, entregue a obras escritas em inglês na Commonwealth. Nem sempre estes galardões correspondem a obras que me agradem pela positiva, mas neste caso fiquei muito bem impressionado, tendo ainda em conta a maturidade da escrita numa jovem então com 27 anos e o talento demonstrado, o que evidencia que se podem fazer bons romances atuais sem cortar com a tradição de escrita e estrutura literária clássica. Gostei muito e recomendo a todos a leitura.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Quincas Borba" de Machado de Assis


Apesar de Quincas Borba ser uma personagem fictícia introduzida no primeiro romance dos dois de Machado de Assis contidos neste livro, na realidade "Quincas Borba" é uma obra bem diferente no modo de escrita e na estrutura de "Memórias póstumas de Brás Cubas".
Agora não se está perante as memórias ou uma autobiografia do protagonista a qual envolve uma paixão de infidelidade conjugal, mas sim do relato exterior da vida do herdeiro do filósofo rico e criador do "Humanitismo" Quincas Borba: o professor rural Rubião e guardião do cão "Quincas Borba", homónimo do seu primeiro dono para lhe preservar o nome após a sua morte que opta por passar a viver na capital Rio de Janeiro.
Igualmente escrito com humor e ironia sobre os comportamentos sociais e políticos na capital, onde não falta uma paixão de Rubião, mas agora não satisfeita, mas também existe o problema da identidade e alienação psicológica do protagonista, a garantia de fidelidade do cão e duvidosa de Sofia, os amigos verdadeiros e os oportunistas de ocasião. Uma obra que penso mais madura e profunda, o romance de Machado de Assis que mais gostei. Recomendo a qualquer leitor tipo de leitor que goste de ficção pela facilidade de leitura e qualidade da sua escrita.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis


Acabei de ler o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis, o escritor brasileiro que para a mesma época se encontra em termos de importância ao nível de Eça de Queirós.
Na estrutura é um romance autobiográfico em estilo de memórias pessoais de Brás Cubas com a originalidade literária deste as escrever após a sua morte, embora sem referências à sua vida no além. Em termos de estilo e forma, apesar de anterior em cerca de 20 anos, este romance tem uma construção semelhante ao "Dom Casmurro" do mesmo autor já postado neste blogue, diferindo pelo seu maior distanciamento ao mundo religioso, maior proximidade à realidade política e pelo facto de agora o protagonista não ser a vítima de traições mas sim assumir o papel oposto.
Um romance cheio de ironia e humor, brilhantemente escrito, com retratos e algumas reflexões sobre o estilo de vida na cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século XIX, cujo texto se presta sobretudo ao prazer e entretimento suave do leitor. Gostei, mas não tem a riqueza e a imaginação criativa e de análise do comportamento humano de "O alienista".
O livro prossegue com outro romance de Machado de Assis: "Quincas Borba", personagem que já aparece em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e que agora penso descobrir nesta obra escrita 10 anos mais tarde.

domingo, 23 de novembro de 2014

"A Selva" de Ferreira de Castro

Acabei de ler "A Selva" de Ferreira de Castro, talvez o romance com maior sucesso editorial internacional de um escritor português na primeira metade do século XX e compreendi agora a razão por que se tornou tão famoso esta obra de ficção mas parcialmente baseada nas memórias da vida do autor.
Um romance com um texto muito bem escrito, fácil e acessível a qualquer pessoa, uma história simples que apela aos valores humanos e denuncia a exploração do homem pelo homem sem defender nenhuma ideologia em concreto, uma descrição da floresta amazónica com uma densidade, qualidade e plasticidade visual difícil de igualar, sendo a selva a verdadeira protagonista da obra.
No romance a vida brota da Amazónia no seu potencial máximo e por isso a selva é também uma cooperante assassina na luta pela sobrevivência, os nativos surgem como o povo ameaçado no seu território que se defende perante os recém-chegados que não os sabem acolher sem os descaracterizar, o homem surge como o principal inimigo de si mesmo, independentemente da sua classe ou etnia e a personagem principal é o sonhador que vê as suas crenças desmoronarem e renasce diferente com projetos de futuro.
Ferreira de Castro, para muitos o iniciador do neorrealismo, escreve uma obra fácil e ao mesmo tempo densa, que desperta prazer e curiosidade de leitura, mas cheia de imagens fortes que divulgam a Amazónia, a história da exploração desta terra pelos europeus, a vida difícil dos seringueiros na obtenção do latex no pós-primeira grande guerra mundial, o choque de mentalidades, o aproveitamento dos mais fracos e a sua desunião e um apelo pelo valores para que o homem não seja o algoz do outro homem. Um grande romance que recomendo a qualquer leitor.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"O Alienista" de Machado de Assis

O conto "O Alienista", onde o Dr. Simão Bacamarte estuda cientificamente alienados, escrito por Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil e filho de uma Açoriana, talvez seja a gema literária escrita na língua portuguesa mais brilhante no género de alegoria ou parábola. Uma história divertida e irónica, cheia de crítica social implícita e mordaz para com o ser humano, independente da sua classe, profissão ou grau de formação.
Na edição da Porto Editora, brilhantemente ilustrada, este conto ao nível de originalidade e de crítica nada fica atrás de "Animal Farm" de George Orwell, tendo sido escrito várias décadas antes, o que mostra o valor literário e a rica imaginação do seu autor.
Neste mundo ser alienado não será tentar sobreviver com uma vida de virtudes numa sociedade desequilibrada, egoísta e cheia de oportunistas? É esta a interrogação ou a descoberta do alienista ao tentar recolher e tratar os doentes psicóticos da sua cidade e ao perceber o comportamento individual e coletivo desde os seus habitantes mais humildes até às suas gentes mais importantes. 
Um pequeno livro que é uma obra-prima, divertida, de fácil leitura e brilhantemente escrito, mas que convida a uma grande reflexão. Um conto que recomendo a todos a sua leitura e para o qual nunca será tarde, nem cedo para se ler, tanto na adolescência como na velhice e sempre uma fonte de prazer.

domingo, 16 de novembro de 2014

"Mar Morto" de Jorge Amado

Jorge Amado em "Mar Morto" expõe a vida arriscada e miserável dos homens do mar ligados ao saveiros de São Salvador que uniam pela água as cidades na baía de Todos-os-Santos e do rio Paraguaçu nos anos de 1930. O romance é escrito de forma poética e destaca o sofrimento das mulheres destes homens devido à grande incerteza de garantias do seu futuro e dos seus filhos devido à grande probabilidade de perda dos seus maridos no mar.
O escritor utiliza o amor entre Guma, saveireiro, e Lívia, criada na cidade, para intensificar esta realidade e evidenciar os contrastes entre os pobres do bairro do porto e certos exploradores urbanos.
O livro vale muito pela forma poética do texto e também pelo retrato social, pois que a trama não tem a força de outras obras maiores passadas do autor neste Estado da Bahia, mas a obra dá imenso prazer à leitura devido à riqueza literária da sua prosa. Gostei e recomendo.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

"A Grande Arte" de Rubem Fonseca


Poucos livros do género policial e banditismo têm a genialidade de conjugar as grandes emoções deste tipo trama e ser em simultâneo uma obra de arte literária que deveria ser de culto. Rubem Fonseca consegue em "A Grande Arte" fazer uma paródia cheia de ação e referências culturais ligada ao submundo do crime, prostituição, narcotráfico e advocacia de investigação com um protagonista do tipo herói falhado, exceto na sua obsessão e sucesso com as mulheres, mas que gera simpatia no leitor, e criar um romance que é uma obra-prima.
Esta edição tem um prefácio de Francisco José Viegas e um posfácio de Vargas Llosa que fundamentam perfeitamente por que este romance violento, divertido e de puro entretimento deve ser de facto uma obra de referência no seu género.
Rubem Fonseca na sua escrita fria e do género reportagem acelerada, memórias e algumas brejeirices, intercalada de expressões irónicas e de riqueza cultural, cria uma trama única e que mostra como se transforma uma temática para muitos considerada menor num romance de nível literário superior do melhor ou o melhor que já li no género, que justifica o escritor ter o prémio Camões e  valoriza a literatura escrita em Português. Um livro recomendável e acessível a qualquer leitor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"O século primeiro depois de Beatriz" de Amin Maalouf


"O Século Primeiro depois de Beatriz" do libanês Amin Maalouf é um romance escrito em forma de crónica/memórias de um idoso sobre uma época futura e distópica em resultado não da explosão demográfica que tememos mas de um controlo artificial da natalidade que favorecia o nascimento de rapazes em detrimento das raparigas para satisfazer os anseios e as preferências históricos radicadas em muitos homens em várias sociedades.
Tirando proveito do desequilíbrio na relação entre os dois géneros surgido nesse período, Amin Maalouf faz uma intensa denúncia de muitos dos defeitos da atual sociedade global: desde a desigualdade norte/sul, o racismo, os complexos entre povos colonizadores e colonizados do passado, os mecanismos políticos de controlo de etnias, ditaduras africanas e oportunismos dos dirigentes das nações e, apesar de negritude do ambiente social, é em simultâneo uma homenagem cheia de ternura à mulher no seu papel de companheira, filha e estabilizadora da paz no seio da humanidade face à prevalência das tendências violentas no género masculino.
Tendo sido escrito há cerca de 20 anos, é interessante ver que a obra é anterior ao domínio da internet e da computação na sociedade, aspeto que o autor na previu, pelo que apesar de se retratar uma sociedade futura à data da obra esta decorre no primeiro quartel do século XXI que já vivemos, mas os mecanismos de difusão e de comunicação entre as pessoas no livro são os tradicionais do final do século XX, mas os vícios denunciados são bem atuais. Um livro que gostei e recomendo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"Os transparentes" de Ondjaki


Editora Caminho

"Os Transparentes" de Ondjaki é uma espécie de retrato da vida de Luanda pós-guerra civil em estilo que se pode dominar como uma versão de realismo mágico africano e com uma exposição do "linguajar" daquela cidade de Angola. Aqui se cruzam etnias das várias províncias do País, memórias e feridas dos tempos violentos, inequidade social, corrupção, domínio absoluto e demagógico do poder político instalado e uma estratégia típica de sobrevivência que gera uma mistura cultural muito original e brilhantemente exposta no romance.
Ora irónico, ora sarcástico e por vezes sentimental e triste, o romance desenrola-se sobretudo em torno das pessoas que vivem e se cruzam num prédio de apartamentos no bairro da Maianga com níveis culturais, profissões e estilos de vida diferentes que serve de denúncia da maioria dos problemas da cidade.
Possui uma escrita criativa que caracteriza uma tendência dos tempos atuais, em que existe uma vontade de experimentalismos na redação do texto em termos de ortografias, pontuações e uso de maiúsculas que se pode gostar ou não, mas que neste caso não me parece acrescentar ou tirar o interesse que a narração intrinsecamente possui. Gostei do livro, o qual é de fácil leitura a qualquer pessoa.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

"Agosto" de Rubem Fonseca


"Agosto" de Rubem Fonseca é uma viagem alucinante que mistura factos reais e ficcionais de jogo, corrupção, crime, política, prostituição e investigação criminal ao longo do mês que desembocou no suicídio do Presidente do Brasil Getúlio Vargas.
Escrito numa linguagem popular e sem almofadas para suavizar o choque da frieza dos comportamentos criminosos e do enredo e interesses partidários, o autor traça vários retratos que mostram as diversas realidades do que foram aqueles dias de crise política na violenta cidade do Rio de Janeiro, onde a vida humana pouco vale, tanto para autoridades públicas, como para redes do submundo e onde a honestidade e os princípios nas pessoas correspondem à situação de exceção.
Rubem Fonseca não faz julgamentos de forma direta, apesar de o desajustamento social do protagonista e honesto comissário servir de contrapeso de reflexão sobre a sociedade. O livro lê-se de rajada, tal como são atirados de forma sucessiva o evoluir dos acontecimentos daqueles dias.