domingo, 14 de dezembro de 2014

"Os luminares" de Eleanor Catton


"Os Luminares" da neozelandesa Eleanor Catton é um romance de ficção e entretenimento com recurso ao suspense em torno de um crime ocorrido numa cidade recém-criada pela corrida ao ouro na Costa Ocidental da Nova Zelândia em meados do século XIX.
A obra, extensa (884 páginas), com uma caracterização física e psicológica profunda das personagens, apresenta uma escrita muito cuidada, rica e tradicional. O texto possui uma estrutura semelhante à dos romances ingleses e franceses característica da época em que se desenrola a estória, com vilões, prostitutas, ingénuos, vinganças, crimes, pesquisas criminais, julgamentos em tribunal e paixões num mundo onde as mulheres são uma raridade. As pistas vão sendo expostas com o desenrolar do enredo, mas apenas se esclarecem as dúvidas com um regresso aos antecedentes do crime na última parte do livro que vai até à exposição no final.
"Os Luminares" foi prémio de ficção Governor General 2013 no Canada, destinado a autores residentes ou nascidos neste País, como também Man Booker Prize 2013, entregue a obras escritas em inglês na Commonwealth. Nem sempre estes galardões correspondem a obras que me agradem pela positiva, mas neste caso fiquei muito bem impressionado, tendo ainda em conta a maturidade da escrita numa jovem então com 27 anos e o talento demonstrado, o que evidencia que se podem fazer bons romances atuais sem cortar com a tradição de escrita e estrutura literária clássica. Gostei muito e recomendo a todos a leitura.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Quincas Borba" de Machado de Assis


Apesar de Quincas Borba ser uma personagem fictícia introduzida no primeiro romance dos dois de Machado de Assis contidos neste livro, na realidade "Quincas Borba" é uma obra bem diferente no modo de escrita e na estrutura de "Memórias póstumas de Brás Cubas".
Agora não se está perante as memórias ou uma autobiografia do protagonista a qual envolve uma paixão de infidelidade conjugal, mas sim do relato exterior da vida do herdeiro do filósofo rico e criador do "Humanitismo" Quincas Borba: o professor rural Rubião e guardião do cão "Quincas Borba", homónimo do seu primeiro dono para lhe preservar o nome após a sua morte que opta por passar a viver na capital Rio de Janeiro.
Igualmente escrito com humor e ironia sobre os comportamentos sociais e políticos na capital, onde não falta uma paixão de Rubião, mas agora não satisfeita, mas também existe o problema da identidade e alienação psicológica do protagonista, a garantia de fidelidade do cão e duvidosa de Sofia, os amigos verdadeiros e os oportunistas de ocasião. Uma obra que penso mais madura e profunda, o romance de Machado de Assis que mais gostei. Recomendo a qualquer leitor tipo de leitor que goste de ficção pela facilidade de leitura e qualidade da sua escrita.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis


Acabei de ler o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis, o escritor brasileiro que para a mesma época se encontra em termos de importância ao nível de Eça de Queirós.
Na estrutura é um romance autobiográfico em estilo de memórias pessoais de Brás Cubas com a originalidade literária deste as escrever após a sua morte, embora sem referências à sua vida no além. Em termos de estilo e forma, apesar de anterior em cerca de 20 anos, este romance tem uma construção semelhante ao "Dom Casmurro" do mesmo autor já postado neste blogue, diferindo pelo seu maior distanciamento ao mundo religioso, maior proximidade à realidade política e pelo facto de agora o protagonista não ser a vítima de traições mas sim assumir o papel oposto.
Um romance cheio de ironia e humor, brilhantemente escrito, com retratos e algumas reflexões sobre o estilo de vida na cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século XIX, cujo texto se presta sobretudo ao prazer e entretimento suave do leitor. Gostei, mas não tem a riqueza e a imaginação criativa e de análise do comportamento humano de "O alienista".
O livro prossegue com outro romance de Machado de Assis: "Quincas Borba", personagem que já aparece em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e que agora penso descobrir nesta obra escrita 10 anos mais tarde.

domingo, 23 de novembro de 2014

"A Selva" de Ferreira de Castro

Acabei de ler "A Selva" de Ferreira de Castro, talvez o romance com maior sucesso editorial internacional de um escritor português na primeira metade do século XX e compreendi agora a razão por que se tornou tão famoso esta obra de ficção mas parcialmente baseada nas memórias da vida do autor.
Um romance com um texto muito bem escrito, fácil e acessível a qualquer pessoa, uma história simples que apela aos valores humanos e denuncia a exploração do homem pelo homem sem defender nenhuma ideologia em concreto, uma descrição da floresta amazónica com uma densidade, qualidade e plasticidade visual difícil de igualar, sendo a selva a verdadeira protagonista da obra.
No romance a vida brota da Amazónia no seu potencial máximo e por isso a selva é também uma cooperante assassina na luta pela sobrevivência, os nativos surgem como o povo ameaçado no seu território que se defende perante os recém-chegados que não os sabem acolher sem os descaracterizar, o homem surge como o principal inimigo de si mesmo, independentemente da sua classe ou etnia e a personagem principal é o sonhador que vê as suas crenças desmoronarem e renasce diferente com projetos de futuro.
Ferreira de Castro, para muitos o iniciador do neorrealismo, escreve uma obra fácil e ao mesmo tempo densa, que desperta prazer e curiosidade de leitura, mas cheia de imagens fortes que divulgam a Amazónia, a história da exploração desta terra pelos europeus, a vida difícil dos seringueiros na obtenção do latex no pós-primeira grande guerra mundial, o choque de mentalidades, o aproveitamento dos mais fracos e a sua desunião e um apelo pelo valores para que o homem não seja o algoz do outro homem. Um grande romance que recomendo a qualquer leitor.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"O Alienista" de Machado de Assis

O conto "O Alienista", onde o Dr. Simão Bacamarte estuda cientificamente alienados, escrito por Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil e filho de uma Açoriana, talvez seja a gema literária escrita na língua portuguesa mais brilhante no género de alegoria ou parábola. Uma história divertida e irónica, cheia de crítica social implícita e mordaz para com o ser humano, independente da sua classe, profissão ou grau de formação.
Na edição da Porto Editora, brilhantemente ilustrada, este conto ao nível de originalidade e de crítica nada fica atrás de "Animal Farm" de George Orwell, tendo sido escrito várias décadas antes, o que mostra o valor literário e a rica imaginação do seu autor.
Neste mundo ser alienado não será tentar sobreviver com uma vida de virtudes numa sociedade desequilibrada, egoísta e cheia de oportunistas? É esta a interrogação ou a descoberta do alienista ao tentar recolher e tratar os doentes psicóticos da sua cidade e ao perceber o comportamento individual e coletivo desde os seus habitantes mais humildes até às suas gentes mais importantes. 
Um pequeno livro que é uma obra-prima, divertida, de fácil leitura e brilhantemente escrito, mas que convida a uma grande reflexão. Um conto que recomendo a todos a sua leitura e para o qual nunca será tarde, nem cedo para se ler, tanto na adolescência como na velhice e sempre uma fonte de prazer.

domingo, 16 de novembro de 2014

"Mar Morto" de Jorge Amado

Jorge Amado em "Mar Morto" expõe a vida arriscada e miserável dos homens do mar ligados ao saveiros de São Salvador que uniam pela água as cidades na baía de Todos-os-Santos e do rio Paraguaçu nos anos de 1930. O romance é escrito de forma poética e destaca o sofrimento das mulheres destes homens devido à grande incerteza de garantias do seu futuro e dos seus filhos devido à grande probabilidade de perda dos seus maridos no mar.
O escritor utiliza o amor entre Guma, saveireiro, e Lívia, criada na cidade, para intensificar esta realidade e evidenciar os contrastes entre os pobres do bairro do porto e certos exploradores urbanos.
O livro vale muito pela forma poética do texto e também pelo retrato social, pois que a trama não tem a força de outras obras maiores passadas do autor neste Estado da Bahia, mas a obra dá imenso prazer à leitura devido à riqueza literária da sua prosa. Gostei e recomendo.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

"A Grande Arte" de Rubem Fonseca


Poucos livros do género policial e banditismo têm a genialidade de conjugar as grandes emoções deste tipo trama e ser em simultâneo uma obra de arte literária que deveria ser de culto. Rubem Fonseca consegue em "A Grande Arte" fazer uma paródia cheia de ação e referências culturais ligada ao submundo do crime, prostituição, narcotráfico e advocacia de investigação com um protagonista do tipo herói falhado, exceto na sua obsessão e sucesso com as mulheres, mas que gera simpatia no leitor, e criar um romance que é uma obra-prima.
Esta edição tem um prefácio de Francisco José Viegas e um posfácio de Vargas Llosa que fundamentam perfeitamente por que este romance violento, divertido e de puro entretimento deve ser de facto uma obra de referência no seu género.
Rubem Fonseca na sua escrita fria e do género reportagem acelerada, memórias e algumas brejeirices, intercalada de expressões irónicas e de riqueza cultural, cria uma trama única e que mostra como se transforma uma temática para muitos considerada menor num romance de nível literário superior do melhor ou o melhor que já li no género, que justifica o escritor ter o prémio Camões e  valoriza a literatura escrita em Português. Um livro recomendável e acessível a qualquer leitor.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"O século primeiro depois de Beatriz" de Amin Maalouf


"O Século Primeiro depois de Beatriz" do libanês Amin Maalouf é um romance escrito em forma de crónica/memórias de um idoso sobre uma época futura e distópica em resultado não da explosão demográfica que tememos mas de um controlo artificial da natalidade que favorecia o nascimento de rapazes em detrimento das raparigas para satisfazer os anseios e as preferências históricos radicadas em muitos homens em várias sociedades.
Tirando proveito do desequilíbrio na relação entre os dois géneros surgido nesse período, Amin Maalouf faz uma intensa denúncia de muitos dos defeitos da atual sociedade global: desde a desigualdade norte/sul, o racismo, os complexos entre povos colonizadores e colonizados do passado, os mecanismos políticos de controlo de etnias, ditaduras africanas e oportunismos dos dirigentes das nações e, apesar de negritude do ambiente social, é em simultâneo uma homenagem cheia de ternura à mulher no seu papel de companheira, filha e estabilizadora da paz no seio da humanidade face à prevalência das tendências violentas no género masculino.
Tendo sido escrito há cerca de 20 anos, é interessante ver que a obra é anterior ao domínio da internet e da computação na sociedade, aspeto que o autor na previu, pelo que apesar de se retratar uma sociedade futura à data da obra esta decorre no primeiro quartel do século XXI que já vivemos, mas os mecanismos de difusão e de comunicação entre as pessoas no livro são os tradicionais do final do século XX, mas os vícios denunciados são bem atuais. Um livro que gostei e recomendo.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"Os transparentes" de Ondjaki


Editora Caminho

"Os Transparentes" de Ondjaki é uma espécie de retrato da vida de Luanda pós-guerra civil em estilo que se pode dominar como uma versão de realismo mágico africano e com uma exposição do "linguajar" daquela cidade de Angola. Aqui se cruzam etnias das várias províncias do País, memórias e feridas dos tempos violentos, inequidade social, corrupção, domínio absoluto e demagógico do poder político instalado e uma estratégia típica de sobrevivência que gera uma mistura cultural muito original e brilhantemente exposta no romance.
Ora irónico, ora sarcástico e por vezes sentimental e triste, o romance desenrola-se sobretudo em torno das pessoas que vivem e se cruzam num prédio de apartamentos no bairro da Maianga com níveis culturais, profissões e estilos de vida diferentes que serve de denúncia da maioria dos problemas da cidade.
Possui uma escrita criativa que caracteriza uma tendência dos tempos atuais, em que existe uma vontade de experimentalismos na redação do texto em termos de ortografias, pontuações e uso de maiúsculas que se pode gostar ou não, mas que neste caso não me parece acrescentar ou tirar o interesse que a narração intrinsecamente possui. Gostei do livro, o qual é de fácil leitura a qualquer pessoa.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

"Agosto" de Rubem Fonseca


"Agosto" de Rubem Fonseca é uma viagem alucinante que mistura factos reais e ficcionais de jogo, corrupção, crime, política, prostituição e investigação criminal ao longo do mês que desembocou no suicídio do Presidente do Brasil Getúlio Vargas.
Escrito numa linguagem popular e sem almofadas para suavizar o choque da frieza dos comportamentos criminosos e do enredo e interesses partidários, o autor traça vários retratos que mostram as diversas realidades do que foram aqueles dias de crise política na violenta cidade do Rio de Janeiro, onde a vida humana pouco vale, tanto para autoridades públicas, como para redes do submundo e onde a honestidade e os princípios nas pessoas correspondem à situação de exceção.
Rubem Fonseca não faz julgamentos de forma direta, apesar de o desajustamento social do protagonista e honesto comissário servir de contrapeso de reflexão sobre a sociedade. O livro lê-se de rajada, tal como são atirados de forma sucessiva o evoluir dos acontecimentos daqueles dias.

sábado, 18 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume III

Que se poderá dizer de um volume de um romance que é constituído pelos capítulos rejeitados pelo escritor para completar o anterior tomo, mais aqueles que ele escreveu para dar a continuidade à história mas que não concluiu antes de morrer e ainda os esboços de versões de capítulos que davam um rumo muito diferente aos acontecimentos antes publicados e alterados por Musil?
É assim o terceiro volume de "O homem sem qualidades" que termina com prefácios e posfácios do autor à sua própria obra em estilo de crítica ao romance.
A verdade é que o volume III tanto pode ter capítulos fastidiosos por serem sobretudo de uma inércia de repouso associada aos mais alto estado a que o amor pode chegar que inibe a ação, onde se aproveita para por em confronto ideias, sentimentos e conceitos filosóficos, como pode ser emotivo e entusiasmante ver versões alternativas mais arrojadas de dar continuidade à história que Musil se inibiu de seguir, não sei se por questões de moral, se por desembocarem num beco, e ainda é divertido ler textos preliminares dos capítulos anteriores não corrigidos nem ampliados nas suas fases primitivas e com anotações antes da serem fixados no romance.
Na verdade o romance não foi concluído, mas existem versões que concluem as principais partes não rematadas anteriormente, outras que as reabrem e o mundo da reflexão filosófica e suas contradições é posto à prova. Confesso que gostei, não consegui deixar de a ler, mesmo aquelas partes que parecem discussões etéreas intermináveis... mas nunca serão capítulos fáceis.
O amor/paixão entre os dois irmãos num estado de inação nos capítulos tornados definitivos, muito platónico e pouco sensual, fez-me lembrar o sexto andamento da Sinfonia Turangalila de Messiaen "Jardin du sommeil d'amour" que integro abaixo.

domingo, 12 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume II


O volume II de "O homem sem qualidades" apesar de publicado três anos depois, vem em perfeita continuidade do primeiro, tendo como principal particularidade a introdução da irmã de Ulrich, fisicamente muito semelhante a este, que funciona como um avatar do protagonista para desempenhar o comportamento contrário dele. Embora esta levante as mesmas questões filosóficas ao irmão com a profundidade característica da obra e não pareça discordar dele, na prática, a imperfeição dos seus impulsos não a impede de agir contra a moral e valores defendidos de modo consciente.
Assim, se no primeiro volume as discussões e os problemas de moral bloqueiam o agir e as decisões, no segundo, apesar de se analisar os temas como as questões de moral, as preocupações do espírito e da alma de um povo como num ensaio, mesmo perante as contradições no mundo sobre as ideias e as múltiplas culturas do império Austro-Húngaro, agora, num clima de exaltação, tomam-se posições e a palavra de ordem é: ação.
Neste confronto irmão-irmã que se completam, sente-se que se vai desenvolvendo um sentimento fortíssimo que roça a paixão ou mesmo o amor, oculto à sociedade, pois tal seguramente vai contra todos os seus princípios e mesmo dos seus intervenientes, ficando em aberto para o volume seguinte a tentativa de resolução das consequências das decisões e ações tomadas no fim desta parte do livro.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume I



"O homem sem qualidades" de Robert Musil é um extenso romance de ficção cujo primeiro volume foi publicado em 1930 e reflete sobre as contradições do império austro-húngaro e da aristocracia em Viena que vive em torno do protagonista Ulrich e de um evento para assinalar de forma única os 70 anos de reinado do imperador Francisco José e deste modo marcar a importância do país no mundo e, a apesar do peso da cultura germânica, a sua distinção do ser alemão da Prússia.
A obra tem a particularidade de, com a guerra a insinuar-se, os personagens alheios à ameaça mergulharem em debates filosóficos sobre o bem, o mal, a diferença de alma e espírito no indivíduo e na sociedade, a importância das ideias e o papel da cultura e da moral, bem como a evolução destes aspetos no tempo até à época dos acontecimentos. Nesta dissertação o romance faz uma ponte entre a pura ficção e o ensaio, onde se destaca Ulrich,  o homem sem qualidades devido à profundidade com que aborda as temáticas e busca da perfeição e exatidão que lhe impede a ação, à semelhança do que acontece ao nível das decisões no seio da organização das celebrações, o que permite fechar um ciclo de pensamento neste volume.
Pela profundidade filosófica, ideias abstratas e personagens contraditórios, o romance evolui lentamente e com uma grande densidade de conceitos e pensamentos históricos, que, apesar de magnificamente escrito, dificultam a apreensão de todas as questões e justifica o facto de ser uma obra de culto erudito.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

"O mistério da estrada de Sintra" de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Por norma, não leio obras de ficção em formato digital, o denominado ebook ou livro eletrónico, ao contrário do que acontece com ensaios sobre socioeconomia e política atual. Todavia tenho descarregado romances antigos, sobretudo de autores nacionais, que em princípio não compraria numa livraria em concorrência com nova literatura que surjindo ou já são difíceis de encontrar. Isto como salvaguarda de surgir a oportunidade de os poder ler um dia e tal como já referira neste blogue.
Assim, recentemernte a a partir da sítio do Projeto Adamastor, acedi, descarreguei e li "O Mistério da estrada de Sintra", uma obra conjunta de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão publicada pela primeira vez em folhetins no jornal Diário de Notícias em 1870.
Um romance que começa como um "thriller" mistério em torno de um crime, narrado em formato epistolar e que com o tempo se vai transformando numa história romanesca de paixão, ciúme e questões de moral em pessoas da aristocracia lisboeta cruzadas com princípios de honra inglesa da época vitoriana e onde tudo fica no fim esclarecido e justificado.
Não sei exatamente quais as partes que são de Eça, mas suspeito pelo estilo de escrita, de qualquer forma é uma obra de juventude destes autores, ainda sem a ironia e a crítica social que desenvolveram genialmente, sujeita aos costumes e princípios morais então em voga e ainda não despojada dos floreados sentimentais e fáceis do período romântico. Assim, a obra vale sobretudo para compreendermos a evolução literária do autores e marcar uma época. Um romance acessível a qualquer público, novelesco, mas sem a densidade e pujança do que depois estes escritores foram capazes de criar.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"A Capital" de Eça de Queiroz


O romance "A Capital" de Eça de Queiroz  apesar de escrito na primeira metade da vida de produção literária deste grande escritor português, só foi publicado 25 anos após a sua morte e segundo a editora Presença a versão corrente e agora lida sofreu retoques finais por seu filho José Maria, tendo esta editado recentemente um texto com algumas diferenças.
A obra é a história desde a infância até juventude de Artur Corvelo, que de rapazola quieto, triste e tímido vai estudar para Coimbra onde se fascina pelos sonhos de ser poeta e escritor famoso, mas que de repente se vê sem bens e retido na pacata província, até surgir uma herança e rumar a Lisboa para o sucesso idealizado, aqui é rejeitado e alvo de todos os oportunistas e vícios da capital que lhe sugam o dinheiro.
Eça recorre à sua brilhante escrita irónica e mordaz para fazer uma crítica forte a todos os estratos sociais, ideológicos e estilos de vida de Portugal do último quartel do século XIX, com destaque o lisboeta, embora lentamente o romance vá perdendo vigor por se tornarem previsíveis os vários tipos de enganos e desencantos que o protagonista sofrerá  com a sua estadia na capital.
O fim desta versão tem reminiscência de Hamlet. Gostei do romance, só que não tem a grandeza e o brilhantismo de obras geniais de Eça de Queiroz que já li, como "A cidade e as Serras", "O crime do Padre Amaro" e, sobretudo, "Os Maias", entre outras.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"A Mascarada" de Alberto Moravia


"A Mascarada" do italiano Alberto Morávia tem a coincidência de denunciar o que é a mascarada política num país fictício ao longo da preparação de um baile de máscaras, no qual se simulará um atentado ao ditador para alcançar outros objetivos, sustentar vícios privados e preservar uma máscara pública, num romance onde quase ninguém socialmente é o que mostra, mas encarna uma personagem conveniente ao que lhe convém aos seus interesses egoístas, enquanto oportunamente se usa e abusa dos idealistas  e dos mais frágeis que entretanto passam pelo caminho.
O romance tem um escrita muito fácil e uma trama que se desenrola com suspense e ironia permanente, mas onde cedo se percebe que os estratagemas da mascarada irão todos falhar, exceto o aproveitamento político que consegue dar a volta e subsistir.
Um romance divertido que se lê muito bem, onde as reflexões e a ironia são ferramentas de denúncia de um mundo hipócrita e estratificado, neste caso coberto por uma ditadura, mas penso que na realidade pode sobreviver noutros regimes políticos. Gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"A ilha" de Aldous Huxley


Acabei de ler "A Ilha" de Aldous Huxley, onde um jornalista consegue aceder e compreender o modelo de gestão social de uma ilha situada no Índico interdita a muitos estrangeiros, sobretudo a pessoas da imprensa, para proteção do seu estilo de governação, cuja forma e as prioridades são bem diferente das do resto do mundo.
O autor expõe assim uma sociedade utópica, governada por ideais para denunciar muitos dos vícios da sociedade ocidental, mas também demonstra que perante a globalização uma alternativa do género dificilmente resiste à ambição económica e política instalada na rede mundial.
A obra que aborda assuntos que vão deste a educação, a saúde, a morte, o consumismo e a religião, neste campo contrastes entre o dogmatismo e a reflexão budista, é heterogénea, tem momentos de crítica social que parecem denúncias perfeitas do mundo atual, noutros, Huxley entra em devaneios e contradições, inclusive o recurso a psicotrópicos para compreender o fim em si.
Em "A Ilha" mostra-se um mundo muito mais viável e contemporâneo que a visão futurista de "O admirável mundo novo", mas onde o ideal da perfeição e a centralidade do ser humano são os pilares da sociedade, infelizmente valores que estão ameaçados por uma civilização consumista, belicista e preconceituosa por crenças dogmáticas que não valorizam o Homem. Gostei da obra e recomendo.