quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"1984" George Orwell


O romance "1984", de George Orwell, é uma "sátira" ou um alerta sobre até onde os totalitarismos de meados do século XX poderiam levar a humanidade.
A obra de 1949 projeta um futuro sombrio em 1984, onde a revolução para criar uma sociedade sem classes foi subvertida com o fim único de se preservar como poder com o controlo total das ameaças ao edifício político construído. Ironicamente gera-se outra estratificação, a grande maioria continua esmagada, a prole; uma minoria faz de classe média e apoia uma ínfima parte que domina uma sociedade que se tornou globalmente mais pobre e onde os escassos privilégios para o topo são valorizados.
Com três máximas: guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força; explicadas em livro; com a criação de uma novilíngua que limite o pensamento por falta de conceitos que sirvam a argumentação da contestação; e com uma verdade oficial trabalhada; a classe dominante, com um mítico líder o "grande irmão" vigia tudo e todos, de facto não a prole que por si só não é um perigo.
O livro centra-se num protagonista da classe média, cuja profissão é alterar os arquivos da história para os acomodar à verdade do presente as vezes que for necessário, cuja memória questiona o presente e o passado e busca seres com dúvidas, cujo controlo deteta e o vai transformar para que no seu íntimo acredite que a verdade do partido é absoluta e rejeite até a incoerência desta com as recordações, a lógica e a verdade científica.
Este excelente romance é um perfeito complemento a "O Maravilhoso Mundo Novo" de Aldous Huxley, onde era a técnica para a predestinação e a alienação que tornava os seres apáticos e a aceitarem a sua distopia; agora é a psicologia através da omnipresença da vigilância, o controlo absoluto da mente e da informação que o faz a pessoa acreditar na verdade oficial e até temer a dúvida. Um magnífico livro, um bom suporte à reflexão sobre as estratégias para a instalação e preservação do totalitarismo absoluto.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"Número Zero" Umberto Eco


"Número Zero" é um pequeno romance publicado já este ano por Umberto Eco, neste, em estilo de paródia, o escritor disserta sobre como fazer mau jornalismo e utilizar esta atividade como ferramenta de pressão sobre personalidades e manipulação social, isto através da preparação de uma nova equipa editorial contratada para a emissão de um novo título de jornal e a "publicar" precisamente com este último objetivo.
Em paralelo, um dos jornalistas da equipa na sua investigação histórica acredita ter descoberto uma conspiração e efetua uma reinterpretação de notícias passadas, sobretudo na Itália, desde o fim da II Grande Guerra que tem como base a hipótese de sobrevivência de Mussolini e o seu uso como ídolo capaz de estancar a expansão comunista durante a guerra fria. Assim ligam-se numerosos atos terroristas e situações aparentemente isoladas numa teia que envolve políticos, guerrilhas de esquerda e de direita, igreja, forças de segurança nacionais e de inteligência internacionais e até guarda-florestais, no fim sentimo-nos usados numa manipulação social dos destinos dos Estados. Curiosamente um relacionamento amoroso na equipa que envolve alguém hipoteticamente mais sentimental e com perturbações é capaz de dar alguma racionalidade a esta loucura narrativa.
Umberto Eco já não surpreende, pois usa a mesma fórmula conspirativa de organizações secretas em outras obras anteriores, como no Cemitério de Praga e no Pêndulo de Foucault, e como o atual romance é demasiado centrado na Itália muitos elementos da história  perdem-se na memória de quem não conhece bem os acontecimentos ocorridos naquele país no último meio século, originando uma cadeia louca que por vezes me cansou ou me perdi, mesmo assim tem o interesse de mostrar como a comunicação social pode manipular o modo de pensar da sociedade muito além da real verdade dos factos.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Uma verdade incómoda" de John le Carré


A minha estreia em obras de John le Carré teve o mérito de mostrar que existem escritores de sucesso popular capazes de escrever thrillers, policiais e histórias de espionagem que vão muito para além do mero suspense que criam no leitor e são capazes de levantar questões, fazer retratos da sociedade contemporânea e de denunciar muito do mal que a domina.
"Uma verdade incómoda" ou "delicada" como no título original é isso mesmo, um romance que depois de relatar uma operação secreta que mistura ambições políticas individuais com interesses privados, tem danos colaterais que importa esconder ao comum cidadão, pisando para este objetivo todos os princípios que a democracia tem por critério pautar-se.
Sendo uma obra recente e passada na atualidade, o romance denuncia muito da hipocrisia socioeconómica presente e não se coíbe em criticar o que foram os efeitos desastrosos das opções estratégicas para o Iraque no tempo de Blair e toda a panóplia de interesses e de preconceitos religiosos hipócritas que minam presentemente os ultraconservadores dos Estados Unidos, isto numa história cujo enredo está muito distante destas matérias e tem como base uma perseguição entre quem quer mostrar a verdade e o poder que a pretende esconder.
Como normalmente acontece com romances de espetro mais popular e suspense, a escrita é fácil, mas escorreita e realista e como tal recorre à gíria banal sem recursos estilísticos muito elaborados, mesmo assim gostei da obra e recomendo a qualquer leitor, inclusive aqueles que têm receio de livros eruditos e complexos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"A crónica de Travnik" de Ivo Andric



"A crónica de Travnik" do escritor Ivo Andric - Nobel de 1961, um croata da Bósnia que se sentia jugoslavo e passou a escrever em servocroata - que acabei de ler, é de facto mais uma crónica do que uma trama de relações entre protagonistas e auxiliada por entidades secundárias comum a um romance tradicional. O livro mostra pelos olhos do cônsul francês - uma personalidade que vibrou em criança com a monarquia absolutista e depois se converteu em jovem às ideias liberais napoleónicas e que busca o caminho certo que não encontra, o que o torna inseguro - a forma de ver a vida de Travnik no período de abertura e fecho do consulado nesta cidade bósnia durante as guerras napoleónicas para defender os interesses do império que representava. 
O livro além de ser uma obra com uma escrita muito agradável, é um desfile de personagens que retratam a miscelânea de católicos, ortodoxos, judeus e muçulmanos sob o domínio turco numa pequena cidade onde confluem desconfianças entre religiões, choques de cultura entre ocidente e o oriente e ainda onde através da diplomacia se jogo interesses entre impérios que se atropelam para conquistar mais poder, sem esquecer as visões da realidade fruto da juventude, maturidade e velhice.
Nestes tempos conturbados e de choque de mentalidades, decorreram períodos ternurentos, outros deprimentes e inclusive do horror típico de quando o poder toma a rua com culturas que se odeiam ou de quando o terror é usado como uma arma. Gostei do livro e comecei a compreender o que foi de facto o rastilho da ainda recente guerra dos Balcãs. Mais do que uma lição de história, este romance é uma mostra do choque de gerações, de mentalidades e de culturas e por isso ajuda a compreender melhor de modo diplomático os conflitos do mundo em que vivemos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley


"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley é um romance sobre um futuro distópico onde as ciências são colocadas não ao serviço da verdade, mas para cimentar uma sociedade estável onde cada indivíduo é sujeito a um condicionamento psicológico desde a sua gestação em cadeia extra-uterina, para não ser afetada por relações sentimentais de laços familiares, bem como através de uma produção programada biofisico-quimicamente que gera seres predestinados a preencher a estrutura da sociedade conformes às necessidade coletivas e adaptados à classe a que se destinam ou tarefas a realizar e ainda mentalmente controlados e educados para se sentirem realizados nesse posto, servindo-lhes ainda alucinógenos sem ressaca para fugirem a qualquer perturbação psicológica, além de uma desinibição sexual para não permitir elos amorosos consistentes, criam-se assim seres acomodados à sua situação sem liberdade de a questionar, embora felizes na sua demência.
Num prefácio de 1946, na celebração da edição dos 20 anos da sua obra, Aldous Huxley escreve os elementos de referência que enquadram o romance: "Um estado totalitário verdadeiramente eficiente será aquele em que o todo-poderoso comité executivo dos chefes políticos e o seu exército de diretores terá o controlo de uma população de escravos que será inútil constranger, porque todos terão amor a sua servidão."
Texto que penso ser claro para descrever o conteúdo  deste Admirável Mundo Novo, em que Deus foi substituído pela criador do trabalho em cadeia Ford e onde Shakespeare (de onde é tirado o nome do romance) é desconhecido por ser pernicioso a estas crianças felizes na sua ignorância, contudo no planeta preservam-se relíquias do passado em reservas onde a realidade também não era perfeita, onde um Selvagem tem como referência cultural principal o autor de Hamlet, mas o contacto viabilizado entre estes dois mundos também não foi positivo. Uma obra-prima intemporal e um clássico no seu género literário.

domingo, 2 de agosto de 2015

"A cidade dos prodígios" de Eduardo Mendoza

Disponível aqui
"A cidade dos prodígios" foi o primeiro livro que li do barcelonês Eduardo Mendoza, onde o escritor cria uma personagem que de miserável fugido da Catalunha rural para a capital da província se torna numa das personagens mais ricas e importantes da cidade e de Espanha, servindo a narração desta ascensão e decadência para contar a história de Barcelona sobretudo entre a decisão da organização da Exposição Universal de 1888 e a inauguração da de 1929 nesta mesma terra.
Assim, misturando personagens reais, desde políticos do país e da cidade, bem como artistas locais e mundiais, de Gaudi a Mata Hari, usando factos históricos, alterando outros e ficcionando muitos, incluindo fantásticos hagiográficos, neste romance Barcelona é de facto a personagem principal do livro e esta serve de suporte ao protagonista que vai de propagandista ignorante e miserável da causa anárquica, passando a pequeno delinquente e vai até chefe de gangue, criminoso a capitalista influente que mesmo nos períodos difíceis nos é simpático.
Com uma série de personagens ficcionadas com interessantes retratos psicológicos e uma análise crítica e irónica de acontecimentos históricos Eduardo Mendoza constrói um excelente livro e uma magnífica homenagem e retrato físico de Barcelona. Gostei muito e recomendo.

domingo, 26 de julho de 2015

"Anna Karénina" de Lev Tolstoi

O romance "Anna Karénina" é muito mais que a mera narração da paixão avassaladora desta exemplar senhora de sociedade por Vronski e do seu adultério assumido: cuja relação egoísta evolui para a desilusão, rejeição social e acaba em tragédia; pois é também o relato paralelo da história contrastante do amor de início inseguro de Kontantin Levin por Kitty, que pelo altruismo prossegue num crescendo para a felicidade integração social e serve a Tolstoi de contrapeso moral.
Entre estes dois casos de igual importância no romance, há um conjunto de personagens, alguns constituindo casais, que unem os protagonistas e servem para: denunciar a hipocrisia da vida em sociedade; a desigualdade de tratamento na infidelidade do homem e da mulher na nobreza; as virtudes da maternidade num casamento; o possível aproveitamento dos valores cristãos para o desrespeito humano; a futilidade da vida urbana face à utilidade da atividade rural; os vícios de domínio das classes sociais mais poderosas face às dificuldades do povo; as questões filosóficas da existência de Deus, da crença contra a razão e dos valores éticos e morais e discute-se ainda as potencialidades e condicionantes do desenvolvimento económico e cultural da Rússia em comparação com as outras potências da Europa. O livro é um tratado profundo de muitos problemas e desonestidades que minam as relações humanas e um louvor ao amor altruísta e um crítica à paixão egoísta. Um grande romance que é uma obra-prima e muito maior que uma mera estória romântica.
Nesta edição há posfácio de Nabokov, este reabre o dilema de qual é o maior escritor: Tolstoi ou Dostoiévski; este russo não tem dúvida em colocar o autor de Anna Karénina por cima, eu pessoalmente, além de outros aspetos em que discordo do que ele escreve, mantenho que não consigo decidir quem é de facto o maior de entre estes dois grandes vultos da literatura russa.

domingo, 12 de julho de 2015

"Os Demónios" de Fiódor Dostoievski


"Os Demónios" será outro livro de Fiódor Doistoievski  que me vai deixar marcas profundas na minha carreira de leitor e apesar de parecer menos citado que outras obras deste escritor russo, como: "O Idiota" e o "Os Irmãos Karamazov" já dissertados neste blogue, a verdade é que pelo tema e estrutura, despertou-me um interesse não inferior aos acima citados e ainda levantou-me questões sobre o mundo atual.
Depois do romance apresentar algumas personalidades de uma cidade provincial russa, dois revolucionários clandestinos voltam a esta terra natal com a missão de ali criar um núcleo de agitadores, fundado numa estratégia de luta nacional e internacional. Um destes, sem qualquer escrúpulo, aproveita a situação para além de agitar a vida social local e destruir o governo provincial, implementar ainda com uma estratégia despudorada para cimentar o núcleo clandestino em desrespeito à ética, vingar-se em alguns elementos do grupo por questões pessoais e até servir-se de filosofias individuais em proveito próprio e dos ideais políticos que propõem.
Dostoievski, como normal na sua obra, cria personagens complexas, psicologicamente extremadas e coloca-as intervenientes numa sociedade onde se denunciam os seus defeitos e a forma de pensar e agir russa. Reúne assim figuras contraditórias em situações de debate e choque de ideias com uma elevadíssima carga dramática características de representações teatrais e desencadeia uma série frenética de acontecimentos que acaba em catástrofe.
Alguns debates são profundamente filosóficos: a importância de um suicídio racional de um ateu para demonstrar a inexistência de Deus, este, em paralelo, levanta questões éticas ao servir de aproveitamento para fins de guerrilha. Outros desenvolvimentos mostram o choque de consciência moral entre a pureza das ideias, os meios para as implantar e a manipulação despudorada de pessoas aderentes à causa para se alcançar o objetivo pessoal em detrimento do político e social. Um livro que em paralelo leva a refletir sobre a confusão que reina na Europa atual

quarta-feira, 1 de julho de 2015

"Arquipélago" de Joel Neto


"Arquipélago" de Joel Neto despertou-me a curiosidade por ser uma obra recente, escrita por um Açoriano, tratar-se de um romance ambientado a esta região insular que habito e por acompanhar parte da atividade cronística e interventiva do seu autor.
Considero este romance uma obra diferente do habitual que se publica não apenas nestas ilhas, como inclusive ao nível nacional, foge ao estilo preponderante do que vai saindo no panorama literário de Portugal. Gosto de originalidade em detrimento da onda avassaladora que se submete às tendências de uma época e tende a homogeneizar tudo o que entretanto vai saindo num dado período e neste aspeto "Arquipélago" é de facto diferente e segue um estilo próprio.
"Arquipélago" é um romance que em simultâneo conjuga divulgação da cultura e beleza Açoriana, a história e os mitos que pululam por estas ilhas (com destaque na Terceira), o amor, a magia, o crime, a investigação, a denúncia de problemas sociais e inclusive inclui casos e situações reais bem como especulações recentes propagadas na comunicação social insular sobre determinados vestígios patrimoniais existentes nos Açores. Levantando questões que provável e intencionalmente nem sempre são respondidas no livro.
Penso que Joel Neto poderia ter caracterizado melhor o falar terceirense, mesmo assim, o estilo de vida desta ilha está magnificamente caracterizado. A obra tem um desenrolar cronológico algo incomum, começa num momento perto do último quartel do século passado, estende-se até ao presente ano, penetra no próximo e depois tem um epílogo a descrever os dados mais marcantes dos protagonistas nas próximas décadas e pelo meio saltita por vezes entre estes momentos e outros mais recuados. Literariamente sinto que não atinge o nível de duas das minhas referências da literatura Açoriana: "Mau tempo no Canal" de Vitorino Nemésio e "Gente Feliz com Lágrimas" de João de Melo, mesmo assim, penso que pode tornar-se num dos romances que melhor caracterizam estas ilhas e as suas gentes. Valeu a pena esta leitura... e recomendo sobretudo a quem pretender conhecer as tradições mais Açorianas e as gentes destas ilhas.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Férias: Expo Milão 2015

Milão surge nesta rota por ter sido a porta de entrada e saída na minha viagem para Florença e Toscânia e a estadia foi para tentar ver a Última Ceia de Da Vinci, objetivo novamente não conseguido, mas deu-se a coincidência de estar a decorrer a Expo Milão 2015 e esta feira internacional recordar-me os tempos que Portugal se achava cheio de esperança e se aventurou com a Expo Lisboa 98 e por isso serviu a visita para termos de comparação, se na capital das descobertas o tema foi os oceanos, aqui no coração industrial da Lombardia o tema é a Alimentação, sob o lema "Nutrir o Planeta, Energia para a Vida".
Espero depois refletir neste blogue as impressões de um dia nesta expo 17 anos depois de Lisboa e ver os seus reflexos na Milão de hoje.

sábado, 20 de junho de 2015

Férias Toscânia: Pisa e a torre inclinada ou a importância da geotecnia

Torre de Pisa, imagem daqui

Este blogue nasceu com a divulgação da geologia como um dos seus temas principais e destinada a dar a conhecer neste campo o Faial e demais Açores, com o tempo este campo tem praticamente desaparecido  por já ter dado o fundamental sobre a ilha onde vivo, mas sou sempre geólogo e juntar curiosidades geológicas com lazer, sobretudo viagens e cultura é um dos meus prazeres e por isso na visita a Pisa não posso desperdiçar esta oportunidade.
A cidade de Pisa, a terra de Galileu Galilei, é conhecida sobretudo pela sua torre inclinada, onde o cientista fez a experiência sobre a queda dos graves, o desvio da vertical neste monumento resulta do facto de na época não ser regra efetuarem-se estudos geotécnicos para se compreender a reação das rochas quando sujeitas à carga vertical resultante da implantação de um edifício sobre elas, é que nem todas se comportam de igual modo e curiosamente, apesar da pequena área da torre desta basílica, sobre existem sobretudo dois tipos de espessuras de camadas de rocha e graus de saturação de água e a altura implicou  desta estrutura implicou uma peso significativo tendo as duas espessuras e quantidade de água reagido de forma diferente, uma compactando-se mais do que a outra e assim o chão que servia de suporte desta desceu de modo mais acentuado levando à inclinação da torre. Hoje não há grande construtora que não tenha antes do início do arranque de um projeto, quer seja edifícios com uma dimensão significativa como arranha-céus ou um mero pavilhão de exposições, barragens e até estradas que não faça sondagens mais ou menos complexas para conhecer as rochas subjacentes e o seu comportamento geotécnico ou reológico tendo em conta o peso a que ser sujeita e os efeitos que tal pode ter na construção de modo a se corrigir eventuais problemas atempadamente.
Tudo isto faltou em Pisa, a cedência continua e foi preciso uma intervenção geotécnica e de engenharia civil para evitar o colapso da torre cuja inclinação prosseguia de modo contínuo, mas agora chegou o momento de ir explorar a cidade e a sua atração turística.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Férias Toscânia: Siena, em busca da cidade medieval italiana

Siena e os seus princípais símbolos- imagem daqui

Siena é outra cidade património mundial por o seu centro preservar a arquitetura e o planeamento de uma grande cidade medieval. Infelizmente tal resultou do facto desta então importante terra ter sido muito afetada pela peste negra o que fez perder a sua grande dinâmica política e económica na Toscânia, ao contrário de Florença, estagnando assim no tempo o que permitiu preservar todo o seu centro histórico tornando-o num autêntico museu vivo.
Agora falta-me explorar este património, a sua praça e o seu belíssimo duomo. 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Férias Toscânia - Florença: o berço do Renascimento

Florença: imagem daqui

Florença foi uma das cidades que mais cedo desejei visitar, contudo, talvez tenha levado mais de uma década entre a decisão e a programação da visita, mas depois de ter passado rapidamente por Veneza, reconheci que não poderia passar mais tempo para comparar aquelas que artisticamente e arquitetonicamente devem ser as duas cidades mais marcantes da Itália.
Espero neste berço do renascimento e património mundial, não só conhecer a arquitetura como arte, como os grandes Giotto, Boticelli, da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Caravaggio e outros artistas que viram projetada a sua luz genial através da família Medici na terra do grande Dante cuja obra-prima, "A divina comédia" já li e também de Maquiavel.
Sendo esta a capital da Toscânia, à qual cheguei de comboio para conhecer a paisagem entre a Lombardia e esta cidade, e estando numa das províncias mais cosmopolitas deste país, penso ainda visitar, pelo menos duas das cidades com património conhecido mundialmente e ainda na minha rota operática ter mais um grande momento musical, agora com um obra suis generis e como vai sendo curiosamente hábito, na Itália não ouço óperas italianas.
Espero assim ao longo desta semana colher impressões suficientes sobre a vida atual, a gastronomia e o estado da arte da cidade de Florença e da província da Toscânia.


sábado, 13 de junho de 2015

"O tempo morto é um bom lugar" de Manuel Jorge Marmelo


"O tempo morto é um bom lugar" de Manuel Jorge Marmelo, autor que só conhecia de contos publicados em jornais, foi o primeiro romance que li deste escritor/jornalista que se encontra entre os autores atuais com maior projeção pública no meio editorial nacional.
É um romance sobre a atualidade social, cultural e económica de Portugal e aproveita-se da ideia algo corrente quando se olha o País de que é bem mais agradável a vida na prisão do que a luta do cidadão comum para sobreviver.
O livro divide-se em três partes: Na primeira um jornalista, desempregado e preso, narra as razões da prisão: o assassinato de uma celebridade de um "reality show" com quem teve uma relação na sequência de lhe ter sido encomendada a feitura de uma autobiografia, que nunca chegou a escrever, e descobre que o tempo morto na cadeia é bem mais vantajoso que o da liberdade. Na segunda descobre-se o suicídio do jornalista e conhece-se a pretensa vida da celebridade, os problemas que enfrentou desde criança até à mudança de vida e as potencialidades do sonho da fama. A última cobre uma investigação jornalística sobre quem terá morto a jovem e quem terá sido de facto o autor da autobiografia póstuma.
Estas partes  têm relatos paralelos e denunciam os problemas que a sociedade portuguesa atravessa: acusações políticas que se subentendem os destinatários, a vacuidade do mundo mediático e as dificuldades do cidadão comum. A escrita não é alheia ao estilo jornalístico, mas é interessante e apesar de se narrarem dificuldades, o tom irónico tira o carácter deprimente às situações, embora a obra só seja conclusiva no aspeto de ser uma forma de se chorar o Portugal do presente. Gostei e, mesmo tendo em conta que é um retrato frio e duro da conjuntura atual, é de leitura fácil. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

"O livro de Jón" de Ófeigur Sigurdsson


"O livro de Jón", do Islandês Ófeigur Sigurdsson, é um romance epistolar constituído por mais de duas dezenas de cartas escritas por Jón à sua mulher durante o período da erupção do vulcão Katla de 1755 (a maior que há memória nesta ilha desde o povoamento e que teve um impacte climático planetário) e enquanto se encontrava refugiado numa gruta a sudeste deste, por um motivo pessoal e anterior à catástrofe, no local onde não só construiu a sua habitação, como inclusive um hospital e acolheu alguns dos maiores cientistas e pensadores daquele povo naquela época.
Apesar de ser uma obra ficcional, grande número das personagens, incluindo Jón, tiveram existência real e o autor aproveita este estilo não só para descrever muitos dos problemas sociais, económicos e políticos da Islândia de então, como mostrar a mentalidade, usos e costumes deste povo insular e ainda fazer uma descrição literária da erupção do Katla e dos seus efeitos catastróficos, inclusive responsabilizando-a do terramoto de Lisboa igualmente descrito com grande força. Contudo a obra mistura realidade, sonhos e uma natureza que por vezes é mágica.
A escrita é acessível, muito poética, sentimental e o romance é pequeno, embora por vezes os parágrafos seja extensos, só não temos o eco das cartas na mulher amada, nem se vem a saber se de facto estas chegaram à destinatária. Gostei da obra e recomendo, até pela descrição da erupção, sobretudo das enxurradas glaciares resultantes do contacto do magma quente com a calote de gelo que cobre a ilha nesta zona, originando assim os "jökullhlaups", vivamente descritos no livro.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

"Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa


Mergulhei no romance "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa logo no dia em que o adquiri numa publicação fac-similada da primeira edição no Brasil de 1956 e efetuada pela loja do jornal Público na coleção "800 anos de literaturas em Português". Este interesse na obra, há muito tempo esgotada em Portugal, resultava do facto desta estar qualificada como um dos trabalhos de ficção mais importantes escritos em Português e, inclusive, uma das obras de literatura mundial mais significativas de todo o século XX.
Em primeiro lugar saliento que gostei muito da trama: as memórias de Riobaldo narradas a Quelemén sobre o tempo em que fora jagunço e chegara a liderar um grupo na caça de um assassino de um chefe seu exemplar. Uma época em que se apaixonou por Diadorim, uma personagem travestida de soldado, em que sentia o dilema da paixão face os complexos de masculinidade e assumia o seu amor consentido pela distante e bela Otacília, período que lhe levantou questões sobre o bem, o mal, o Diabo a realização ou não de um pacto com este e até a dúvida sobre a existência deste ou não.
O romance não é uma estória linear: algumas das dúvidas sobre o bem, o mal e o demónio no protagonistas são lançadas ao ouvinte da narração, colocadas à reflexão por Riobaldo no texto que, em paralelo, também expõe os seus problemas morais e sentimentais e obriga-se a viajar no tempo para justificar determinados momentos da sua saga contra o inimigo e, em paralelo, descreve de uma forma poética a paisagem do sertão, as suas veredas, os seus rios e as suas gentes.
Guimarães Rosa utilizou no romance o modo de expressar sertanejo: vocábulos e sintaxe alterados pela linguagem popular, neologismos do escritor, regionalismos e ainda apresenta as espécies da fauna e flora da zona de Goiás, Minas Gerais e Baía como elementos simbólicos do carater das personagens, o que torna o texto num rendilhado complexo  que obriga a uma atenção intensa para quem não domina nenhum destes campos como eu e não estava prevenido para este estilo. Gostei do romance, embora por vezes tenha sido esgotante chegar à compreensão do conteúdo escrito e sei que nem tudo foi apreendido. Um livro que recomendo a quem além da magnífica estória, está disposto ao esforço de atenção e descoberta do que se esconde por detrás deste difícil texto. 

domingo, 17 de maio de 2015

"FOME" de Knut Hamsun


Compreendo que "Fome", do laureado norueguês com o prémio Nobel Knut Hamsun, publicado no distante ano de 1890, tenha provocado uma revolução literária na época onde na literatura se cruzavam as influências naturalistas de Zola e realistas de Balzac, pelo as questões sociais enquadravam as tramas da ficção, mas eis um romance onde protagonista, no início da sua carreira de escritor, opta por sobreviver com fome e tentar escrever artigos para os jornais na perspetiva destes os aceitarem e daí obter rendimentos que lhe permitam comprar o seu sustento e alojamento.
A fome passa então a ser a principal companheira do artista, que vai relatando a sua vagabundagem miserável pelas ruas de Kristiania (Oslo), descrevendo as suas sensações físicas fruto da sua carência, os contactos com personagens da cidade e, sobretudo, salientando a sua dignidade, onde se recusa a pedir ou a aceitar esmola ou até em ser beneficiado por um ato que considere manchar a sua dignidade, lutando pela preservação da sua honra e correção, embora por vezes se martirize por deixar-se cair em tentações e maldades. 
Assim a sua vida de fome por vezes é interrompida por algum trabalho aceite e pago, outras vezes quase desfalece por imperativo da fome, mas chama a si todas as culpas do seu mal, não há um juízo social, não há denúncias de imperfeições do sistema em que vive. São divertidas a sua forma de ironicamente perder as oportunidade de se alimentar no seu esforço de preservar a sua dignidade, mesmo com roupa por lavar e com falta de peças para completar o seu vestuário e no fim da obra, uma saída talvez surpreendente para quem acompanhou este homem de que nunca se chega a saber o seu verdadeiro nome. Gostei, é de fácil leitura e recomendo.