domingo, 16 de julho de 2017

"Leaven of Malice" da Trilogia de Salterton de Robertson Davies


O segundo livro da Trilogia de Salterton, situa-se na mesma cidade universitária de Salterton, imaginada por Robertson Davies, que se deduz situar-se no sudoeste de Ontário, "Leaven of Malice", decorre cerca de dois anos após a trama do primeiro romance desta série que falei aqui, repetindo algumas das personagens, introduzindo outras novas e é despoletado por um acontecimento completamente diferente: um anúncio falso de noivado e próximo casamento entre dois jovens filhos de famílias com passados litigiosos, onde a rivalidade se manteve e até cresceu, mas de forma uma discreta e oculta à sociedade, publicado num jornal da cidade.
O falso anúncio não só abrirá uma ameaça judicial ao diretor do"Evening Bellman", como levará com grande humor e ironia ao desencadear de atitudes de investigação amadora, desajeitada e desastrada sobre quem terá estado na origem da notícia que porão a nu não só os ódios, as invejas, os ciumes e as paixões, mas também as incertezas e as ambições pessoais inerentes ao despertar da vida juvenil para adulta familiar e profissional e ainda o mundo em torno de um jornal local, a sua redação e papel social, tudo isto irá desembocar num final onde tudo se explica e fará que relações impossíveis se tornam viáveis.

Robertson Davies é de facto um genial analista e relator da realidade social explora todos os tipos de virtudes e defeitos individuais das mais variadas personalidades que compõem uma sociedade fechada e conservadora e este livro que ganhou o prémio literário canadiano de humor Leacock em 1954 é um excelente exemplo do que seria a vida no Canada, numa cidade média e académica ainda fortemente influenciada pelos costumes e subserviências típicas da Inglaterra vitoriana num grupo de pessoas que se sente defensor dessa sociedade e sua religião oficial. Um romance brilhante satírico  não acessível a quem apenas lê em Português.




sábado, 1 de julho de 2017

CANADA Day - Celebração dos 150 anos do CANADA: 1867-2017

Hoje o CANADA, o meu país natal e do qual sou um orgulhoso cidadão celebra 150 anos como País com a proclamação da Confederação Canadiana a 1 de julho de 1867 destaco o acordo de John A MacDonald, de língua inglesa, e George-Étienne Cartier, de língua francesa, na liderança do entendimento de um Estado com várias nações.

Inicialmente composto apenas pelas atuais províncias do Ontario, Quebec, Nova Scotia e New Brunswuick por adesão voluntária de colónias britânicas na América do Norte estendeu-se do Atlântico ao Pacífico e chegou ao Polo Norte, sendo a província que mais recente aderiu a New Foundland and Labrador (Terra Nova e Labrador) já após a segunda-guerra mundial em 31 de março de 1949 .


Apesar do vermelho ser  desde o início a cor da Confederação e a folha de ácer o principal símbolo das antigas províncias do Alto e Baixo Canada, só passado um século da criação deste País foi adotada a atual bandeira oficial do Canada já sem qualquer referência à Union Jack que caracteriza muitos Estados da Commonwealth, apesar da minha memória apenas se lembrar daquela que me comove: a Maple Leaf.


Não sei o que define uma nação, mas na pluralidade de culturas na origem do Canada, na diversidade de línguas maternas, para além das oficiais da federação ou ainda de outras de determinadas províncias ou territórios e na multiplicidade de religiões, mesmo reconhecendo que certos nacionalismos por vezes mais dividem do que unem os povos que se juntaram para formar um País e o Povo Canadiano; a verdade é que sempre me senti Canadiano sem qualquer conflito com também me sentir Português e ter como língua materna a de Pessoa e Camões e é por este orgulho de ser Canadiano, sempre ligado à minha Pátria natal e continuar ativamente a colaborar com a representação do Canada em Portugal que há muito decidira neste dia Celebrar os 150 anos do Canada na minha cidade natal, Galt e hoje Cambridge, Ontario, na antiga província do Alto Canada.


Happy Canada Day
Bonne Fête du Canada
Feliz Dia do Canadá


PROUD DO BE CANDIAN!

FIER D'ÊTRE CANADIEN!

ORGULHOSO DE SER CANADIANO


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tempest-tost da Salterton Trilogy de Robertson Davies





Acabado de ler o primeiro romance desta trilogia, uma trama sem protagonistas definidos, muito britânica como habitual no autor. Por meio de algumas táticas o grupo de teatro 🎭 amador de Salterton obtém autorização para levar a cabo uma representação e encenação de "A tempestade" de Shakespeare nos jardins duma família rica e influente da cidade universitária (ficticia), só que nada será simples até à estreia de verão, paixões, ciúmes choque entre a encenadora profissional e atores com várias personalidades e interesses diversos, além de tiques e bajulaçoes à filha do anfitrião  e atriz convidada de forma interesseira pelo grupo, encaminham o conjunto dos intervenientes para uma tempestade perfeita. Divertido, elegante, bem escrito, satírico e análises sociais são características deste primeiro livro da trilogia.
Gostei e já entrei no segundo da série como leitura de avião ✈ a caminho da terra de Robertson Davies.
(texto republicado do meu comentário à obra em facebook)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Livros sobre a cidade da Horta, o Faial e inclusive outras ilhas dos Açores

No verão a Horta recebe muitos turistas e descendentes das nossas comunidades de emigrantes pelo mundo fora, perguntam-me por vezes onde podem encontrar livros sobre a história desta terra. A receção da biblioteca pública regional João José da Graça, no edifício situado no extremo sul do largo Duque d'Ávila e Bolama, a mesma praça onde se encontra a Matriz e o Museu, é talvez o local mais adequado a este objetivo.


Na minha opinião a maior produção de publicações sobre o Faial, a sua cidade da Horta e outras ilhas relacionadas com esta relacionada tem sido fruto do trabalho do Núcleo Cultural da Horta através de investigadores por cá residentes ou por cooperação com professores de outras instituições, com destaque para a Universidade dos Açores.

Nas fotos alguns dos títulos disponíveis neste local e editados pelo Núcleo Cultural da Horta cujas obras podem também ser encomendadas pela internet através deste site do NCH.

Boas opções que recomendo

terça-feira, 13 de junho de 2017

"As Regras da Casa da Sidra" de John Irving


O romance do norte-americano John Irving "As regras da Casa da Sidra" que acabei de ler, não sei se intencional ou não, apresenta um resumo, tanto no site onde comprei o livro, como no verso da capa deste, que se desvia em muito do cerne da questão principal levantada pela obra: o aborto pela livre escolha da mulher. Não importa se o leitor deste post é a favor da questão ou não, mas os vários episódios principais que marcam as personagens de um modo ou outro encaminham sempre o problema para esta questão ética.
Wilbur Larch jovem do Maine decide seguir medicina, na sua fase de viragem a adulto é-lhe ofertada pelo pai uma noite com uma acompanhante mais velha, depois conhece a filha, mais tarde já como médico e perante uma gravidez indesejada desta, ele recusa-se à interrupção, o que a conduz indiretamente à morte. Uma marca deixada pela mãe e o fim da filha levam-no a recolher-se num orfanato onde se torna no médico residente, viciado em éter, que estabelece uma rotina com os acolhidos e de onde dá plena liberdade às grávidas que ali se dirigem para estas criarem um novo órfão, a acolher na instituição para adoção, ou de evitar um filho indesejado. Uma prática então ilegal, este agir leva a que o estabelecimento seja visitado por muitas mulheres e entre os bebés que acolhe afeiçoa-se a um: Homer, cujas peripécias o impediram de ser adotado. Wilbur ensina-lhe a sua profissão e torna-o num obstreta dotado de prática exemplar, mas que recusa o papel de Deus na decisão de uma vida. Um casal jovem, bonito e rico vai ao orfanato e recebe o jovem de igual idade para a sua quinta de maçãs e sidra. Começa então uma relação amorosa a três que mistura admiração mútua, desejo, respeito e transgressões, com tempo este órfão torna-se central na empresa, mas à distância o médico velho prepara o seu sucessor e sabe que só o seu educando pode ocupar aquele local e monta uma estratégia para o seu trabalho continuar.
A obra está escrita por vezes de uma forma crua, com  tons científicos de práticas médicas, noutros está cheia de ternura, numa mostra de relações humanas onde se cruzam questões éticas e os instintos íntimos, redigido de uma forma elegante. Para mim a personagem principal da obra não é o protagonista Homer, mas sim quem o criou.
Sim, gostei muito do romance, que até no amor entre personagens principais cria situações incómodas para os princípios éticos de uma relação familiar, de amizade e amorosa, além de outras situações que perturbam o leitor, é sem dúvida um grande romance, inclusive no tamanho (750 páginas), bem escrito, com ironia e amargura temperada com questões de ética, carinho e paixão, que recomendo a quem o preconceito não se sobrepõe à questão ética que a obra aborda.

sábado, 3 de junho de 2017

Os dias de Charlie nas Western Islands


Fui ao lançamento de mais um livro editado pelo Núcleo Cultural da Horta que tem em cooperação com vários historiadores publicado um conjunto de obras sobre o passado do Faial e várias outras ilhas dos Açores.
Desta vez temos uma edição epistolar bilingue, português e com o textos originais em inglês na segunda parte, com várias imagens da Horta do século XIX. 
"Os dias de Charlie nas Western Islands" tem como subtítulo " As ilhas do Faial e Pico na visão de um turista americano a meados do século XIX" corresponde a uma coletânea de cartas de um jovem americano que saiu de Havard para combater na guerra civil da América, onde se feriu e desenvolveu febre tifóide, pelo que a família, de estrato social elevado de Boston, o mandou para a Horta a fim de se reabilitar fora dos rigores do inverno na Nova Inglaterra.
Durante a sua estada no Faial escreveu diversas cartas aos familiares, onde não só narra a sua visão da vida de então no Faial e Pico, como os seus contactos com algumas das pessoas de maior craveira intelectual e social da cidade de acolhimento, nomeadamente o clã do Cônsul Dabney e elementos Arriagas, de onde saiu poucas décadas depois o primeiro presidente da república eleito de Portugal.
Assim, num trabalho de Ricardo Madruga da Costa, Carlos Riley e Isabel Albergaria, mais um livro acessível a quem domina apenas o Português ou o Inglês com um retrato destas ilhas quando o cosmopolitismo internacional era uma marca fortíssima que marcava a cidade da Horta.
O livro pode ser adquirido diretamente no Núcleo Cultural da Horta, a funcionar na Biblioteca Pública João José da Graça, ou através da internet no site deste núcleo aqui 

sábado, 27 de maio de 2017

Elegia para um Americano - de Siri Hustvedt

Nunca ouvira falar de Siri Hustvedt, mas ao ver elogios ao seu romance: "Elegia para um Americano", por gente que reconheço como exigente e apreciadora de boa literatura, esta escritora, cujo nome não soa a americano (descende de imigrantes da Noruega) e mulher do famoso Paul Auster, despertou-me curiosidade suficiente para ler esta obra e deparei -me com uma boa e original obra literária.
Erik, um psiquiatra de Brooklin a sair de uma situação de divórcio, após a morte do pai, de origem norueguesa, numa pequena cidade no Minnesota, descobre junto com a irmã notas e um diário deste; papeis que servirão para o conhecer melhor e deparam-se com a existência de um segredo antigo que com sua irmã tentarão descobrir. No regresso à NY, Erik na sua solidão recente,  aluga um anexo a sua casa a uma mãe jamaicana por quem começa a sentir-se atraído, esta tem uma criança que se aproxima dele, mas todos ficam sob pressão do pai de sua filha um artista fotógrafo.
A partir deste início há uma série de textos e análises psicológicas (não há capítulos) que ora são transcrições do diário (em nota final descobre-se serem mesmo reais e pertencentes ao pai da escritora recentemente falecido); ora são reflexões e descrições de aproximação à hóspede e das ameaça do fotógrafo; ora narrativas de situações sobre a instabilidade emocional da irmã: viúva de um escritor famoso e alvo de pressão com a descoberta de uma passada relação extraconjugal deste e existência de pessoas a pretender tirar proveito, enquanto, como mãe, tenta poupar a filha, uma adolescente que desperta para o mundo adulto e suas contradições; incluindo ainda exposições dos casos dos doentes psiquiátricos de Erik e dos aconselhamentos com colegas de profissão sobre a sua situação e ainda outros relacionados com a investigação do segredo guardado pelo pai.
Assim, em vez de uma trama linear, Siri Hustvedt cria uma árvore com múltiplas raízes e ramos que constroem uma unidade completa e onde se aborda os problemas da solidão urbana, das relações pais, filhos, esposos e complexos de culpa que se criam nestas uniões e desuniões; bem como as dores de crescimento humano que dão um retrato profundo da alma social e das pessoas.
Sou de opinião que só um excelente escritor consegue criar uma personagem completa e credível de sexo diferente do seu, mais ainda, como homem, sinto mais habilitado a reconhecer esta capacidade se estamos perante uma autora que cria um protagonista masculino com pormenores suficientes para o termos não só na imagem de macho em sociedade, mas o conhecimento do seu íntimo. Siri faz isto com uma perfeição e elegância a que não estou habituado, evidenciando que tem grandes méritos que fazem com que o dom literário se deva à sua genialidade e não à sombra da notoriedade do marido.
Não se trata de uma construção literária alegre, o próprio título em português e em inglês "The sorrows of an American" denunciam isso: a solidão individual atravessa toda a obra, bem como as dificuldades no relacionamento entre as pessoas e a compreensão do comportamento do outro, mas é uma magnífica peça literária cheia de conteúdo introspectivo sem facilitismos comerciais. Recomendo a quem gosta de um bom livro pelo seu valor literário.

sábado, 20 de maio de 2017

"A Falha" de Luís Carmelo


O romance "A Falha", do escritor Português Luís Carmelo, tem a particularidade de ser um livro onde o autor coloca na obra o seu saber profissional como professor de escrita criativa. Este livro, no interior de cada um dos seus capítulos, expõe estilos onde se descreve a ação na perspetiva de um observador exterior a esta, reflexões íntimas das personagens envolvidas na estória, com formas distintas em função da psicologia destas, abordagens críticas de um narrador conhecedor do pensamento das pessoas que integram a trama e ainda a textos que mostram formas de outras entidades apresentarem o que se passa na trama. Criando assim uma panóplia diversificada de géneros de escrita que enriquece a obra.
No que se refere à trama, esta começa com a apresentação e encaminhamento de sete personagens que se dirigem para Elvas para um jantar de colegas de liceu de há 25 anos atrás que se reúnem habitualmente a cada cinco anos e onde cada uma tem não só evoluções pessoais e marcas diversificadas em função do relacionamento com os seus companheiros de adolescência, amores, desconfianças, descobertas origens sociais distintas e evoluções de vida diferentes, bem como fruto do 25 de Abril, o que confere a cada uma um carácter muito próprio. Segue-se o encontro e refeição onde as tensões entre estas estão presentes e disfarçadas pelas regras de relacionamento social impostas na vida adulta complementada com uma atividade lúdica de uma prova de vinho e visita a uma pedreira onde um acidente os deixa encerrados no interior de uma caverna cuja necessidade de convívio numa situação extrema se torna numa abordagem psicológica intensa e acompanhada da incerteza de salvamento. Após o resgate bem descrito desenvolve-se uma análise temporal dos efeitos da crise em cada um deles e o modo como estes ultrapassam melhor ou pior aquele tenso momento.
A escrita mesmo diversificada é fácil, embora, por vezes, a mudança de momento, estilo e perspetiva da narrativa perturbe o leitor, mas mesmo sem considerar estilos de um génio literário, o livro vale não só por essa riqueza de formas, como o romance, além de momentos de elevada tensão, tem uma multiplicidade de características que alimentam o suspense que nos prende à leitura. A obra tem cenas muito cinematográficas que até levaram à sua adaptação a um filme dirigido por João Mário Grilo. Apesar de não ser uma obra premiada, considero-a de nível não inferior a muitas outras nacionais cujas críticas e as editoras publicitam com louvores intensos. Gostei.

domingo, 14 de maio de 2017

"Rebecca" de Daphne du Maurier


Li Rebecca", da escritora inglesa Daphne du Maurier, sobretudo para conhecer o livro que esteve na base do filme homónimo e uma da obras mais empolgantes do realizador Alfred Hitchcook que eu vira no cinema há umas décadas atrás e sabia muito ter gostado, mas já com poucas memórias da história. Algumas passagens do romance recordaram-me cenas do filme e inclusive certas memórias revelavam-me o evoluir de alguns momentos da narrativa, todavia, felizmente, nunca o desenlace final, o que permitiu manter o suspense até à última página.
A protagonista narra o modo de como jovem de companhia de uma velha rica e presunçosa conheceu num hotel de verão em Monte Carlo um inglês mais idoso, senhor de uma importante mansão e viúvo de Rebecca, uma mulher admirada pela sua beleza e vida social que morrera recentemente num acidente. O encontro entre os dois conduziu a um casamento repentino e ao choque da sua entrada numa nova vida na imponente residência de Manderley cheia de memórias da anterior mulher e onde a mordoma que criara e se afeiçoara à anterior dona alimenta um ódio à nova senhora sentindo-a como intrusa e usurpadora sem o nível da anterior. No seio destas dificuldades e insegurança da segunda Mrs. de Winter, narradas no início a um ritmo lento e nostálgico, um incidente traz ao de cima com grande violência e perigo dúvidas sobre as causas da morte de Rebecca que colocam em ameaça uma relação ainda cheia de incertezas de ser fruto de um amor correspondido e onde o fantasma da falecida parece vir vingar-se ao longo de uma investigação policial cheia de suspense até ao final.
O romance apresenta uma escrita muito feminina, cheia de sentimentos e pormenores dos espaços percorridos e situações narradas por um coração de mulher e essa forma sente-se não só na sensação de insegurança e lentidão de adaptação social na primeira metade da obra, como na força do companheirismo e do amor com que a ansiedade do suspense é combatida na segunda metade da obra face a todos os perigos que colocam em risco um amor que se descobre ser forte, apesar de uma sombra do passado que afinal era uma ameaça mas por razões bem díspares dos receios da segunda Mrs. de Winter.
Uma obra que junta romantismo, literatura policial e suspense brilhantemente escrita e estruturada, com um grande tempero feminino. Gostei e recomendo.

sábado, 6 de maio de 2017

"A Vegetariana" de Han Kang


Acabei de ler "A vegetariana" da escritora sul coreana Han Kang, romance vencedor do Man Booker Internacional Prize de 2016 onde na lista final também se encontrava o livro de expressão original portuguesa "Teoria Geral do Esquecimento" de J E Agualusa aqui abordado.
Estamos perante um romance que narra três episódios em torno de Yeong-hye, uma mulher sem nada de excecional que leva a sua pacata vida de casada numa normalidade obscura que de repente decide rejeitar comer qualquer alimento de origem animal, impondo tal disciplina em casa e encontra uma grande oposição de toda a sua família.
No primeiro relato, esta mudança de comportamento é vista pelo lado do marido que pede auxílio aos parentes da esposa para enfrentar a situação. O segundo relato decorre após o termo do primeiro e conta na primeira pessoa a atração e relação desencadeada no cunhado, artista que pinta flores em corpos nus com cobertura video desse trabalho, para com a figura central do livro, desenvolvendo-se então uma história em simultâneo erótica, sexual, imoral e também inocente. A terceira parte é a exposição da irmã que tenta salvar recém-convertida ao vegetarianismo, aquela analisa o que foi a vida desta, as atitudes de sobrevivência de ambas, o choque do comportamento do marido e a opção pelo tratamento psiquiátrico de Yeong-hye, com todas as consequências que daí resultarão face a uma mudança cada vez mais radical desta de unir-se ao mundo vegetal.
Não conheço a língua coreana para analisar como terá sido a escrita original de Han Kang, o romance resulta da tradução a partir da versão inglesa e em português transformou-se num texto claro, com frases elegantes e com um recurso escasso a floreados, apesar das flores serem muito importantes na obra. O início da obra é literariamente deslumbrante, depois perde alguma beleza face a uma violência psicológica e física que me surpreendeu, depois na segunda parte há uma conciliação entre beleza de escrita, erotismo, imoralidade e crueldade, sem o texto perder o seu carácter de obra de arte não pornográfica.
A terceira parte é uma narrativa deprimente de onde resultam mais questões do que ideias da escritora. Quais os limites das opções individuais sobre o uso do seu corpo e das atitudes de cada um? Pode um percurso imoral e de rejeição social ser o caminho para a salvação de alguém? Teremos o direito de comprometer o futuro de uma pessoa em nome dessa ética perante atitudes que não prejudicam terceiros? Gostei do romance, embora não seja uma obra que me tenha marcado especialmente, pois apenas levanta questões sem deixar mensagens claras. A opção do júri para dar a vitória a esta obra em detrimento da de Agualusa levanta-me dúvidas, embora a prefira a este livro de Ferrante que também gostei mas perdeu igualmente para "A vegetariana".

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"A verdadeira vida de Sebastian Knight" de Vladimir Nabokov


O romance "A Verdadeira vida de Sebastian Knight" foi o primeiro livro deste famoso escritor e crítico literário russo: Vladimir Nabokov, que se exilou nos Estados Unidos após a revolução bolchevique, sendo este o primeiro livro que escreveu originalmente em inglês, idioma que adotou em definitivo para a sua obra posterior.
Sebastian Knight (SK) é um escritor de qualidade, de origem russa e radicado nesta cultura, mas depois naturalizado inglês pela origem materna e cuja língua seleciona para a sua escrita morre ainda jovem, então o seu meio-irmão do lado paterno, decide conhecer e fazer um livro sobre a sua vida, tendo em conta uma biografia publicada na qual ele deteta grandes discrepância face ao que conhece dele apesar de distante nos últimos anos.
Assim, inicia-se o relato da investigação sobre SK desde o seu afastamento, com as suas paixões, viagens e estilos de vida, tendo como fonte o conteúdo da sua obra, cujos enredos e estilo se vai expondo, e também fruto das memórias do irmão e de colegas, amigos e amantes que partilharam os anos da sua carreira na Inglaterra. Num jogo de espelhos entre o próprio Nabokov e SK, a obra evidencia o esforço perfecionista do escritor narrado e a busca de perfeição do real autor do livro, inclusive os paralelismos das dificuldades de alguém criado numa língua que quer ser perfeito noutra adotada, Vamos conhecendo personagens da bibliografia ficcionada de SK, as suas estórias, enquanto as fontes após uma aproximação que evidencia que se vai descobrir algo de importante sobre o falecido, depois, por um falso pudor intencional, não nos é revelado, deixando um conjunto de questões sobre quem foi de facto Sebastian Knight.
Nabokov é de facto um escritor dotado de uma magnífica escrita e busca a perfeição plena na construção do texto. No romance disserta sobre este objetivo e vês que quis edificar uma obra de arte literária e neste encontro entre a perfeição da escrita, da narração e da estrutura do romance edifica uma obra que é isso mesmo e quase se esgota neste domínio. A beleza está quase em exclusivo na forma, anulando-se na comunicação de ideias ou de outras questões para além do abstrato da arte de escrever. Gostei e para quem aprecia análise literária é uma pérola ficcionada no género.

terça-feira, 25 de abril de 2017

"ALÉM" de J. K. Huysmans


Quando me interessei em descobrir o francês J. K. Huysmans, na sequência da leitura recente de "Submissão" de Houellebecq, verifiquei que aquele, além deste ser um escritor com poucos romances traduzidos disponíveis em Portugal, também era um autor cuja vida e obra era marginalizada por certas elites culturais e sociais desde o final do século XIX. Tal aconteceu não só por ele ter iniciado a sua carreira como um brilhante discípulo literário de Zola, no estilo "naturalista" e se ter mudado para o "decadente" que era rival do primeiro grupo de escritores, tendo sido nesta corrente um dos expoentes máximos na ficção, mas também, pela sua mudança individual de pessoa descrente, laica e ainda mergulhado no ocultismo, para um católico convicto, transpondo paras as suas obras literárias este percurso com a criação de uma personagem seu alter-ego, Durtal, onde em várias obras relata a vida que considerou degradante (decadente) e a mudança para uma fé profunda, praticante e escrupulosa, sendo então rejeitado na sociedade intelectual materialista que predomina na cultura ocidental.
O romance "Além" de Huysmans é o segundo romance do período decadente, onde Durtal é um escritor em ascensão e está a escrever a biografia de Gilles de Rais (personagem real, que após ter sido colega de armas de Joana D'Arc, se tornou na figura mais sombria da história de França desde a idade média, pelas suas atrocidades do seu culto satânico com atos sádicos, assassinos e pedofilia), Nesta busca o protagonista entra em contacto com contemporâneos e descobre que os ritos e práticas diabólicas persistem ainda no final do século XIX, com os adoradores do mal e práticas hediondas num conflito permanente que envolve cidadãos comuns, crentes, cultos, investigadores, cientistas e hierarquia da igreja e configura uma permanente luta entre o mal para dominar e o bem para resistir e permanecer fiel ao ideal Cristão.
Huysmans é portador de uma escrita escorreita, vocabulário extenso, por vezes recorre a palavras menos usuais, a que junta uma prosa de grande elegância típica de um escritor de excelência e com a clareza típica do estilo da época. Tal não invalida que algumas páginas de "Além" não deixem de ser muito perturbadoras nas descrições dos rituais satânicos e escatológicos, com divulgação de crenças obscuras, práticas degradantes e mesmo horripilantes. Desengane-se quem pensa encontrar o terror popular de espíritos de outros mundos, erotismo barato ou pormenores pornográficos: Não! Apesar de tudo o que se subentende dos relatos e de alguma ousadias, Huysmans não cai na literatura de cordel do horror, não romantiza paixões com espíritos, nem retrata bacanais. É uma obra tem negritude nalgumas passagens, mas também está cheia de momentos de boa disposição, reflexões sociais sobre a época, críticas à arquitetura de uma monumento de Paris, saborosas apreciações gastronómicas de repastos de amigos, discussões sobre mitos medievais enriquecidas por citações de obras de referência que, à semelhança de Umberto Eco ou de Jorge Luís Borges, não importa se existem ou fazem parte do mundo mágico criado pelo escritor para suportar a trama.
Gostei do livro, mas alerto que se trata de uma obra com uso do macabro e com situações de grande degradação humana que não são recomendáveis a leitores suscetíveis de se impressionar e romanceia o início da conversão religiosa de Huysmans.

domingo, 23 de abril de 2017

Dia Mundial do Livro - Os meus preferidos de um ano de leituras

23 de abril comemora-se em Portugal o Dia Mundial do Livro, em Geocrusoe não costumo fazer a apreciação das minhas leituras anuais no dia de ano novo, mas sim nesta data e como sempre a escolha não é fácil e é função das marcas que as obras deixaram em mim, bem como as categorias são função do tipo de livros que li.


Mais Apreciada Leitura de obra Portuguesa


Não foi fácil a escolha entre este magnífico texto literário "Húmus", de Raul Brandão, e a pérola estilística de "O que diz Molero", de mais fácil leitura e igualmente original. Todavia, apesar de Húmus não ser de fácil, antes pelo contrário, é de uma perfeição de escrita e com profundidade de reflexão e abordagem filosófica que não poderia deixar a obra para trás em nome de uma facilitismo comercial que doentiamente me parece estar a degradar hoje em dia a literatura nacional. Um pequeno volume, mas um enorme livro.


Mais Apreciada Leitura de obra Lusófona

"A república dos sonhos", de Nélida Piñon, corresponde a uma saga familiar bem escrita que atravessa quatro gerações de uma família, das quais três na condição de imigrantes galegos que servem para contar não só os sonhos de quem escolheu o Brasil como sua pátria, lutou por ser alguém aos olhos dos outros ou na sua forma de ser e se confrontou com os obstáculos da integração mas também para analisar mais de meio século de história do país de acolhimento com todos os seus defeitos e virtudes e crises políticas, regimes democráticos e ditatoriais. Extenso, mas sem dúvida um bom livro.

Mais Apreciada Leitura de obra Original em língua estrangeira

Foi sem dúvida a escolha mais difícil, havia vários romances possíveis, alguns de laureados com o Nobel, mas a riqueza de informação neste livro sobre a vida da população urbana nigeriana, a caracterização da integração da emigração atual africana nos Estados Unidos e Reino Unido, além do facto de ser uma obra que mostra que na atualidade ainda se escrevem grandes e bons livros, pelo que ainda há esperança na continuação da literatura, incluindo a partir de países de grande dificuldade social e pouco admirados no ocidente, levaram-me a selecionar "Americanah" de Chimamand Ngozi Adichie.

Mais Apreciada Leitura de obra Canadiana


Apenas li três obras canadianas, "The origin of species", de Nino Ricci, foi lida na língua original  e ganhou GG prize do Canada em 2008. É sem dúvida um excelente romance que mostra muito do que é a vida multicultural do meu país natal, onde também ocorrem desencontros pelas diferenças, buscas de identidade e do significado da vida nesta biodiversidade de povos que segue muito das mesmas regras materializada na teoria da evolução de Darwin. Uma obra que me despertou interesse em ler outros título do autor e por isto eleita nesta categoria.

sábado, 22 de abril de 2017

22 de abril - Dia Mundial da Terra

Vulcão do Pico visto da Ribeirinha, Faial

Porque a Terra é a nossa casa comum, este Planeta é único e este Astro é lindo, temos de o preservar para que a sua diversidade biológica e geológica persistam em equilíbrio entre o seu sistema ambiental e o Homem.
O blogue Geocrusoe, como tem sido tradição, comemora o Dia Mundial da Terra e, como Geólogo, desejo a todos um dia feliz e responsável para com o nosso Planeta.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"A um deus desconhecido" de John Steinbeck



"A um Deus desconhecido", do norteamericano laureado com o Nobel John Steinbeck, é um romance onde, além da ligação do agricultor à terra e das suas dificuldades de sobrevivência face à insegurança dos seus rendimentos e à dependência dos caprichos meteorológicos que habitualmente é abordado em muitas obras deste escritor, mergulha também nas raízes religiosas do homem colocando em confronto visão vertical do cristianismo com a os antecedentes animistas que explicam o equilíbrio da produção agrícola com uma perspetiva horizontal do espírito que atravessa todas as coisas da natureza.
Joseph Wayne de uma quinta do leste dos Estados Unidos sonha com uma nova herdade na Califórnia cuja terra está aberta à ocupação de novos exploradores, pede a benção ao pai para cumprir este objetivo que no ocaso da vida lha concede e promete estar sempre a acompanhá-lo de cima depois da vida o deixar. O protagonista parte para o oeste, adquire um prometedor campo, tem conhecimento de histórias de secas passadas, encontra indícios de cultos índios à fertilidade da terra e encanta-se com uma árvore na qual sente expressar-se toda força da vida do vale. A morte do pai leva os irmãos a se juntarem à exploração marcada pelo sucesso.
A visão de fanatismo religioso de um dos irmãos e as preocupações de um padre face os sinais animistas levam a que a sua árvore seja abatida e desde de então tudo declina: a seca, a fome a miséria, a migração, mas Joseph resiste no terreno que assumiu proteger, nem que para isso tenha de se tornar no sacerdote capaz de oferecer o supremo sacrifício a esse deus que dá a vida à terra.
Steinbeck para mim é o escritor que melhor mostra o modo como o agricultor vê o campo, a paisagem e interpreta o sinais meteorológicos e descreve a atividade da agricultura tradicional e a vida rural na primeira metade do século XX, fazendo tudo isto com uma escrita perfeita, plena de beleza e de metáfora originais e este romance cria imagens que são quadros perfeitos neste domínio. A temática saudosista de uma crença abandonada mas em pleno equilíbrio com a natureza em choque com uma fé contemporânea desenraizada da terra na alma de um agricultor leva a uma história onde o misticismo e as dúvidas sobre o espírito que controla o mundo atravessam toda a obra como uma luta entre o racionalismo, a religião, a ternura pelo que nos rodeia e o amor sob a a dureza da vida rural. Um pequeno romance que é uma pérola literária.

sábado, 15 de abril de 2017

"Bíblia" Na nova tradução de Frederico Lourenço - Cristo Ressuscitou!


Não importa se a tradução é do grego, canónica ou não, em todas elas, incluindo nesta tradução dos Quatro Evangelhos de Frederico Lourenço, prémio Pessoa 2016, o texto continua claro a comunicar: Cristo Ressuscitou - Feliz Páscoa a todos

terça-feira, 11 de abril de 2017

"RESSURREIÇÃO" de Lev Tolstói


Acabei de ler "Ressurreição" do grande escritor russo Lev Tolstói, um romance onde o autor expõe a sua filosofia de vida, a sua moral e fé de forma clara, com um apelo de conversão ao bem e tendo como referência a denúncia da injustiça que domina a sociedade que cria vítimas permanentes, não reabilita, nem resgata as pessoas do mal, proclamando uma visão do cristianismo muito própria e livre das interpretações oficiais das religiões cristãs tradicionais.
Nekhliúdov é um príncipe e com um bom coração amolecido pelo bem-estar da sua classe e luta permanente entre o ideal que busca e os hábitos e vícios a que se afeiçoou que o seu estrato social apoia e tem como a norma. No seio disto apaixona-se e abusa de uma doméstica órfã que engravida, é ostracizada e levada para a prostituição, vendo-se anos mais tarde envolvida num crime e sujeita a um tribunal de júri onde, por coincidência, ele se senta como jurado.
O príncipe, acobardado entre a vergonha e o dever, além dos interesses pessoais das personagens judiciais, assiste à condenação da inocente ao desterro e trabalhos forçados. Começa então a luta do herói para resgatar e reabilitar a mulher de que se sente culpado da sua situação, enquanto abdica das suas terras por ideais de justiça e se dedica completamente à condenada, inclusive oferece-se em casamento. Todavia a burocracia judicial, os seus intervenientes e os preconceitos dificultam a reparação dos próprios erros da justiça, o que o leva a acompanhar a sua vítima para a Sibéria e a conhecer os horrores do sistema prisional e a quantidade de inocentes que a sociedade condena e se desfaz e não salva.
Tolstói faz uma crítica forte do sistema económico e social da Rússia de então, expõe com crueza o sofrimento intolerável do regime judicial e, à semelhança de Victor Hugo, denuncia a aplicação cega da Lei contra as pessoas que mantém o sistema. Propõe o modelo económico de Henry George, que tem uma perspetiva mais rural do que o proposto por Marx para o seu proletariado urbano, a que associa a necessidade de uma prática do Evangelho livre da estrutura eclesial, mas ligada a Cristo.
Ao contrário de "Guerra e Paz" e "Anna Karénina", aqui Tolstói tem uma única linha narrativa, não havendo histórias paralelas a atravessar toda obra e servem de comparação a opções de vida alternativas. Todavia Nekhliúdov conhece muitas prisioneiros, de crimes a razões políticas, cujas vidas são comunicadas para destacar os defeitos do sistema vigente. Sem dúvida um grande romance, menos consensual que os outros citados, pois em Ressurreição as ideias do escritor são ditas diretamente sem preocupação de ferir ou divergir do leitor. Tolstói quer mesmo agitar a consciência de quem lê e tirar os acomodados da sua situação de conforto. Gostei e recomendo.