sexta-feira, 18 de Julho de 2014

"No céu não há limões" de Sandro William Junqueira


Acabei de ler "No céu não há limões" de Sandro William Junqueira, um escritor português na nova geração que começa agora a tornar-se conhecido e comentado. Pessoalmente penso que é daqueles livros que será o tempo a dizer se foi um grande obra revolucionária com uma escrita e estrutura original ou fruto de um estilo de sucesso e de elogios de moda e passageiros.
Comecei por gostar muito da escrita com figuras de estilo geradoras de imagens bem diferentes do tradicional, depois pareceu-me que era um desenrolar de frases fortes que se queriam originais, construíam uma história, cujo enredo era secundário e se desenrolava ao ritmo da inspiração do momento.
O romance em estilo distópico passa-se num país imaginário em guerra civil na frente (terra do meio) por a solidariedade dos mais afortunados (norte) ter sido cortada pelo "cansaço" com a parte do estado vítima de uma série infortúnios (sul), pelo meio um conjunto de personagens trabalhadas, mais ou menos invulgares, entre as quais se desenvolvem vários laços de subserviência, de domínio psicológico ou físico e por vezes com passado e futuro em aberto, tal como o romance. 
Um livro que seguramente desperta paixões em quem gosta de novidades de forma, se sente atraído pelo estilo ou anda em busca daquela obra que marque a diferença das outras. Noutros, como eu, despertará algumas dúvidas de consistência do romance e da sujeição da trama aos interesses da escrita, talvez também surjam quem simplesmente desgoste. Existem alguns aspetos no estilo e na forma que fazem lembrar Gonçalo M. Tavares e penso que vale a pena ler e cada um ajuizar individualmente. Apesar de algumas dúvidas, confesso que mantive o meu interesse em vir a ler outros trabalhos do escritor.
Ouvi o editor dizer esta semana na televisão sobre o livro algo do género: "Um romance tipicamente do século XXI." Será por aqui que seguirá a literatura?

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Com os Holandeses - J. Rentes de Carvalho


Não se trata de um romance, mas sim de um livro de memórias e comentários de como Rentes de Carvalho vê os holandeses a partir da sua experiência de décadas de permanência na Holanda.
Rentes de Carvalho não faz um retrato simpático, mas antes uma exposição pessoal honesta das virtudes e defeitos que vê nos holandeses, em Amesterdão e na organização sócio-politica e administrativa dos Países Baixos. Elogia o que considera positiva, mas não omite as críticas, por vezes duras do que como português não compreende, nem pensa ser louvável naquele povo.
Utiliza uma linguagem ora irónica, ora crítica, ora elogiosa de fácil leitura que desperta gosto na em se ler, embora a obra possa estar já algo desatualizada, pois funda-se em apontamentos de 1971, com uma atualização da década de 1980, sendo este o principal problema do livro.
Apesar de tudo gostei e como o li nos Países Baixos, foi-me possível confirmar vários aspetos mencionados e ver a evolução entretanto ocorrida em vários domínios do comportamento social dos holandeses.

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Holanda, impressões finais



Primeiro importa deixar claro que neste campo Holanda, são mesmo as províncias da Holanda do Sul, com Roterdão, Haia, Delft e Leiden, e da Holanda do Norte com Amesterdão e um passeio por Volendam e ilha de Marken, não se confundindo com o Estado dos Países Baixos.

Na Holanda do Norte, Amesterdão é de facto lindíssima e rica, milhares de pontes, centenas de canais e casas de empensas apertadas ricamente decoradas confere-lhe uma beleza singular, mas a sua bandeira de tolerância, que a leva aos coffeeshops e ao Bairro da Luz Vermelha emprestam-lhe também uma aspeto decadente e demonstra o carácter do holandês, mais do que tolerante, está aberto a todo o tipo de comércio, inclusive amoral. O centro da cidade é do mais ruidoso que conheço na Europa e o lixo deixado pelos numerosos turistas, com muitos jovens atraídos pelo exótico da legalidade das drogas leves e prostitutas na montra como qualquer artefacto comercial, dão um aspeto sempre sujo da zona mais movimentada da urbe que nem as frequentes limpezas conseguem dar vazão.
Se gostei de Amesterdão, confirmo que é bonita e vale a penas conhecer, mas o ar de moral decadente e os ciclistas que concorrem com os automóveis e não são de todo simpáticos para com os peões também fragilizam o meu gosto e não me sentiria bem a viver dentro desta cidade.



Volendam e Marken (na foto) têm a característica de a primeira ser católica e de ambas terem sido terras de pescadores, mas onde hoje o mar salgado deixou de lhes tocar devido à engenharia dos diques, só que as famílias daí dependentes vivem sobretudo depois de apoios do Estado, preservando-se para fins turísticos os seus bairros agora com um ar muito artificial para visitante ver. Os lacticínios em contrapartida estão pujantes, mas também abertos para o turista. Na visita foi pelo guia que se tornou evidente o desprezo protestante pelos cristãos ligados ao Vaticano, evidenciando que uma coisa é ser-se tolerante oficialmente e para fins de comércio, outra é tal resultar de uma atitude assimilada pelo caracter do cidadão e infelizmente as impressões com que fiquei dos holandeses não foram das mais positivas neste ponto.
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Na Holanda do Sul, Roterdão é uma cidade moderna cujo centro faz lembrar uma cidade média da América do Norte pelos numerosos arranha-céus, só que aqui abundam ciclistas em vez do automóvel e reina um comportamento delicado para com o peão e a simpatia dos habitantes está conforme com a ideia de civismo que se tem do norte da Europa. Não tem a beleza da capital da Holanda do Norte, mas a diversidade de arquitetura contemporânea, as numerosas esplandas em ruas largas de pouco trânsito, a arte de rua, o asseio e o ar moderno são trunfos que admirei, até no seu principal museu a arte do século XX é rainha e encontram-se magníficas peças. Confesso que o peso económico do porto e a força das empresas mostram a pujança do país e da urbe, isto misturado com gente de grande educação no trato que me cativaram de facto.



Leiden (na imagem abaixo) e Delft são cidades ricas em património histórico e cultural, também devido à universidade na primeira e têm uma enorme beleza e simpatia. Novamente os canais e as casas de tijolo típicas em torno de igrejas de majestosas externamente são pontos fortes e as esplanadas dão ar cosmopolitas só que aqui não decadentes e merecem uma visita.



Haia é uma cidade algo incaracterística, o seu centro histórico está altamente marcado por imóveis modernos, mas muitas vezes sem o equilíbrio entre o novo e o antigo, só que o largo onde se encontra o parlamento e o governo merecem um visita, tal como o museu Mauritshuis.


sábado, 5 de Julho de 2014

Férias - Holanda: A explorar as cidades de Haia e Delft

Depois de Amesterdão, mas agora sem sair da minha base em Roterdão, prossigo com as explorações pela Holanda, desta vez através de visitas a cidades próximas: Haia e Delft

 Haia - fonte wikipedia


Haia, a sede do real governo dos Países Baixos, que sei ter importantes museus e onde a água continua a ser uma presença marcante.


Delft - fonte wikipedia

Delft terra do pintor Vermeer, agora já deverá ser bem diferente do tempo do seu famoso quadro do Porto de Delft, mas que sei ser um importante centro universitário e me dizem continuar a ser uma cidade fascinante, aspeto que agora estou decidido a confirmar.

quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Férias - Holanda: Roterdão

Roterdão casas cúbicas - imagem Wikipedia

Depois de descobrir Amesterdão, da qual oportunamente espero apresentar aqui as minhas impressões, chegou o momento de conhecer mais cidades holandesas, para já outra igualmente ligada à água, mas sobretudo do ponto de vista económico: Roterdão, sede de um dos portos mais movimentados da Europa e do mundo e terra natal de Erasmo e do seu elogio da loucura para através das letras criticar a sociedade para a transformar e gerar um mundo melhor.
Roterdão, uma cidade praticamente destruída pelos bombardeamentos da Segunda Grande Guerra, que para além dos seus museus e do seu porto, alvo de visitas guiadas, tem na sua arquitetura contemporânea arrojada do pós-guerra um dos focos de maior interesse, sem dúvida que o contraste com Amesterdão deverá ser grande, mas essas diferenças fazem parte dos aliciantes para tentar compreender a Holanda, um dos países economicamente mais ricos do planeta.

domingo, 29 de Junho de 2014

Férias - Holanda: Amesterdão

Imagem wikipedia

Em 2014 volto a uma cidade de canais, isto cerca de um ano depois de visitar Veneza que me fascinou no ano passado, desta vez viajo pelo norte da Europa: Amesterdão na Holanda, a terra que Rembrandt escolheu viver e onde fez grande parte das suas pinturas, a sede do Concertgebouw para dignificar a interpretação da música e onde muitos judeus portugueses se refugiaram dos "pogromes" lusitanos e daí ter nascido Espinosa, isto devido à tolerância cultural e religiosa dos seus habitantes.

Por agora é demasiado cedo para me pronunciar sobre a cidade, primeiro há que explorar os cheiros, as cores, a comida, a arquitetura, os museus, a música e as vivências, mais tarde por aqui penso expor as minhas impressões sobre Amesterdão e ainda circular por outras terras do reino da Holanda: um Estado que ao contrário de Portugal, ao perder o seu império de ultramar e ao ter uma escassa área de terra para os seus habitantes, soube encontrar soluções para manter um elevado nível económico e de bem-estar socioeconómico aos seu povo e até conquistar terras ao mar para alargar o seu território.

sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Bichos de Miguel Torga


Uma série de vários pequenos contos, na sua maioria protagonizados por animais do meio rural português, tanto domésticos como selvagens e que segundo Torga formam uma espécie de arca de Noé... que até entra no último conto.
Com a escrita característica de Torga e os seus regionalismos trasmontanos, no seu conjunto mostram-se não só as vivências rurais das pessoas, como o quotidiano e o destino dos animais de quinta e dos que os cercam, predadores ou não, mas sempre humanizados com sentimentos de heroísmo, ironia, esperteza e por vezes com uma dose de fatalismo previsível.
Leem-se todos os contos facilmente, que formam um conjunto divertido, bucólico e deixam um retrato do que foi um mundo rural e da sua cultura popular já quase extinta.

segunda-feira, 23 de Junho de 2014

"Um Homem: Klaus Klump" & "A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares


O livro "Um Homem: Klaus Klump A máquina de Joseph Walser" de Gonçalo M. Tavares reúne dois romances publicados inicialmente em separado e que correspondem aos dois primeiros volumes da tetralogia "O Reino" passado num país onde as relações humanas são como que mecanizadas, frias e sem o tempero dos sentimentos, não se pode dizer que é um estado totalitário, mas não é um regime saudável.
Em "Um Homem: Klaus Klump" vemos o dia-a-dia deste cidadão quando o seu país entra em guerra, não se sabe se foi invadido ou foi tomado por uma fação, Klump adere à resistência e prossegue as suas relações com amantes, mas abandona uma e é traído pela outra que o entrega à máquina no poder, é preso e consegue fugir. À sua volta contacta com indivíduos que cooperam como máquinas de sobrevivência ou resistem como máquinas de espalhar a morte de onde se destaca uma das mulheres que friamente vive nesta ambiguidade e não só sobrevive como está num elevado patamar social quando a guerra termina.
O mundo e o tempo de Walser é concomitante com o da história de Klaus, existem inclusive algums referências e interligações às personagens do primeiro romance, mas estas nunca são intervenientes diretos no segundo. A complexidade e interligação entre o homem como máquina e a máquina com que o protagonista trabalha, a máquina que faz a guerra, a máquina que morre, a máquina que é amiga ou mata é o mote para a reflexão no mundo de Joseph. A guerra é como que um período de intensificação destas máquinas, mas também pode virar a uma habituação e a guerra então morre por cansaço e indiferença das máquinas humanas, mas será que a sobrevivente está preparada para os desafios dos ataques da máquina humana em tempo de paz?
Gonçalo M. Tavares é para mim um escritor contemporâneo de escrita ímpar, acima de qualquer onda publicitária, vale por si, pela sua criatividade, pela sua frieza de criar relações humanas e sociedades distópicas e deprimente onde cada pormenor é dissecado com uma crueza que dói e maravilha que o lê. Todos os livros que li dele são grandes obras, mesmo quando correspondem a pequenas histórias...

quinta-feira, 19 de Junho de 2014

"Rosa Brava" de José Manuel Saraiva


Rosa Brava de José Manuel Saraiva é uma biografia romanceada de Leonor Teles, talvez a rainha mais odiada da história de Portugal, com início na sua juventude e prolongando-se até ao seu exílio no final da vida.
O romance ficcionado por um jornalista não deixa de refletir a escrita jornalística, simples mas sem um fulgor de estilo literário de um escritor de ficção, embora se leia bem, sente-se esta singeleza e pobreza ao contar-se a vida de uma das personagens mais polémicas que esteve na base da queda da dinastia de Borgonha, das  guerras fernandinas e da crise do reino que colocou levou ao início da dinastia de Avis.
A obra vale sobretudo pelo relato de uma época turbulenta e dos principais acontecimentos de então e está feita de uma forma fácil de ler, aquecida com o calor de diálogos simples do autor e apimentada, talvez com alguma criatividade, com as paixões despertadas pela beleza e intimidade de Leonor Teles que com ardis, vinganças e rotura de princípios chegou a rainha.
Gostei de recordar e compreender melhor o período e a pessoa em causa...

sexta-feira, 13 de Junho de 2014

"Orlando - Uma biografia" de Virginia Woolf


"Orlando - uma biografia" é uma das obra de Virginia Woolf mais conhecidas e de maior sucesso.
Conta a vida desta personagem fruto da pesquisa de um suposto biógrafo que chega a comentar os principais acontecimento de Orlando, um pessoa da alta nobreza e rica que nasceu homem no final do século XVI e se transformou de modo fantástico em mulher aos trinta e poucos anos e sobrevive até à data de publicação da obra em 1928.
Orlando anseia escrever a melhor poesia e ao longo da sua extensa vida aperfeiçoa o seu poema, contacta escritores famosos, que considera seres acima dos outros, e é ridicularizado por estes. Procura o amor ideal e ao encontrar a paixão descobre a traição. Entra na diplomacia e sente o vazio do protocolo. Vira a mulher sabendo o que é ser homem e sente as condicionantes sociais do género feminino. Mergulha na sociedade em busca de uma cultura superior e depara-se com a futilidade. Assistiu ao passar de reis e rainhas com quem se cruzou, observou o progresso tecnológico e industrial e alcançou o sucesso literário, de esposa e mãe numa sucessão de eus que são lembrados no fim da obra.
Não deixa de ser um livro estranho, onde o fantástico se cruza com a história da Inglaterra e as evoluções da sociedade. Ora irónico, ora crítico, ora divertido, ora denso e massudo, mas gostei.

segunda-feira, 9 de Junho de 2014

"Caligrafia dos sonhos" de Juan Marsé


"Caligrafia dos sonhos" do catalão Juan Marsé é uma série de episódios, distribuídos por capítulos, de um adolescente num bairro pobre de Barcelona no final da década de 1940 e contados com uma escrita magnífica que parecem mesmo memórias em forma de sonhos. Estes atravessam os amores, desamores e dificuldades de figuras da rua, passam pelas aventuras de infância à juventude do protagonista com a família e os amigos, o seu despertar para a sexualidade, a sua fértil imaginação e os seus gostos pessoais, entra nos riscos de quem enfrentava o início do franquismo e a marginalidade e vai até à passagem precoce de Ringo na vida adulta.
A forma brilhante que Marsé adota no texto valoriza fortemente a história, algumas personagens femininas são descritas com tal intensidade que fazem lembrar as mulheres dos filmes de Pedro Almodovar, transformando acontecimentos banais de bairro em peças de arte literária. Gostei muito livro e recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 4 de Junho de 2014

"A Voz dos Deuses" de João Aguiar


"A voz dos Deuses" romanceia a liderança de Viriato através das memórias de um filho fictício de uma relação entre um histórico príncipe bracarense exilado em Cineticum (Algarve) com uma nobre fenícia, o qual teria sido próximo deste herói real que está na memória dos Portugueses e na origem da nossa identificação como Lusitanos. 
No livro ficamos a conhecer não só as principais batalhas e feitos de Viriato, como a sua estratégia militar e as grandes dificuldades dos romanos para derrotarem este povo da Hispânia, o que maior resistência lhes ofereceu na península e só conquistado após a traição e morte deste líder guerrilheiro. 
João Aguiar introduz ainda no romance algumas viagens do autor das memórias para assim nos relatar os costumes, as crenças e a diversidade dos povos peninsulares e da guerrilha quando da romanização ibérica.
A escrita em "A voz dos Deuses" de João Aguiar, que foi jornalista e escritor, é simples e despretensiosa e este livro foi não só o seu primeiro romance, como deu início a uma trilogia, que em ficção, em parte baseada em factos reais, cobriu a história do território nacional no tempo da conquista, resistência, consolidação e declínio do poder do império romano na Ibéria. Esta obra deixa já abertura para o romance: "A hora de Sertório", sobre o romano que liderou a resistência lusitana num período em que mais do que a libertação do território este povo desejava sobretudo ser governado com justiça.

quinta-feira, 29 de Maio de 2014

"Nação Crioula" de José Eduardo Agualusa


Escrito em estilo epistolar, o romance baseia-se em alguns factos reais, como o navio negreiro Nação Crioula, intercalados com acontecimentos de ficção.
A obra está estruturada como um conjunto de cartas de Fradique Mendes (personagem fictícia mantida por vários escritores do século XIX em artigos de jornais na sua época em Lisboa) entregues a Eça de Queirós e nas quais se relata a paixão do protagonista por Ana Olímpia (destinatária de várias missivas) e sua vida social em Luanda, se descreve o tipo de relações comerciais entre esta colónia e o Pernambuco no Brasil, bem como as contendas entre escravocratas, abolicionistas, negreiros e tensões para o fim desta exploração de mão de obra por parte de várias nações europeias.
José Eduardo Agualusa aproveita assim para expor numa escrita muito linear e epistolar os dilemas do fim da escravatura, vários preconceitos e desumanidades que modelavam a vivência de Luanda, Brasil, Portugal e perspetivas filosóficas, religiosas e políticas em confronto no império português com as visões e ideias vindas do norte da Europa, bem como alguns aspetos do comportamento dos africanos. O livro lê-se muito bem, gostei muito, tem uma escrita acessível e recomendo a qualquer  tipo de leitor.

segunda-feira, 26 de Maio de 2014

"Claraboia" de José Saramago

Editorial Caminho

"Claraboia", o segundo romance escrito por José Saramago no início da década de 1950 sob o pseudónimo de Honorato e cuja editora em 1953 nem se dignou a responder nem a publicar, é o único livro do género saído postumamente por opção do autor face à desfeita de só ter sido contactado para a sua publicação quando começou a ter nome na década de 1980, deixou tal a decisão aos seus herdeiros para após a sua morte.
Neste livro a escrita característica de Saramago ainda não nascera: todos os sinais de pontuação estão presentes, não há parágrafos longos e o encadeado de diálogos tem a devida separação. O livro espreita, como por um claraboia para relatar a vivência de seis famílias residentes no mesmo prédio e não sai deste edifício.
Quem leu a obra madura do escritor reconhece na trama as preocupações frequentes do autor, mas sendo uma obra do período da ditadura certas insinuações surgem disfarçadas. Estão já presentes várias das temáticas a serem desenvolvidas mais tarde: a luta de classes aqui disfarçada de assédios amorosos, questões filosóficas a partir do saber da experiência da vida e pelo confronto causa monárquica versus republicana, bem como a questão da identidade e objetivo de vida. No estilo, Saramago já se recorre à ironia introspetiva para denúncia e fazer análise psicossocial muito presente nas suas obras principais.
Não sendo uma obra com a maturidade como outras posteriores, é um romance simples, linear e interessante que se lê bem que já aponta para o Saramago do período Nobel. Gostei.

quinta-feira, 22 de Maio de 2014

"O Dia dos prodígios" de Lídia Jorge


"O Dia dos Prodígios" é o primeiro romance da grande série de obras escritas por Lídia Jorge, uma das autoras contemporâneas nacionais que maior número e diversidade de prémios literários de Portugal e do estrangeiro tem recebido.
Um romance publicado em 1980 que deve ter sido então uma pedrada no charco pela forma de escrita. A narrativa é constituída sobretudo pelo encadear de frases orais, por vezes articuladas, outras como que interrompidas por uma pontuação livre ou ainda com intercalação de afirmações, quase tudo brotando dos diálogos das personagens que convivem numa pequena aldeia isolada do interior do Algarve e onde se descreve, fala e se relata não só factos maravilhosos que ocorrem na terra que parecem pressagiar um grande evento, bem como se comenta a vida alheia. Por vezes a autora divide o texto em colunas, uma menor destinada a comentários e a outra à continuação do texto. Assim, aos poucos e de uma forma nem sempre linear, vai-se montando ao ritmo da pasmaceira do dia a dia o viver de uma pequena comunidade rural vítima da emigração e do esquecimento no final do Estado Novo... até que mais tarde se dá a Revolução do 25 de Abril e o nascer da esperança.
Para muitos o livro retrata de uma forma alegre e livre a mentalidade, os hábitos e os defeitos que caracterizavam o cidadão rural médio de então, o que nem sempre é abonatório: álcool, violência gratuita sobre animais e doméstica e alguma grosseria cruzam-se na montagem de um texto irónico e divertido que já foi adaptado ao teatro, mas é evidente que pertence a um período onde a ameaça da desilusão com libertação alcançada com Abril ainda não ensombrava a sociedade.
Lídia Jorge talvez seja das escritoras mais versáteis na escrita e este livro é bem diferente no estilo de outras obras posteriores de que gostei mais, embora talvez menos originais que é a grande marca desta obra aberta positivamente para o futuro.

segunda-feira, 19 de Maio de 2014

"O Castelo" de Franz Kafka

Edições Livros do Brasil

É mais fácil ler o romance "O Castelo" de Franz Kafka  do que dissertar sobre ele. A trama está cheia de contrassensos absurdos como num sonho e as peças não se encaixam, nem seguem a ordem natural das coisas. Contudo cada momento é justificado profundamente na discussão das personagens com K, recorrendo a uma engenhosa e extensa argumentação plena de subtileza que desmonta as ideias contrárias em confronto sem dela brotar uma lógica consistente.
Um agrimensor estrangeiro vai ao encontro de uma vaga aberta no condado do castelo, chega à terra e sente uma desconfiança de toda a população e dos funcionários para com ele. É admitido, mas o lugar não abriu por necessidade, só que no sistema burocrático não mais é viável aquele ser cancelado, pois o seu funcionamento bloqueia a correção até por que a sua perfeição inexplicável é um facto e aceite por todos e a lógica dos decisores vem de entidades inacessíveis.
Para quem já leu "O Processo de Kafka verifica que os dois romances seguem rumos opostos para o personagem K. No Castelo este vai ao encontro do poder que não precisa dele mas aceita-o, para logo a seguir se lhe tornar inacessível, K pretende alcançar a remissão dos seus erros de que não foi acusado. Em "O Processo" é a máquina da justiça que vai ao encontro de K, este não sabe que mal cometeu, tenta e não consegue libertar-se da culpa de que o sistema o acusa. As duas obras completam-se na perfeição.
O livro da foto tem um posfácio de Max Brod, amigo de Kafka, a apreciar obra e expondo textos rasurados e não publicados nas versão inicial e póstuma deste romance. A sua apreciação sobre os 2 romances mencionados não se limita a uma visão terrena do conteúdo e crítica política, estende-se a uma perceção teológica e filosófica, análises que enriquecem em muito a interpretação, embora eu não consiga libertar-se da ideia mais terrena daquele absurdo Governo, até que alguns destes são mesmo  pecados da administração pública. Um excelente livro, que pode não ser acessível a todos, mas que serve como denúncia e reflexão ao sistema político em que vivemos.

domingo, 11 de Maio de 2014

"Falconer" de John Cheever

Sextante Editora

Acabei de ler "Falconer" de John Cheever. O título corresponde ao nome da prisão aonde Farragut: toxicodependente desde a sua missão militar, pai, marido e professor; vai cumprir pena por fratricídio. A descrição do dia-a-dia no estabelecimento servirá ao protagonista para refletir na sua viva, angústias, família, infância, sexualidade e desenvolver o contacto social e também íntimo com os restantes reclusos bem como conhecer a traição e compreender como é o funcionamento subjacente ao sistema prisional.
Escrito numa linguagem realista e pouco vestida de artificialismos estilísticos, típica da literatura norte-americana, o livro não faz grandes juízos de valor, mas pela exposição expõe e aborda as causas das angústias, os receios do passado complementado com o desejo de liberdade e de remissão do cidadão norte-americano (um número, uma pessoa e uma consciência) na sociedade. Uma obra característica dos anos 1970, a geração onde a droga e o esforço da compreensão do eu numa sociedade em mudança do conservadorismo social para uma liberdade individual foi marcante.
Gostei, apesar do ambiente prisional não é deprimente, embora a vontade de remissão não seja um caminho alegre, contudo não tem a força de outros retratos dos Estados Unidos feitos mais recentemente como Submundo de Dom deLillo e de Liberdade de Franzen já aqui falados, até pela pequena dimensão deste romance não permite maiores aprofundamentos dos temas abordados.