sábado, 28 de março de 2015

"Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho


"Um deus passeando pela brisa da tarde" de Mário de Carvalho, é um romance muito premiado que decorre na província romana da Lusitânia, no tempo de imperador Marco Aurélio, na cidade imaginária de Tarcisis, que se situaria no atual Alentejo, não muito longe de Évora, reflete o problema da aplicação da justiça numa sociedade em mudança, com a insegurança das primeiras invasões mouras a preocupar os dirigentes, com a nova religião cristã a proliferar entre os mais humildes e a conquistar outros mais importantes e a colocar em causa as tradições pagãs e minar as decisões dos governantes que pretendam agir justamente no seio de um equilíbrio precário.
Mário Carvalho tem uma escrita lexical muito rica a que se juntam os nomes dos objetos, cargos e tradições da época, originando um texto onde a variedade dos vocábulos da nossa língua está bem acima do habitual. Além disso, com inteligência e subtileza, o autor coloca em debate muitos dos problemas da sociedade da época que são ainda preocupações de hoje: a tendência interesseira de uns em manipular a opinião pública na conquista do poder, a dificuldade de se ser justo numa sociedade influenciável, supersticiosa e tradicionalista perante os desestabilizadores das populações em ambientes de crise e de mudança de valores e ainda o dilema de distinção do interesse público e os sentimentos privados.
A estória, muito bem contada e vista pelo homem da justiça, mostra os vícios ocultos e fragilidades das várias partes, os desafios e desconfiança que o cristianismo punha ao império romano, as paixões do coração que também obscurecem a gestão do homem justo e levam a que este fique preso numa teia que se vai montando. Os problemas de então podem levar a uma reflexão sobre a situação nacional no ambiente de crise atual. Um excelente romance acessível a qualquer leitor e altamente recomendável.

domingo, 22 de março de 2015

"O Pintassilgo" de Donna Tartt


"O pintassilgo" de Donna Tartt que acabei de ler, que se serve da homónima obra-prima da pintura flamenga de Fabritius como ponto de partida, pode enquadrar-se no género literário habitualmente designado por "thriller", até porque os ingredientes e estrutura da obra estão lá todos, mas é também um romance muito mais profundo, pois para além da excitação e ritmo e ânsia a que este tipo de histórias normalmente se limita, há também uma reflexão e abordagem à sensação de perda de alguém que se ama, neste caso a mãe, e de quem estamos dependentes para encontrar o nosso espaço num mundo vertiginoso e niilista.  A escolha da autodestruição como revolta a esta perda e desnorte e a possibilidade de reabilitação da pessoa mesmo como consequência das más escolhas nesta via de protesto leva a uma interrogação no final do livro: será que o mal pode provocar o bem?
No romance vemos muito  de uma geração jovem norte-americana sem referências e sem o farol dos mais velhos, perdida entre a droga, a desatenção dos pais através de uma comunidade que passa pelo mundo da arte, dos antiquários e do submundo que também obscurece este grupo, com ladrões, chantagens, vítimas inocentes e culpadas.
Um livro extenso, quase 900 páginas, muito bom, num estilo de escrita que parece casual mas cuidado tipicamente norteamericano, que consegue conciliar a literatura de fácil leitura para quem se contenta com romances de entretenimento, mas que junta sem perturbar interrogações de maior dificuldade de resposta para leitores mais exigentes literariamente. Gostei muito e recomendo a qualquer pessoa.

quinta-feira, 5 de março de 2015

"Todos os contos de Edgar Allan Poe



Acabo de ler uma coletânea de todos os contos de Edgar Allan Poe, escritor americano da primeira metade do século XIX, um total de 69 estórias curtas, como se diria em inglês, sendo que a última até tem dimensão para ser considerada um pequeno romance ou novela.
Tendo em conta a quantidade de contos, não é de estranhar que não tenha gostado igualmente de todos eles, até porque um dos aspetos mais interessantes deste grande livro, cerca de 950 páginas, é a diversidade de géneros temáticos dos textos: desde terror, gótico, policial, ficção científica, fantástico, ironia, até tocar a poesia, Poe também é famoso como poeta, são áreas que entram nesta coletânea.
Os contos de ficção científica e os relatos associados à descrição de paisagens e viagens por vezes pecam por ser demasiado pormenorizados nas suas explicações e base técnica, acrescendo o facto, tal como poderá acontecer a alguma ficção científica que hoje se escreva, soam a ridículo quando lidos num futuro temporal afastado, tal é o desfasamento entre a previsão com o mundo real ou o saber científico. Sendo Poe o fundador deste género e no início da revolução das ciências do século XIX, não é de estranhar algum incómodo ao ler as justificações que propõe.
Todavia são geniais alguns dos contos policiais, de terror e góticos, outros géneros em que é considerado por muitos como o pioneiro e fonte de inspiração literária de nomes mundialmente famosos.
Saliento a qualidade do literária dos contos, comparável ao dos grandes nomes de escritores marcantes da época e a diversidade de géneros, sabendo que entre tanta quantidade, mesmo preservando o nível de escrita, existem alguns de que não gostei e outros que adorei e anotei para serem relidos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"Servidão Humana" de Somerset Maugham



Tendo muito de autobiográfico, "Servidão Humana" é um livro sobre as dores do amadurecimento de uma pessoa desde a infância até à entrada na vida adulta, um período que se inicia cheio de esperanças no futuro que se vão desmoronando à medida que embatem no mundo real e deixam o amargo triste da desilusão e da frustação.
A obra começa com a perda dos país de Phillip aos dez anos, a ida para casa dos tios onde a religião faz parte da profissão e das decisões, assim ainda criança o protagonista começa logo por ver-se numa teia de crenças que condicionam as suas decisões e a insegurança para romper essas amarras, quando consegue finalmente as primeiras libertações no final da adolescência é altura de serem as dificuldades da vida e as limitações humanas a evidenciarem que dificilmente se totalmente livre.
Na transição para a vida adulta novas lutas pessoais entram em jogo, as amarras das paixões, a necessidade de autossustento para sobrevivência num mundo que nem sempre é justo ou compreensivo com o protagonista e onde os erros também contribuem para essa servidão, até que se descobre que viver é saber adaptar-se a tudo isto.
Um excelente livro, magnificamente escrito, que mostra a educação e o crescimento de uma criança na classe média inglesa, onde o peso da religião e dos costumes tem muita força e cheio de referências ao mundo do estudo da arte em Paris, com destaque para a pintura e da medicina em Londres no início do século XX, bem como da realidade de sobrevivência difícil de então.
Apesar de se saber que é um romance muito autobiográfico, a obra tem uma densidade, ternura, irritação e reflexão com uma magnífica narrativa que a torna numa obra-prima literária. Recomendo a quem aprecia excelente literatura. Gostei muito.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati


"O deserto dos tártaros" conta a vida do militar Drogo desde a sua saída da academia jovem e cheio de sonhos heróicos para a vida que é enviado para a isolada Fortaleza, situada na fronteira defronte ao "deserto dos tártaros", onde além da rotina, nada se passa à exceção da espera interminável de eventuais invasores para conquista da heroicidade.
Dino Buzzati, com uma mestria literária genial, mostra-nos o efeito da rotina e da habituação que alimenta o comodismo, o receio da mudança e deixa uma pessoa refém das suas amarras, escrava, imóvel no tempo e alheia ao mundo exterior que flui sem parar, em progressiva mudança, a evoluir e onde arriscar é chave para dar significado à vida.
O livro desenvolve-se não num ambiente nostálgico, mas antes na esperança no futuro improvável, ironicamente a glória do combate, onde pela espera da guerra se desperdiçam as oportunidades do presente e se perdem os objetivos de vida, criando uma uma sensação de progressiva frustração absurda que resulta da imobilidade vazia até ser demasiado tarde, face aos que de facto lutaram no seu presente e se tornaram vencedores pela capacidade de decisão e de correr riscos.
Um romance ao mesmo tempo alegórico, triste e muito bonito, um apelo a arregaçarmos as mãos e conquistarmos a nossa vida com os riscos da liberdade, antes que se perca tudo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"O Coração das Trevas" de Joseph Conrad


Há livros que nunca será demais ler e reler numerosas vezes que sempre terão algo de novo para nos questionar ou dizer, "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad é um desses livros. Um pequeno romance, cujo conteúdo é enorme e por mais que se leia, levantará sempre novas perguntas sobre até onde pode ir o fundo negro do homem na exploração e no desprezo pelo outro.
Um livro inquietante onde um Europeu, Marlow, relato o que viu ao navegar pela floresta primitiva através do rio Congo para ir buscar alguém que estava no posto mais distante da companhia que abastecia a Bélgica de marfim e se tornara incómodo.
O relato mostra o que homem civilizado e moderno é capaz de fazer a um povo, que representa a origem da humanidade na floresta primitiva, para satisfazer os seus interesses e sem dar qualquer importância à vida e ao bem-estar do seu semelhante e como este escravizado ainda é capaz de se humilhar ao serviço deste super-homem de valores e princípios que o explorou.
Uma obra aproveitada para as partes mais inquietantes do filme de Coppola "Appocalipse Now", com uma descrição forte, cinematográfica, com uma escrita moderna apesar de ser de 1902 e cheia de interrogações subtis, colocadas pelas dúvidas e consciência de Marlow.
Mais grave ainda é descobrir como alguém com o sonho de civilizar o povo da floresta se transforma num deus do mal depois de todo o horror que viu no rio Congo. Uma obra de arte, incómoda, que agita a consciência, feita para pessoas que se interrogam mas também para aquelas que se deixam enganar por este Europeu de valores que abolira a escravatura que deve ser lida várias vezes na vida.

sábado, 24 de janeiro de 2015

"O vermelho e o negro" de Stendhal


"O vermelho e o negro" de Stendhal, pseudónimo de Henri-Marie Beyle, escrito em 1830, poucas décadas depois da revolução francesa por um bonapartista convicto, é um romance que possui uma estrutura característica do século XIX, a limpidez da escrita, a linearidade da história e capítulos intitulados seguidos de frases ou citações que nos introduzem no conteúdo dessa divisão da obra, possui também um conjunto de pormenores que o distanciam do romantismo e o colocam como precursor do realismo. A análise social omnisciente do autor coloca virtudes, defeitos e contradições em todas as classes sociais e as personagens possuem todas essas características, não havendo bons perfeitos e maus apenas diabólicos, o clero é constituído por pessoas que encerram todos os vícios da sociedade e digladiam-se para conservar o poder individual terreno e egoísta.
Stendhal desenvolve uma trama onde o ainda adolescente Julien Sorel, de origem humilde é marcado pela ambição como marca do estrato baixo que olha para os outros sentido-se em desvantagem por condições de nascimento, o que lhe perturba as paixões. Os burgueses e nobres lutam para garantir o seu estatuto social, os primeiros ascendendo com a revolução e os segundo em declínio desde da monarquia e sentem-se com direitos adquiridos e olhas as pessoas como peças do seu xadrez. As suas mulheres de sociedade são escravas dos seus sentimentos e não se limitam aos seus iguais, são capazes de ver em Sorel um amante a esconder. Tudo isto gera conflitos, ora os novelescos do amor, ora sociais e políticos, onde o protagonista inseguro procura a ascensão numa idade imatura das paixões, tornando-se vítima desta rede de interesses.
Se podemos ver uma história de paixões, existem numerosas subtilezas e críticas sociais ao século XIX e ruturas com a ética e a moral prevalecente no passado, pelo que o romance vai muito além do amor para se tornar numa profunda análise e retrato pensado da sociedade francesa contemporânea de Stendhal, o que o torna numa obra-prima no seu género, cheio de ensinamentos e agradável de se ler. Gostei muito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

"Viagem ao fim da noite" Céline


Apesar de ser um bom romance não posso dizer que "Viagem ao fim da noite" de Louis-Ferdinand Céline virá a ser um dos livros da minha vida.
Um protagonista, Bardamu, que começa por relatar como foi o seu alistamento no exército francês para a I Grande Guerra, que nos mostra magistralmente o absurdo desta, pois o cidadão do povo é mera carne para canhão útil às classes dirigentes, que não lhe reconhece qualquer outro valor, motivo que poderia justificar a sua fuga, transforma-se depois numa quase história da sua vida de fugas para a frente, não planeada e onde por norma as pessoas com que se cruza, tal como ele, são covardes, egoístas e apenas motivadas por dinheiro ou pelas hormonas que dão vida ao baixo-ventre, consequentemente as deceções são sucessivas ao longo das situações em que se vai envolvendo.
Poder-se-ia considerar uma obra de protesto ou descontentamento com a sociedade, mas também nenhuma personagem da obra serve de contraste para apontar caminho, por isso a viagem é negra e mergulhada na escuridão da noite, a loucura resulta da rotura da luta entre o mau ser que somos e aquele que temos de mostrar socialmente, tornando-se assim mais numa obra de contracultura do que formativa.
A escrita tem uma pontuação e sintaxe por vezes desconcertante, o uso de calão nem sempre é necessário, pelo que a obra valeu sobretudo para conhecer uma dos escritores mais polémicos do século XX em França.

domingo, 4 de janeiro de 2015

"O retorno" de Dulce Maria Cardoso


"O retorno", de Dulce Maria Cardoso, corresponde ao desfilar da vida de um adolescente de 15 anos durante a vinda de Angola da sua família para Portugal como consequência da revolução do 25 de Abril de 1974, da descolonização e da entrada da guerrilha em Luanda, isto depois das boas memórias do que tinha sido os seus últimos tempos naquela colónia.
O romance mostra, dura e cruamente, o desagrado que foi para a comunidade de retornados a Revolução dos Cravos e os preconceitos raciais que se avolumaram neste período de instabilidade social, isto aos olhos de um adolescente cuja sexualidade desperta e tem dificuldade em compreender tudo o que está a acontecer à sua volta: o desenraizamento da sua terra natal, a descoberta do líbido, a entrada num Portugal que lhe é totalmente estranho e a desconfiança do Povo que os acolhe e ingenuamente os culpa de comportamentos coloniais numa época em que a esquerda não tinha qualquer pudor em se impor a todos.
A escrita, sem uso de vários sinais de pontuação e onde os diálogos e os pensamentos surgem encadeados dentro dos parágrafos, desenvolve-se a um ritmo acelerado dos acontecimentos, sem esconder que se está perante um grupo vítima inocente do 25 de Abril que passou dificuldades e enfrentou a crueldade dos lusitanos quando tanto falavam de liberdade e de direitos. Gostei da obra e recomento, apesar da dureza de algumas expressões, pois fez-me recordar muitos dos desabafos de retornados com que então convivi e mostra que a revolução de facto, numa fase inicial pelo menos, não foi positiva para todos os cidadãos deste Portugal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

"A Leste do Paraíso" de John Steinbeck

"A leste do Paraíso" de John Steinbeck é um romance cheio de mensagens subliminar tendo como base a vida de três gerações de duas famílias que no final do século XIX se cruzam no vale do Salinas na Califórnia. Uma é a do próprio escritor, os Hamilton, que cresceu do idealismo desinteressado e humano do seu patriarca imigrante. A outra, ficcionada, os Trask é progressivamente marcada pela luta entre a bondade e a maldade e a possibilidade de uma pessoa vencer o mal que há em si.
Steinbeck serve-se do relato bíblico do fraticídio de Abel por Caim e da oportunidade deste em se reabilitar do seu crime, refugiando-se a Leste do Paraíso, para evidenciar que a recusa do idealismo em aceitar o mal pode ser causa de rejeição de quem necessita de se reabilitar, mas cabendo a este a responsabilidade de escolher o bem.
Apesar da filosofia subjacente, a obra é muito acessível, está brilhantemente escrita, as personagens cativam o leitor, a trama é muito bem construída e o fio da história mantém um interesse continuado mesmo quando intercalado de informações históricas da época que vai desde a guerra dos Estados Unidos com o México à I Grande Guerra Mundial. Um romance magnífico que recomendo a qualquer leitor e dá para perceber a genialidade de Steinbeck, o vencedor do prémio Nobel da literatura de 1962.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Votos de FELIZ NATAL

Imagem extraída daqui

Geocrusoe deseja a todos os leitores deste blogue espalhados pelo mundo, tanto interessados em ciências da Terra como em livros ou com outros gostos, que tenham um Feliz Natal e aproveitem esta quadra para presentear os amigos com bons livros dos mais variados géneros.

domingo, 21 de dezembro de 2014

"Mataram a Cotovia" de Harper Lee

"Mataram a Cotovia" de Harper Lee, é um livro ao estilo de memórias da infância de uma menina que vai descobrindo os contrastes entre a população da sua pequena cidade no Alabama, marcada pelo racismo e o segregacionismo, e o comportamento do seu pai, advogado, viúvo cheio de valores humanos e defensor da equidade de todas as pessoas, que procura incutir de forma inteligente estes valores nos seus filhos.
O objetivo do progenitor poderia ser conseguido sem sobressaltos não fosse ele nomeado defensor de um negro contra uma acusação de um homem branco pertencente a uma família desestruturada de valores, passando então o advogado a lutar pela justiça, contra o preconceito social e ainda na garantia da proteção dos seus filhos nesta tempestade.
O romance, embora relatado pela mente de uma criança, tem uma escrita muito poética e os valores vão sendo descobertos de uma forma progressiva e até mesmo a crítica ao comportamento coletivo é temperada pelo bom senso, compreensão e exposição de algumas pessoas que educam a protagonista, sobretudo o pai. O livro é uma obra prima, marcante e foi prémio Pulitzer de 1961 e de facto é uma obra maravilhosa que recomendo a todos.

domingo, 14 de dezembro de 2014

"Os luminares" de Eleanor Catton


"Os Luminares" da neozelandesa Eleanor Catton é um romance de ficção e entretenimento com recurso ao suspense em torno de um crime ocorrido numa cidade recém-criada pela corrida ao ouro na Costa Ocidental da Nova Zelândia em meados do século XIX.
A obra, extensa (884 páginas), com uma caracterização física e psicológica profunda das personagens, apresenta uma escrita muito cuidada, rica e tradicional. O texto possui uma estrutura semelhante à dos romances ingleses e franceses característica da época em que se desenrola a estória, com vilões, prostitutas, ingénuos, vinganças, crimes, pesquisas criminais, julgamentos em tribunal e paixões num mundo onde as mulheres são uma raridade. As pistas vão sendo expostas com o desenrolar do enredo, mas apenas se esclarecem as dúvidas com um regresso aos antecedentes do crime na última parte do livro que vai até à exposição no final.
"Os Luminares" foi prémio de ficção Governor General 2013 no Canada, destinado a autores residentes ou nascidos neste País, como também Man Booker Prize 2013, entregue a obras escritas em inglês na Commonwealth. Nem sempre estes galardões correspondem a obras que me agradem pela positiva, mas neste caso fiquei muito bem impressionado, tendo ainda em conta a maturidade da escrita numa jovem então com 27 anos e o talento demonstrado, o que evidencia que se podem fazer bons romances atuais sem cortar com a tradição de escrita e estrutura literária clássica. Gostei muito e recomendo a todos a leitura.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

"Quincas Borba" de Machado de Assis


Apesar de Quincas Borba ser uma personagem fictícia introduzida no primeiro romance dos dois de Machado de Assis contidos neste livro, na realidade "Quincas Borba" é uma obra bem diferente no modo de escrita e na estrutura de "Memórias póstumas de Brás Cubas".
Agora não se está perante as memórias ou uma autobiografia do protagonista a qual envolve uma paixão de infidelidade conjugal, mas sim do relato exterior da vida do herdeiro do filósofo rico e criador do "Humanitismo" Quincas Borba: o professor rural Rubião e guardião do cão "Quincas Borba", homónimo do seu primeiro dono para lhe preservar o nome após a sua morte que opta por passar a viver na capital Rio de Janeiro.
Igualmente escrito com humor e ironia sobre os comportamentos sociais e políticos na capital, onde não falta uma paixão de Rubião, mas agora não satisfeita, mas também existe o problema da identidade e alienação psicológica do protagonista, a garantia de fidelidade do cão e duvidosa de Sofia, os amigos verdadeiros e os oportunistas de ocasião. Uma obra que penso mais madura e profunda, o romance de Machado de Assis que mais gostei. Recomendo a qualquer leitor tipo de leitor que goste de ficção pela facilidade de leitura e qualidade da sua escrita.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis


Acabei de ler o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis, o escritor brasileiro que para a mesma época se encontra em termos de importância ao nível de Eça de Queirós.
Na estrutura é um romance autobiográfico em estilo de memórias pessoais de Brás Cubas com a originalidade literária deste as escrever após a sua morte, embora sem referências à sua vida no além. Em termos de estilo e forma, apesar de anterior em cerca de 20 anos, este romance tem uma construção semelhante ao "Dom Casmurro" do mesmo autor já postado neste blogue, diferindo pelo seu maior distanciamento ao mundo religioso, maior proximidade à realidade política e pelo facto de agora o protagonista não ser a vítima de traições mas sim assumir o papel oposto.
Um romance cheio de ironia e humor, brilhantemente escrito, com retratos e algumas reflexões sobre o estilo de vida na cidade do Rio de Janeiro no último quartel do século XIX, cujo texto se presta sobretudo ao prazer e entretimento suave do leitor. Gostei, mas não tem a riqueza e a imaginação criativa e de análise do comportamento humano de "O alienista".
O livro prossegue com outro romance de Machado de Assis: "Quincas Borba", personagem que já aparece em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e que agora penso descobrir nesta obra escrita 10 anos mais tarde.

domingo, 23 de novembro de 2014

"A Selva" de Ferreira de Castro

Acabei de ler "A Selva" de Ferreira de Castro, talvez o romance com maior sucesso editorial internacional de um escritor português na primeira metade do século XX e compreendi agora a razão por que se tornou tão famoso esta obra de ficção mas parcialmente baseada nas memórias da vida do autor.
Um romance com um texto muito bem escrito, fácil e acessível a qualquer pessoa, uma história simples que apela aos valores humanos e denuncia a exploração do homem pelo homem sem defender nenhuma ideologia em concreto, uma descrição da floresta amazónica com uma densidade, qualidade e plasticidade visual difícil de igualar, sendo a selva a verdadeira protagonista da obra.
No romance a vida brota da Amazónia no seu potencial máximo e por isso a selva é também uma cooperante assassina na luta pela sobrevivência, os nativos surgem como o povo ameaçado no seu território que se defende perante os recém-chegados que não os sabem acolher sem os descaracterizar, o homem surge como o principal inimigo de si mesmo, independentemente da sua classe ou etnia e a personagem principal é o sonhador que vê as suas crenças desmoronarem e renasce diferente com projetos de futuro.
Ferreira de Castro, para muitos o iniciador do neorrealismo, escreve uma obra fácil e ao mesmo tempo densa, que desperta prazer e curiosidade de leitura, mas cheia de imagens fortes que divulgam a Amazónia, a história da exploração desta terra pelos europeus, a vida difícil dos seringueiros na obtenção do latex no pós-primeira grande guerra mundial, o choque de mentalidades, o aproveitamento dos mais fracos e a sua desunião e um apelo pelo valores para que o homem não seja o algoz do outro homem. Um grande romance que recomendo a qualquer leitor.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"O Alienista" de Machado de Assis

O conto "O Alienista", onde o Dr. Simão Bacamarte estuda cientificamente alienados, escrito por Machado de Assis, um dos maiores escritores do Brasil e filho de uma Açoriana, talvez seja a gema literária escrita na língua portuguesa mais brilhante no género de alegoria ou parábola. Uma história divertida e irónica, cheia de crítica social implícita e mordaz para com o ser humano, independente da sua classe, profissão ou grau de formação.
Na edição da Porto Editora, brilhantemente ilustrada, este conto ao nível de originalidade e de crítica nada fica atrás de "Animal Farm" de George Orwell, tendo sido escrito várias décadas antes, o que mostra o valor literário e a rica imaginação do seu autor.
Neste mundo ser alienado não será tentar sobreviver com uma vida de virtudes numa sociedade desequilibrada, egoísta e cheia de oportunistas? É esta a interrogação ou a descoberta do alienista ao tentar recolher e tratar os doentes psicóticos da sua cidade e ao perceber o comportamento individual e coletivo desde os seus habitantes mais humildes até às suas gentes mais importantes. 
Um pequeno livro que é uma obra-prima, divertida, de fácil leitura e brilhantemente escrito, mas que convida a uma grande reflexão. Um conto que recomendo a todos a sua leitura e para o qual nunca será tarde, nem cedo para se ler, tanto na adolescência como na velhice e sempre uma fonte de prazer.