terça-feira, 2 de junho de 2020

"A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne


Excerto
"É assunto curioso de especulação, se o ódio e o amor não serão no fundo a mesma coisa... ...filosoficamente, as duas paixões parecem essencialmente a mesma, excepto que uma nos aparece cercada de uma luz celeste, e a outra de uma luz baça e vermelha"

Li o romance "A letra Escarlate", um dos clássicos da literatura norteamericana escrito no século XIX por um dos principais autores do país: Nathaniel Hawthorne, sobretudo famoso pelos seus numerosos contos e por esta obra, aqui traduzida por Fernando Pessoa.
Na cidade de Boston, então colónia de Inglaterra, é dominada pelos protestantes puritanos ingleses, sendo ainda mais extremados do que na origem. Hester, uma imigrante recente cujo marido médico ainda não chegara, é condenada a subir a um cadafalso na praça central com uma recém-nascida e a exibir para sempre sobre o vestido letra A de adúltera num pano vermelho, mas recusa-se a denunciar quem é o pai da filha, no evento ela descobre na multidão o seu idoso marido. Este, como médico e sem assumir o lugar de esposo, visita-a e obriga-a a manter o segredo da sua relação, mas permanece na cidade para descobrir e vingar-se lenta e continuadamente do ultraje, feito por alguém idolatrado pela sua virtude. Hester sobrevive pelos dotes de costureira isolada e de forma exemplar mas cheia de brio individual, só que o remorso e a vingança vão crescer neste terreno ultraconservador para pecados privados e estalar.
Hawthorne é descendente dos juízes que condenaram as bruxas de Salém e grande parte da sua obra vai no sentido de destruir a intolerância e este romance entra neste género. A narrativa está cheia de reflexões sobre a moralidade pudica sem amor cristão e da luta no interior da consciência e dos sentimentos das personagens, os diálogos estão subjugados a esta análise, além de descrições pormenorizadas da cidade, vestuário e costumes.
A escrita é trabalhada com grande qualidade estilística e a suas metáforas e comparações são extensas, gerando parágrafos densos, algo longo e profundos. Apesar de tudo, o autor tempera no carácter das suas personagens para que a leitura não se torne tão negra quanto a sociedade que descreve. Um magnífico romance que vai muito além da sua trama.

sábado, 30 de maio de 2020

"O Físico Prodigioso" de Jorge de Sena

Excerto
"...Disseste-me também que eu era um deus. E eu sinto que sou. Ou sinto que estou sendo. E é uma coisa insuportável."

Acabei de ler a novela "O Físico Prodigioso" do português Jorge de Sena, obra inicialmente integrada na coletânea de contos do autor "Antigas e Novas Andanças do Demónio", mas que depois da queda da ditadura ficou com o seu texto definitivo, a ter vida própria e foi publicada autonomamente por vontade do escritor.
Uma novela que vai buscar as suas raízes em dois mitos antigos expostos em contos portugueses da idade média que o autor integra num só, numa narrativa do género fantástico, mágico e gótico.
Um jovem inocente e de beleza impressionante desperta a paixão no Demónio que lhe permite poderes fantástico de físico (mago/médico da idade média). Aquele ao banhar-se num lago é descoberto por três donzelas que o cativam para a sua senhoria, uma viúva retida no seu castelo e a definhar de uma doença que se diz apenas ser curada por um jovem belo e virgem. Aceite o desafio irá então desenrolar-se uma evolução orgíaca, a descoberta de um passado sangrento da castelã e momentos de bruxaria que desemboca num tribunal coletivo religioso com juízes (magníficas caricaturas de puritanos cheios de ruindade) que o julgará no obscurantismo da igreja com a intervenção do demónio numa luta entre o misticismo, o castigo da sujeição às tentações e a liberdade individual.
Uma narrativa onde a língua portuguesa é trabalhada com genialidade numa escrita criativa que vai da prosa à poesia com timbre medieval e textos paralelos que põem frente a frente o ocultismo da época, o erotismo e o misticimo religioso, puritano e castrador. Jorge de Sena cria uma trama que está entre um conto das mil e uma noites numa cultura cristã e um história gótica de terror e luta com a religião e o demónio, qual deles mais pernicioso ao homem e à liberdade neste contexto.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, é seguida por uma pequena nota explicativa de Jorge de Sena sobre os mitos em causa e excertos dos dois contos medievais que serviram de inspiração a esta obra, o que permite uma compreensão mais vasta que a simples leitura da narrativa.
Uma obra diferente com insinuações eróticas tratadas na liberdade de um mundo fantástico como projeções de sonhos livres sem as inibições sociais e morais dos desejos, o que pode ferir sensibilidades, mas que me deu um enorme gozo de leitura, pela imaginação e o tratamento da língua lusa.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

"O Amigo Americano" de Patricia Highsmith


Acabei de ler o romance de suspense e crime "O Amigo Americano" da escritora dos EUA: Patrícia Highsmith, famosa pela estrutura original das suas narrativas policiais que são por norma expostas do lado dos criminosos e não dos agentes de investigação e esta obra não é exceção e corresponde à terceira aventura do conjunto de cinco protagonizada por Tom Ripley, um anti-herói amoral, criminoso, apreciador de pintura, música erudita, gastronomia e de gostos sociais caros e bem-parecido que consegue escapar à justiça e aos inimigos.
No presente livro, alguém honesto e com uma doença incurável diz algo menos simpático a Tom, este então decide vingar-se e fazê-lo sofrer, criando um boato sobre o seu estado de saúde para lhe dar ansiedade e propô-lo a um amigo que busca um contratado para um serviço criminoso para o assediar nesse trabalho sujo e troco de dinheiro. Na sequência desta tensão o doente deixa-se tentar num crime contra um capo da máfia, só que quem desperta ódios nesta rede fica alvo de retaliações e Ripley também fica envolvido  numa sequência de tentativas de vinganças, crimes, ocultação de cadáveres e ainda a necessidade de o aniversariante ter de se justificar perante a mulher dos seus atos inexplicáveis, os seus estranhos tratamentos médicos e as suas contas bancárias chorudas e a desconfiança daquele amigo americano de passado duvidoso Tom Ripley.
Bem escrito, cheio de tensão, mas a doença grave faz-nos desenvolver uma simpatia para com o nosso contratado para crimes aconselhado por aquele agradável amigo que atrai o mal à sua volta, mas sai sempre por cima. Gostei, mais uma história de crime e quadrilhas intercalada com momentos com Bach e pintura que sai fora da rotina dos livros deste tipo de suspense

terça-feira, 19 de maio de 2020

"A vida era assim em Middlemarch" de George Eliot

Excerto
"Os mortais são facilmente tentados a atentar contra a glória do vizinho e pensam que essa maneira de matar nada tem de assassínio."
"As pessoas valem sempre mais do que aquilo que pensam delas os seus vizinhos."

Considerado um dos clássicos da literatura da época vitoriana inglesa "A vida era assim em Middlemarch", da escritora George Eliot, faz um retrato da vida social numa zona central de Inglaterra na primeira metade do século XIX situada no condado fictício, moralmente conservador e carácter rural de Middlemarch.
Doroteia é uma bela jovem órfã de uma família de grandes proprietários rurais, é discreta e anseia o saber e planear o bem aos mais desfavorecidos. Apesar de alguns pretendentes prestigiados locais lhe fazerem a corte, ela opta por um homem eclesiástico, rico de meia-idade e só devotado a escritos da era clássica cujo interesse dela pela cultura lhe despertou a paixão no celibatário. Numa época dominada pelos homens e onde o saber estava reservado a estes, ela vai descobrir que o seu casamento não vai ser a fonte do conhecimento que esperava e encontra um jovem parente do marido, filho de uma deserdada por ter abraçado o que era então interdito às mulheres, mas protegido pelo esposo como obrigação de consciência, só que a inesperada a viuvez chega mas o falecido não deixa liberta a viúva. A sociedade de Middlemarch está atenta não só a esta nova viúva rica, mas precavida contra todos os que venham com ideias novas para a zona, como acontece com um jovem médico e ao deserdado, entretanto a elite local entrega-se à guerrilha política entre partidos, religiões  tradicionais locais e empresários, nesta luta desacredita-se a inovação, procuram-se manchas morais nos adversários, estimulam-se atritos entre fações e retaliações e alimentam-se possíveis escândalos e paixões e a tensão atinge um clímax nesta pacata terra.
O romance é extenso, largas centenas de páginas, está escrito com grande elegância e é rico em metáforas que tecem explicações de caracteres e críticas sociais, denunciando com delicadeza as injustiças e disfunções que marcam a época e o meio. Apesar do retrato social, o papel da generalidade dos pobres é meramente secundário neste romance, à exceção de dois ou três personagens que desempenham funções de contraponto entre a honestidade de quem trabalha e de alguém que se quer aproveitar mas é atingido pelos que subiram pisando outros.
 A narrativa começa pacata a lembrar ritmo de vida rural provinciana, mas depois expõe a maledicência, a hipocrisia, o ciume, a aversão à mudança, as rivalidades e os tentáculos dos poderosos que minam a sociedade e prejudicam gente honesta cheia de valores e a rede eclesiástica das religiões que coabitam em Inglaterra. Doroteia é desde o início comparada a Santa Teresa d'Ávila, uma mulher também de grandes feitos, só que a nossa protagonista não tem igual reconhecimento à doutora da Igreja, não se valorizando os seus sacrifícios e ações, o que no fim explica a lenda em torno de Doroteia e a incompreensão do seu heroísmo, assumindo a obra uma homenagem a muitos homens e mulheres que muito deram à sociedade e passaram praticamente incógnitos à história. A extensão exige algum esforço, mas é um excelente romance.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

"Contos de São Petersburgo" de Nokolai Gogo

Acabei de ler o livro "Contos de São Petersburgo" do russo de origem ucraniana: Nikolai Gogol, um conjunto de 6 contos não muito curtos. A minha iniciativa de comprar este livro foi impulsionada pelo "O Retrato" que faz parte deste conjunto mas que já lera, gostara muito e é o mais extenso, por isso surge muitas vezes em separado. Todos situam-se na antiga capital da Rússia, deduz-se que no século XIX, época em que o escritor viveu e decorrem sempre fora do estrato social da eleite palaciana do czar, dos nobres ou dos burgueses.
Gogol escreve muito bem e ao estilo típico da literatura russa daquele século, um género de que eu gosto particularmente, mas se adorara "O Retrato", não posso dizer que me agradaram de igual modo todos os restantes contos deste conjunto. Dois deles, "A Caleche", o mais curto, e "O Nariz" são muito divertidos. O primeiro conto do livro cruza duas estórias independentes de dois cidadãos que surgem inicialmente juntos na "Avenida Névski", pelo que quase se pode dizer que são sete contos em um. Na grande maioria os protagonistas não saem bem da estória e talvez seja isso o que me deprimiu nesta coleção. "Diário de um Louco" tive pena pela saída da realidade do narrador que não entende a razão do maltrato de que é vítima e o último da série "O Capote" torturou-me mesmo ver a desgraça escalpelizada ao extremo daquele funcionário pobre, desprezado e vítima da sociedade que o abandona e o explorou.
Três contos, O Retrato, O Nariz e O Capote têm componentes surrealistas, curiosamente são nessas passagem que Gogol conseguiu divertir-me ou dar lições de moral de uma forma que me cativou e gostei, noutros momentos aprofundou descrições da cidade ou de personagens de uma forma para mim exagerada que me cansou e nalguns casos cortou o fio da narrativa. Assim, o conjunto tem momentos excelentes e um conto magnífico, mas ao longo dele não foi homogéneo o prazer da leitura.

terça-feira, 28 de abril de 2020

"Um Bailarino da Batalha" de Hélia Correia


Excerto
«Tens a certeza? A Europa não nos quer?»
«Não quer, voltem para trás.»
...
«Para trás não há nada», retorquiu.
O guarda disse:
«Para a frente, também não.»

O romance "Um Bailarino na Batalha" de Hélia Correia, vencedor do prémio Associação Portuguesa de Escritores de 2018 e escrito por quem já ganhou numerosos galardões, como o importante o Prémio Camões em 2015, despertou-me receio e interesse; o primeiro ponto porque tenho tido desilusões com obras nacionais premiados, mas Hélia Correia brilha demais para as editora se dignarem premiá-la para a promoverem comercialmente; e o interesse por o tema atual dos refugiados que tentam entrar na União Europeia e retidos na fronteira (não acontece apenas nos EUA) é um assunto doloroso para alimentar o prazer da leitura.
Esta novela (pouco mais de 100 páginas) não retrata a realidade, é um texto poético com personagens que dão voz e pinceladas estilizadas a várias facetas do problema da caminhada de um grupo de refugiados da guerra no médio oriente em direção a "uma terra pecadora, mas rica e generosa". Temos uma série de postais que cruzam uma ex-guerrilheira grávida e mãe que foge e despreza o traidor que denunciou outros e partilha a fuga, e alia-se a uma mulher que perdeu os homens da família que vai para proteger o neto perante a desconfiança da nora, heroínas que desobedecem e tiram a máscara e mostram o rosto para ofensa dos homens que as cobiçam. Temos um rapaz fraco e cobarde que quer mostrar-se forte e homem. Há um velho abandonado e cego que cheira o que vão encontrar em frente e é adotado pelo traidor de confiança. Crianças órfãs na sua inocência tornam-se capazes ver ao longe e liderar a palavra mas carentes de adotação. Há quem fique no caminho, invejosos e a fronteira da Europa que barra o caminho e lhes dá jaulas. Além desta oferecem trabalhos animais que os acolhedores não aceitariam mas que sem pudor escravizam acolhidos e rejeitam a subserviência das mulheres. Temos guerrilheiros a arregimentar novos soldados entre quem foge à guerra e sobre tudo isto unido pela poesia em prosa.
A obra não toma um partido, a arte poética sabe denunciar e as superiores não precisam de ser juízes, basta agitar consciências com beleza e é o que faz este livro com vítimas perdidas neste limbo, uma das tragédia humana em que a Europa está envolvida. Uma escrita bela para se admirar, a narrar o feio de se conhecer.

domingo, 26 de abril de 2020

"O segredo de Chimneys" de Agatha Christie

Acabei de ler o romance policial "O Segredo de Chimneys" escrito pela inglesa mestre do género Agatha Christie.
Propositadamente escolhi um romance sem nenhuma da duas personagens mais conhecidas da autora, para a ler num outro registo e vejo que a imaginação não depende do detetive ou da sua velhinha observadora 
Anthony Cade está a exercer o papel de guia turístico de uma excursão inglesa a África cruza-se com um conhecido que lhe pede, a troco de uma recompensa, o regresso à Inglaterra e a entrega das memórias de um nobre de um reino das Balcãs a uma editora e a devolução de cartas privadas a uma aristocrática alvo de chantagem. Em Londres descobre grandes interesses em torno da obra, partidos do País das Balcãs não a desejam publicada pelo incómodo político e prejudicar acordos com ingleses que envolvem o ministério dos negócios estrangeiros a celebrar na mansão de Chimneys, mas as cartas são-lhe roubadas e conhece a dama a ser chantageada. Logo a seguir o chantagista e o herdeiro do trono são assassinados. Tem então um convite para Chimneys onde todos os interesses em jogo estão a ser discutidos na presença do inspetor Battle, detetives de França e América, a suspeita de ser vigiados por um ladrão internacional de jóias da corte e ainda da impressionante viúva alvo das cartas. Tudo isto gerará a descoberta da intriga internacional, onde Anthony acumulará o papel de suspeito e de investigador e ainda se apaixoná.
O romance desenvolve-se quase sempre em diálogo, poucos parágrafos descritivos e é sempre atravessado pelo ambiente aristocrático, por vezes em sardónico. A obra mistura amor, intriga política, investigação criminal e é temperado com a boa vida da elite inglesa. Lê-se muito bem, tem momentos de suspense, um excelente carácter lúdico e um final inesperado típico das obras de Agatha Christie. Gostei.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

23 de Abril - Dia Mundial do Livro - As leituras preferidas de um ano

Apesar da crise por que estamos a passar, os livros não me deixaram de fazer companhia e posso comemorar o Dia Mundial do Livro como sempre, pois ler não interfere com o isolamento social e até rompe com a solidão de modo saudável.

Por norma, neste dia listo as obras que mais prazer me deram desde o anterior Dia Mundial do Livro segundo várias categorias, este ano, como habitual, hesitei, mas lá consegui uma seleção final que abaixo exponho:

Melhor Livro de Ficção em Língua Original Portuguesa
"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa-Luís
No ano do desaparecimento desta escritora com uma produção tão vasta, o seu último romance publicado não foge às suas características mais comuns: a exposição dos vícios e do estilo de vida das gentes aristocrática e burguesa do norte de Portugal, tendo como centro a vida em torno de personagens femininas fortes. Não é a minha obra predilecta de Agustina, mas é das de mais fácil leitura e pode servir de entrada ao conhecimento do seu estilo e tem como fio condutor o quadro mais famoso de Rembrandt. O postal sobre o livro disponível aqui:

Melhor Livro de Ficção Canadiana
"The Testaments" de Margaret Atwood
A continuação da vida distópica das mulheres na república ditatorial de índole religiosa, conservadora e misógina em Gilead, resultante de uma futura transformação e fragmentação dos Estados Unidos, é uma homenagem à força feminina em prol da implosão do regime de uma das minhas escritoras favoritas de todo o mundo e natural do meu país natal. Mais pormenores sobre a obra aqui. O romance já está traduzido e disponível em português.

Melhor Livro de Ficção Estrangeiro
"A Mancha Humana" de Philip Roth
Uma obra que mostra como o preconceito racista está infiltrado na sociedade norteamericana e narra como através de um estratégia de moral dúbia o protagonista a ultrapassou e venceu. Um romance que me reconciliou com o escritor que estava proscrito por mim. O texto sobre o livro está aqui.

Melhor Livro de Não Ficção
"A Lebre de Olhos de Âmbar" de Edmund de Wall
Curiosamente uma obra que se assemelha a um romance, a história da família dos banqueiros  judeus Ephrussi, tendo como linha narrativa a constituição da coleção de pequenas peças de arte japonesa "netsuke" por um parente no século XIX até chegar como herança ao autor já no século XXI. Uma maravilha em termos de informação histórica, descrições do mundo cultural de Paris que serviu de base a Proust e de Viena antes da queda do império, além de uma magnífica qualidade de escrita descritiva. O postal sobre o livro neste blogue aqui. O livro que mais gostei em 12 meses.

Como todos os anos, a dúvida da seleção manteve-se até à execução deste postal, mas havia que tomar decisões e se esta tivesse ocorrido noutro dia talvez a lista pudesse ter alguma alteração.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

"Ruído Branco" de Don DeLillo

Excertos
"Durante uma crise, os facto verdadeiros são tudo aquilo que os outros dizem. Nenhum conhecimento é tão inseguro como o nosso."

"À medida que a fé desaparece deste mundo, as pessoas cada vez acham mais necessário haver alguém que acredite."

Talvez para exorcizar a tensão do confinamento em virtude da pandemia optei por ler um romance onde sabia haver um acidente que obrigava a um recolhimento, neste caso temporário: "Ruído Branco" do norteamericano Don DeLillo. Obra vencedora do National Book Award de 1985.
O livro está dividido em três partes, a primeira evidencia a futilidade da vida moderna nos EUA contemporâneo através do dia-a-dia do protagonista Jack, casado 4 vezes, e do seu agregado familiar com filhos de vários pais e mães mas por norma bons observadores do mal da sociedade. Como professor universitário criou um departamento que estuda Hitler e convive com um professor da área da cultura popular moderna nos EUA que serve de comparação de duas sociedades disfuncionais. Na segunda parte há uma fuga de um gás tóxico a que Jack pode ter ficado exposto e obriga a um recolhimento oficial onde a informação e desinformação estão em choque. Na terceira o Jack com a mulher e o amigo discute os medos da morte e uma medicação para o combates deste. Nos diálogos fala-se da importância deste para valorizar a vida e os modos como a ciência e a sociedade tentam ultrapassar este receio, o que irá desembocar num final com uma situação extraordinária e imprevista.
Apesar dos temas sérios do romance, a escrita de tom sardónico enche a narrativa de humor transversal a todas as situações e o tratamento de choque a algumas questões levantadas com personagens cheias de autossabedoria e referências à cultura pop sujeita aos mídia retiram qualquer carga depressiva à leitura da obra, pondo-nos a rir em momentos duros e tensos e onde final assombroso agita as consciências, levanta a moral e mexe com pruridos do leitor. Gostei mesmo muito e percebi a razão do prémio atribuído, embora  não seja um livro de mero entretenimento.

terça-feira, 14 de abril de 2020

"The Testaments" - "Os testamentos" de Margaret Atwood


Acabei de ler, na língua original, o romance "The Testaments", da escritora canadiana Margaret Atwood, obra premiada com o Booker Prize de 2019 e, presentemente, já se encontra disponível em português com o nome "Os Testamentos". 
O romance corresponde a uma sequela de outro do género distopia e escrito em 1985: "História de uma Serva", lido há muitos anos, contudo não há nenhuma impedimento de se ler a obra mais recente a quem não leu o anterior, pois as tramas são distantes no tempo, embora o ambiente político seja o mesmo e haja uma personagem importante agora que foi secundária no anterior e uma referência final para a anterior protagonista.
A obra cruza três narrativas que se intercalam no género de memórias, na primeira pessoa, das 3 protagonistas:
- Agnes desde criança até à juventude, viveu na ditadura religiosa, de moral fundamentalista e machista, de Gilead, esta resultou de uma revolução que fragmentou os Estados Unidos (ocorrida no romance anterior) aonde às mulheres compete procriar (parideiras profissionais) ou ser esposas ou ter tarefas domésticas e a quem está interdita a alfabetização;
- Daisy, de criança a adolescente que cresceu em liberdade em Toronto, Canada, num meio que luta pelo fim do regime em Gilead e;
- Lydia, já de idade avançada que descreve como se tornou numa das mulheres e fundadoras do regime de Gilead e um pilar do sistema ao assumir uma estrutura de mentalização da subserviência feminina e de atribuição dos papeis destas, apesar do seu passado americano de defensora dos direitos da mulher, os membros da sua instituição são as únicas que tem acesso a formação literária e possibilidade de lerem obras que lhes vão sendo autorizadas em função do seu grau de subserviência e fidelidade ao regime.
A partir dos relatos de cada uma percebemos a forma como Gilead subordina as mulheres, cujos mecanismos instalação foram descritos no livro anterior, quais os diferentes tipos papeis atribuídos a estas na estrutura social machista, a ignorância que existe na comunidade devido ao controlo da informação e da propaganda ao serviço do regime, que é minado pela corrupção e imoralidade da elite que governa e impõe uma justiça moralista, repressiva e sangrenta.
Em contraste no Canada livre, a governação não se intromete na política do Estado vizinho para evitar uma guerra, mas deixa espaço para uma organização contestatária e de resistência a Gilead que suporta ainda a fuga de mulheres escravizadas em torno da qual vive Daisy, mas onde em paralelo a estrutura de Lydia opera com missionários para atrair mulheres que faltam em Gilead.
Com o evoluir da trama, cujo ritmo se vai acelerando, as três personagens cruzar-se-ão e a estória tornar-se-á num thriller onde a todas as protagonistas terão um papel de luta contra o obscurantismo, uma homenagem à força do papel feminino dentro da humanidade.
Gostei mesmo muito do livro, a escrita de Atwood é fácil e adapta-se desde o estilo infantil das personagens na infância, ao astuto dos adultos e ao ardiloso dos que promovem a revolução sem nunca perder consistência de todas as partes, no fim um simpósio de reflexão científica sobre Gilead no século XXI.

sábado, 11 de abril de 2020

Votos de Feliz Páscoa

Num momento de crise global a Esperança é sempre um motor para ultrapassarmos as dificuldades e a Páscoa é a festa da recuperação da Vida, a todos os leitores

VOTOS DE FELIZ PÁSCOA

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro


Excerto
"eu julgava que se um homem fosse económico, podia, só com o seu trabalho, levantar a cabeça."

Acabei de ler o romance "A Lã e a Neve" de um dos escritores portugueses da primeira metade do século XX mais traduzidos internacionalmente, sobretudo conhecido por "A Selva": Ferreira de Castro.
Durante a II Guerra Mundial, Horácio, que desde a adolescência fora pastor na serra da Estrela, acabou de concluir o serviço militar na região de Lisboa e voltou a Manteigas cheio de planos: adiar o seu casamento com Idalina para construir uma casa com as condições das que viu pela capital para a sua mulher e filhos, deixar de guardar rebanhos dos outros e ser operário numa fábrica de lanifícios na Covilhã, mas aos poucos descobre as dificuldades em concretizar os seus sonhos: primeiro as dívidas dos pais e a oposição dos futuros sogros obrigam-no a ter de continuar a subir a serra com as ovelhas, depois, quando consegue o emprego desejado, verifica que a miséria dos salários é um mal geral e os colegas que lutam no sindicato sujeitam-se a perseguições do regime, mas eis que surge um programa habitacional municipal e o fim da guerra, só que a crueza da vida não o larga.
Escrito com um grande domínio da língua portuguesa e recurso a numerosos vocábulos já desusados e termos técnicos da laboração têxtil e da pastorícia, Ferreira de Castro é exímio em mostrar a conjugação da beleza da região serrana com a dureza da vida dos seus habitantes pobres, tanto pastores como operários, e evidencia os abusos dos mais poderosos na zona durante os anos da guerra e a seguir. A obra é um verdadeiro prenúncio do estilo neorrealista e só se distingue deste por o protagonista não ser um lutador político, só um esforçado trabalhador que vai descobrindo a injustiça de que o trabalho não permite sair da miséria, mas sem o levar a uma revolta pública.
Gostei, tirando os vocábulos desconhecido, é de leitura fácil, mas é uma obra muito dura pelo retrato social que faz.

domingo, 29 de março de 2020

"As Mil e Uma Noites" Volume 1


Excerto
"nada detém uma mulher quando ela quer alguma coisa."

Acabei de ler o primeiro volume da edição dos contos da obra "As mil e uma noites", um dos clássicos da literatura universal, com origem na idade média saído do mundo islâmico, sendo esta edição uma tradução da versão mais antiga conhecida em língua árabe editada por crowdfunding.
Este volume começa com um historial sobre as origens geográficas, linguísticas e divulgação desta obra até chegar ao ocidente e depois alguma evolução que esta sofreu já na Europa por adições para satisfazer o público não constantes no início, onde fica evidente porque se está perante uma das obras mais conhecidas das pessoas que simultaneamente o real conteúdo é desconhecido. Apesar da sua importância para o contexto da obra, confesso que apenas folheei e li excertos.
Depois segue-se a obra propriamente dita, onde se descobrem as razões porque o rei Xariar decidiu todos os dias casar com uma súbdita diferente, matá-la a seguir à noite de núpcias e a estratégia de Xerazade para pôr termo a esta carnificina através de se oferecer em casamento a ele e iniciar um série de contos narrados a sua irmã, Dinazarde, que alimentassem a curiosidade do marido e a mantivesse viva.
Os contos, na sua grande maioria, são do estilo fantástico ou do género fábula, não com bruxas e fadas do estilo ocidental, mas com os seus equivalentes no imaginário do médio oriente: génios e ifrites, cuja narrativa pode atravessar várias noites, sendo interrompida em momentos de suspense para manter o interesse e quando terminam deixam com frequência pistas por esclarecer que permitem o encadear de estórias e preservar a curiosidade.
Os contos encerram muitas vezes lições de moral e bons costumes, intercalados com aprendizagens da vida sobre as injustiças na vida terrena, havendo partes em prosa e outras em verso que sintetizam provérbios ou são cantos de amor ou do elogio à beleza física e intelectual. Pelo meio há algumas passagens quase eróticas e mesmo momentos brejeiros. Contudo o papel superior da vontade do Deus único, como agente do triunfo da Justiça e do Bem sobre a perfídia e  malvadez, é frequentemente invocado e atravessa todo livro, mas não se está perante o deus ex-machina da literatura clássica ocidental que intervém diretamente para castigar ou corrigir o mal.
O tradutor disponibiliza numerosas notas em rodapé que esclarecem pormenores do texto relativos à cultura da época, à mentalidade do médio oriente ou do mundo muçulmano e, inclusive, dificuldades de tradução e enquadramentos históricos que muito enriquecem o saber do leitor e ajudam a compreender e a referenciar aspetos que passariam despercebidos.
Não sou um habitual fã de contos fantásticos, mas reconheço a riqueza destas histórias, a influência cultural das mesmas e confesso que além de se estar perante uma obra de fácil leitura, o suspense que é mantido assegura o interesse e o prazer da leitura e em breve espero entrar no volume seguinte deste clássico da literatura mundial que vale a pena conhecer.

domingo, 22 de março de 2020

"A Aldeia" de William Faulkner


A acabei de ler o romance do norteamericano de William Faulkner, escritor laureado com o prémio Nobel da literatura, "A Aldeia". Esta obra é a primeira de uma trilogia em torno da família Snopes no Mississipi.
Neste romance, passado no meio rural, Will Varner é o rico da aldeia, dono de vastas propriedades incluindo O Velho Domínio do Francês. Praticamente toda a atividade económica gira em torno dele: a produção de algodão, as lojas, os empregados e os arrendatários. Um dia Ab Snopes entra na loja e arrenda um terreno ao filho Jody, mas pouco depois descobre-se que ele já causara problemas a outros rendeiros da vizinhança: associado a fogos sobre armazéns dos proprietários; mesmo assim o negócio avança e pouco depois o filho de Ab, Lem, torna-se empregado da loja e vão chegando outros parentes que se instalam e o clã a cresce na economia numa teia de conluios a que os aldeões assistem e compreendem, sobretudo, através dos comentários de Ratliff que vive na cidade e conhece de infância Ab. Quem se deixará enganar pelos Snopes e até onde irão? Vai-se descobrindo neste volume da Trilogia.
William Faulkner desenvolveu um estilo de escrita literária que pratica neste romance denominado fluxo da consciência: narrativa vai sucessivamente tecendo uma teia de ideias, comentários, descrições da ação, da envolvente cénica, personagens e seu enquadramento que obriga a uma grande atenção. Isto porque do início à conclusão de um parágrafo pode existir um extenso texto cheio de complementos com referência a outros sujeitos, factos, tempos, locais e ações onde nos podemos perder, assim a leitura da narrativa vá-se montando como peças de um puzzle que permitem a compreensão do geral e dos pormenores lançados.
Algumas páginas dão grande prazer de ler pela beleza do texto, outras entram em conflito com a atenção do leitor e tornam-se muito difíceis, embora o tom sardónico por norma presente e o suspense associado às pistas lançadas permitam manter vivo o interesse na continuidade da leitura de quem resista à dificuldade do estilo de escrita. Gostei, até mesmo muito, já tenho comigo os restantes volumes, mas preciso de uma pausa a este esforço de atenção. Desejo retomar os Snopes em breve.

domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

sexta-feira, 6 de março de 2020

"Arranha-céus" de J. G. Ballard

Excerto
"o arranha-céus era um exemplo de tudo o que a tecnologia tinha feito para tornar possível a manifestação de uma psicopatologia verdadeiramente «livre»."

Terminei de ler o meu segundo livro do inglês J. G. Ballard: "Arranha-céus". Este escritor, nas suas obras, criou e explorou ambientes de tensão psicológica extrema fruto dos desequilíbrios do modelo de desenvolvimento socioeconómico atual que podem despertar o pior que há no íntimo das pessoas, criando mundos de da realidade demencial. Todavia estas criações distinguem-se das distopias futuristas que procuram denunciar o caminho errado da sociedade contemporânea as situações deste autor ocorrerem no presente, dentro de determinados locais ou nichos, como também acontece neste romance, e servem para polarizar ao máximo essas disfunções, enquanto o mundo envolvente aparentemente continua na sua normalidade absurda.
No presente livro, escrito nos anos de 1970, um arranha-céus de 40 andares e dois mil residentes no leste de Londres é o expoente máximo que integra tecnologia, arquitetura de vanguarda, conforto e prazer pelos serviços de lazer e comerciais: piscinas, supermercados, bancos, escolas, cabeleireiros, parques infantis, restaurantes, etc. tudo está estrategicamente disponível dentro do edifício, mas neste subsiste a estratificação social: uma classe mais baixa na parte inferior, uma classe média na sua zona central e uma elite pequena e dominadora no topo, tal como o luxo e a qualidade dos serviços se arrumam de acordo com esta hierarquia social. No que parecia um mundo em equilíbrio inicial e com relações interclasses entre as mais variadas profissões liberais, eis que alguns abusos e preconceitos vindos de cima geram revoltas nos andares inferiores. Estes incidentes irão num crescendo até a um nível de loucura e violência extrema, mas mantém cativos alguns viciados nesta guerra de classes amoral, sem limites e geradora da implosão desta comunidade... enquanto no exterior o dia-a-dia decorre sem nada que se considere fora da norma.
A escrita escorreita, por vezes com metáforas duras, está ao serviço de um mundo onde se perde a dignidade e humanidade, algumas cenas são de grande violência, tanto psicológica, como física e inclusive contra animais domésticos, criando um retrato negro do que a espiral da loucura pode levar. Gostei, lê-se facilmente, mas pode impressionar leitores sensíveis.
Como vários livros de Ballard, este também passou a filme, entre as várias adaptações cinematográficas da sua obra está uma vencedora de melhor filme do ano em Hollywood (Crash), o trailer abaixo é respeitante a arranha-céus.

domingo, 1 de março de 2020

"A Casa Sombria" de Charles Dickens


Excerto
"Nunca o nevoeiro será bastante espesso, nunca o barro e a lama terão suficiente profundidade para estar ao nível da cerração e das dificuldades por que hoje passa este Tribunal Supremo da Chancelaria, o mais nauseante de todos os velhos pecadores, à face da terra."

Acabei de ler um extenso, denso e profundo romance do inglês Charles Dickens "A Casa Sombria". Um casal de jovens primos, órfãos é acolhido sob proteção de um tutor parente na sua Casa Sombria enquanto aqueles aguardam a posse da sua herança retida pelo Supremo Tribunal em Londres há gerações num processo de denúncia do testamento e apaixonam-se entre si. Em paralelo, o dono da casa escolhe outra jovem para dama de companhia que é filha de pais incógnitos, ela sabe ser fruto de uma relação ilegítima e escondida para salvar a honra de uma família que percebemos ser de alta sociedade e é a principal narradora da estória.
Em torno das duas famílias de origem dos três jovens da Casa Sombria, bem como do bairro do tribunal, circulam advogados honestos e interesseiros, tarefeiros, espiões, criados, interessados da justiça, gente detentora de segredos familiares ambiciosa, chantagistas, pessoas que se apaixonam, cidadãos doentes, pobre explorados, honrados ou revoltados ao sentirem-se vítimas de erros do passado ou da situação social, médicos, indivíduos que morrem, criminosos e ainda usurários exploradores da desgraça alheia, detetives policiais, pessoas amigas e adversárias e até beneméritos sociais mais atentos às suas causas solidárias públicas do que às suas obrigações sobre os que lhe são mais próximos e estão a seu cargo, tecendo um malha exaustiva do retrato coletivo da sociedade londrina sobre a qual paira um sistema judicial que é o maior agente de injustiça que se abate em cima desta população.
Efetivamente, no livro há personagens criminosas, assassinas e gente com sede de Justiça, mas torna-se evidente que a mais criminosa, a mais assassina e a mais injusta é a montada pelo sistema judicial, ou seja: a justiça neste Estado de Direito.
Charles Dickens escreve este romance sem pressa. Ao longo das três primeiras centenas de páginas vai introduzindo personagens, isoladas ou em família, que tanto podem ser modelos de virtude ou vilões que vão sendo caracterizadas em pormenor: não só através do seu comportamento individual e indicação de pistas de intenções ocultas, como também através do meio onde vivem e das características urbanas dos locais onde trabalham ou residem e várias delas vemos inclusive o seu regredir fruto do sistema social e de justiça vigente. As exposições cénicas e dos ambientes sociais são de uma grande riqueza estilística descritiva e metafórica pois é um meio para fazer um paralelo entre a realidade paisagística, arquitetónica, meteorológica ou de higiene com os desequilíbrios das personagens e da sociedade. Desta técnica narrativa Dickens mostra genialmente o obscurantismo corrosivo, doentio e até mortal da justiça com recurso clima pestilento resultante da humidade, neblina e frio em que insere logo no início o trabalho proveniente do Supremo Tribunal da Chacelaria.
Nas últimas centenas de páginas, nunca com pressa, os nós soltos da primeira metade começam a unir-se e a montar a teia que constrói o retrato global que até às últimas páginas nos vai surpreendendo, não apenas com revelações e desenlaces agradáveis para um final feliz, mas também com relatos das consequências duras e revoltantes de todos os aspetos negativos que Dickens denunciou publicamente com este romance.
É um magnífico romance e como não houve pressa na narrativa torna-se longo e nem sempre belo, Dickens através da fealdade evidenciou a força e os efeitos do mal que grassava no sistema de justiça da inglês em meados do século XIX e temperou a crueza desta realidade com a beleza do amor romântico e solidário que permite a sobrevivência do humanismo nesta sociedade injusta, cheia de egoísmos e de oportunistas, inclusive é realçada em alguém cuja a doença a desfigura mas sempre bela pela força humana que dela continua a brotar. Um livro marcante.