quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Ao arrepio" de Joris-Karl Huysmans


O romance "Ao arrepio", por vezes traduzido por "Às avessas", é considerado a obra-prima literária de Joris-Karl Huysmans e a mais importante do estilo decandentista surgido em França no final do século XIX e terá influenciado Wilde para Dorian Gray. Apesar de revolucionário no estilo, é uma obra algo difícil pelo grande número de géneros culturais tratados e referências a autores e seus trabalhos.
Des Esseintes é o herdeiro de uma família nobre e heróis de França, mas de uma fragilidade oposta à dos antepassados Após o colégio religioso de classe entra numa vida de prazeres à sombra da riqueza, desfrutando tudo o que a sociedade lhe pode oferecer, até sentir o declínio do mundo que o cerca. Decide então afastar-se e criar numa casa o seu mundo-museu, cerca-se de tudo o que admira para fugir à realidade e entrar no ideal que lhe traga as recordações que valoriza e admira. Assim, desde o estudo das cores dos aposentos, complementada com gemas numa tartaruga para efeitos de luz; passando pela dissertação da biblioteca de clássicos da Roma decadente; continua pela descrição de quadros e de artistas contidos nas divisões; analisa a adequação das flores do jardim para criar cenários idealizados; ensaia  aromas que geram atmosferas e lembranças; disserta sobre músicas de excelência da história e critica os escritores seus contemporâneos. Tudo isto sempre com profundidade, algum sarcasmo e indolência final. Existem momentos de uma riqueza descritiva geniais e outros surpreendentes que se arrastam até um final não menos imprevisto.
Após o romance um prefácio do autor escrito 20 anos depois, onde disserta sobre o conteúdo do romance, o seu impacte no meio cultural de Paris, até o conflito que gerou com Zola, e aponta as sementes que o levaram em seguida não só à sua conversão ao catolicismo, como os pontos desenvolvidos nos seus posteriores romances, como a personagem Durtal de "Além" que aqui falei.
Apesar de por vezes ser fastidioso nas descrições e da letargia com que Des Esseintes se reveste, gostei muito da obra, contudo a bagagem informativa e os aspetos culturais focados não a tornam fácil a um leitor ávido de desenrolares rápidos e narrativas simples dos momentos, um livro diferente entre tudo o que já li.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"O Homem Domesticado" de Nuno Gomes Garcia


"O homem domesticado" do português Nuno Gomes Garcia mostra uma distopia que veio instalar na Europa, mais intensamente em França, após uma catástrofe "O Grande Flagelo" que matou a maioria dos homens e em menor escala as mulheres, só que as deixou na generalidade inférteis, e com chegada à Presidência de Marine (suspeito que este e outros nomes não são casuais na obra) onde se construiu uma sociedade com reprodução humana artificial, não uterina e com a geração de machos homogeneizados, submissos ao domínio absoluto da mulher. Após se compreender o modelo social, um acontecimento violento transforma transforma a narrativa quase num policial, onde deduções certas e erradas da estória e justificação política terão a explicação até ao final.
Ao contrário de outras distopias recentes, onde pelo exagero se denunciam tendência e riscos em que a sociedade pode cair, casos de "Submissão" de Houellebecq ou de "Oryx e Crake" de Atwood; Gomes Garcia cria uma realidade distinta da atual, embora sem ignorar ideias atuais, como considerar estereótipos de género não naturais certas características de feminilidade ou masculinidade, preconceitos de que a violência social com origem só no homem, optando assim por um estilo muito mais próximo de Huxley em O Admirável Mundo Novo ou "A Ilha". 
Contudo, ao contrário de muitas distopias que li, onde é evidente a mensagem subjacente, a ideia a passar em "O Homem Domesticado" é algo dúbia. Tanto pode chocar para levar à reflexão sobre certos preconceitos machistas através destes machos completamente submissos onde o papel na sociedade se limita ao estereótipo ultrapassado da mulher como mera serva do homem e até publicamente oculta através com a burka, aqui na versão cache-tout para os machos; como pode ser o de satirizar a ideia supremacista da superioridade da raça branca, loura e de olhos azuis aqui bem degenerada; ou de evidenciar que os atuais defeitos da sociedade não resultam da predominância do homem nos lugares de poder, pois a mulher é bem capaz de criar um sistema opressivo, violento e ditatorial onde a justiça é subjugada ao objetivo político ou até denunciar tiques másculos de extrema-direita em Marine Le Pen. Quem sabe se não será tudo isto em simultâneo?
A escrita é clara, com poucos floreados poéticos como em muitas distopias, sem excluir algum recurso a metáforas e comparações estilísticas para a embelezar literariamente. Um livro fácil de se ler, para alguns terá momentos chocantes, mas não me marcou com a intensidade dos romances do mesmo género e acima citados.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante


Há livros que são uma biblioteca e o romance "Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante é de facto uma louca adição de estórias, textos de géneros distintos, miscelânea de línguas, charadas de palavras, experiências de escrita e dissecação de vocábulos e pronúncias, mecanismos de destravamento ou travamento linguístico e tal como explicado inicialmente, o bom seria ler em voz alta para melhor entender toda a riqueza fonética ali contida. Tudo isto tem como pano de fundo a vida noctívaga de Havana no tempo de Batista pouco antes da revolução cubana sem qualquer preocupação ou censura moral.
A obra é narrada essencialmente a partir de três personagens maiores: um fotógrafo, um ator radiofónico e um escritor, com a ensombração de um poeta prestidigitador das palavras e de uma cantora cuja a voz e o corpo formariam um monumento gigante, devidamente secundado por toda a panóplia de personalidades que animam a noite boémia: músicos, coristas, prostitutas, homossexuais pessoal de bares, cabarés e restaurantes numa promiscuidade cujas combinações são impossíveis de quantificar, a que se associa de forma intercalada uma voz singular perante o seu psiquiátrica.
Os Três Tristes Tigres são uma enciclopédia da cultura ocidental: tanto musical erudita e popular latinoamericana; literária com citações e deformações e reescritas dos mais diversos escritores e provérbios universais e do saber dos filósofos, havendo uma parte onde se destacam autores cubanos e ainda ao nível do cinema norteamericano sobretudo das décadas 1930/40 e 50, todavia a obra não tem uma linha continuada da estória.
Após uma apresentação dos debutantes que serão reexpostos depois no livro que poderemos redescobrir a quem correspondem, acompanharemos a vertiginosa vida de um fotógrafo encantado com uma cantora, assistiremos períodos de engates entre o ator radiofónico na companhia dos seus amigos escritores e músicos, como veremos em imitações de escritores cubanos várias versões em torno da morte de Trotsky, para passar por um período louco de palíndromes, jogos numéricos, dissecações e transformações de um poeta cuja "deficiência" do cérebro descoberta em necropsia justifica a causa da genialidade de deformação das palavras e da linguagem, para se avançar para um dia louco de reflexões existenciais que se prolonga por numerosas páginas até um epílogo que mais não é que outro trabalho de escrita.
Um livro único do mesmo ano de "Cem anos de solidão", que por vezes com tanto exercícios de escrita pode cansar, noutros divertir o leitor, mas sobretudo é um trabalho que prova que já tudo parece ter sido inventado antes de Saramago, Llosa e outros revolucionários da escrita e da loucura narrativa terem transformado a literatura contemporânea.
Apesar de tudo, para quem não se deixa entusiasmar por estes ensaios de escrita, Três Tristes Tigres pode ser uma obra fastidiosa, ininteligível e desesperante, mas é uma obra-prima para quem gosta mesmo de literatura como arte de saber trabalhar as línguas, as letras, a sintaxe e os sons que a escrita tentam transpor para o papel e sendo um castelhano, suponho que grande parte da dinâmica linguística pode ser bem aproveitada pelo tradutor que seguramente se viu perante um trabalho hercúleo para colocar tal monumento em Português.

sábado, 26 de agosto de 2017

"O Ruído do Tempo" de Julian Barnes


Acabei de ler o "O Ruído do Tempo" do escritor inglês Julian Barnes. Um romance que tenta expor os prováveis receios e complexos de consciência da vida da personagem histórica Shostakovitch (Chostakovitch), o compositor erudito mais famoso que viveu e compôs sempre sob o regime soviético sem nunca tentar fugir do País e alvo de enormes pressões para que as suas obras obedecessem às diretrizes do PCUS.
O livro dá destaque às atitudes de Shostakovitch no período de terror de Estaline e depois nas reviravoltas da época de Kushchev e como terá sido usado como exemplo da supremacia artística da União Soviética pelos dois líderes.
A obra é escrita numa sucessão de textos, como bilhetes postais, onde Julian Barnes vai mostrando a biografia de Shostakovitch em peças soltas que se colam e montam a vida deste, as suas relações com mulheres, os casamentos e as suas ideias musicais e sociais avançadas cercada pela cobardia de as pôr em prática. Exibe ainda as suas eventuais reflexões e exames de consciência. Um momento chave é quando ainda jovem vê a sua grande ópera após um sucesso estrondoso na União Soviética e Mundo ser ostracizada pela crítica, que pode ter sido escrita por Estaline, e o leva a optar por não dormir e a esperar a sua prisão e morte à porta do elevador para a família não assistir.
"Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só é preciso ser bravo por um momento... ...mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar."
A partir de então toda a sua vida foi sobreviver com a sua cobardia e continuar a compor pretendendo agradar ao sistema para ser ouvido e com medo de pôr as suas ideias na música, em paralelo renega artistas que admirava ou heróis de resistência. Chega a assumir discursos discursos que não escreveu e opiniões que nem concordava no País e no Estrangeiro e quando da abertura do regime uma nova humilhação que não previra.
Há escritores que produzem obras-primas de literatura sendo originais e bons em estilos e géneros diferentes, depois de "O sentido do Fim", que li este ano, agora outra obra-prima nada semelhante à anterior. Um texto com uma dose contínua de ironia, por vez sarcástica, bem redigido e num estilo brilhante, Julian Barnes é um escritor que quero continuar a ler e descobrir o que já publicou ou venha a publicar.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

"Terra de Neve" de Yasunari Kawabata


Acabei de ler o pequeno romance ou novela, "Terra de Neve" do escritor japonês e vencedor do prémio Nobel da literatura Yasunari Kawabata. 
A obra narra uma relação amorosa entre um homem casado de Tóquio, sensível, estudioso de teatro, música e dança que visita anualmente uma termas de montanha na época da neve, aonde vai mantendo uma ligação com uma gueixa que por ele se apaixona, igualmente culta e sensível.
A estória é descrita com metáforas originais para um ocidental, onde a pureza envolvente desta terra de neve, misturada com a loucura deste amor sem futuro de uma pessoa singular, levam à criação de um texto literário com imagens e referências de grande beleza poética e cores que lembram um quadro nipónico original, entretanto, vão sendo destiladas informações do estilo de vida oriental, alguns dos seus costumes, arquitetura, mobiliário e até tecidos japoneses.
Gostei e é sem dúvida um texto que permite o encontro e compreensão de culturas oriente no ocidente, com uma fórmula que para mim é única até ao momento, apesar de não ser uma simples narrativa ou com um tom a que estejamos habituados nestas culturas dos continentes que bordejam o Atlântico.

domingo, 20 de agosto de 2017

"Terra Abençoada" de Pearl S. Buck



Acabei de ler "Terra Abençoada" de Pearl S. Buck, escritora norteamericana galardoada com prémio Nobel da literatura.
A estória passa-se na China no rural, distante dos grandes centros e deduz-se que deve ter início no final do século XIX e estende-se por várias décadas e embora se fale de uma revolução não é claro que seja a comunista, apesar de algumas das ideias emanadas por esta por vezes transpareçam na narrativa.
Wang Lung um pobre filho de um pequeno lavrador solicita ao pai que lhe arranje uma mulher, sem defeito, não bela e trabalhadora para o ajudar no seu sonho de se tornar proprietário de terras e lhe dar filhos. É-lhe então entregue uma escrava da casa senhorial mais importante da cidade próxima. Enquanto ele trabalha arduamente, compra terras, a companheira servilmente o ajuda e lhe dá filhos, tornando-se num pequeno caso de sucesso, mas vem uma seca e emigra só não volta a encontrar meios para melhorar-se, regressa com a família e vários acasos transformam-no num dos homens mais ricos da região e ele procura criar a sua dinastia alicerçada nos filhos homens numa sociedade onde as mulheres são vendidas e mais não são que meras reprodutoras, concubinas ou servas, por isso não admira que arranje outras nestas condições para sua casa e honrar o seu nome e assim o seu sucesso sempre ligado ao amor à terra e ao trabalho e em desprezo pelas mulheres serve para conhecermos a vida rural e a mentalidade daqueles tempos na China.
A narrativa é feita numa linguagem simples, fácil como de um relator que conhece os pensamentos das suas personagens mas não julga procedimentos, mesmo que choquem os ocidentais, a obra torna-se num primeiro volume de uma saga que noutros romances relatará a vida das gerações seguintes e foi um grande sucesso de vendas em meados do século XX. Gostei, não me fascinou a escrita, mas aprende-se muito do que era a China num passado pouco antes de se tornar na República atual.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Reino do Amanhã" de J. G. Ballard


Terminei a leitura do "Reino do Amanhã" do escritor inglês J. G. Ballard, uma distopia que evidencia os risco presente de escravatura e de ditadura que pode resultar da combinação do consumismo atual com o desporto interesseiramente organizado nas comunidades, neste caso a região suburbana de Heathrow - Londres, onde apenas há valores para uma sobrevivência oca e materialista sem as referências coletivas tradicionais.
Na sequência de um tiroteio num megacentro comercial em Brooklands é morto o pai de Richard Pearson, um publicitário recém-despedido e este desloca-se à periferia onde descobre um aglomerado habitacional descaracterizado cuja vida se desenrola em torno da autaestrada e das grandes superfícies comerciais: "uma estação de serviço junto a uma estrada com duas faixas de rodagem imprimia um sentido de comunidade mais profundo que qualquer igreja ou capela, uma maior consciência de cultura partilhada do que uma biblioteca ou uma galeria municipal poderiam oferecer... ...o estacionamento estava prestes a tornar-se uma das maiores necessidades espirituais da população britânica."
Na cidade, Pearson descobre o mal-estar do subúrbio, aproveitado pelo Metro-Centre com publicidade incutida à população articulada com equipas desportivas suportadas por aquele templo do consumo e geradores de uma violência oca e xenofobia em espiral crescente e onde o pai ora pareceu uma vítima ora uma peça eliminada quem fomentava uma revolução e guerrilha em Brooklands.
Pearson decide mudar-se e investigar o fenómeno e a morte, alia-se tacitamente ao Metro-Centre e, numa evolução do vazio, a loucura da ditadura consumista instala-se como uma nova religião, extrema-se em revolta com exércitos civis em defesa do seu deus comercial e um Estado sujo que procura conter uma situação descontrolada.
A obra evolui para uma tensão extrema e denuncia a violência das periferias urbanas, torna-se sombria e repetitiva na demonstração exaustiva da semelhança entre os crentes desta nova religião do consumo com o desporto organizado através dos seus símbolos e ritos paralelos às fés tradicionais... mas "As pessoas são capazes da mais maravilhosa demência." uma obra atual da sociedade numa evolução mais sombria que a do "Admirável mundo novo" de Huxley. Um romance, com uma escrita crua, por vezes ácida, que incomoda pela denúncia do caminho que estamos a seguir. Um alerta contra a alienação em que o ocidente consumista está a cair.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado de Stefan Zweig


Acabei de ler os dois contos O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado, publicados no mesmo livro, de Stefan Zweig, um escritor de origem austríaca, mas que passou os seus últimos dias no Brasil.
O primeiro conto de algumas dezenas de páginas é relativo à vida de um alfarrabista (sebo): Mendel, que era capaz de se isolar do mundo para viver apenas para os seus livros, que fazia a sua vida profissional centrada num café barulhento sem se aperceber do que se passava à sua volta, inclusive este alheamento levou-o a cometer infantilidades em momento de guerra só compreensíveis a quem ama os seus alfarrábio mais que tudo. É uma estória lindíssima. Uma narrativa que vale não só pela forma de escrita, cheia de adjetivos, poesia e beleza , mas também por ser uma grande homenagem a este grupo de pessoas capaz de encontrar pérolas para os bibliófilos, mas vistos muitas vezes apenas como uns comerciantes de obras usadas, quando podem ser os maiores peritos no tema com que nos cruzamos.
O segundo conto, também de dezenas de páginas "A viagem ao passado", que praticamente termina com dois versos de Verlaine, é um puro Zweig, onde as paixões extremadas são exploradas como tema, as quais se confrontam com situações que levam a uma mudança brusca e à tomada de atitudes que no futuro levarão a um outro choque e possíveis remorsos sobre o passado. Neste caso um amor que a carreira e a guerra separou, mas depois dá-se o reencontro quando já tudo é diferente desse tempo anterior.
Gostei muito dos dois, mas o primeiro marca qualquer bibliófilo a que acresce a beleza da escrita e o valor da homenagem efetuada. Recomendo a todos que gostam de beleza literária em ficções curtas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Festa do Livro 2017 na cidade da Horta

Não há Semana do Mar na Horta sem Festa do Livro, em 2017 a boa tradição repete-se.
Já fiz a minha visita e recomendo: Diversidade de livros, ficção, ensaio, divulgação científica, análises política, história, religião, new wave e outras ondas, boas e más nos seus géneros.
Fui com a minha lista de obras a comprar, mas como quando a escolha de livros é grande, lá chegou à dúzia e com apenas dois da seleção levada.
Se passar pela Horta aproveite esta oportunidade.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

"Bombaim - a um mundo de distância" de Thrity Umrigar



Acabei de ler "Bombaim a um mundo de distância" da escritora indiana Thrity Umrigar, um romance com ma escrita simpática, agradável e cheia de sentimentos, sem ser "meladamente" sentimental, que narra a vida de duas mulheres já no final da vida adulta, de condições sociais distantes mas cuja vida foi durante muitos anos próximas. A obra recorre a frequentes memórias de cenas passadas por cada uma delas, dando assim saltos no tempo que permite conhecer o que foi a vida delas e as feridas e cicatrizes que se vão abrindo com problemas do presente.
Uma das mulheres é pobre, hindu, residente num bairro de lata, trabalhadora incansável e uma mãe coragem perante as adversidades dos desprotegidos intocáveis; a outra é de uma família culta, instruída, parsi (seita zoroastriana), com uma vida não menos sofrida psicologicamente que teve a primeira como criada durante décadas e de quem se sente amiga com todas as barreiras que as separações por castas, religiões e preconceitos impõem. A primeira enfrenta a gravidez imprevista da neta orfã e por ela acolhida na sua miséria. A segunda alegra-se com a gravidez de um casamento de sonho da filha, mas só que este momento de infelicidade e felicidade pela vinda de um filho a cada um destes lares vai ser razão para se abrirem ainda mais divisões e virem mais injustiças a nu típicas da sociedade de Bombaim.
Gostei, o texto é de fácil leitura e mesmo sem ser de uma genialidade literária que mereça neste campo outros encómios é uma história de denúncia social bem narrada e por vezes de elevada tensão. Recomendo a quem quer conhecer melhor a sociedade indiana e muitos dos seus problemas estruturais geradores de divisões, desconfianças e injustiças que distanciam pessoas aparentemente próximas.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

"A Brecha" de João Pedro Porto


Acabei de ler o romance "A Brecha" de João Pedro Porto, um jovem escritor Português e Açoriano, mas este livro não é uma obra de cariz regionalista.
O romance apresenta uma trama cuja forma de narrar é mais complexa do que a própria estória em si. Numa noite escura e a ameaçar tormenta, um Homem ascende das arribas do cabo na sutura dos mares (deduz-se São Vicente), surpreende os deuses do Tempo e do Amor em adultério à da História/Memória, foge e é acolhido num tasco de um casal parricida de onde conseguirá levar companheiros para a sua ventura de encontrar o Apocalipse no sul. Em paralelo, um Homem em tédio num quarto reflete sobre a banalidade do seu tempo quando uma brecha se abre e decide por ela percorrer os caminhos da memória. Assim arrancam aventuras que afinal são a mesma. Por sua vez, os donos da taberna decidem contactar os deuses e tramar o seu abate, permitindo apreciar os efeitos da sua existência ou morte no destino dos Homens.
O romance não só apresenta vários estilos de escrita, como várias formas de narrativa. Predomina, no primeiro caso, a redação floreada numa recriação barroca a lembrar Fernão Mendes Pinto e António Vieira, com um vocabulário muito rebuscado, com termos técnicos, arcaismos e raridades da língua que os dicionários nem sempre registam. O autor optou pela designação grega dos deuses, a que por norma somos mais estranhos e ainda com variantes menos comuns, e contém referências a várias histórias mitológicas que revelam um grande estudo da cultura clássica. 
A narrativa ora se desenrola em prosa, sobretudo na vertente das aventuras dos homens, onde surgem mitos da época das descobertas e sebastiânicos, misturados com factos históricos da época do declínio de Portugal; ora se desenvolve em teatro aquando da temática do abate dos deuses; e ainda poesia, soneto ou verso livre, que fazem contrapontos à narrativa ou o resumo da aventura humana no final, uma espécie de epopeia camoniana para os heróis corajosamente vencidos nas suas aventuras.
Esta é uma obra densa de mensagens soltas e pistas de reflexão, cuja repetição de leituras permitem conclusões por vezes distintas, apesar de estar subjacente a ideia central de que para se viver há que arriscar, mesmo que depois se seja derrotado e sujeitos ao remorso, mas quem não se aventura, como Dom Sebastião, dificilmente vive. Paralelamente há a discussão do papel do(s) deus(es) na nossa vida ser mínimo e que podemos bem viver sem ele(s), tendo em consideração a hipótese de ser(em) nossa criação, onde se deduz que o Homem é o dono das suas decisões e responsável por ela sozinho.
Estamos sem dúvida perante um grande livro, mas uma obra difícil. Um desafio para quem gosta de ler, mas aprecia a escrita, discute o conteúdo e a forma da trama e por isso, talvez, inacessível a quem procura romances como meros objetos passatempos para momentos de lazer. "A Brecha" é para muito mais do que isto. É literatura no que esta pertence ao mundo da Arte. Gostei e muito. 

quinta-feira, 27 de julho de 2017

"A mixture of Frailties" de Robertson Davies



Terminei a leitura do terceiro livro da trilogia de Salterton de Robertson Davies: "A mixture of frailties". O romance começa pouco após o casamento entre os jovens filhos de professores universitários rivais cujo falso anúncio permitira a trama do anterior livro exposto neste neste post. Um momento em que ocorre a morte da viúva mãe do noivo, uma mulher egoísta que emocionalmente escravizava o filho, que por retaliação à desfeita pela escolha da mulher filha do rival deixa em testamento cláusulas de gestão de todos seus bens incluindo sua fortuna enorme, cujo próprio descendente na sua submissão desconhecia existir, a um fundo de gestão por uma comissão cujos membros já eram conhecidos das anteriores histórias, destinado à educação na Europa de uma mulher da cidade no mundo da música a escolher pelos gestores segundo critérios rígidos, com possibilidade de repetição após a conclusão dos estudos até que haja um novo herdeiro masculino na família, enquanto o casal se limita ao usufruto da vivenda da mãe para residência, mas sem auferir rendimentos da fortuna e sem beneficiar da possibilidade de venda de propriedades pertencentes ao fundo.
A partir desta situação complexa e humilhante para o casal, Davies desenvolve o que de melhor sabe fazer nos seus romances: criar com elegância e humor uma trama em que explora o amadurecimento de uma forma de arte num potencial artista. Neste caso, como se transforma a voz de alguém dotado, mas sem cultura musical, numa artista e soprano de primeira grandeza no mundo da ópera, associado às peripécias que se geram em torno de uma jovem bela, imatura, vinda de uma cidade rural que vê de repente a possibilidade do seu sonho realizar-se, embora caída na teia de artistas e das suas rivalidades, com toda a astúcia possível desenvolvida no seio de Londres. Como sempre neste género literário, Robertson Davies cria uma delícia de obra culta com referências à história da música e uma argúcia de análise social divertida e muito anglo-saxónica.
Nas várias trilogias, uma característica a que se associam os romances deste escritor canadiano, este conseguiu cobrir e dar a conhecer através da literatura vários mundos da cultura e da arte, nomeadamente: festivais de cinema, a criatividade na pintura e na música (composição e ópera), a representação em teatro e a vida em circo, bem como as tensões que caracterizam os meios universitários, sempre com ironia e análise social que evidenciam um conhecimento dos meios culturais de uma forma difícil de se observar noutros escritores, além de que o facto de ter lecionado em várias Universidades lhe garantiu a bagagem para poder explorar repetidamente as tensões nos meios académicos. Gostei e muito e continuo a considerar no estilo mais clássico anglo-saxónico de romance o maior escritor do Canada da segunda metade do século XX

domingo, 16 de julho de 2017

"Leaven of Malice" da Trilogia de Salterton de Robertson Davies


O segundo livro da Trilogia de Salterton, situa-se na mesma cidade universitária de Salterton, imaginada por Robertson Davies, que se deduz situar-se no sudoeste de Ontário, "Leaven of Malice", decorre cerca de dois anos após a trama do primeiro romance desta série que falei aqui, repetindo algumas das personagens, introduzindo outras novas e é despoletado por um acontecimento completamente diferente: um anúncio falso de noivado e próximo casamento entre dois jovens filhos de famílias com passados litigiosos, onde a rivalidade se manteve e até cresceu, mas de forma uma discreta e oculta à sociedade, publicado num jornal da cidade.
O falso anúncio não só abrirá uma ameaça judicial ao diretor do"Evening Bellman", como levará com grande humor e ironia ao desencadear de atitudes de investigação amadora, desajeitada e desastrada sobre quem terá estado na origem da notícia que porão a nu não só os ódios, as invejas, os ciumes e as paixões, mas também as incertezas e as ambições pessoais inerentes ao despertar da vida juvenil para adulta familiar e profissional e ainda o mundo em torno de um jornal local, a sua redação e papel social, tudo isto irá desembocar num final onde tudo se explica e fará que relações impossíveis se tornam viáveis.

Robertson Davies é de facto um genial analista e relator da realidade social explora todos os tipos de virtudes e defeitos individuais das mais variadas personalidades que compõem uma sociedade fechada e conservadora e este livro que ganhou o prémio literário canadiano de humor Leacock em 1954 é um excelente exemplo do que seria a vida no Canada, numa cidade média e académica ainda fortemente influenciada pelos costumes e subserviências típicas da Inglaterra vitoriana num grupo de pessoas que se sente defensor dessa sociedade e sua religião oficial. Um romance brilhante satírico  não acessível a quem apenas lê em Português.




sábado, 1 de julho de 2017

CANADA Day - Celebração dos 150 anos do CANADA: 1867-2017

Hoje o CANADA, o meu país natal e do qual sou um orgulhoso cidadão celebra 150 anos como País com a proclamação da Confederação Canadiana a 1 de julho de 1867 destaco o acordo de John A MacDonald, de língua inglesa, e George-Étienne Cartier, de língua francesa, na liderança do entendimento de um Estado com várias nações.

Inicialmente composto apenas pelas atuais províncias do Ontario, Quebec, Nova Scotia e New Brunswuick por adesão voluntária de colónias britânicas na América do Norte estendeu-se do Atlântico ao Pacífico e chegou ao Polo Norte, sendo a província que mais recente aderiu a New Foundland and Labrador (Terra Nova e Labrador) já após a segunda-guerra mundial em 31 de março de 1949 .


Apesar do vermelho ser  desde o início a cor da Confederação e a folha de ácer o principal símbolo das antigas províncias do Alto e Baixo Canada, só passado um século da criação deste País foi adotada a atual bandeira oficial do Canada já sem qualquer referência à Union Jack que caracteriza muitos Estados da Commonwealth, apesar da minha memória apenas se lembrar daquela que me comove: a Maple Leaf.


Não sei o que define uma nação, mas na pluralidade de culturas na origem do Canada, na diversidade de línguas maternas, para além das oficiais da federação ou ainda de outras de determinadas províncias ou territórios e na multiplicidade de religiões, mesmo reconhecendo que certos nacionalismos por vezes mais dividem do que unem os povos que se juntaram para formar um País e o Povo Canadiano; a verdade é que sempre me senti Canadiano sem qualquer conflito com também me sentir Português e ter como língua materna a de Pessoa e Camões e é por este orgulho de ser Canadiano, sempre ligado à minha Pátria natal e continuar ativamente a colaborar com a representação do Canada em Portugal que há muito decidira neste dia Celebrar os 150 anos do Canada na minha cidade natal, Galt e hoje Cambridge, Ontario, na antiga província do Alto Canada.


Happy Canada Day
Bonne Fête du Canada
Feliz Dia do Canadá


PROUD DO BE CANDIAN!

FIER D'ÊTRE CANADIEN!

ORGULHOSO DE SER CANADIANO


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Tempest-tost da Salterton Trilogy de Robertson Davies





Acabado de ler o primeiro romance desta trilogia, uma trama sem protagonistas definidos, muito britânica como habitual no autor. Por meio de algumas táticas o grupo de teatro 🎭 amador de Salterton obtém autorização para levar a cabo uma representação e encenação de "A tempestade" de Shakespeare nos jardins duma família rica e influente da cidade universitária (ficticia), só que nada será simples até à estreia de verão, paixões, ciúmes choque entre a encenadora profissional e atores com várias personalidades e interesses diversos, além de tiques e bajulaçoes à filha do anfitrião  e atriz convidada de forma interesseira pelo grupo, encaminham o conjunto dos intervenientes para uma tempestade perfeita. Divertido, elegante, bem escrito, satírico e análises sociais são características deste primeiro livro da trilogia.
Gostei e já entrei no segundo da série como leitura de avião ✈ a caminho da terra de Robertson Davies.
(texto republicado do meu comentário à obra em facebook)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Livros sobre a cidade da Horta, o Faial e inclusive outras ilhas dos Açores

No verão a Horta recebe muitos turistas e descendentes das nossas comunidades de emigrantes pelo mundo fora, perguntam-me por vezes onde podem encontrar livros sobre a história desta terra. A receção da biblioteca pública regional João José da Graça, no edifício situado no extremo sul do largo Duque d'Ávila e Bolama, a mesma praça onde se encontra a Matriz e o Museu, é talvez o local mais adequado a este objetivo.


Na minha opinião a maior produção de publicações sobre o Faial, a sua cidade da Horta e outras ilhas relacionadas com esta relacionada tem sido fruto do trabalho do Núcleo Cultural da Horta através de investigadores por cá residentes ou por cooperação com professores de outras instituições, com destaque para a Universidade dos Açores.

Nas fotos alguns dos títulos disponíveis neste local e editados pelo Núcleo Cultural da Horta cujas obras podem também ser encomendadas pela internet através deste site do NCH.

Boas opções que recomendo