sábado, 18 de Outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume III

Que se poderá dizer de um volume de um romance que é constituído pelos capítulos rejeitados pelo escritor para completar o anterior tomo, mais aqueles que ele escreveu para dar a continuidade à história mas que não concluiu antes de morrer e ainda os esboços de versões de capítulos que davam um rumo muito diferente aos acontecimentos antes publicados e alterados por Musil?
É assim o terceiro volume de "O homem sem qualidades" que termina com prefácios e posfácios do autor à sua própria obra em estilo de crítica ao romance.
A verdade é que o volume III tanto pode ter capítulos fastidiosos por serem sobretudo de uma inércia de repouso associada aos mais alto estado a que o amor pode chegar que inibe a ação, onde se aproveita para por em confronto ideias, sentimentos e conceitos filosóficos, como pode ser emotivo e entusiasmante ver versões alternativas mais arrojadas de dar continuidade à história que Musil se inibiu de seguir, não sei se por questões de moral, se por desembocarem num beco, e ainda é divertido ler textos preliminares dos capítulos anteriores não corrigidos nem ampliados nas suas fases primitivas e com anotações antes da serem fixados no romance.
Na verdade o romance não foi concluído, mas existem versões que concluem as principais partes não rematadas anteriormente, outras que as reabrem e o mundo da reflexão filosófica e suas contradições é posto à prova. Confesso que gostei, não consegui deixar de a ler, mesmo aquelas partes que parecem discussões etéreas intermináveis... mas nunca serão capítulos fáceis.
O amor/paixão entre os dois irmãos num estado de inação nos capítulos tornados definitivos, muito platónico e pouco sensual, fez-me lembrar o sexto andamento da Sinfonia Turangalila de Messiaen "Jardin du sommeil d'amour" que integro abaixo.

domingo, 12 de Outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume II


O volume II de "O homem sem qualidades" apesar de publicado três anos depois, vem em perfeita continuidade do primeiro, tendo como principal particularidade a introdução da irmã de Ulrich, fisicamente muito semelhante a este, que funciona como um avatar do protagonista para desempenhar o comportamento contrário dele. Embora esta levante as mesmas questões filosóficas ao irmão com a profundidade característica da obra e não pareça discordar dele, na prática, a imperfeição dos seus impulsos não a impede de agir contra a moral e valores defendidos de modo consciente.
Assim, se no primeiro volume as discussões e os problemas de moral bloqueiam o agir e as decisões, no segundo, apesar de se analisar os temas como as questões de moral, as preocupações do espírito e da alma de um povo como num ensaio, mesmo perante as contradições no mundo sobre as ideias e as múltiplas culturas do império Austro-Húngaro, agora, num clima de exaltação, tomam-se posições e a palavra de ordem é: ação.
Neste confronto irmão-irmã que se completam, sente-se que se vai desenvolvendo um sentimento fortíssimo que roça a paixão ou mesmo o amor, oculto à sociedade, pois tal seguramente vai contra todos os seus princípios e mesmo dos seus intervenientes, ficando em aberto para o volume seguinte a tentativa de resolução das consequências das decisões e ações tomadas no fim desta parte do livro.

terça-feira, 7 de Outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume I



"O homem sem qualidades" de Robert Musil é um extenso romance de ficção cujo primeiro volume foi publicado em 1930 e reflete sobre as contradições do império austro-húngaro e da aristocracia em Viena que vive em torno do protagonista Ulrich e de um evento para assinalar de forma única os 70 anos de reinado do imperador Francisco José e deste modo marcar a importância do país no mundo e, a apesar do peso da cultura germânica, a sua distinção do ser alemão da Prússia.
A obra tem a particularidade de, com a guerra a insinuar-se, os personagens alheios à ameaça mergulharem em debates filosóficos sobre o bem, o mal, a diferença de alma e espírito no indivíduo e na sociedade, a importância das ideias e o papel da cultura e da moral, bem como a evolução destes aspetos no tempo até à época dos acontecimentos. Nesta dissertação o romance faz uma ponte entre a pura ficção e o ensaio, onde se destaca Ulrich,  o homem sem qualidades devido à profundidade com que aborda as temáticas e busca da perfeição e exatidão que lhe impede a ação, à semelhança do que acontece ao nível das decisões no seio da organização das celebrações, o que permite fechar um ciclo de pensamento neste volume.
Pela profundidade filosófica, ideias abstratas e personagens contraditórios, o romance evolui lentamente e com uma grande densidade de conceitos e pensamentos históricos, que, apesar de magnificamente escrito, dificultam a apreensão de todas as questões e justifica o facto de ser uma obra de culto erudito.

terça-feira, 30 de Setembro de 2014

"O mistério da estrada de Sintra" de Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão

Por norma, não leio obras de ficção em formato digital, o denominado ebook ou livro eletrónico, ao contrário do que acontece com ensaios sobre socioeconomia e política atual. Todavia tenho descarregado romances antigos, sobretudo de autores nacionais, que em princípio não compraria numa livraria em concorrência com nova literatura que surjindo ou já são difíceis de encontrar. Isto como salvaguarda de surgir a oportunidade de os poder ler um dia e tal como já referira neste blogue.
Assim, recentemernte a a partir da sítio do Projeto Adamastor, acedi, descarreguei e li "O Mistério da estrada de Sintra", uma obra conjunta de Eça de Queirós e de Ramalho Ortigão publicada pela primeira vez em folhetins no jornal Diário de Notícias em 1870.
Um romance que começa como um "thriller" mistério em torno de um crime, narrado em formato epistolar e que com o tempo se vai transformando numa história romanesca de paixão, ciúme e questões de moral em pessoas da aristocracia lisboeta cruzadas com princípios de honra inglesa da época vitoriana e onde tudo fica no fim esclarecido e justificado.
Não sei exatamente quais as partes que são de Eça, mas suspeito pelo estilo de escrita, de qualquer forma é uma obra de juventude destes autores, ainda sem a ironia e a crítica social que desenvolveram genialmente, sujeita aos costumes e princípios morais então em voga e ainda não despojada dos floreados sentimentais e fáceis do período romântico. Assim, a obra vale sobretudo para compreendermos a evolução literária do autores e marcar uma época. Um romance acessível a qualquer público, novelesco, mas sem a densidade e pujança do que depois estes escritores foram capazes de criar.

segunda-feira, 15 de Setembro de 2014

"A Capital" de Eça de Queiroz


O romance "A Capital" de Eça de Queiroz  apesar de escrito na primeira metade da vida de produção literária deste grande escritor português, só foi publicado 25 anos após a sua morte e segundo a editora Presença a versão corrente e agora lida sofreu retoques finais por seu filho José Maria, tendo esta editado recentemente um texto com algumas diferenças.
A obra é a história desde a infância até juventude de Artur Corvelo, que de rapazola quieto, triste e tímido vai estudar para Coimbra onde se fascina pelos sonhos de ser poeta e escritor famoso, mas que de repente se vê sem bens e retido na pacata província, até surgir uma herança e rumar a Lisboa para o sucesso idealizado, aqui é rejeitado e alvo de todos os oportunistas e vícios da capital que lhe sugam o dinheiro.
Eça recorre à sua brilhante escrita irónica e mordaz para fazer uma crítica forte a todos os estratos sociais, ideológicos e estilos de vida de Portugal do último quartel do século XIX, com destaque o lisboeta, embora lentamente o romance vá perdendo vigor por se tornarem previsíveis os vários tipos de enganos e desencantos que o protagonista sofrerá  com a sua estadia na capital.
O fim desta versão tem reminiscência de Hamlet. Gostei do romance, só que não tem a grandeza e o brilhantismo de obras geniais de Eça de Queiroz que já li, como "A cidade e as Serras", "O crime do Padre Amaro" e, sobretudo, "Os Maias", entre outras.

segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

"A Mascarada" de Alberto Moravia


"A Mascarada" do italiano Alberto Morávia tem a coincidência de denunciar o que é a mascarada política num país fictício ao longo da preparação de um baile de máscaras, no qual se simulará um atentado ao ditador para alcançar outros objetivos, sustentar vícios privados e preservar uma máscara pública, num romance onde quase ninguém socialmente é o que mostra, mas encarna uma personagem conveniente ao que lhe convém aos seus interesses egoístas, enquanto oportunamente se usa e abusa dos idealistas  e dos mais frágeis que entretanto passam pelo caminho.
O romance tem um escrita muito fácil e uma trama que se desenrola com suspense e ironia permanente, mas onde cedo se percebe que os estratagemas da mascarada irão todos falhar, exceto o aproveitamento político que consegue dar a volta e subsistir.
Um romance divertido que se lê muito bem, onde as reflexões e a ironia são ferramentas de denúncia de um mundo hipócrita e estratificado, neste caso coberto por uma ditadura, mas penso que na realidade pode sobreviver noutros regimes políticos. Gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.

quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

"A ilha" de Aldous Huxley


Acabei de ler "A Ilha" de Aldous Huxley, onde um jornalista consegue aceder e compreender o modelo de gestão social de uma ilha situada no Índico interdita a muitos estrangeiros, sobretudo a pessoas da imprensa, para proteção do seu estilo de governação, cuja forma e as prioridades são bem diferente das do resto do mundo.
O autor expõe assim uma sociedade utópica, governada por ideais para denunciar muitos dos vícios da sociedade ocidental, mas também demonstra que perante a globalização uma alternativa do género dificilmente resiste à ambição económica e política instalada na rede mundial.
A obra que aborda assuntos que vão deste a educação, a saúde, a morte, o consumismo e a religião, neste campo contrastes entre o dogmatismo e a reflexão budista, é heterogénea, tem momentos de crítica social que parecem denúncias perfeitas do mundo atual, noutros, Huxley entra em devaneios e contradições, inclusive o recurso a psicotrópicos para compreender o fim em si.
Em "A Ilha" mostra-se um mundo muito mais viável e contemporâneo que a visão futurista de "O admirável mundo novo", mas onde o ideal da perfeição e a centralidade do ser humano são os pilares da sociedade, infelizmente valores que estão ameaçados por uma civilização consumista, belicista e preconceituosa por crenças dogmáticas que não valorizam o Homem. Gostei da obra e recomendo.

quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

"Gaibéus" de Alves Redol


"Gaibéus", o nome que  chamavam aos trabalhadores à jorna que se dirigiam em rancho para o Ribatejo na época ceifa do arroz, de Alves Redol é reconhecido como o romance pioneiro do estilo literário do neorrealismo em Portugal em 1939.
A obra retrata o sofrimento dos jornaleiros rurais e, mais de que expor uma luta de classes, mostra a submissão e as dores a que é capaz de se sujeitar quem não concebe outro modo de ganhar o seu pão. Não que no seio do grupo não haja consciência da exploração: há quem silenciosamente se sinta revoltado, há quem sonhe com alternativas de emigração, há mulheres que se rendem ao assédio dos patrões e se sentem manchadas sem possibilidade de fuga e há doentes que recusam o facto a troco de uma moeda e até há os que se sentem um pouco superiores por se situarem mais acima na hierarquia dos explorados, sem verem que apenas são instrumentos da perpetuação dessa servidão.
O romance, que utiliza intensamente o vocabulário popular e típico desta atividade, não tem protagonistas que se destaquem na história. Tem várias personagens cujos  problemas e sonhos se vão desenrolando nos dias da ceifa e mostram as várias faces desta exploração sem direitos, mas onde é evidenciado que são seres humanos, que pensam na sua sorte e sofrem, mas sem perspetivas de futuro ou organização coletiva para enfrentar o problema. e como tal vítimas de um sistema social injusto.

sábado, 23 de Agosto de 2014

"O Falador" de Mario Vargas Llosa

A leitura de "O Falador" desenvolve no leitor as sensações típicas da escrita de Mario Vargas Llosa, mas ao contrário do cruzamento cronológico de diálogos e espaços intratexto de "Conversas na Catedral" e "Casa Verde", aqui temos capítulos alternados onde nuns o narrador principal é o "autor" da obra: um cidadão urbano, racional atento à causa da aculturação indígena, sobretudo a tribo machiguenga e associado às memórias de um amigo com iguais preocupações; e nos outros, uma tentativa de relatar as tradições, mitologia, cosmologia e cultura mágica na perspetiva do homem da selva contador nativo machiguenga.
Assim se dão a conhecer não só os problemas de extinção de uma civilização, como as suas características em olhares que cruzam personagens, mentalidades e conversões ocidentais e nativas.
A obra não tem uma evolução linear da sua história, embora seja um romance cujas pontas soltas se completam e se unam ao longo do desenrolar e conclusão do romance e por vezes obrigam o leitor a mergulhar na forma que se estima ser o modo de pensar e ver o mundo através da mente machiguenga, tribo à qual este livro faz sem dúvida uma magnífica homenagem. 

domingo, 17 de Agosto de 2014

"Nossa Senhora de Paris" - Victor Hugo


"Nossa Senhora de Paris" de Victor Hugo que acabei de ler é acima de tudo um trabalho de divulgação sobre a arquitetura da catedral parisiense de Notre Dame e de informação sobre a história evolutiva do património arquitetónico desta cidade, desde a sua fundação até a situação contemporânea do livro em 1831, tendo como acessório intercalado um romance de amor ao estilo romântico, tipo a bela e o monstro e cercado por peripécias de ódios e paixões extremados, bem como a situação dos marginais que sempre viveram na capital de França e sobre os quais este escritor teve frequentemente uma atenção especial ao longo da sua carreira. 
Não é por isto uma obra homogénea, ora nos dá profundas lições de história da arquitetura e do seu papel como livro aberto da cultura dos tempos até ao surgimento da imprensa, que substitui a arte de construção como principal forma de registar o saber das civilizações, ora nos dá informações do evoluir político da sociedade das teocráticas para a democrática libertada do jugo religioso, com pertinentes críticas mordazes das classes sociais e remata tudo isto com o enredo de amor do corcunda de Notre Dame, do ciúme do arcediago desta por uma suposta e bela cigana que desperta os ódios racistas, supersticiosos e das crendices típicas da idade média e de aventuras de outros apaixonados de fraco caráter para completar o retrato do modo de sobrevivência da época em Paris.
Pode-se não concordar plenamente com o papel dominante que Victor Hugo dá à arquitetura para compreender o passado, mas que este nos dá magníficas lições de história e de arte: dá; pode-se achar um pouco rocambolesco a trama de amor e das peripécias das suas personagens, mas que são úteis à informação e ao interesse da obra: são. Gostei do livro, embora não seja tão consistente quanto "Os Miseráveis".

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

"O Rouxinol e a Rosa" de Oscar Wilde


O livro corresponde a um conjunto de nove contos de Oscar Wilde, o primeiro é o que dá o nome à coletânea, unidos pela escrita poética, o relato fantástico e moralizante do tipo fábulas, ilusões de príncipes e personificações de crenças religiosas para denunciar problemas de justiça.
Como típico do período romântico, muitas vezes as situações são expostas de forma extremada, até mesmo pontualmente de forma exaustiva e cansativa, quer ao nível dos sentimentos das personagens, como da descrição da beleza, da fealdade e do património. Interessante o facto de que mesmo quando se pretende uma lição moral nem sempre o resultado final do conto é o mais lógico, Wilde tende como que, em paralelo à denúncia da injustiça, passar a ideia que a realidade nem sempre acaba do modo desejado e correto, deixando um desconforto que leva à reflexão.
Gostei da maioria dos contos, alguns podem ser clássicos pela sua moral e capacidade de entretimento, mas é evidente que Wilde não se rendia a todas as crenças e tradições morais e religiosas da sociedade em que vivia e aproveitou a escrita para uma denúncia subtil de vícios instalados nos vários tipos de poderes e cobertos por valores que o autor considera falaciosos.

domingo, 3 de Agosto de 2014

"O nome da rosa" de Umberto Eco

"O nome da rosa" de Umberto Eco foi um dos principais sucessos literários na Europa em meados da década de 1980 e teve outro êxito na versão cinematográfica imediatamente a seguir, que então vi e esperei para me esquecer de quase toda a trama para ler o livro, que é talvez a obra mais famosa deste escritor italiano.
Um romance sobre livros, questões teológicas e políticas do final da idade média que se enquadra tanto no género policial, como histórico, onde, através de uma investigação em torno de uma série de crimes sucessivos de frades ligados às funções de copistas, bibliotecários, guardiães do saber e se encobrimento das heresias e conceitos perigosos para a fé numa abadia remota das montanhas da península itálica, Eco aproveita para dissertar sobre os principais conflitos entre o interesse material e político da Igreja (inclusive a pobreza desta como tema de fé) no tempo do papa João XXII e do imperador germânico Luís da Baviera, bem como expor as questões teológicas, os princípios e modo de agir da inquisição ainda antes da contrarreforma e ainda dar a conhecer a vida religiosa, as superstições e os mitos característicos nos alvores do fim da submissão da ciência ao poder religioso. Interessantíssimo o tratamento dado ao medo dos teólogos ao riso, à comédia e a dúvida se Jesus alguma vez riu.
Sob o ponto de vista policial os principais ingredientes destas obras estão presentes, todavia este são muitas vezes intercalados por profundas dissertações sobre as questões acima mencionadas, tornando-se numa fonte de informação histórica e perdendo o aspeto ligeiro típico da caça ao criminoso ou criminosos. É igualmente uma denúncia de que a paixão por livros, pelo saber e fanatismo de fé pode ser levada a extremos tais que se torna também numa obscuridade e numa ameaça. Um grande livro sem dúvida, mas nem sempre fácil pela sua enorme riqueza e profundidade temática, mas que demonstra a compatibilidade entre o gosto popular e o erudito transformando-o num clássico de literatura do género.

sábado, 2 de Agosto de 2014

"O Eleito" de Thomas Mann


"O Eleito" de Thomas Mann é um dos últimos romances deste escritor e pertence à fase do autor de temática preferencial pela reflexão religiosa relativa à tendência para o mal, a possibilidade de redenção ou do incontornável castigo tradicionalmente discutidas na moral e filosofia judaico-cristã e tendo como suporte lendas mágicas, mitos tradicionais e o fantástico. 
No presente romance um monge iluminado pelo "espírito da tradição" relata as lendas mágicas em torno das origens pecaminosas do papa São Gregório Magno e da sua redenção até à escolha por Deus para liderar o catolicismo. Isto exposto num modo característico das biografias medievais de santos recheadas de mitos bestiários, milagres e fantástico, hagiografias desenvolvidas com o objetivo de serem lições de ética, moral e de teologia. Neste romance cuja escrita muitas vezes é mesmo próxima da do estilo dos livros desse período ou do barroco.
Em "O Eleito" ao contrário de "Doutor Fausto" de Mann e de Goethe, o pecado mesmo que na origem da pessoa e ética e socialmente monstruoso tem sempre perdão na misericórdia divina, desde que o culpado reconheça, se arrependa e procure a remissão através da escolha de uma via de autopunição.
Embora tenha gostado da história, não se compara às pérolas mais terrenas de "A Montanha Mágica" ou de "Os Buddenbrooks", nem à novela platónica de "A Morte em Veneza" ou à riqueza cultural do romance da mesma fase mítica "Doutor Fausto".

sexta-feira, 18 de Julho de 2014

"No céu não há limões" de Sandro William Junqueira


Acabei de ler "No céu não há limões" de Sandro William Junqueira, um escritor português na nova geração que começa agora a tornar-se conhecido e comentado. Pessoalmente penso que é daqueles livros que será o tempo a dizer se foi um grande obra revolucionária com uma escrita e estrutura original ou fruto de um estilo de sucesso e de elogios de moda e passageiros.
Comecei por gostar muito da escrita com figuras de estilo geradoras de imagens bem diferentes do tradicional, depois pareceu-me que era um desenrolar de frases fortes que se queriam originais, construíam uma história, cujo enredo era secundário e se desenrolava ao ritmo da inspiração do momento.
O romance em estilo distópico passa-se num país imaginário em guerra civil na frente (terra do meio) por a solidariedade dos mais afortunados (norte) ter sido cortada pelo "cansaço" com a parte do estado vítima de uma série infortúnios (sul), pelo meio um conjunto de personagens trabalhadas, mais ou menos invulgares, entre as quais se desenvolvem vários laços de subserviência, de domínio psicológico ou físico e por vezes com passado e futuro em aberto, tal como o romance e onde o combate entre o bem e o mal em termos religiosos está sempre presente. 
Um livro que seguramente desperta paixões em quem gosta de novidades de forma, se sente atraído pelo estilo ou anda em busca daquela obra que marque a diferença das outras. Noutros, como eu, despertará algumas dúvidas de consistência do romance e da sujeição da trama aos interesses da escrita, talvez também surjam quem simplesmente desgoste. Existem alguns aspetos no estilo e na forma que fazem lembrar Gonçalo M. Tavares e penso que vale a pena ler e cada um ajuizar individualmente. Apesar de algumas dúvidas, confesso que mantive o meu interesse em vir a ler outros trabalhos do escritor.
Ouvi o editor dizer esta semana na televisão sobre o livro algo do género: "Um romance tipicamente do século XXI." Será por aqui que seguirá a literatura?

segunda-feira, 14 de Julho de 2014

Com os Holandeses - J. Rentes de Carvalho


Não se trata de um romance, mas sim de um livro de memórias e comentários de como Rentes de Carvalho vê os holandeses a partir da sua experiência de décadas de permanência na Holanda.
Rentes de Carvalho não faz um retrato simpático, mas antes uma exposição pessoal honesta das virtudes e defeitos que vê nos holandeses, em Amesterdão e na organização sócio-politica e administrativa dos Países Baixos. Elogia o que considera positiva, mas não omite as críticas, por vezes duras do que como português não compreende, nem pensa ser louvável naquele povo.
Utiliza uma linguagem ora irónica, ora crítica, ora elogiosa de fácil leitura que desperta gosto na em se ler, embora a obra possa estar já algo desatualizada, pois funda-se em apontamentos de 1971, com uma atualização da década de 1980, sendo este o principal problema do livro.
Apesar de tudo gostei e como o li nos Países Baixos, foi-me possível confirmar vários aspetos mencionados e ver a evolução entretanto ocorrida em vários domínios do comportamento social dos holandeses.

sexta-feira, 11 de Julho de 2014

Holanda, impressões finais



Primeiro importa deixar claro que neste campo Holanda, são mesmo as províncias da Holanda do Sul, com Roterdão, Haia, Delft e Leiden, e da Holanda do Norte com Amesterdão e um passeio por Volendam e ilha de Marken, não se confundindo com o Estado dos Países Baixos.

Na Holanda do Norte, Amesterdão é de facto lindíssima e rica, milhares de pontes, centenas de canais e casas de empensas apertadas ricamente decoradas confere-lhe uma beleza singular, mas a sua bandeira de tolerância, que a leva aos coffeeshops e ao Bairro da Luz Vermelha emprestam-lhe também uma aspeto decadente e demonstra o carácter do holandês, mais do que tolerante, está aberto a todo o tipo de comércio, inclusive amoral. O centro da cidade é do mais ruidoso que conheço na Europa e o lixo deixado pelos numerosos turistas, com muitos jovens atraídos pelo exótico da legalidade das drogas leves e prostitutas na montra como qualquer artefacto comercial, dão um aspeto sempre sujo da zona mais movimentada da urbe que nem as frequentes limpezas conseguem dar vazão.
Se gostei de Amesterdão, confirmo que é bonita e vale a penas conhecer, mas o ar de moral decadente e os ciclistas que concorrem com os automóveis e não são de todo simpáticos para com os peões também fragilizam o meu gosto e não me sentiria bem a viver dentro desta cidade.



Volendam e Marken (na foto) têm a característica de a primeira ser católica e de ambas terem sido terras de pescadores, mas onde hoje o mar salgado deixou de lhes tocar devido à engenharia dos diques, só que as famílias daí dependentes vivem sobretudo depois de apoios do Estado, preservando-se para fins turísticos os seus bairros agora com um ar muito artificial para visitante ver. Os lacticínios em contrapartida estão pujantes, mas também abertos para o turista. Na visita foi pelo guia que se tornou evidente o desprezo protestante pelos cristãos ligados ao Vaticano, evidenciando que uma coisa é ser-se tolerante oficialmente e para fins de comércio, outra é tal resultar de uma atitude assimilada pelo caracter do cidadão e infelizmente as impressões com que fiquei dos holandeses não foram das mais positivas neste ponto.
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Na Holanda do Sul, Roterdão é uma cidade moderna cujo centro faz lembrar uma cidade média da América do Norte pelos numerosos arranha-céus, só que aqui abundam ciclistas em vez do automóvel e reina um comportamento delicado para com o peão e a simpatia dos habitantes está conforme com a ideia de civismo que se tem do norte da Europa. Não tem a beleza da capital da Holanda do Norte, mas a diversidade de arquitetura contemporânea, as numerosas esplandas em ruas largas de pouco trânsito, a arte de rua, o asseio e o ar moderno são trunfos que admirei, até no seu principal museu a arte do século XX é rainha e encontram-se magníficas peças. Confesso que o peso económico do porto e a força das empresas mostram a pujança do país e da urbe, isto misturado com gente de grande educação no trato que me cativaram de facto.



Leiden (na imagem abaixo) e Delft são cidades ricas em património histórico e cultural, também devido à universidade na primeira e têm uma enorme beleza e simpatia. Novamente os canais e as casas de tijolo típicas em torno de igrejas de majestosas externamente são pontos fortes e as esplanadas dão ar cosmopolitas só que aqui não decadentes e merecem uma visita.



Haia é uma cidade algo incaracterística, o seu centro histórico está altamente marcado por imóveis modernos, mas muitas vezes sem o equilíbrio entre o novo e o antigo, só que o largo onde se encontra o parlamento e o governo merecem um visita, tal como o museu Mauritshuis.


sábado, 5 de Julho de 2014

Férias - Holanda: A explorar as cidades de Haia e Delft

Depois de Amesterdão, mas agora sem sair da minha base em Roterdão, prossigo com as explorações pela Holanda, desta vez através de visitas a cidades próximas: Haia e Delft

 Haia - fonte wikipedia


Haia, a sede do real governo dos Países Baixos, que sei ter importantes museus e onde a água continua a ser uma presença marcante.


Delft - fonte wikipedia

Delft terra do pintor Vermeer, agora já deverá ser bem diferente do tempo do seu famoso quadro do Porto de Delft, mas que sei ser um importante centro universitário e me dizem continuar a ser uma cidade fascinante, aspeto que agora estou decidido a confirmar.