sexta-feira, 27 de maio de 2016

"Teoria Geral do Esquecimento" de José Eduardo Agualusa


O romance "Teoria Geral do Esquecimento" de José Eduardo Agualusa foi finalista do Booker International Prize.
O enredo deste romance baseia-se no caso verídico de uma mulher de origem portuguesa que se isolou do exterior durante cerca de 30 anos no seu apartamento em Luanda desde pouco antes da independência de Angola para fugir à realidade violenta e à mudança política que assistia à sua volta. Agualusa, a partir de escritos de Ludovica, de informações de pessoas que direta ou indiretamente interferiram com ela neste período, inclusive família, assaltantes, vizinhança e uma criança, constrói uma estória que ele diz ser de pura ficção, mas que é em simultâneo divertida, irónica e de crítica à gestão política do País, expondo ainda os problemas sociais e económicos que o povo daquela nação enfrenta, para isto utiliza personagens interessantemente caracterizadas que viveram no exterior do mundo da protagonista em contraponto com o que a mesma observava para fora das paredes onde vivia separada da cidade.
O prémio para que estava nomeado foi um motivo que me fez elevar a perspetiva sobre a envergadura desta obra. Apesar de ter gostado do livro, o romance: "O vendedor de passados", que já li há vários anos, continua a ser o meu preferido de Agualusa.
Contudo assumo que gostei da obra e o romance lê-se muito rapidamente. A escrita está cheia de ironias subliminares que dão um tom divertido a uma realidade que deve ter sido dura para todos, mas sobretudo para Ludovica, uma obra fácil e recomendável a qualquer tipo de leitor.

terça-feira, 24 de maio de 2016

"As vozes do rio Pamano" de Jaume Cabré


"As vozes do rio Pamano" do catalão Jaume Cabré é daqueles livros que não são apenas mais uma obra de ficção, é daqueles romances que pela sua estrutura, narrativa, imaginação, informação histórica e social e qualidade intrínseca enriquecem a literatura como forma de arte.
"As vozes do rio Pamano" - através de uma intrincada exposição de cenas, diálogos e reflexões dos protagonistas, dispostas no livro sem respeitar uma linha cronológica, mas que muitas vezes se entrecruzam, se chocam dentro dos mesmos capítulos, relembram o passado ou vislumbram o futuro - tece uma trama que retrata o continuar do sangrar das feridas abertas com a guerra civil de Espanha durante os quase 80 anos anos que se lhe seguiram tanto durante a ditadura com os golpes oportunistas dos poderosos, seus opositores do momento e vítimas, como penetram a democracia com o aproveitamento e adaptação dos mesmos às novas realidades sociopolíticas, tudo isto com o apadrinhamento da Igreja, ora comprometida com os erros ora vítima dos que sempre sabem dar a volta por cima e manipulado por uma paixão doentia, louca e obsessiva de uma mulher com uma força, genialidade, vícios e ânsia de domínio gigantes mas que agiu como culpada e vítima  na infelicidade do seu amor devido aos conflitos ideológicos em jogo e da qual era peça ativa neste jogo.
Sendo um romance tipicamente da identidade catalã, não é nem nacionalista nem unionista, limita-se a tirar proveito de tudo o que tem entrado em jogo na história da Catalunha pirenaica na fronteira com a França, ora denunciando os interesses da igreja ou das várias partes ideologicamente mais conflituantes no terreno a esquerda e a direita, entrando como personagens secundárias pessoas reais como o Papa João Paulo II e Josemaria Escrivá que serão peças manipuladas num processo para a subida ao altar de um inimigo da igreja, mestre-de-escola, pintor, agente duplo, cobarde e herói, mas, sobretudo, muito amado por uma mulher capaz de tudo.
Para mostrar a baixeza e os vícios privados de poderosos cheios de virtudes públicas, Jaume Cabré recorre por vezes ao calão e à linguagem brejeira da luxúria, todavia a forma natural como é integrado num texto magnificamente trabalhado e numa obra que é em simultâneo um thriller, uma investigação histórica, a descrição dos viveres durante a ditadura e um romance de amor extremo o vocabulário por vezes chocante é plenamente aceitável numa escrita narrativa brilhante e cheia de vida. Um romance magnífico que vale a pena ler apesar de ter mais de 600 páginas.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O Livro de Areia" de Jorge Luis Borges



"O Livro de Areia" do argentino Jorge Luis Borges é composto de 13 contos no estilo fantástico típico do escritor. Os enredos cruzam tempos diferentes dos personagens, narram factos históricos ora reais ora baseados em livros antigos inexistentes, misturam personagens míticas com mundos reais das mais diversas partes do planeta mas privilegiando Argentina, o Uruguais e o norte da Europa, e onde por vezes o livro se torna o centro e é homenageado em bibliotecas representativas do saber mundial.
Este livro é a segunda coletânea de contos de J L Borges que leio, depois de O Aleph, o estilo fantástico, oculto e mágico sobre saberes reais e fictícios e tramas como livros é igual, embora agora já não me tenha surpreendido esta forma muito própria de escrita.
No fim o autor tem um posfácio onde enquadra as diferentes narrativas com base em objetivos pretendidos e esboços tentados entre outros aspetos. Gostei, um livro pequeno que se lê rapidamente, mas que pode surpreender positivamente uns ou desagradar a quem não gostar deste estilo único de narrar histórias de Jorge Luis Borges.

domingo, 8 de maio de 2016

"Mendigos e Altivos" de Albert Cossery


"Mendigos e Altivos" do escritor egípcio Albert Cossery, de expressão francófona e galardoado com o grande prémio da francofonia em 1990, desenrola-se no meio que o autor usa na generalidade das suas obras; os bairros pobres e árabes do Cairo, e, como norma, utiliza a ironia e o sarcasmo, para não só criticar o mundo, como ainda evidenciar a dignidade dos miseráveis, mas cultivando um estilo de permanente humor, mesmo na descrição das situações mais sórdidas em que os seus personagens vivem nas margens do setor europeizado da cidade.
Gohar, um professor universitário e de grande sabedoria cultural, abandonou o seu meio para viver miseravelmente como mendigo e fumador de haxixe no seio do bairro árabe pobre, onde encontra a sua paz no seio de gente excluída, mas que não se deixa enganar pelo sistema, surgem ainda os discípulos das suas ideias e exerce a contabilidade de um bordel. Por impulsão torna-se assassino de uma prostituta e começa então a investigação por um chefe de polícia inquieto, infeliz e pederasta, mas culto, vindo do mundo institucional, desfila então um conjunto de personagens cheias de sabedoria e sobreviventes da injustiça, mais ou menos felizes, mas em paz consigo mesmo que são os amigos e conhecidos do professor que mostram ao chefe do inquérito os valores e as razões do orgulho das suas vidas.
Um excelente romance magnificamente escrito e cheio de bom humor, que mais do que denunciar as injustiças e a desigualdade, mostra o amor próprio e a felicidade que pode alastrar nos excluídos em contraste com um mundo moderno hipócrita, opressivo e infeliz dos integrados na sociedade. Tal como o primeiro livro deste escritor que aqui falei, novamente gostei muito e recomendo a qualquer leitor e Albert Cossery é sem dúvida um autor que merece ser conhecido de todos.

terça-feira, 3 de maio de 2016

"A Casa dos Espíritos" de Isabel Allende


"A Casa dos Espíritos" é o romance mais famoso da escritora chilena Isabel Allende, nesta obra, através da história de três gerações da família Trueba, contada a partir da primeira grande guerra mundial, a autora, com recurso ao realismo mágico e a mulheres fortes da família, narra o conflito ideológico esquerda-direita e os principais acontecimentos e a realidade socioeconómica do Chile por mais de 60 anos, culminando no golpe de estado que derrubou Salvador Allende, tio da escritora, e com a descrição dos horrores dos primeiros anos da ditadura de Pinochet.
Isabel Allende escreve agradavelmente bem e o recurso estilístico a acontecimentos sobrenaturais que envolvem a vida da família introduzem uma nota de humor que atravessa toda a obra, enquanto as paixõesn fortes do agregado suavizam os momentos duros relatados no romance devido à luta de classes, temperamentos irascíveis do patriarca Esteban Trueba, em oposição com o original da matriarca Clara dotada de dons especiais de clarividência, contactos com o além e efeitos telecinéticos, tudo isto complementado pelos comportamentos rebeldes ou contrastantes dos filhos e neta que trazem para o lar as principais questões nacionais e as diferentes visões sobre eles.
Apesar da personagem que se estende do início ao fim do romance ser Esteban, são as mulheres as figuras mais fortes da história, sobretudo Clara, esta continuará a influenciar a conduta da família mesmo após decidir abandonar a vida, mulher que dá ternura a todo o romance e permite estabelecer pontes entre ideias que se opõem e inclusive a rendição de Trueba face à sua visão de direita conservadora radical e o extremismo da ditadura militar que se abateu sobre o Chile sem qualquer ideal ideológico e mesmo neste período negro em que o romance termina a esperança não morre. A publicação da obra é anterior ao fim da ditadura no País.
Sem dúvida um grande romance cheio de carácter e apesar das questões políticas subjacentes não deixa de ser uma obra, cheia de ternura e humor, sobre a sobrevivência do amor que resiste seio das contrariedades da vida de uma família e de um povo e de fácil leitura. Recomendo a sua leitura a qualquer leitor.