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sexta-feira, 1 de março de 2019

"Luz em agosto" de William Faulkner


Excerto
"A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo do que recorda, por mais tempo até do que o conhecimento se interroga. Sabe, recorda, acredita num corredor num prédio de tijolo vermelho, grande e comprido, decrépito, frio e povoado de ecos..."

"Lembro-me de uma vez lhe ter dito que há um preço a pagar por se ser bom tal como o há por se ser mau; há sempre um custo. E são os bons que não podem recusar-se a pagar a fatura, quando ela chega."

Voltei pela segunda vez a William Faulkner, escritor norteamericano laureado com o Nobel da literatura, com este "Luz em Agosto" que conta a vida várias personagens de terras diferentes do sudeste dos Estados Unidos que se cruzam na cidade de Jefferson (fictícia), estado do Mississipi, num momento fulcral e de grande tensão para as mesmas, um local marcada pelo ódio racial, o radicalismo religioso conservador e as feridas resultantes da derrota do sul esclavagista perante o norte abolicionista e liberal.
Lena, uma adolescente, grávida e solteira parte do Alabama em busca do pai do seu filho chegando a Jefferson num dia de um incêndio de uma casa debruçada sobre a cidade. Joe é um irresponsável pouco inteligente que parte secretamente da sua relação clandestina e vai trabalhar para uma serração em Jefferson e é acolhido pelo colega de trabalho Natal (Christmas). Este por sua vez é um órfão fugido de uma família adotiva ultraconservadora que não consegue suportar a sua suspeita de ter sangue negro, vive numa cabana de uma solteirona descendente de uma família do norte, abolicionista, com um passado marcante, dona duma moradia sobranceira à cidade, ambos estabelecem uma relação amorosa secreta que acaba em crime e incêndio. Byron, de meia-idade, é um pacato trabalhador da mesma serração que acolhe a grávida, apercebe-se da sua situação de mãe solteira,algo não aceitável na comunidade, apercebe-se de quem é o pai e intimamente apaixona-se. Hightower é um ex-pregador metodista cuja admiração pelo avô morto na guerra civil é o cerne da sua divulgação da apostólica em detrimento dos temas da fé o que  associado a um escândalo com a sua mulher o leva à excomunhão, só que se torna no elo entre toda esta gente, apesar do seu conflito entre fé, dever, memória e descrença. Tudo isto atinge o climax no momento do assassínio da solteirona com a fuga de Natal, a perseguição, o parto, o encontro da parturiente com o pai e a sua irresponsabilidade numa cidade onde ódio racial e religião impedem o bom-senso.
Um retrato da América profunda, complexada e disfuncional no período entre as duas grandes guerras, cheia de feridas históricas.
Faulkner tem uma escrita própria, com um estilo literário complexo denominado fluxo de consciência que marcou o modernismo no após a 1.ª grande guerra, onde sequencialmente, temos narrativa da estória, pensamentos das personagens, reflexões do autor, diálogos, saltos no tempo e comentários numa cadeia de parágrafos longos que exigem concentração por na mesma frase sujeitos, predicados e factos estarem cruzados subtilmente ou muito distantes, parecendo que houve um lapso gramatical mas depois o leitor compreende a lógica da sintaxe.
Apesar de não ser sempre fácil, a escrita de Faulkner está cheia de beleza com metáforas originais, reflexões e personagens complexos e cheios de conflitos internos, mas obriga a um esforço do leitor por autor dispersar momentos e focos distintos no encadeado da narrativa que só muito mais tarde se cruzam, se completam e se tornam compreensíveis como a montagem de um quebra-cabeças.
Poucas personagens na literatura são tão densas e profundas como algumas das de Faulkner, Natal é uma do expoente máximo desta criatividade. Chega a ser suicida ao completar-se como um branco racista, orgulhoso e supremacista junto com a sua luta na vontade de alimentar a suspeita do seu sangue negro que o revolta e o obriga a vingar-se das humilhações de raça inferiorizada e a lutar pelo reconhecimento do direito à sua liberdade e igual dignidade. Outras personagens neste romance atingem níveis quase tão elevados como o dele neste conflito interno que os divide, une e os completa.
Confesso, gosto muito desta luta dentro da beleza do texto que está cheio de imagens parciais refletidas como por uma bola de espelhos, onde os retratos montados por Faulkner compõem um quadro final excelentemente estruturado com uma mirídade de peças que pareciam desencaixadas, mesmo que às vezes me irrite com as cambalhotas e desvios que sou forçado a dar ao longo da narrativa.
Um grande escritor, um génio e um expoente máximo da literatura que ao ser galardoado com o Nobel, reforça a credibilidade deste prémio e o honra por o ter reconhecido e premiado. 

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

"Babbitt" de Sinclair Lewis

Excertos
"A extraordinária, crescente e salutar estandardização das lojas, escritórios, ruas, hotéis, roupas e jornais através de todos os Estados Unidos mostra como o nosso modelo  de vida é forte e duradoiro."

"O cerne da sua religião era que era respeitável e benéfico para os negócios ser visto a frequentar a igreja; que a igreja impedia os elementos maus de se tornarem ainda piores..."

Terminei a leitura de "Babbitt" do norteamericano Sinclair Lewis, o primeiro escritor deste país a receber o prémio Nobel da literatura. Tanto a capa da imagem como a tradução não correspondem à da edição que li, pois o livro que comprei obtive-o num daqueles vendedores de obras usadas comuns em estações de transportes públicos em Lisboa e deduzo que o exemplar deve ter acompanhado uma coleção associada a um jornal ou revista com autorização da já extinta Difel.
Babbit é um agente imobiliário de sucesso, vive bem e acomodado à filosofia conservadora da ideologia capitalista dos EUA numa cidade imaginária (Zenith) de média dimensão, mas com problemas de choque de gerações em família devido a filhos mais progressistas e a uma mulher tradicional.
Babbit tem amigos e é membro das associações próximas do poder e neste meio envolve-se nos esquemas para os elementos pertencentes à classe dominante tirarem proveito das políticas públicas e opções estratégicas de gestão de Zenith. O seu grupo enfrenta a luta para erradicar a propagação de ideias mais igualitárias, reivindicações sindicais e teologias que defendam os mais fracos, ou seja, os considerados derrotados da sociedade por culpa prória, mas cujos sacrifícios e dificuldades servem de suporte aos senhores e seu bem-estar. Só que Babbit no seu coração tem ideais de justiça, simpatias por questões sociais e anseia por alguns prazeres, tentações que a seguir a sua vontade poderá ter de pagar muito caro face à pressão do meio que o cerca.
O romance tem uma evolução quase linear do dia a dia de Babbit e com isso faz um retrato, com um humor sarcástico e frio, do egoísmo e oportunismo da classe capitalista e dos empresários em ascensão na década de 1920 durante a lei seca. Insinua as estratégias dos dominadores para preservarem o seu comodismo, enriquecerem e esmagarem os argumentos de esquerda. Não se esquece de criticar as numerosas religiões criadas à medida dos interesses de grupo que proliferam no País e ainda é mordaz com as preocupações da moral puritana de então. É uma obra marcadamente de esquerda e agnóstica, embora estes dois mundos sejam denunciados pela hipocrisia dos ricos bem comportados, oportunamente "crentes" e de direita.
A escrita sem grandes artifícios de embelezamento é realista e ombreia com o tom de crítica irónica da sociedade que o autor quis retratar através dos ziguezagues, anseios e receios de Babbit e o romance vale sobretudo por essa caracterização e mordacidade das desumanidades do regime típico dos EUA. Um romance de fácil leitura que surpreende até à última página.

domingo, 7 de outubro de 2018

"Mr. Vertigo" de Paul Auster


Citação
"temos de encarar o nosso talento como um instrumento elástico que deveremos puxar tanto quanto possível."

Voltei novamente ao escritor norteamericano Paul Auster, agora com Mr. Vertigo, que à semelhança do anterior, é de novo uma obra biográfica, mas desta vez narrada na primeira pessoa.
Walt Rawley conta a sua vida desde o momento em que miúdo de rua, órfão em Saint Louis e fã da equipa de basebol Cardinals é retirado da cidade pelo Mestre com a promessa de o fazer voar e informado-o da aceitação dos violentos tios que o acolhiam por obrigação sem amor. Após um treino cheio de trabalho e tarefas duríssimas num ermo na companhia de um jovem negro, de uma índia velha, do treinador e da mulher amada por este, Walt descobre que de facto tem o dom da levitação e começa o seu voo pelos EUA sob a direção artística do seu formador.
Uma ascensão meteórica que é interrompida pelo invejoso tio, pela vingança que a natureza exerce aos dotados desta capacidade e a morte do Mestre. Assim, no auge, vê-se ainda jovem de novo só num país onde o sexo, o submundo dos vícios e a paixão do basebol o dominam e levam-no à vertigem da queda (vértigo) de forma imparável, até conseguir uma fuga, reabilitar-se, ter uma vida adulta quase normal com a memória de um passado glorioso e uma velhice perto de alguém que ele admirara.
Com uma componente inicial de maravilhoso, nesta biografia vislumbram-se os males da América profunda: racismo, jogo, sexo, capitalismo bolsista e outros problemas que a vida do Rapaz Prodígio e depois Mr. Vertigo atravessaram ao longo de quase 8 décadas de história. Escrito como memória do protagonista, com reflexões e introspeções ao estilo de Auster, é uma obra que dá a conhecer os Estados Unidos do século XX e a dificuldade de se vencer neste país duro cheio de armadilhas e onde é mais fácil qualquer um tropeçar do que voar...

terça-feira, 18 de setembro de 2018

"Artigo 22" ou "CATCH-22" de Joseph Heller


Excertos
"- Eles tentam matar-me - afirmou Yossarian, calmamente.
- Ninguém tenta matar-te!
- Então, porque fazem fogo sobre mim?
- Fazem fogo sobre todos. Querem matar toda a gente.
- Não vejo onde está a diferença."

"Não fui eu que provoquei esta guerra, por muito que o imundo Wintergreen diga o contrário. Procuro apenas reduzi-la a um clima de negócios. Que há de errado nisso?"

"Artigo 22", no Brasil "Ardil 22" e no original "Catch-22", do norte-americano Joseph Heller, é considerado um dos mais importantes romances do século XX nos EUA e é uma paródia do princípio ao fim sobre o absurdo da guerra, os proveitos económicos e os interesses de pessoas ligadas ao meio militar, incluindo as suas altas patentes.
A estória passa-se numa base aérea na pequena ilha italiana de Pianosa, junto à Toscânia, durante a segunda grande guerra. Centrada numa esquadrilha de oficiais após o início da invasão pelos aliados da Itália e ao longo da reconquista da península a Mussolini e a Hítler. Yossarian, comandante de bombardeiro, após dezenas de operações começa a ter medo de morrer ao ver a agressividade da luta anti-aérea alemã e após atingir o número de operações a que estava obrigado quer regressar aos Estados Unidos, só que o Coronel e líder da base vai sempre subindo o número de operações de forma que Yossarian nunca consegue atingir o limite, entretanto, ele vai implementando estratégias de doença, de loucura e desentendimentos para conseguir o seu objetivo. Enquanto isso, vamos conhecendo as guerrilhas entre as chefias para ascenderem de posto vitimizando os inferiores, os esquemas de negócios das messes e o mercado negro, a prostituição em torno de tantos homens sós, algumas baixas inglórias, problemas de consciência do médico e do capelão e, sobretudo, os sonhos de projeção na comunicação social de altas patentes para subir de posto, capazes de imaginar o absurdo para serem heróis de notícias, além do ardil que consta no artigo 22 tantas vezes invocado, que nunca se conhece na íntegra, para que tudo se mantenha tão mal como está. São largas dezenas de oficiais que se veem emaranhados nesta teia parodiada onde nada tem saída nem lógica.
O romance desenvolve-se com toda a amargura do absurdo kafkiano, só que numa narrativa onde todo o mal e medo é dissecado pelo ridículo humorístico das situações parodiadas, tecendo-se uma teia de onde nada tem saída para continuar tudo estranhamente na mesma, é o ardil de onde nada tem solução no sistema montado é a guerra como meio de sobrevivência de alguns. Divertido, mesmo em momentos tristes o que pode chocar alguns, mas é por esse gozo que gostei do romance.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"Um Gentleman em Mocovo" de Amor Towles


O romance "Um Gentleman em Moscovo", do norteamericano Amor Towles, apesar de ser uma obra contemporânea, é um dos melhores exemplos do que é a delicadeza e a graciosidade colocada em ficção para transformar um livro numa joia de entretenimento com alguma informação histórica  intercalada quanto baste para não perder a sua essência de leveza literária e agradar ao leitor que não deseja aventurar-se para além de um lazer leve com charme e humor inteligente.
O Conde Aleksandr Rostov, descendente de uma das famílias da melhor nobreza da Rússia czarista, na sequência da revolução bolchevique é levado a julgamento pelo seu passado aristocrático, todavia um poema de 1913, de quem é reconhecido como autor e com um elogio à causa comunista, livra-o da pena de morte, ficando apenas limitado a prisão-perpétua domiciliária no hotel mais luxuoso de Moscovo, o Metropol, no qual era hóspede residente. Assim, é despromovido para os alojamentos dos antigos criados dos clientes e recomeça a sua vida.
Se antes fora um cavalheiro de hábitos requintados, um exemplo de aplicar a melhor etiqueta social da Europa e conviveu com a sociedade mais nobre do Velho Continente, lentamente o Conde adaptar-se-á à nova realidade, aproveitando o que de melhor pode usufruir no seu hotel descobrindo recantos antes vedado a ele como hóspede, deste modo vai cativando amizades nos empregados, estabelece contacto com hóspedes pela sua habilidade diplomática e cultura, inclusive ensina regras a personalidades do novo regime e assim sobrevive ao longo de décadas, onde se vai descobrindo certas mudanças no país, alguns pormenores absurdos do regime e inclusive desenvolve amizades, uma relação amorosa e até consegue educar uma criança.
Com uma escrita que procura conciliar a delicadeza do estrato aristocrático e típica do estilo anglo-saxónico, conciliada com uma ironia subtil que permite criticar muitos aspetos da União Soviética sem ofender ideologicamente o leitor e sem sobranceria para com a pátria e cultura russa, o Conde Rostov, como gentleman, consegue uma vida de charme e luxo numa sociedade onde os problemas eram transversais à maioria da população, mas sem deixar de ser um prisioneiro político exilado na sua pátria que ama. Uma leitura leve, cheia de bom-humor, boa-disposição e agradável mas inteligente bastante diferente da maioria da literatura contemporanea.


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

GONE, BABY, GONE de Dennis Lehane

Excerto
"Perguntei-me porque teria sido permitido a uma criança de oito anos viver nesta terra apenas o tempo suficiente para sofrer tudo o que de horrível nela existe."

Apesar de o título "Gone,Baby, Gone" não estar traduzido, é uma obra transposta para Português do norteamericano Dennis Lehane, que corresponde a uma letra de uma canção mencionada no romance. O livro de ficção que talvez mais me fez sofrer e partir-me o coração desde há muito tempo. Contudo Lehane é de facto um escritor que mexe com o leitor rebuscando o mais negro que existe na sociedade, tendo por norma o cenário da grande Boston como acontece neste e noutros livro como Mistic River já falado neste blogue.
Na sequência do desaparecimento de uma criança de 4 anos, na região de Boston e filha de uma mãe nada exemplar, um casal de detetives privados são contratados para entrar na busca, depois de integrados na equipa da polícia local de crimes contra crianças, com o tempo verifica-se que o caso pode estar associado a redes muito mais marginais de tráfico de drogas, cartéis, conluio entre polícias e traficantes e vinganças entre grupos, até que um segundo desaparecimento cruza o caso com redes bem mais negras de prostituição e pedofilia onde a partir de um momento já nem se sabe quem foge à lei, quem se serve desta para fazer o mal e quem coopera entre gangues, polícias e quem está inocente neste confronto.
Não é um livro frequentemente violento, mas tem algumas cenas com foras da lei muito intensas e numa delas deduz-se de uma forma especialmente dura as atrocidades que a escória humana pode infligir a uma criança. Dói, repugna mesmo que colocado em obra para nos fazer refletir sobre estes problemas que a sociedade enferma e os defeitos da lei cujo cumprimento remete o futuro de crianças para meios sem amor e as arranca de onde poderiam ser felizes, tudo isto sob a espreita da escória que a humanidade consegue criar.
A narrativa não se limita aos clichés do romance de polícias e bandidos, entra na reflexão dos problemas e tem preocupações literárias estilísticas, embora esta seja realista sem floreados estranhos a um meio duro da sociedade. Na obra há gente boa, gente que aparente ser boa, gente má e escória que não deveria ter tido possibilidade de nascer pelo mal que semeia, mas o que mexe com o leitor e o sacode é ver gente que procura vias erradas para corrigir o mal, sujando-se enquanto a reposição da lei é capaz de sujar o que de melhor temos: crianças inocentes. Uma obra de ação que o leitor tem de estar alerta pelo que pode nela encontrar.

sábado, 28 de julho de 2018

"Leviathan" de Paul Auster


Excertos
"... o terrorismo tinha o seu lugar no combate geral. Se usado correctamente, poderia transformar-se num instrumento eficaz para fazer ressaltar as questões em jogo, para elucidar o público acerca da natureza do poder institucional."

"Algumas histórias são demasiado terríveis ... e só há uma maneira de as deixarmos entrar dentro de nós: fugindo-lhes, virando as costas, procurando furtivamente a escuridão."

Já havia longos anos que não lia o americano Paul Auster e regressei com um romance de 1992 "Leviathan", onde se saboreia aquele estilo em que a narrativa vai fluindo na companhia de reflexões contínuas sobre o que vai sendo contado, calmamente, apesar da pressa que o narrador diz ter em acabar a estória antes que seja a polícia a decifrar o enigma, mas esta progride devagar, como se ele tivesse todo o tempo do mundo.
O livro arranca com a notícia de um bombista que morre no Wisconsin ao montar uma bomba artesanal, o que leva Peter, escritor em Nova Iorque, a acreditar que se trata do seu amigo Benjamin Sachs. Decide então narrar como o conheceu e como cresceu a sua amizade e admiração por aquele também dotado de grande potencial para ser um ótimo escritor. O que sabe ele da sua infância, como via o seu casamento, como ele se relacionava com os outros e a sua mulher, o acidente porque passou, até que uma sequência abrupta de acontecimentos terríveis em série o tornaram num bombista que queria despertar consciências na América, mas com o cuidado de não semear terror e de não causar mortes.
Nesta narrativa, bem anterior ao 11 de setembro, a reflexão vai acompanhado a exposição, quase todas as informações vão sendo minadas pela dúvida de Peter, o que permite juntar a sua reflexão e interpretação dos factos narrados, lançado o seu significado numa sucessão de ondas que alimentam toda a maré de acontecimentos.
Gostei e muito e fiquei com vontade de regressar em breve a Auster, com este ritmo suave de análise psicológica e social que vai complementando a narrativa que flui como um rio numa planície até chegar à sua foz.

sábado, 2 de junho de 2018

"Moby-Dick" de Herman Melville


Excertos
Não quero no meu bote homem que não tenha medo da baleia.» ... a coragem mais consistente e mais proveitosa é aquela que nasce da justa avaliação do perigo diante do qual se está, ... um homem totalmente desprovido de medo é um camarada mais perigoso que um cobarde."


"... olhemos para esta portentosa mandíbula inferior, que se assemelha à tampa estreita e comprida de uma imensa caixa de rapé, com a dobradiça numa extremidade em vez de num dos lados. Se a abrirmos de modo a erguê-la e a exibir a sua fileira de dentes, parece uma terrífica ponte levadiça, e ai, é exactamente o que ela é na pesca para tantas desgraçadas criaturas..."

Compreendo! Não é a primeira vez que acontece. A trovoada da noite passada virou a bússola do avesso, Sr. Starbuck... mais nada. Presumo que já ouviste falar de um fenómeno destes.» ... uma vez aniquilada a sua qualidade de íman, a agulha antes magnética fica reduzida à inutilidade da agulha de tricotar de uma dona de casa..."

Este grande clássico da literatura do século XIX: Moby-Dick, do americano Herman Melville, é muito mais que a narrativa de uma viagem contada pelo marinheiro Ismael num navio baleeiro sob as ordens do capitão Ahab com a ideia-fixa de matar o cachalote albino que num acidente anterior lhe amputara a perna e a descrição da faina ali desenrolada. Este livro é também um enorme tratado, escrito de forma literária, da atividade da baleação e do conhecimento técnico, por vezes científico em meados do século XIX sobre os cetáceos e a vida dos baleeiros.
Apenas o primeiro quarto do livro e umas dezenas das páginas finais da obra, de um volume com mais de 600, são essencialmente de narrativa ficcionada, na inicial ficamos conhecer os antecedentes do narrador Ismael que o levaram ao navio Pequod, relatados com grande humor, e na última conta-se o confronto do capitão Ahab e da tripulação com Moby-Dick. Os dois terços centrais da obra são relatos de acontecimentos da viagem que servem de ponte à descrição da atividade e cultura baleeira e a caracterização dos cetáceos.
Tão importante são os aspetos descritivos e técnicos da baleação e cetáceos que muitos capítulos quase não importam para a ficção, são como "fichas" das múltiplas atividades desenvolvidas numa baleeira em viagem: a explicação das funções específicas dos diferentes membros da tripulação, das profissões a bordo e a estrutura de comando; a descrição em pormenor dos utensílios e do seu manuseio, sem esquecer as variabilidades entre comunidades baleeiras repartidas por vários locais da Terra, sobretudo no ocidente; a classificação científica das várias espécies de cetáceos baseada na anatomia externa e, por vezes, órgãos internos e ainda do potencial comercial de distintos tipos de cetáceos e descrição dos produtos obtidos; a exposição de todas as tarefas no ato da caça ao cachalote e transformação deste em alto-mar, sendo a embarcação um navio-fábrica com ferreiros, carpinteiros e outras profissões; os relatos das tradições, superstições e lendas que envolvem a baleação; e ainda e regras de cortesia, diplomacia e códigos de ética dos navios desta faina. Cria-se assim um quadro global de toda a cultura relacionada com esta atividade no mar e das comunidades portuárias associadas por volta de 1850.
A tentativa de descrever tecnicamente e numa linguagem com estilo literário de ficção e cheia de simbolismos, todo o saber dos cetáceos, numa época ainda radicada em muitas incertezas, leva a que por vezes não só se sinta a desatualização da exposição, dando-lhe um cariz que parece ridículo, como a inclusão dos cetáceos  nos peixes e não nos mamíferos, e a forte influência religiosa com numerosas referências ao antigo testamento na perspetiva das religiões protestantes mais radicais anglo-saxónicas, sendo o cachalote também designado por Leviatã e com frequência enquadrado em histórias bíblicas ou da hagiografia cristã, além de personagens e cenas simbólicas, dá um tom conservador e místico à obra numa estranha mistura de figuras de estilo e descrições mecânicas semelhante a tratados científicos medievais, onde o misticismo baralha as observações empíricas.
Por sua vez, as várias dezenas de "fichas" para os diferentes tópicos, o seu grande pormenor descritivo feitas neste estilo místico-científico e alheias à trama tornam a leitura do livro muitas vezes fastidiosa pelo enorme manancial de informação, as um bom documento para historiadores da baleação.
A escrita tem a marca da genialidade estilística do autor e é típica do século XIX, um misto de exposição jornalística cheia de metáforas literárias e opiniões do narrador, é o afinco de Melville incluir todo o universo da baleação neste romance que torna exasperante ler tanta informação sem importar para a trama, mas o escritor nunca secundariza o simbolismo  e misticismo em Moby-Dick.
Confesso, que dada a importância da baleação no Faial e Pico, ter conhecido baleeiros e ao descobrir-me bisneto de alguém que tinha convivido no século XIX com a baleação na Nova Inglaterra despertou-me interesse pela temática, caso contrário teria sido ainda mais difícil acompanhar tanto pormenor, apesar de se estar perante uma obra-prima e marcante da literatura mundial.
Eis uma grande obra literária que não se limitou a ser um romance, mas sim um compêndio completo do saber de então da arte e da atividade da baleação, o que torna esta obra difícil para muitos leitores devido à minúcia com que este assunto é exposto no seio da ficção, o que exige uma dose significativa de resistência para continuar a leitura até ao fim se a temática não interessar.

terça-feira, 1 de maio de 2018

"Pão com Fiambre" de Charles Bukowski


Excertos
"A primeira criança da minha idade que conheci foi no jardim de infância. Eram todos muito estranhos, riam e falavam e pareciam felizes. Não gostava deles."
"O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém  chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas."
"..., aprendi que os pobres serão sempre pobres. Que os ricos quando lhes cheira a pobre ainda se divertem com isso."
Acabei de me estrear no escritor que classifico de contracultura: Charles Bukowski, através do seu romance, tido como autobiográfico, "Pão com Fiambre", no Brasil "Misto Quente" e no original "Ham on Rye", onde se narra a infância e juventude do seu alter-ergo que surge em vários das suas obras, a personagem Henry Chinaski.
Henry, nascido na Alemanha nos anos 1920 cresce desde muito criança num bairro pobre de Los Angeles, com um pai autoritário, violento e incompreensivo das necessidades do filho, que impede até a sua integração social, e uma mãe submissa. A crise financeira arrasa a comunidade com desemprego e miséria. Na escola reinam os maus resultados de estudos, o ambiente é de guerra dos fortes e Chinaki sente-se rejeitado. Mesmo assim, luta para sobreviver, tentando tornar-se forte e vencer nesta luta diária.
Na adolescência um acne descomunal afasta-o das mulheres e da escola, tem uma sexualidade frustrada e terá a descoberta do gosto por escrever, mas o álcool e a violência juvenil continua a marcar o seu dia a dia. Ingressa na Universidade por falta de outras alternativas... sai de casa quando o pais espia os seus escritos duros que não poupam ninguém. Esta também foi, na generalidade, a vida de Bukowski antes do sucesso que mais tarde alcançou num género muito próprio.
O segundo excerto acima é também a característica geral da escrita do livro, com um humor ácido e delinquente, por vezes com recurso ao calão e à brejeirice grosseira, típica de meninos de rua e famílias disfuncionais. Ao contrário de Kerouac, não há drogas além do álcool e tabaco.
Apesar de amargo, gostei, não deixa de ser uma obra que dá conhecimento de uma realidade difícil e violenta de muitos estratos desfavorecidos da população urbana, exposta de uma forma crua, dura, por vezes grosseira, mas numa feita de uma forma divertida.

domingo, 1 de abril de 2018

"A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead


Excertos
"Saíra da escravidão ou fora apanhada na teia desta: como descrever a situação de um fugitivo?"
"Os brancos punidos segundo a nova legislação eram simplesmente enforcados, mas não ficavam em exposição.... Quando vasculharam as cinzas da casa, não conseguiram distinguir o seu corpo do daqueles que protegera, porque o fogo apagara as diferenças de pele e tornara-os todos iguais. Assim penduraram os cinco corpos no trilho e ninguém reclamou pelo facto de o protocolo não ter sido respeitado."
"O mundo pode ser mau, mas as pessoas não têm de o ser, pelo menos se recusarem tal sina."

Por norma evito livros de ficção sobre a temática da escravatura nas Américas e do genocídio nazi, não para ignorar tais factos ignominiosos da história, mas sim por que sinto que mais do que sarar feridas de erros do passado, abrem mais vezes ódios raciais e servem de desculpa a erros do presente. O recente mui premiado romance "A Estrada Subterrânea" de Colson Whitehead, incluindo o National Book Award de 2016, aborda a escravatura, mas é, sobretudo, a narrativa da fuga de uma escrava do sul esclavagista dos Estados Unidos, a Geórgia, até ao norte, onde tal situação já então terminara no século XIX.
Cora, a protagonista, na sua viagem - onde o fantástico está presente em vários momentos do livro, como a estrada subterrânea que mais não é do que uma ferrovia escavada para apoio à libertação ou os médicos cientistas que usarão medidas de controlo de natalidade com técnicas sem ética, mas típicas de épocas mais tardias - passará por vários Estados: Carolina do Sul, do Norte, Tennessee e Indiana, e em cada um deles encontrará uma realidade diferente. Haverá sempre alguém a ajudar, por vezes com objetivos ocultos, mas o ódio da supremacia branca ou o medo do domínio preto acabará sempre por vencer e levar a situações de perseguição. Paralelamente, seremos apresentados à realidade em torno das personagens da sua raiz, daqueles que lhe deram a mão ou que a perseguiram e assim se vai retratando todo o mundo social que oprimia, mantinha ou lutava contra a escravatura naquela primeira metade do século XIX.
Pela tradução, nada a destacar da escrita, banal. A obra não sara feridas, mas também não abre, lê-se bem, por vezes é agradável, noutros choca, mas a esperança praticamente está sempre a iluminar a obra e o amor pela leitura é um dos aspetos mais positivos do livro e é uma maneira menos comum de tratar o tema escravatura.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

"Piada Infinita" de David Foster Wallace


Penso que este livro "Piada Infinita", no Brasil "Graça Infinita", do americano David Foster Wallace, foi o  desafio mais difícil de leitura de um romance que enfrentei até hoje e, apesar de tanta dificuldade, gostei de o ler.
Não é tarefa fácil descrever este calhamaço de estilo pós-moderno tendo em conta a complexidade do seu conteúdo, numerosos personagens e quantidade de situações, com a inclusão de informações técnico-científicas enciclopédicas misturadas com paródia, narrativas deprimentes, violentas, sarcásticas e irónicas com uma subtil crítica política e social subjacente, tudo isto narrado num futuro próximo, mas em parte em continuidade com o presente e ainda com uma escrita complexa, por vezes com fluxo de consciência em parágrafos que se arrastam por várias folhas sem ponto final, expostos numa letra miudinha com centenas de notas do autor no final do livro em letra ainda menor e ainda com sub-notas às mesmas num cartapácio com cerca de 1200 páginas. Uuf!!
Contudo, vou tentar resumir este montão de texto.
Num futuro próximo e por questões de interesse estratégico dos Estados Unidos da América (EUA), este forma uma confederação com o Canadá e o México a ONAM (Organization of North America Nations); problemas ambientais graves obrigam ao despovoamento de grande parte do nordeste dos EUA e do sul do Quebec tornando-se esta região num local de depósito de lixos perigosos de grande parte do continente e onde a poluição cria mutações genéticas nos animais geradoras de mitos de monstros. Os quebequenes criam um grupo terrorista separatista da ONAM com heróis que passaram num teste de resistência num jogo de saltar diante de trens em andamento, onde muitos dos sobreviventes ficam mutilados e por isso estão numa Associação de Cadeiras de Rodas (AFR); enquanto isto, os norte-americanos se deixam levar por uma vida de entretenimento e prazer como supremo desejo e ideal, isto é divulgado e promovido pelas novas redes de computadores e de suporte digital e a força do capitalismo cria um calendário oficial baseado num vencedor anual de subsidio à ONAM.
Nesta realidade estranha, um cidadão com um passado complicado funda uma escola de ténis de elite em Boston, de onde os seus estudantes originam muitas personagens tal como a família fundadora de origem mista quebequense e americana. Junto à escola situa-se um centro de reabilitação de toxicodependentes e alcoólicos que constitui outro grupo de personagens e entre ambos circulam estupefacientes em abundância na busca de prazer, enquanto o fundador da escola se tornou num realizador de filmes de culto e criou a obra perfeita para  o prazer "Piada Infinita" que quem vê fica de tal forma extasiado que se torna inválido para outra tarefa humana e para sempre dependente do seu visionamento, enquanto o autor se suicida com uma técnica rebuscada. Entretanto esta fita parece passar a ser distribuída pelos separatistas da AFR como forma de derrotar os EUA e a sua agência de inteligência, com agentes que são uma caricatura hollywoodesca, passam a procurar o filme entre terroristas, toxicodependentes, agentes duplos, triplos, travestis, líderes mafiosos, estudantes, gente de dupla nacionalidade, estropiados por razões várias, etc. Entretanto, há esta amálgama, que mostra uma grande diversidade dos excluídos nos EUA, no mundo da escola disserta-se sobre o ténis e os adolescentes desenvolvem jogos de guerra com recurso às novas tecnologias como estratégia de amadurecer a veia desportista, enquanto ao lado, os alcoólicos anónimos falam sobre reabilitação com memórias e descrições das alucinações efeitos de drogas e do seu submundo, técnicas do seu manuseio e sua produção farmacêutica, tecendo-se uma teia difícil de desatar que cruza, em parte, os dois mundos e uma estória policial louca.
A escrita é tão diversificada quanto as personagens. Há diálogos alucinados com influência do inglês e francês canadiano parodiado, tal como abuso dos estereótipos dos dois povos aqui vivendo no seio da região universitária do MIT, mas onde se concentram os emigrantes portugueses e brasileiros na área de Boston, que também não são poupados. Num repente passa-se a dissertações técnicas sobre drogas e suas sensações e parágrafos densos e extensos com mudanças bruscas no seu interior de momento, lugar e situações. Surgem erros ortográficos, neologismos e pormenores intrincados de ciência com cultura enciclopédica que geram uma paródia que, por vezes, é deprimente, noutras com gírias das classes excluídas da sociedade e descrições deste submundo e com recurso ao calão, descrições fisiológicas degradantes, sarcasmo e ironia que até pode ser ofensivo e aterrorizante.
Foi uma luta para não me perder nesta loucura onde os devaneios dos alucinogénios convivem com a erudição e as culturas dos excluídos, por vezes de modo repetitivo e extenso, pelo que me admira concluir com o seguinte: o livro cativou-me durante um mês e gostei, pois diverti-me imenso.
Apesar de cativado, só o recomendo a quem estiver disposto a um desafio forte e capaz de aceitar que a arte brinque com a crueza de alguns aspetos degradantes da vida e seja capaz de pensar na crítica indireta sobre o caminho que uma sociedade sem valores nos pode levar e não se escandalize com pormenores que satirizam o catolicismo como forma de atingir as religiões, mas que também tem exemplos que uma ternura profunda, capazes de comover os corações empedernidos.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Lincoln no Bardo de George Saunders


Sabia que o vencedor do Booker Prize 2017 seria um livro diferente de todos os que já lera e foi a curiosidade que me levou a arriscar a ler "Lincoln no Bardo" de George Saunders, norteamericano, e neste aspeto, após a leitura, assumo a originalidade da estória e da escrita do romance que em nada se assemelha a nenhum outro. Assim, não admira que no início tenha estranhado, mas ao contrário do que por vezes acontece ao continuar a ler, aqui não "entranhei".
A estória arranca com a morte de Willliam (personagem histórica) filho do Presidente Lincoln após este, perante a enfermidade da criança, manter o baile na casa branca por o considerar importante para animar a comunidade da cidade, tensa com a guerra civil que os Estados Unidos então atravessam. Segue-se o funeral e a receção da criança na comunidade dos que já abandonaram esta vida mas resistem em permanecer no cemitério, onde vamos conhecendo o que os mais marcou individualmente enquanto estiveram na terra. Atordoado, William não reconhece a situação em que está, é visitado pelo pai durante a noite, depois há uma luta dos anjos do mal para conquistar os resistentes e o recém-chegado, este não cede ancorado na promessa da volta do Presidente. Assiste-se assim a s estratégias de solidariedade das almas, enquanto vamos descobrindo todos os seus vícios e defeitos privados do passado de que ainda não se libertaram. Assim, durante uma noite, vê-se o esforço coletivo para fazer o bem a alguém recém-chegado por parte de gente que se sabe estar condenada pelo que antes fizera, nalguns casos condutas bastante chocantes, tentando inclusive agir sobre o visitante vivo de forma metafísica.
Passando agora à escrita, novamente se entra numa texto diferente de tudo o que já li, o período respeitante à vida dos Lincoln desde a doença, baile, morte de William e sentimentos do Pai são narradas como uma coletânea de testemunhos, por norma de um parágrafo, cujos autores são referenciados ou como excertos de notícias ou livros de memórias novamente com a origem identificada (mesmo que fictícia), enquanto no além temos como que um texto dramático onde os atores vão referindo as suas partes e construindo uma peça que se assemelha a uma representação macabra cujos intervenientes têm de se recolher ao seu sarcófago com o nascer do sol e  onde cada personagem ou testemunho tem características sintáticas, lexicais e níveis da pessoa em si, o que dá uma mistura de estilos e formas de expressão variada, desde o formal até ao brejeiro, afinal na sociedade tudo isso coexiste como no livro e apesar de mais de 300 páginas a leitura é rápida pelo espaço livre entre textos para teatro.  O livro intercala por vezes capítulos referentes ao período em casa dos Lincoln com outros passados no sobrenatural, montando-se assim o conjunto da obra.
Técnica e imaginação não faltam no romance, se gostei? A minha resposta é não!
Há pontos incoerentes, o autor quis mostrar a ligação de cada um aos seus vícios e hábitos que nem no além se conseguem libertar, não sei se quis condenar indiretamente alguns comportamentos que hoje são aceites ao contrário do passado, além de mostrar a dor íntima de um pai que luta com o dever público e a discrição privada, mas que a obra dá lugar a muitas questões, lá isso permite, como exercício de escrita é uma jóia e talvez seja isso que justifica tão importante prémio.

sábado, 16 de dezembro de 2017

"Homer & Langley" de E. L. Doctorow


O romance "Homer & Langley", do escritor americano E. L. Doctorow, ficciona a vida dos dois personagens reais, os irmãos Collyer cujos nomes dão o título à obra. Estes nascidos na década de 1880, filhos de um casal de classe média alta noviorquina que após a morte dos pais e da cegueira de Homer, já no século XX, foram progressivamente se isolando do exterior e recolhendo-se na sua luxuosa vivenda na 5.ª Avenida de Nova Iorque à custa da confortável herança, tal aconteceu não só por quezílias destes com as autoridades e vizinhos, mas, sobretudo, por Langley com traumas vindos da 1.ª Grande Guerra Mundial ter passado a sofrer de uma desordem psicológica de acumulação compulsiva que o levava a trazer para casa um grande número de bugigangas e todos os jornais publicados na cidade enquanto cuidava do seu irmão que fora pianista de cinema mudo.
O escritor imagina a vida destes dois irmãos narrado pelo cego Homer, sobretudo o quotidiano dentro de casa e as obsessões de Langley. Todavia Doctorow extravasa em muito a vida dos irmãos, uma vez que morreram vítimas da sua situação em 1947, enquanto na obra a sua vida estende-se até à década de 1980, servindo assim de meio para contar o evoluir da sociedade, da tecnologia e a sucessão dos grandes acontecimentos locais e mundiais, até o aparecimento de movimentos juvenis ao longo de quase um século de história dos Estados Unidos.
A biografia ficcionada é contada sempre na primeira pessoa na perspetiva de Homer, incluindo as suas paixões e interpretações do que assistia, até às suas adaptações para compensar a cegueira, passando pela crítica subtil do evoluir da sociedade e ainda o impacte dos novos utensílios que só conhecia por descrição de terceiros e fins a que se destinavam.
A escrita é de uma grande elegância e beleza narrativa, mas sempre com um tom nostálgico de quem gostou de coisas agradáveis da vida, o que confere um enorme prazer de leitura a quem aprecia um bom texto bem escrito que relata 100 anos em apenas 172 páginas. Gostei muito.

domingo, 20 de agosto de 2017

"Terra Abençoada" de Pearl S. Buck



Acabei de ler "Terra Abençoada" de Pearl S. Buck, escritora norteamericana galardoada com prémio Nobel da literatura.
A estória passa-se na China no rural, distante dos grandes centros e deduz-se que deve ter início no final do século XIX e estende-se por várias décadas e embora se fale de uma revolução não é claro que seja a comunista, apesar de algumas das ideias emanadas por esta por vezes transpareçam na narrativa.
Wang Lung um pobre filho de um pequeno lavrador solicita ao pai que lhe arranje uma mulher, sem defeito, não bela e trabalhadora para o ajudar no seu sonho de se tornar proprietário de terras e lhe dar filhos. É-lhe então entregue uma escrava da casa senhorial mais importante da cidade próxima. Enquanto ele trabalha arduamente, compra terras, a companheira servilmente o ajuda e lhe dá filhos, tornando-se num pequeno caso de sucesso, mas vem uma seca e emigra só não volta a encontrar meios para melhorar-se, regressa com a família e vários acasos transformam-no num dos homens mais ricos da região e ele procura criar a sua dinastia alicerçada nos filhos homens numa sociedade onde as mulheres são vendidas e mais não são que meras reprodutoras, concubinas ou servas, por isso não admira que arranje outras nestas condições para sua casa e honrar o seu nome e assim o seu sucesso sempre ligado ao amor à terra e ao trabalho e em desprezo pelas mulheres serve para conhecermos a vida rural e a mentalidade daqueles tempos na China.
A narrativa é feita numa linguagem simples, fácil como de um relator que conhece os pensamentos das suas personagens mas não julga procedimentos, mesmo que choquem os ocidentais, a obra torna-se num primeiro volume de uma saga que noutros romances relatará a vida das gerações seguintes e foi um grande sucesso de vendas em meados do século XX. Gostei, não me fascinou a escrita, mas aprende-se muito do que era a China num passado pouco antes de se tornar na República atual.

terça-feira, 13 de junho de 2017

"As Regras da Casa da Sidra" de John Irving


O romance do norte-americano John Irving "As regras da Casa da Sidra" que acabei de ler, não sei se intencional ou não, apresenta um resumo, tanto no site onde comprei o livro, como no verso da capa deste, que se desvia em muito do cerne da questão principal levantada pela obra: o aborto pela livre escolha da mulher. Não importa se o leitor deste post é a favor da questão ou não, mas os vários episódios principais que marcam as personagens de um modo ou outro encaminham sempre o problema para esta questão ética.
Wilbur Larch jovem do Maine decide seguir medicina, na sua fase de viragem a adulto é-lhe ofertada pelo pai uma noite com uma acompanhante mais velha, depois conhece a filha, mais tarde já como médico e perante uma gravidez indesejada desta, ele recusa-se à interrupção, o que a conduz indiretamente à morte. Uma marca deixada pela mãe e o fim da filha levam-no a recolher-se num orfanato onde se torna no médico residente, viciado em éter, que estabelece uma rotina com os acolhidos e de onde dá plena liberdade às grávidas que ali se dirigem para estas criarem um novo órfão, a acolher na instituição para adoção, ou de evitar um filho indesejado. Uma prática então ilegal, este agir leva a que o estabelecimento seja visitado por muitas mulheres e entre os bebés que acolhe afeiçoa-se a um: Homer, cujas peripécias o impediram de ser adotado. Wilbur ensina-lhe a sua profissão e torna-o num obstreta dotado de prática exemplar, mas que recusa o papel de Deus na decisão de uma vida. Um casal jovem, bonito e rico vai ao orfanato e recebe o jovem de igual idade para a sua quinta de maçãs e sidra. Começa então uma relação amorosa a três que mistura admiração mútua, desejo, respeito e transgressões, com tempo este órfão torna-se central na empresa, mas à distância o médico velho prepara o seu sucessor e sabe que só o seu educando pode ocupar aquele local e monta uma estratégia para o seu trabalho continuar.
A obra está escrita por vezes de uma forma crua, com  tons científicos de práticas médicas, noutros está cheia de ternura, numa mostra de relações humanas onde se cruzam questões éticas e os instintos íntimos, redigido de uma forma elegante. Para mim a personagem principal da obra não é o protagonista Homer, mas sim quem o criou.
Sim, gostei muito do romance, que até no amor entre personagens principais cria situações incómodas para os princípios éticos de uma relação familiar, de amizade e amorosa, além de outras situações que perturbam o leitor, é sem dúvida um grande romance, inclusive no tamanho (750 páginas), bem escrito, com ironia e amargura temperada com questões de ética, carinho e paixão, que recomendo a quem o preconceito não se sobrepõe à questão ética que a obra aborda.

sábado, 3 de junho de 2017

Os dias de Charlie nas Western Islands


Fui ao lançamento de mais um livro editado pelo Núcleo Cultural da Horta que tem em cooperação com vários historiadores publicado um conjunto de obras sobre o passado do Faial e várias outras ilhas dos Açores.
Desta vez temos uma edição epistolar bilingue, português e com o textos originais em inglês na segunda parte, com várias imagens da Horta do século XIX. 
"Os dias de Charlie nas Western Islands" tem como subtítulo " As ilhas do Faial e Pico na visão de um turista americano a meados do século XIX" corresponde a uma coletânea de cartas de um jovem americano que saiu de Havard para combater na guerra civil da América, onde se feriu e desenvolveu febre tifóide, pelo que a família, de estrato social elevado de Boston, o mandou para a Horta a fim de se reabilitar fora dos rigores do inverno na Nova Inglaterra.
Durante a sua estada no Faial escreveu diversas cartas aos familiares, onde não só narra a sua visão da vida de então no Faial e Pico, como os seus contactos com algumas das pessoas de maior craveira intelectual e social da cidade de acolhimento, nomeadamente o clã do Cônsul Dabney e elementos Arriagas, de onde saiu poucas décadas depois o primeiro presidente da república eleito de Portugal.
Assim, num trabalho de Ricardo Madruga da Costa, Carlos Riley e Isabel Albergaria, mais um livro acessível a quem domina apenas o Português ou o Inglês com um retrato destas ilhas quando o cosmopolitismo internacional era uma marca fortíssima que marcava a cidade da Horta.
O livro pode ser adquirido diretamente no Núcleo Cultural da Horta, a funcionar na Biblioteca Pública João José da Graça, ou através da internet no site deste núcleo aqui 

sábado, 27 de maio de 2017

Elegia para um Americano - de Siri Hustvedt

Nunca ouvira falar de Siri Hustvedt, mas ao ver elogios ao seu romance: "Elegia para um Americano", por gente que reconheço como exigente e apreciadora de boa literatura, esta escritora, cujo nome não soa a americano (descende de imigrantes da Noruega) e mulher do famoso Paul Auster, despertou-me curiosidade suficiente para ler esta obra e deparei -me com uma boa e original obra literária.
Erik, um psiquiatra de Brooklin a sair de uma situação de divórcio, após a morte do pai, de origem norueguesa, numa pequena cidade no Minnesota, descobre junto com a irmã notas e um diário deste; papeis que servirão para o conhecer melhor e deparam-se com a existência de um segredo antigo que com sua irmã tentarão descobrir. No regresso à NY, Erik na sua solidão recente,  aluga um anexo a sua casa a uma mãe jamaicana por quem começa a sentir-se atraído, esta tem uma criança que se aproxima dele, mas todos ficam sob pressão do pai de sua filha um artista fotógrafo.
A partir deste início há uma série de textos e análises psicológicas (não há capítulos) que ora são transcrições do diário (em nota final descobre-se serem mesmo reais e pertencentes ao pai da escritora recentemente falecido); ora são reflexões e descrições de aproximação à hóspede e das ameaça do fotógrafo; ora narrativas de situações sobre a instabilidade emocional da irmã: viúva de um escritor famoso e alvo de pressão com a descoberta de uma passada relação extraconjugal deste e existência de pessoas a pretender tirar proveito, enquanto, como mãe, tenta poupar a filha, uma adolescente que desperta para o mundo adulto e suas contradições; incluindo ainda exposições dos casos dos doentes psiquiátricos de Erik e dos aconselhamentos com colegas de profissão sobre a sua situação e ainda outros relacionados com a investigação do segredo guardado pelo pai.
Assim, em vez de uma trama linear, Siri Hustvedt cria uma árvore com múltiplas raízes e ramos que constroem uma unidade completa e onde se aborda os problemas da solidão urbana, das relações pais, filhos, esposos e complexos de culpa que se criam nestas uniões e desuniões; bem como as dores de crescimento humano que dão um retrato profundo da alma social e das pessoas.
Sou de opinião que só um excelente escritor consegue criar uma personagem completa e credível de sexo diferente do seu, mais ainda, como homem, sinto mais habilitado a reconhecer esta capacidade se estamos perante uma autora que cria um protagonista masculino com pormenores suficientes para o termos não só na imagem de macho em sociedade, mas o conhecimento do seu íntimo. Siri faz isto com uma perfeição e elegância a que não estou habituado, evidenciando que tem grandes méritos que fazem com que o dom literário se deva à sua genialidade e não à sombra da notoriedade do marido.
Não se trata de uma construção literária alegre, o próprio título em português e em inglês "The sorrows of an American" denunciam isso: a solidão individual atravessa toda a obra, bem como as dificuldades no relacionamento entre as pessoas e a compreensão do comportamento do outro, mas é uma magnífica peça literária cheia de conteúdo introspectivo sem facilitismos comerciais. Recomendo a quem gosta de um bom livro pelo seu valor literário.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"A verdadeira vida de Sebastian Knight" de Vladimir Nabokov


O romance "A Verdadeira vida de Sebastian Knight" foi o primeiro livro deste famoso escritor e crítico literário russo: Vladimir Nabokov, que se exilou nos Estados Unidos após a revolução bolchevique, sendo este o primeiro livro que escreveu originalmente em inglês, idioma que adotou em definitivo para a sua obra posterior.
Sebastian Knight (SK) é um escritor de qualidade, de origem russa e radicado nesta cultura, mas depois naturalizado inglês pela origem materna e cuja língua seleciona para a sua escrita morre ainda jovem, então o seu meio-irmão do lado paterno, decide conhecer e fazer um livro sobre a sua vida, tendo em conta uma biografia publicada na qual ele deteta grandes discrepância face ao que conhece dele apesar de distante nos últimos anos.
Assim, inicia-se o relato da investigação sobre SK desde o seu afastamento, com as suas paixões, viagens e estilos de vida, tendo como fonte o conteúdo da sua obra, cujos enredos e estilo se vai expondo, e também fruto das memórias do irmão e de colegas, amigos e amantes que partilharam os anos da sua carreira na Inglaterra. Num jogo de espelhos entre o próprio Nabokov e SK, a obra evidencia o esforço perfecionista do escritor narrado e a busca de perfeição do real autor do livro, inclusive os paralelismos das dificuldades de alguém criado numa língua que quer ser perfeito noutra adotada, Vamos conhecendo personagens da bibliografia ficcionada de SK, as suas estórias, enquanto as fontes após uma aproximação que evidencia que se vai descobrir algo de importante sobre o falecido, depois, por um falso pudor intencional, não nos é revelado, deixando um conjunto de questões sobre quem foi de facto Sebastian Knight.
Nabokov é de facto um escritor dotado de uma magnífica escrita e busca a perfeição plena na construção do texto. No romance disserta sobre este objetivo e vês que quis edificar uma obra de arte literária e neste encontro entre a perfeição da escrita, da narração e da estrutura do romance edifica uma obra que é isso mesmo e quase se esgota neste domínio. A beleza está quase em exclusivo na forma, anulando-se na comunicação de ideias ou de outras questões para além do abstrato da arte de escrever. Gostei e para quem aprecia análise literária é uma pérola ficcionada no género.

terça-feira, 18 de abril de 2017

"A um deus desconhecido" de John Steinbeck



"A um Deus desconhecido", do norteamericano laureado com o Nobel John Steinbeck, é um romance onde, além da ligação do agricultor à terra e das suas dificuldades de sobrevivência face à insegurança dos seus rendimentos e à dependência dos caprichos meteorológicos que habitualmente é abordado em muitas obras deste escritor, mergulha também nas raízes religiosas do homem colocando em confronto visão vertical do cristianismo com a os antecedentes animistas que explicam o equilíbrio da produção agrícola com uma perspetiva horizontal do espírito que atravessa todas as coisas da natureza.
Joseph Wayne de uma quinta do leste dos Estados Unidos sonha com uma nova herdade na Califórnia cuja terra está aberta à ocupação de novos exploradores, pede a benção ao pai para cumprir este objetivo que no ocaso da vida lha concede e promete estar sempre a acompanhá-lo de cima depois da vida o deixar. O protagonista parte para o oeste, adquire um prometedor campo, tem conhecimento de histórias de secas passadas, encontra indícios de cultos índios à fertilidade da terra e encanta-se com uma árvore na qual sente expressar-se toda força da vida do vale. A morte do pai leva os irmãos a se juntarem à exploração marcada pelo sucesso.
A visão de fanatismo religioso de um dos irmãos e as preocupações de um padre face os sinais animistas levam a que a sua árvore seja abatida e desde de então tudo declina: a seca, a fome a miséria, a migração, mas Joseph resiste no terreno que assumiu proteger, nem que para isso tenha de se tornar no sacerdote capaz de oferecer o supremo sacrifício a esse deus que dá a vida à terra.
Steinbeck para mim é o escritor que melhor mostra o modo como o agricultor vê o campo, a paisagem e interpreta o sinais meteorológicos e descreve a atividade da agricultura tradicional e a vida rural na primeira metade do século XX, fazendo tudo isto com uma escrita perfeita, plena de beleza e de metáfora originais e este romance cria imagens que são quadros perfeitos neste domínio. A temática saudosista de uma crença abandonada mas em pleno equilíbrio com a natureza em choque com uma fé contemporânea desenraizada da terra na alma de um agricultor leva a uma história onde o misticismo e as dúvidas sobre o espírito que controla o mundo atravessam toda a obra como uma luta entre o racionalismo, a religião, a ternura pelo que nos rodeia e o amor sob a a dureza da vida rural. Um pequeno romance que é uma pérola literária.

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O leilão do lote 49" de Thomas Pynchon


A experiência de leitura deste pequeno romance "O leilão do lote 49", do norteamericano Thomas Pynchon, teve a particularidade de apesar de muitas vezes me ter feito sentir como que perdido na narrativa, ao me cruzar com personagens paranóicas, situações absurdas, uma mistura de informação científica séria com aspeto de fantástico junto com irrealidades que se parecem verdades, além de uma série de cenas cuja lógica aparentemente está ausente, levou-me a um livro que me cativou desde a primeira página. O evoluir das situações onde a coerência está como que ausente gera uma história que toma um aspeto de mistério a resolver na tentativa de decifrar um conjunto de pistas que parecem loucas.
Oedipa é informada que foi nomeada testamenteira de um ex-namorado, multimilionário e que para as suas funções poderá contar com a ajuda de um advogado de um escritório com quem o falecido trabalhava. Surpreendida parte para a localidade deste e onde ele era o maior proprietário e investidos da zona. A partir daqui as peripécias sucedem, cada uma mais estranha do que a outra, desde a interferência do seu psiquiatra que enlouquece, ao advogado com quem ela trai o marido mas que a seguir foge com uma adolescente, passando pela envolvência do esposo como homem da rádio, mas que tem alucinações com LSD, ao contacto com um grupo musical de adolescentes denominado Paranoids cujo o nome é coerente com a respetiva forma de ser, até um grupo de teatro cujo ator principal e encenador adapta uma peça antiga deixando pistas que se combinam com elementos encontrados na coleção de selos do morto, que apontam para a existência de uma rede de correios secreta instalada na sociedade para se autonomizar das redes oficiais que Oedipa tenta descobrir através de investigadores de literatura, cientistas que trabalham na entropia dos sistemas e filatelistas, levando tudo isto a uma série de situações de paródia, com informações subtis de análise social e psicológica nos Estados Unidos.
A obra parece uma evolução dos livros de Kafka, juntando cultura pop e erudita, clássica e contemporânea, além de ciências, num mundo absurdo com análises psicológicas que geram um estilo original, por alguns denominado de pós-modernista, que a mim parece-me trazer para a literatura as correntes artísticas da pintura pop-art de Warhol, do surrealismo de Dali, entre outros, mas sendo prolixa em informações como um quadro de Pieter Bruegel, gerando-se assim uma mescla onde nos enredamos que apesar de labiríntica me deu muito prazer em sentir-me perdido em situações por vezes de difícil compreensão, se não mesmo incompreensíveis.
Gostei, contudo só recomendo a quem os esforço de análise do que se está a ler e da apreciar a forma de escrita e narrativa dão prazer, mas não a um leitor que se entusiasme apenas com enredos e textos fáceis de seguir sem esforço.