sábado, 13 de abril de 2019

"Três homens num barco" de Jerome K. Jerome

Acabei de ler o livro "Três homens num barco" do inglês Jerome K. Jerome, o romance narra os preparativos e a subida de três jovens e o cão do autor ao longo do Tamisa a partir de Londres, transformando-se assim num livro de viagem contado cheio de humor cavalheiresco britânico do final do século XIX.
Um texto muito fácil, com um teor juvenil e pleno de humor, embora muitas vezes as aventuras sejam contadas com um tom hiperbólico que talvez não pareça muito conveniente no século XXI. Pelo meio existem descrições da paisagem, das estruturas no rio, povoações e da personalidade dos protagonistas o que cria um excelente retrato desta zona da Inglaterra naquela altura.
O seu contínuo humor e a facilidade de leitura justificam porque esta obra foi um sucesso desde o início como livro de lazer e divertimento e estímulo dos jovens à leitura. Uma narrativa simpática e agradável.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

E-book "Risco escuro na claridade" de Maiky da Silva



Li o ebook "Risco Escuro na Claridade" do brasileiro Maiky da Silva, um texto em forma epistolar mas onde o autor assume não serem cartas e na minha opinião assemelham-se mais a crónicas sucessivas que vão desenrolando um meada como um risco escuro a caminho da liberdade.
O protagonista, um órfão e acolhido por uma casal familiar que o trata ostensivamente de forma inferior face aos verdadeiros filhos, na sua revolta interna decide assumir o papel de louco e a situação torna-se não só convincente para aqueles com quem convive, como talvez para ele próprio, só que de repente ele passa a ser tratado pior do que um animal enjaulado e da revolta interna e de uma oportunidade surgirá a possibilidade do salto para a claridade.
Escrito como uma memória num desabafo desesperado e introspetivo, o texto desenrola-se num estilo de poesia sob a forma de prosa. Maily da Silva, ainda um jovem que revela grande potencial, escreve um lindíssimo texto onde a negritude da situação não macula a beleza da escrita e levanta imensas questões sobre o comportamento humano. Uma obra que é um grito no escuro que levanta belas ondas à sua volta como o quadro de Edvard Munch. Valeu a pena esta descoberta.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

"As sete mulheres de Barba Azul" de Anatole France

Excerto
"A minha avó dizia que a experiência não serve, na vida, para nada e que permanecemos, no que somos, sempre os mesmos."

O pequeno livro com o conto "As sete mulheres de Barba Azul" do francês Anatole France vencedor do prémio Nobel de 1921. Razão porque despertou curiosidade passar por mais um autor com este galardão.
Neste conto Anatole France inverte o sentido da estória tradicional e em vez de um Barba Azul  mau, sanguinário e assassino em série das suas seis anteriores mulheres, mas descoberto pela curiosidade da sétima, temos aqui um bom e ingénuo nobre que não aprendeu nada com as mulheres que foi tendo e o enganaram sucessivamente e que as foi perdendo por diversas causas inocentemente até à última que lhe prepara a cilada final.
Bem escrito e a narrativa talvez pretenda dizer que a própria humanidade ininterruptamente não se corrige com os seus erros do passado, repetindo-os sem aprender com a história.
O conto pode ferir alguma sensibilidade feminista pelo facto de na trama todas as mulheres serem más, mas penso que não é essa a intenção do escritor e sim a recomendar para as pessoas não cairem sempre nos mesmos erros e não deixa de ser um pequeno e barato livro divertido.

sábado, 6 de abril de 2019

"Uma conjura de Saltimbancos" de Albert Cossery

Excerto
"são precisos ócios para aguçar o sentido crítico e elaborar um ideal."

O escritor Egípcio de escrita francesa Albert Cossery é o autor do elogio literário de vícios como o ócio, a preguiça e do gozo do comodismo social dos mais pobres, com recurso à ironia, sarcasmo e humor. "Uma conjura de Saltimbancos" é já o quinto livro que leio deste escritor e não foge à sua temática típica e estilo de narrativa.
Teymour foi para o estrangeiro movido pelo pai para tirar um curso de Engenheiro Químico, onde levou uma vida de pleno gozo até lhe ser exigido o regresso, preocupado em mostrar a validade do investimento paterno compra um diploma para exibir mas o regresso a sua cidade de província sem divertimentos parece tornar-se numa tortura, até que os seus amigos lhe mostram como é possível gozar a cidade no ócio e sem trabalhar tornando aquela terra uma maravilha para viver como qualquer outra, entretanto o chefe da polícia tem no grupo de jovens os seus espiões e a obsessão de que estes malandros estão a conspirar contra a segurança do Governo, entretanto vários ricos da região desaparecem misteriosamente o que parece suportar a sua teoria de que a coberto da boa-vida e do gozo com mulheres desta juventude perdida se esconde uma conjura.
Um romance divertido numa trama que se desenrola com a lassidão típica de quem leva a vida a aproveitar o dia-a-dia sem nada de útil fazer. Gostei e com uma escrita de fácil leitura


quinta-feira, 4 de abril de 2019

"Ilusões Perdidas" de Honoré Balzac


Excertos
"A avareza começa onde termina a pobreza."
"...onde começa a ambição terminam os bons sentimentos."
"Faz como eu, escreve hipocrisias em troca de dinheiro e sejamos felizes."

Acabei de ler o volumoso romance "Ilusões Perdidas" do francês do século XIX Honoré Balzac. A obra foi inicialmente publicada em três tomos separados em anos sucessivos, criando uma trilogia e aqui reunidas num único livro com mais de 700 páginas.
Balzac estudou a sociedade francesa pormenorizadamente e através de dezenas de romances montou o retrato dos vários tipos de pessoas que compunham o seu povo, criando um conjunto intitulado "A comédia humana". Ilusões perdidas faz parte desta coletânea. Aqui se mostra o poeta provinciano sonhador cujo sucesso o tornam ambicioso e o luxo de Paris o cega da manha hipócrita da alta sociedade decadente e imoral da capital, enquanto familiares, trabalhadores e honestos, se sacrificam até à miséria na terra de origem, mas onde os mesmos males, embora de forma mais simples, também minam todas as relações sociais e criam as suas vítimas.
A primeira parte decorre na cidade do sudeste de França: Angoulême, David filho de um tipógrafo, é um sentimentalista inventor sem aptidão para o negócio que fica com a empresa do seu pais egoísta, avarento e explorador do seu herdeiro. O jovem mantém uma amizade com Lucien, pobre mas descendente de nobreza pelo lado da mãe, este sente-se  poeta e tenta subir socialmente fazendo uso da sua beleza perante uma das principais damas casadas da cidade. O primeiro casa com a irmã do segundo, Eve,  e o poeta consegue despertar a paixão na madame Bargeton até rebentar o escândalo de adultério e ambos partem para Paris.
A segunda parte é em Paris, onde a necessidades de preservar as aparências sociais leva, de uma forma apressada, a madame afastar-se de Lucien. Este sem rendimentos, apesar de alertado por escritores idealistas honestos e pobres, entra no meio jornalístico onde genialmente usa a pena como crítico literário e de teatro ao sabor dos seus interesses pessoais e políticos, desvalorizando obras-primas, inclusive de amigos, arranja uma atriz como amante, endivida-se para exibir luxo face à mulher que o abandonou, entra em conflito com ela através dos seus artigos e esta arma um estratagema de vingança em que o poeta ingénuo e provinciano cai em desgraça e na miséria.
Na terceira parte regressamos à cidade inicial, onde David luta pela sobrevivência da tipografia perante um concorrente desleal e oportunista, mas gere mal o negócio ao se dedicar à sua invenção de novos tipos de papel até que também lhe caem nas mãos as dívidas do cunhado feitas na capital. Eve tenta gerir a situação, mas tanto em Paris como na província, a maldade não ajuda os bem intencionados  trabalhadores e a Lei favorece os aristocratas e os ricos usurários e oportunistas. Lucien regressa miserável e a madame volta como mulher do novo Prefeito da cidade e o conflito agrava-se...
Balzac junta à linguagem da literatura clássica do século XIX, partes de descrição prolixas e prosaicas das disfunções da sociedade em França, inclusive os vícios legais e das pessoas, sem omitir o confronto ideológico pós revolução francesa com o regresso da monarquia que cria duas correntes artísticas e jornalísticas, onde teatro, literatura e jornalismo em vez de se enfrentarem com honestidade entre si se destroem sem respeito pelo valor das ideias ou das obras produzidas. Já então os interesses editoriais em conluio com a crítica literária esmagavam grandes artistas e escritores originais enquanto elogiavam obras medíocres tornando-as sucessos imerecidos. Um retrato social por cheio de comentários sobre os problemas da sociedade e dos vícios dos seus personagens que abrem frequentemente pistas para o percurso em que a trama irá seguir.
Um clássico da literatura que é ao mesmo tempo uma lição sobre a realidade do mundo de então, mas que de facto é muito semelhante ao atual, onde a injustiça dos poderosos é a força que move a sociedade.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.