sábado, 14 de julho de 2018

"A Geração da Utopia" de Pepetela


Excertos
"Uma sociedade onde o Estado ia abolir as classes, segundo Aníbal, uma sociedade sem Estado pois este tendia a ser o manto sob o qual novas classes se criaria, segundo Marta."

"A tal revolução que tem à frente não vai ser como ele imagina. Nunca nenhuma é como os sonhos dos sonhadores.... As revoluções são para libertar, e libertam quando têm sucesso. Mas por um instante apenas. Nos instante a seguir se esgotam. E tornam-se cadáveres putrefactos que os ditos revolucionários carregam às costas toda a vida."

"O problema é esse, o Estado comporta-se como o pai e o filho tem de lhe contar tudo, já não tem direito à privacidade... Não há lugar para sentimentos, relações humanas, apenas relações de poder. Os homens deixaram de ser homens..."

"- Enganou-se numa coisa, colocou a questão numa alternativa. Eu morri e desencantei-me. Os dois caminhos num só.
- O desencanto é sempre uma morte, não é?"

"quisemos fazer desta terra um País em África, afinal apenas fizemos mais um país africano."

Fui agradavelmente surpreendido por este romance "A Geração da Utopia" do angolano Pepetela que eu sabia retratar uma certa juventude angolana universitária em Lisboa que foi "apanhada" pelo início da guerra colonial e aderiu à causa independentista em torno do MPLA, sendo que o próprio escritor foi um militante deste movimento pró-soviético.
O livro narra quatro episódios, separados no tempo, em torno de vários dos jovens que estudaram em Lisboa:
- 1961 em Lisboa, o despertar dos jovens para a luta da independência de Angola, as suas preocupações de cidadania quando brotam as paixões físicas e ideológicas, fieis à sua terra e povo, mas reféns numa metrópole controlada pela ditadura de Salazar.
- 1972 no leste interior de Angola, quando na luta independentista já reinava o cansaço nos primeiros combates, nasceram as desconfianças sobre os que tomaram as rédeas da guerra e surgiu o despertar dos oportunistas para salvar a pele ou subirem na hierarquia à custa do povo e do guerrilheiro.
- 1982 perto de Benguela, com a guerra civil no auge, numa Angola já independente, onde se reflete o desencanto com os resultados da revolução e se denuncia o Estado como o polvo que com o seu sistema esmaga o povo e impede o cumprimento da promessa de dar às pessoas um futuro melhor.
- 1991 em Luanda, quando a democracia vingou e a causa comunista passou a ser tabu, há a adesão ao liberalismo económico mas este continua a ser pasto para a subida dos oportunistas, os mesmos agentes agora reconvertidos, enquanto o povo continua na miséria e é amansado por táticas de alheamento coletivo.
No final fica um conjunto de estórias que montam a história de Angola, fazem o elogio dos idealistas e homenageiam aqueles que sofreram pela causa do País, sem escamotear o papel dos que da mesma geração fizeram emperrar esta revolução e como estes se vão acomodando aos tempos, sendo que a nova geração, filha da utopia, já tem um passado para refletir os erros cometidos e discutir o futuro, cujas más sementes já se viam a germinar em 1991 e os frutos se podem perceber hoje pelo que se sabe de Angola no presente.
Assim, Pepetela torna-se na voz da consciência de Angola com uma narrativa, que apesar de denunciar as causas da desilusão, consegue construir um livro fácil, até com algum humor subtil e o tom alegre africano num romance bem escrito que junta vocabulário das línguas bantas e alguma sintaxe angolana. Gostei e vale a pena ler, até porque nos ensina a compreender o desvirtuar das boas causas.

4 comentários:

Pedrita disse...

deve ser um livro forte. de angola só li agualusa q gostei muito e estou com outro dele aqui pra ler. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

É um livro de muito fácil leitura, talvez o momento de 1972 seja o menos fácil, até porque Pepetela tempera uns capítulos com as paixões das hormonas juvenis, noutro com o realismo mágico e o último está cheio de humor cínico ou de situações divertidas que servem de crítica ao regime então vigente.
Agualusa tem um estilo de escrita muito mais poético.

Kelly Oliveira disse...

Olá Carlos! Muito interessante, fiquei com vontade de conhecer, inclusive a própria história de Angola que não sei nada mesmo.

Abs.

Carlos Faria disse...

Pois, Angola tornou-se independente de Portugal já muito mais recentemente, pelo que nós portugueses temos uma relação ainda forte com este País. Conheço gente que viveu e fugiu de lá, bem como gente que combateu por Portugal. Não foi um processo pacífico como a separação Portugal - Brasil.