terça-feira, 10 de julho de 2018

"eu confesso" de Jaume Cabré


Excertos
"Até ontem à noite, passeando pelas ruas molhadas de Vallarca, nunca tinha percebido que fora um erro imperdoável nascer naquela família."

"E se Hopper dizia que pintava porque não conseguia expressar o que queria com palavras, eu escrevo com palavras porque, embora veja as coisas, sou incapaz de as pintar. Mas vejo sempre, como ele através de janelas ou portas mal fechadas."

"Somos uma comunidade que habita numa rocha que navega no espaço, como se estivéssemos sempre à procura de um Deus no meio da neblina."

Falcões da Noite - Edward Hopper (imagem Wikipédia)

É o aparecimento nos tempos atuais de romances como este "eu confesso" do catalão Jaume Cabré, que permitem concluir que a literatura está viva, pois ainda se escrevem obras-primas deste calibre.
No arranque do livro, o primeiro excerto acima, ficamos logo a perceber que vamos saber a vida do narrador, Adriá desde a sua infância no período franquista, numa casa onde se limitava a observar os adultos até à fase final da sua vida. Filho de um colecionador de antiguidades raras de grande valor, que fora um seminarista que prometia ser um grande teólogo e apreciador de línguas clássicas e atuais e de uma mulher bem mais jovem e herdeira do património de uma sumidade em antiguidades. Neste contexto saberemos a história do pai e da mãe do destino que cada um traçou para o filho: ele, o de um sábio em saberes clássicos que o levou a conseguir saber 13 línguas; ela, o de um músico virtuoso pelo que o matriculou no violino onde nas aulas conheceu o seu melhor amigo para toda a vida, apesar de interditado de tocar no violino do século XVIII, um storioni, adquirido pelo pai no pós-guerra.
Lentamente vamos descobrindo a história do storioni, dos crimes que ocorreram em torno deste e da sua relação com o património desviado aos judeus do genocídio nazi. Sobre a sua vida, Adriá justifica a sua complicada relação de infância em família e os problemas do seu amor por Sara, uma judia amante de arte e desenhadora profissional e as traições por ele também cometidas.
Várias histórias brotam dentro dum mesmo parágrafo, cruzamentos que distam séculos, onde há personagens com falta de escrúpulos, outras arrependidas, gente com medo do rigor dos juízes da inquisição tão devotamente implementada nas torturas dos campos de concentração nazi e por onde o violino passou. As exigências e a falta de princípios de um pai sem escrúpulos que tal como no passado se vê assassinado por culpa do filho devido ao violino que já nascera da madeira enraizada num crime de há muitos séculos. Não faltam fugas de criminosos de guerra que se cruzam com juízes da inquisição e hereges expostos nas perseguições judias geradoras de ódios eternos, mas também de arrependimentos que despertam heroismos humanitários reparadores de atos imperdoaveis sujeitos a vingança, entre os quais o violino se perde. Sem esquecer este amigo omnipresente, sempre disponível que segue frustrado a carreira de violinista incentivado por Adriá, que o  critica pela sua mediocridade de escritor de que se orgulha, enquanto o dono do storioni não se sente dotado é admirado pelo amigo escreve livros geniais sobre o mal, a estética e as ideias, enquanto lhe cresce a atração do pai por escritos raros, recusando-se assim a ser violinista e assiste à sua relação de amor desmoronar pelos ódios entre as famílias, as suas traições pessoais e as exigências do violino regressar aos seus legítimos donos.
É nesta confusão, típica de uma obra pós-moderna, que a maravilhosa escrita de Cabré se destaca ao misturar tudo (ao contrário do texto deste post, a narrativa é mesmo brilhante), dá saltos no tempo, nos sujeitos, na ação e nos complementos da frase, o que permite uma intrincada e genial trama em torno deste conjunto de personagens dispersas por vários séculos e países, ligadas pelos sentimentos de amor e ódios, as histórias em torno de um violino e a análise sobre o conceito absoluto do mal numa Europa que mistura irracionalidades das religiões, ideologias, ambições, guerras, consciências, desencontros e maldade.
Uma obra-prima que evidencia que fora dos Nobel também se encontram as melhores obras, um romance onde o prazer da beleza da escrita supera a dificuldade que por vezes os seus meandros tecem.

7 comentários:

Pedrita disse...

com tanta ênfase, anotadíssimo! beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

e eu confesso que na minha opinião vale bem a pena ler este livro

Kelly Oliveira disse...

Olá Carlos, gostei dos seus comentários sobre esse livro. Fiquei muito interessada, mas ao dar uma olhada rápida na Amazon Brasil, já vi que por aqui só encontro a versão em inglês. Uma pena...

De qualquer forma vou guardar o título e autor.

Que frase: "Até ontem à noite, passeando pelas ruas molhadas de Vallarca, nunca tinha percebido que fora um erro imperdoável nascer naquela família."

Carlos Faria disse...

Efetivamente um amigo meu de Minas já referiu que no Brasil não há qualquer obra traduzida deste Catalão, talvez haja também alguma dificuldade de tradutores desta língua do sudeste da Península Ibérica, além de alguma dificuldade de projeção da cultura literária escrita em catalão.
Em Portugal há 3 livros dele, este é o mais recente, As vozes do rio Pamano também gostei muito, mas é de uma escrita mais linear e a história apesar de rica não é tão rica.

Kelly Oliveira disse...

Pois é Carlos. Inclusive existem vários outros livros publicados em Portugal que eu tenho interesse. Talvez uma horas dessas dou um pulinho aí (pela terceira vez) só para adquiri-los :D :D :D

Carlos Faria disse...

Penso que através da Amazon já consegue adquirir quase todos os livros publicados em Portugal. A própria Wook.pt penso que vende para o Brasil tal como a Cultura vende daí para Portugal

Carlos Faria disse...

Mas vir a Portugal comprar livros também pode ser uma boa justificação para visitar esta bela Lusitânia com 800 anos de história