quarta-feira, 18 de julho de 2018

"O Fator Humano" de Graham Greene


Excerto
"Cometem-se muitos erros por ódio. É tão perigoso como o amor. Sou duplamente perigoso, Boris, porque também amo. O amor é uma desvantagem no nosso serviço."

Já conhecia o escritor inglês Graham Greene nos seus romances de reflexão sobre questões de fé e consciência de que falei aqui, optei agora por conhecê-lo na vertente de obras de espionagem, ele que foi espião britânico de que se suspeita ter sido mesmo um agente duplo.
Na trama d' "O Fator Humano" Castle trabalha num escritório dos serviços de inteligência do Reino Unidopara que cobre a região Africana, uma profissão que, ao contrário das estórias comuns de espionagem, é descrita como aborrecida com leitura de numerosos relatórios codificados para analisar e resumir o envio dos dados aos superiores do sistema, até que surge uma suspeita de fuga de informações para o inimigo vinda do seu gabinete que partilha com outro colega frustrado pela monotonia da sua vida. O sistema começa a investigar quem será o traidor numa hierarquia onde a vida individual está abaixo dos interesses da rede.
Ao contrário do um thriller, está-se perante um romance em torno dos efeitos desta profissão na vida particular dos espiões: o secretismo, a desconfiança, a solidão e os riscos para a família. Castle não parece suspeito, mas nas suas anteriores funções apaixonou-se por uma negra em pleno apartheid, onde uma relação proibida que o forçou a fugir para Londres e tentar trazer mulher amada com a ajuda da rede inimiga do país onde estava e daquele para o qual trabalhava: a soviética. O evoluir da investigação descobriremos o papel de Castle cuja gratidão é um dever, mas isso tem consequências para a sua segurança e sobretudo para aqueles que ama.
Uma escrita escorreita, fácil e elegante, o texto é temperado pelos dilemas psicológicos que se colocam a quem pertence ao mundo da espionagem e questões de moral e ética religiosa. Gostei e confesso que me surpreendeu por ao acabar com o mito da vida venturosa do meio em que se movem as pessoas dos serviços de informação dos Estados.

3 comentários:

Pedrita disse...

eu gostei muito, li em 2008. bonita capa. minha postagem está aqui. beijos, pedrita https://mataharie007.blogspot.com/2008/08/o-fator-humano.html

Carlos Faria disse...

Este livro, como o do post anterior e outros que já li são da coleção RTP, a cadeia de rádio e televisão pública de Portugal, que seleciona obras importantes da literatura para reeditar a preços baixos através acordo com quem tinha os direitos editoriais no País, todos têm capas feitas pelo mesmo desenhador que com traços simples, não maioria dos casos quase apenas o sinal de parêntesis, consegue expressar um aspeto fundamental no interior da obra.
Este livro que fala sobretudo da componente privada dos espiões tem aspetos que são baseados na vida de amigos de Greene, este não virou a comunista mais tarde, ele foi comunista na juventude, depois abandonou o partido quando da sua conversão ao catolicismo (na Inglaterra é uma religião em parte ostracizada), foi espião inglês no MI5 e mais tarde descobriu-se espião duplo para o regime soviético e por isso se refugiou na Suíça.

Pedrita disse...

greene tb é encontrado em sebos por baixos custos. beijos, pedrita