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domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

domingo, 1 de outubro de 2017

"O Colecionador de Mundos" de Ilija Trojanow

O livro "O Colecionador de Mundos", do Búlgaro refugiado na Alemanha que viveu na Jugoslávia, Itália, Índia e Quénia e presentemente na Austria e escreve em alemão: Ilija Trojanow, narra de modo romanceado três importantes ações da vida do militar, aventureiro, espião e diplomata inglês do século XIX: Sir Richard Francis Burton.
Como todas as obras históricas, o romance está amarrado no essencial aos factos então ocorridos, mas vale pela forma de os narrar e os floreados à sua volta, criando uma obra original, criativa, com a análise social do encontro de culturas (indiana hindu e muçulmana, árabe e africana) e juntando ficção à realidade dos acontecimentos.
O livro é composto por três momentos da vida de Burton, cada um exposto com uma dupla visão que se intercalam e se completam: primeiro o serviço na Índia com a descoberta do hinduísmo, do islão, o choque de culturas e a desconfiança entre povos e onde se conhecem as impressões do protagonista e a versão do chefe de criadagem, um natural local; depois a sua peregrinação a Medina e a Meca, haje ou hadj, disfarçado de muçulmano indiano e integrado numa caravana de povos a partir do Cairo, neste feito que chocou o islão vemos o relato de Burton e uma recolha de testemunhos de companheiros crentes na tentativa de julgar o sacrilégio do infiel; e por fim a expedição a partir do Zanzibar que levou à descoberta do lago Vitória e da nascente do Nilo narrada por ele e um escravo local libertado guia dos ocidentais.
Assim se revela a vida de uma lenda que até à sua morte levantou especulação de qual a sua verdadeira fé, o seu modo de ver o mundo, os povos e as religiões. Um livro muito interessante, cheio de ensinamentos culturais, história, aventura e excelentemente escrito. Recomendo.



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado de Stefan Zweig


Acabei de ler os dois contos O Mendel dos Livros e A viagem ao Passado, publicados no mesmo livro, de Stefan Zweig, um escritor de origem austríaca, mas que passou os seus últimos dias no Brasil.
O primeiro conto de algumas dezenas de páginas é relativo à vida de um alfarrabista (sebo): Mendel, que era capaz de se isolar do mundo para viver apenas para os seus livros, que fazia a sua vida profissional centrada num café barulhento sem se aperceber do que se passava à sua volta, inclusive este alheamento levou-o a cometer infantilidades em momento de guerra só compreensíveis a quem ama os seus alfarrábio mais que tudo. É uma estória lindíssima. Uma narrativa que vale não só pela forma de escrita, cheia de adjetivos, poesia e beleza , mas também por ser uma grande homenagem a este grupo de pessoas capaz de encontrar pérolas para os bibliófilos, mas vistos muitas vezes apenas como uns comerciantes de obras usadas, quando podem ser os maiores peritos no tema com que nos cruzamos.
O segundo conto, também de dezenas de páginas "A viagem ao passado", que praticamente termina com dois versos de Verlaine, é um puro Zweig, onde as paixões extremadas são exploradas como tema, as quais se confrontam com situações que levam a uma mudança brusca e à tomada de atitudes que no futuro levarão a um outro choque e possíveis remorsos sobre o passado. Neste caso um amor que a carreira e a guerra separou, mas depois dá-se o reencontro quando já tudo é diferente desse tempo anterior.
Gostei muito dos dois, mas o primeiro marca qualquer bibliófilo a que acresce a beleza da escrita e o valor da homenagem efetuada. Recomendo a todos que gostam de beleza literária em ficções curtas.

domingo, 5 de março de 2017

"A Ponte sobre o Drina" de Ivo Andric

O romance "A ponte sobre o Drina", do bósnio croata e prémio Nobel da literatura em 1961: Ivo Andric, tem como protagonista esta obra de arquitetura, ou seja, a história da sua origem, construção e posterior importância desta infraestrutura, que é Património Mundial da Humanidade, na vida da cidade de Visegrad, a qual serviu de ligação entre o mundo islâmico/turco e o mundo cristão/sérvio e entre a cultura ocidental e oriental da Europa através dos Balcãs desde meados do século XVI, até à sua primeira destruição parcial na I Grande Guerra Mundial do século XX.
À semelhança do anterior livro que li deste autor "A crónica de Travnik", o mesmo caracteriza-se por uma escrita muito elegante, rica de adjetivos e metáforas em série e por vezes prolixa de pormenores, o que dá lugar a uma narrativa que se desenrola a um ritmo lento, como a vida na província. No presente romance não há um protagonista, o narrador faz desfilar uma série de personagens desde o não ficcionado sérvio raptado pelos turcos, que ocupavam a zona no século XV, para torná-lo militar forçado ao serviço do islamismo, ou seja um janízaro, que se tornou Mehmed Paxá, com um cargo equivalente a Primeiro-ministro governando todo o vasto Império Otomano, o qual decidiu mandar contruir esta ponte na sua província natal, prosseguido com personagens reais e lendárias, bem como a origem das lendas associadas à sua construção e ao imóvel, para depois ao longo de três séculos relatar estórias relacionadas com cidadãos sérvios, bósnios e judeus desta cidade, desde as suas paixões, investimentos, desgraças, amizades e tensões entre os vários credos e com as mudanças de mão dos povos que ocuparam e lutaram pelo domínio ou independência desta zona multiétnica da antiga Jugoslávia: turcos, austríacos, sérvios e bósnios; tudo isto sempre à sombra desta imponente ponte que marcava o pulsar cultural e social de Visegrad, unia mundos tão diversos e assistiu a mudanças muito significativas no modo de viver das populações e assistiu ao nascer de novas tecnologias industriais.
Assim, numa obra única e como numa passarela desfilam aventuras de juventude, reflexões de velhice, discussões de ideias, gente ébria e sóbria, exércitos, amores, paixões, ciúmes, desconfianças, rivalidades e ódios que em momentos de paz são mutuamente toleráveis, por vezes ridículos ou causadores de incidentes divertidos, mas que em períodos de guerra atingem extremos de desumanidade que deixam marcas para sempre.
Um grande livro, que dá a conhecer a complexidade do que é a mistura multicultural da Bósnia-Herzegovina tendo como ponto de união esta ponte secular Património da Humanidade, isto num romance que é também uma obra de arte global.
Visegrad e a sua ponte (wikipedia)

sábado, 10 de dezembro de 2016

AMOK de Stefan Zweig


Acabei de ler o livro "Amok" do austríaco Stefan Zweig, pela sua dimensão e estrutura, 74 páginas, poderá ser qualificado como um conto.
A história refere-se a uma confidência feita numa viagem de paquete entre a Índia e a Inglaterra por um passageiro amargurado e isolado que o narrador encontrou numa hora avançada da noite e relativa ao comportamento que ele tivera como médico perante uma mulher de sociedade que o procurara numa terra colonial onde exercia a sua profissão numa aldeia afastada para este lhe prestar um serviço que ele entende não ter sido solicitado de modo adequado face à força que emana da jovem, por isso decidiu-se por um estilo de conflito mútuo, a que se seguiu um arrependimento tardio e uma tempestade de sentimento incontrolável, denominada na língua nativa de estado "amok", que o leva a agir de forma descontrolada e a procurá-la, atitude que desemboca numa tragédia e num compromisso fatal.
Escrito com uma elegância e com um ritmo que nos faz mergulhar vertiginosamente no dilema médico, ético e inclusive moral, este conto mostra uma análise profunda e densa de um drama psicológico de pessoas de classes sociais elevadas onde a imagem pública e a honra sobrepõe-se muitas vezes às questões de moral e ética privada. Gostei.

sábado, 4 de junho de 2016

"Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher" de Stefan Zweig



"Vinte Quatro Hortas da Vida de Uma Mulher", do austríaco Stefan Zweig, é uma pequena novela que evidencia como uma situação, não preparada, nem intencional, pode levar a comportamentos repentinos, socialmente criticáveis e ostracizantes, mas onde uma mente aberta e compreensiva é capaz não só de entender, como até de não deixar afetar o seu relacionamento com que assim age. Há sentimentos por vezes mais fortes que a razão que fomentam a loucura e marcam uma pessoa e, em simultâneo, correspondem até ao ponto mais alto da vida e aquele por qual valeu a pena viver.
Uma escrita muito elegante, tal como o meio social onde o enredo se passa, a trama principal é uma narração em estilo de confidência em primeira pessoa, despoletada por uma crítica social e coscuvilheira sobre o comportamento de uma terceira pessoa. O texto evidencia uma mestria do escritor na  forma de descrever sentimentos e de expor a sua expressão psicológica e física.
Uma novela que se lê muito bem, tanto pela beleza da escrita, como pela elegância com que a história é narrada. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

sábado, 18 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume III

Que se poderá dizer de um volume de um romance que é constituído pelos capítulos rejeitados pelo escritor para completar o anterior tomo, mais aqueles que ele escreveu para dar a continuidade à história mas que não concluiu antes de morrer e ainda os esboços de versões de capítulos que davam um rumo muito diferente aos acontecimentos antes publicados e alterados por Musil?
É assim o terceiro volume de "O homem sem qualidades" que termina com prefácios e posfácios do autor à sua própria obra em estilo de crítica ao romance.
A verdade é que o volume III tanto pode ter capítulos fastidiosos por serem sobretudo de uma inércia de repouso associada aos mais alto estado a que o amor pode chegar que inibe a ação, onde se aproveita para por em confronto ideias, sentimentos e conceitos filosóficos, como pode ser emotivo e entusiasmante ver versões alternativas mais arrojadas de dar continuidade à história que Musil se inibiu de seguir, não sei se por questões de moral, se por desembocarem num beco, e ainda é divertido ler textos preliminares dos capítulos anteriores não corrigidos nem ampliados nas suas fases primitivas e com anotações antes da serem fixados no romance.
Na verdade o romance não foi concluído, mas existem versões que concluem as principais partes não rematadas anteriormente, outras que as reabrem e o mundo da reflexão filosófica e suas contradições é posto à prova. Confesso que gostei, não consegui deixar de a ler, mesmo aquelas partes que parecem discussões etéreas intermináveis... mas nunca serão capítulos fáceis.
O amor/paixão entre os dois irmãos num estado de inação nos capítulos tornados definitivos, muito platónico e pouco sensual, fez-me lembrar o sexto andamento da Sinfonia Turangalila de Messiaen "Jardin du sommeil d'amour" que integro abaixo.

domingo, 12 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume II


O volume II de "O homem sem qualidades" apesar de publicado três anos depois, vem em perfeita continuidade do primeiro, tendo como principal particularidade a introdução da irmã de Ulrich, fisicamente muito semelhante a este, que funciona como um avatar do protagonista para desempenhar o comportamento contrário dele. Embora esta levante as mesmas questões filosóficas ao irmão com a profundidade característica da obra e não pareça discordar dele, na prática, a imperfeição dos seus impulsos não a impede de agir contra a moral e valores defendidos de modo consciente.
Assim, se no primeiro volume as discussões e os problemas de moral bloqueiam o agir e as decisões, no segundo, apesar de se analisar os temas como as questões de moral, as preocupações do espírito e da alma de um povo como num ensaio, mesmo perante as contradições no mundo sobre as ideias e as múltiplas culturas do império Austro-Húngaro, agora, num clima de exaltação, tomam-se posições e a palavra de ordem é: ação.
Neste confronto irmão-irmã que se completam, sente-se que se vai desenvolvendo um sentimento fortíssimo que roça a paixão ou mesmo o amor, oculto à sociedade, pois tal seguramente vai contra todos os seus princípios e mesmo dos seus intervenientes, ficando em aberto para o volume seguinte a tentativa de resolução das consequências das decisões e ações tomadas no fim desta parte do livro.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

"O homem sem qualidades" de Robert Musil - Volume I



"O homem sem qualidades" de Robert Musil é um extenso romance de ficção cujo primeiro volume foi publicado em 1930 e reflete sobre as contradições do império austro-húngaro e da aristocracia em Viena que vive em torno do protagonista Ulrich e de um evento para assinalar de forma única os 70 anos de reinado do imperador Francisco José e deste modo marcar a importância do país no mundo e, a apesar do peso da cultura germânica, a sua distinção do ser alemão da Prússia.
A obra tem a particularidade de, com a guerra a insinuar-se, os personagens alheios à ameaça mergulharem em debates filosóficos sobre o bem, o mal, a diferença de alma e espírito no indivíduo e na sociedade, a importância das ideias e o papel da cultura e da moral, bem como a evolução destes aspetos no tempo até à época dos acontecimentos. Nesta dissertação o romance faz uma ponte entre a pura ficção e o ensaio, onde se destaca Ulrich,  o homem sem qualidades devido à profundidade com que aborda as temáticas e busca da perfeição e exatidão que lhe impede a ação, à semelhança do que acontece ao nível das decisões no seio da organização das celebrações, o que permite fechar um ciclo de pensamento neste volume.
Pela profundidade filosófica, ideias abstratas e personagens contraditórios, o romance evolui lentamente e com uma grande densidade de conceitos e pensamentos históricos, que, apesar de magnificamente escrito, dificultam a apreensão de todas as questões e justifica o facto de ser uma obra de culto erudito.