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sábado, 9 de fevereiro de 2019

"Mistérios" de Knut Hamsun


"Mistérios" do noruguês Knut Hamsun, vencedor do prémio Nobel da literatura, apesar de publicado no final do século XIX parece uma obra muito mais recente pelo estilo de escrita, estrutura das personagens e trama. É um romance de uma modernidade que pode mesmo ter feito evoluir a história da literatura desde então, apesar de fácil leitura é incómodo, pois lança questões sobre como vivemos em sociedade, como somos, só que não nos descansa com respostas.
Nagel decide de repente desembarcar numa pequena cidade costeira de fiorde que o impressionou durante a estação de verão caracterizado por períodos de dias longuíssimos ou as populares noites brancas. Instala-se então num hotel e aos poucos vai conhecendo as pessoas daquela comunidade, sobretudo com o auxílio de um pobre inválido de um acidente profissional que é usado e abusado pela população em geral e chamado de Anão.
Aos poucos vão-se revelando as fragilidades e os defeitos pessoais mesquinhos de vários habitantes, bem como comportamentos estranhos, enquanto Nagel, propositadamente, vai dando uma imagem dúbia e contraditória de si mesmo e contando pormenores fantásticos e góticos da sua vida perturbando toda a população e semeando a desconfiança em cada um por sentirem ameaçados os seus segredos. Depois desta semente de discórdia ele próprio decide sair de cena, deixando-nos igualmente sem compreender esta forte personagem enigmática e cheia de mistério e sem dúvida tornando-se num fantasma na memória da cidade.
Bem escrito, Hamsun num discurso de contraditórios vai fazendo uma denúncia de vícios estratégicos de alguns líderes políticos europeus de então e vai colocando a nu a fragilidade humana no relacionamento social, onde reina uma hipocrisia pública perante defeitos privados que de todos são conhecidos, mas que as obrigações de bom relacionamento impõem e condicionam a sociedade, que podem tacitamente servirem de arma de arremesso sem ser efetivamente usados.
Deverá ter sido a originalidade de Hamun em desenvolver narrativas como estas que deve ter servido de justificação ao Nobel, pois olhando para a literatura da época é uma obra muito à frente do seu tempo.

sábado, 27 de maio de 2017

Elegia para um Americano - de Siri Hustvedt

Nunca ouvira falar de Siri Hustvedt, mas ao ver elogios ao seu romance: "Elegia para um Americano", por gente que reconheço como exigente e apreciadora de boa literatura, esta escritora, cujo nome não soa a americano (descende de imigrantes da Noruega) e mulher do famoso Paul Auster, despertou-me curiosidade suficiente para ler esta obra e deparei -me com uma boa e original obra literária.
Erik, um psiquiatra de Brooklin a sair de uma situação de divórcio, após a morte do pai, de origem norueguesa, numa pequena cidade no Minnesota, descobre junto com a irmã notas e um diário deste; papeis que servirão para o conhecer melhor e deparam-se com a existência de um segredo antigo que com sua irmã tentarão descobrir. No regresso à NY, Erik na sua solidão recente,  aluga um anexo a sua casa a uma mãe jamaicana por quem começa a sentir-se atraído, esta tem uma criança que se aproxima dele, mas todos ficam sob pressão do pai de sua filha um artista fotógrafo.
A partir deste início há uma série de textos e análises psicológicas (não há capítulos) que ora são transcrições do diário (em nota final descobre-se serem mesmo reais e pertencentes ao pai da escritora recentemente falecido); ora são reflexões e descrições de aproximação à hóspede e das ameaça do fotógrafo; ora narrativas de situações sobre a instabilidade emocional da irmã: viúva de um escritor famoso e alvo de pressão com a descoberta de uma passada relação extraconjugal deste e existência de pessoas a pretender tirar proveito, enquanto, como mãe, tenta poupar a filha, uma adolescente que desperta para o mundo adulto e suas contradições; incluindo ainda exposições dos casos dos doentes psiquiátricos de Erik e dos aconselhamentos com colegas de profissão sobre a sua situação e ainda outros relacionados com a investigação do segredo guardado pelo pai.
Assim, em vez de uma trama linear, Siri Hustvedt cria uma árvore com múltiplas raízes e ramos que constroem uma unidade completa e onde se aborda os problemas da solidão urbana, das relações pais, filhos, esposos e complexos de culpa que se criam nestas uniões e desuniões; bem como as dores de crescimento humano que dão um retrato profundo da alma social e das pessoas.
Sou de opinião que só um excelente escritor consegue criar uma personagem completa e credível de sexo diferente do seu, mais ainda, como homem, sinto mais habilitado a reconhecer esta capacidade se estamos perante uma autora que cria um protagonista masculino com pormenores suficientes para o termos não só na imagem de macho em sociedade, mas o conhecimento do seu íntimo. Siri faz isto com uma perfeição e elegância a que não estou habituado, evidenciando que tem grandes méritos que fazem com que o dom literário se deva à sua genialidade e não à sombra da notoriedade do marido.
Não se trata de uma construção literária alegre, o próprio título em português e em inglês "The sorrows of an American" denunciam isso: a solidão individual atravessa toda a obra, bem como as dificuldades no relacionamento entre as pessoas e a compreensão do comportamento do outro, mas é uma magnífica peça literária cheia de conteúdo introspectivo sem facilitismos comerciais. Recomendo a quem gosta de um bom livro pelo seu valor literário.

domingo, 17 de maio de 2015

"FOME" de Knut Hamsun


Compreendo que "Fome", do laureado norueguês com o prémio Nobel Knut Hamsun, publicado no distante ano de 1890, tenha provocado uma revolução literária na época onde na literatura se cruzavam as influências naturalistas de Zola e realistas de Balzac, pelo as questões sociais enquadravam as tramas da ficção, mas eis um romance onde protagonista, no início da sua carreira de escritor, opta por sobreviver com fome e tentar escrever artigos para os jornais na perspetiva destes os aceitarem e daí obter rendimentos que lhe permitam comprar o seu sustento e alojamento.
A fome passa então a ser a principal companheira do artista, que vai relatando a sua vagabundagem miserável pelas ruas de Kristiania (Oslo), descrevendo as suas sensações físicas fruto da sua carência, os contactos com personagens da cidade e, sobretudo, salientando a sua dignidade, onde se recusa a pedir ou a aceitar esmola ou até em ser beneficiado por um ato que considere manchar a sua dignidade, lutando pela preservação da sua honra e correção, embora por vezes se martirize por deixar-se cair em tentações e maldades. 
Assim a sua vida de fome por vezes é interrompida por algum trabalho aceite e pago, outras vezes quase desfalece por imperativo da fome, mas chama a si todas as culpas do seu mal, não há um juízo social, não há denúncias de imperfeições do sistema em que vive. São divertidas a sua forma de ironicamente perder as oportunidade de se alimentar no seu esforço de preservar a sua dignidade, mesmo com roupa por lavar e com falta de peças para completar o seu vestuário e no fim da obra, uma saída talvez surpreendente para quem acompanhou este homem de que nunca se chega a saber o seu verdadeiro nome. Gostei, é de fácil leitura e recomendo.