quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"O Retrato" de Nicolai Gogol


"O Retrato" do escritor russo do século XIX Nicolai Gogol, será mais um conto do que romance, dividido em duas partes: na primeira um pintor com talento, mas em dificuldades financeiras, cruza-se com um retrato inacabado num antiquário e fica fascinado pela força com que os olhos da pintura o fixam e consegue comprá-lo, só que a força desse olhar e um acontecimento, que parece fortuito, virão mudar a sua vida, dando-lhe nome como profissional, mas mediocridade no aproveitamento dado ao seu dom. Na segunda, compreender-se-á a origem da pintura e a razão da maldição que transportam esses olhos.
Não sendo uma obra que navega no mundo do fantástico, este insinua-se, tanto pelos efeitos nefastos que o quadro provocou no pintor, como na suposta transposição para a pintura dos efeitos do mal do agiota retratado.
"O Retrato", mesmo sem ser considerado a obra-prima de Gogol, neste conto, ele aborda a ideia de que é fulcral a arte contribuir para a edificação do Homem, sendo que o uso dos talentos para outros fins menos nobres um desvio deste objetivo, o qual pode ter reflexos na propagação do mal. Em paralelo, está também patente o conceito de ligação da origem do mal às causas e agentes de injustiça social, provavelmente uma influência das ideias políticas veiculadas pela revolução francesa, onde o "pecado" contra os mais pobres e desfavorecidos passa a ter uma relevância na moral muito mais forte do que no passado.
Muito bem escrito, como é característico da escola russa daquele século, e de fácil leitura, este conto é, sobretudo, uma alegoria ou parábola sobre o contributo da arte para moralização do Homem e uma crítica contra a injustiça social, preocupações que se refletirão noutros escritores como Dostoievki, Tchekhov e Tolstoi e assim se compreende porque Gogol está entre os génios literários mais influentes da Rússia. Gostei e recomendo.

4 comentários:

Pedrita disse...

esse eu não li. só li almas mortas do gogol. gostei muito dessa capa. parece muito interessante. beijos, pedrita

nuno martins disse...

Gogol é talvez o meu "Russo" preferido, aliás ao nível dos contos prefiro-o do que ao Tchecov, já li o "Almas Mortas", o "Noites na Granja ao pé de Dikanka" e os "Contos de São Petersburgo".

Kelly Oliveira disse...

Ainda não tive nenhum contato com a literatura Russa, é uma dívida comigo mesma que tenho a quitar. Vou procurar esse conto, quem sabe eu não começo por ele...

Carlos Faria disse...

Eu sou um fã da literatura russa do século XIX, este pode de facto ser uma porta de entrada relativamente fácil para um mundo imenso a explorar com pesos pesados como Dostoievski e Tolstoi