terça-feira, 16 de agosto de 2016

"História do Cerco de Lisboa" de José Saramago


"História do Cerco de Lisboa", do único laureado com o prémio Nobel da literatura de língua Portuguesa, José Saramgo, começa com um diálogo entre um revisor de textos e um autor de um ensaio de história em revisão relativo ao cerco de Lisboa no tempo de Dom Afonso Henriques na conquista da cidade aos mouros, um diálogo onde se reflete a importância do revisor naquilo que é publicado e se fala do sinal gráfico "deleatur" que indica corte de letras ou palavras no texto a publicar.
Após esta introdução, o revisor, contra todas as regras deontológicas da profissão, altera o texto do ensaio citado, não através de um deleatur, mas introduzindo um "não" numa verdade histórica que modifica o enquadramento deste evento dos inícios de Portugal.
Ficou então aberta a oportunidade para o romance passar a conter uma reflexão sobre o papel daqueles que intervêm no "moldar" a narração do passado histórico de um País, como, do protagonista ser desafiado a recontar a história do cerco de Lisboa alterada por aquela palavra, mas condicionado aos resultados finais do passado que moldam o presente. Deste modo passam a desenvolver-se duas estórias: a histórica, alterada e conciliada com a reinterpretação crítica e irónica de crónicas da época, onde não falta o tempero do amor cujo desenvolvimento o revisor controla e direciona e a outra no tempo atual, de onde lhe nasce uma que não controla e resulta da transgressão.
Saramago aproveita no cruzar destas estórias desfasadas no tempo para falar de Lisboa, dos vestígios daquela época na atual cidade,e para criticar mentalidades, perceções, preconceitos e os ajustamentos que a História sofre em função da religião e cultura de quem narra ou tem o poder de moldar a comunicação do conhecimento do passado face aos interesses do presente. Saramago aproveita ainda para utilizar em estórias diferentes e relatos das "fontes" escritas de estilo de narrativo distinto  e uso de várias forma ortográficas sintáticas que acrescentam uma grande riqueza ao texto.
É sem dúvida um excelente exercício criativo e uma reflexão sobre os primórdios da história de Portugal e abordagem de questões sociais de hoje, cheio de informações e de ironias subliminares, sem deixar de ser uma obra ao estilo de Saramago nem sempre fácil de ler e de abarcar tudo o que é díto nas entrelinhas. Gostei e recomendo sobretudo a quem aprecia a prosa deste escritor como é o meu caso.

6 comentários:

Pedrita disse...

eu adoro esse autor, mas esse eu não li. mais um pra lista a ler. beijos, pedrita

Denise disse...

Um dos (poucos) livros do autor que ainda não li. Na lista :)

Boas leituras Carlos

olhodopombo disse...

Eu nunca li nada do Saramago....
Respondi seu comentario lá no abrkdbra-coisasdavida

Carlos Faria disse...

Pedrita e Denise, romances também me faltam poucos para ler, mas ainda não os li todos, de teatro e poesia não li nenhum e também não li as memórias que estão nos cadernos de Lanzerote.

Olho do Pombo, não é um autor com uma escrita fácil, por isso recomendo-lhe que comece com uma obra pequena, por exemplo Intermitências da Morte ou a Viagem do Elefante, só depois entrar em obras bem mais densas se gostar dos recomdendados.

nuno martins disse...

"A História do Cerco de Lisboa" e o "Ano da Morte de Ricardo Reis" são os meus livros preferidos do Saramago.

Carlos Faria disse...

Os dois livros que citou talvez sejam literariamente os mais engenhosos e criativos de Saramago.