terça-feira, 30 de agosto de 2016

Reflexões sobre Bernardo Soares e sua poesia


Fernando Pessoa continua a ser para mim uma caixinha de surpresas, apesar de há tantos anos ler a sua obra, sob os mais variados heterónimos, nunca consegui esgotar novidades nos seus textos.
A coletânea de textos em prosa que constitui "O livro do desassossego", escrito sob o nome de Bernardo Soares, se tirar a Biblia, é sem dúvida a obra que ando há mais tempo a ler e nunca parei, está sempre à minha mesinha de cabeceira. Hoje leio um pouco, depois paro uns dias e mais tarde regresso a ela, e mesmo quando repito textos tenho sempre a sensação de estar a ler algo de novo e encontro sempre qualquer parágrafo que me fascina e releio como se fosse a primeira vez.
Apesar disso, só hoje descobri que Bernardo Soares também tem poemas e naturalmente nestes se sente aquela lassidão, indecisão do observador atento, que analisa o pormenor e discute a sua atitude e aqui vai um que testemunha esta personalidade.

Loura a face que espia
Cose, debruçada à janela,
Se eu fosse outro pararia
E falaria com ela.

Mas seja o tempo ou o acaso
Seja a sorte interior,
Olho mas não faço caso
Ou não faz caso o amor.

Mas não me sai da memória
A janela e ela, e eu
Que se fosse outro era história
Mas o outro nunca nasceu...

3 comentários:

nuno martins disse...

Também adoro Pessoa, leio e releio sem nunca me cansar e o "Livro do Desassossego" para mim é o expoente máximo do seu génio, tenho várias edições e também o gosto de o ler aleatoriamente, curiosamente hoje no "The Guardian" saiu uma reportagem sobre Pessoa e o "Livro do Desassossego"

Pedrita disse...

comigo acontece o mesmo. é fantástico! beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Nuno
O Livro do Desassossego é de facto genial, só tenho uma edição compilada na ortografia da época o que torna o desafio maior quando ele brinca com as palavras e a sua forma e eu que não sabia mesmo que esta personalidade também fora poeta e quem lê o livro vê que este poema foi escrito pelo mesmo autor daquela genial prosa.

Pedrita
Um livro que se pode ler como se quiser que é sempre fantástico e novo.