segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"O Sol Nasce Sempre" ou "Fiesta" de Ernest Hemingway


"O Sol Nasce Sempre", também intitulado noutra edições por "Fiesta", é um dos romances mais icónicos do laureado norteamericano com o Nobel da literatura Ernest Hemingway, embora talvez, para alguns leitores, seja moralmente dos mais difíceis de digerir, tendo em conta a sua componente hedonista ou, para os mais exagerados até niilista, e é uma obra muito diferente das outras que já li deste autor, nomeadamente as duas aqui e aqui faladas.
O romance narra, na perspetiva de um elemento pertencente a um grupo de amigos americanos e ingleses, que goza a vida passando uma temporada em Paris, homens e mulheres que procuram tirar o proveito máximo da noite boémia desta cidade onde confluem artistas plásticos, escritores e "bon-vivants", sem grandes planos que não seja usufruir desta liberdade de pensamento e divertimento, do sexo e álcool que marcou os anos loucos das décadas entres as duas guerras mundiais na capital francesa.
Este estilo desemboca também em vazio e incompatibiliza-se com sentimentos humanos como o amor e paixões de momento que brotam deste convívio sem compromissos, fidelidades mais tradicionais ou perspetivas de futuro. A ânsia de novas experiências num momento de saturação do que entretanto se foi disfrutando repetidamente e até à exaustão em Paris leva parte do grupo para festas de San Fermin em Pamplona, um meio muito diferente mas vivido num mesmo estilo na loucura daquelas festividades.
De uma forma que até parece despretensiosa, pelo estilo quase jornalístico da narração, conta-se assim o estilo de vida de uma geração de jovens hedonistas que aproveitam para gozar ao máximo o dia-a-dia, sem planos para o futuro e sem a restrições que o convívio social obriga. Diria que se "On the road" de Kerouac está para a geração beatnik nos anos 1950/60, "Fiesta" está para a geração louca e despreocupada dos anos 1920/30, duas denominadas por alguns "gerações perdidas". Se o primeiro, bem mais recente, mostra muito do modo de viver do seu autor, o gosto pelo estilo de vida preferido de Hemingway está nesta sua obra e a sua paixão pela "arte" tauromáquica está magnificamente tratada neste romance que foi sem dúvida o maior cartaz de sempre daquele festival a mundialmente famosa corrida de touros de San Fermin... a "fiesta".
Para quem pense que este livro é amoral, está errado, os riscos deste hedonismo estão bem expostos sem ser necessário narrar uma história que julgue as personagens ou dê uma lição de moral. Gostei.

7 comentários:

Pedrita disse...

no brasil está como o sol tb se levanta. eu gostei muito e li faz tempo. confesso que achei estranha a foto da capa. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

A foto de capa é uma espécie de fogo de artifício popular que existe por cá, não sei se também é comum em Pamplona, mas no livro falam de fogo de artifício lançado no seio das pessoas que estão a assistir à fiesta.

Manuel Cardoso disse...

É um dos meus escritores favoritos. Talvez um dos maiores mestres na arte de bem compor a escrita. E, como dizes, muito versátil. Este é o livro mais "marado" dele :)

Carlos Faria disse...

Talvez não seja um livro marado, mas sim um retrato de personagens maradas sem preocupações de as julgar.

Manuel Cardoso disse...

Sem dúvida. Era mais isso que eu queria dizer :)

nuno martins disse...

Um livro diferente de Hemingway mas que não deixa de ser ele mesmo, uma espécie de autobiografia e um bom relato da vida desses jovens do início do séc XX que depois de uma guerra atroz quiseram pôr o modo de vida antigo para trás e viver para o futuro... Infelizmente o futuro não foi muito bom para a maioria deles...

Carlos Faria disse...

Concordo plenamente com o que disse Nuno Martins.