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sábado, 28 de outubro de 2023

"Cem anos de solidão" de Gabriel Garcia Marquez

 

Citação

"o segredo de uma boa velhice não é mais do que um pacto honrado com a solidão."

Apesar de ser um grande leitor, não sou dado a releituras, que me lembro "Cem Anos de Solidão", do colombiano e prémio Nobel da literatura Gabriel García Marquez, é o terceiro romance que releio, neste caso passados 35 anos de quando o li pela primeira vez e é talvez a obra emblemática deste escritor.

José Arcadio Buendía e sua esposa Úrsula com mais um conjunto de homens e mulheres partem da sua terra em busca do mar e perdem-se na floresta amazónica e criam a sua aldeia Macondo isolada do mundo e apenas visitada por artistas de circo que comunicam os seus saberes mágicos que José Arcadio se deixa aliciar e no qual investe os parcos rendimentos do casal. Começa então a história desta família marcada pela pobreza, magia, solidão e guerra que se estende por 7 gerações de amores, traições, incestos, loucuras, guerras, vitórias, derrotas, sucessos e superstições num mundo em que ocorrem invenções tecnológicas e revoluções políticas e económicas cujos ecos chegam e perturbam progressivamente Macondo e as relações humanas desta terra perdida na floresta entre a realidade, a magia e os espíritos dos mortos.

Numa narrativa que criou o estilo do realismo mágico, o autor encadeia um conjunto de acontecimentos e loucuras a ritmo alucinante onde se conta a vida das várias gerações de Buendías, marcados pela personalidade mais terrena e alquímica dos Arcádios ou mais guerreira e social dos Aurelianos, sempre sujeita à força das mulheres e amantes que a integram ou que com ele se cruzam. Assim, de uma forma indireta, se denunciam as injustiças sociais da América Latina, se fala das revoluções políticas de que o continente foi alvo e de cujos frutos nunca responderam às esperanças revolucionárias e onde a pobreza e superstição apenas permitem uma vida de um povo marcada pela solidão e superstição.

Um romance que é um clássico e uma obra incomparável pela sua originalidade e força, onde o leitor se perde entre gerações com nomes iguais, entre a realidade e a magia, entre a esperança e a desilusão e entre a busca do outro e a solidão. Uma obra que deve ser lida por todos os que amam a literatura ficcionada como arte que combina a narrativa, a criatividade e explora os limites da escrita, enquanto monta um retrato da realidade sem o fotografar. Um excelente livro

sábado, 14 de outubro de 2023

"Os comedores de pérolas" de João Aguiar


Citação

 "Ou andamos todos a puxar uma nora sem dono ou estamos todos na mão de Deus."

Ao fim de vários anos regressei a João Aguiar, um jornalista e escritor português de quem lera romances históricos passados em território nacional antes do nascimento de Portugal e com heróis reais pré-nacionalidade de que muito gostei pela informação fornecida sobre esses tempos. Agora leio numa obra publicada em 1992 passada em Macau já na sombra da transferência da administração deste território para a China que decorreu em 1999.
Em "Os comedores de pérolas" o protagonista, Adriano, um jornalista que na sequência de uma luta via profissional por uma causa ambiental entra em depressão é lhe recomendado aceitar um trabalho de analisar o espólio de um antigo comendador de Macau, com documentos em português, chinês e inglês, para daí se publicar um livro sobre a vida desse homem de há um século atrás e patrocinado por um seu descendente. Só que rapidamente Adriando se apercebe que nesses documentos há segredos e existem aspetos cujos tradutores falseiam o conteúdo para esconder envolvências com mafias chinesas, contrabando e tráfico humano e começa a sofrer pressões para preservar o bom nome do magnata e sua mulher.
A situação agrava-se quando com incidentes e assassinatos descobre que ele mesmo está em risco de vida e à sua volta existe uma teia de espiões ao serviço do neto do Comendador que financia o seu trabalho.
Os comedores de pérolas é de facto um romance de investigação e ação do género literário de suspense ou tríler, que nem falta a mulher por quem o herói se encanta, cuja tensão vai aumentando à medida que a narrativa avança em forma de diário irregular do protagonista. Nas notas existem reflexões sobre o fim da presença de Portugal em Macau e a sensação de amargura do declínio do império e descrições sobre a mistura de culturas neste território, o património em risco devido à transição administrativa da cidade, referências a locais emblemáticos e a realidade das redes mafiosas designadas de seitas ou tríades.
Uma escrita mais jornalística do que embelezada por figuras de estilo literário e não muito pretensiosa, mas uma obra que vale a pena ler pela facilidade de cativar, daí ter sido um sucesso editorial na época, enquanto vai colocando as preocupações culturais associadas à retirada de Portugal deste território pequeno face a Hong Kong. Macau, que já visitei e por isso percebi a razão de ser de tais alertas: uma terra que oficialmente ainda usa a língua Portuguesa, mas onde, de facto, praticamente ninguém fala uma palavra do vocabulário de Camões, apesar de um núcleo com o património arquitetónico bem preservado e classificado pela UNESCO. Gostei do romance, fácil e recomendo a quem gosta do género de investigação e ação

domingo, 8 de outubro de 2023

"Quarteto de Havana II - Paisagem de Outono"

 

Terminei o quarto e último romance policial do "Quarteto de Havana", intitulado "Paisagem de Outono" e escrito pelo cubano Leonardo Padura.

O designado "Quarteto de Havana" corresponde a um conjunto de 4 romances independentes, todos decorridos ao longo das 4 estações do ano de 1989 e sempre protagonizados pelo polícia de investigação criminal: o tenente Mario Conde. Este vive a sua carreira profissional de forma frustrada perante a corrupção e injustiça que assiste no seu país, afogando a sua mágoa no vício do álcool, nas memória da sua grande paixão de juventude e no convívio com os seus amigos do ensino pré-universitário e sempre a sonhar no seu desejo de sempre: ser escritor.

No presente romance, que decorre no outono, Mário Conde sabe da demissão do seu superior com quem mantinha uma grande relação de confiança e sabia ser um incorrupto. Por isso, decide abandonar em definitivo a profissão, mas é chamado pelo novo chefe que só aceita a sua demissão na condição de descobrir quem assassinou, castrou a atirou ao mar Miguel Forcade: um fugitivo de Cuba que fora um antigo responsável pela gestão dos bens artísticos da burguesia expropriada pela Revolução, mas que agora visitava o país na sequência de uma autorização para ver o seu pai muito doente.

O Tenente aceita o desafio e em pouco suspeita que a vinda estaria relacionada com o objetivo de tirar de Cuba uma obra de arte valiosa que o enriqueceria no exílio, e a morte talvez uma vingança de despojados no passado ou de alguns dos envolvidos na operação de resgate de peça valiosa, incluindo a mulher dele, uma loura bem mais jovem que desperta o interesse do detetive, tudo isto decorre nas vésperas do aniversário de Mário Conde e sob a ameaça de um furacão se abater sobre Havana.

A obra de Padura costuma rechear-se de denúncias dos problemas sociais e falhanços do sistema político que instalado em Cuba com a revolução e este romance não é exceção. Entre investigações há sempre as referências à pobreza vivida no país, à corrupção que mina a economia e as dificuldades de expressão devido à falta de liberdade que se suavizam pelo álcool, imaginação gastronómica para vencer o racionamento e a sexualidade intensa das personagens cheias de memórias.

Gosto deste escritor quando envereda por relatos históricos como nos seus romances Hereges e O Homem que gostava de cães, neste livro de facto há um momento em que Padura vai às origens da peça que de facto esteve na origem da vinda de Miguel Forcade e desencadeou depois tudo o que Mário Conde, por intuição e investigação deslinda e o leva ao seu sonho. Um policial típico do autor, que é mais do que uma mera obra de investigação criminal e fácil de ler

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

"Assim começa o mal" de Javier Marías


 Citações

"Na realidade, tudo aquilo que se conta, tudo aquilo a que não se assiste, é apenas rumor, por muito que venha envolvido em juramentos de pura verdade."

"... quando se renuncia a saber aquilo que não se pode saber... talvez então assim comece o mal, mas em contrapartida, o pior fica para trás."

" O perdão não aguenta tanto como a vingança."

Regressei ao meu escritor sensação e fetiche dos último ano e meio, nunca um escritor me levou a acompanhar a sua obra tão intensamente como o espanhol Javier Marías, agora chegou a vez de um dos seus romances publicados há quase uma década "Assim começa o mal".

O jovem Juan de Vere é contratado pelo realizador de cinema Eduardo Muriel para seu secretário particular, logo de início descobre o mau relacionamento deste com a mulher Beatriz e entra em contacto com o círculo de amigos do empregador. Muriel incube o seu secretário de descobrir a veracidade de um boato sobre um dos seus amigos mais próximos de quem ouviu ter um passado desonrado relacionado com a atitude do mesmo com mulheres. O jovem não só descobre aproveitamentos relacionados com o seu poder de influência perante o regime ditatorial de Franco, como promiscuidades recentes, enquanto em paralelo verifica uma vida secreta de Beatriz e a infelicidade desta, como ainda desenvolve uma paixão juvenil pela mesma. A investigação leva ao perceber uma teia complexa de relacionamentos humanos com vingança sob o regime político subalternizava as mulheres, mentiras e abusos de poder imorais que logicamente apontam para tragédia e infelicidade.

Como sempre é a escrita o elemento que mais me cativa em Javier Marías, um narrador onde as suas histórias se desenrolam a uma velocidade lentíssima, quase paradas e travadas por uma engrenagem de reflexões sobre comportamento humano, pormenores linguísticos e tratamento de sinónimos que travam o evoluir da narrativa mas criam textos extensos riquíssimos, no caso presente também na denúncia do que foi a vida sob a ditadura e o pacto social para criar uma paz podre cheia de segredos e de reescritas do passado de muitos que permitisse a democracia se instalar até ao início dos anos de 1980 sem a vingança destruir o novo regime.

Gostei do romance, não é o meu favorito do autor, mas também não me desiludiu e como sempre a sua escrita deixou cativado na apreciação do texto, mas não é uma obra fácil e de leitura rápida.



terça-feira, 8 de agosto de 2023

As sete mortes de Evelyn Hardcastle de Stuart Turton

 


Acabei de ler "As sete mortes de Evelyn Hardcastle" de Stuart Turton" do escritor inglês Stuart Turton, sabia tratar-se de uma obra enigmática e de investigação criminal, mas pouco mais sabia do romance.

Alguém desmemoriado perdido numa floresta segue uma ordem de ir para leste com uma bússola, recorda que assistiu ao assassinato de Ana, nada mais, na sua rota chega a uma casa senhorial, isolada, mal conservava e é reconhecido e acolhido como um dos convidados de uma festa privada. Nesta, ao final da noite ocorre numa encenação de suicídio o assassinato da filha dos anfitriões e dá-se a situação de o protagonista estar obrigado a deslindar o caso para poder sair da mansão, mas a realidade está muito além de uma simples investigação e Aiden Bishop não é um simples indivíduo único, pois o dia volta a repetir-se com o mesmo desfecho e festa até ser desvendado o criminoso, havendo quem faça tudo para impedir o seu sucesso, incluindo a matando os eus de Bishop e procurar matar Ana.

Aquilo que inicialmente parecia uma simples trama linear de crime e investigação, veio a revelar-se num romance gótico com crime, castigo num mundo surrealista. Sobre o ponto de vista de escrita, o texto está cheio de frases e ideias para recordar e fazem pensar... mas as repetições dos acontecimentos com mudanças subtis à semelhança de uma obra uma musical com tema e variações, tecem uma malha que embora mantenha o suspense, vai-nos surpreendendo. Gosto de obras góticas no domínio do terror, já de investigação criminal com surrealismo ou fantástico deixou-me incomodado... mas para quem gosta do estilo de narrativa é um excelente puzzle eo texto é riquíssimo para muitos sublinhados.


domingo, 18 de junho de 2023

"Estorvo" de Chico Buarque

 

Li o romance de estreia "Estorvo" do cantor e escritor brasileiro Chico Buarque e galarduado com o prémio Camões. Tinha esta obra integrada numa coleção que comprei e associada a uma assinatura de um jornal.

Na transição entre o sonho e a realidade de um acordar com o toque da campainha, o protagonista vigia quem pretende ir ao seu apartamento, num vislumbre reconhece mas não lhe abre a porta. Regressa então à cama e entramos numa espécie de delírio entre memórias e uma peregrinação de uns dias onde todos os momentos narrados sucessivos corresponde a uma mistura da realidade presente e recordações de factos, desde ao visita à ex-mulher, ao roubo da irmã numa casa de sonho, passando por mala de estupefacientes e visitas a uma casa de infância ocupada por gente muito estranha.

Num texto poético que parece um delírio, é de facto uma obra estranha, mas que depois de começar a ler, li compulsivamente embora mais me parecer o evoluir de um sonho cheio de factos do que uma narrativa linear. Gostei embora por vezes me sentisse perdido num surrealismo cujo o texto me deu prazer de ler.

sábado, 10 de junho de 2023

"Entre dois Palácios" de Naguib Mahfouz

 

Citação
"É impossível escapar a uma desesperança insondável"
" A fé é mais forte que a morte e a morte é mais nobre do que a humilhação."

Neste momento estou numa fase de forte redução do tempo disponibilizado à leitura, pelo que, levei dois meses e meio a ler as 609 páginas do romance "Entre os Dois Palácios", o primeiro da denominada "Trilogia do Cairo", escrito pelo autor egípcio, laureado com o Nobel da literatura, Naguib Mahfouz.

Este romance conta a vida dos membros da família Ahmad Abdel Gawwad, composta pela subserviente segunda mulher e os cinco filhos dele durante o período da I Grande Guerra Mundial  e vai até à revolução de reivindicação da independência do Egito. Um período de transição em que o país está ocupado pelo ingleses e os Turcos do império Otomano já deixaram o território e a nação muçulmana anseia por se libertar da tutela estrangeira cristã.

O líder da família é um importante comerciante influente e respeitado no seu bairro, mas tem duas personalidades: a primeira gere a família com um feroz conservadorismo e obediência à fé muçulmana, retém em casa a mulher e filhas sem qualquer contacto social e impõe aos filhos uma obediência cega às suas diretrizes e apesar de dois deles serem maiores tal não impede o uso da violência física e psicológica. A segunda personalidade é a de um dissoluto com mulheres, apaixonado pela música e poesia e viciado em álcool.

Apesar do terror imposto por sayyed Gawwad, os elementos da família tendem a desobediências e a esconder esses factos, desde o primogénito filho de um primeiro casamento que segue as pisadas do pai na sua vida fora de casa, a uma filha demasiado agressiva na linguagem e a outra de excecional beleza que se quer mostrar, passando pelo idealista Fahmi com ideais políticos de participação na revolução e ainda criança a Kamal que inocentemente desrespeita as regras e se torna mascote de ingleses que ocupam a rua. Exceção para a subserviente mulher, que apenas por um deslize aliciado pela família será alvo de um castigo desproporcionado.

O romance, ao retratar a intimidade desta família, inclusive o pensamento das suas personagens, mostra a cultura egípcia, a mentalidade tradicional das suas gentes, o peso da religião islâmica nas relações humanas e na formação da personalidade. Não faz julgamentos sobre o certo ou o errado de forma evidente, mas ao salientar a hipocrisia, põe a nu uma sociedade patriarcal onde a mulher não é livre, nem tem voz, mas também onde esta inclusive não só aceita essa secundarização, como até se choca com outras que têm maiores liberdades.

A situação também está evidente na tradição dos casamentos negociados pelos mais velhos e não por escolha pessoal dos envolvidos, da imposição do patriarca aos filhos, além das formas como certos personagens contornam a imposição religiosa e moral mantendo as aparências social, sem omitir a exposição do caminhada para a independência deste povo dominado por estrangeiros. O romance mais do que denunciar, serve para reflexão do leitor e compreensão das diferenças culturais entre ocidente e o médio oriente islâmico.

Com numerosas referência ao Corão está-se perante uma narrativa que junta uma trama e informação histórica, com textos, por vezes, com parágrafo muito extensos intercalados com diálogos, onde há um uso de metáforas bem distintas das que podem brotar na cultura ocidental. Um excelente romance que desperta interesse para a continuidade da leitura dos volumes seguintes para completar a saga familiar e compreender a história do Egito na primeira metade do século XX.

domingo, 23 de abril de 2023

23 de abril - Dia Mundial do Livro

Todos anos, é neste dia comemorativo que apresento os livros que considerei as minhas maiores leituras ao longo de um ano desde a comemoração anterior. Fruto de alterações na minha vida pessoal, reduzi drasticamente o tempo e mesmo nalguns momentos a disposição para leituras, mesmo assim, aqui vão duas obras que me marcaram.

Livro mais marcante

O teu rosto amanhã de Javier Marías

Três volumes para uma extensa, densa e original obra-prima com uma escrita muito rica, nem sempre fácil para todos, cheia de apreciações linguísticas e sinónimos que compara a língua e cultura de Cervantes com a de Shakespeare, mas pela proximidade da primeira à de Camões, pouco perde na sua tradução para o português. Uma obra que mistura ficção e personagens reais que entra pelo mundo dos serviços secretos e seus potenciais abusos e questões morais entre as limitações legais e a segurança pública. Um misto de espionagem e tratado filosófico sobre ética, psicologia e moral que me colocou fã e leitor compulsivo do autor.

Os três volumes sucessivamente tratados neste blogue aqui, aqui e aqui.

Literatura em Português


Pela sua originalidade e facilidade de leitura, ternura e juntar o mundo luso atual e a forma de pensar nipónica, gostei e foi uma excelente surpresa, por isso classifico-o como o romance escrito em português originalmente que mais gostei.

Falei dele aqui.

Para já, votos de boas leituras e descobertas no mundo fascinante dos livros nas suas mais diversas formas: ficção, poesia, divulgação científica, ensaio, fotografia, banda-desenhada ou mesmo literatura infantil. Leiam!

domingo, 26 de março de 2023

"Testemunha muda" de Agatha Christie

 


Voltei aos romances policiais da mestre inglesa Agatha Christie, agora com um investigação de Hercule Poirot com "Testemunha Muda".

Durante a estadia em sua casa dos sobrinhos, a idosa Emily Arundell sofre um acidente que é atribuído a um descuido com um brinquedo do seu cão, mas memória desta permite desconfiar de um caso premeditado vindo dos seus hóspedes ávidos da sua herança. Semanas depois ela morre naturalmente, mas deixou todos os seus bens à sua dama de companhia, só que, entretanto, alguém expeliu para Hercule Poirot uma carta esquecida da falecida para investigar o acidente. Este entra em ação e está convencido que, apesar das aparências, Emily foi assassinada. Por qual sobrinhos e familiares ou a empregada que de repente se tornou numa rica herdeira. O nosso detetive, com as suas células cinzentas, estuda a psicologia dos envolvidos e dos seus testemunhos para chegar à verdade.

Numa escrita simples, sem grandes rasgos artísticos, eis mais um caso típico ao estilo desta autora, narrado pelo ajudante Hasting que nos mantém entretidos com a sua imaginação ao tentar perceber o que de facto aconteceu ao acompanhar o seu mestre, mas onde só Poirot consegue ligar todas as pontas. Gostei, fácil de ler e muito acessível.

quinta-feira, 9 de março de 2023

"O Primo Basílio" de Eça de Queirós

 

Acabei de ler "O Primo Basílio" do grande escritor português do século XIX Eça de Queirós, de quem tenho toda a obra, de cuja edição tirei a foto da capa. Ao nível de ficção penso que me falta apenas ler o romance "A tragédia da rua das Flores", além de diversos contos dele.

Jorge, engenheiro de minas, casou-se há poucos anos com Luísa, vivem felizes e calmamente numa casa num bairro de Lisboa onde recebem vários amigos dele, à exceção da principal amiga dela, uma mulher divertida que tem uma vida de infidelidades conhecida. Num sarau falam de política, de cultura e um dramaturgo discute o final da sua peça sobre um adultério feminino e o papel do marido ao descobrir a traição. Pelo jornal Luísa sabe que o seu primo Basílio, com quem namorara antes, visitava a cidade e enriquecera no Brasil e Jorge tem de ir para o Alentejo em trabalho. O reencontro dos primos desperta a antiga paixão, estão criadas as condições para uma relação alvo dos olhares mexeriqueiros da vizinhança, a descoberta da traição pela sua criada torna-a alvo de chantagem e as tensões e incidentes levam à interrupção da relação e a uma vida infernal. Luísa, é auxiliada pelos amigos para uma solução condigna na volta de Jorge.

Um texto realista, cheio de pormenores descritivos do vestuário, mobiliário, ruas da capital, das características das personagens, onde também se faz a denúncia sarcástica dos defeitos da sociedade lisboeta no final do século XIX. Uma época onde os constrangimentos da mulher num meio machista são postos em cima da mesa e o retrato da vida social da capital, cheia de valores morais públicos e vícios privados que convivem com a hipocrisia e o mexerico que tecem um drama que se vai tornando cada vez mais intenso.

Um romance típico do realismo queirosiano que coloca a nu os defeitos da sociedade portuguesa, mesmo na sempre provinciana capital. Pode ser interpretado como uma lição de moral ou uma denúncia da dureza do machismo face ao papel atribuído à mulher. Fácil de ler num tratamento genial da língua portuguesa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

"Tomás Nevinson" de Javier Marías

 

Regressei ao escritor que descobri e me cativou intensamente no ano passado: o espanhol Javier Marías. Agora li o seu último romance escrito antes do seu recente falecimento: "Tomás Nevinson". O título é o nome de uma personagem importante da anterior: Berta Isla, e este o da principal narradora desta obra, de quem Tomás era o marido, embora houvesse partes significativas também contadas por este e apesar da maioria da sua vida ao longo da duração do romance nos ser intencionalmente escondida. Confesso, que foi a curiosidade do ocultado que me levou adquirir este último para descobrir o que não fora relatado, só que a obra é uma sequela, continuando omissos os casos em que este narrador antes se envolvera.

Após tomar a decisão de abandonar a carreira nos serviços secretos ingleses sob as ordens de Tupra no fim do livro anterior, Tomás regressou ao trabalho oficial na embaixada e aproximou-se da mulher, sente agora os prazeres da vida comum, mas ficou-lhe o saudosismo dos tempos de ação à margem da lei e do conhecimento público e reflete sobre os males maiores que evitou com os seus atos ilegais. Mas Tupra volta a aliciá-lo para descobrir uma terrorista corresponsável de um atentando sanguinário (evento real) que se suspeita ser uma de três mulheres de passado desconhecido que vivem numa cidade nordeste de Espanha. Cede e, disfarçado de professor de inglês, aproxima-se destas, mas as dúvidas são muitas sobre qual delas é responsável de tantas mortes e as questões morais sobre a oportunidade de eliminar ou não alguém errado antes que esta possa matar de novo levantam-se. Houve quem teve a hipótese de disparar contra Hitler antes do mal que fez, será ético agir erradamente por precaução?

Este romance continua a misturar factos reais e ficcionais, bem como a levantar questões morais e éticas dos atos à margem da lei para evitar males maiores, e ainda a manter uma exposição de particularidades linguísticas que distinguem o inglês do espanhol para qualificar situações, pensamentos e comportamentos numa escrita sem pressa e cheia de sinónimos e adjetivos que criam extensos parágrafos onde se comparam expressões para referir os aspetos em discussão e, nisto, é um Javier Marías típico. Embora haja referências e menções a momentos retrospetivos relatados noutros romances do autor e repetição de personagens que já haviam surgido em O teu rosto Amanhã publicado décadas antes, esta obra pareceu-me menos perturbadora e com um desenrolar temporal mais linear e fácil de seguir. Gostei muito, mas tirando a surpresa de não descobrir as partes que buscava, não me provocou nenhum murro no estômago como outros que li dele, mas continuo fã e interessado em descobrir mais da sua obra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

"Pastoral Americana" de Philip Roth


Citação

"Uma vez iniciado o inexplicável, o tormento da auto-análise nunca mais acaba."

Há bons livros cuja leitura nos faz sofrer, a que resistimos em entrar neles e "Pastoral Americana" de Philip Roth, que com esta obra ganhou um prémio Pulitzer, é um romance que em mim teve esse efeito, aliás, este escritor tem-me provocado luta, se "O Complexo de Portnoy" não consegui concluir a leitura, reconciliei-me com ele através de "A Mancha", agora valeu a pena, mas foi difícil.

Na escola, Seymour Levov, filho de um judeu luveiro tradicionalista, é um jovem alto, louro e um herói do desporto escolar, é um exemplo de sucesso e conhecido por "o sueco". Zuckerman era então um aluno com menos idade, amigo do irmão mais novo dele e um fã, ao crescer  torna-se num escritor famoso (alter ego?) e perto dos seus 60 anos encontra casualmente o sueco e este depois agenda um jantar para falar da importância e força do pai, só que foi um fiasco, só fala do orgulho que tem nos filhos do segundo casamento. Mais tarde, num jantar de antigos-alunos, quase todos com achaques e a lembrar os seus males e desilusões (muita da dificuldade de leitura ronda este evento), o narrador reencontra o irmão do sueco, veio ao funeral deste e descobre quanto foi frágil e infeliz foi a vida de Seymour que se sujeitara a agradar ao pai e ao mundo à sua volta, querendo ser um exemplo do sonho americano e enquanto o mundo se revoltava com a guerra do Vietname e mudava, ele amarrava-se a ideias ultrapassadas sem quebrar as barreiras que os preconceitos sociais lhe impunha, até ao choque que a sua filha lhe deu com o seu temperamento de adolescente rebelde e quando descobre quão falsa era a sociedade americana  que o cercava, desilusão que é um apelo à superação que o narrador transforma em livro das desventuras do seu ex-herói destroçado por aquela América cheia de vícios, contradições e preconceitos e assim monta esta pastoral americana que mais não é que um retrato duro da história deste país em mais de meio século XX.

O texto cruza memórias do passado das personagens, relatos do antigamente da geração mais idosa e eventos e reflexões da década de 1990 face à história, montando uma análise crítica da sociedade e fazendo uma psicanálise dos anseios e desilusões das personagens. Assim, Roth monta um puzzle e faz um retrato de um derrotado e das forças americanas em presença.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

"Travessuras da Menina Má" de Mario Vargas Llosa


 Citação

"fundava a sua teoria da inevitável desintegração da humanidade devido à gangrena burocrática"

Após vários anos, voltei ao laureado com o Nobel da literatura Mario Vargas Llosa, agora com o romance "Travessuras da Menina Má". O adolescente Ricardo tem o sonho de viver em Paris e apaixona-se no seu colégio em Lima, Peru, por uma recém-chegada que se diz chilena e o aceita de forma fugidia, mas descobre-se que a moça bonita é uma menina má, envolta em mentiras com o objetivo de parecer alguém de classe alta e ser alvo de atenções e desmascarada desaparece. Muitos anos mais tarde, Ricardo torna-se tradutor da UNESCO em Paris, faz um amigo peruano que recruta compatriotas para formação revolucionária em Cuba, entre estes surge a chileninha. Ressuscita a paixão que a menina má alimenta do forma fugidia, vai para Havana e torna-se amante de uma chefia guerrilheira, eis a a vocação da mulher: buscar alguém que lhe dê um estatuto social para ter vida de rica. Inventa passados falsos, mas todas as suas conquistas acabam mal e tem sempre à espera Ricardo, o seu menino bom, que a ama e a acolhe nos interregnos de nova fuga. Uma sucessão de casamentos e amantes em capítulos, décadas, países e cidades diferentes que construirão as memórias da vida de Ricardo que por amor nunca singrou verdadeiramente na sua vida.

A obra, bem escrita e com uma história bem narrada, origina uma trama ao estilo de novela com um amor difícil do protagonista vítima da menina má. O romance vale, sobretudo, porque cada capítulo faz um enquadramento histórico, geográfico social e cultural, assim assistimos sucessivamente à vida dos adolescentes num bairro de classe média alta em Lima na década de 1950, depois a expansão dos ideais da revolução cubana nos anos seguintes na América Latina vistos a partir de uma Paris, que é então o epicentro da cultura mundial com escritores e filósofos como Camus e Sartre, a admiração internacional da canção francesa e do cinema de autor como Truffaut. Depois, tudo muda para Londres entre a década de 60 e 70: o movimento hippie, a minissaia, os Beattles entre outros agentes da revolução cultural de então, uma das páginas que mais gostei do livro. Mas as aventuras da menina má em seguida saltam para uma Tóquio hiper-higienizada e de sentimentos escondidos mas capaz de realidades extremas que chocam. Para se avançar para tempos mais próximos onde é menos evidente a diferença dos costumes face ao presente, um centrado na esperança e desilusão da evolução política do Peru, outro em Paris e o último que mostra a abertura à cultura de Madrid após a ditadura, momento em que a história tem um fim.

Um livro fácil de ler, por vezes cansa a subserviência por amor do narrador à menina má, mas que se torna interessantíssimo por mostrar a evolução cultural no hemisfério ocidental e apontar por alguns dos nomes da literatura mais importantes da Rússia, pelo que se torna um magnífico guia nestes assuntos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

"Berta Isla" de Javier Marías

 

Citação

"Esse conceito moderno de «crimes de guerra» é ridículo, é estúpido, porque a guerra consiste sobretudo em crimes, em todas as frentes e desde o primeiro até ao último dia."

Voltei à leitura daquele que se tornou ou meu escritor contemporâneo preferido: Javier Marías, do seu penúltimo romance de 2017 "Berta Isla" que também não me desiludiu, até manteve o fascínio e levou ao interesse de leitura de outros dele, sobretudo o seu último publicado antes de morrer, cujo protagonista é o marido de Berta Isla: Tomás Nevinson, que deu título à obra.

Berta apaixonou-se no colégio pelo seu colega Tomás, um jovem sobredotado línguas, imitar pronúncias e com dupla nacionalidade (espanhola e inglesa) com quem iniciam uma relação. Na universidade ele vai para Oxford e ela fica em Madrid, só que Tomás volta diferente, mas casam-se. Ele parece perdido, inquieto e no tem muitas viagens a Londres de que não pode falar e na sequência de um incidente ameaçador descobre que o marido tornou-se agente secreto inglês, por isso terá sempre uma vida oculta e demasiadas ausências. Por amor aceita ser uma mulher em simultâneo casada e sem parceiro, viúva e mãe de órfãos de um pai desaparecido, amada e ignorada. Tudo isto gera um conjunto de reflexões sobre o outro, a sua intimidade e dúvidas sobre as funções do marido situadas no fio da navalha entre o bem e o mal.

Já falei nos anteriores romances que li sobre uma escrita riquíssima de sinónimos e sem pressa deste autor. Em Berta Isla, talvez, haja um menor confronto de vocabulário e as cenas curtas não se estendem por tão grande número de páginas como em O teu rosto Amanhã, ou Amanhã na Batalha pensa em Mim, existem personagens que são retomadas neste romance, todavia as reflexões éticas sobre as questões da realidade e não realidade, da vida e da morte ou existênciais estão igualmente bem desenvolvidas neste livro, tornando-o num Javier Marías puro, mas mais enxuto, sendo que neste há muito que se subentende sem se dizer, um técnica que o escritor domina com uma genialidade única. Gostei muito espero em breve ler mais romances deste que se tornou um escritor fetiche para mim, embora não escreva obras muito fáceis.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

"Ensina-me a voar sobre os telhados" de João Tordo

Citações

"Mas que sei eu sobre Deus? Não sei nada. Se somos feitos à sua imagem, então Deus não deve ser grande coisa ou, se for parecido comigo, é feio como a noite dos trovões."

"Cada um tem o seu deus, a sua maneira de acreditar no infinito."

"O medo impede-nos de acreditar naquilo que o medo nos diz que é impossível."

Voltei à leitura do escritor português contemporâneo, João Tordo que venceu o prémio literário José Saramago, destinado a laurear jovens que escrevem em português. "Ensina-me a voar sobre os telhados" uma narrativa em dois lugares, Lisboa e Japão e atravessa gerações.

No liceu Camões um professor suicida-se e deixa o corpo docente em estado de choque, um deles - ex-alcoólico cujo vício destruíra a sua relação familiar e membro dos alcoólicos-anónimos - decide então organizar um grupo de reflexão do cariz semelhante na escola para exorcizar as tensões desta morte, ali desfilam problemas e ansiedades. Mais tarde, ao abrir-se as reuniões a mais gente, surge um luso-japonês de comportamento estranho e sarcástico, que se aproxima do fundador. Este desenvolve uma relação de proteção ao nipónico que sofre de distúrbios, o que lhe vai gerar novas tensões entre a ânsia de o ajudar e a sua vida pessoal. O romance intercala a história problemática da família Tsukuda no Japão, temperada por abuso de poder, egoísmos e a obsessão de quererem levitar, objetivo que atravessou gerações até ao psicótico Henrique, um comportamento com vítimas e punições que ameaça destruir o professor viciado em ajudar, enquanto reflete sobre a vida real, o papel de deus e a infelicidade das limitações da humanidade e até do demónio.

Tordo tem uma escrita magnífica, poética, cheia de metáforas inovadoras e intercala a narrativa com reflexões sobre a vida contemporânea, os anseios e os receios da humanidade. Nesta obra, além de uma permanente sombra sobre tudo o que move as pessoas e as limitações do homem, tecem-se, pontualmente, considerações sobre as angústias das personagens que vão desfilando no romance, que talvez seja extensiva ao demónio representado pelas figuras de Doré, ou até a deus ou aos deuses, que estão limitados pela incapacidade de se libertarem pela morte.

Gostei muito de voltar a João Tordo e se no anterior livro iniciei com perspetivas muito elevadas não superadas, neste foram as minhas perspetivas ultrapassadas, em comum há uma certa angústia existencialista, mas considero "Ensina-me a voar sobre os telhados" um excelente romance que nos faz pensar sem impor nenhuma resposta. 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

"Arsène Lupin - A Agulha Oca" de Maurice Leblanc

 

Acabei de ler o romance policial, escrito no início do século XX, "Arsène Lupen - A Agulha Oca" do francês Maurice Leblanc.

Um assalto ao Castelo de Ambrumésy e intercetado pelos seus moradores, onde tudo aponta que tenham morto um dos assaltantes sem hipótese de fuga, só não conseguem encontrar o corpo, também à partida levaram várias peças volumosas, só não dão pela falta de nada, entretanto foi perdida uma mensagem encriptada e deixada uma ameaça. Isidore Beautrelet, um jovem estudante de mente brilhante, penetra na equipa de investigação e deduz que pelas características inverosímeis da situação que se está perante uma operação do grande ladrão e cavalheiro Arsène Lupin, um mestre em disfarce e especialista em contaminar a investigação com delicadeza e simpatia ao participar no desenrolar do processo. Esta é uma personagem de vários livros do género que deram origem a séries de televisão e a filmes. Neste, a inteligência do jovem, ao ser a aproveitada pelas autoridades, é um desafio maior para Arsène Lupin que ora o atrai ora lhe prega armadilhas. O jovem apercebe-se que a genialidade do roubo está integrada num esquema  mais vasto que envolve segredos e tesouros nacionais históricos que vão desde imperadores romanos até aos grandes reis absolutistas de França descoberto pelo ladrão, o que lhe dá um grande poder, entrando-se numa investigação surpreendente onde Isidore e Arsène ora cooperam ora organizam embustes de modo a se descobrir uma realidade surpreendente.

Uma curiosidade das obras do escritor prende-se deste gostar de confrontar o seu personagem gaulês com o inglês Sherlock Holmes, este entra nos seus livros com o anagrama Herlock Sholmès a tentar vencer a inteligência superior de Arsène Lupin.

Um livro de suspense e lazer cheio de momentos emocionantes ao estilo das grandes obras populares do género aventuras, com surpresas, tensões e pistas que cativam até um final grandioso e também inesperado.

Uma obra muito fácil de ler, bem escrita, mas sem preocupação de arte literária, feito para entretenimento, entusiasmar o leitor e desafiá-lo com as pistas lançadas na narrativa. Muito bom neste género.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

"O Guarani" de José de Alencar

Citações

"Não se pode viver somente de ódio e desprezo"

"De que serviria a existência se não fosse para satisfazer um impulso da nossa alma?"

Acabei de ler um dos livros clássicos da literatura brasileira: "O Guarani" de José de Alencar, um romance histórico, escrito em meados do século XIX, cuja a trama se passa no início do século XVII quando Portugal perdera a independência e ficou sob a soberania espanhola, um período em que a fidalguia no Brasil oscilava entre a fidelidade ao antigo reino lusitano ou ao domínio filipino.

António de Mariz, insatisfeito com o domínio filipino, decide isolar-se para o interior da floresta da Serra dos Órgãos com a família e um conjunto de serviçais que defendem e se envolvem na gestão da sua fazenda. Esta situa-se numa zona selvagem com indígenas não convertidos, mas é o seu domínio fiel a Portugal. Num incidente, o índio Peri salva a sua filha Cecília e o fazendeiro agradecido acolhe-o, depois o salvador, por paixão, dedica-se de todo à moça para descontentamento da mãe desta e de sua meia-irmã. Paralelamente, noutro acidente, o ilho Diogo mata uma índia, o que leva a uma ação de ataque revanchista da sua tribo, enquanto um dos guardas de Mariz, ex-monge renegado por ambição de riqueza, também se apaixona por Cecília e decide criar uma revolta para raptar a donzela e levá-la para uma mina de prata que só ele sabe o segredo da localização. No nestes perigos e paixões é Peri, o herói gentio, quem, com o conhecimento de sobrevivência na floresta e dedicação total à jovem, tentará, in-extremis, salvar a família e a jovem lutando o preconceito de uns e o ódio de outros em momentos de grande suspense e surpresa.

Trata-se de uma narrativa tipicamente do século XIX com cariz nacionalista, mas que prenuncia a literatura romântica. As personagens tendem a ser boas de todo ou completamente más, podendo evoluir de um campo ao outro. José de Alencar descreve com grande pormenor, abuso de figuras de estilo e em tom poético a floresta atlântica, os costumes indígenas, a subserviência religiosa e os preconceitos da época e da evangelização. A obra, que li em e-book, tem um conjunto de notas que explicam numerosos aspetos históricos, florísticos, faunísticos e dos costumes dos povos descritos na trama, o que enriquece em muito o conteúdo do texto sem o tornar fastidioso.

A história dá para compreender o contexto de comportamentos, hoje tido por errados, dos colonos de então, vivendo numa sociedade dominada por uma religiosidade exacerbada a enfrentar culturas animistas e representantes de um reino à conquista e em missão de evangelização destes povos pagãos que viviam livres nos seus domínios há séculos, um choque cultural semeado de preconceitos que José de Alencar procura subtilmente denunciar enquanto eleva a dignidade do índio. Todavia o romance também é escrito numa época em que não a de hoje, a sociedade não era ainda tão laica, nem liberta de muitos desses preconceitos, além de regida por uma castidade aguerrida e dominada pelo masculino, sendo evidente o esforço de equilibrar e justificar a crítica perante a moral e ética aceite no século XIX, daí a riqueza cultural desta obra que a transforma num clássico e permite a reflexão sobre o passado. Fácil de ler, gostei e por isso a recomendo a qualquer leitor.