Excerto
"... também não seria amor à empresa, muito menos por altruísmo; era extremamente difícil encarar o desenvolvimento do turismo mundial como uma causa nobre."
Voltei ao escritor francês mais polémico das últimas décadas no seu país, agora com o seu romance "Plataforma" que pelo que percebi o levou a migrar para a Irlanda.
A morte do pai de Michel, agente cultural, levou a que com a herança optasse por uma excursão de grupo à Tailândia, aí cruza-se com o turismo sexual, assiste a participantes a proferirem discursos de moralidade e outros a usufruírem e a defenderem a prostituição, conhece Valérie, uma turista bonita e equilibrada, deseja-a e ela aproxima-se. Só no regresso se tornam amigos e ele sabe que ela trabalha na agência que organizou a viagem. Em Paris unem-se discutem a problemática deste turismo de satisfazer o corpo, até que ela e o seu chefe passam para uma nova cadeia hoteleira e há que rentabilizar os "resorts". Para conhecer a o terreno vão a um em Cuba, aí descobrem que a aspiração dos clientes está associada ao prazer que a moralidade inibe e decidem construir uma plataforma para dinamizar o interesse dos seus turistas.
A narrativa é contada pelo protagonista e suportada por uma escrita fácil, quase jornalística, intercalada com reflexões do mesmo e diálogos sem grandes subterfúgios literários, por vezes são feitas caracterizações económicas do setor do turismo na Europa com menções a grandes cadeias que correspondem de facto a marcas conhecidas e pormenores destas. Ao longo da narrativa, Michel fala da sua vida íntima, descrevendo de uma forma muito explícita atos sexuais, numa linguagem sem eufemismos e com recurso ao calão erótico, o que pode chocar um leitor que defenda recato neste tema.
Reconheço que gostei da história, reflete sobre a inibição social e os preconceitos que estão em torno da sexualidade e da prostituição e os aproveitamentos comerciais em torno deste tema. Não encontrei nada que pudesse acusar o autor de racismo como foi feito, certo que não é islamófilo, é, sobretudo, alguém sem tabus e que mostra realidades com toda a sua crueza e sem falsas moralidades.

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