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domingo, 11 de janeiro de 2009

A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA DAS ILHAS VULCÂNICAS III: o Recuo da Linha de Costa 1

As escoadas de lava que saem dos vulcões espraiam-se ao chegar ao mar, formando muitas vezes deltas lávicos, mas esta lava arrefecida, que parecia constituída de material consolidado, rígido e compacto, vai sofrer uma alteração química contínua, provocada pelos sais dissolvidos na água e pelos seres vivos que se fixam nestas rochas, bem como erodida pela persistente rebentação das ondas.
Pequenos deltas lávicos e plataformas de abrasão marinha em São Jorge (Manadas), com o Pico e o Faial ao fundo.

Como para auxiliar o efeito da acção do mar, associa-se a este processo a movimentação dos grãos de areia e dos blocos de calhau, em virtude da energia da ondas. Este chocar contínuo tem um efeito abrasivo sobre estas lavas, que assim vão sendo destruídas lenta e progressivamente, formando-se superfícies planas que o mar vai galgando cada vez mais e denominadas de plataformas de abrasão.
Uma fase muito inicial de formação de arriba costeira sobre uma escoada lávica.

A erosão e a abrasão marinha conduzem ao recuo da linha de costa e à destruição da própria plataforma, submergindo-a, pois os grãos arrancados à lava são transportados e sedimentados no fundo do mar. Então, como para o interior da ilha a altura da escoada de lava é maior, surge um pequeno degrau, a arriba costeira (vulgarmente designada nas ilhas apenas por rocha) que marca a zona onde a superfície da escoada já não é tão frequentemente galgada pelo mar. Só que o oceano não desiste...
Um estado mais avançado de uma arriba costeira sobre lava consolidada e rígida, vendo-se um recife à direita como testemunho do recuo da linha de costa.

O degrau continua a ser agredido pelo mar, a linha de costa lenta e progressivamente recua sempre mais, enquanto a altura da arriba costeira se torna cada maior. Por vezes, em zonas onde a lava resistiu, formam-se pequenos ilhéus ou recifes em torno da ilha, entre os quais a passagem de pequenas embarcações faz parte das aventuras dos passeios litorais no Verão açoriano.
Mas nem sempre o litoral vulcânico é constituído de lava consolidada e rígida, alguns dos materiais expelidos pelos vulcões são suaves, mas o mar não tem compaixão das rochas brandas, só que isso fica para um próximo post.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA DAS ILHAS VULCÂNICAS II: O Ataque dos agentes erosivos

Ultrapassada a fronteira do nível do mar, tornam-se mais evidentes as forças que tendem a destruir os edifícios construídos pelos vulcões, já antes existiam e actuavam, mas os seus efeitos agora estão mais expostos aos nossos olhos.
Assim, as ilhas crescerão sempre que a actividade eruptiva for do tipo construtivo e emitir, de uma forma mais ou menos calma, lava ou piroclastos em maior quantidade do que aqueles materiais que estão a ser destruídos pelos Agentes de Geodinâmica Externa: o vento, as variações de temperatura, os vários estados físicos de água e os seres vivos, que por acção da gravidade estão conjunta, lenta e continuamente a desmantelar todas as montanhas da Terra.
Muitas vezes nem é preciso o ataque dos agentes de geodinâmica externa, são os próprios vulcões que nos seus momentos mais explosivos desenvolvem uma actividade do tipo destrutivo e em pouco tempo desfazem aquilo que durante milhares de anos construiram. Nestas fúrias eruptivas, as zonas mais altas dos cones vulcânicos são fragmentadas e toneladas de material espalhadas em volta, enquanto o cimo destas estruturas se abate e se criam caldeiras. As montanhas... as ilhas ficam então muito mais baixas.
Mas enquanto os vulcões estão adormecidos ou depois se extinguem, tanto os seres vivos com os químicos das raízes das plantas e outros compostos orgânicos dos animais, como os sais e gases dissolvidos na água e no ar que circula entre os grãos de rocha, modificam a composição dos minerais, dá-se então a Alteração das Rochas, cujos grãos ficam mais vulneráveis desagregam-se e são arrancados depois pelas plantas, animais, vento e águas; ocorre aquilo que se chama a Erosão das Rochas, que por acção da gravidade sofre o Transporte para zonas mais baixas.
A força da água nesta batalha é de tal forma intensa que escava vales profundos nos materiais alterados e erodidos e os transporta sempre para locais mais baixos e nas ilhas tende a depositá-los novamente no fundo do mar Sedimentação, precisamente de onde as ilhas vieram.
Mas o homem, que se julga muitas vezes um ser vivo à parte, é também consciente ou inconscientemente um destruidor dos edifícios vulcânicos, escava-os, desentranha os grãos das rochas antes protegidos e acelera a alteração, a erosão e o transporte de muitos materiais que irão sedimentar no mar. Embora também seja um dos poucos que tenta ir buscar areias e outros materiais das profundidades para proteger as suas ilhas, muitas vezes sem resultado, nalguns casos mesmo desastrosamente, mas ocasionalmente tem as suas vitórias!
Contudo o mar, esta imensidão de água que cerca qualquer ilha, nunca se dá por vencido. Não satisfeito por tudo o que conjuntamente a alteração, a erosão e o transporte trouxeram para o seu interior, rebaixando a terra emersa continuamente, vai com o seu cerco atacar todas as ilhas pela linha de costa, reduzindo-lhes progressivamente a suas áreas e criando estruturas tão características que ficam para um próximo post.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA DAS ILHAS VULCÂNICAS I - O nascimento das ilhas

As ilhas vulcânicas nascem no fundo do mar, por vezes mesmo a grandes profundidades, a partir de erupções, inicialmente quase imperceptíveis aos humanos, pois a espessa camada de água impede o aparecimento de sinais da actividade do vulcão à superfície do oceano.
Numerosos montes submarinos no Atlântico Nordeste, para além dos arquipélagos da Macaronésia. Imagem wikimedia

Muito devagar, mesmo de um modo descontínuo no tempo, durante milhões de anos a lava vai-se empilhando à volta destas chaminés e construindo estruturas em forma de cone. Primeiro muito pequenos, com uma largura relativamente grande face à altura, mas aos poucos vão crescendo, as suas vertentes tendem a ficar mais inclinadas e transformam-se em Montes Submarinos (Seamounts em inglês). 
Imagem tridimensional da batimetria de um monte submarino, vendo-se a cratera no topo. Imagem proveniente nas condições descritas na wikimedia

O cimo dos Montes Submarinos continuam a receber mais produtos  vulcânicos e ficam cada vez mais próximos da superfície do oceano, as ocorrências eruptivas começam a dar os primeiros sinais à tona de água: alterações da cor do mar, peixes mortos, variações de temperatura, projecções de blocos de rocha. São erupções semelhantes àquela que ocorreu em 1998/99 junto à ponta da Serreta na Terceira... 
Erupção da Serreta, onde se podem observar "bolhas" de lava cheias de gases quentes emitidas pela chaminé em profundidade. Foto extraída da referência (1)

Durante alguns períodos os vulcões ficam adormecidos, mas de tempos a tempos acordam e retomam a sua actividade, os montes submarinos continuam a crescer mais um pouco e criam baixios ou bancos submarinos, como é o caso do Banco Dom João de Castro nos Açores, que podem tornar-se perigosos para a navegação, pois os barcos arriscam-se a encalhar ou naufragar e onde, em condições favoráveis, se instalam corais.
Baixios poucos profundos visto do ar, dispostos concentricamente indiciando a forma da cratera e provavelmente cobertos de corais. Foto wikimedia

As erupções submarinas, quando o topo da chaminé já se situa a pequena profundidade, frequentemente são explosivas, gerando a emissão de jactos de cinzas, blocos de lava e vapor, devido à espessura da massa de água já não conseguir "abafar" a força do vulcão.
Erupção submarina pouco profunda, foto proveniente da referência (2)

Felizmente a erupção pode continuar e o cimo do cone um dia passa a cima do nível do mar, já não é mais um monte submarino, nem um baixio ou um banco... nasce uma nova ilha e o vulcão pode continuar a construir os maiores picos da terra ou as elevações mais altas de muitos países, como aconteceu em Portugal com o Vulcão do Pico.
O cone vulcânico do Pico, com 2351 m de altitude, situado na ilha do Pico e visto do Faial, o ponto mais elevado de Portugal

Referências
(1) - Forjaz, V. H.; Rocha, F. M.; Medeiros, J. M.; Meneses, L. F. & Sousa, C. (2000) "Notícias sobre o Vulcão Oceânico da Serreta, Ilha Terceira dos Açores" Ed. OGVA 
(2) - Machado, F. & Forjaz, V. H. (1968) "Actividade Vulcânica do Faial - 1957-67" Ed. Com. Reg. Turismo Distrito da Horta

sábado, 3 de janeiro de 2009

PRESÉPIO DE NATAL

Quando cheguei ao Faial em criança, o Natal nas casas rurais era dominado pelas Prendas do Menino Jesus, sempre dentro dos limites dos escassos rendimentos que a agricultura então permitia;
- as Árvores de Natal, enfeitadas com garrafinhas de cápsulas de injecções embrulhadas em papel de estanho das guloseimas consumidas ao longo do ano, correntes de papel de seda compradas nas mercearias cá da terra e postais vindos das américas;
- os Altarinhos, em pirâmide, forrados de colchas de seda e rendas, iluminados com velinhas e decorados com junquilos, laranjas, tangerinas e pratos de trigo recém-germinado e...

- o Presépio Tradicional, com pequenas imagens de cerâmica ou outros materiais, não faltava a cena da natividade, os reis magos, os pastores e uma representação variada do quotidiano das nossas freguesias rurais. Eram autênticas aldeias, com casas de madeira ou cartão, pastos de líquenes, florestas de musgo, árvores de plantas diversas, caminhos de areia, muros de bagacina, rios de alumínio, lagos dentro de louça... e uma infindável lista de outros objectos que a imaginação do autor utilizava nas suas representações, para que os amigos e a pequenada de toda a comunidade o visitasse durante a quadra.

Hoje o Presépio de Natal é uma raridade, alguns são peças originais de arte contemporânea, mas os tradicionais ainda subsistem por amor de alguns e incentivados por um concurso municipal... António Matos Rocha, um luso canadiano residente no Alto dos Espalhafatos, localidade pertencente à Ribeirinha, todos os anos insiste em fazer o seu presépio e a abrir as portas aos visitantes, este ano manteve a tradição e venceu o primeiro lugar dos presépios tradicionais... Objectos animados, ribeiras de águas correntes, matança de porco, folclore, festa do Espírito Santo, folclore e muito mais a visitar até ao final desta semana nas comemorações do Dia de Reis. Parabéns!

Ah... existiam também os Ranchos de Natal... mas esses não cantavam nas casas, corriam os salões das colectividades, apinhados de gente para os ouvir, bailar e dançar e já foram alvo de atenção no início do ano passado, tal como o presépio de então do mesmo autor.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

CONCERTO DE ANO NOVO 2009 NA HORTA

O Ano Novo 2009 chegou e o Concerto da Paz ou de Ano Novo, a cargo da Orquestra Skomorokhi de São Petersburgo, dirigida pelo maestro Victor Akulovich,... também.

A bela igreja de São Francisco e com excelente acústica - um imóvel classificado e cada vez mais arruinado - lá abriu as portas novamente e... apesar da hora e do sol intenso, encheu! Houve público de todas as idades, línguas maternas diversas e muita boa música que a todos encantou...
Interessantíssimo os muitos arranjos e orquestações de música erudida, popular russa e tradicional portuguesa, para uma orquestra onde predominavam naipes de balaicas, domras, acordeões, flauta e oboé. Os músicos tocaram com estilo e gosto que contagiou os presentes.

No final... o público de pé a aplaudir entusiasticamente e a insistir mais e mais, enquanto os músicos a correr com instrumentos, pautas e roupas saíam da igreja. Só então se soube que o avião os esperava sem demora e não havia mais tempo de música a ganhar pelos muitos faialenses presentes, outro concerto os aguardava na Praia da Vitória, ilha Terceira.

Abaixo um excerto deste concerto, executado em muito más condições, num momento em que duas domras e uma balaica se desafiam com o Carnaval de Veneza de Niccolò Paganini.



O primeiro dia do ano de 2009, sem dúvida, teve para mim um concerto músical inequecível.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

FELIZ 2009, Habitantes de toda a TERRA

Terra há só uma, a nossa, e só continuará nossa se o Homem quiser

A todos habitantes desta Terra Una.
Não importa o reino de vida a que pertença
Ou o ecossistema em que se aninhou.
Sois filhos de um grande equilíbrio precário
Cujo Homem, senhor inconsciente e demente,
Foi impertinente agente perturbador.
Continuai vivendo felizes e impávidos
A próxima translação desta vossa Casa,
Comendo e abusando do fruto proibido
Que sustenta a preservação ambiental.
Então o Planeta vos dirá, qual novo Adão,
Que deste Éden perdestes a oportunidade
E dele não mais fareis parte.
Mas Gaia novamente vencerá,
Outro Génesis escreverá,
E como uma nova Eva fecunda,
Nutrirá gerações futuras de seres.
Hoje imundos... nojentos...
Dignos de vencer o presente...
E o pós-Humanidade.


Feliz 2009, em Paz com os Homens e em equilíbrio com Gaia, no último ano do triénio do Ano Internacional do Planeta Terra

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

CONCERTO DA PAZ

Tendo em conta o pedido de divulgação, que me foi efectuado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Horta, apresento seguidamente o programa musical para o primeiro dia de 2009, desejando que os residentes no Faial aproveitem esta oportunidade.

(foto e texto abaixo fornecidos pela CMH)

Dia 1 de Janeiro de 2009

Igreja S. Francisco: 14h30

Grandioso Concerto pela Paz

ORQUESTRA SKOMOROKHI de São Petersburgo

Organização: Câmara Municipal da Horta.

Apoio: Santa Casa da Misericórdia, Junta de Freguesia de Castelo Branco, OMA.

A ORQUESTRA SKOMOROKHI de São Petersburgo foi fundada em 1969 pelo Maestro Victor Akulovich. Os instrumentos que compõem a orquestra, são entre outros, as balalaicas, domras, baião, flauta, oboé e instrumentos de percussão. O reportório inclui trechos de música erudita, música popular russa de autores consagrados e trechos originais compostos exclusivamentepara a orquestra.

Prestigiada na Rússia, a Skomorokhi realizou concertos em mais de 20 países, entre eles, Espanha, França, Grécia, Inglaterra, Alemanha, Eslovénia, Finlândia, Dinamarca, Japão, Coreia do Sul e Argélia. Em 1995 e 1996 conquistou os grandes prémios dos Festivais Europeus de Música que se realizaram na Bélgica e na Dinamarca.

A Orquestra Skomorokhi tem vários CD’s editados e tem participado em emissões de rádio e televisão de diferentes países. Em Portugal esteve nos Concertos de Ano Novo de 2008 em Santarém, Elvas e Barreiro.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

RIBEIRINHA - Natal 2008

As iluminações do exterior das casas não eram tradição, vieram com o regresso de alguns emigrantes, com a chegada da electricidade ao meio rural, as imagens da televisão e com um maior desafogo económico das últimas décadas...
As decorações do exterior alegram as noites longas do início do Inverno, recordam o Natal e não destruíram nenhuma tradição anterior, tornaram-se apenas em mais um hábito que a continuar entrará no rol das tradições.
Hoje, quando com chuva e alguns relâmpagos, observei as várias iluminações exteriores de natal na Ribeirinha e nos Espalhafatos, lembrei-me que há dez anos atrás nem uma só das casas visitadas existia, apenas ruínas fantasmagóricas do sismo de 9 de Julho de 1998, estas decorações eram prova que vida aqui renasceu e isso é Natal.
Não importa que sejam decorações simples e adequadas aos bolsos de quem trabalha, são indicadores do regresso à vida normal desta freguesia e porque os emigrantes lá longe sonham sempre com uma foto do que por cá se passa... vários já me disseram que este blog era uma janela para a sua terra.
Porque é Natal e na família ribeirinhense ou faialense muitos vivem longe... fica aqui esta amostra de algumas decorações que resistiam à chuva e aqueciam este vento gelado que hoje passava pela Ribeirinha e pelos Espalhafatos, as duas localidades desta freguesia que me acolheu desde criança.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A MORTE DO MENINO JESUS

As celebrações ao invencível deus Sol do império romano foram transformadas pelos cristãos romanos nas festividades do nascimento do Menino Jesus, pois Este era para eles o verdadeiro Deus e Luz da vida...  
Pagão ou cristão, o solstício de inverno sempre esteve associado ao nascimento ou à fonte da vida, até que nos tempos modernos passou a ter para muitos um pai idoso, de infância desconhecida e residente num dos locais mais inóspidos à vida...

Porque gosto da vida e de viver e detesto ser desenraizado das tradições do meu povo, persisto no luso Natal do Menino Jesus. Uma criança é sempre um início de vida, independentemente de qualquer crença, por isso resisto a qualquer sucedâneo oco, mesmo que popular, e não me habituo a um Natal sem o Menino Jesus.

A tolerância sempre me guiou, logo a todos eu respeito. Assim, quer optem pelo Menino Jesus da tradição lusitana ou pelo velhote, no ocaso da vida, Pai Natal (Papá Noël no Brasil), criado pelo  marketing do capitalismo, a todos um Feliz Natal.

sábado, 20 de dezembro de 2008

OUTONO - O Fim-de-estação

Hoje é o último dia completo do Outono, amanhã chega o Inverno.
O solstício ocorre às 11h04 dos Açores, dá-se então a mudança de estação.
Ao contrário da maioria dos países da Europa e da América do Norte, a paisagem açoriana é sempre cheia de verde...
Tanto a floresta natural destas ilhas - conhecida por Laurissilva - como a principais árvores trazidas pelo homem e invasoras do nosso meio natural - o incenso, o araçaleiro, etc. -  são de folha perene, por isso, o verde é também dominante no Inverno.
Paralelamente, os dias de temperaturas amenas, sem chuva e, por vezes, de sol radioso ocorrem também no Inverno, enquanto o Pico continua a nos vigiar lá do alto e as aves a encherem a natureza de canções...
As praias talvez estejam menos convidativas, contudo os trilhos e os caminhos agrícolas persistem em convidar toda a gente para uma caminhada, onde a natureza intacta praticamente já não existe, mas pelo menos o ar puro, a calma, a beleza paisagística e o chilrear das aves são abundantes.
São assim as ilhas do Triângulo (Faial, Pico e São Jorge), são assim os Açores, sempre belos em qualquer estação do ano.
Adeus Outono e espero que o próximo Inverno não nos desiluda!

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

CHÃO QUE DEU UVAS

Tempos houve, não muito distantes, que no meio rural do Faial não havia dinheiro disponível. Apenas abundava o milho, o trigo, a batata doce ou da terra, a laranja, a maçã, o pêssego, o figo, a ameixa, a nêspera e a uva, o peixe acabado de pescar, a carne de vaca ou de porco (tanto fresca, como salgada), as couves para acompanhar ou a cebola, o alho e a salsa para aromatizar e ainda o vinho feito por um conhecido da Praia do Norte, do Capelo ou, sobretudo, do Pico e... vi eu bem, muito alegria no trabalho.
Hoje, o dinheiro circula no campo e os bancos cobram as dívidas da casa, do carro, da adega ou da mobília nova e dos electrodomésticos, mas o chão que deu uvas cobre-se de ipomoeas de flores roxas que se alastram pelos quintais e desfeiam as zonas balneares...

Antigamente o chão de pedras - chamados mistérios ou biscoitos - dava uvas e figos que se transformavam em vinho e aguardente. Agora... jaz abandonado, estéril, triste com saudades dos campos alegres sem crise...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

POETAS E POEMAS ESCOLHIDOS IV - Natália Correia


Logótipo com os países integrantes da CPLP, retirado daqui - lusofonia

LÍNGUA MATER DOLOROSA

Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda a bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luiz Vaz a chama joalhada

tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,

eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus verbos feridos vão de maca.

Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste a língua;
língua serás ainda... mas de vaca.


Publicado no Jornal Novo, Dezembro de 1976, extraído de "Poesia Completa" de Natália Correia, Publicações Dom Quixote, 1999 (634 p.)
Livro disponível e à venda nas Bibliotecas Públicas da DRaC nos Açores.

sábado, 13 de dezembro de 2008

RECORDAÇÕES DE PRAGA

Tinha prometido a apresentação de algumas imagens da minha viagem a Praga, pelo que aqui ficam algumas das muitas fotos então tiradas, assim como explicações e reflexões sobre esta cidade.
Em primeiro lugar importa deixar bem claro que o centro da Praga é de uma monumentalidade e beleza estonteante que impressiona qualquer pessoa que chegue pela primeira vez à cidade, sem dúvida uma das capitais mais belas que conheço. 
Entrada na Praça da cidade velha, com a sua câmara municipal à esquerda e igreja de Nª. Sª. de Tyn em frente.

Contudo, defeito meu ou virtude, não consigo visitar uma terra, deslumbrar-me e ir embora sem estudar a sua alma, o que faço, por norma, através da exploração de espaços menos turísticos, análise dos vários tipos de lojas de comércio tradicional e pela observação daquelas pessoas que me parecem ser os residentes da cidade. É um método incompleto, mas rico de informação sobre o local e tive tempo suficiente em Praga para estas intromissões nesta urbe.
O castelo com o palácio real e catedral de S Vito no alto, igreja de S. Nicolau do Bairro Pequeno à esquerda e ponte Carlos sobre o rio Moldava à direita.

Não haja dúvida que a população de Praga valoriza a cultura. O número de livrarias; alfarrabistas; lojas de venda de cd/dvd; casas de teatro de vários tipos, activas e em checo; óperas e salas de concerto; bem como a qualidade dos grupos musicais de rua, das companhis de ópera e da sua orquestra filarmónica; a diversidade de oferta musical e a quantidade de escritores, pintores e escultores de grande valor na história da arte europeia, demonstram isso. Mas o centro histórico desta cidade é hoje, sobretudo, um belo museu preservado e destinado ao turismo.

Ponte Carlos à entrada do Bairro Pequeno, com as suas imagens e torre e porta.

À excepção da venda de livros e discos, praticamente todo o comércio desta zona está virado para o turismo e com preços na generalidade superiores em 100% à cintura envolvente menos turística, o movimento de rua é praticamente ocupado por estrangeiros e nacionais de apoio a estes. Quase não se vêem pessoas com comportamentos de quem está a desenvolver actividades quotidianas e o grau de recuperação das moradia é de tal forma intenso e homogeniamente barroco que parece descartar qualquer veleidade individual, bem como ser excessivo para bolsos da classe média e baixa.
Rua da Ponte Carlos, com a igreja de São Nicolau do Bairro Pequeno em frente.

Assim, ficou-me a dúvida, até que ponto será agradável viver neste centro histórico e qual a densidade, intensidade e qualidade de vida dos seus prováveis residentes... quais as casas das classes menos abastadas dentro deste núcleo e deu-me então uma grande saudade dos bairros típicos cheios de vida da minha Lisboa onde vivi...
Catedral de São Vito no interior do Castelo e do Palácio Real.

Num dos dias aventurei-me a uma excursão, planeada à última hora, a uma pequena cidade de província, a quase três horas de viagem e situada no extremo sul da Boémia: Ceska Krumlova, cujo seu núcleo foi recentemente elevado a património mundial, tal como no passado aconteceu com o centro histórico e turístico de Praga, ficam aqui duas imagens como aperitivo desta pérola que temo, brevemente será votado a um destino semelhante ao do centro da capital do pais.
O Castelo de Ceska Krumlova

O centro da cidade visto da torre do castelo e também banhado pelo rio Moldava.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A MINHA LISBOA...

Existem cidades monumentais que se parecem copiar na arquitectura, nas fachadas e na demonstração de riqueza, mas a minha Lisboa é uma cidade castiça, única e bela.
Na minha Lisboa os monumentos não se atropelam, nem concorrem em magnificência ou opulência, os seu imóveis são simples, milenares ou centenares...

Na minha Lisboa os imóveis sabem mostrar a beleza da simplicidade e a harmonia do conjunto...

Despudoradamente expõem a vida das suas humildes gentes e invadem as ruas com cheiros a comida, conversas de interior ou de vizinhas e músicas diversas incluindo o fado...

Na minha Lisboa abundam os miradouros que mostram a cidade a banhar-se no Tejo, onde a sua gente ainda convive, joga, conversa, contacta com a música popular e namorisca de uma forma descontraída e humana.

A minha Lisboa é um museu vivo, com gente cheia de vida e a residir no seu interior que ainda se conhece, que dá bom dia, onde existem, largos com paróquias de aldeia, mercearias e cafés de bairro, nas suas ruas continuo a ver crianças e adolescentes a brincarem descontraidamente, a ouvir os jovems a atirarem piropos às moças que passam e as risadas acompanhadas de respostas desajeitadas de quem disfarça o acolhimento do elogio... é esta a minha Lisboa, é esta a minha rua de estudante... é esta a cidade que gostaria que se mantivesse viva como ainda consegue ser.

PARABÉNS MANUEL OLIVEIRA

Manoel de Oliveira, o cineasta mais idoso do mundo e ainda em actividade, faz hoje 100 anos... PARABÉNS!
Imagem retirada e nas condições descritas aqui
Não vi muitos filmes de Manoel de Oliveira, apesar do grande número de obras por ele realizadas, mais porque não tive acesso a eles do que por não os querer ver, as poucas vezes que assisti ao seu trabalho foi, sobretudo, em cinemas de Lisboa, quando estudante (por norma não programo a visualização de filmes no pequeno ecrã da TV). Confesso que não desgostei das suas obras: calmas e onde o argumento e a imagem eram tratados como verdadeiras obras de arte.

Manoel de Oliveira é sobretudo um resistente: resiste em viver, em trabalhar e em não se deixar ir por modas e imposições de estilos comerciais ou de outras escolas da sétima arte... no futuro, provavelmente, terá o seu nome inscrito nos grandes nomes da história do cinema e será reconhecido dentro do seu país, hoje... é apenas um Grande Realizador para quem vê no cinema uma forma de expressão artística. PARABÉNS!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Adeus Praga

Bem como tudo o que é bom tem um fim, as férias aqui estao no seu termo... quando viajo nao me limito a ver a oferta turistica, exploro corredores mais obscuros para descobrir a alma da terra, assim, sobre Praga algumas impressoes:
- Cidade com um centro historico monumental, muito bem preservado, com grande beleza arquitectonica e paisagistica, muito dinamizada em torno do turismo pelo que os precos sao muito mais elevados aqui que nas ruas menos visitáveis, nestas chegam a ser mesmo muito baratos.
- Culturalmente é um cidade rica ao nível das várias artes eruditas, como a musica e literatura.
- Rica onde Lisboa é pobre e pobre onde Lisboa é rica, complementam-se, mas nenhuma das cidades é completa em si e ambas encerram traumas que deveriam solucionar.

Pela sua beleza e cultura recomendo-a vivamente, valeu a pena descobrir esta cidade... agora Adeus Praga... Olá Lisboa continuo a gostar muito de ti.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

DON GIOVANNI, na primeira casa

Nesta epopeia operática mais uma vez insisti em Mozart, uma obra divertida, contrariamente à ideia de muitas pessoas do que são as óperas, contudo moralista.
Embora Mozart tenha sido um artista reconhecido em vida, as suas obras nem sempre tiveram a aceitação institucional e da crítica, situação que conduziu a que a estreia de Don Giovanni (ou Don Juan como se tenderia a dizer em Portugal) ocorresse em Praga no Teatro dos Estados, onde a obra, perante um público conhecedor de música, foi um sucesso e motivo porque dois séculos depois eu optei por visitar esta cidade e ver pela primeira vez ao vivo o Don Giovanni, precisamente na sala onde foi estreado mundialmente.

Teatro dos Estados, local da primeira estreia de Don Giovanni pelo próprio Mozart, foto daqui

O vídeo mostra Don Juan, legendado na compreensível língua de Cervantes, a seduzir uma noiva, precisamente no dia do seu casamento, por um cantor que associo sobretudo a papeis de Mozart, dueto que mostra a capacidade do compositor, com bom gosto, conciliar a beleza, a ironia e o humor, de uma forma acessível a todos os públicos