terça-feira, 29 de junho de 2010

Poetas Lusófonos 8 - Portugal

Para encerrar esta série Poetas Lusófonos, que correu todos os oito países de expressão oficial portuguesa, vai um poema daquele que para mim é o maior e mais diversificado poeta da nossa língua: Fernando Pessoa, aqui a falar sobre si mesmo.


Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.


Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.


Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo:
Deus sabe, porque o escreveu.



Fernando Pessoa

4 comentários:

Pedrita disse...

nós tb temos uma estátua assim que fica na praia de copacabana no rio de janeiro do carlos drummond de andrade. o bom dos poemas é q eles circulam independente das publicações de livros, então nós aqui do brasil conseguimos conhecer mais poetas portugueses e de idiomas irmãos. diferente do que acontece na literatura por aqui. beijos, pedrita

geocrusoe disse...

Tenho de reconhecer que não conheço bem poetas que não sejam portugueses, por isso criei esta série para buscar poesias que cobrissem todos os países lusófonos.
Muitos dos poemas e poetas conheci-os por este link que cobre o mundo lusófono
http://www.astormentas.com/

José Quintela Soares disse...

Belo.

Nem vale a pena acrescentar mais.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Venho agradecer e retribuir a visita que fez ao meu Rochedo. Como ainda estou de férias ( embora já de regreso a Portugal), só, li os primeiros posts, mas gostei bastante e por isso, quando regressart ao activo, voltarei a passar por aqui com mais tempo.