impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
"As Mansão" de William Faulkner
quinta-feira, 22 de outubro de 2020
"Os últimos dias dos nossos pais" de Joël Dicker
Após ter lido a segunda obra de ficção do escritor suíço Joël Dicker", regressei a este autor com o seu primeiro romance publicado "O último dia dos nossos pais" com a qual ganhou o prémio Escritores de Genebra de 2010, este é um livro que se distingue de todos os outros que ele desde então saíram, pois não é um livro policial nem uma obra de suspense apesar de incluído no género de espionagem.
Após a invasão alemã de França, no início da II Grande Guerra, o jovem de 21 anos parisiense, órfão de mãe e extremamente ligado ao pai, decide ir para Inglaterra para lutar contra o invasor. Em Londres é selecionado para integrar uma rede de espionagem na sua pátria a exercer em território ocupado. Acompanhamos a sua formação intensa com cerca de duas dezenas de pessoas, só uma é mulher, o que dura vários meses de exercícios duros com grande desenvolvimento de amizade e espírito de grupo, apesar de alguns irem sendo eliminados, os finalistas tornaram-se numa família coesa embora com gente diferente, Paul e Laura apaixonam-se, mas o respeito na equipa é total. Estes espiões são enviados para o terreno com tarefas específicas e separados uns dos outros, pontualmente cruzam-se mas o segredo das ações de cada um é fundamental para a segurança. Todos são ricos de sentimentos e o amor do casal ou a carência deste noutros está presente, mas o mais forte é o amor filial de Pal, o que o leva a uma medida drástica e de risco que depois será conhecida pelos colegas que nunca deixarão que um colega perca a honra de herói e até um alemão inimigo deixa-se cativar por aquele filho.
Apesar da escrita deste romance não se pautar pela criatividade e riqueza de figuras de estilo literário, o texto é todo ele de uma grande elegância e atravessado pela amizade, amor fraterno, filial e romântico, o que lhe confere uma grande beleza e mesmo quando a narrativa é de tensão e tragédia nunca perde o tom e postura calma, o que é uma raridade em obras de espionagem em ambiente de guerra e talvez este seja o melhor trunfo deste livro, pois a dor é coberta de ternura que se estende ao inimigo. Um romance diferente que gostei e fácil de ler.
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
"Sinais de Infinito" de Humberto Moura
A presente obra vem na sequência de outro romance do autor: "Sismo na Madrugada" que já li ainda antes deste blogue se dedicar à divulgação das minhas leituras, que me deixara então bem impressionado, o qual era referente a um filho do Faial e de mãe solteira que se destacara pela sua inteligência e por condicionantes pessoais e da ilha que o levara a sair da sua terra se tornara num jornalista de referência numa cadeia estrangeira e correra o mundo, passando a ser uma pessoa mundialmente influente, conhecida e próxima de muitos líderes e acontecimentos que marcaram o século XX, mas que no ocaso da vida se recolhera às origens como um simples cidadão pouco compreendido pelos seus conterrâneos ainda isolados do exterior.
Sinais de Infinito prossegue a saga familiar através da neta: jornalista e igualmente famosa na mesma cadeia internacional de comunicação social. Contudo o anterior protagonista apenas soube da sua existência e a conheceu nas vésperas da sua morte já no final do anterior romance. Harriet Terra agora irá tentar perceber melhor quem foi o avô através dos seus amigos mais chegados no Faial nos últimos tempos e por um diário que terá sobrevivido ao sismo de 1998. Entretanto faz uma reportagem televisiva sobre a sua personalidade que coloca a ilha no palco do mundo, gerando um alvoroço na terra e a seguir vai visitar locais por onde ele andou e ver-se-á envolvida no cenário de uma das maiores guerras de transição do século XX para XXI.
O autor cria um romance com elementos históricos e conteúdo enciclopédico pelo saber e diversidade das personagens em torno das quais a obra progride que têm uma amizade de grupo: a jornalista conhecedora e crítica do mundo contemporâneo, um padre historiador do Faial, um médico local que questiona o seu papel na sociedade e, sobretudo, um investigador da Horta de ciências, entendido nos maiores filósofos, gnóstico e herético e interessado em descobrir o prolongamento da vida. A este núcleo juntam-se personagens secundárias que complementam o ramalhete: o presidente da câmara interessado em tirar proveito político do fenómeno, um leitor dos documentos dos Açores no arquivo nacional, uma criada do Pico entendida no saber popular e um operador de câmara sobrinho de um escritor famoso com sucessos sobre conflitos com temas de sociedades ocultas, religiões e o graal.
Deste leque brotarão numerosas reflexões sobre questões éticas e morais da sociedade contemporânea, menções a personalidades do passado e suas ideias que se destacaram pelo seu saber gnóstico, científico ou filosófico e foram vítimas dos poderes da sua época, o que permite um debate sobre os objetivos da vida, o envelhecimento, o prolongamento da esperança de vida com qualidade e as questões das ciências, tudo isto com uma pitada de especulação em torno do ocultismo e a colocação do Faial no centro de um papel messiânico para a humanidade. A referência a temas gnósticos, maçónicos e filosóficos tem um papel muito importante na obra.
A narrativa opta por ser escorreita sem a perturbação de escritas criativas que estão na moda, contudo autor destaca em itálico numerosas expressões locais e pensamentos que pretende levar à reflexão, postos em confronto, por vezes devem refletir a opinião do autor expressados pelos seus personagens, concorde-se ou não com essas deduções.
Gostei imenso da contextualização da Horta no evoluir da história dos últimos cinco séculos devido ao seu papel como porto que acolhia a navegação mundial que passava no Atlântico Norte e como polo das telecomunicações no final do século XIX até meados do XX, dando oportunidade para numerosas revelações do passado da ilha e da complementaridade com o Pico. Apesar da referência a se estar perante uma obra de ficção, na verdade é possível perceber a influência de certas personalidades da ilha que serviram de fonte às personagens e, inclusive, o quanto do autor (porque o conheço) está na forma de olhar o mundo de hoje e as questões morais e éticas levantadas.
Apesar da grande quantidade de assuntos abordados mais ou menos profundamente, o livro lê-se muito bem e mesmo centrado no Faial tem temática para interessar leitores de qualquer outra região, mas sem dúvida a compreensão da sua riqueza aumenta se o leitor conhecer bem as ilha do Faial e Pico e suas gentes, permitindo assim tirar muito mais gozo da leitura desta obra. Não é essencial ler o romance anterior, mas não só ajuda como é muito interessante esse primeiro volume da saga que poderia dar uma trilogia.
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro
terça-feira, 29 de setembro de 2020
"O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig
sábado, 26 de setembro de 2020
"FANNY OWEN" de Agustina Bessa-Luís
sábado, 19 de setembro de 2020
"CONTOS de Tchékhov" - Volume II - Anton Tchékhov
sábado, 12 de setembro de 2020
"Perry Mason e o caso do Gato Distraído" de Erle Standley Gardner
Depois de uma obra tão densa, seguiu-se um policial de puro entretenimento "Perry Mason e o Caso do Gato Distraído" do escritor norteamericano Erle Standley Gardner de quem lera várias obras na minha adolescência.
Helen recebe um telefonema do tio a solicitar um encontro secreto para trazer consigo o advogado Perry Mason, tio que desaparecera há 10 anos quando ela era adolescente, e será guiada por hóspede de um hotel, logo a seguir é avisada por sua tia que o gato está com convulsões, descobrindo-se no veterinário que fora envenenado. Mesmo assim, Helen encontra-se com o advogado, mas dá-se o assassinato do guia e ela, Mason com a sua secretária veem-se numa noite atribulada, onde Helen e o namorado quase são mortos, ocorrem desvios de testemunhas na competição entre a polícia e o advogado, acabando o caso no tribunal onde a perícia de Mason e o comportamento do gato levará à descoberta por ele da verdade que clara é diferente da teoria das autoridades.
A trama desenrola-se a um ritmo alucinante, num jogo de competição onde o advogado recorre a métodos estrambólicos no limiar da legalidade e por isso muitas cenas estranhas surgem sequencialmente, mas quando tudo parece perdido para Mason, ele consegue ligar todos factos de modo simples e ainda vencer.
A escrita em português é elegante e bem tratada, apesar de ser uma mera trama de entretenimento, suspense e onde várias explicações surgem de forma que nos surpreendem, lê-se bem devido ao ritmo dos eventos e dos métodos pouco ortodoxos do advogado e do seu sentido de humor. Gostei e é de muito fácil leitura.
sábado, 5 de setembro de 2020
"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence
Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.
Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo.
Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
"Crime no Vicariato" de Agatha Christie
Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie, "Crime no Vicariato", a obra onde a autora integrou pela primeira vez a sua personagem de Miss Marple. Um dos romances considerados entre os mais geniais da escritora.
Na aldeia de St. Mary Mead o vigário vai-se se reunir com o coronel Protheroe para uma fiscalização às contas da paróquia depois de uma fiel ter reclamado que dera uma maior nota na coleta que o valor declarado. Toda a gente sabe do encontro e muitos odeiam o militar que persegue caçadores e cidadãos pacatos em nome duma justiça sem tolerância. Antes da hora da reunião o vigário é chamado a casa de uma doente, um falso alarme, no regresso encontra um pintor que fora expulso da mansão de Protheroe e amigo da esposa deste e da filha em delírio por ter encontrado o inspetor assassinado no escritório de vicariato. Entre o sacerdote, a sua esposa e passando até pela família da vítima há muitos suspeitos locais para o crime que a polícia investiga, mas a vizinha da casa ao lado é uma velhota observadora de tudo o que se passa à volta e apesar de um pouco inconveniente é capaz de interpretar o comportamento de todos e, com tal atributo indiscreto, de desvendar quem matou de facto o coronel.
A obra, de escrita escorreita simples, tem como primeiro narrador o vigário que conhece toda aldeia, inclusive os que ali estão de forma um pouco estranha, aos poucos chegam-lhe aos ouvidos todos os mexericos do lugar e, inclusive, os comentários daquela vizinha humilde mas inconveniente e vê a arrogância do polícia. Assim, surpreendidos com a lógica avançada da idosa e o trabalho árduo da autoridade vamos percebendo as muitas hipóteses, exclusões e motivos que até podem ter raízes antigas, até que quando tudo parece esclarecido Miss Marple ainda tem mais uma palavra dar na solução final. Para lazer é um excelente romance no género, onde transpira o ambiente rural inglês e o estilo de vida da comunidade anglicana. Gostei e valeu a pena ler.
terça-feira, 18 de agosto de 2020
"O Herói das mulheres" de Adolfo Bioy Casares
Desde de um túnel curto que une pontos longínquos por onde um estudante se desviou em fuga aos estudos e encontrou o amor que se lhe tornou inacessível; a uma descoberta útil para o aproveitamento da dor física; ao jovem que não segue os conselhos da mãe e sai protegido pela magia; ao homem que foge da mulher obsessiva mas que a encontra no fim da sua fuga; à mulher que viaja em primeira-classe justificando as desvantagens; um intrincado jardim fantástico que embaraça a fuga de um jornalista perseguido politicamente; ao rapto por fantasma que talvez seria um tigre. Tudo isto numa panóplia diversificada e interessante.
Para quem gosta do género é um livro muito bom entre o estilo de Kafka e de Borges, e também excelentemente escrito e narrado.

















