Acabei de ler o livro, em formato de ebook, da reportagem do escritor de ficção, espanhol e ateu, Javier Cercas, da sua viagem, em agosto de 2023, como convidado para a comitiva que acompanhou o Papa Francisco na sua visita à Mongólia, e intitulado de "O Louco de Deus no Fim do Mundo".
A obra contém várias partes, no início expõe a surpresa do convite, feito por Fazzini o editor de uma livraria católica, e a estranheza pela encomenda de um livro escrito por ele sobre a viagem, tendo total liberdade sobre o conteúdo do mesmo. Aceite o convite, Cercas assume o interesse em ter uma audição com Francisco, o que não lhe é garantido, ficou o compromisso de esforços nesse sentido.
Cercas revela a sua educação católica e factos da sua caminhada para o ateísmo, sendo os intervenientes no livro, normalmente informados do seu anticlericalismo, põe em contraste a posição dos Loucos de Deus com a dele, um Louco Sem Deus, mas anseia questionar Francisco sobre a crença da sua mãe na Ressureição da Carne e do reencontro dela com o seu falecido marido.
Na parte seguinte relata os dias em Roma antes da viagem, onde tenta compreender quem é o Jose Mario Bergoglio por detrás do Papa, expõe alguma informação biográfica resultante da sua pesquisa e entrevistas a vários homens fortes da comunicação social e cultura da Santa Sé, que genericamente chama de Soldados de Bergoglio. Aqui inclui o responsável pela Cultura do Vaticano, o poeta português Tolentino Mendonça. Assim, conhecemos a ideia que o escritor vai formando de como é Francisco, as marcas do seu papado, a revolução que faz no coração do Catolicismo e as resistências que o cercam
Depois vem a reportagem dos dias da visita à Mongólia, país onde quase não há católicos. Cercas conta em pormenor a viagem de avião, onde teve uma audiência privada com o Papa que deixa para o final do livro. Descreve o comportamento dos jornalistas presentes e das pessoas da comitiva papal que vai conhecendo. Contacta com vários missionários estabelecidos em Ulan Bator, que descrevem a realidade social e religiosa desta capital e dos Mongóis e reporta os eventos da visita oficial do Papa.
O relato da visita é composto de várias frentes: a dos jornalistas que são mais repórteres políticos com interesse na relação Igreja/China e sem interesse na mensagem religiosa e com ignorância neste domínio. Outra é as entrevistas a missionários vindos de África, América Latina e Europa para um meio tão diferente e a tentativa de perceber estes loucos de Deus no fim do mundo, faz questões difíceis sobre a fé e o seu dia-a-dia. A última é a descrição dos atos oficiais: os encontros políticos, inaugurações e uma missa, onde a sua perspicácia de analista não esconde as tensões, desconfianças e as máscaras entre a religião, a política e a sombra da China.
Por fim o regresso, que contém uma entrevista com o titular do discatério da Doutrina da Fé, ou seja, ao herdeiro da Inquisição e do Santo Ofício no papado de Francisco, outro argentino que até fora alvo da desconfiança do ministério tão mal afamado que agora tutela e a quem Cercas não deixa de fazer questões difíceis e falar sobre o credo e de contrastar este homem com "O grande Inquisidor" de Dostoievski no romance dos Irmãos Karamazov. Já em Barcelona, Cercas vem jantar com a mãe e traz-lhe a resposta que Francisco lhe deu sobre a Ressurreição.
Nunca li nenhum romance de Javier Cercas, mas esta reportagem mostra que é alguém que sabe contar uma história, reportar uma viagem, capaz de entrevistar distinguindo o que são as suas opiniões, crenças e formas de pensar, respeitando as ideias do outro e faz tudo isto com reflexões e análises críticas pessoais sem menorizar tudo o que em contrário lhe é respondido.
A obra tem um epílogo com um acontecimento posterior, a morte da mãe de Cercas, onde uma surpresa veio fechar com chave de ouro o livro deste homem ateu, anticlerical que mostra Jose Maria Bergoglio e o Papa Francisco sem complexos, mas sem qualquer tentativa de o repórter se tornar num apóstolo camuflado para gente sem fé. Vale a pena ler esta obra com muitas ideias para reflexão para crentes ou descrentes. Não é um livro religioso, mas fala de um Francisco verdadeiramente cristão que dirigiu o Vaticano.

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