sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Cadernos do Subterrâneo" de Fiódor Dostoiévski


"Cadernos do Subterrâneo" de Fiódor Dostoiévski é uma ficção e reflexão que antecede imediatamente a fase criativa dos principais romances deste genial escritor russo e onde se apresentam várias das suas ideias de fundo tratadas nas obras seguintes: a liberdade de escolha ou livre arbítrio, a degradação humana e a complexidade das relações sociais.
"Cadernos do Subterrâneo" divide-se em duas partes: a primeira é praticamente uma confidência e reflexão filosófica do protagonista que se apresenta como uma pessoa vítima da sua inteligência, onde esta leva-o a isolar-se no seu "subterrâneo", a analisar as suas reações, impedindo-o de ações intempestivas irrefletidas e a justificar as suas opções, mesmo que lhe sejam prejudiciais e alvo de crítica, para assim garantir a sua liberdade de escolha em detrimento do bom-senso que prevalece nas relações sociais do cidadão mediano, inclusive, concluir do próprio prazer que pode tirar da sua situação dolorosa.
Na segunda parte, o mesmo protagonista relata dois acontecimentos exemplos da sua vida, onde o seu modo de agir o levou à humilhação, à degradação e ao isolamento da sociedade em que se encontra há décadas e a encerrar-se no seu "subterrâneo" cheio de ódio e amargura, mas vingado pela sua liberdade.
Toda a obra é densa, abre pistas para personagens que depois surgem noutros romances maiores de Dostoiévski e explica situações extremas narradas nestas, todavia a humilhação do protagonista confere a este grande conto ou pequeno romance uma dureza enorme, cujos limites roçam a loucura. Convém referir que foi escrito num momento em que a sua primeira mulher se sucumbia progressivamente a uma doença que a levou à morte ainda antes da conclusão destes "cadernos", o que, sem dúvida, também serviu de exorcismo da sua dor pessoal. Um livro que gostei, mas só recomendo a quem este ensaio filosófico existencialista na literatura seja assunto de interesse.

5 comentários:

Pedrita disse...

no brasil está como notas de um subsolo. eu fiquei muito impactada e fascinada. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Eu achava melhor submundo a subterrâneo, mas subsolo dá menos a ideia de uma ostracismo que acontece ao protagonismo.

Belblioteca disse...

Eu amei esse livro. Dostoiévski é muito bom quando trabalha com o psicológico dos desesperados.

belblioteca.blogspot.com

Carlos Faria disse...

Mas é talvez o livro dele com menos esperança e sem regeneração, embora parece que ele pretendia introduzir essa componente mas que lhe foi censurada.

Belblioteca disse...

Talvez seja por isso que, por enquanto, é meu preferido do autor haha