sexta-feira, 25 de março de 2016

"Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins

O romance "Deixem passar o homem invisível" de Rui Cardoso Martins, vencedor do prémio romance/novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2009, decorre durante as operações de salvamento de um cego, o protagonista, e de uma criança, sugados por um esgoto antigo de Lisboa na sequência de uma inundação relâmpago da cidade.
Habitualmente não gosto da escrita de jornalistas que viram a escritores, mas este foi uma exceção, não deixa a sensação de se estar a ler uma reportagem ou um texto demasiado estilizado para disfarçar o tom de redação noticiosa. Gostei da forma como escreve.
Todavia a estória surpreendeu-me, tinha imaginado que esta se desenvolvesse segundo duas linhas possíveis: uma viagem pelo subsolo lisboeta ao estilo de guia subterrâneo de uma Lisboa menos conhecida ou uma narração com a forma diferente de um cego ver o mundo e de este o ver. Afinal no romance existem muitos relatos paralelos da vida das personagens mais importantes da obra, memórias anteriores ao momento em que a ação se desenrola: a operação de busca e resgate. Há dissertações sobre a religião, a vida de santos, os milagres ansiados para a cura da cegueira e até espetáculos de magia e os azares de vida do principal amigo do protagonista, um mágico pouco afortunado. Por vezes salta-se do mundo do ilusionista para o dos milagres, que talvez nem sejam tão distantes assim, mas o certo é que o final da história me surpreendeu e talvez daí resultar uma certa desilusão nas minhas expectativas.
Este é o segundo livro que leio onde a igreja de São Sebastião da Pedreira é o ponto de partida para uma Lisboa subterrânea e onde a ameaça de um terramoto se concretiza sobre a cidade, o outro: "Terramoto" de Vitorio Kali, li-o há mais de 20 anos, fico com alguma suspeita de não ser uma mera coincidência, mas as obras são bem diferentes.
Sobre o romance que agora li, houve passagens de que gostei, outras em que me diverti com a ironia que praticamente é transversal a toda a obra, mas tambén senti aproveitamentos fáceis de abordar crenças religiosas e que se podia ter ido mais além nas vias que esperava encontrar, todavia penso ser uma obra interessante de se ler e cada um depois tirar a sua opinião

5 comentários:

Pedrita disse...

eu gosto de livros de jornalistas. tem formato diferente. mas me agradam. eu amei deus das pequenas coisas. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Pois ainda vou muito no início deste livro de Arundhati.

Pedrita disse...

é muito lindo. falei de livro no meu blog.

nuno martins disse...

Também li este livro e gostei bastante, aliás já o conhecia o autor porque li também o seu primeiro livro "E Se Eu Gostasse Muito de Morrer", que me foi recomendado por um antigo professor de Português que tive que conhecia o Rui Cardoso Martins, fiquei logo a gostar da sua escrita, portanto quando saiu o "Deixem passar o Homem Invisível" naturalmente que tive de o ler...
Outra curiosidade em relação a este autor e à sua obra, é que esse seu primeiro livro, "E Se Eu Gostasse Muito de Morrer", foi o primeiro livro ao qual eu fiz uma "review" e que postei num blog pessoal que mantive durante uns tempos.
Deixo aqui a título de curiosidade os links das minhas opiniões sobre esses livros

Abraço

http://oqueeuleio.blogspot.pt/2009/09/deixem-passar-o-homem-invisivel-rui.html

http://pipasblog.blogspot.pt/2007/06/e-se-eu-gostasse-muito-de-morrer.html

Carlos Faria disse...

Gostei mais da escrita do que da forma como ele concluiu a obra.